Registro: 2011.0000219506 ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº 0000929-10.2005.8.26.0244, da Comarca de Iguape, em que é apelante MARILIS ANDRADE DIAS sendo apelado MIGUEL RAMOS CASTRO.
ACORDAM, em 13ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "Deram provimento em parte ao recurso. V. U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.
O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores CAUDURO PADIN (Presidente), ANA DE LOURDES COUTINHO SILVA E HERALDO DE OLIVEIRA.
São Paulo, 5 de outubro de 2011. Cauduro Padin
RELATOR Assinatura Eletrônica
V O TO Nº : 1 8 . 1 4 6
A P E L . Nº: 0 0 0 0 9 2 9 - 1 0 . 2 0 0 5 . 8 . 2 6 . 0 2 4 4 CO MA R CA : IG U A P E
A P TE . : MA R IL I S A NDR A DE DI A S A P DO. : MIG U E L RA MOS CA S TR O
Manutenção de posse. Construção de muro sobre área em que há posse do vizinho. Alegação de turbação. Procedência. Uso antigo. Posses consolidadas. Perícia. Recurso de apelação parcialmente provido.
Vistos.
Trata-se de apelação contra a sentença de fls. 404/407, que julgou procedente ação de manutenção de posse, condenando a parte vencida nas custas e despesas processuais, corrigidas desde a data do desembolso, além de honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor da causa atualizado.
A liminar de fls. 101 garantiu a situação fática e paralisação das obras.
Recorre a ré (fls.409/419).
Sustenta, que houve manutenção da posse do autor em área que difere da que consta em documentos; que a sentença
baseou-se em testemunha que foi ouvida irregularmente; que o muro foi construído com base em planta do loteamento, que é regular; que o autor não comprovou que o muro construído pela ré invadiu o lote 25; que o autor não comprovou o exercício de sua posse na projeção da testada de seu chalé sobre o lote 26; que os lotes devem estar corretos conforme planta do loteamento; que a ré provou por testemunhas que exercitava posse sobre o lote 26, em sua totalidade na frente de seu chalé (fls. 390); que não houve invasão, portanto, está descaracterizado o esbulho ou turbação.
Tempestivo, o recurso foi regularmente processado, com resposta às fls. 423/427.
É o relatório.
A ação visa manutenção de posse e reconhecimento de turbação por construção irregular de muro em faixa, cuja posse anterior o apelado busca a manutenção.
O autor adquiriu imóvel localizado no Jardim Tropical, no município de Iguape-SP, há mais de 03 (três) anos, através de Instrumento Particular de Compromisso de Compra e Venda (fls. 08/09, 20).
A questão envolve os lotes 25 (pertencente ao autor) e o lote 26 (pertencente à ré).
ré construiu um muro separando os lotes 25 e 26. Segundo laudo de agrimensor que constatou (fls.62):
“Com o falecimento de João Gilberto Dias, sua única herdeira e inventariante, Marilis Andrade Dias, (doc. 5), com a finalidade de edificar muro nas divisas do lote em tela, solicitou fosse o mesmo demarcado, o foi realizado pelo engenheiro agrimensor, Maurício Sérgio de Souza, (doc. 6).
Observa-se que, quando da demarcação do lote 26, constatou que, parte do referido lote está invadida pela construção do muro de divisa com o lote 25. Tendo assim, Marilis optado em edificar o muro dentro dos limites de seu lote, deixando, além da parte já demarcada no laudo, mais uma faixa de terreno para uso do proprietário do lote 25. Portanto, quem invadiu o lote 25 foi o proprietário do lote 24, Charles Lolli, o muro construído pela requerida está dentro dos limites do lote 26, como demonstra a planta (doc.7).”
Aduz o autor que o muro estava sobre a área em que exerce posse, enquanto alega a ré que o muro foi construído obedecendo os limites expostos nos documentos, bem como, a planta de fls. 85.
Nota-se pela análise das plantas de fls. 85 e 350, que os lotes, desde o nº 24, não condizem com a realidade documental. A posse exercida pelos possuidores dos lotes 24, 25, 26 não reflete as demarcações dos lotes expostas documentalmente.
Verifica-se que a apelante construiu o muro com base na planta do loteamento, no entanto, há posse do apelado comprovada há mais de dez anos, sobre área, que, na realidade, pela documentação, pertence ao lote 26.
Observa-se que, a construção edificada sobre o lote 24, sobrepõe parte do lote 25; parte do lote 25 sobrepõe o 26, que sobrepõe o 27, pela planta.
No entanto, esta situação perdura já há mais de dez anos, como afirmam as testemunhas; e assim, consolidou-se.
“Trabalhei na construção dos chalés pertencentes às partes. Os chalés foram construídos nos anos de 1984 e 1985. Os mesmos chalés que construí são os mesmos que estão lá, até hoje. Sei que o acesso ao imóvel do autor é feito pela frente, ou seja, de frente para o mar e o da ré é feito pela rua perpendicular ao mar. Conheci os moradores anteriores às partes. Em relação ao mar, os chalés estão inclinados. (...) O chalé de Charles (24) e o respectivo muro estão inclinados em relação ao mar (...) O muro da casa de Charles é paralelo ao muro da construção (fls. 387).
“Sei que o lote de Miguel dá frente para a Avenida Beira Mar (fls. 388).”
“(...) O lote de Miguel dá de frente para o mar, o de Marilis também. Os chalés estão construídos paralelamente a linha do mar. Não conheço a divisão exata dos terrenos. Existia um muro dividindo as casas. Hoje não existe nada dividindo. O acesso para o terreno de Marilis se dá pela rua lateral da praia. O de Miguel é de frente para a praia. (...) Sei que após a construção do muro, o terreno de Miguel só ficou acessível a pé, pois não passava carro” (fls. 389).
“(...) Segundo tomei conhecimento, os lotes seriam inclinados e as construções estão retas. Acredito que Miguel acesse seu terreno pela Rua do Trigo. Sei que Marilis construiu um muro. Depois da construção do muro, Miguel só conseguia acessar o seu terreno a pé. Existe um outro muro construído no local, pertencente a Charles Loli. O muro construído por Charles acompanha a construção dos chalés. O muro de Marilis não apresenta mesmo rumo (fls. 390).”
pela apelante, o lote de Miguel não teria frente para a Avenida Beira Mar (fls. 350). Isso demonstra a posse anterior exercida pelo autor sobre os limites do lote da apelante que, até a época dos fatos, não havia se insurgido, consolidando as posses respectivas.
Comprovada, assim, a posse do autor na projeção de testada de seu chalé sobre o lote 26, bem como do lote 26 sobre o 25, ou seja, exerciam posse comum.
Imprescindível a prova pericial produzida nos autos. Há que se observar que o perito judicial procedeu à vistoria no local dos fatos.
As alegações e documentos, assim como, o laudo pericial e laudo do assistente técnico trouxeram subsídios suficientes para a caracterização da alegada turbação, pois construiu a apelante sobre área de posse anterior do apelado.
Vejamos:
“Assim, de acordo com as informações coletadas “in loco” por meio de levantamento topográfico, pode-se constatar a
irregularidade na implantação do loteamento, visto que ao ser
efetuada a sobreposição do retro mencionado levantamento planimétrico com o arquivo digital da Planta do Loteamento do Jardim Tropical, o qual fora obtido junto ao Assistente Técnico do autor, os lotes encontram-se deslocados.
Analisando ainda o laudo pericial, conforme descrito no item “IV.3 Análise e Ocupação dos Lotes”, este signatário observou ainda que, ao projetarmos a delimitação da construção do imóvel do autor até sua testada, onde seguirá paralelo ao muro do lote identificado como nº
24, teremos que o lote de nº 25 da Quadra E invadirá o lote nº 26 da Quadra E, pertencente à requerida.
Por outro lado, se levássemos em consideração a implantação correta do referido loteamento, teríamos que projetar o muro que faz confrontação com a Rua do Trigo, onde teríamos que o lote nº 26 da quadra E, de propriedade da requerida, invadiria o imóvel do autor” (fls. 368/370)
A turbação restou caracterizada em decorrência da construção do muro divisório sobre área na qual não exercia atos possessórios exclusivos, no entanto, a posse, também, pertence ao autor. É comum.
Este já foi o fundamento da liminar e da sentença:
“(...) concedo para reintegrar o autor na posse da faixa equivalente a projeção da faixada de seu chalé, para que dela desfrute ainda de modo não exclusivo até a solução do litígio (fls.101)”.
Então a sentença merece correção para que, segundo croqui de fls. 350, se garante posse comum nas áreas sobrepostas com o mesmo uso antigo.
Sem muro divisório “ao meio”, permitido o estacionamento para cada qual na projeção de suas testadas. E assim permanecerá até ulterior solução.
Veja a doutrina sobre implantação incorreta de loteamento, áreas sobrepostas, e a impropriedade de demarcatória como solução.
“Em áreas grandes subdivididas ou desmembradas em lotes ou glebas menores pode ocorrer que, a partir da má localização de um
dos terrenos, grande número de outros fique prejudicado em suas divisas originárias. Pelo erro do primeiro, cada um dos diversos proprietários vizinhos (mesmo não contíguos com o primitivo ocupante) foi medindo e ocupando área que invade a propriedade seguinte.
Há quem entenda que, em tal situação, o dono do último lote ocupado poderia requerer a demarcação de todo o loteamento, isto é, mesmo dos lotes que não confrontam com o seu, para assim restabelecer a posição verdadeira das linhas divisórias de seu terreno.
A meu sentir, o que pode o autor da demarcatória
pretender é apenas o levantamento ou medição de toda a área confusa, mas apenas como meio de prova e instrumento processual destinado a assinalar a linha de demarcação entre seu terreno e o do confinante. E isto, ainda, no pressuposto de que não tenham os dois
assinalado, anteriormente, a mencionada divisa no solo.
Não pode pretender que sejam demarcados e assinalados os limites de todos os lotes, sem o requisito da contigüidade com o seu.
Nem tampouco pode buscar, através da demarcatória, recuperar áreas remotas que, atualmente, se encontrem não na posse do confrontante, mas de vizinhos distantes (não contíguos).
O meio de recuperar terrenos invadidos, com propriedade, nunca foi a demarcatória, mas sim a reivindicatória, mormente se a invasão for de proprietários de outros lotes que não o do confinante.
Observa, com acerto, Affonso Fraga que, nos termos claros do art. 569 do Código Civil, a demarcatória compete para discriminação ou separação de prédio confinantes ou contíguos, e nenhuma contigüidade existe entre um proprietário e seu arrière voisin.
No direito pátrio, portanto, “a ação de demarcação não colima a determinação de continência geodésica do prédio de cada um dos
confinantes, condição necessária para 'A' (o dono) poder buscar em casa do 'arriére voisin' a área que lhe falta, mas restringe-se ordinariamente a separar as propriedades por meio de limites e só é excepcionalmente a operar a restituição de terrenos indevidamente ocupados pelo vizinho confinante”.
É de lembrar-se que, mesmo não sendo a ação demarcatória proposta contra vizinhos remotos, não poderão estes se opor ao levantamento geral indispensável à solução do litígio, porque a todos impõe a lei o dever de colaborar com a Justiça na busca da verdade, para solução das lides (CPC, art. 339)” ( THEODORO JÙNIOR, Humberto. Terras Particulares: Demarcação, Divisão, Tapumes; Ed. Saraiva, p. 193/195).
Ademais, alega a apelante que a testemunha de fls. 387 foi ouvida de forma irregular, devendo ser desconsiderado tal testemunho. Incabível tal alegação, pois ausente recurso próprio, preclusa a matéria.
Com isto, o meu voto, dá parcial provimento ao recurso para manter em parte a sentença e a manutenção na posse, mas como posse comum nas áreas sobrepostas, sem divisão ao meio entre os dois lotes, divididas as custas e honorários.
CAUDURO PADIN Relator