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Os objetos sociotécnicos na esfera do consumo

No documento ESPM - TEDE: Browsing DSpace (páginas 54-59)

substituir as pessoas e atuar como “o lugar para a esperança” (TURKLE, 2011, p. 3, tradução nossa)42, na verdade, reforçam a solidão e, ao nos manter permanentemente conectados, nos suprime os benefícios de estarmos em contato com nosso íntimo.

Turkle (2015) ainda argumenta que a tecnologia é sedutora, mas que cabe ao homem manter a aproximação com as gerações futuras por meio do compartilhamento da nossa história, dos erros e acertos. Para o que, a intermediação dos dispositivos tecnológicos, segundo a opinião da autora, não é uma condição sine qua non. Ela ressalta que não possui uma posição “anti-tecnologia”43, mas sim, “a favor da conversa”44: “é quando nós olhamos nos rostos um dos outros e ouvimos a voz que nos tornamos mais humanos em nosso relacionamento” (TURKLE, 2015, p. 23, tradução nossa)45.

Enfim, se os novos dispositivos inteligentes nos oferecem maior controle sobre nossa vida social, ao mesmo tempo também nos sujeitam a novas formas de controle, vigilância e restrições. Podemos criar novas oportunidades de conversação ou mesmo afastá-las ao, por exemplo, fingir falar em um telefone celular ou mesmo mantendo-se atento à tela para evitar que alguém “puxe conversa” em um local público, por exemplo. Mas, por outro lado, nossa autonomia é constantemente colocada à prova, visto que é esperado que possamos estar ao alcance de uma ligação ou de uma mensagem instantânea a qualquer momento.

regula relações sociais, definem mapas culturais”. Para o autor, o consumo possui significados culturais, sendo os bens “investidos de valores socialmente utilizados para expressar categorias e princípios, cultivar ideais, fixar e sustentar estilos de vida, de enfrentar mudanças ou criar permanências.” (Idem, 2006, p. 8).

Com quase 200 milhões de smartphones no mercado brasileiro, este é o principal meio de acesso individual à internet da população brasileira, estando presente em todas as camadas sociais, etárias e de gênero. Os números do mercado nacional destacam a importância deste dispositivo no cotidiano das pessoas e sua função como catalizador dos signos da contemporaneidade, tais como racionalidade, mobilidade, velocidade e individualismo.

Se, no momento de seu lançamento no Brasil, em meados dos anos 2000, o smartphone era um símbolo de status e de riqueza, hoje, ele adiciona muitas outras camadas de significado a quem o possui. Em um repertório amplo associado às múltiplas experiências e práticas de consumo possíveis para estes dispositivos, eles não somente “se tornaram extremamente importantes e socialmente significativos”, como também, mais do que uma ferramenta de comunicação, passaram a encarnar-se como “símbolo de status e uma afirmação de valores individuais” (KATZ e SUGIYAMA, 2005, p.79).

Conforme demonstraram Douglas e Isherwood (2006), os bens são marcadores sociais que dão visibilidade a categorias de cultura, estabelecendo e mantendo relações sociais.

Assim, nas relações de consumo, os bens possuem uma função ampliada na qual a capacidade de dar sentido se destaca. Para os autores, a ideia da aquisição de bens como forma de subsistir é pequena frente às infinitas possibilidades de associação simbólica.

A função essencial do consumo é sua capacidade de dar sentido.

Esqueçamos a ideia da irracionalidade do consumidor. Esqueçamos que as mercadorias são boas para comer, vestir e abrigar; esqueçamos sua utilidade e tentemos em seu lugar a ideia de que as mercadorias são boas para pensar:

tratemo-las como um meio não verbal para a faculdade humana de criar.

(DOUGLAS e ISHERWOOD, 2006, p. 108).

O smartphone incorpora em seu design e em suas funcionalidades teses da modernidade e da era digital, assumindo lugar de destaque na vida pública e como dispositivo capaz de refletir gostos pessoais e representar seus usuários no mundo. Hoje, em alguma medida, o smartphone pode ser associado com as dimensões de estilo e de moda, e como um condicionante da vida individual de seu proprietário (KATZ e SUGIYAMA, 2005).

Há tempos, moda, consumo e tecnologia convivem em uma espécie de pacto de cumplicidade e retroalimentação. No reino da obsolescência programada, o upgrade é um must, sob pena de sermos condenados aos horrores da

incompatibilidade e do ostracismo, seja ele funcional ou social. (BACCEGA e CASTRO, 2009, p. 60).

Assim como na escolha de uma roupa, a adoção de dispositivos inteligentes permite ao usuário destacar-se na comparação com outras pessoas, acentuando o que lhes é particular, único em suas personalidades e modos de vida. Ao mesmo tempo, estes dispositivos também são signos de atualização constante, na qual se prega a importância de estar sempre um passo adiante. Para Baccega (2008, p. 3), “a linguagem do consumo transformou-se numa das mais poderosas formas de comunicação social”. A isso acrescenta-se a existência de uma

“transformação intensa das relações sociais em mercadoria, (...) as quais se desenvolvem de acordo com novos territórios de pertencimentos e que também constituem a identidade do sujeito”. (Idem, 2008, p. 3).

Tais afirmações no levam a refletir sobre a crescente importância social destes dispositivos inteligentes, tão marcantes e eloquentes quanto a escolha da roupa do indivíduo.

O uso destes aparelhos diz sobre gostos pessoais e sobre a grande profusão de significados a eles associados em nossa sociedade. Com isso, inferimos que ao qualificar o cotidiano das pessoas, as práticas de consumo permitem uma avaliação do seu modo de vida.

Assim, é possível entender que, a partir do consumo, reconhecemos e somos reconhecidos socialmente, criamos identificação que nos aproximam de nossos pares, comunicamos sobre nós mesmos e estabelecemos relações com o mundo que nos rodeia. As práticas de consumo contemporâneas vão além das questões materiais e engajam-se fortemente nos aspectos simbólicos, relacionados às subjetividades daquele que consome.

Entendendo consumo como um código, Rocha (2006) nos convida a refletir sobre o papel de classificação que os bens desempenham na sociedade contemporânea, distribuindo indivíduos e grupos, produtos e serviços, pessoas e coisas conforme referências elaboradas na vida cotidiana. Para o autor, “consumo é um código e por ele são traduzidas muitas das nossas relações sociais” (ROCHA, 2005, p. 136). Neste sentido, a apropriação e uso que fazemos dos bens falam de forma eloquente sobre quem somos.

Neste sentido, entendemos os bens como sinalizadores culturais e sociais capazes de mediar nossa posição frente a sociedade. Nas palavras de Rocha (2006), o consumo “é sistema de significação, e a verdadeira necessidade que supre é a necessidade simbólica”, ele ainda completa dizendo que “os bens são necessários, antes e acima de tudo, para evidenciar e estabilizar categorias culturais”, sendo sua função essencial “fazer sentido, construindo um universo inteligível” (ROCHA, 2006, p. 16).

Se os bens são marcadores sociais e dão a compreender um sistema de classificação, é por meio da comunicação de massa que se viabiliza o acesso ao entendimento sobre este código, dando a conhecer as diferenças e as similaridades que se encontram na vida em sociedade

Se antes vendiam-se coisas, atualmente vendem-se, sobretudo, imagens e modos de ser. Verifica-se um investimento mais sutil do mercado nos próprios processos de subjetivação. Nesse sentido, a mídia desempenha uma função primordial ao veicular e induzir ideias, atitudes e padrões de comportamento que podem servir de modelo para a construção de identidades em nossos dias. (CASTRO, 2008, p. 139).

As ideias citadas acima nos oferecem um olhar sobre outro aspecto das práticas de consumo. Desta vez, sob o ponto de vista de sua associação ao campo midiático, entendendo as práticas de consumo como atreladas ao processo de modulação de subjetividades que a mídia realiza. Sobre isso, a autora completa

No bojo das múltiplas transformações socioculturais que experimentamos nas últimas décadas, vemos a disseminação dos mais variados códigos identitários englobando padrões de linguagem, vestuário e comportamento, hábitos alimentares, práticas de higiene e cuidados de si, valores existenciais e tradições culturais relativos a diferentes tipos de práticas, hábitos e signos que a cultura midiática veicula e fomenta, haja vista a criação de celebridades midiáticas, ícones cadentes do consumo e para o consumo. No conjunto de estilos de vida contemporâneos percebe-se a participação fulcral do consumo cultural como balizador de status, distinção e pertencimento.

(CASTRO, 2008, p. 140).

Se a autora, nos trechos acima, nos oferece uma visão crítica das práticas de consumo na contemporaneidade e sua intersecção com a mídia, podemos dizer que os smartphones, como um dos artefatos mais desejados pelos brasileiros46, atrelam-se de forma marcante ao processo de subjetivação apontado.

Assim, as fabricantes de equipamentos e as operadoras de serviços de dados/voz tomam papel importante na propagação de novos modos de viver a partir do uso do smartphone. Campanha da operadora Vivo para venda de planos familiares de telefonia móvel47 veiculada em 2017 alude a novas formas de comportamento que perfazem hoje o ideal de uma família feliz. Com a assinatura “Viva mais as novas famílias. E menos os

46 Espera-se que biênio 2017-2019, haja um incremento de 20% na quantidade de smartphones em operação no Brasil. Fontes: Kantar Brasil Insights. Dados referentes a fevereiro de 2017. Disponível em http://br.kantar.com/tecnologia/m%C3%B3vel/2017/smartphones-j%C3%A1-est%C3%A3o-nos-bolsos-de-mais-de-metade-dos-brasileiros/ (acesso em 25/05/2017). FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo): 28ª

edição da pesquisa anual de uso de TI, disponível em

http://eaesp.fgvsp.br/ensinoeconhecimento/centros/cia/pesquisa (acesso em 06/05/2017).

47 Campanha veiculada em redes de TV aberta e fechada em julho de 2017. Disponível no canal da operadora Vivo no YouTube em : https://www.youtube.com/watch?v=w_KyZV934No. Consultado em 24/07/2017.

mesmos planos”, a narrativa contada neste comercial alude ao smartphone e ao acesso aos serviços da operadora como forma de manter contato em família. De certa forma, a narrativa destaca a tecnologia a serviço das múltiplas formas de organização familiar e social da atualidade, sendo que os modos de vida e de consumo se interconectam e se reforçam ao compartilharem o uso das mesmas tecnologias e serviços.

Para Slater (2002), é justamente na interconexão da comunicação com o consumo que se articulam indivíduo e sociedade “em um sistema social de informações através do qual os esquemas de classificação social são organizados e controlados” (SLATER, 2002, p. 150).

Neste sentido, o smartphone cristaliza sua posição como um artefato da cultura popular que avança sobre o espaço público, transformando as relações entre as pessoas e as formas de comportamento pelas quais elas se pautam.

Hoje, a simples observação do uso dos smartphones em locais públicos nos leva a perceber que, inventado como uma ferramenta para permitir que seu usuário pudesse se comunicar em qualquer lugar e tempo, este dispositivo atualmente se tornou um símbolo de status, que demanda respeito, requerendo imediata atenção, interrompendo o usuário de qualquer tarefa que esteja realizando. O smartphone tornou-se um aparato grandemente presente na vida cotidiana das pessoas, em muitos casos, estimulando seu manuseio a cada sinal que emite. Aceitamos como normal e desejável a constante disponibilidade para comunicação. Nesse sentido, vencer as barreiras do tempo e do espaço é um objetivo significativo. Com nossos dispositivos inteligentes e seu acesso à internet, temos acesso imediato ao que ocorre não somente ao nosso redor, mas potencialmente em todo o mundo.

Como um dispositivo de múltiplas funcionalidades, o smartphone promove o acesso ao mundo do entretenimento, dos negócios, do trabalho, dos estudos e da vida social. Todas estas instâncias se conectam através dele, emaranhando-se as diversas esferas da vida. As fronteiras entre as dimensões públicas e privadas da vida são revistas e o smartphone oferece a possibilidade de transitar entre elas mais facilmente. Comunicar-se é uma possibilidade à qual o smartphone dá acesso, mas, em prática, este dispositivo permite a realização de muito mais: sendo um artefato para a expressão de desejos, de modos de ser e de viver.

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