Universidade do Minho
Escola de Psicologia
Miguel de Assis Saraiva Caldeira de Matos
Efeito de Correr Lado a Lado no Padrão
Biomecânico de Corrida e Performance
Atlética
Junho de 2019 M igu el de A ss is Sa ra iva C al de ira d e M at os: E fe ito d e Co rre r L ad o a La do n o Pa drã o Bi om ec ân ico d e Co rri da e Pe rfo rm an ce A tlé tic a UM inh o| 20 19Miguel de Assis Saraiva Caldeira de Matos
Efeito de Correr Lado a Lado no Padrão
Biomecânico de Corrida e Performance
Atlética
Dissertação de Mestrado
Mestrado Integrado em Psicologia
Trabalho efetuado sob a orientação do
Professor Alfredo Pereira
ii
DIREITOS DE AUTOR E CONDIÇÕES DE UTILIZAÇÃO DO TRABALHO POR TERCEIROS Este é um trabalho académico que pode ser utilizado por terceiros desde que respeitadas as regras e boas práticas internacionalmente aceites, no que concerne aos direitos de autor e direitos conexos.
Assim, o presente trabalho pode ser utilizado nos termos previstos na licença abaixo indicada. Caso o utilizador necessite de permissão para poder fazer um uso do trabalho em condições não previstas no licenciamento indicado, deverá contactar o autor, através do RepositóriUM da Universidade do Minho.
Atribuição CC BY
iii Agradecimentos
Esta investigação não seria possível sem a disponibilidade e ajuda de algumas pessoas. Deixo aqui o meu agradecimento,
A todos os que participaram nesta investigação.
Aos órgãos de gestão das instalações utilizadas para esta investigação.
A todos os que me ajudaram nos recursos humanos subjacentes à realização desta investigação. A todos aqueles que deram feedback positivo relativo à realização desta investigação.
iv
DECLARAÇÃO DE INTEGRIDADE
Declaro ter atuado com integridade na elaboração do presente trabalho académico e confirmo que não recorri à prática de plágio nem a qualquer forma de utilização indevida ou falsificação de informações ou resultados em nenhuma das etapas conducente à sua elaboração.
Efeito de Correr Lado a Lado no Padrão Biomecânico de Corrida e na Performance Atlética
v Resumo
O fenómeno de correr lado a lado em par ou em grupo pode ser observado no decurso das provas de atletismo de corrida de longa distância.
Esta investigação têm como objetivo primordial compreender a influência que a ação de correr lado a lado possui no padrão biomecânico de corrida individual, frequência cardíaca e performance atlética no decurso de uma corrida de 3000 m.
Participaram nesta investigação atletas de níveis heterogéneos (N = 18), o design experimental foi composto por 2 condições experimentais intra-sujeitos. Na primeira condição, os participantes correram a distância predefinida individualmente, esta condição serviu como baseline no que concerne às variáveis em análise. Na segunda condição, o indivíduo foi emparelhado com outro participante, tendo em consideração os dados biométricos e o nível de performance atlética de ambos, deste modo, os dois participantes realizaram a mesma prova, nas mesmas condições, mas desta vez lado a lado.
Os resultados mostram que correr lado a lado é biomecanicamente diferente do que correr individualmente. Correr lado a lado poder ter um efeito psicofisiológico positivo que se traduza numa melhor performance atlética obtida na corrida.
Effects of Running Side By Side on Individual Gait Cycle and Athletic Performance in a 3 Km Run
vi Abstract
The action of running side by side can be observed throughout long distance running events. This research aims to understand the influence that running side by side has on individual gait cycle, heart rate and overall athletic performance in a 3000 m run. In a within-subjects experimental design, runners with different athletic capacities (n= 18) completed two 3000 m runs. For the baseline condition, the subjects had to run 3000 m individually. In the second condition to complete the 3000 m, every subject was paired with another subject with a similar height and athletic running capacity. The results show that running side by side has an effect on individual gait cycles. Running side by side can have a positive psychophysiological effect on overall running performance.
Índice Introdução ... 8 A Gait Cycle ... 8 A Frequência Cardíaca... 10 Método ... 11 Amostra ... 11 Instrumentos ... 11
Desenho e Procedimento Experimental ... 12
Resultados... 13
Discussão ... 16
Referências Bibliográficas ... 20
Índice de Figuras Figura 1. Diferenças Entre Condições (%).. ... 16
Índice de Tabelas Tabela 1.Valores Médios Condição Baseline (1).. ... 14
Tabela 2.Valores Médios Condição Lado a Lado (2) ... 14
Tabela 3. Diferenças Médias Entre Condições(%) ... 14
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
8 Introdução
As corridas de longa-distância cresceram substancialmente de popularidade desde a última década. De acordo com a Running USA, desde o ano 2000 até 2014, o número de atletas que finalizaram uma meia-maratona (21097.5m) aumentou de 482,000 para 2,046,600 (Gómez-Molina et al., 2017). Isto levou a um aumento do interesse da comunidade científica em investigar os fatores que influenciam a performance atlética nas corridas de longa distância (Dellagrana et al., 2015). Fatores fisiológicos (e.g. Vo2max, frequência cardíaca, limiar anaeróbio, etc.) e biomecânicos (e.g. rigidez dos membros inferiores, apoio do calcanhar no solo, comprimento e frequência de stride, etc.) são considerados como determinantes na influência que possuem na performance obtida (Anderson, 1996).
Nas provas de corrida de resistência de circuito fechado (distância predefinida) os atletas ajustam/controlam a sua velocidade com o objetivo principal de terminar a prova no menor tempo possível. A utilização de uma estratégia de corrida, tendo em consideração os fatores energéticos/fisiológicos disponíveis por cada atleta, têm sido apontados como um fator determinante no sucesso do atleta na prova (Abbiss & Laursen, 2008).
O fenómeno de correr lado-a-lado em par ou em grupo é observável no decurso de várias provas de atletismo de longa distância. Este acontecimento é transversal aos mais diversos níveis de performance dos atletas, desde o amadorismo até à elite.
As principais razões para este comportamento de correr lado a lado se manifestar são estratégicas, uma vez que esta ação pode influenciar positivamente a performance final obtida na prova (Carmo, Barreti, Ugrinowitsch, & Tricoli, 2017).
Dada a transversalidade desta ação e ao facto deste comportamento de correr lado ser observável e adotado por grande parte dos atletas em vários momentos da competição, surge a hipótese experimental que correr lado a lado pode ter uma influência psicofisiológica positiva no rendimento obtido que se traduza num tempo final obtido na prova menor (comparativamente à condição individual de correr sozinho).
Definição de Ciclo da Marcha
A gait cycle, ou ciclo da marcha em Português, pode ser definida como a sequência de eventos durante a locomoção. É útil compreender a diferença entre step e stride. O step (passo) corresponde ao momento do contacto inicial de um pé com o solo e termina com o contacto inicial
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
9
do pé oposto. Uma stride (2 passos) começa com o contacto inicial de um pé e termina com o próximo contacto inicial desse mesmo pé com o solo. A gait cycle é composta por 2 grandes fases, a fase de stance e a fase de swing. A fase de stance indica que o pé está em contacto com o chão, a fase de swing corresponde ao momento em que o pé não está em contacto com o solo (Dugan, Krishna & Bhat, 2005).
Segundo Ounpu (1994), a gait cycle na atividade física de correr (running gait cycle) distingue-se da gait cycle durante o caminhar devido ao incremento da velocidade e consequentemente ao aumento da distância percorrida por unidade de tempo. Existe a presença de uma fase denominada de float ou airborne, caracterizada pelo momento em que nenhum dos pés está em contacto o solo. Esta fase é uma característica exclusiva da running gait cycle. Durante a running gait cycle existem 2 períodos de float em que nenhum dos pés está em contacto com o solo. Isto resulta num decréscimo na fase de stance e num aumento da fase de swing. Existem diferenças substanciais entre a duração da fase de stance e swing entre a walking gait cycle e a running gait cycle . O rácio percentual no que respeita à duração da fase de stance em comparação com a fase de swing na walking gait cycle é de 60%-40%, respetivamente. Na running gait cycle, observa-se o contrário, a duração fase de stance corresponde a 40% e a fase de swing os restantes 60% (Dugan, Krishna & Bhat, 2005). De acordo com Ounpuu (1994), com o aumento da velocidade a duração total da gait cycle, tal como a fase de stance em relação à fase de swing, diminui.
De acordo com Williams (1985), amplitude e comprimento da stride está diretamente relacionada com fatores como altura, comprimento dos membros inferiores, força muscular excêntrica e flexibilidade dos membros inferiores do indivíduo. Cadência é outra variável presente. Cadência corresponde ao número de passos por unidade de tempo (Ounpuu, 1994). A velocidade aumenta primeiramente devido ao aumento do comprimento da passada seguindo-se o aumento da cadência (Nummela, Keränen & Mikkelsson, 2007).
Para Saunders et al. (2004), o treino permite ao organismo desenvolver, com o tempo, adaptações biomecânicas e fisiológicas em ordem a alcançar um padrão de corrida que exige um menor dispêndio energético/metabólico do que aquele que era exigido anteriormente, isto pode ser definido como uma melhoria na economia de corrida.
Por outro lado, é importante referir que o custo energético da corrida não está exclusivamente subjacente à velocidade/intensidade da mesma, tanto a biomecânica individual
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
10
do atleta como o conjunto de adaptações no organismo induzidas pelo treino são fatores preponderantes para predizer o custo energético de uma corrida (Nummela, Keränen & Mikkelsson, 2007).
Tendo em consideração a individualidade subjacente ao padrão biomecânico de corrida de cada atleta para correr numa determinada velocidade, surge a hipótese que correr lado a lado possa ser diferente do que correr individualmente ao nível biomecânico. Uma das principais questões desta investigação é comparar as variações em ambas as condições experimentais no padrão de corrida individual composto pelas variáveis comprimento de stride e frequência de stride/cadência.
A Frequência Cardíaca
A frequência cardíaca (FC) é o número de batimentos do coração por minuto (bpm) e representa a velocidade do ciclo cardíaco. A FC pode variar de acordo com a necessidade fisiológica de absorção de oxigénio e excreção de dióxido de carbono implícita na homeostase do organismo. Existe uma relação diretamente proporcional entre a intensidade do exercício físico e a FC registada (Almeida, 2003).
A FC é mediada, em grande parte, através do sistema nervoso autónomo, modulada por uma ação conjunta, mas antagonista, dos nervos que controlam a atividade simpática ou parassimpática do organismo (Almeida & Araújo, 2003).
De acordo com Boulay et al. (2007), em repouso, existe uma predominância da atividade vagal (parassimpática) na mediação da frequência cardíaca que é progressivamente inibida pela atividade do sistema nervoso simpático com o início e o decurso do exercício físico. Até 100 batimentos por minuto uma porção significativa responsável pelo aumento da FC deve-se à inibição/retirada do controlo parassimpático, no entanto, quando a FC ultrapassa este determinado valor de 100 batimentos por minuto o aumento deve-se a um reforço do sistema nervoso simpático através da ativação dos recetores β-adrenérgicos (recetor acoplado à proteína G) agonistas à resposta simpática por ação da catecolamina designada de noradrenalina/norepinefrina.
Como já foi referido anteriormente, a FC varia de acordo com a intensidade do exercício físico. No entanto, quando a intensidade do exercício físico é constante, como o são vários momentos de corrida durante um prova de longa distância, os recursos energéticos disponibilizados também tenderão a ser constantes, deste modo, o oxigénio disponibilizado aos
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
11
músculos ativos será similar no decurso de um exercício aeróbio prolongado. Esta tipologia de exercício designada de steady state cardio é caracterizada por uma manutenção do equilíbrio energético através da conservação das condições metabólicas que por seguimento irão manter a FC constante. Como já vimos anteriormente, quando a natureza do exercício é intermitente a FC varia de acordo com a intensidade do mesmo (Yamamoto, Miyachi, Saitoh, Yoshioka, & Onodera, 2001).
Dada a relação direta e proporcional entre a FC e a intensidade da atividade física, um dos objetivos da presente investigação é analisar o comportamento/variação da FC entre as condições experimentais.
Método Amostra
A amostra foi composta por 18 participantes (n = 18) exclusivamente do sexo masculino entre os 21 e os 48 anos de idade com uma média de 31,4 anos. Existiu uma heterogeneidade entre os participantes no que concerne ao nível de competitivo ao qual pertenciam. Dos 18 participantes, 5 (28%) são atletas de competição, 7 (39%) são atletas que participam em competições de corrida esporadicamente e os restantes 6 (33%) são atletas que correm por recreação. Todos os participantes praticavam corrida de forma regular.
Os participantes foram recrutados através de um convite para a participação na experiência. Nesse convite era transmitido a natureza e intensidade da atividade física implícita às testagens ,local da prova e âmbito da investigação. Os objetivos da experiência e questões adjacentes eram apenas transmitidos aos participantes no final da última testagem com o intuito de não precondicionar o comportamento dos participantes nos momentos experimentais anteriores à mesma.
Instrumentos
Para a monitorização da frequência cardíaca recorremos ao uso de uma banda/fita cardíaca. A fita é composta por elétrodos e um sensor que conecta e envia a informação recolhida do comportamento da FC para um dispositivo móvel. De forma geral, este tipo de instrumento não-invasivo têm sido extensivamente validado nas várias dimensões que envolvem a realização e prescrição do exercício físico, mostrando uma correlação alta entre os resultados obtidos por este método e o eletrocardiograma (Leger & Thivierge, 1988).
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
12
Para a medição do comprimento da stride e cadência utilizamos um dipositivo acelerómetro denominado de stride sensor, concebido com o propósito de tornar mensurável estas duas variáveis no momento de corrida (Hausswirth, Le Meur, Couturier, Bernard, & Brisswalter, 2009). Os sensores utilizados foram o Polar H10 para a banda/fita cardiáca e o Polar Stride Sensor Bluetooh Smart para o stride sensor. No output do stride sensor utilizado, cadência corresponde a metate do número de passos por minuto.
Para a cronometragem das testagens foi utilizado um telemóvel com cronómetro. Desenho e Procedimento Experimental
O desenho experimental era composto de um grupo experimental e 2 condições experimentais intra-sujeito. Todas as condições foram realizadas numa pista de atletismo olímpica com o comprimento de 400 metros. Em ambas as condições a distância das provas foi de 3000 metros.
A primeira condição, denominada de “baseline” (condição 1), tinha um carácter individualizado e servia o propósito de registar os valores médios de cada participante nas variáveis dependentes: frequência cardíaca (batimentos por minuto), cadência (passos por minuto), comprimento da stride (cm), velocidade média (km/h) e duração (segundos). Todos os participantes realizaram a condição baseline primeiro.
Na segunda condição, denominada de “lado a lado” (condição 2), cada participante era emparelhado com outro participante, os mesmos teriam de correr a mesma distância predefinida, mas desta vez lado a lado. Um total de 9 díades, o que corresponde ao emparelhamento dos 18 participantes. A segunda condição, lado a lado, servia o propósito de registar os valores médios de cada participante nas variáveis dependentes: frequência cardíaca (batimentos por minuto), cadência (passos por minuto), comprimento da stride (cm), velocidade média (km/h) e duração (segundos).
O emparelhamento dos participantes na condição 2 não foi aleatório. Em ordem a evitar discrepâncias de altura e performance atlética na condição cada lado a lado, o emparelhamento dos participantes teve em consideração estes dois fatores em simultâneo.
Como já foi mencionado anteriormente, o comprimento da stride está diretamente correlacionado com o comprimento de perna e altura total do indivíduo, deste modo, a altura de cada individuo foi previamente registada. A performance atlética obtida por cada
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
13
participante na condição baseline serviu como barómetro na integração do mesmo num dos 5 grupos de prestação atlética: péssimo, mau, regular, bom, ótimo. Os grupos anteriormente referidos correspondem a uma adaptação do clássico teste de Cooper, adaptação realizada com recurso a uma razão matemática.
Para compor a condição lado a lado, o emparelhamento de acordo com a altura foi realizado com uma diferença entre os participantes nunca superior a 2cm e a performance na baseline foi emparelhada com uma diferença nunca superior a um grupo de prestação atlética. Todos os participantes foram obrigados a realizar um aquecimento antes das 2 condições, o mesmo era composto por uma corrida ligeira com duração nunca inferior a 5 minutos e 7 exercícios de alongamento e mobilização articular.
Todos os participantes realizaram a condição lado a lado após a condição baseline com um intervalo temporal entre ambas nunca inferior a 24 horas.
A instrução de correr a distância da prova num ritmo constante no mínimo tempo possível foi transversal a todos os participantes em ambas as condições. A instrução que poderiam desistir da prova a qualquer momento foi transmitido a todos os participantes em ambas as condições. A instrução de que a prova tinha uma distância de 3000 metros o que corresponde a 7 voltas e 1/2 à pista de atletismo foi dada a todos os participantes em ambas as condições.
Os procedimentos de limpeza e higiene dos instrumento de medição da frequência cardíaca foram efetuados sempre antes e após a utilização dos mesmos.
Resultados
Começamos com os valores registados na condição baseline (ver tabela 1). Tabela 1. Valores Médios Condição Baseline (1)
FC (bpm) Velocidade Média (km/h) Média Cadência (ppm) Comprimento Stride (cm) Duração (s) Média 169,79 14,34 173,64 134,66 759,11 N 18 18 18 18 18 Desvio Padrão 11,02 1,47 12,28 13,144 86,13
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
14
Apresentamos os valores registados na condição lado a lado (ver tabela 2).
De seguida, calculámos as diferenças nas médias de cada sujeito, i.e. calculámos (condição lado a lado - condição baseline) de todas as variáveis e convertemos esses valores para percentagens (%) em que o denominador da proporção era o valor do sujeito na sua condição baseline. Desta forma as diferenças nas unidades de medidas subjacentes às variáveis em análise possam ser interpretadas numa escala uniformizada comum (ver tabela 3).
Tabela 3. Diferenças (%) Valores Médios Entre Condições
N Média Desvio Padrão Erro Padrão da Média
Diferença FC (%) 18 2,69% 4,96% 1,17%
Diferença Velocidade Média
(%) 18 2,51% 4,41% 1,04%
Diferença Cadência (%) 18 3,44% 4,83% 1,14%
Diferença Stride (%) 18 0,61% 2,57% 0,61%
Diferença Duração (%) 18 -2,18% 3,73% 0,88%
Em ordem a perceber se as diferenças nos valores médios da condição baseline para a condição lado a lado são estatisticamente significativas, executamos um teste t de uma amostra (ver tabela 4).
Tabela 2. Valores Médios Condição Lado a Lado (2) FC (bpm) Velocidade Média (km/h) Média Cadência (ppm) Comprimento Stride (cm) Duração (s) Média 173,99 14,66 179,28 135,43 741,00 N 18 18 18 18 18 Desvio Padrão 7,87 1,36 10,16 13,33 72,92
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
15 Nota: *p ≤ .05; ** p ≤ .01
O valor médio da Frequência Cardíaca registou um aumento da condição baseline (M = 169,79; DP = 11,02) para a condição lado a lado (M = 173,99; DP = 7,87) o que corresponde a uma diferença média de 2,69% e um valor p = 0,034.
O valor médio da Velocidade Média registou um aumento da condição baseline (M = 14,34; DP = 1,47) para a condição lado a lado (M = 14,66; DP = 1,36) o que corresponde a uma diferença média de 2,51% e um valor p = 0,027.
O valor médio da Cadência registou um aumento da condição baseline (M = 86,82; DP = 6,14) para a condição lado a lado (M = 89,64; DP = 5,08) o que corresponde a uma diferença média de 3,44% e um valor p= 0,008.
O valor médio da Stride registou um aumento da condição baseline (M = 134,66; DP = 13,14) para a condição lado a lado (M=135,43; DP=13,33) o que corresponde a uma diferença média de 0,61% e um valor p= 0,335.
O valor médio da Duração registou uma diminuição da condição baseline (M =759,11; DP = 86,13) para a condição lado a lado (M= 741,00; DP= 72,92) o que corresponde a uma diferença média de – 2,18% e um valor p= 0,024.
A figura1 representa os valores das diferenças dos valores médios uniformizados numa escala comum em percentagem (%).
Tabela 4. Teste de T: Diferenças Entre 2 Condições Experimentais
Valor de Teste = 0
t gl p Diferença média
95% Intervalo de Confiança da Diferença Inferior Superior Diferença FC (%) 2,302 17 ,034* 2,69% 0,23% 5,16% Diferença Velocidade Média (%) 2,421 17 ,027* 2,51% 0,32% 4,71% Diferença Cadência (%) 3,015 17 ,008** 3,44% 1,03% 5,84% Diferença Stride (%) ,993 17 ,335 0,61% -0,68% 1,88% Diferença Duração (%) -2,482 17 ,024* -2,18% -4,04% -0,33%
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
16
Figura 1: Valor médio e intervalo de confiança a 95% para a diferença entre condição lado a lado e condição baseline expressa em termos de proporção do valor de baseline.
Discussão
O sucesso na performance aeróbia numa corrida de longa distância é dependente da capacidade do atleta cobrir a distância predefinida da prova no menor tempo possível (Semin et al., 2008). Nesta linha, a atribuição do título de vencedor numa competição clássica de corrida de longa distância é algo puramente objetivo, o atleta que realizar a prova na menor duração é o vencedor da mesma. Na condição 2 (lado a lado) o valor médio da duração(s) mostra um decréscimo de 2,18% (18,11s) comparativamente à condição 1 (baseline). Deste modo, podemos concluir que existiu uma melhoria na performance na condição lado a lado, o que valida a hipótese experimental que correr lado a lado poder ter um efeito positivo na performance obtida na prova. Os resultados da investigação de Crews (1992), mostraram que o estado psicológico têm influência na performance de uma corrida de longa distância, advoga o uso de uma abordagem multidisciplinar na análise da interação entre a fisiologia, biomecânica, neurofisiologia e psicologia para determinar os fatores subjacentes às variações na performance da corrida. Dado o facto do fenómeno de correr lado a lado ser algo que acontece nas competições de longa-distância, há a possibilidade que exista algum “transfer” das características psicológicas inerentes à competição
Diferença Duração Diferença Stride Diferença Cadência Differença Velocidade Média Diferença FC (v a lo r m é d io s u je it o c o n d iç ã o l a d o a l a d o v a lo r m é d io s u je it o c o n d iç ã o b a s e li n e )/ (v a lo r m é d io s u je it o c o n d iç ã o b a s e li n e ) [% ] 5. 0 2. 5 0. 0 - 2 . 5 - 5 . 0
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
17
ou trabalho de equipa que possam traduzir esta melhoria na performance obtida na condição lado a lado na presente investigação.
A regulação da intensidade do exercício físico é crucial no sucesso de um determinado programa de treino. Uma intensidade baixa não é capaz de induzir as adaptações fisiológicas desejadas (Potteiger & Weber, 1994). A FC é comummente utilizada como mediadora da intensidade do exercício físico dada a sua relação linear entre a FC e o consumo de oxigénio (Vo2) (Boulay, Simoneau, Lortie, & Bouchard, 1997) Os resultados dos valores médios relativos à FC mostram que existiu um aumento de 2,69% (4,2 bpm) da condição baseline para a condição lado a lado. Embora esta variável tenha apresentado um valor estaticamente significativo é necessário refletir previamente antes interpretar este valor. Sabemos que o aumento da velocidade média de corrida do atleta leva por consequência ao aumento da sua FC (Semin et al., 2008). De acordo com os resultados, o valor do aumento da FC (M = 2,69%; DP = 4,96%) entre as condições experimentais está próximo do valor médio do aumento da variável velocidade média (M = 2,51%; DP = 4,41%). Podemos concluir que este aumento, do valor médio da FC na condição 2, possa estar relacionado com o aumento do valor da velocidade média. Deste modo, a intensidade da atividade física na condição lado a lado foi em média superior à intensidade registada na condição baseline. O progresso na economia da corrida é o resultado das adaptações fisiológicas que permitem ao organismo despender menos recursos energéticos para determinada atividade física do que anteriormente, a intensidade da atividade física é um dos elementos que entra na equação para determinar o nível de progresso nas adaptações que o exercício possa induzir no organismo (Barnes & Kilding, 2014). Deste modo, podemos sugerir, dada a intensidade física superior inerente à condição, que correr lado a lado possa ter um efeito fisiológico positivo superior no desenvolvimento destas adaptações provocadas pela intensidade de uma atividade física submáxima comparativamente à condição baseline.
No que concerne aos valores médios das variáveis subjacentes ao padrão biomecânico de corrida, podemos denotar que existiram diferenças do efeito da variável comprimento da stride e do efeito da variável cadência (frequência da stride) entre as condições. Por um lado, o valor médio do comprimento da stride não apresentou diferenças estaticamente significativas da condição baseline para a condição lado a lado. Por outro lado, o valor médio da variável cadência apresentou uma diferença estaticamente significativa entre as condições, o que corresponde a um aumento de 3,44% da condição baseline para a condição lado a lado.
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
18
O aumento da velocidade no decurso de uma corrida é o produto do aumento do comprimento da stride, da cadência, ou, de ambas. Relativamente à cadência de corrida dos corredores de longa-distância é importante referir que não existe uma variação significativa entre a cadência dos atletas de elite e a cadência dos atletas de um nível logo inferior, o maior determinante que os diferencia é o comprimento da stride (Nummela, Keränen, & Mikkelsson, 2007). Um comprimento de stride superior permite uma menor oscilação vertical, menor tempo de contacto com o solo, menores variações na velocidade durante o contacto com o solo e um maior tempo passado na fase de airborne (momento em que nenhum dos pés está em contacto com o solo) (Dugan & Bhat, 2005). Neste sentido, a investigação realizada por Bidaurrazaga-Letona et al. (2014), teve o objetivo de comparar as adaptações fisiológicas inerentes às variáveis biomecânicas que predizem a eficiência na economia de corrida entre aletas recreativos e atletas de elite. Os resultados da investigação de Bidaurrazaga-Letona et al. (2014), revelam diferenças estatisticamente significativas entre os 2 grupos de atletas nas variáveis comprimento de stride e cadência. Para a mesma velocidade de corrida, os atletas de elite apresentaram um comprimento de stride superior e uma cadência inferior comparativamente aos atletas recreativos, os atletas de elite para correr à mesma velocidade do que os atletas recreativos despenderam muito menos recursos energéticos intrínsecos à natureza da atividade física em que ambos os grupos foram testados. Neste sentido, o aumento do comprimento de stride é claramente uma adaptação fisiológica derivada da atividade física de corrida. Relativamente à nossa investigação, podemos concluir que o valor médio da stride não apresentou diferenças estaticamente significativas entre os 2 grupos porque a mesma se trata de uma adaptação fisiológica que requer tempo e treino, dado o facto de que o espaço temporal da condição baseline para a condição lado a lado esteve entre as 24 horas e as 72 horas, este intervalo temporal não é suficiente para que o organismo desenvolvesse adaptações que possam ser traduzidas por um resultado estaticamente significativo na variável comprimento de stride numa corrida de natureza submáxima. Este resultado obtido na variável comprimento de stride acaba por corroborar as investigações anteriores.
Ao nível biomecânico, nesta investigação, o facto dos participantes correram mais rápido na condição lado a lado deveu-se ao aumento da cadência. A cadência apresentou um valor estatisticamente significativo. Existiu de facto uma melhoria da performance na corrida devido à menor duração obtida na condição lado a lado fruto do aumento da cadência. Esta melhoria na performance, como já vimos anteriormente, veio com um custo dos recursos energéticos intrínsecos à atividade física, uma vez que o aumento da cadência numa corrida de natureza
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
19
submáxima está inversamente correlacionada como uma adaptação fisiológica que melhora a economia de corrida. Este resultado estaticamente significativo não é resultado de uma adaptação fisiológica é apenas um indicativo de uma superior intensidade de corrida na condição lado a lado. Este resultado acaba também por validar aquilo que foi partilhado anteriormente.
A conclusão principal é a seguinte: existiu uma melhoria na performance registada na condição lado a a lado devido ao tempo final obtido ser menor do que na condição baseline. Essa melhoria provocou um aumentou na FC. A stride não apresentou alterações entre as condições porque a mesma se trata de uma adaptação fisiológica inerente à economia de corrida que requer tempo e treino. O aumento da cadência foi o maior determinante a nível biomecânico que justifica a menor duração da condição lado a lado. Para além da menor duração obtida na condição lado a lado, a intensidade física também foi superior, o que facilita o processo de desenvolvimento de adaptações fisiológicas, uma vez que a intensidade do exercício físico é um dos fatores que predizem a taxa do progresso da mesma.
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
20
Referências Bibliográficas
Abbiss, C. R., & Laursen, P. B. (2008). Describing and understanding pacing strategies during athletic competition. Sports Medicine, 38(3), 239–252.
https://doi.org/10.2165/00007256-200838030-00004
Almeida, M. B., & Araújo, C. G. S. (2003). Effects of aerobic training on heart rate. Revista Brasileira de Medicina Do Esporte. https://doi.org/10.1590/S1517-86922003000200006 Anderson, T. (1996). Biomechanics and Running Economy. Sports Medicine, 22(2), 76–89.
https://doi.org/10.2165/00007256-199622020-00003
Barnes, K. R., & Kilding, A. E. (2014). Strategies to Improve Running Economy. Sports Medicine. https://doi.org/10.1007/s40279-014-0246-y
Bidaurrazaga-Letona, I., Gil, S. M., Santos-Concejero, J., Tam, N., Irazusta, J., Zabala-Lili, J., & Granados, C. (2014). Influence of the biomechanical variables of the gait cycle in running economy. [Influencia de variables biomecánicas del ciclo de paso en la economía de carrera]. RICYDE. Revista Internacional de Ciencias Del Deporte.
https://doi.org/10.5232/ricyde2014.03601
Boulay, M. R., Simoneau, J. A., Lortie, G., & Bouchard, C. (1997). Monitoring high-intensity endurance exercise with heart rate and thresholds. Medicine and Science in Sports and Exercise, 29(1), 125–132.
Carmo, E. C. do, Barreti, D. L. M., Ugrinowitsch, C., & Tricoli, V. (2017). Estratégia de corrida em média e longa distância: como ocorrem os ajustes de velocidade ao longo da prova? In Revista Brasileira de Educação Física e Esporte (Vol. 26). https://doi.org/10.1590/s1807-55092012000200016
Costill, D. L., Branam, G., Eddy, D., & Sparks, K. (1971). Determinants of marathon running success. Internationale Zeitschrift For Angewandte Physiologie Einschlieilich
Arbeitsphysiologie, 29(3), 249–254. https://doi.org/10.1007/BF01100536
Crews, D. J. (1992). Psychological state and running economy. Medicine and Science in Sports and Exercise, 24(4), 475–482. Retrieved from
http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/1560746
Dellagrana, R. A., Guglielmo, L. G. A., Santos, B. V., Hernandez, S. G., da Silva, S. G., & de Campos, W. (2015). Physiological, Anthropometric, Strength, and Muscle Power
Characteristics Correlates With Running Performance in Young Runners. Journal of Strength and Conditioning Research, 29(6), 1584–1591.
https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000000784
Dugan, S. A., & Bhat, K. P. (2005). Biomechanics and analysis of running gait. Physical Medicine and Rehabilitation Clinics of North America. https://doi.org/10.1016/j.pmr.2005.02.007
Efeito de Correr Lado a Lado Biomecânica e Performance Atlética
21
Gómez-Molina, J., Ogueta-Alday, A., Stickley, C., Cámara, J., Cabrejas-Ugartondo, J., & García-López, J. (2017). Differences in spatiotemporal parameters between trained runners and untrained participants. Journal of Strength and Conditioning Research, 31(8), 2169–2175. https://doi.org/10.1519/JSC.0000000000001679
Hausswirth, C., Le Meur, Y., Couturier, A., Bernard, T., & Brisswalter, J. (2009). Accuracy and repeatability of the polar® RS800sd to evaluate stride rate and running speed. International Journal of Sports Medicine, 30(5), 354–359. https://doi.org/10.1055/s-0028-1105936 Leger, L., & Thivierge, M. (1988). Heart rate monitors: Validity, stability, and functionality.
Physician and Sportsmedicine, 16(5), 143–146. https://doi.org/10.1080/00913847.1988.11709511
Li, X., Xu, H., & Cheung, J. T. (2016). Gait-force model and inertial measurement unit-based measurements: A new approach for gait analysis and balance monitoring. Journal of Exercise Science & Fitness, 14(2), 60–66. https://doi.org/10.1016/j.jesf.2016.07.002 Nummela, A., Keränen, T., & Mikkelsson, L. O. (2007). Factors related to top running speed and
economy. International Journal of Sports Medicine. https://doi.org/10.1055/s-2007-964896
Ounpuu, S. (1994). The biomechanics of walking and running. Clinics in Sports Medicine, 13(4), 843–863. Retrieved from http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7805110
Potteiger, J. A., & Weber, S. F. (1994). Rating of perceived exertion and heart rate as indicators of exercise intensity in different environmental temperatures. Medicine and Science in Sports and Exercise, 26(6), 791–796.
Semin, K., Stahlnecker IV, A. C., Heelan, K., Brown, G. A., Shaw, B. S., & Shaw, I. (2008). Discrepancy between training, competition and laboratory measures of maximum heart rate in NCAA division 2 distance runners. Journal of Sports Science and Medicine, 7(4), 455– 460.
Williams, K. R. (1985). Biomechanics of running. Exercise and Sport Sciences Reviews, 13, 389– 441. Retrieved from http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/3891372
Winter, E. M., Jones, A. M., Richard Davison, R., Bromley, P. D., & Mercer, T. H. (n.d.). Sport and Exercise Physiology Testing Guidelines: The British Association of Sport and Exercise
Sciences Guide, Volume II: Exercise and Clinical Testing. Retrieved from
http://cridc.inder.gob.cu/trabajos-investigativos/congresos/516-sport-and-exercise-phisyology-testing-guidelines-2007-pdf/file
Yamamoto, K., Miyachi, M., Saitoh, T., Yoshioka, A., & Onodera, S. (2001). Effects of endurance training on resting and post-exercise cardiac autonomic control. Medicine and Science in Sports and Exercise, 33(9), 1496–1502. Retrieved from