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Rev. Assoc. Med. Bras. vol.58 número1

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Rev Assoc Med Bras 2012; 58(1):14

Colite isquêmica induzida por cocaína

JARBAS FARACO MALDONADO LOUREIRO1, ROBERTO MANSUR2, PAULO ALBERTO FALCO PIRES CORREA3, JULIANA MARQUES DRIGO4,

CAROLINA VIANA TEIXEIRA4, CLAUDIO ROGERIO SOLAK4, ELIAS JIRJOSS ILIAS5

1 Médico do Serviço de Endoscopia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil 2 Cirurgião do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil

3 Médico do Serviço de Endoscopia e Cirurgião do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil 4 Médicos Residentes do Serviço de Endoscopia do Hospital Sírio-Libanês, São Paulo, SP, Brasil 5 Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, São Paulo, SP, Brasil

©2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados.

INTRODUÇÃO

A colite isquêmica em adultos jovens é um fenômeno inco-mum. Dentre as etiologias não oclusivas, o uso de cocaína pode ser citado como causador desse tipo de lesão, já que é demonstrado que essa droga pode ocasionar alterações cardiovasculares, como infarto do miocárdio, arritmias e eventos cerebrovasculares, independentemente da via de consumo. As consequências gastrointestinais do uso de cocaína são pouco frequentes; porém, quando ocor-rem, podem se manifestar como úlceras gastroduodenais, infarto mesentérico e isquemia intestinal. Os mecanismos propostos são multifatoriais e incluem toxicidade direta da mucosa intestinal, vasoconstrição mesentérica e alte-ração da agregação plaquetária, os quais geram isquemia focal. O quadro clínico associado ao uso da droga geral-mente é evidente entre 24 e 72 horas de uso consecutivo. O processo inlamatório e a isquemia são mais frequentes no cólon distal1,2.

OBJETIVO

Relatar um caso de colite isquêmica em homem adulto jovem, usuário de cocaína, que se apresentou com dor ab-dominal e hematoquezia.

RELATODO CASO

Homem, 43 anos, com dor abdominal difusa, sem sinais de irritação peritoneal, com antecedente de uso prolonga-do e recente de grande quantidade de cocaína inalatória. Submetido a TC abdominal sem alterações. Melhora in-suiciente com analgésicos, evoluindo com hematoquezia e discreta leucocitose após uma semana. Realizada colo-noscopia que revelou úlceras lineares e irregulares, ede-ma e enanteede-ma no cólon sigmoide (Figura 1). A biópsia evidenciou colite crônica com raros capilares ectásicos supericiais, não afastando colite isquêmica. A

propedêu-tica cardiológica com ecocardiograma e cintilograia não mostrou alterações. Observou-se melhora com tratamen-to clínico. Controle colonoscópico foi realizado após qua-tro meses de suporte clínico e suspensão do uso da droga, quando se evidenciou regressão total das alterações en-doscópicas prévias (Figura 2).

DISCUSSÃO

As complicações isquêmicas intestinais associadas ao uso de cocaína são raras. Estariam explicadas pela atividade vasoconstritora da droga, a qual depende de sua capaci-dade de manter a estimulação alfa-adrenérgica intestinal inibindo a recaptação de dopamina e noradrenalina na membrana pré-sináptica. Além disso, com o uso da co-caína há também um aumento no inluxo de cálcio na membrana endotelial. Ambos os mecanismos ocasionam vasoconstrição e consequente diminuição do aporte san-guíneo. É demonstrado que a cocaína aumenta a agregação plaquetária e a formação de trombos por meio do aumento de tromboxano A2 e diminuição de eicosanoides. Estudos em coronárias colocam em evidência o dano endotelial direto, assim como outros estudos em animais demons-tram dano direto sobre a mucosa intestinal. Na revisão de literatura observa-se que os casos de colite isquêmi-ca secundária ao uso de coisquêmi-caína independem da forma de administração da droga (endovenosa ou inalatória) e, em geral, os pacientes são consumidores frequentes e em quantidades representativas. Na grande maioria dos casos, o quadro clínico se iniciou com dor abdominal e sangramento digestivo baixo. Nos casos em que a endoscopia digestiva alta foi realizada previamente à colo-noscopia, algumas alterações endoscópicas foram nota-das, como edema da mucosa gástrica, enantema difuso, ulcerações e hemorragias subepiteliais1,2.

CONCLUSÃO

Em pacientes com história clínica de dor abdominal, he-matoquezia e uso de cocaína, deve-se considerar a hipóte-se de colite isquêmica, mesmo hipóte-sem evidências clínicas de alterações cardíacas ou neurológicas.

REFERÊNCIAS

1. Ellis CN, McAlexander WW. Enterocolitis associated with cocaine use. Dis Colon Rectum. 2005;48(12):2313-6.

2. Ruiz-Tovar J, Candela F, Oliver I, Calpena R.Sigmoid colon stenosis: a long-term sequelae of cocaine-induced ischemic colitis. Am Surg. 2010;76(9):E178-9.

Imagem

Figura 1  Figura 2

Referências

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