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DISLEXIA E O ENSINO DE CIÊNCIAS

Richele de Matos Rodrigues Silva 1 Marília Carla de Mello Gaia 2

RESUMO

A dislexia é definida como dificuldade na aprendizagem, específica na área da leitura, escrita, soletração e decodificação. Essa síndrome é de origem neurológica e causa baixo rendimento escolar. O objetivo do presente trabalho é realizar um levantamento das informações registradas na literatura sobre a dislexia e discutir as possibilidades de estratégias pedagógicas voltadas para o ensino - aprendizado de disléxicos em aulas de Ciências. Percebe-se que faz-se necessário adaptar as particularidades e potencialidades do ensino de Ciências também para o contexto da dislexia. Conclui-se que para auxiliar os disléxicos em sala de aula, é necessário que a escola ofereça ao professor um suporte para ministrar aulas diferenciadas.

Palavras-chave: Dislexia. Ciências. Aprendizagem. Leitura. Educação.

INTRODUÇÃO

Na literatura científica, são diversos os conceitos dados à dislexia. Em termos gerais, vamos aqui definir dislexia como dificuldade na aprendizagem, específica na área da leitura, escrita, soletração e decodificação (LADEIRA e CABANAS, 2009).

A palavra dislexia é originada do grego dys que significa pobre, e lexia quer

dizer linguagem (LEAL, 2006).

Estudos realizados com indivíduos pertencentes ao oeste do Estado de São Paulo demonstram que a dislexia pode ser hereditária, sendo que 23 a 65% de crianças com dislexia apresentam pais que possuem um histórico de gagueira, desenvolvimento atrasado na fala e dificuldade de articular as palavras (CAPELLINI

et al., 2007).

1 Graduanda em Ciências Biológicas pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix,

[email protected]

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Estima-se que no Brasil 10% das pessoas são acometidas por dislexia, dessas, 15% são crianças em idade escolar (LADEIRA e CABANAS, 2009).

Dentre as diversas literaturas, a dislexia pode ser classificada em três tipos, caracterizados de acordo com o tipo de erro acometido. No primeiro tipo, os disléxicos disfonéticos ou fonológicos apresentam uma boa leitura das palavras conhecidas, entretanto não conseguem ler palavras desconhecidas; normalmente está associada a uma disfunção no lóbulo temporal (CIASCA, GONÇALVES 2006).

Já os disléxicos diseidéticos apresentam uma leitura lenta, mas correta; conseguem ler palavras que não fazem parte do seu vocabulário - esse tipo de dislexia está associado a uma disfunção no lóbulo occipital. Por sua vez, no terceiro tipo, os disléxicos mistos agrupam as dificuldades dos dois subtipos citados anteriormente (disfonéticos e diseidéticos), estando relacionada às disfunções nos lóbulos pré-frontal, frontal, occipital e temporal (CIASCA, GONÇALVES 2006).

No contexto escolar, sobretudo nos anos escolares relacionados à alfabetização e ao letramento, o ritmo de aprendizado dos disléxicos é diferente em relação aos demais alunos, portanto os educadores precisam compreender essas diferenças. Para auxiliar na aprendizagem dos disléxicos, o educador precisa respeitar o ritmo de aprendizagem dos alunos e ilustrar as aulas com gravuras, materiais pedagógicos e desenhos (MOUSINHO, 2004).

Com base nestas informações, o objetivo do presente trabalho é realizar um levantamento das informações registradas na literatura sobre a dislexia e discutir as possibilidades de estratégias pedagógicas voltadas para o ensino-aprendizagem de disléxicos em aulas de Ciências.

DISLEXIA NA ESCOLA

Sabe-se que a dislexia está presente em diversas famílias, podendo se desenvolver em pessoas de qualquer idade e sexo, porém geneticistas indicam que há um componente hereditário envolvido nesta condição. As crianças disléxicas apresentam visão e audição normais, mesmo assim o aprendizado fica comprometido (CAMPOS et al., 2012). De acordo com Massi e Santana (2011) as crianças disléxicas apresentam uma leitura destacada por substituições, embaraços e desordens.

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As crianças que possuem um histórico familiar com pais com problemas voltados para a alfabetização são mais susceptíveis a desenvolver problemas na leitura e na fala (SNOWLING e STACKHOUSE, 2004, p.13).

Nos primeiros anos escolares, o cérebro está em fase de organização, crescimento e desenvolvimento neurológico e essas etapas permanecem até por volta dos oito anos de idade. Normalmente as dificuldades de aprendizagem são percebidas a partir do momento que a criança está na escola e estas dificuldades se tornam evidentes à medida que aumentam as atividades escolares (SELIKOWITZ, 2001, p.7).

O sistema fonológico de uma criança inicia-se no período que ela começa a ter contato com as letras. (VALETT, 1990, p.14).

Para ler, uma pessoa precisa desenvolver algumas habilidades cognitivas, tais como: habilidade para focalizar a atenção, interpretação e entendimento da leitura, decodificar as palavras, memória visual e auditiva e fluência na leitura à primeira vista (VALETT, 1990, p.3). Porém, considerando que os disléxicos apresentam dificuldades fonológicas, possivelmente não serão alfabetizados no ritmo convencional.

Estudos apontam que crianças com dificuldades de aprendizagem, se auxiliadas nos primeiros anos escolares, apresentam melhores resultados em relação às crianças que são acompanhadas posteriormente (VALETT, 1990, p.2).

Quando uma criança apresenta um bom rendimento fonológico antes de ir para a escola, consequentemente tem mais chances de se tornar um bom leitor (SNOWLING e STACKHOUSE, 2004, p.14).

Na literatura existem diversas pesquisas sobre dislexia, mas observa-se que nos últimos anos ocorreu um aumento na produção de trabalhos científicos relacionados ao tema. O motivo pelo qual ocorreu esse aumento está baseado na necessidade de compreender as diversas situações encontradas em sala de aula. Segundo Lopes e Marquezine (2012), o Brasil tem criado diretrizes que garantem os direitos das pessoas com necessidades especiais, de forma a inseri-las mais efetivamente na sociedade. Essas leis garantem, por exemplo, o acesso à escolaridade para todos os cidadãos.

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Entretanto, a maioria das instituições de ensino demonstra não ter estrutura suficiente para incluir os alunos com algum tipo de necessidade educacional especial, apesar de muitas escolas buscarem meios de atender essas demandas.

No Brasil, estima-se que 15 milhões de crianças e jovens sofram com distúrbios de leitura, mas nem todos estão associados à dislexia. Porém, a dislexia tem sido a maior causa do fracasso escolar (ARAUJO et al., 2005).

De acordo com Valett (1990), os disléxicos, por apresentarem diversas habilidades, não são alunos para serem incluídos na Educação Especial, porém é preciso inseri-los em algum tipo de atendimento educacional especializado para desenvolver suas habilidades.

Muitas crianças possuem dificuldades com relação à leitura, porém é de extrema importância a intervenção prematura para o tratamento adequado. O tratamento do disléxico consiste em reduzir a ansiedade da criança, desenvolver o seu lado perceptivo e auditivo (VALETT, 1990, p. 1-2).

Segundo Oliani (2012) “Não é suficiente para o disléxico estar inserido na melhor escola e ter os melhores professores. É necessário que os pais revejam seus próprios comportamentos e expectativas para adequá-los a cada particular situação”.

Para ajudar os filhos é importante que os pais supervisionem as tarefas escolares fora do horário escolar. É de extrema importância que se crie uma rotina para acompanhamento dessas atividades. É necessário que os pais discutam com os professores qual atividade poderá ser desenvolvida que contribuirá para fixar o conteúdo ministrado em sala de aula (SELIKOWITZ, 2001, p. 56-57).

ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS NA DISLEXIA E O ENSINO DE CIÊNCIAS

Segundo Mousinho (2004), a escola e a família precisam trabalhar juntas para impedir que a dislexia atrapalhe o crescimento escolar do aluno. O professor é indispensável nesta trajetória, pois contribuirá nos processos educativos diários.

O educador precisa estar preparado para auxiliar o educando com as atividades escolares e ajudar apoiar os pais nas dúvidas diárias (PERACOLI e GOZER, 2009).

Porém, identificado alguns aspectos de dislexia, professor deverá encaminhar o aluno para formalizar o diagnóstico. O diagnóstico da dislexia é realizado por uma

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equipe de médicos neurologistas, fonoaudiólogos, psicopedagogos e psicólogos. Após confirmar o diagnóstico, o educador precisa realizar um trabalho específico com essa criança, e é fundamental a participação dos pais, psicólogos, psicopedagogos, neurologistas e fonoaudiólogos. (PERACOLI e GOZER, 2009).

O quanto antes a dislexia for diagnosticada e trabalhada, menos problemas acarretarão na trajetória acadêmica do aluno. E os pais estando à linha de frente sempre deverão estimular a criança a seguir em frente.

Muitas vezes, o disléxico é visto pelos professores como alunos desatentos, preguiçosos e desorganizados (PERACOLI e GOZER, 2009).

A motivação é um fator importante para ajudar a criança disléxica; a criança quando compreendida e amparada, se sente segura e consequentemente cresce a vontade de aprender mais (PERACOLI e GOZER, 2009).

De acordo com Peracoli e Gozer (2009), os disléxicos precisam receber do professor uma atenção diferenciada, pois esses alunos apresentam muitas dificuldades de se expressarem.

A escola precisa comunicar aos professores que lecionam para aquele aluno sobre as dificuldades do mesmo. E os professores precisam elaborar suas aulas conforme a necessidade daquele aluno (LUCA, 2012).

O educador deverá auxiliar o disléxico na sala de aula, desenvolvendo diferentes estratégias que contribuirão nos processos de ensino-aprendizagem. É preciso ministrar aulas expositivas, para ajudar o aluno na fixação do conteúdo (LUCA, 2012).

Nas aulas de Ciências, além de aulas expositivas, atividades com jogos, modelos didáticos, aulas práticas, entre outros recursos podem contribuir para o aprendizado do disléxico, assim como dos demais alunos da turma.

O disléxico apresenta dificuldade de ler em voz alta; o professor deve evitar que o aluno leia em voz alta (LUCA, 2012).

Existem alguns nomes difíceis de serem lidos nas aulas de Ciências, portanto o professor deverá promover uma leitura conjunta com toda a sala, a fim de evitar que o aluno passe pelo constrangimento na leitura.

No caso de aplicação de prova, é importante a leitura das questões em voz alta. O aluno disléxico apresenta dificuldades na decodificação e com a leitura do professor terá uma facilidade em responder as questões. No ato das correções das

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provas é necessário que as provas dos disléxicos sejam corrigidas com um rigor diferenciado. Caso tenha uma resposta confusa, o educador precisa esclarecer junto com o aluno o que ele quis dizer e se realmente houve a compreensão do conteúdo ministrado (LUCA, 2012).

As avaliações dos disléxicos precisam ser diferenciadas. Desta forma, no ensino de Ciências poderão ser aplicadas provas orais e práticas para pontuação das atividades, quando possível.

De acordo com Luca (2012), o disléxico demora um pouco mais de tempo para processar as informações, portanto é imprescindível que o educador conceda ao aluno um tempo maior para realizar as atividades durante a aula.

Ao disponibilizar para o aluno disléxico todas essas alternativas, não estamos privilegiando os disléxicos, apenas estamos oferecendo a esse aluno uma oportunidade de se expressar na forma em que é mais eficiente.

A aprendizagem não é uma tarefa simples para os disléxicos. Os educadores precisam desenvolver aulas teóricas e práticas para ajudar a fixar o conteúdo. São diversas formas de trabalhar o ensino de Ciências em sala de aula. Por exemplo, o sistema digestório é um assunto extenso, repleto de órgãos e funcionalidades. É possível na aula teórica associar diversas práticas que facilitará no processo de assimilação do conteúdo. Nesse conteúdo é possível trabalhar com modelos anatômicos onde os alunos conseguirão visualizar na prática os órgãos e suas respectivas funções; com materiais disponíveis na cantina da própria escola é possível mostrar a acidez do suco gástrico, o fígado, o movimento da mastigação, quebra das enzimas, nutrientes e outros.

Pode-se trabalhar o sistema respiratório com materiais recicláveis como garrafa pet e bexiga; é possível construir um pulmão e na prática explicar os movimentos de inspiração e expiração.

O sistema urinário também pode ser trabalhado com aulas teóricas e práticas. Com uma bexiga, coador e laranja é possível mostrar as funções do sistema renal e as estruturas constituintes do mesmo. Os professores precisam se conscientizar e querer ser um facilitador no processo de ensino aprendizagem.

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“É importante que os professores conheçam as reais deficiências apresentadas pelos disléxicos, pois ineficiência da percepção vai dificultar o diagnóstico e o tratamento precoce para esses alunos” ( MARONI, __).

São diversos os problemas presentes em sala de aula, e mediante a isso se torna impossível os professores disponibilizarem um tempo, para dar aulas individuais para os alunos que precisam de um tempo maior de acompanhamento.

E ciente desta realidade é necessário que os pais estabeleçam com seus filhos práticas de leitura e estudo fora do horário escolar (SELIKOWITZ, 2001, p.56-57).

É importante que os pais acompanhem seus filhos com o dever de casa, pois esse acompanhamento contribui muito para o processo de ensino-aprendizagem. E é nesse momento que os alunos terão a oportunidade de rever os conteúdos e se prepararem para as aulas e provas. Os deveres de casa além de contribuírem para o aprendizado do aluno reforçam a interação entre família e escola. Quando existe esse vínculo, o resultado do trabalho é diferenciado e extremamente produtivo (CARVALHO, 2004).

A leitura é algo crucial para a aprendizagem do aluno; e através dela, o vocabulário será enriquecido, o conhecimento será ampliado e o raciocínio desenvolvido. (JUSTI e ROAZZI, 2011).

A leitura e a escrita fazem parte de todas as disciplinas presentes no âmbito escolar; a Ciência é um conteúdo extremamente amplo, portanto é importante que o professor trabalhe com os alunos atividades relacionadas à leitura. O aluno quando desenvolve o hábito de escrever, consequentemente sua escrita e leitura serão aperfeiçoadas.

Nas aulas de Ciências, a leitura e a escrita contribuirão para ajudar o aluno no momento em que for rever as atividades passadas em sala.

Para auxiliar os disléxicos nas aulas de Ciências, o educador precisa associar a aula teórica com as aulas práticas; os nomes que forem latinizados precisam ser escritos e pronunciados devagar; as aulas expositivas ajudam a compreender o conteúdo e as provas precisam ser avaliadas com critérios diferenciados.

O preconceito voltado para o disléxico precisa ser quebrado; pois mesmo que forem diagnosticados com dislexia podem dar continuidade aos seus estudos normalmente e por lei possuem seus direitos reservados, como por exemplo prestar

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vestibular e cursar o Ensino Superior. Esses direitos estão condicionados a apresentação de um laudo médico constatando o diagnóstico.

No ato do vestibular, por exemplo, após a apresentação do laudo é possível conceder ao aluno um tempo maior para realização das provas, e é oferecido ao disléxico um ledor3 que realizará a leitura da prova, o que contribuirá- para processar as informações mais rapidamente e no momento de marcar a folha de resposta o profissional poderá conferir a transcrição para o caderno, avaliando se o aluno marcou a mesma opção correspondente da prova. Após a elaboração da redação, o aluno pode ditar para o ledor escrever, e nesse caso a nota também é diferenciada. Os objetivos desses procedimentos não são para facilitar o aluno disléxico e sim para os colocar em condições de igualdade, considerando suas necessidades diferenciadas para expressarem seus conhecimentos adquiridos (LUCA, 2012).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os professores estão diretamente ligados ao processo de ensino-aprendizagem. Diante das situações de dislexia é preciso estarmos atentos à sintomatologia, pois o quanto antes for diagnosticada e trabalhada é possível reduzir a insatisfação dos alunos mediante ao fracasso escolar.

Atualmente sabemos que a realidade do nosso país está condicionada a presença muitos alunos nas salas de aula. Porém não podemos permitir que o disléxico fique prejudicado diante desse fato.

Especificamente nos cursos de Licenciatura é fundamental que os docentes em formação tenham contato durante a graduação com os diversos transtornos de aprendizagem que poderão encontrar em breve nas salas de aula. Com isso é possível ao professor detectar precocemente a dislexia e minimizar os futuros problemas escolares.

As faculdades precisam inserir no plano de ensino, estágios que ofereçam ao aluno a oportunidade de trabalhar com pessoas que apresentam transtornos de aprendizagem. É na graduação que temos a nossa formação profissional inicial, portanto a faculdade precisa nos preparar para lidar com as situações de inclusão. O estágio é a oportunidade de aplicarmos na prática aquilo que foi ensinado na teoria, e se na graduação houvesse diretamente esse contato com a dislexia, no

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momento de enfrentarmos as salas de aulas, já estaríamos um pouco mais preparados para ajudar esses alunos.

Muitas vezes os cursos dão a opção ao licenciado de ter contato com as situações de inclusão, mas estas oportunidades são pouco aproveitadas na formação inicial.

A escola precisa oferecer ao professor um suporte para que o mesmo possa trabalhar com a dislexia nas salas de aula. Poderia ser oferecido nas escolas, cursos com profissionais que atuam na área para ajudar o professor a entender o comportamento dos alunos e a mensurar o limite de aprendizagem do disléxico. Consequentemente, o professor ciente do problema desenvolverá suas aulas de uma forma que abranja toda a sala de aula, conforme as particularidades de cada aluno.

No âmbito das aulas de Ciências, faz-se necessário adaptar as particularidades e potencialidades deste ensino também para o contexto da dislexia.

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