CONSUMO - PPGCOM
Luciana da Silva Corrêa
“ELE É MEU AMIGO”:
comunicação, consumo de smartphones e o envelhecimento conectado
São Paulo 2018
“ELE É MEU AMIGO”:
comunicação, consumo de smartphones e o envelhecimento conectado
Dissertação apresentada ao PPGCOM ESPM como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo.
Orientadora: Profa. Dra. Gisela Granjeiro da Silva Castro
São Paulo 2018
Autorizo a reprodução total ou parcial da minha dissertação “‟Ele é meu amigo‟:
comunicação, consumo de smartphones e o envelhecimento conectado”, para fins de estudo e pesquisa, desde que seja sempre citada a fonte.
Luciana da Silva Corrêa
“ELE É MEU AMIGO”:
comunicação, consumo de smartphones e o envelhecimento conectado
Dissertação apresentada ao PPGCOM ESPM como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo.
São Paulo, 26 de fevereiro de 2018
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________________
Orientadora e Presidente da Banca:
Profa. Dra. Gisela Granjeiro da Silva Castro - ESPM – SP
____________________________________________________________
Avaliador Externo
Prof. Dr. José Carlos Ribeiro - UFBA
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Avaliadora Interna
Profa. Dra. Tania Hoff – ESPM - SP
Dedico este trabalho aos meus pais, Gentil (in memorian) e Dulce (in memorian). Deles recebi o maior presente que alguém pode dar: a vida que me trouxe até este momento.
Com especial carinho, volto-me à minha mãe, minha companheira, minha amiga, minha grande incentivadora.
Mulher corajosa e forte, mas, ao mesmo tempo doce.
Grande exemplo de vida. Sei que, onde quer que esteja, a senhora continua vibrando por mim. Espero ter lhe feito orgulhosa.
Agradecimentos
Palavras têm dificuldade de descrever o desafio que uma pós-graduação apresenta. Em uma mistura de sentimentos, preocupações e desafios, “mestrar” exige determinação, coragem e dedicação. Certamente, sem o apoio imprescindível de algumas pessoas, eu não teria conseguido alcançar a realização deste sonho.
Primeiramente, dirijo meus agradecimentos à CAPES e ao PPGCOM da ESPM-SP pela bolsa de estudos que me permitiu acesso a uma formação de excelência.
Agradeço à Profa. Dra. Gisela Castro, minha orientadora. Seu incentivo permanente, sua generosidade no compartilhamento de conhecimento e a orientação segura foram essenciais para a construção deste trabalho. Agradeço também a todos os professores e professoras com quem um dia tive o privilégio de estudar. Há um pedacinho de cada um nesta trajetória.
À Profa. Dra. Maria Aparecida Ferrari, meus agradecimentos pela rica discussão que me levou ao apaixonante tema dos estudos sobre o envelhecimento.
Aos colegas da M-16 e do GRUSCCO, professores do PPGCOM e funcionários da secretaria meus agradecimentos por terem compartilhado comigo este caminho.
Agradeço ao Prof. Dr. Antonio Jordão Netto, coordenador da Universidade Aberta à Maturidade da PUC – SP e da UniSantanna, pela generosidade em me oferecer acesso aos respondentes desta pesquisa. Agradeço também aos respondentes - alunos, alunas, colegas e amigos - que se dispuseram a conversar comigo sobre suas experiências com smartphones.
A realização deste curso de mestrado coincidiu com um momento de vida no qual eu me vi repetidamente testada pelas circunstâncias e acontecimentos. Nestes momentos, o apoio de algumas pessoas foi crucial para que eu continuasse trilhando meu caminho acadêmico. A Katia Penteado, Cida Napoli e Ana Paula D‟Agostino, amigas queridas, meu agradecimento por estarem incondicionalmente ao meu lado. Por ouvirem sem julgamentos, por me oferecerem seu ombro para os momentos de choro, por comemorarem comigo as conquistas.
A todos os meus familiares e amigos pela torcida e as palavras de incentivo, meu sincero muito obrigada.
Meus agradecimentos também a Erika do Nascimento, Janaína Bispo dos Santos e Cristina Maria dos Santos, por se desdobrarem para que, na reta final, eu pudesse ter a tranquilidade necessária para realizar este trabalho.
E, por fim, meu mais profundo agradecimento ao meu amor, meu melhor amigo, meu companheiro. Robert, saber que você está ao meu lado é o bálsamo para os momentos difíceis e o incentivo para superá-los, é o brilho a mais nas conquistas. Você vibrou comigo, se orgulhou, se preocupou, se alegrou. Cada instante sua presença foi sentida de forma especial.
Obrigada pela paciência, pela compreensão e pelo amor. Você é grande parte da realização deste sonho.
CORRÊA, Luciana S. “Ele é meu amigo”: uma discussão sobre o consumo de smartphones e sua apropriação por mulheres idosas. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo, Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), São Paulo.
RESUMO
Apoiando-se no tripé teórico que engloba os estudos do envelhecimento, a cibercultura e os estudos das interfaces comunicação e consumo, esta dissertação toma os smartphones como objeto empírico para discutir o consumo e a apropriação dos dispositivos inteligentes na vida cotidiana de mulheres de 60 e 80 anos, de classes média e média alta, residentes na cidade de São Paulo. Partindo da hipótese que o aparelho é um elemento facilitador das conexões destas pessoas com família e amigos, vislumbramos que o smartphone se destaca como meio de comunicação deste público. Entendendo que, em uma perspectiva contemporânea, o binômio idoso e tecnologias inteligentes já não pode ser considerado paradoxal, nosso estudo pretende trazer à tona os significados culturais atribuídos aos smartphones e o papel desempenhado pelas idosas nas práticas de consumo associadas ao artefato. Neste sentido, compreendemos que uma das formas de envelhecer que marcam o século XXI pressupõe a existência do que temos chamado nesta dissertação de uma “velhice conectada”. Nossa pesquisa se desenvolveu em três etapas – revisão bibliográfica; sondagem online e entrevistas pessoais; e análise crítica. A análise crítica de cunho cultural e reflexivo conclui que velhice e tecnologia podem efetivamente caminhar lado a lado e que a incorporação ou não de dispositivos inteligentes na vida cotidiana de idosas não é uma questão atrelada exclusivamente à idade cronológica, mas encontra-se calcada em variáveis como história pessoal e profissional; estilo de vida;
interesses pessoais e aspirações.
Palavras-chave: Comunicação e Consumo. Cibercultura. Smartphones. Velhice.
Envelhecimento Conectado.
CORRÊA, Luciana S. “‟He is my friend‟: communications, consumption of the smartphones and the connected aging”. 2018. Dissertation (Masters in Communications and Consumption Practices . Postgraduate Research Program in Communications and Consumption Practices, School of Advanced Studies in Advertising and Marketing/Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), São Paulo.
ABSTRACT
Based on the theoretical triad that encompasses the aging studies, cyberculture, and the study of the interfaces of communications and consumer, this dissertation takes smartphones as an empirical object to discuss the consumption and appropriation of intelligent devices in everyday life of women aged 60 to 80 years old, of middle and upper middle classes, living in the city of São Paulo. Based on the hypothesis that the smartphone is a facilitator of the connections of these people with family and friends, we see that the smartphone stands out as a means of communication for this public. Understanding that, in a contemporary perspective, the binomial elderly and intelligent technologies can no longer be considered paradoxical, our study intends to bring to light the cultural meanings attributed to smartphones and the role the played by the elderly women in the consumption practices associated with the artifact. In this sense, we understand that one of the forms of aging that mark the twenty-first century presupposes the existence of what we have called in this dissertation as a "connected old age".
Our research was developed in three stages - bibliographical review; online survey and personal interviews; and critical analysis. Cultural and reflexive critical analysis concludes that old age and technology can effectively walk side by side and that the incorporation or not of intelligent devices in the daily life of the elderly is not a matter exclusively tied to chronological age, but is based on variables such as personal and professional history;
lifestyle; personal interests and aspirations.
Keywords: Communications and Consumption. Cyberculture. Smartphones. Old Age.
Connected Aging.
SUMÁRIO
Introdução ... 2
1 Comunicação, Consumo e Envelhecimento ... 5
1.1 O envelhecimento como processo demográfico, econômico e sociocultural ... 7
1.2 Envelhecimento, longevidade e a promoção da juventude como valor na contemporaneidade ... 16
1.3 Mídia, consumo e a promoção do ideário ageless ... 25
2 Comunicação, Consumo e Tecnologia ... 28
2.1 A sociedade em transformação e os objetos sociotécnicos ... 29
2.2 Hibridização humano e tecnologia ... 37
2.3 Os objetos sociotécnicos na esfera do consumo ... 45
2.4 Velhos e Tecnologia – noções que não se misturam? ... 50
3 O envelhecimento conectado – pesquisa empírica ... 52
3.1 A pesquisa ... 53
3.2 A definição do corpus ... 55
3.3 Procedimentos metodológicos ... 58
3.4 Análise e pontos a destacar ... 62
3.4.1 O envelhecimento conectado ... 63
3.4.2 Grupo etário e background: comparando as implicações para as práticas de consumo de smartphones ... 67
3.4.3 Questões de gênero e diferenças nas formas de apropriação do smartphone... 69
3.4.4 Os smartphones nas relações familiares e intergeracionais ... 72
3.4.5 A pressão social para uma velhice conectada ... 75
Conclusão ... 80
Referências ... 90
Apêndice ... 99
Introdução
Para o senso comum, velhice e tecnologia são termos contraditórios, incapazes de conviver harmoniosamente. Associados à noção de juventude, os dispositivos digitais são tidos como distantes da vida cotidiana dos idosos que, vistos como refratários e inflexíveis, não engajariam computadores, tablets e smartphones em sua vida diária. Na contramão desta noção, esta dissertação propõe discutir a inserção dos smartphones no cotidiano de mulheres idosas, buscando compreender as práticas de consumo e as formas de apropriação deste aparelho.
Lecionando desde 2013 o tema “Comunicação, Tecnologia e Relações Humanas” em cursos abertos à maturidade, tenho tido a oportunidade de ver na prática que a visão que considera o velho e a tecnologia como noções mutuamente excludentes não corresponde à realidade de muitos idosos. Pelo contrário, a observação em sala de aula permite notar que é vívido e crescente o interesse deste grupo etário pelos dispositivos móveis inteligentes.
Objetos de desejo, os smartphones constituem um mercado de grandes números.
Atualmente no Brasil, são mais de 198 milhões de aparelhos, sendo que se espera que, no início de 2019, este número chegue a 236 milhões.1 Como principal meio de acesso individual à internet, os smartphones estão presentes em todas as classes sociais e são distribuídos equitativamente entre homens e mulheres. Levantamentos recentes trazem à luz que, nos últimos anos, os brasileiros com mais de 35 anos têm sido os principais responsáveis pelo crescimento das vendas destas mercadorias.
Símbolos da era da informação e catalisadores da convergência tecnológica e da informatização que marcam a contemporaneidade, os smartphones se destacam pela onipresença no cotidiano do homem da atualidade, possibilitando contato permanente com o mundo. Lemos (2005) os tem chamado de “controle remoto do quotidiano”, ou seja, dispositivos que estimulam novas vivências e despertam o aperfeiçoamento pessoal e social, levando, em alguns casos, a serem vistos como “remédios para a solidão”. A multiplicidade de funcionalidades que oferecem, transformam os smartphones em “teletudo” (LEMOS, 2005), um aparelho que integra as funções de computador, televisor, máquina fotográfica,
1 Fonte: Kantar Brasil Insights. Dados referentes a fevereiro de 2017. Disponível em http://br.kantar.com/tecnologia/m%C3%B3vel/2017/smartphones-j%C3%A1-est%C3%A3o-nos-bolsos-de- mais-de-metade-dos-brasileiros/.Último acesso em fev/2018.
rádio e tocador de músicas, receptor de notícias jornalísticas e GPS e que tem se firmado como um facilitador do processo de gestão móvel da vida do dia a dia.
A profundidade do grau de interação que os smartphones despertam nos idosos da contemporaneidade pode ser expressa com eloquência pela frase que nos conduziu ao desenvolvimento deste trabalho: “Eu sinto que (o smartphone) fez bem para minha velhice. E agora, que eu estou sozinha, é um amigo que eu tenho”. Dita de forma despretensiosa durante uma entrevista em junho de 2016, esta frase despertou curiosidade e interesse ao revelar de forma tão singela a extensão dos impactos dos dispositivos móveis inteligentes na vida de mulheres idosas.
Como marcadores sociais, os smartphones diferenciam seus usuários, valorizando aqueles que os possuem e são hábeis em seu manuseio, reforçando uma imagem de desprendimento e modernidade, transformando o aparelho em um elemento que contribua para a afirmação do ideário ageless e da noção de que a velhice bem-sucedida pressupõe estar digitalmente conectado às redes sociotécnicas que, segundo Castro (2012) podem ser entendidas como redes de comunicação, sociabilidade e negócios.
Partindo da hipótese que o envolvimento dos idosos com os dispositivos digitais seja pouco visível à sociedade, o que leva à perpetuação da visão preconceituosa que estabelece que tecnologia e velhice não se misturam, construímos esta dissertação com o objetivo de entender as imbricações entre os adultos mais velhos e suas práticas de consumo de dispositivos digitais. Para tanto, elegemos o smartphone como objeto empírico em nossa busca de compreender o lugar deste objeto sociotécnico (SIMONDON, 1980) no cotidiano do grupo etário composto por pessoas acima dos 60 anos. Assim, ponderamos como o dia a dia destas pessoas é configurado a partir das interações mediadas pelos aparelhos.
O objetivo traçado se delineia em duas perguntas de pesquisa: a) com que finalidade e de que modo os smartphones são consumidos por mulheres idosas?; e, b) qual o status do smartphone como meio de comunicação deste público com seus amigos, familiares e o mundo ao seu redor?
Dividida em três capítulos mais conclusão, esta dissertação se apoia no tripé teórico que engloba os estudos do envelhecimento, a cibercultura e a comunicação e consumo.
No primeiro capítulo, tratamos do envelhecimento sob a ótica da comunicação e do consumo. Assim buscamos trazer uma visão compreensiva sobre o assunto abordando temas como: o preconceito baseado na idade - o idadismo; os comportamentos e atitudes do velho e
da sociedade em relação ao velho; o imaginário social construído em torno da velhice e o lado bom e ruim de envelhecer; e, a construção de novos modos de envelhecer e a adoção de novos estilos de vida estimulados pelas lógicas de consumo e pela mídia.
No segundo capítulo, abordamos as questões da tecnologia em seu imbricamento com a sociedade e as práticas de consumo. Para tanto, estabelecemos uma linha do tempo que traça os avanços tecnológicos que a humanidade realizou desde a II Guerra Mundial até a contemporaneidade, ressaltando o papel da sociedade na condução do processo de inovação tecnológica, partindo do entendimento que nenhum objeto é meramente técnico, mas, pelo contrário, são revestidos de um caráter social que precede a técnica. Abordamos também as implicações das crescentes interações entre o homem e os dispositivos inteligentes. Por fim, buscamos compreender os smartphones como bens, exercendo papel de marcadores sociais, descortinando o papel do consumo como processo sociocultural.
Ao capitulo terceiro, coube apresentar o caminho metodológico, os resultados da pesquisa exploratória realizada no primeiro semestre de 2016, da sondagem online e das entrevistas individuais realizadas entre outubro e dezembro de 2017 que, à luz das teorias discutidas nos capítulos anteriores forneceram o embasamento para a análise crítica de cunho cultural e reflexivo que desenvolvemos. Com o intuito de trazer uma reflexão sobre as práticas de consumo e o status do smartphone como meio de comunicação de mulheres idosas, buscamos aprofundar o assunto e levantar algumas conclusões que nos dessem indicações sobre o papel desempenhado pelo dispositivo na vida de cidadãos mais velhos.
Por fim, na conclusão, ponderamos sobre os principais resultados obtidos e propomos possibilidades de desdobramento desta pesquisa em empreendimentos futuros.
1. Comunicação, Consumo e Envelhecimento
“Ah, no meu tempo...”
Quantas não são as vezes que ouvimos um integrante idoso de nossa família dizer esta frase.
Para o senso comum, envelhecer é um processo difícil e até, porque não dizer, doloroso. Ligada à ideia de decrepitude e falha, a velhice é, em geral, vista como sinônimo de doença e incapacidade, relegando o adulto mais velho a um patamar de diminuição da sua significância social, cultural e econômica. Tais conceitos, arraigados na lógica neoliberal que prega um culto à alta performance (EHRENBERG, 2010) e à auto responsabilização pelo sucesso de cada indivíduo, propõem uma condição de ostracismo aos integrantes da sociedade que, com o avanço da idade, veem transformada sua prontidão ao trabalho e ao consumo.
O ideário neoliberal que rege o campo social pressupõe a internalização de posturas e comportamentos como mandamentos necessários para a atualidade, reforçando a ideia de que existiria uma vida em alta performance que deve ser o objetivo final de todos, inclusive da pessoa que envelhece. Segundo Castro (2016, p. 87), “no modelo antropológico vigente de subjetividade, a autoestima está ancorada nos ideais de alta performance e autonomia. Mais do que ser, é preciso, o tempo todo, mostrar e provar que se é competente e que se está seguro de si”. Ao que a estudiosa complementa, ao tratar de modo mais específico
Na mercadorização da esfera emocional, prolifera o pragmatismo dos cálculos de custo-benefício. Quando a imagem do corpo é tomada como capital a ser investido na busca incessante do êxito social, os sinais de velhice são interpretados como sinais de deterioração do patrimônio individual. Ao se envelhecer, é como se fosse ultrapassado o prazo aceitável de validade e, assim, a experiência vivida estaria desatualizada, obsoleta, incompatível. O corpo envelhecido passa a apontar uma pessoa esvaziada de atributos de qualidade (CASTRO, 2016, p. 89).
Envolto em uma nuvem pessimista, o processo de envelhecimento é visto como a porta de entrada para uma vida dependente e desamparada, que impõe um pesado fardo às gerações mais jovens, especialmente no que tange à aposentadoria e aos cuidados de saúde. A partir das projeções demográficas que dão conta do aumento exponencial de idosos entre a população brasileira até 20602, as pressões e os conflitos geracionais se exacerbam, ressaltando uma atitude de discriminação e rejeição entre gerações.
2 Dados demográficos compilados a partir de projeções feitas pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no documento Projeção da População do Brasil por sexo e idade – 2000-2060, revisão 2013, disponível em https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2013/default.shtm.
Útimo acesso em fev/2018.
Em um ambiente desta forma configurado, compreende-se porque ouvimos a expressão do início deste capítulo com certa frequência. Entretanto, não somente dos aspectos negativos se faz o processo de envelhecimento. Da mesma forma, é impossível negar que, a partir da década de 1960, a velhice tem se beneficiado ao receber um olhar mais apurado que busca desvendar, com maior profundidade, os significados do envelhecimento no contexto do final do século XX e início do século XXI. Entidades como a ONU e a Comissão Europeia, dentre outras, têm se debruçado sobre o assunto e incentivado a revisão de políticas públicas e corporativas que visem à integração plena do idoso à vida contemporânea.
Ponderando sobre as atitudes e preconceitos em relação à velhice, Neri (2007, p. 34) escreve que “nossos sentimentos em relação a ela são carregados de valor e oscilam entre o encantamento e o terror, a aceitação e a rejeição, a valorização e a negação, o respeito e a desvalorização, dependendo do que conhecemos a seu respeito”. Para a autora, os sentimentos despertados pela velhice são complexos, heterogêneos e, muitas vezes, contraditórios. Assim, da mesma forma, complexas, heterogêneas e contraditórias, são as formas de envelhecer.
Além dos fatos biológicos e cronológicos, tornar-se velho implica em importantes aspectos sociais, culturais e econômicos, os quais pretendemos abordar neste capítulo.
Buscando ampliar a compreensão sobre o fenômeno do envelhecimento na contemporaneidade, dividimos este primeiro capítulo da presente dissertação em três partes. A primeira parte tratará do processo de envelhecimento a partir das óticas demográfica, econômica e sociocultural. Com isso, buscamos expor o contexto atual no qual se insere a questão da velhice, visando a esclarecer os significados de cada aspecto acima para a vida cotidiana dos idosos. É nosso intuito extrapolar questões predominantemente quantitativas para tentar compreender os aspectos qualitativos que se interpõe à vida dos adultos acima dos 60 anos.
Em uma segunda parte, endereçaremos a velhice na contemporaneidade e as implicações sobre os novos modos de viver a velhice que têm sido promovidos pelo ideário neoliberal vigente (Castro 2015, 2016). Se este grupo etário se destaca pelo crescimento numérico que tem despertado a atenção de governos, de entidades supragovernamentais, da sociedade civil e da academia, também merecem reconhecimento as transformações aos modos hegemônicos de ser que hoje vêm modulando novas subjetividades na última fase da vida.
Por fim, na terceira parte deste capítulo, será discutido o envelhecimento sob a perspectiva midiática. Entendendo mídia e consumo como um todo indissociável (Castro,
2014), discutiremos o papel que a mídia e as lógicas de consumo exercem na promoção de determinados padrões de envelhecimento tidos como ideais e que são crescentemente valorizados socialmente, o que repercute na forma como o idoso se insere na cena social e cultural contemporânea.
1.1 O envelhecimento como processo demográfico, econômico e sociocultural
O artigo 1º do Estatuto do Idoso3, instituído em 2003, declara como idosa qualquer pessoa com idade igual ou superior a 60 anos. Com o objetivo de resguardar os direitos deste grupo etário, a peça legislativa se destaca como o documento balizador das políticas públicas direcionadas a esta faixa da população, assim como, um indicativo da abordagem que a sociedade brasileira aplica aos velhos e ao processo de envelhecimento. Com a velhice ocupando lugar de destaque entre as preocupações da contemporaneidade, seja pelas previsões demográficas que dão conta do progressivo redesenho da pirâmide etária mundial, seja pelos desdobramentos sociais, culturais e econômicos que advêm do aumento da população adulta mais velha, o processo de envelhecimento tem merecido um olhar mais atento da academia e de outras instituições nacionais e internacionais.
No Brasil, a complexificação da questão demográfica relativa ao adensamento da população acima dos 60 anos tem sido acompanhada de perto pelo IBGE4, sob o ponto de vista estatístico e censitário, mas também por instituições como o SESC/SP5 e IPEA6 que, a seu modo, também buscam contribuir para descortinar os significados sociais, econômicos e culturais do processo acelerado de envelhecimento geral da população brasileira.
Fenômeno de repercussões mundiais, a ampliação do contingente populacional de pessoas acima dos 60 anos vem sendo discutida pela ONU desde a década de 1980, quando a entidade realizou a primeira Assembleia Mundial para o Envelhecimento, na cidade de Viena, na Áustria. Em um segundo evento, no ano de 2002, na cidade de Madri - Espanha, a organização dedicou sua atenção à criação de um documento que pudesse endereçar a questão
3 Estatuto do Idoso, Lei Nº 10.471, de 1º de outubro de 2003, disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.741.htm. Acesso em fev/2018
4 IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, fundação pública de administração federal com atribuições ligadas ao levantamento de dados geográficos e estatísticos, além da realização de censos populacionais.
5 SESC/SP – Serviço Social do Comércio em São Paulo, entidade privada mantida pelo empresariado ligado à área de comércio de bens e serviços, voltada ao bem-estar social dos empregados da categoria.
6 IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, fundação pública federal ligada ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), cuja finalidade é realizar pesquisas que ofereçam suporte técnico à criação de políticas públicas e programas de desenvolvimento.
do envelhecimento de forma a contribuir com proposições de políticas públicas que dessem vazão às demandas advindas do rápido envelhecimento da população mundial, especialmente das populações dos países em desenvolvimento. No Plano de Ação Internacional para o Envelhecimento, fruto deste segundo encontro e também conhecido como Plano de Madri, a organização se focou na inclusão social deste grupo etário, ressaltando a busca pelo reconhecimento de suas contribuições para a sociedade. No discurso de abertura do evento, o então secretário geral da ONU, Sr. Kofi Annan, ressalta estes aspectos ao expressar
Espero também que enviem ao mundo uma mensagem mais geral: que as pessoas idosas não são uma categoria à parte. Todos envelheceremos algum dia, se tivermos esse privilégio. Portanto, não consideremos os idosos como um grupo à parte, mas, sim, como nós mesmos seremos no futuro. E reconheçamos que todos os idosos são pessoas individuais, com necessidades e capacidades particulares, e não um grupo em que todos são iguais porque são velhos. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2003, p. 15)7
Ao longo de 117 recomendações, o plano ressalta a necessidade de assegurar ao tema do envelhecimento um lugar de destaque no que tange aos aspectos do crescimento econômico, promovendo um compromisso entre os países signatários de resguardar liberdades fundamentais e direitos humanos da pessoa que envelhece, visando a estabelecer padrões para a realização pessoal, uma vida saudável e segura, além de uma participação ativa na vida econômica, social, cultural e política dos países. São ainda pontos fundamentais do documento o entendimento do idoso como parte imprescindível do desenvolvimento social do futuro, o estímulo à pesquisa sobre o tema, o fomento ao desenvolvimento de políticas públicas para a inclusão social e a diminuição das desigualdades em torno da figura do idoso (CASTRO, 2017).
Iniciativas como estas realizadas pela Organização das Nações Unidas inspiram a criação de uma teia de proteção ao idoso e a promoção de um processo de envelhecimento mais generoso e amigável, merecendo destaque por trazer centralidade e ordem ao debate em torno da velhice que, até então era visto como “marginal”, ressaltando a “necessidade da
„construção‟ e, principalmente, do reconhecimento de um novo ator social – o idoso – com todas as suas necessidades e especificidades” (CAMARANO, PASINATO, 2004, p. 255).
De fato, do ponto de vista demográfico, os números e as estatísticas disponíveis são relevantes. No caso brasileiro, projeções realizadas pelo IBGE, no estudo “Projeção da
7 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Plano de ação internacional sobre o envelhecimento, 2002/Organização das Nações Unidas; tradução de Arlene Santos. Brasilia: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2003. Disponível em http://www.observatorionacionaldoidoso.fiocruz.br/biblioteca/_manual/5.pdf
População Brasileira 2000/2060”8, revisão 2013, apontam que, até 2060, o Brasil terá mais de 103 milhões de habitantes acima dos 50 anos, para uma população total estimada em 218 milhões. O mesmo estudo ressalta que a população entre 0 e 14 anos, neste mesmo ano, contará com 28 milhões de pessoas. Fruto da intersecção do aumento da expectativa de vida do brasileiro com o decréscimo do índice de natalidade no país, estes números apontam para uma inversão da pirâmide populacional brasileira, com o surgimento de um novo perfil dos grupos etários.
O aprofundamento do olhar sobre os números fornecidos pelo instituto confere uma dimensão mais precisa sobre a magnitude das mudanças em curso. Entre os destaques apontados pelo IBGE, alguns pontos chamam a atenção no que tange os estudos demográficos do envelhecimento: a) o ano de 2008 foi o primeiro em que o grupo populacional acima de 50 anos passou a ser maior que o de jovens de 15 a 24 anos; b) projeções apontaram que o ano de 2016 foi o primeiro no qual o grupo etário composto por pessoas acima de 50 anos foi mais numeroso do que o grupo composto por crianças de até 14 anos e; c) em 2030, os habitantes do país com mais de 50 anos serão mais numerosos do que o grupo de crianças de até 14 anos e jovens de 15 a 24 anos somados. Em 2013, ainda segundo números do IBGE, a população de até 49 anos era de aproximadamente 158 milhões, ou seja, 78,9% do total. Na projeção para 2060, os maiores de 50 anos passarão a ser 47% do total.
Fenômeno de proporções relevantes do ponto de vista demográfico, o aumento da população idosa também enseja desdobramentos de cunho biológico e cronológico, que se tornam mais complexos e diversos ao se somarem aos aspectos sociais, culturais, econômicos que os envolvem.
Com vastos estudos sobre o envelhecimento no Brasil, Guita Grin Debert (1999, 2005, 2006, 2010, 2011, 2012) destaca que, embora o fato demográfico em torno do envelhecimento acelerado da população seja expressivo, ater-se a ele para entender a dinâmica das mudanças da velhice e do interesse crescente sobre o tema do envelhecimento é “perder a oportunidade de descrever os processos por meio dos quais o envelhecimento se transforma em problema que ganha expressão e legitimidade, no campo das preocupações sociais do momento”
(DEBERT, 2012, p. 12). Na perspectiva da autora, a visibilidade atual alcançada pelo velho
8 Dados demográficos compilados a partir de projeções feitas pelo IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no documento Projeção da População do Brasil por sexo e idade – 2000-2060, revisão 2013, disponível em http://ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/projecao_da_populacao/2013/default.shtm. Acesso em fev/2018.
deriva de dois aspectos relevantes que acompanham sua transformação em preocupação social: a) “a socialização progressiva da gestão de velhice” – que implica na transferência do tema da esfera privada e familiar para as mãos do Estado, cujo aparelho se ajusta para colocar em prática políticas públicas e leis que deem amparo ao cidadão na última etapa da vida; b)
“os processos de reprivatização da velhice” – que implicam na responsabilização do indivíduo por seu próprio processo de envelhecimento.
Do ponto de vista social, estes aspectos estão ligados à transformação do status da velhice na contemporaneidade, impondo uma nova conformação à geografia social. Se, por um lado, em função do aumento da preocupação do Estado em intervir com vistas a garantir uma velhice segura e amparada aos seus cidadãos, “uma nova categoria cultural é produzida:
os idosos, como um conjunto autônomo e coerente [...], autorizando a colocação em prática de modos específicos de gestão” (DEBERT, 2012, p. 14), por outro lado, o processo de reprivatização da velhice destaca que
A tendência contemporânea é rever os estereótipos associados ao envelhecimento. A ideia de um processo de perdas tem sido substituída pela consideração de que os estágios mais avançados da vida são momentos propícios para novas conquistas, guiadas pela busca do prazer e da satisfação pessoal. As experiências vividas e os saberes acumulados são ganhos que oferecem oportunidades de realizar projetos abandonados em outras etapas e estabelecer relações mais profícuas com o mundo dos mais jovens e dos mais velhos. (DEBERT, 2012, p. 14)
Ainda conforme a autora, a ideia de uma existência produtiva na fase final de vida tem encontrado lugar em iniciativas como as universidades abertas à maturidade e grupos de convivência para idosos, os quais “encorajam a busca da autoexpressão e a exploração de identidades de um modo que era exclusivo da juventude” (DEBERT, 2012, p. 15). Para ela, estas iniciativas abrem “espaços para que uma experiência inovadora possa ser vivida coletivamente e indicam que a sociedade brasileira é hoje mais sensível aos problemas do envelhecimento.” (Idem, 2012, p. 15). Porém, se por um lado, podemos dizer que a sociedade brasileira é mais sensível ao idoso, ainda não é possível dizer que exista um verdadeiro protagonismo social exercido por este grupo etário, o qual, muitas vezes ainda é referido como um fardo ao sistema previdenciário, aos serviços de saúde e outros setores da sociedade e do estado.
Para Justo, Rozendo e Correa (2010), a noção de protagonismo está fortemente imbricada com a produção de sentido que se delineia nas relações sociais, nos enredos e nas narrativas que nela se formam. Assim, ao deixar para trás a imagem de um velho recluso, frágil e dependente para dar lugar a novas imagens nas quais o velho é ativo e exerce tantas
atividades quanto qualquer jovem, aumentando sua presença no espaço público e avançando sobre domínios sociais que antes lhes eram vetados, os idosos dão passos importantes para que “venham a ocupar um lugar de destaque na sociedade”, surgindo como “personagens capazes de exercer autonomamente papéis no cenário social e nos enredos que aí se desenrolam” (Op. Cit., p. 45). Ainda segundo os autores,
A saída da casa para a rua e o desvio dos asilos estão cada vez mais intensos.
Dedicar-se aos afazeres domésticos e serem vovozinhos cuidando dos netos já não representam os ideais dos idosos. É possível localizar nas cidades lugares frequentados majoritariamente por idosos: associações, clubes e outras organizações que funcionam como espaço de encontro, de convivência e, eventualmente, de organização política. (JUSTO, ROZENDO, CORREA, 2010, p. 45/46)
Embora, a partir da conquista de novos espaços de expressão, uma nova visão do idoso esteja sendo construída na sociedade nacional, há ainda muito que ser alcançado pelo velho para que ele se firme como um efetivo ator social. A complacência em certa medida desqualificadora e paternalista que a sociedade destina à velhice, “coloca-os no palco social como personagens agraciados por uma benevolência e caridade daqueles que comandam a cena” (Idem, p. 46) e exclui o idoso do efetivo papel de gestão sobre seus próprios interesses.
Nesta medida, contrastando com o protagonismo que se espera construir, o otimismo que emerge do aumento da participação do idoso na vida social, cultural e econômica do país, basicamente definido pelo crescente envelhecimento populacional, se depara com um papel secundário que esta mesma sociedade impõe ao velho.
Estudo realizado pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo em parceria com o SESC São Paulo e SESC Nacional, nos dá indicações sobre o imaginário social brasileiro sobre a velhice. Buscando priorizar a perspectiva do idoso sobre o contexto sociocultural em que vivem, a pesquisa entrevistou 3.759 brasileiros de todas as regiões do país, no período de 01 a 23 de abril de 2006, tendo seus resultados divulgados digitalmente pelo SESC São Paulo9.
Versando sobre aspectos abrangentes como o perfil sociodemográfico dos idosos brasileiros; a percepção da terceira idade e auto imagem do idoso; o estatuto do idoso; saúde;
acessibilidade; educação, formação e informação; tempo livre e lazer; fontes de renda e aposentadoria; relações familiares e de amizade; instituições de longa permanência e, por fim, percepção sobre a morte; a pesquisa revela dados importantes sobre os impactos do
9 Disponível em
https://www.sescsp.org.br/online/artigo/7102_PESQUISA+IDOSOS+NO+BRASIL+VIVENCIAS+DESAFIOS +E+EXPECTATIVAS+NA+3+IDADE#apresenta%E7%E3o. Acesso em 02/10/2017.
analfabetismo na velhice, do decréscimo da natalidade, da ampliação da rede previdenciária de proteção, da auto imagem da velhice entre outros, ponderando sobre o quanto as futuras gerações serão impactadas por estas questões, Chega-se à conclusão de que, apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas, muitos são os aspectos que ainda merecem atenção e atuação. Sobre isso Venturi e Bokany (2007, p. 28) escrevem
De modo geral, os resultados indicam que apesar das conquistas e melhorias na situação dos idosos, [...] reconhecidas sobretudo por eles mesmos -, os avanços da sociedade brasileira nesse campo ainda são tímidos, claramente insuficientes para acabar com as discriminações de que seguem vítimas, podendo-se agravar sua situação, diante do forte crescimento, já em curso, desse segmento da população.
Em alguma medida pessimistas, as autoras ponderam sobre o lado bom e o lado mau do processo de envelhecimento na sociedade brasileira, entendendo que o maior peso está em seus aspectos negativos, tanto entre idosos como não idosos respondentes da pesquisa.
Debilidade física, doenças, desânimo, perda de vontade de viver e dependência física são expressões que, em sua maioria, caracterizam a chegada da velhice no imaginário social brasileiro. Contudo, contraditoriamente, ao serem perguntados sobre como se sentem com a idade que têm, os respondentes, em maioria, se disseram felizes ou satisfeitos, resultado esse que corrobora entendimento de Debert. Para a autora, a velhice “não é um fato total”
(DEBERT, 1999, p. 26), assim como também não é uma categoria de “autoidentificação”, muito pelo contrário, “o velho é sempre o outro e a velhice, um drama de todos em qualquer idade, porque todos ficarão velhos um dia.” (DEBERT, 2012, p. 229). Ainda sobre a pesquisa, por outro lado, no espectro positivo do envelhecimento, destacam-se aspectos como a experiência de vida e a sabedoria, o tempo livre para projetos pessoais, a proteção familiar, novos direitos sociais (como a prioridade em filas, descontos em eventos, cinemas, etc) e a independência financeira advinda da aposentadoria que permite acesso a uma renda própria.
Sem deixar de reconhecer o lado positivo de envelhecer, os velhos entrevistados mostram-se críticos perante sua condição e compreendem as dificuldades que o envelhecimento lhes impõe, destacando o forte preconceito social e a discriminação que sofrem. O idadismo, definido por Bytheway (1995) como o preconceito baseado na idade, composto por um conjunto de crenças originárias nas variações biológicas existentes de pessoa a pessoa e relacionadas com o processo de envelhecimento, é um forma complexa de preconceito engendrada na sociedade atual e que se estende por diversos tipos de situações.
Segundo o autor, vivemos em uma sociedade extremamente sensível à questão etária, cujos valores nos levam a ser conscientes e alertas quanto à idade no que tange aos padrões de
comportamento esperados em cada etapa da vida. Em certa medida opressiva, a hierarquia estabelecida pela cronologia da vida e sua posição importante e invasiva na relação que o homem estabelece em sociedade gera e reforça o medo com relação à velhice e denigre o processo de envelhecimento, criando estereótipos e presumindo verdades sobre as questões da competência do velho e das necessidades de uma rede de proteção. Para o autor,
Especificamente, o idadismo legitima o uso da idade cronológica como um marcador de classes de pessoas para as quais são, sistematicamente, negados recursos e oportunidades proporcionadas a outros grupos, e que sofrem as consequências de tal depreciação, as quais se apresentam em formas que vão da bem intencionada complacência à clara difamação. (BYTHEWAY, 1995, p. 14, tradução nossa)10
Os efeitos negativos do idadismo podem ser sentidos em uma ampla gama de atitudes que são dirigidas aos velhos em sua vida cotidiana. Alvo de desvalorização e desrespeito, o adulto mais velho é, muitas vezes, alvo de humor ou de uma atitude condescendente que o infantiliza e rouba-lhe a prerrogativa de ser adulto e senhor de seu próprio destino, sobre o que Castro esclarece e exemplifica
Estereótipos negativos associados ao idadismo acionam atitudes nas quais se mesclam, muitas vezes de modo inconsciente, graus variados de condescendência e/ou de negligência em relação aos mais velhos. A problemática infantilização do idoso é uma dessas formas estereotipadas de se relacionar com os mais velhos. Travestida de carinho diante da fragilidade da situação de dependência, essa forma de tratamento frequentemente dispensado por cuidadores e profissionais de saúde atinge a dignidade do mais velho ao destituir-lhe do status de pessoa adulta. O paternalismo condescendente frequentemente dispensado aos mais velhos pode ter como pressuposto implícito o estereótipo que realça a dependência dos mais velhos. (CASTRO, 2015, p. 108)
Com estudos sobre as questões do envelhecimento e seu imbricamento com a comunicação e as práticas de consumo na sociedade contemporânea, a autora dispensa um olhar crítico à forma como o velho é tratado em sociedade, entendendo que a disseminação contínua de estereótipos e a pouca discussão que se desenvolve sobre as questões do idadismo, sobretudo no que tange às produções midiáticas, acarreta em um efeito insidioso, profundamente arraigado, que se repercute, muitas vezes, no desrespeito travestido de humor nas representações dos idosos (CASTRO, 2015). Neste sentido, insta-se a sociedade a elevar a busca pela eterna juventude como foco da vida daqueles que envelhecem.
Em um país que se autodenomina jovem e do futuro, envelhecer pode ser um fardo penoso a ser carregado. Muito embora, como já discutido anteriormente, as projeções
10 No original: “In particular, ageism legitimates the use of chronological age to mark out classes of people who are systematically denied resources and opportunities that others enjoy, and who suffer the consequences of such denigration, ranging from well-meaning patronage to unambiguous vilification.”
estatísticas demonstrem o contrário, há ainda um sentimento generalizado de que o Brasil é um país jovem e vigoroso, com todo um futuro a se descortinar pela frente. Nesta medida, a juventude é vista como um bem de grande valorização. Segundo Castro (2015, p. 109),
“quando todos são instados a querer ser e parecer jovens, o envelhecimento se torna um problema e seus sinais passam a ser encarados como erro”. Assim, ter um corpo jovem, magro e belo é considerado capital social. E a prontidão ao trabalho e à vida ativa, essenciais para se atingir o envelhecimento que se espera ter.
Neste aspecto, ainda lançando mão dos resultados da pesquisa realizada pelo SESC/SP e pelo Núcleo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo como fonte para reflexão, destaca-se a visão, especialmente entre os próprios idosos, de que a manutenção da vida profissional ativa é a forma de garantir a permanência dos adultos mais velhos no cerne da vida econômica do país. Segundo Neri (2007, p. 106),
Valores associados ao trabalho permanecem mais presentes entre os idosos aposentados do que a ideia de recolhimento ou de exercer atividades mais lúdicas: 10% deles afirmaram que é importante ter um trabalho mais leve e adequado à idade; 8% preferem manter o salário para garantir o mesmo padrão de vida e outros 8% mencionaram itens diversos relativos a cursos, projetos de trabalho voluntários. Lazer (7%), atividade física (6%) e descanso (5%) gozam de menor importância entre as sugestões dos aposentados.
Os resultados acima esclarecem que a via de manutenção do velho na vida econômica do país se dá pelo trabalho, situação na qual compete com os jovens pelas oportunidades existentes. Em tempos de crise econômica, quando as oportunidades são mais escassas e os custos controlados de forma ainda mais crítica pelas empresas, não é raro verificar a substituição dos profissionais mais experientes por outros mais jovens. Muitas vezes, baseadas em conceitos preestabelecidos ou em visões que podem ser consideradas distorcidas, as decisões pela não retenção de profissionais mais velhos (com 45 anos já sendo considerada uma idade de corte) versam sobre aspectos como a incapacidade para acompanhar o desenvolvimento tecnológico, a inflexibilidade perante mudanças e o desinteresse por se manterem atualizados como as principais barreiras para que os profissionais mais velhos permaneçam nas equipes. De acordo com estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e pela consultoria PriceWaterhouse Coopers (2013)11, “as empresas não
11PRICEWATERHOUSE COOPERS. Envelhecimento da força de trabalho no Brasil: como as empresas estão se preparando para conviver com equipes que, em 2040, serão compostas principalmente porprofissionais
com mais de 45 anos?. Março de 2013. Disponível em
http://www.pwc.com.br/pt/publicacoes/servicos/consultoria-negocios/envelhecimento-trabalho-brasil.html.
Acesso em fev/2018.
demonstraram[...] um movimento estratégico no sentido de aproveitar melhor as potencialidades desse grupo para atender a suas necessidades de talentos. As práticas das organizações, na verdade, são contraditórias” (PRICE WATERHOUSE COOPERS, 2013, p. 10).
Mais uma vez, são os efeitos insidiosos do idadismo que se apresentam. Ao atrelar a capacidade produtiva e a efetividade da contribuição profissional a uma idade preestabelecida, as empresas, nas entrelinhas, reforçam que o processo de envelhecimento é algo com o qual não sabem e não querem lidar. E que o capital social e as muitas experiências adquiridas ao longo dos anos de trabalho de um profissional mais velho não são recursos de maior valia, perdendo em grau de importância para a disposição e vigor físico, que conforme explica Ricardo Oliva, então diretor da Divisão de Qualidade de Vida do SESI – SP, entrevistado para o relatório divulgado pela Price Waterhouse Coopers (2013, p. 30):
Pode-se dizer que existe preconceito, como na ideia de que os idosos são menos adaptados a novas tecnologias. [...] é que há um discurso de preocupação, mas quando você observa as práticas, não é o que acontece.
[...] Fisiologicamente as pessoas se desgastam. É da natureza. Por outro lado, o profissional mais velho tem vantagens operacionais. Ele sabe como fazer alguma coisa com menor esforço. Isso compensa a não competitividade na força e na agilidade? Eu acho que sim. Acho que são questões complementares. Não dá para comparar um jovem de 30 anos e uma pessoa de 65 e dizer: „Eu quero a mesma produtividade, a mesma capacidade operacional de trabalho‟. Agora, os resultados concretos, não obrigatoriamente quantitativos, de um e de outro são adequados à competitividade da empresa? Sem a menor sombra de dúvida.
A reflexão sobre os aspectos demográficos, sociais, culturais e econômicos do processo de envelhecimento nos leva a pensar que, apesar de avanços alcançados nas últimas décadas, o estabelecimento de uma rede de proteção ao idoso, a qual, por exemplo, inclui o Estatuto do Idoso, ainda não tem sido suficiente para colocar os velhos em papel de protagonismo na sociedade contemporânea. Se, por um lado, o acesso à aposentadoria, ampliado às diversas camadas socioeconômicas da população promoveu um movimento para a inclusão social do velho pela via do consumo, ou seja, pela aquisição de bens e serviços, é possível dizer que este ainda não goza de uma real valorização na plenitude de sua potencialidade. Sempre tratado na comparação com os membros mais jovens da sociedade e instado a buscar a manutenção da juventude por mais tempo, o velho ainda se encontra oprimido pelo preconceito, seja ele velado ou explícito, influenciando não apenas o modo como é tratado como também em grande medida a forma como o próprio idoso entende que deva ser seu processo de envelhecimento.
1.2 Envelhecimento, longevidade e a promoção da juventude como valor na contemporaneidade
Para Debert (1999, p. 74), “uma das características marcantes da experiência pós- moderna seria a „desinstitucionalização‟ ou a „descronologização da vida‟. A partir desta afirmação, começamos a refletir sobre os significados do envelhecimento na contemporaneidade e como novos modos de envelhecer têm sido delineados na atual sociedade do consumo. Para a autora, a questão da quebra da cronologia da vida é central para entendermos os desafios enfrentados por aqueles que envelhecem neste início de século XXI, compreendendo que novas etapas são acrescentadas à vida, trazendo à tona a transgressão das
“fronteiras estabelecidas entre os comportamentos tidos até então como adequados aos diferentes grupos etários” (idem, p. 70).
Ao observar a forma como os grupos etários são distribuídos, como o processo de envelhecimento se dá em cada sociedade e quais os rituais de passagem que o cercam podemos elaborar as sociabilidades e as interfaces culturais deste fenômeno e como ele é apropriado pelas pessoas. Fruto de uma construção social elaborada, a hierarquia etária esclarece sobre as formas de organização social e dá a entender como se travam os relacionamentos, definindo a importância de cada etapa da vida na engrenagem social. Neste sentido, o estudo de Debert fala sobre três momentos diferentes, nos quais a forma como o curso da vida foi periodicizado a partir de sensibilidades diferentes no que diz respeito à idade cronológica. Em um primeiro momento, que a autora classifica como a pré-modernidade, “a idade cronológica seria menos relevante do que o status da família na determinação do grau de maturidade e do controle de recursos e poder” (DEBERT, 1999, p. 73). Na modernidade, segundo momento vislumbrado por Debert, teria havido a cronologização da vida para, por fim, no terceiro momento, dar lugar a uma “desconstrução do curso da vida em nome de um estilo unietário” (Idem).
Na perspectiva da autora, neste terceiro momento, ou seja, na contemporaneidade, a obliteração das idades se dá como consequência de uma sociedade “marcada pela informatização da economia, pela desmassificação dos mercados de consumo, da política, da mídia e da cultura, e pela fluidez de estilos de vida, frutos de uma economia baseada mais no consumo do que na produtividade” (DEBERT, 1999, p. 75). Neste sentido, ao integrar mundos informacionais que antes eram estanques e claramente delimitados, a contemporaneidade flexibiliza os padrões de comportamento em cada faixa etária, chegando, em um extremo, à ideia de que a idade cronológica não é um mais marcador significativo na
vida dos indivíduos. O curso da vida não é definido exclusivamente pela questão etária de forma ritualizada, mas, sim pelas experiências interpretadas individualmente. Neste sentido, já não é mais impossível avistar mães e filhas que experimentam a maternidade em um mesmo momento, ou mesmo, casais que têm seu primeiro filho muito após os 40 anos.
As mudanças históricas, sociais e econômicas da modernidade foram determinantes para que a vida passasse a ser periodizada. Com a aceleração do processo de individualização, estágios foram separados e demarcados a partir das fronteiras cronológicas. A idade de cada sujeito passou a contar como marcador social que tocava as dimensões pessoais, familiares e do trabalho e estava presente na organização do sistema produtivo, das políticas públicas e do mercado de consumo. Construído sobre a base da lógica produtiva e econômica, o curso de vida na modernidade é burocratizado e massificado a partir de instituições como a escola e a aposentadoria, sendo que três fases distintas são claramente demarcadas: “a juventude e a vida escolar; o mundo adulto e o trabalho; e a velhice e a aposentadoria” (DEBERT, 1999, p. 75).
A padronização da infância, adolescência, idade adulta e velhice pode ser pensada como resposta às mudanças econômicas, devidas sobretudo à transição de uma economia que tinha como base a unidade doméstica para outra baseada no mercado de trabalho. Inversamente, ênfase pode ser dada ao Estado moderno que – na transformação de questões que diziam respeito à esfera privada e familiar em problemas de ordem pública – seria, por excelência, a instituição orientadora do curso da vida, regulamentando todas as suas etapas, desde o momento do nascimento até a morte, passando pelo sistema complexo de fases de escolarização, entrada no mercado de trabalho e aposentadoria (DEBERT, 1999, p. 73-74).
Em um mundo veloz e multifacetado, os velhos da modernidade se adaptaram para novas formas de viver e experimentar a velhice. As reviravoltas econômicas da época foram uma importante força motriz sobre a população. As transformações derivadas do processo de industrialização e de urbanização das sociedades europeias levaram os idosos, especialmente os idosos pobres, a experimentar grandes mudanças na família, no trabalho, na sua vida em comunidade, nas oportunidades de acesso aos serviços sociais e de saúde, assim como, no seu status social, tornando este período especialmente destacado quando na comparação com os anteriores e trazendo, no bojo das novas realidades econômicas e sociais, repercussões às expressões culturais e intelectuais da época (COLE e EDWARDS, 2005).
Em um ambiente no qual a industrialização e a mudança estrutural da economia encolheram o setor agrícola e impulsionaram os empregos urbanos, os idosos viram suas oportunidades de trabalho migrarem para atividades com salários menores e menor estabilidade levando-os, em muitos casos, a assumir posições como trabalhadores domésticos.
Para os autores citados acima, o mundo da modernidade passou a ser um mundo de jovens.
Para os idosos que optaram por viver nas grandes cidades, as más condições de vida e o pouco acesso ao estado de bem-estar social estimularam a competição entre pessoas que, proletarizadas, viam o aumento de sua dependência e vulnerabilidade diante das perdas inerentes ao processo de envelhecimento, tornando possível questionar se os idosos pobres passaram, à época, a serem considerados menos merecedores ou mais incapazes devido à perda de status social.
Em uma visão mais ampla, além das questões econômicas, os aspectos do envelhecimento na modernidade tiveram também grandes significados sociais e culturais e em termos dos valores praticados e das subjetividades construídas neste tempo. Os novos padrões postos em prática complexificaram as relações ao desafiar antigos costumes e crenças. Neste sentido, envelhecimento não era necessariamente sinônimo de uma vida empobrecida, com menor satisfação pessoal ou com menos oportunidades de interação entre as gerações. Tratou- se, na época, de um processo não linear que não afetava todas as áreas de vida na mesma proporção. Pelo contrário, dependendo da posição na hierarquia social, da saúde e da capacidade mental de cada indivíduo, uma vida longeva e autônoma poderia ser alcançada com grande bem-estar. Para os velhos das classes mais abastadas, a perspectiva da velhice não era uma ameaça, mas, ao contrário, “poderia ser o coroamento de uma vida próspera quando homens e mulheres poderiam aproveitar sua recompensa na forma de lazer e conforto”
(COLE e EDWARDS, 2005, p. 219).
Por sua vez, a pós-modernidade, ou a contemporaneidade, como optamos por designar o período histórico que compreende a partir da segunda metade do século XX, abre espaço para um processo que oblitera as fronteiras etárias, revendo as concepções anteriores de uma sequência evolutiva linear para uma maior flexibilização no que tange ao comportamento adequado, às obrigações e aos direitos de cada grupo etário. Embora a cronologização da vida ainda tenha sua razão de ser e continue como parte fundamental da definição de status de uma pessoa, nota-se a dissociação entre “a juventude e uma faixa etária específica e a transformação da juventude em um bem, um valor que pode ser conquistado em qualquer etapa da vida, através da adoção de formas de consumo e estilos de vida adequados”
(DEBERT, 1999, p. 72), levando a um “compromisso com um tipo determinado de envelhecimento positivo” (Idem).
Quando a juventude passa a ser encarada como um valor que deve ser exibido em qualquer idade, a velhice deixa de ser encarada como uma etapa cronológica e passa a ter contornos de uma expressão da atitude do indivíduo perante si mesmo. Nesse contexto, ser
velho vira sinônimo de ser negligente com seu corpo, ser desmotivado ou portador de uma doença debilitante, normalmente, fruto das escolhas pessoais de vida. Como diz Castro (2014, 2015, 2016), é como se apenas o velho jovem fosse válido socialmente em tempos de promoção do ideário ageless e da chamada velhice ativa como modo ideal e positivo de envelhecer (CASTRO e CORREA, 2017).
Para Gilleard e Higgs (2000), a contemporaneidade implica em pensar nas questões do envelhecimento como um ponto de contradição, mais do que de comunhão. Segundo os autores, as mudanças demográficas atuais despertam a emergência de uma sociedade nas quais diversas “culturas do envelhecimento”12 competem entre si e, de forma fragmentada, vêm a ocupar posição central na atualidade, conforme aumenta a expectativa de vida da população e cresce o contingente populacional dos idosos. Desta forma, o espectro que trata do envelhecimento é simplesmente maior e mais complexo do que em épocas históricas anteriores. Primeiro, por que os números que envolvem o envelhecimento no século XXI são mais expressivos. Consequentemente, são maiores os desafios e mais longevas as experiências vividas pelo indivíduo após retirar-se da vida produtiva.
Em segundo lugar, Gilleard e Higgs (2000) destacam que a maioria dos indivíduos que chegam à fase da aposentadoria possui, na contemporaneidade, maior riqueza e disponibilidade financeira, recursos que lhes permitem engajar na atual “cultura do estilo de vida”13 (Op. Cit., p. 9). Como um terceiro ponto a ser analisado, os autores elegem o fato do corpo se tornar um foco cultural relevante da experiência de adultos de todas as idades, por meio de amplo interesse e preocupação com a melhora da saúde e do bem-estar pessoal, seja pela adoção de uma dieta mais saudável ou pela busca de um modo de vida ativo que permita a explorar novas formas de autoexpressão. A quarta questão levantada pelos autores diz respeito à chegada dos baby-boomers14 à velhice, ressignificando esta etapa da vida e as formas de consumo a ela associadas. Por fim, citam as mudanças na forma do Estado subvencionar as diversas possibilidades ligadas à aposentadoria, colocando nas mãos dos indivíduos a definição de seu estilo de vida nesta etapa, passando pela escolha de serviços de saúde e de complementação de renda privados e terminando nas decisões que envolvem os padrões de consumo e gastos pessoais, os quais, notam os autores, têm se diversificado fortemente nas últimas décadas do século XX e início do século XXI.
12 No original: “cultures of ageing”
13 No original: “lifestyle culture”
14 São considerados baby-boomers, pessoas nascidas no período que compreende o fim da II Guerra Mundial, a partir de 1945, até a primeira metade da década de 1960.
Em síntese, a questão do envelhecimento tem ocupado uma posição central na cultura pós-moderna porque o tema “idade” tem estado mais presente do que nunca nas discussões, porque há formas mais variadas de moldar a experiência da velhice, há mais convergência sobre do que se trata a fase adulta da vida a partir da cultura do consumo instituída no pós-guerra e há mais pontos de conflito acerca da regulação social e da expressão do envelhecimento (GILLEARD e HIGGS, 2000, p. 9, tradução nossa)15. A reflexão sobre as questões discutidas acima, notadamente, destaca a heterogeneidade como um traço importante do processo de envelhecimento na contemporaneidade. Nas palavras de Costa Lopes (2006, p. 88), a heterogeneidade da velhice
“é determinada pelas peculiaridades socioculturais e contingenciais dos percursos, implicando a definição de velhice como constante e inacabado processo de subjetivação”. Seja qual aspecto sobre o qual nos debrucemos - demográfico, fisiológico, social ou cultural -, descortinam-se diferenças nas formas de envelhecer. Assim, somos convidados a ponderar sobre a influência de aspectos como etnicidade; formação e contexto cultural; gênero e classes sociais sobre a velhice, buscando extrair como e em que medida eles se desdobram sobre o velho. Neste sentido, as questões ligadas ao gênero se apresentam como uma das mais relevantes.
Os estudos realizados sobre as questões do envelhecimento têm descortinado o fato de que homens e mulheres envelhecem de maneiras e em ritmos diferentes. Embora, no caso de ambos os gêneros, seja marcante a lógica do envelhecimento ativo, a construção social da velhice possui aspectos particulares para cada um. De forma geral, o advento da aposentadoria e a repercussão sobre o status social ligado à atividade econômica recaem mais fortemente sobre os homens e os conduzem a certo retraimento na velhice. Por sua vez, as mulheres encontram na velhice uma oportunidade para buscar a realização pessoal fora dos círculos familiares/domésticos, abrindo-se assim as portas para uma atuação mais significativa fora do lar. Como resultado de pesquisa – intitulada “Experiência de Envelhecimento e Representação sobre a Velhice” – realizada com homens e mulheres de diferentes estratos socioeconômicos, estado civil e arranjos familiares (morando só, com familiares ou com cônjuges), Debert (2012) conclui
eram evidentes as diferenças que marcavam as concepções de homens e das mulheres sobre o significado de ser velho e das condições de uma velhice bem-sucedida e que se sobrepunham a outras diferenças sociais. Não era a dependência, mas a perda da lucidez que aparecia como um índice
15 No original: “In sum, ageing has come to occupy such a central position within postmodern culture because there is more „age‟ about than ever before, more varied resources to shape its experience, more commonalities across the whole of adulthood established by post-war consumer culture and more sources of „conflict‟ around social regulation and expression of ageing.”