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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

INSTITUTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA

JÚLIA SOUZA CABO

A TRAJETÓRIA DE UM POETA INDIGESTO: CONSTRUÇÕES E RECONSTRUÇÕES DA OBRA DE TORQUATO NETO (1973-2005)

NITERÓI

2021

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JÚLIA SOUZA CABO

A TRAJETÓRIA DE UM POETA INDIGESTO: CONSTRUÇÕES E RECONSTRUÇÕES DA OBRA DE TORQUATO NETO (1973-2005)

Vol. 01

Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em História

Orientadora

Prof

a

Dr

a

Janaína Martins Cordeiro

Niterói

2021

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JÚLIA SOUZA CABO

A TRAJETÓRIA DE UM POETA INDIGESTO: CONSTRUÇÕES E RECONSTRUÇÕES DA OBRA DE TORQUATO NETO (1973-2005)

Vol. 01

Tese apresentada ao Programa de Pós- Graduação em História do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial à obtenção do título de Doutora em História

Campo de Confluência: História Aprovada em 25 de junho de 2021

BANCA EXAMINADORA

Prof

a

Dr

a

Janaína Martins Cordeiro - UFF Orientadora

Prof. Dr. Edwar Alencar de Castelo Branco - UFPI

Prof. Dr. Frederico Oliveira Coelho – PUC-Rio

Prof. Dr. Júlio Cesar Valadão Diniz – PUC-Rio

Prof

a

Dr

a

Giselle Martins Venâncio - UFF

Niterói

2021

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Agradecimentos

Agradeço, primeiramente, à Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro a concessão da Bolsa Doutorado Nota 10 que me permitiu concluir a pesquisa, mesmo durante uma pandemia.

Ao Programa de Pós-Graduação em História e ao Instituto de História da Universidade Federal Fluminense, aos quais devo minha formação e que acolheu esta pesquisa.

À minha orientadora Janaína Martins Cordeiro, por ter aceitado me orientar, acolhido as diversas mudanças ocorridas em meu projeto de pesquisa ao longo dos últimos quatro anos e pelo cuidado e atenção com os quais leu a tese. Sua perspectiva sobre meu trabalho e sobre o período estudado foram essenciais para a construção desta tese.

À minha mãe, Sheila Cabo Geraldo, por todo apoio que me deu ao longo de minha trajetória acadêmica. Tive a sorte de ter como mãe uma das mulheres mais incríveis que já conheci e, por isso, sou imensamente grata.

Aos meus irmãos, Ana Sattamini e Miguel Moraes, que além de irmãos são amigos para toda hora e fonte constante de apoio e alegria.

À Erika Natasha, companheira desde os tempos da graduação, por ter me ouvido todas as vezes em que eu estava convencida de que a minha tese não fazia nenhum sentido.

É maravilhoso poder contar com esta amizade, mesmo lá do outro lado do Atlântico.

À Mariana Barbieri, que mesmo tendo largado mão desse negócio de ser historiadora continua sendo uma das melhores parceiras de estudo que eu já tive.

Obrigada pela troca constante.

À Dora Aranha, pelos mais de quinze anos de amizade e por sempre ter uma história para me distrair quando eu mais preciso.

Aos queridos amigos Rodrigo Deodoro e Simone Campos, por terem sido uma das melhores surpresas desta última década.

Aos vizinhos do prédio, Felipe, Beatriz, Marcelo, Ana Clara, Amanda, Jonatas,

Thay e Danilo, pela rede de solidariedade durante esta pandemia que tornou a situação

um pouco mais suportável. Obrigada pelas mudas de planta, pão caseiro, resistência de

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chuveiro, sal, avisos de pontos de vendas de PFF2, indicações de delivery e trocas de informação.

À minha gata Cuíca, que sempre fica do meu lado quando eu estou escrevendo e me dá apoio moral nos momentos mais difíceis.

Ao meu amado companheiro, Orlando Scarpa Neto, qualquer agradecimento

seria pouco. Eu não sei o que eu fiz nas vidas passadas para ter a sorte de poder dividir

minha vida com você. Obrigada por ter ficado do meu lado, segurado a barra desta

pandemia comigo e ter sido o primeiro leitor desta tese.

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Resumo

Esta tese investiga a trajetória da obra literária de Torquato Neto, um autor que até sua morte, em 1972, nunca havia publicado nenhum livro. Centrada nas três principais edições da obra de Torquato, publicada nos anos de 1973, 1982 e 2004, a tese acompanha o percurso desta obra para analisar as formas como, ao longo destas três décadas, o autor e sua obra foram situados em relação à história da literatura brasileira, o campo literário no Brasil e o processo de construção de uma memória coletiva sobre o período da ditadura civil-militar no país. Considerando-se que se trata de uma obra literária que nunca assumiu uma forma definida pelas mãos de seu autor, buscou-se compreender como o processo de construção desta por terceiros conformou-se em diálogo com as modificações pelas quais passou a sociedade brasileira durante e após os processos de abertura e redemocratização. Assim, observou-se que a posição de Torquato Neto em relação ao campo literário, aquela de um poeta ou artista marginal, não é estável e que os significados desta marginalidade a ele atribuída modificaram-se com o passar do tempo.

Palavras-chave: Literatura Marginal; Torquato Neto; História Cultural

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Abstract

This dissertation explores the literary works of Torquato Neto, an author who, until his death in 1972, had not published a single book. Focusing on the three main editions of Torquato’s works, published in 1973, 1982 and 2004, this dissertation seeks to analyze the ways in which, over three decades, the author and his work have been situated in relation to the history of Brazilian literature, the Brazilian literary field, and the process of building a collective memory of the civic-military dictatorship in Brazil.

Given that his body of literary works was never fully defined by the author as such, I sought to comprehend how the construction process behind his œuvre occurred in an intense dialog with the changes in Brazilian society throughout Brazil’s re- democratization process in the late 1980s. Thus, the idea of Torquato Neto as an outsider to the literary field, a somewhat underground poet and artist, is not a stable one, and the meaning behind these vague categories varied intensely between the beginning of the 1970s and the early 2000s.

Keywords: Cultural History, Outsider Literature, Torquato Neto

(9)

Sumário

Introdução ... 9

Capítulo 1 – O nascimento de um autor ... 19

1.1 – Percursos de uma obra ... 19

1.2 – Os Últimos Dias de Paupéria, a primeira edição ... 26

1.3 – Poesia Marginal: primeiros debates e definições ... 47

Capítulo 2 – Aproximações e Afastamentos ... 70

2.1 – 26 Poetas Hoje e suas repercussões ... 72

2.2 – Fim de década: releituras e definições ... 84

2.3 – Um lugar para Torquato Neto na abertura ... 90

Capítulo 3 – Revendo os amigos ... 108

3.1 – Do lado de dentro: apresentação ... 109

3.2 – Aquilo que atravessa a segunda edição ... 116

3.3 – Concretos e Tropicalistas ... 133

Capítulo 4 – Memórias, Mitos e Martírios do Poeta Indigesto ... 149

4.1 – Cultura Marginal Arquivada ... 149

4.2 – Mitologias e Martírios Torquateanos ... 166

4. 3 – O Poeta Indigesto ... 184

Capítulo 5 – Os muitos lados de dentro e de fora de Torquato Neto ... 194

5.1 – Memórias e marginalidades: a moda dos anos 70 ... 194

5.2 – 3x à margem: Torquato independente ... 207

5.3 – Do lado de fora: a coluna música popular e seus desdobramentos ... 227

Conclusão ... 240

Bibliografia ... 247

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Lista de Ilustrações

Figura 01 – Capa de Os Últimos Dias de Paupéria p. 29

Figura 02 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 30 Figura 03 – Reprodução de página do livro Os Últimos Dias de Paupéria p. 42 Figura 04 – Ilustração do livro Os Últimos Dias de Paupéria p. 44

Figura 05 – Reprodução de ilustração de artigo do Jornal do Brasil p. 62 Figura 06 – Capa da Revista Navilouca p. 65

Figura 07 – Trabalho de Torquato Neto para a revista Navilouca p. 66 Figura 08 – Capa de 26 Poetas Hoje p. 75

Figura 09 – Reprodução de página de 26 Poetas Hoje p. 78

Figura 10 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 111 Figura 11 – Reprodução de páginas de Os Últimos Dias de Paupéria p. 112 Figura 12 – Reprodução de Página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 117 Figura 13 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 118 Figura 14 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 130 Figura 15 – Capa e primeira página de Últimos Dias de Paupéria p. 133

Figura 16 – Reprodução de Planos em Superfícies Moduladas de Lygia Clark p. 133 Figura 17 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria p. 138

Figura 18 – Capa do LP Um Poeta Desfolha a Bandeira p. 165 Figura 19 – Reprodução de imagem do livro Mitologias p. 168

Figura 20 – Reprodução de imagem do livro Mitologias alterada p. 169

Figura 21 – Still do documentário O Anjo Torto Torquato Neto (1995) p. 182

Figura 22 – Foto da Contracapa de Os Últimos Dias de Paupéria p. 184

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Introdução

Esta tese investiga a trajetória da obra literária de Torquato Neto a partir de 1973, quando foi publicado o primeiro livro com escritos deste autor, até 2005, ano no qual a editora Rocco lançou uma edição em dois volumes com a maior quantidade de material já reunido de Torquato.

A ideia inicial para este trabalho surgiu enquanto escrevia minha dissertação de mestrado sobre o envolvimento de Torquato Neto com o Cinema Marginal da década de 1970. Durante o processo de pesquisa, me encontrava frequentemente frustrada. Isto porque, embora diversos dos artigos e teses que li naquela época afirmassem que Torquato Neto nunca havia publicado nenhum livro em vida, não incorporavam realmente este fato na análise. Não consideravam que a obra deste autor somente existe porque foi organizada e editada por terceiros e, portanto, qualquer narrativa, qualquer visão abrangente que se possa ter desta a partir dos livros que carregam o nome de Torquato Neto na capa deve levar isto em consideração.

Assim, enquanto escrevia o projeto para esta tese, estava convencida de que era isto que eu precisava fazer: elaborar uma reflexão sobre o conjunto da obra torquateana que fizesse a crítica das fontes, ou seja, dos livros publicados com escritos de Torquato Neto, para a partir daí poder oferecer caminhos que tornassem possível uma visão do autor e de sua obra que incorporasse este elemento do inacabado na análise. Mas os caminhos da pesquisa me levaram a outras direções.

A partir do momento em que comecei a analisar os livros que carregam o nome de Torquato Neto na capa, que comecei a traçar a forma como estes dialogam não apenas com os movimentos de valorizações e desvalorizações no campo literário, mas também com as mudanças que ocorreram na sociedade brasileira a partir da morte de Torquato em 1972, esta questão do inacabado tornou-se secundária. Aos poucos, tornou-se mais claro que o objetivo desta tese não era criar uma visão abrangente deste autor e de sua produção no campo literário, mas sim compreender de que forma as construções e reconstruções pelas quais a obra de Torquato Neto passou moldaram e moldam o entendimento desta.

Como escreveu Waly Salomão em artigo para o jornal Folha de São Paulo em 1995: “Muitas vezes escrever um livro ou fazer um filme representa adiar um suicídio, mas no caso de Torquato Neto pode-se afirmar que o suicídio precedeu e originou a obra”

(SALOMÃO, 2018, n/p). Esta tese, portanto, trata deste fenômeno, do percurso da obra

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literária de Torquato Neto e da forma como esta foi construída e reconstruída sob o signo de um autor ausente.

Antes de detalhar as questões específicas que guiaram este trabalho, acredito ser necessário uma breve apresentação do autor. Não me deterei aqui em análises aprofundadas dos trabalhos que Torquato produziu em vida, pois estes serão mais bem descritos na medida em que forem aparecendo nos livros publicados após sua morte. No entanto, acredito ser necessário expor um pouco das movimentações culturais com as quais Torquato se envolveu durante seu tempo de vida e apresentar a forma como este foi lido por seus contemporâneos, ou seja, nas colunas que publicou em jornais.

Nascido na cidade de Teresina, no Piauí, em 9 de novembro de 1944, Torquato foi enviado pelos pais, aos quinze anos de idade, em 1960, à cidade de Salvador para que terminasse seus estudos de Segundo Grau – atual Ensino Médio – em um internato na cidade. Durante os três anos que residiu em Salvador, Torquato aproximou-se de Gilberto Gil, Caetano Veloso e José Carlos Capinam e se destacou por ser um grande conhecedor de literatura brasileira e bom poeta. Em 1963, mudou-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de começar os estudos na Faculdade Nacional de Filosofia, que abandonou um ano mais tarde para dedicar-se ao trabalho como jornalista. Em 1966, começou a compor em parceria com Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil e tornou-se conhecido na cidade por suas letras de músicas.

Em março de 1967 começou a publicar diariamente a coluna Música Popular no Jornal dos Sports. O assunto desta era, tal como escreveu Torquato em sua primeira coluna, “música popular: discos, movimentos de gente mais ou menos popular no ambiente de música idem. Possíveis entrevistas com alguns figurões da música brasileira etc. etc. De vez em quando muito etecetera.” (NETO, 2004. p. 27).

Esta coluna, que só veio a ser publicada em livro em 2004, marcou um momento importante para Torquato, pois foi durante o período em que a escreveu que ele se envolveu com as movimentações tropicalistas ao lado do chamado grupo baiano. A coluna Música Popular, que será mais bem analisada no último capítulo, é um documento muito importante para o pesquisador interessado na trajetória intelectual de Torquato Neto.

Através dela é possível observar como, ao longo de 1967, Torquato Neto se afastou de

uma visão sobre música, cultura e modernidade no Brasil ainda muito marcada pelo

projeto nacional-popular (que teve sua mais marcante representação nos Centros

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Populares de Cultura da UNE) e passou a articular com personagens como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e José Carlos Capinam aquilo que ficou conhecido como o Tropicalismo.

Não entrarei aqui em uma análise mais detalhada sobre as redes de trabalho e sociabilidade que envolveram a formação do tropicalismo

1

durante o ano de 1967. Em relação ao movimento em si, este será melhor abordado nos capítulos três e cinco, na medida em que aparece na obra literária de Torquato Neto. No entanto, cabe pontuar que o envolvimento de Torquato com o tropicalismo é um dos pontos mais marcantes de sua trajetória e, ao longo de seu período de vida, mesmo após a dissolução do grupo, Torquato ainda era conhecido como um dos compositores dos baianos. Tal associação foi tão marcante que é possível encontrar em jornais da época artigos que, fazendo confusão em relação às suas origens, o identificam como sendo do estado da Bahia.

As movimentações tropicalistas, que colocavam em xeque a oposição entre música popular brasileira e cultura de massa, causaram reações um tanto agressivas tanto de seus pares no campo da música popular, quanto por parte do público e da mídia. Entre o final de 1967 e 1968 estes músicos passaram a sofrer diversos ataques que os acusavam de aproveitadores, colonizados e vendidos.

A crescente hostilidade por parte de um público de esquerda ao longo do emblemático ano de 1968, aliada ao contato com outros artistas cujos trabalhos abordavam temas relacionados à violência e à marginalidade, fez com que o grupo tropicalista assumisse posturas cada vez mais combativas. Como colocou Frederico Coelho:

Os eventos ocorridos em 1968 conduziram os músicos tropicalistas a trabalhos de outras áreas que indicavam, desde os anos anteriores, a inevitabilidade da ruptura entre obra do artista, sua liberdade de criação e a satisfação de seus pares e do mercado consumidor. Gilberto Gil, Caetano Veloso e seus companheiros mais chegados (como Capinam e Torquato Neto) perceberam que não havia como conviver em harmonia com o conformismo da classe média e o sectarismo de grupos ditos de esquerda no país. (COELHO, 2010. p.

169)

Estas circunstâncias, aliadas ao crescente recrudescimento do regime que resultaria na outorga do Ato Institucional N

o

5 (AI-5) em dezembro daquele ano, resultaram na dissolução do tropicalismo musical como um grupo de ações articuladas. A partir daí, Torquato Neto, junto com parte dos artistas que durante os anos de 1967 e 1968

1

Para maiores informações, ver: COELHO, Frederico, 2010.

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haviam sido associados ao tropicalismo fariam uma opção deliberada pela marginalidade enquanto como projeto estético e de atuação.

O ano seguinte à edição do AI-5 também viu a prisão de Caetano e Gil e seus subsequentes exílios, bem como a ida de Torquato à Londres com Hélio Oiticica. Foi durante essa viagem para Londres que Torquato e Hélio Oiticica brigaram, o que acabou levando Torquato a Paris, onde moraria por um tempo com sua esposa. Foi também durante esse “exílio acidental” que Torquato teria rompido com seus parceiros tropicalistas. A partir deste momento, o envolvimento de Torquato com as atividades musicais do chamado grupo baiano tornou-se extremamente reduzido.

Durante o período que passou na Europa, Torquato frequentemente escrevia em diários e planejava filmes que gostaria de dirigir, sem, no entanto, publicar nada de sua produção escrita. Retornou ao Brasil em 1970, ano no qual nasceu seu filho e também no qual Torquato se internou pela primeira vez em um sanatório psiquiátrico.

Em meados de 1971, Torquato Neto e Waly Salomão

2

começaram a trabalhar no Correio da Manhã, escrevendo sobre cinema no suplemento cultural do jornal, o Plug. O objetivo de ambos era criar um espaço para falar de cinema em super-oito e suas experimentações. No entanto, devido a complicações internas da redação do jornal, o empreendimento foi curto, durando apenas um mês.

A Torquato, no entanto, o editor Reinaldo Jardim ofereceu uma coluna no segundo caderno do jornal Última Hora. Neste, Torquato publicou a coluna Geléia Geral quase diariamente entre os meses de agosto de 1971 e março de 1972. Neste período de tempo relativamente curto, a coluna causou grande impacto, tornando-se leitura obrigatória para o pesquisador que procura compreender as movimentações no campo cultural do início da década de 1970.

A Geléia Geral foi um espaço singular no qual artistas que produziam fora dos circuitos consagrados recebiam espaço em um jornal de ampla circulação. O fato de Torquato divulgar artistas desconhecidos do grande público, como a banda Módulo Mil, por exemplo, já é por si só interessante, mas talvez a característica mais singular da coluna, seja a forma como Torquato informava ao público o que estava acontecendo no campo da cultura.

2

Durante a década de 1970, Waly Salomão assinou diversos trabalhos como Waly Sailormoon, um

pseudônimo que seria posteriormente descartado. Ao longo desta tese este pseudônimo será utilizado

quando aparecer nas fontes citadas.

(15)

Torquato não só anunciava datas de shows e exibições, como narrava processos de gravação e filmagem, o que demonstrava sua proximidade com os produtores de cultura no país. A Geléia Geral possuía essa característica de proximidade, tanto com o meio que noticiava como com seu público. Muitas das colunas nas quais ele divulgava um artista ou jornal alternativo possuíam, inclusive, um tom quase acusatório. Torquato parecia sempre desafiar o seu leitor, recriminando-o por não estar ciente daquilo que ele considerava relevante no cenário cultural. Este tom agressivo, aliás, é uma constante em todo o seu trabalho na Geléia Geral, seja nas colunas em que ele escreveu sobre o Cinema Novo, seja nas quais ele tratou dos problemas relativos a direitos autorais no Brasil.

Foi nestes primeiros anos da década de 1970 que Torquato formulou um projeto estético-político que pode ser resumido na frase "A realidade tem suas brechas" (NETO, 2004b. p. 278). Para Torquato, era responsabilidade do artista crítico buscar, em meio à realidade opressora que reinava no país, brechas possíveis para ação e, assim, ocupar o espaço.

A oportunidade de escrever no Última Hora era uma dessas brechas que permitiam a Torquato exercer alguma influência. Como ele escreveu em carta para Hélio Oiticica:

“Uma coluna de jornal dá uma espécie de poder muito grande que pode ser utilizado da maneira que se quiser utilizar. Tenho curtido e com isso me embalado do desconsolo de não fazer o Plug” (NETO, 2004a. p. 232).

O trabalho de Torquato na Geléia Geral, embora muito diversificado, pode ser lido como um exercício constante deste “poder” que ele identificava na sua posição de colunista. A coluna, no entanto, estava longe de ser apenas um veículo de informações.

Torquato a utilizava para diversos fins, inclusive poéticos, o que faz com que entre uma coluna sobre a questão dos direitos autorais no Brasil e a publicação de um artigo de algum amigo seu, possa-se encontrar uma coluna cujo único conteúdo é um de seus poemas ou mesmo uma carta aforística para seu filho Thiago. E tudo isto de acordo com um estilo próprio, que foi caracterizado por Heloísa Buarque de Hollanda como um desafio aos padrões jornalísticos, no qual Torquato produzia um jogo de prismas em que o fragmento, o inacabado e o material bruto conviviam com a fragilização da ideia de autoria.

Esta fragilização da ideia de autoria é o motivo pelo qual tornou-se comum em

trabalhos acadêmicos sobre Torquato Neto, citações atribuídas a ele que, a rigor, são

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citações de entrevistas e artigos de outras pessoas que Torquato publicou na Geléia Geral.

Essa confusão é bastante compreensível quando se observa que, ao selecionar textos de outras pessoas, Torquato frequentemente recorta aquilo que está em maior consonância com as suas próprias convicções.

Um dos exemplos mais claro que se tem disso é a segunda coluna da Geléia Geral, na qual ele publicou trechos de uma entrevista que Glauber Rocha concedeu em Nova York e selecionou declarações que alguém que conhece os posicionamentos de Torquato poderia achar que foram ditas pelo próprio. Na verdade, tais equívocos estão relacionados ao fato de que embora a Geléia Geral fosse um espaço aberto para as mais diversas manifestações artísticas, Torquato jamais publicou um artigo com o qual discordasse. Ao contrário do que aconteceu no Plug, onde ele publicou uma entrevista com Antônio Calmon sem incluir nenhuma de suas opiniões. Na Geléia Geral, por sua vez, pode-se ter certeza de que se Torquato publicou declarações de terceiros, é porque concordava com o que estava sendo dito. E quando citava alguém de opinião contrária à sua, não media palavras para deixar bem claro sua divergência.

Por fim, uma das características da Geléia Geral que não pode ser ignorada é a polêmica. E nenhuma polêmica foi melhor representada na coluna do que a disputa entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal. Como analisei em minha dissertação de mestrado, a partir de 1970, o acirramento das tensões entre os cineastas identificados com o Cinema Novo e os cineastas identificados com o Cinema Marginal gerou:

uma situação a partir da qual qualquer filme brasileiro lançado tinha que ser colocado em um dos lados da disputa e servia de artilharia para atacar o outro lado. […] um dos pontos principais desta disputa se referia ao fato de que muitos nomes do Cinema Novo, como Antônio Calmon, Gustavo Dahl e Arnaldo Jabor estavam interessados em fazer grandes produções cinematográficas para atingir o grande público (vinculados, muitas vezes, a Embrafilme), enquanto cineastas como Luiz Otávio Pimentel, Ivan Cardoso, Rogério Sganzerla e Julio Bressane se comprometiam com um projeto de experimentalismo feito com baixos recursos (CABO, 2015, p.

30).

No caso de Torquato, ele se posicionou sem ressalvas em defesa do Cinema

Marginal e frequentemente tecia críticas enfáticas ao Cinema Novo na Geléia Geral. Um

exemplo destas críticas é a coluna do dia 18 de outubro de 1971 na qual, a respeito de

uma notícia que a trilha sonora do filme Barão de Otelo de Miguel Borges havia custado

cinquenta mil cruzeiros, ele escreve que “os ideólogos do novo cineminha industrial

brasileiro parecem acreditar firmemente no exibicionismo deslumbrado de riquezas como

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tábua de salvação e chamariz mais certo do público indiferente a essas transas” (NETO, 2004b. p. 276). E complementa afirmando que os filmes dos cineastas do Cinema Novo eram um “exibicionismo otário de novos ricos à beira da falência" (NETO, 2004b. p. 276 ).

A relação de Torquato Neto com o Cinema Marginal não ficou, no entanto, restrita à sua atuação como jornalista. Torquato também participou destas movimentações como ator no filme Nosferato no Brasil, de Ivan Cardoso, no qual interpretou o vampiro protagonista. A atuação de Torquato neste filme foi um evento que marcou de forma tão definitiva sua figura que Haroldo de Campos cunhou para ele o apelido Nostorquato, e até hoje a fotografia de Torquato nas areias de Copacabana tomando água de coco em sua indumentária de vampiro é uma de suas imagens mais famosas.

Além de atuar, Torquato também dirigiu o filme O Terror da Vermelha, um média- metragem gravado em super-oito em junho 1972 em sua cidade natal, Teresina. Este filme foi o objeto central de minha dissertação de mestrado, na qual discuto o fato de que, embora a autoria do filme seja sempre atribuída a Torquato, ele nunca chegou a ver o filme finalizado. Isto porque após filmar em Teresina as cenas que compõe o filme, Torquato deixou o material com os jovens que participaram da filmagem e retornou ao Rio de Janeiro, onde viria a se matar pouco tempo depois. Assim, O Terror da Vermelha recebeu uma primeira montagem em 1973, realizada por Carlos Galvão, um dos atores do filme, com base em um poema que Torquato havia escrito e, anos depois, em 2001, recebeu uma nova montagem e uma nova trilha sonora para a mostra Marginália 70: O Experimentalismo no Super-8.

O último ano da vida de Torquato Neto, antes de seu suicídio em novembro de 1972, foi marcado por uma série de frustrações. Em cartas para o amigo Hélio Oiticica, Torquato frequentemente escrevia sobre os filmes que desejava realizar, seus projetos de revistas alternativas para os quais não conseguia financiamento e sobre a dificuldade que ele e Waly Salomão estavam encontrando para montar a Revista Navilouca, que apenas foi lançada dois anos após sua morte, em 1974. No que diz respeito à organização de um livro com seus escritos, há apenas uma menção a esta possibilidade em uma das cartas.

Mas, segundos relatos de sua esposa, Ana Maria Duarte, antes de sua morte Torquato

tentou queimar todos seus cadernos, blocos de anotação e demais papéis. Se ele realmente

teve a intenção de organizar um livro nos últimos anos de sua vida, não sobreviveu

nenhum resquício disto. O público leitor somente pôde entrar em contato com a obra deste

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autor através do formato livro um ano após sua morte, quando Waly Salomão e Ana Maria Duarte organizaram a primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria.

Cronologicamente, portanto, esta tese se inicia um ano após a morte de Torquato Neto. Optei ao longo deste trabalho por centrar minha investigação da obra literária de Torquato Neto ao redor de suas três principais publicações: A primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria (1973); a segunda edição deste livro, que foi renomeada como Os Últimos Dias de Paupéria: Do lado de dentro (1982); e os dois volumes de Torquatália (2004).

A opção por tal recorte foi feita porque entendo que estas três edições constituem momentos chaves na construção deste autor e de sua obra. Assim, ao acompanhar o momento em que foram publicadas, a recepção que obtiveram e as leituras feitas a partir destas, pude traçar de que maneira esta obra se constitui em diálogo com diferentes processos históricos ocorridos na sociedade brasileira ao longo das décadas de 1970, 80, 90 e 2000.

Em relação às fontes utilizadas, preciso primeiramente pontuar que a pandemia que estamos vivendo desde março de 2020 teve um impacto significativo na minha capacidade de acessar as fontes com as quais inicialmente havia me proposto a trabalhar.

Não só porque deixar o Rio de Janeiro para consultar acervos em outros estados se tornou impossível, mas também porque devido à quarentena rigorosa que venho mantendo, não pude ir até os arquivos na própria cidade. Assim, dependi muito daquilo que pude acessar na internet e dos livros que pude comprar em sites variados. O leitor mais atento, portanto, notará que a maior parte dos artigos de jornal citados são provenientes ou do Jornal do Brasil ou do Correio Braziliense, uma vez que dentre os periódicos disponíveis através da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional, estes dois são os que mais publicaram artigos sobre Torquato Neto no período abordado. Além disto, embora exista um fundo Torquato Neto no Arquivo Geral da Cidade relativo ao LP lançado em 1985 pelo Centro de Cultura Alternativa, não foi possível consultá-lo. Assim, trabalhei com alguns relatórios produzidos pela equipe do próprio arquivo.

Para além disto, as principais fontes com as quais trabalhei são os já mencionados

artigos de jornal, críticas literárias publicadas em meios diversos e publicações relativas

às décadas de 1960 e 1970, no geral de cunho acadêmico. Assim, é possível dizer que as

diversas leituras da obra de Torquato Neto utilizadas na tese dizem respeito a um público

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leitor especializado e refletem as opiniões e questões relevantes para este. Em parte, isto aconteceu porque embora Torquato seja um autor razoavelmente conhecido por aqueles que se interessam por cultura durante a ditadura civil-militar, não se pode dizer que seja amplamente lido, e as discussões sobre sua obra em geral acontecem nestes contextos, principalmente em meu recorte temporal.

Em termos de estrutura, esta tese se organiza em cinco capítulos que abordam de forma quase cronológica estas quatro décadas. Digo quase porque em todo momento estou, a rigor, trabalhando com duas temporalidades diferentes: analisando, simultaneamente, a construção desta obra após a morte de seu autor e procurando situar os textos publicados nestes livros em relação ao tempo em que foram escritos. É por isto, por exemplo, que a coluna Música Popular, escrita por Torquato Neto em 1967, é abordada apenas no último capítulo, ao passo que diversos dos textos que o autor escreveu no final de sua vida foram abordados no primeiro.

Seguindo esta lógica, o primeiro capítulo se inicia com uma discussão sobre os conceitos de obra e autor a partir de alguns debates que surgiram na segunda metade do século XX acerca de ambos os termos. Tal discussão é feita a fim de situar o caso específico do autor Torquato Neto e sua obra póstuma neste debate, além de compreender de que forma os autores abordados podem contribuir para uma nova leitura destes. Após esta primeira reflexão, segue-se uma análise do livro que marca o nascimento de Torquato Neto como autor: a primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria (1973). Por fim, traço um panorama da emergência da Poesia Marginal no campo literário da década de 1970 para compreender as maneiras através das quais Torquato Neto passou a ser associado a esta.

O segundo capítulo é dedicado à análise da forma como a obra de Torquato Neto foi relida e ressignificada a partir do processo de abertura da ditadura civil-militar (1974- 1985). Neste, observa-se como Torquato foi relido a partir de sua inclusão na antologia 26 Poetas Hoje (1976) e nas discussões que marcaram o fim da década de 1970 no campo da crítica literária. O capítulo fecha com uma reflexão sobre os processos de construção da memória coletiva sobre a ditadura durante o período da abertura e as formas como a obra de Torquato Neto foi situada neste contexto.

O terceiro capítulo é inteiramente dedicado a analisar a segunda edição de Os

Últimos Dias de Paupéria, lançada em 1982. A análise é feita a partir da discussão do

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capítulo anterior acerca do período de abertura e busca traçar como Torquato Neto foi reapresentado para o público leitor neste contexto. Para tanto, procurei traçar os temas que foram enfatizados no livro e de que forma aquilo que recebeu destaque nesta edição moldou a forma como Torquato Neto seria lido nas duas décadas seguintes.

O quarto capítulo aborda as décadas de 1980 e 1990 e tem como fio condutor os conceitos de memória e mitologia. Isto porque ao longo destas duas décadas há uma consolidação da memória sobre o período ditatorial que incluiu a literatura produzida nas décadas de 1960 e 1970. Além disto, foi durante este período que surgiram trabalhos que visavam discutir uma certa mitologia do poeta romântico, marginal e suicida que ficou associada ao autor. Assim, inicio o capítulo analisando a forma como o Centro de Cultura Alternativa – fundado em 1980 com o objetivo de preservar a produção cultural das décadas de 1960 e 1970 que havia ficado fora dos circuitos oficiais – utilizou Torquato Neto para validar sua existência e atuação naquele momento. A seguir, me dedico àquilo que chamo de mitologias torquateanas, observando as formas como aparecem neste momento e de que maneira dialogam com questões específicas da época. Por fim, me detenho nos escritos que Waly Salomão publicou durante a década de 1990 sobre Torquato Neto para observar como um narrador privilegiado, no que diz respeito ao autor, compreendeu a trajetória de sua obra.

O último capítulo foi elaborado ao redor de Torquatália (2004), uma edição em dois volumes que, com em torno de 800 páginas, se configura como a publicação que reuniu a maior quantidade de escritos de Torquato Neto. Assim, o capítulo se inicia analisando o momento em que esta foi lançada, questionando o porquê desta década de 2000 ter presenciado um aumento significativo no interesse pela produção literária e cultural da década de 1970. O que se segue é uma análise dos dois volumes de Torquatália na qual dei especial atenção para diversas introduções e ensaios que o organizador desta incluiu ao longo dos livros. Por fim, destaco o fato de que as colunas que Torquato escreveu para o jornal Correio da Manhã foram pela primeira vez publicadas em livro nesta edição e traço como estas poderiam tornar mais complexa a leitura do autor.

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Capítulo 1 – O nascimento de um autor

Este capítulo dedica-se a analisar a primeira edição de Os Últimos Dias de Paupéria, que é compreendida aqui como o ato fundador desta obra literária. Assim, procurei traçar as condições do nascimento deste autor e os primeiros anos da existência deste dentro do campo literário.

Para isto, no entanto, acredito que seja necessário entender o que se quer dizer com autor, dado que esta talvez seja uma das mais controversas polêmicas literárias do século XX. Não irei, obviamente, fazer um relato exaustivo desta discussão, mas peço licença para expor abaixo algumas das questões que me parecem mais relevantes nesta discussão sobre Torquato Neto.

1.1 – Percursos de uma obra

Em 1968 Roland Barthes publicou o controverso artigo “A morte do autor” no qual declara que “A escritura é esse neutro, esse composto, esse oblíquo pelo qual foge nosso sujeito, o branco-e-preto em que vem perder toda identidade, a começar pela do corpo que escreve” (BARTHES, 2012, pg. 57), apresentando assim uma concepção de escrita e leitura que se recusa a considerar a autoria de uma determinada obra como um fator determinante para a compreensão desta.

Segundo Barthes, a figura do autor enquanto um fator importante para a

compreensão da escrita é uma fabricação que se inicia na idade moderna, que alcançou

seu ápice com o positivismo e que gerou interpretações de obras literárias que buscam

sempre explica-las a partir do “lado que a produziu, como se, através da alegoria mais ou

menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o

autor, a revelar a sua ‘confidência’” (BARTHES, 2012, pg. 58). No entanto, Barthes

continua, as experimentações literárias do modernismo aliadas ao surgimento da

linguística enquanto disciplina erodiram aos poucos o prestígio do autor enquanto

ferramenta analítica, pois para a linguística o autor não é uma pessoa no sentido

psicológico, mas apenas aquele que escreve, e o sujeito só existe na enunciação que o

define, produzindo-se junto com ela. Isto significa dizer que no texto moderno o tempo

já não é mais o mesmo, pois o Autor (que Barthes grafa desta forma, com letra maiúscula)

é concebido como o passado do livro, o progenitor deste que o haveria imaginado e

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sonhado, ao passo que para a concepção de Barthes o escritor só existe no e dentro do tempo da escrita.

O impacto que tal concepção tem na compreensão do que significa interpretar e ler um texto é considerável e é justamente este o motivo da contínua fama e polêmica deste pequeno artigo de Barthes. Isto porque quando se abole a figura do autor enquanto chave interpretativa não faz mais sentido o esforço de tentar decifrar um texto em busca de seus significados ocultos originais. Sem um Autor – ou um de seus substitutos, tais como a sociedade, a história, a psique, etc. – para prover um significado originário e estável, o leitor tornar-se o ponto focal da reflexão sobre a escrita e a leitura. Para Barthes:

um texto é feito de escrituras múltiplas, oriundas de várias culturas e que entram umas com as outras em diálogo, em paródia, em contestação; mas há um lugar onde essa multiplicidade se reúne, e esse lugar não é o autor, como se disse até o presente, é o leitor: o leitor é espaço mesmo onde se inscrevem, sem que nenhuma se perca, todas as citações de que é feita uma escritura (BARTHES, 2012, pg. 64).

Um ano depois da publicação deste texto, Foucault apresentou para a Sociedade Francesa de Filosofia a conferência “O que é um autor?” na qual ele argumenta que embora a crítica e a filosofia tenham constatado o desaparecimento do autor, estas não observaram rigorosamente as consequências desta constatação. Foucault argumenta que na esteira da morte do autor surgiram duas noções que, destinadas a substituir o privilégio do autor, acabaram por camuflar o quanto o autor ainda estava presente na lógica que guia as práticas interpretativas.

A primeira destas noções é a de obra. Segundo Foucault, a crítica moderna diz que

“o propósito da crítica não é destacar as relações da obra com o autor, nem querer reconstruir através dos textos um pensamento ou uma experiência; ela deve antes analisar a obra em sua estrutura, […] e no jogo de suas relações internas” (FOUCAULT, 2006, pg.

269) . O que torna, portanto, necessário que se questione o que seria esta unidade a qual se nomeia obra. Para Foucault, este é um problema ao mesmo tempo teórico e técnico.

Teórico na medida em que é necessário pensar se uma obra não seria justamente algo que é escrito por aquele que é um autor, e técnico porque ao lidar com a obra de um autor específico é preciso selecionar dentre os milhões de escritos deixados por este após a sua morte o que deve ou não fazer parte da obra deste.

Como exemplo, Foucault questiona se um endereço anotado no canto de um

manuscrito de um famoso autor deve ou não ser publicado em uma edição das obras

completas deste e, se for negativa a resposta, como deve-se traçar este limite entre o que

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faz e o que não faz parte da obra de um autor. Para Foucault, é insuficiente declarar que é preciso deixar de lado o autor e estudar a obra pois “a palavra ‘obra’ e a unidade que designa são provavelmente tão problemáticas quanto a individualidade do autor.”

(FOUCAULT, 2006. p. 270)

Este questionamento levantado por Foucault parece particularmente relevante para discutir-se a obra literária de Torquato Neto, dado que até hoje existem diferentes perspectivas acerca do que consistiria a totalidade desta.

Exemplo disto foi a publicação, em 2003, da coletânea “Torquatália”, a qual tinha como objetivo ser uma edição de todos os escritos de Torquato Neto. Esta coleção, organizada em dois volumes, um dedicado ao trabalho jornalístico de Torquato Neto e outro dedicado às poesias, cartas, diários, roteiros, anotações e outros materiais, foi fruto da colaboração do organizador Paulo Roberto Pires com a viúva de Torquato Neto, Ana Maria de Araújo Duarte. No próprio site da editora Rocco esta edição é apresentada assim:

É inestimável o valor de Torquatália, livro organizado pelo escritor e jornalista Paulo Roberto Pires em dois volumes – Do lado de dentro e Geléia Geral – que reúnem toda a obra escrita conhecida de Torquato Neto (ROCCO, s/d).

No entanto, em 2009 o acervo de Torquato Neto trocou de mãos, sendo enviado por Ana Maria Duarte do Rio de Janeiro para Teresina, onde encontra-se atualmente sob os cuidados de George Mendes, primo de Torquato Neto. Em uma entrevista para Maurício Duarte, Mendes comentou sobre como recebeu o acervo em 2009 e relatou sua perspectiva sobre a história deste. Assim, lê-se no artigo:

Por 38 anos, sua viúva, falecida em 2016, tratou do acervo. Aos poucos foi publicando aquilo que considerou, juntamente com amigos mais chegados – Waly Salomão, Oscar Ramos, Luciano Figueiredo –, o que era mais relevante e melhor acabado. […] O curador revela ainda que durante um tempo, apesar de ter tudo sob seus cuidados, a viúva de Torquato chegou a querer fazê-lo acreditar que havia queimado tudo. Felizmente não foi assim.

‘No acervo encontramos letras de músicas, poemas acabados e inacabados, postais, pôsteres, fotografias, originais de matérias de jornais, discos, livros, cartas, cadernos de anotações, diários. Hoje tudo está estudado, classificado, ordenado em pastas e digitalizado para ser publicado no site oficial do poeta’, conta. (DUARTE, 2017)

George Mendes, como se nota, possui uma visão diferente de Ana Duarte sobre o

que deve ser incluído na obra de Torquato Neto e, assim, em 2012 publicou através de

sua pequena produtora dois livros com poemas inéditos de Torquato Neto.

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O primeiro deles, intitulado O Fato e a Coisa é composto de poemas escritos entre os anos de 1962 e 1964 e, segundo a contracapa do livro: “Trata-se do único livro de poesias de Torquato Neto concebido como tal. […] nele já se anunciam os principais recursos que caracterizariam sua produção futura.” (BORGES, 2012. n/p) O outro livro, intitulado Juvenílias, é composto de poemas escritos durante a infância e adolescência de Torquato Neto. Em relação a este livro podemos apenas especular o tipo de conflitos e discussões que podem ter ocorrido no que diz respeito à decisão de publicá-lo ou não, mas acredito ser sintomático que o texto da contracapa comece precisamente justificando o porquê da edição existir, ao dizer que: “É fundamental a publicação de tudo o que um artista produziu em vida (mesmo que não tenha autorizado a publicação post mortem)”

(CUNHA, 2012. n/p). Principalmente, é interessante a frase que se encontra entre parênteses, que parece querer dizer que uma vez que não é possível obter-se a autorização do autor post mortem, cabe àqueles responsáveis pelo acervo publicar tudo que puderem.

Assim, estas edições ilustram de forma bastante evidente a instabilidade da obra de Torquato Neto e a dificuldade que se tem em definir o que ela compreende.

Retornando ao texto de Foucault, ele descreve uma segunda noção que era destinada a substituir o privilégio do autor, mas que acabou por apenas camuflá-lo: a de escrita. A ideia de escrita deveria permitir não somente dispensar a referência ao autor, mas redefinir a sua ausência. Segundo Foucault, a forma como a noção de escrita é aplicada não trata nem do gesto de escrever nem da forma física do pensamento de alguém.

A escrita é pensada como a condição geral de qualquer texto. Assim, Foucault questiona se dar à escrita um estatuto originário não seria traduzir em uma nova forma justamente o princípio interpretativo que busca no texto decifrar suas significações ocultas e explicar os conteúdos implícitos.

Foucault, portanto, declara que não basta apenas repetir que o autor morreu e que

“o que seria preciso fazer é localizar o espaço assim deixado vago pela desaparição do autor, seguir atentamente a repartição das lacunas e das falhas e espreitar os locais, as funções livres que essa desaparição faz aparecer.” (FOUCAULT, 2006. p. 271)

Uma destas funções é o nome do autor. Segundo Foucault, a ligação que um nome

próprio tem com o indivíduo que é nomeado e a ligação do nome de autor com o que ele

nomeia funcionam de maneiras muito diferentes. O nome de autor, ao contrário de um

nome comum, age de forma classificatória, permitindo agrupar um certo número de textos

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e excluir outros. Ele indica que “se trata de uma palavra que deve ser recebida de uma certa maneira e que deve, em uma dada cultura, receber um certo status” (FOUCAULT, 2006. p. 274).

Este status discursivo específico que o nome de autor imprime em um texto, Foucault chama de função autor, sobre a qual, afirma:

[…] pode-se dizer que há, em uma civilização como a nossa, um certo número de discursos que são providos da função ‘autor’, enquanto outros são dela desprovidos. Uma carta particular pode ter um signatário, ela não tem um autor; um contrato pode ter um fiador, ele não tem um autor. Um texto anônimo que se lê numa parede terá um redator, não terá um autor. A função autor é, portanto, característica do modo de existência, de circulação e de funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade. (FOUCAULT, 2006. p. 274)

Foucault observa que os textos e livros começaram a ter autores, da forma como entendemos hoje, na medida em que o autor poderia ser punido e que discursos poderiam ser transgressores. O discurso, Foucault coloca, não era originalmente um produto ou uma propriedade, era essencialmente um ato, que poderia ser sagrado ou profano. “Ele foi historicamente um gesto carregado de riscos antes de ser um bem extraído de um circuito de propriedades” (FOUCAULT, 2006. p. 275).

Roger Chartier, ao fazer, três décadas depois, uma revisão deste texto, apresenta um exemplo bem interessante de como a função autor atuava durante este período ao qual Foucault se refere, ou seja, do século XVI ao XVII. Chartier relata que o Índex da Inquisição espanhola de 1612 apresenta três classes de condenação e, em todas elas, está em jogo a função autor. Na primeira classe, condena-se “os autores enquanto tais, não livros específicos, mas a obra dos autores hereges ou suspeitos de heresias” (CHARTIER, 2014. p. 54). A segunda classe refere-se a títulos específicos e não a autores, mas, Chartier coloca, mesmo nesta classe a função autor é essencial pois os livreiros e editores eram obrigados a expedir, a cada 60 dias, uma lista organizada em ordem alfabética dos sobrenomes dos autores dos livros que possuíam em suas lojas, para que os inquisidores pudessem conferir junto ao índex se determinada obra não se encontrava proibida. Por fim, a terceira classe condena todos os livros publicados anonimamente. Assim, observa- se neste exemplo “a prefiguração da função autor em razão das exigências da censura, da proibição e da repressão” (CHARTIER, 2014. p. 56).

Foucault segue dizendo que na medida em que se instaurou um regime de

propriedade para os textos, com regras sobre direitos autorais, relação autor-editor e

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direitos de reprodução, ou seja, entre o fim do século XVIII e o início do século XIX, a possibilidade de transgressão atribuída ao ato de escrever adquiriu o aspecto de um imperativo específico da literatura. Como se o autor literário compensasse seu novo status neste sistema de propriedade com a prática sistemática da transgressão, assim restituindo o perigo a uma escrita que passava a possuir os benefícios da propriedade.

Acerca desta segunda cronologia com a qual Foucault trabalha, Chartier coloca que esta deveria ser deslocada do fim do século XVIII para o início deste, pois um momento crucial na história do desenvolvimento do copyright se passou após o estatuto da Rainha Ana ser votado pelo parlamento inglês em 1709. Antes disso, a Stationer’s Company, comunidade de livreiros e editores de Londres, possuía em seu estatuto uma dupla regulamentação na qual somente os membros desta comunidade podiam registrar copyrights – o que impedia autores e livreiros de outras províncias de o fazerem – e, de acordo com a qual, o monopólio do copyright registrado para a obra adquirida junto aos autores era perpétuo. Chartier esclarece que neste momento o termo era usado para referir- se não ao direito sobre a obra, mas sim ao direito de reprodução.

O estatuto de 1709 quebrava esse monopólio da Stationer’s Company ao permitir

que os autores registrassem suas próprias obras e ao limitar o copyright a um limite de 14

anos. Assim, os livreiros de Londres tiveram de inventar – junto a seus advogados, a fim

de processar livreiros e editores de outras províncias – a propriedade literária, ou seja, o

princípio através do qual o autor de um texto é seu proprietário perpétuo e sua posse sobre

o texto é imprescritível. Assim, quando esse texto é cedido a um terceiro, tal como um

livreiro, o autor transmitiria junto com o texto essas características. Para Chartier, “é no

interior desse processo judicial e, ainda para a defesa de um privilégio tradicional, que se

inventa o autor proprietário de sua obra, o que ao mesmo tempo atua como um forte

incentivo à função autor.” (CHARTIER, 2014. p. 44) Ele complementa dizendo que a

dupla justificativa que constrói a função autor neste momento é, por um lado,

fundamentada na teoria do direito natural, na qual o homem seria proprietário dos

produtos de seu trabalho, e por outro lado é uma justificativa de ordem estética, que se

apoia na categoria de originalidade, que se impôs no século XVIII como uma categoria

intelectual e estética fundamental. Para Chartier, “É essa singularidade irredutível do

senso de estilo e da linguagem manifestos na obra que funda esteticamente,

intelectualmente, a propriedade de seu autor sobre ela.” (CHARTIER, 2014. p. 45)

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Um outro ponto que ele ressalta é a disputa acerca do limite de 14 anos. Este período de tempo foi definido no Estatuto da Rainha Ana por ser o mesmo limite temporal imposto a patentes relativas a invenções técnicas, de procedimentos mecânicos e de máquinas. A intenção do parlamento, portanto, era equiparar uma composição literária a uma invenção técnica. A reação por parte dos livreiros londrinos e de seus advogados veio no sentido “de mostrar que a obra literária não era identificável a uma invenção técnica porque ela era caracterizada como uma criação irredutivelmente singular e original, separada de toda materialidade.” (CHARTIER, 2014. p. 45)

Tal distinção é particularmente importante pois marca uma separação entre, de um lado, o texto que existe enquanto uma entidade fundamental que é fruto de um ato criador, da expressão de uma genialidade e, do outro, todas as formas materiais que esta obra pode assumir. Chartier escreve que:

Este é o ponto fundamental da própria definição da noção moderna de copyright, que se aplica a uma obra que está presente em todos os lugares, mas que não existe em parte alguma, sendo seus critérios de identificação de ordem puramente estética ou intelectual. (CHARTIER, 2014. p. 46)

Nesta concepção que surge no século XVIII, a obra passa por um processo de desmaterialização no qual ela passa a ser compreendida de forma independente das formas materiais que possa assumir.

Tal ponto parece-me ser particularmente interessante numa reflexão acerca da obra literária de Torquato Neto pois, como veremos mais à frente, as edições de seus escritos parecem existir sempre nesta tensão entre explicitar os suportes materiais e os modos originais de existência dos textos publicados e enfatizar o texto enquanto uma unidade que independe de suas formas materiais originais.

Em algum nível, pode-se dizer que ambos os processos estão presentes em todas as edições, mas tal desmaterialização da obra literária de Torquato Neto parece ter tomado mais força nesta última década, quando foram editadas duas novas coletâneas cujos critérios de seleção e organização são, principalmente, de ordem estética e temática. Serão observadas, portanto, as diversas formas como determinadas edições jogam com a função autor Torquato Neto e o impacto que isto tem na editoração.

Por fim, gostaria de destacar algumas características que Foucault atribui à função

autor. A primeira é que a função autor não age sobre todos os discursos em uma dada

sociedade da mesma forma. Por exemplo, artigos científicos em nossa sociedade não

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possuem um autor da mesma forma que textos literários, na medida em que a legitimidade de um artigo científico não está de forma tão decisiva atrelada ao seu autor.

A segunda característica é que a função autor não se desenvolve espontaneamente como uma atribuição de um discurso a um indivíduo. “É o resultado de uma operação complexa que constrói um certo ser de razão que se chama autor” (FOUCAULT, 2006. p.

276). Segundo Foucault, tenta-se, no geral, dar a este ser de razão um status realista, geralmente atribuindo-lhe um poder criador e designando-o como o local originário da escrita. No entanto, Foucault continua, o que no indivíduo seria designado como autor “é apenas uma projeção […] do tratamento que se dá aos textos, das aproximações que se operam, dos traços que se estabelecem como pertinentes, das continuidades que se admitem ou das exclusões que se praticam” (FOUCAULT, 2006. P. 277). Para crítica literária moderna, Foucault escreveu, o autor é aquilo que permite explicar certos acontecimentos dentro de uma obra e suas transformações. Assim, as diferenças dentro de uma mesma obra são explicadas a partir de uma ideia de maturação ou de evolução. A biografia do autor permite em alguns casos a naturalização da união de textos que, de outra forma, dificilmente seriam vinculados.

Isto é particularmente evidente no caso em questão, porque embora a autoria de Torquato Neto seja sempre o elemento crucial que justifica a existência de um livro com seus escritos, o homem Torquato Neto jamais possuiu, de fato, a propriedade intelectual, ou o copyright, de sua obra literária, dado que durante seu período de vida esta não existia.

Esta obra difusa, composta de artigos de jornal, escassos cadernos, diários íntimos, letras de música, roteiros de filmes nunca filmados e outros escritos de difícil classificação, só adquire uma coerência, só sustenta as relações de continuidade, rupturas e deformações no interior desta a partir desta figura aglutinadora que é o autor Torquato Neto.

Para compreender como esse autor veio a ser, partiremos aqui da discussão teórica para uma análise da edição que criou o autor Torquato Neto e que estabeleceu um paradigma acerca desta obra que demorou mais de trinta anos para ser rompido.

1.2 – Os Últimos Dias de Paupéria, a primeira edição

No dia 21 de outubro de 1973, uma pequena nota no Caderno B do Jornal do

Brasil anunciava que a livraria Eldorado já havia terminado de preparar uma coletânea de

trabalhos de Torquato Neto organizada por Waly Sailormoon e que esta seria lançada até

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o final do mês. Alguns meses depois, em 16 de dezembro do mesmo ano, uma nova nota neste mesmo caderno informava que o livro em si já estava pronto para ser lançado, mas que a Phonogram, empresa que seria responsável pela prensagem do disco compacto que deveria acompanhar o livro, decidiu não prensá-lo e, portanto, o lançamento seria adiado até que esta questão fosse resolvida.

Em artigo para a Folha de São Paulo em novembro de 1995, Waly Salomão escreveu que “o livro incluía um disco com Gal-Gil e, aliás, para que o disco existisse, tive que aplicar lances parecidos com a técnica de guerra de guerrilha urbana da época”

(SALOMÃO, 1995). Quais exatamente foram estes “lances” que ele teve que aplicar não é explicado no artigo, mas tanto pela nota do Jornal do Brasil quanto pela declaração de Salomão, pode-se inferir que o lançamento do compacto que acompanhava o livro foi um processo cheio de dificuldades.

O livro foi finalmente lançado no final do ano de 1973. Em uma pequena matéria do jornal Diário de Notícias, a jornalista Vera Lúcia escreveu que Ana Duarte, a viúva de Torquato neto, havia optado por atrasar um pouco o lançamento do livro pois não queria que este coincidisse com o aniversário de um ano da morte de Torquato. Além disso, a pequena matéria nos informa que um lançamento oficial estava sendo cogitado pelos editores, mas que Ana Duarte tinha dúvidas sobre a validade de tal evento, uma vez que não haveria autor para autografar os exemplares.

O livro saiu apenas em brochura, com uma capa que contém uma foto de Torquato alterada para aparecer apenas em tons de cinza. Por cima da foto estão inscritos os versos:

“Eu sou como sou/ vidente/ e vivo tranquilamente/ Tôdas as horas do fim” na letra do próprio Torquato. Abaixo desta inscrição, estão o nome de Torquato Neto e o título do livro. Acerca do título, Waly Salomão escreveu na Folha de São Paulo na década de 1990:

Vi e ouvi: Torquato me contou num bar que existia na avenida Ataulfo de Paiva, próximo do Teatro de Bolso do Leblon, que queria fazer um filme chamado "Os Últimos Dias de Paupéria". Nada restou deste anteprojeto.

Não foi encontrado nenhum resquício de roteiro, nenhum fiapo de argumento ou diálogo. Devaneio? Quimera? Mera máquina desejante no vácuo? O relatório final da equipe de resgate: era somente um título acerbo- espirituoso. Restava uma paródia de título de filme americano, uivando contra o esquecimento: "Os Últimos Dias de Paupéria" (SALOMÃO, 1995).

A página seguinte, que vem antes mesmo das informações sobre a editora,

organização e planejamento gráfico, possui uma outra foto em preto e branco de Torquato

e novamente o título do livro e seu nome. As duas folhas que se seguem trazem algumas

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informações sobre a editora, ano de impressão e ressaltam que o livro foi organizado por Waly Sailormoon e que a capa e o planejamento gráfico foram realizados por Ana Maria Silva de Araújo.

A isto segue-se o poema de Augusto de Campos Como é, Torquato que, segundo a mesma matéria citada acima do Diário de Notícias, foi enviado por carta para Ana Maria Duarte após a morte de Torquato. Esta informação, no entanto, não está disponível no próprio livro. Seguindo este poema de Augusto de Campos, está o poema Cogito, um dos mais famosos e citados poemas de Torquato, com uma indicação no canto da página de que este foi escrito em vinte de outubro de 1970.

Na página seguinte começa a primeira das duas seções do livro, que é dedicada à coluna Geléia Geral. Esta seção é anunciada apenas com título Geléia Geral no meio de uma folha em branco. Virando a página, um índice com os nomes das colunas e a página onde cada uma está.

Percebe-se que o planejamento gráfico de Ana Duarte para esta primeira seção

priorizou manter, na medida do possível, o formato através do qual a coluna se

apresentava no jornal, adicionando apenas a data de publicação de cada uma no canto

inferior esquerdo da página. Além disso, tentou-se manter uma coluna por página, o que

faz com que o tamanho da fonte varie bastante de coluna para coluna. Ausentes, no

entanto, estão as pequenas notas que vinham no final de algumas colunas nas quais eram

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noticiados novos acontecimentos no campo da cultura e nas quais eram recomendados diversos espetáculos, filmes e discos.

Figura 01 – Capa de Os Últimos Dias de Paupéria

A opção pela remoção destas notas faz sentido na medida em que as informações que elas continham não seriam relevantes para o leitor do livro da mesma forma que eram para quem lia a coluna no jornal. Os eventos que estavam lá anunciados pertenciam a uma vida cotidiana, cara à linguagem da coluna do jornal que, no entanto, ficaram no passado.

Além disso, é possível teorizar que Waly Salomão e Ana Maria Duarte estavam

trabalhando com um número limitado de páginas e que optaram por retirar estas notas por

questões práticas. No entanto, seja qual for o motivo, a ausência destas notas tem um

duplo efeito: ao mesmo tempo em que coloca em maior destaque o texto que está sendo

publicado no livro, afasta este texto ainda mais de sua “encarnação” como coluna que era

publicada diariamente em um jornal de grande circulação. Desmaterializa-o.

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Ao todo, foram publicadas, em ordem cronológica, quarenta das várias colunas que Torquato havia publicado no Última Hora. Uma tentativa de categorizar as colunas escolhidas para esta edição através de um crivo temático encontrou o seguinte resultado:

três colunas cujo tema principal é a questão das sociedades de direitos autorais no Brasil;

nove colunas que abordam de forma preponderante questões relativas ao cinema nacional;

10 colunas que tratam principalmente de música; e 18 colunas que contém poemas e/ou prosas poéticas e/ou aforismos.

O problema em realizar tal classificação destas colunas é, acredito, bastante claro.

Na tentativa de criar este recorte, as três primeiras categorias se sustentam sem grandes problemas, afinal dificilmente seria possível ler as colunas em questão e discordar acerca de qual seria o tema principal destas. A última categoria, no entanto, não é uma categoria cujo critério é temático, mas sim estético e agrupa escritos que mesmo sendo muito diferentes uns dos outros me pareceram de alguma forma mais “literários”, o que é, obviamente, um critério absolutamente subjetivo.

Distinguir o que é poesia ou literatura daquilo que seria jornalismo ou diário íntimo na obra de Torquato Neto é, sem dúvida, tarefa tão difícil quanto infrutífera.

Diversos escritos aos quais tem-se acesso hoje em dia habitam justamente este local de difícil classificação. A própria coluna Geléia Geral é o exemplo mais óbvio disto. No entanto, é possível afirmar que em algumas das colunas o que está em primeiro plano é a própria linguagem, como se pode observar na coluna abaixo:

Figura 02 – Reprodução de página de Os Últimos Dias de Paupéria

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Em comparação, o artigo Problemão, publicado na Geléia Geral e também editado em Os Últimos Dias de Paupéria, possui um tom completamente diferente:

1 – O direito autoral no Brasil vem-se constituindo num grave problema, que afeta diretamente (economicamente) toda uma classe profissional, a dos compositores.

2 – O sistema de arrecadação dos direitos é deficiente. Dirigentes das sociedades existentes (quatro: só no Brasil existem tantas), são os primeiros a reconhecer o problema. (NETO, 1973. p. 14)

A preponderância deste tipo de coluna que coloca a linguagem em primeiro plano define claramente o objetivo dos organizadores em apresentar, logo de cara, o autor Torquato Neto como um poeta ou um escritor de literatura.

A seção dedicada à Geléia Geral termina na página 56 e, após, segue-se uma página não numerada com o título da nova seção, D’Engenho de Dentro, exposto da mesma forma que o título da seção anterior. Não há qualquer tipo de indicação acerca do que se trata esta nova seção, que se inicia com entradas do diário que Torquato escreveu enquanto estava internado em um hospital psiquiátrico. Mais de duas décadas depois do lançamento de Os Últimos Dias de Paupéria, Waly Salomão escreveu:

Todas as crônicas, poemas, rascunhos, confissões do sanatório que depois dei o título polissêmico de “ D’Engenho de Dentro”, tudo tinha de ser cancelado, borrado, apagado, queimado e Ana Duarte resgatou da lixeira pouco antes de ser incinerado tudo tudo o que veio depois a constituir o volume que eu e ela organizamos: Últimos dias de Paupéria. (SALOMÃO, 1993. p. 59)

O título, portanto, foi uma invenção de Waly Salomão que, em sua polissemia, refere-se tanto ao sanatório do Engenho de Dentro, onde Torquato ficou internado, quanto àquilo que é fruto da engenhosidade da mente de Torquato Neto. Ao leitor, no entanto, nada disso é esclarecido. É preciso ler as primeiras entradas para que se entenda que se trata de um diário que Torquato Neto escreveu no hospício e, mesmo assim, caso o leitor não esteja familiarizado com o sanatório do Engenho de Dentro, o título da seção tampouco fará sentido.

As sete primeiras entradas correspondem a um período que vai do dia 7 ao dia 14

de outubro, sem que se informe o ano. A entrada que se segue é do dia 20 do mesmo mês

e as duas seguintes dos dias 12 e 13 de novembro. A estas duas segue-se uma entrada que

está marcada como tendo sido escrita no dia 21 de novembro de 1970, a única que

explicitamente foi escrita no ano de 1970. Após esta há uma do dia 9 de dezembro, a qual

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