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Procedimentos metodológicos

No documento ESPM - TEDE: Browsing DSpace (páginas 67-71)

Outro ponto digno de menção envolve as características pessoais das entrevistadas, uma das quais teve maior dificuldade em concentrar-se e discorrer espontaneamente sobre o assunto, sendo necessária maior intervenção da pesquisadora com a inflexão de perguntas de forma mais frequente para estímulo à reflexão e conclusão da entrevistada.

As entrevistadas são mulheres brancas pertencentes às classes média e média alta, moradoras do bairro de Perdizes em São Paulo. Suas idades variavam à época da entrevista entre 61 e 77 anos. Três das entrevistadas possuem curso superior completo, tendo realizado atividade profissional remunerada, uma delas como professora e as demais como empresárias em empresas de micro e pequeno porte. A quarta entrevistada não possui curso superior completo e teve como atividade principal as prendas do lar. Com casamentos duradouros, todos acima de 30 anos, estas mulheres possuem na família uma referência de grande relevância em sua vida, tendo reportado com frequência, ao longo das entrevistas, situações nas quais as relações familiares se sobressaem. Como nota ao perfil das entrevistadas, considera-se relevante informar que duas pertencem à comunidade judaica de São Paulo, sendo bastante ativas na propagação de informações sobre Israel e os interesses que concernem ao povo judeu.

No roteiro de perguntas proposto, oito pontos foram traçados como norteadores, sendo eles: a) histórico de participação no Facebook; b) uma avaliação da evolução da participação ao longo dos últimos 03 anos (mesmo período em que as entrevistadas tiveram aula com a pesquisadora); c) qual a influência das aulas no interesse e no domínio da participação nas redes sociais online e, particularmente, no Facebook; d) como enxergam a produção de conteúdo dentro da rede social online; e) se experimentam algum tipo de censura em sua participação; f) se costumam utilizar a rede como espaço para expressão pessoal; g) se a rede possui importância no estabelecimento das relações em família e, por fim, h) como enxergam as oportunidades de travar/consolidar relações entre gerações por meio das redes sociais online. Neste ponto é importante ressaltar que o roteiro de perguntas refletia a opção temática realizada na ocasião, ou seja, a presença de idosos nas redes sociais digitais. Tema este que, em virtude dos resultados obtidos com esta pesquisa exploratória, derivou-se para a atual dissertação.

Como uma pesquisa de natureza exploratória, buscou-se abrir espaço para a fala desinibida das respondentes, visando a obter o máximo de dados possíveis sobre suas formas de relacionamento com a vida digital. Afinal, como nas palavras de Deslauriers e Kérisit (2014, p. 130), “uma pesquisa qualitativa de natureza exploratória possibilita familiarizar-se

com as pessoas e suas preocupações. Ela também pode servir para determinar os impasses e os bloqueios, capazes de travar um projeto de pesquisa em grande escala”.

Ainda, como o roteiro de perguntas transitava por questões sobre como determinadas situações se apresentavam perante as entrevistadas, associou-se um caráter descritivo à pesquisa, no qual se colocou “a questão dos mecanismos e dos atores (o „como‟ e o „o quê‟

dos fenômenos)”, os quais “por meio da precisão dos detalhes” fornecem “informações contextuais que podem servir de base para pesquisas explicativas mais desenvolvidas”.

(DESLAURIERS e KÉRISIT, 2014, p. 130, grifo no original). Ao trazer à tona pontos relevantes sobre as práticas de consumo de smartphones pelas entrevistadas, a análise dos dados coletados nesta pesquisa exploratória foi utilizada como referência para o redirecionamento do projeto de pesquisa e a consecução da sondagem online e das entrevistas individuais que, assim como exposto acima por Deslauriers e Kérisit (2014), fornecem o ponto de partida que deu conta da relevância do smartphone na vida cotidiana destas mulheres.

A sondagem online desenvolvida a partir dos resultados obtidos na pesquisa exploratória esteve disponível para resposta de 26 de junho a 31 de julho de 2017. Por meio de formulário criado no aplicativo Google Forms foram feitas 12 perguntas, entre abertas e fechadas, que buscaram mapear a presença do smartphone no cotidiano das pessoas. A princípio pensada para ser realizada somente com mulheres de 60 a 80 anos, esta sondagem foi aberta ao público em geral, na expectativa que os dados coletados pudessem trazer achados que contribuíssem para a discussão da influência das variáveis gênero e idade nos resultados obtidos.

A opção por utilizar um questionário estruturado com perguntas abertas e fechadas deu-se com o intento de permitir que o respondente se sentisse livre e estimulado a discorrer com um pouco mais de detalhes sobre suas práticas de consumo dos smartphones. Assim, foram inseridas perguntas como: a) quais são os usos que faz do smartphone? e b) o que lhe deixa satisfeito com seu smartphone?, bem como um espaço final para comentários,.

Ao todo, a sondagem online obteve 117 respostas. Os pontos relevantes verificados foram utilizados como referência para o planejamento das entrevistas individuais.

Realizadas entre 01 de outubro e 05 de dezembro de 2017, as entrevistas foram feitas a partir da livre adesão dos participantes. A divulgação do pedido de colaboração com a pesquisa se deu junto a mailing especifico de alunos das instituições nas quais a pesquisadora

leciona e em sua página pessoal do Facebook, visando a alcançar pessoas de seu relacionamento pessoal e profissional. Os critérios de seleção dos entrevistados levaram em consideração a faixa etária, o gênero e o estrato socioeconômico ao qual pertencem.

Os contatos tiveram duração média de meia hora e foram orientados a partir de instrumento semiestruturado, cuidadosamente delimitado com o objetivo de criar o ambiente propício para a abordagem dos principais pontos a serem verificados, buscando minimizar eventuais desvios que interferissem com as respostas dadas pelos participantes. Como bem apontado por Poupart (2014), a entrevista como instrumento de coleta de dados carrega em seu bojo um lado positivo e um lado perverso. Se, de um lado, “a possibilidade de interrogar os atores e utilizá-los enquanto recurso para a compreensão das realidades sociais é uma das grandes vantagens das ciências sociais sobre as ciências da natureza”, de outro lado, as entrevistas de tipo qualitativo podem ser fonte de controvérsias, pois “o risco é grande de ver a ciência confundir as interpretações que os atores dão da realidade com a realidade tal e qual” (POUPART, 2014, p. 215).

Em consequência, optou-se por realizar os contatos pessoalmente, com o objetivo de mitigar os impactos da comunicação tecnologicamente mediada sobre entrevistados e a pesquisadora. Assim, em sua maioria, 14 contatos, eles foram realizados na casa dos entrevistados (a convite dos mesmos), em seu local de trabalho ou em ambientes públicos (cafés, universidades e shopping center). Entretanto, quatro entrevistas foram realizadas com a utilização do aplicativo Skype, em função de sua melhor adaptação à disponibilidade de horário dos respondentes. Embora os locais de aplicação da entrevista tenham sido variados, nenhum deles apresentou-se como impeditivo à realização de um encontro produtivo que pudesse ser incorporado plenamente a esta pesquisa.

Como comentado anteriormente, a conciliação de agendas entre entrevistados e a pesquisadora constitui-se um desafio a mais. Em alguns casos, os encontros foram marcados, desmarcados e reagendados mais de duas vezes e, alguns tiveram que ser adiados por mais de duas semanas.

Do ponto de vista relacional, deve-se ressaltar que a proximidade e conhecimento prévio da pesquisadora com a maioria dos respondentes facilitou a realização das entrevistas em clima de descontração e liberdade, favorecendo a adoção de uma atitude de boa vontade e confiança para a reflexão sobre o tema tratado. Porquanto esta proximidade pudesse oferecer alguns riscos como a dispersão da entrevista para conversas paralelas ou para, em um único caso, a atitude de aguardar que a entrevistadora pudesse ajudar no processo de verbalização de

suas ideias, ela, na maioria dos casos contribuiu com o estabelecimento de rapport59 entre as partes.

Faz-se necessário também ressaltar que dois entrevistados, homens, um na faixa de 35 a 45 anos e outro na faixa de 60 a 70 anos, são profissionais que atuam na área de Tecnologia da Informação, cuja formação acadêmica e a vivência diária no que diz respeito ao uso de dispositivos tecnológicos poderiam classificá-los como, utilizando-se de termo empregado no Marketing, heavy users, ou seja, usuários altamente engajados com o produto e com alto nível de interação. Antes de considerar este aspecto um ponto negativo para o processo de análise dos dados coletados, considera-se que suas respostas podem apontar padrões de consumo de smartphones que podem ser utilizados na comparação com os demais entrevistados.

Denzin e Lincoln (2006) nos ensinam que

Como bricouler ou confeccionador de colchas, o pesquisador qualitativo utiliza as ferramentas estéticas e materiais de seu ofício empregando efetivamente qualquer estratégia, métodos ou materiais empíricos que estejam ao seu alcance (DENZIN e LINCOLN, 2006, p. 18).

Neste sentido, lançando mão de recursos que nos permitam mergulhar intensamente nos dados coletados, a segunda etapa desta pesquisa é fundada em uma análise crítica de cunho cultural que, subsidiada pela extensa revisão bibliográfica apresentada nos capítulos iniciais desta dissertação, será a base para a construção de uma discussão de base qualitativa que permita adensar as reflexões sobre as interfaces comunicação-consumo em relação aos velhos em suas interações com os dispositivos de comunicação inteligentes. Nesta etapa, objetiva-se estabelecer um diálogo entre os dados coletados e teorias já legitimadas como alicerce para a construção de um pensamento analítico que permita responder os problemas de pesquisa apresentados, quais sejam: a) como e para que os smartphones são consumidos por mulheres de 60 a 80 anos? e b) Qual o status do smartphone como meio de comunicação deste público?

No documento ESPM - TEDE: Browsing DSpace (páginas 67-71)