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A sociedade em transformação e os objetos sociotécnicos

No documento ESPM - TEDE: Browsing DSpace (páginas 38-46)

necessidade de armazenar informações; e que a contagem não é decorrente da escrita, e sim o contrário. A escrita serviu também para organizar a troca de produtos e melhorá-lo a partir do saber tecnológico armazenado e disponível para ser transmitido. (GONTIJO, 2009, p. 56)

Em alguma medida, há milhares de anos, sociedade, comunicação e consumo já se entrelaçavam na vida cotidiana das pessoas, demandando a criação de novas tecnologias que permitissem o fluxo contínuo de conhecimento e informação, necessários à vida no presente e à transmissão de seu modo de viver para o futuro.

Na contemporaneidade, da mesma forma que na época de nossos antepassados pré-históricos, mudanças sociais, culturais e econômicas impulsionam a veia criativa do homem que, por meio da concepção de artefatos tecnológicos, pavimenta seu desenvolvimento.

Neste capítulo, dividido em três partes, iremos abordar como estas mudanças se desdobram sobre os dispositivos inteligentes da era digital, ressaltando os smartphones como representantes destacados do atual momento dos avanços tecnológicos.

Na primeira parte, procuraremos traçar uma reflexão sobre as transformações sociais da modernidade e como elas são refletidas no processo de inovação tecnológico em curso.

Buscaremos expor como a invenção de computadores, da internet, dos telefones celulares e dos smartphones foi levada a cabo a partir das demandas sociais, culturais e econômicas que se descortinaram desde o início do século XX.

Em uma segunda parte, objetivamos discutir o processo de hibridização entre humano e não humano. Incentivado pelo crescente desenvolvimento de aparatos tecnológicos, entendemos que este processo traz consequências para as formas como o homem se relaciona com os dispositivos inteligentes, assim como transforma as relações sociais.

Na terceira parte, discutiremos as consequências das novas formas de relacionamento entre homem e tecnologia por meio das práticas de consumo. De modo mais específico, ponderaremos sobre a modulação de subjetividades a partir da apropriação dos smartphones na vida cotidiana.

Segundo o autor, a inovação tecnológica é derivada da existência humana, só fazendo sentido quando corresponde a um objetivo social e floresce como um instrumento da expressão do homem. Para o filósofo, há em cada objeto sociotécnico um forte componente cultural que é o arcabouço necessário para sua invenção. (SIMONDON, 1980, p. 11).

Esta visão é corroborada por Winston (2000) que, refletindo sobre a ideia de uma revolução da informação, destaca que teses sobre um suposto futuro glorioso ou apocalíptico desenhado popularmente a partir das tecnologias da informação e da comunicação21 são questionáveis, visto que a acomodação de qualquer inovação é consequência das formações sociais que as originam. Ou seja, o futuro é uma consequência das escolhas humanas traduzidas nos modos de viver. O apocalipse ou a glória não se darão pelo desdobramento da tecnologia, mas pelas decisões cotidianas da sociedade.

Em linha com este pensamento, Lemos (2010) ressalta que “o „sentido‟ da tecnologia contemporânea não se refere à sua dimensão material, mas sim ao seu poder de produzir sentido, de fazer sociedade” (LEMOS e LÉVY, 2010, p. 30). Entendendo esse „sentido‟ como a finalidade para a qual se encaminha a inovação tecnológica, Lemos reforça ainda a noção de que, no atual ciberespaço, os rumos são trilhados a partir dos significados dados pela produção social coletiva e cooperativa

Pela primeira vez, devido às características atuais do ciberespaço, é possível produzir o sentido coletivamente, cooperativamente, no jogo das subjetividades e das linhagens, para além das fronteiras das culturas, das religiões, dos territórios, dos pequenos poderes. Nesse caso, o “sentido” da tecnologia só se produz em se fazendo. (LEMOS e LÉVY, 2010, p. 30-31)

Para Winston (2000), a esfera social tem supremacia sobre a tecnologia, uma vez que é nela que se encontra o ponto de partida para o desenvolvimento de atividades que condicionam e determinam o padrão de inovação e de difusão tecnológico. Desta forma, ressalta-se a centralidade do homem neste processo, que só pode ser plenamente entendido se colocado em perspectiva o papel ocupado pela nossa civilização

Um modelo que reflita estes padrões [de inovação] sugere a primazia da esfera social como o centro destas atividades, condicionando e determinando o desenvolvimento tecnológico. O que nos permite ir além da história da tecnologia, para provocar questões mais gerais sobre como um padrão de inovação e difusão das comunicações elétricas e eletrônicas ilumina um

21 Tecnologias de Informação e Comunicação, também conhecidas como TICs.

papel maior representado por estas mesmas tecnologias em nossa civilização. (WINSTON, 2000, p. 2, tradução nossa)22

Desta forma, ciência e tecnologia, dois aspectos caros à Modernidade nascida a partir da Revolução Industrial, só se ressaltam como relevantes se olhados a partir do ponto de vista da sociedade, esta sim, a base do tecido que compõem a vida cotidiana do ser humano.

Ainda conforme Winston (2000), a criatividade, a intuição e a imaginação que movem o avanço tecnológico são diretamente afetadas pela cultura e pelas forças sociais que se impõem sobre a mente dos inventores. O autor ressalta a importância das referências culturais no processo de invenção, destacando a indissociabilidade do ser social do inventor de sua função como tecnólogo

nós devemos nos lembrar, mais uma vez, que os tecnólogos são seres sociais e que tudo se desenvolve dentro da esfera social. (...) Os cientistas que desenvolvem conceitos de fundamental importância também são seres sociais, exponentes e prisioneiros da cultura que os produziu, assim como os tecnólogos que têm ideias de dispositivos e constroem protótipos.

(WINSTON, 2000, p. 5, tradução nossa)23

Em um processo que se retroalimenta, sociedade e tecnologia se afetam mutuamente em um movimento cíclico no qual comportamento afeta tecnologia que, por conseguinte, transforma as relações sociais. Assim, novos dispositivos são inventados para atender novas formas de viver que, por sua vez, também são afetadas pela inserção destes mesmos dispositivos em seu cotidiano.

A segunda metade do século XIX e o século XX foram tempos de rápidas e profundas mudanças. Economia e política se transformaram na mesma medida em que a sociedade e a cultura abriram caminhos para a conformação de novos modos de vida.

A crescente urbanização, o ingresso de contingentes cada vez maiores de pessoas nas atividades industriais, o florescimento do comércio e das passagens parisienses – precursoras dos atuais shopping centers e de novas formas de consumo –, o sucesso do indivíduo medido

22 No original: “A model to reflect these patterns implicitly suggests the primacy of the social sphere as the site of these activities, conditioning and determining technological developments. It allows us to go beyond a straightforward account of technological history to pose more general questions about how the pattern of innovation and diffusion of electrical and electronic communications illuminates the broader role played by such technologies in our civilisation.”

23 No original: “we need to remember at this point once again that the technologist is a social being and that all this is taking place within the social sphere.(...) The scientists conceptualising necessary fundamental understandings are as much social beings, exponents of and prisoners of the culture that produced them, as are the technologists who have ideas for devices and build prototypes”.

pelos símbolos externos, um toque cosmopolita no jeito de ser e de viver nas grandes cidades são alguns dos movimentos notados nesta época traduzidos nas invenções tecnológicas. De certa forma, neste tempo, distinguia-se o ímpeto pelo enobrecimento da técnica como referência fundamental de uma sociedade que vive movida pelas paixões e pelo frenesi do tempo acelerado. (BENJAMIN, 2006).

Na reflexão sobre a Paris do século XIX, Benjamin (2006) encontra uma sociedade na qual se desenvolve os primórdios dos impulsos inovadores. Em uma cidade tocada pelo emprego crescente do ferro em suas construções, pela nuvem que advém dos meios de transportes movidos a vapor, pelo passo frenético de seus habitantes, o autor distingue nas mercadorias a interpenetração entre novo e antigo, como imagem de um consciente coletivo que se aplica na exacerbação do cientificismo, na exaltação e adesão não crítica à ciência e no incentivo ao progresso contínuo transmutado em novos dispositivos tecnológicos que passam a fazer parte da vida cotidiana.

Neste sentido, as transformações da sociedade e da forma como o homem enxergava a si mesmo tornaram-se o campo fértil para inspirar invenções que permitissem ao homem falar, ver e ouvir mais longe, mais rápido e com mais pessoas ao mesmo tempo, semeando as bases para o desenvolvimento, dentre outros, da fotografia, do cinema, do telégrafo, do telefone, do rádio e da televisão.

Assim como vencer as barreiras impostas pelo tempo e espaço era de primordial interesse para o desenvolvimento humano, a busca por dispositivos que ampliassem a nossa capacidade intelectual também se revelou como objetivo a ser alcançado.

Especialmente durante a II Guerra Mundial, quando as esferas políticas e econômicas dominavam as preocupações da sociedade, a necessidade de se obter a dianteira no conflito impulsionou marcadamente os esforços em busca da criação de dispositivos inteligentes que favorecessem a disputa tática.

Do lado americano, o artefato que no futuro seria conhecido como ENIAC24 estava em desenvolvimento desde a entrada dos EUA na guerra. Como parte de um processo de aperfeiçoamento e produção em maior escala de dispositivos de balística para a artilharia norte-americana, surgiu a necessidade da invenção de um analisador mais complexo e completamente eletrônico. Após ser equalizada a questão balística, cuja solução fez seu début

24 ENIAC é a sigla para Electronic Numerical Integrator and Computer que, em tradução livre, significa computador e integrador numérico eletrônico.

durante o conflito, os estudos e experimentos feitos a partir desta necessidade prosseguiram até 1946, quando no dia 15 de fevereiro, o ENIAC foi demonstrado ao público. Nesta ocasião, o jornal The New York Times chamou-o de uma ferramenta que reconstruiria as questões científicas sobre outras bases (WINSTON, 2000).

Pelo lado britânico, a Code and Cipher School (GC&CS) se empenhava em combater a máquina alemã de criptografia, Enygma. Em junho de 1944, Colossus Mark II, como foi chamado o dispositivo britânico, estava plenamente operante, dando aos ingleses a dianteira no patrulhamento do Atlântico, até então dominado pela marinha alemã. Estima-se que a construção deste aparelho tenha sido primordial para a vitória aliada. Estavam lançadas as bases para o desenvolvimento dos dispositivos que viriam a ser conhecidos como computadores. ENIAC e Colossus são considerados seus precursores.

A década de 1940 também viu florescerem os primeiros esforços para a invenção da internet. Embora a noção de redes de telecomunicações já fosse conhecida desde o final do século XIX, foi da conjunção deste conceito com a Teoria da Informação formulada no Bell Labs em 1949 e com o conceito de Cibernética que possibilitou pensar-se no envio de mensagens eletronicamente codificadas.

Mais tarde, em um esforço do Departamento de Defesa dos EUA para criar um sistema de comunicação à prova de bombas nucleares, criava-se o protótipo da rede ARPANET, a partir do qual se derivaram outros esforços, públicos e privados, para a criação de uma rede mundial de computadores. Assim, entre as décadas de 1960 e 1990, novos estudos foram realizados por militares e por universidades chegando-se aos sistemas de protocolo FTP, do login e do sistema de senhas para autenticação, o que culminou com o desenho da World Wide Web25, por Tim Berners Lee no CERN na Suíça.

Nestes três exemplos, percebemos que as demandas da sociedade, aqui inicialmente motivadas por questões militares, foram o terreno para o desenvolvimento de novos dispositivos que viessem a atendê-las. Assim, como dito anteriormente, as demandas sociais são o principal fator de transformação tecnológica. As necessidades do tempo histórico, no contexto da economia, da política, da sociedade e da cultura levam à criação de novas tecnologias. Para acomodar novas circunstâncias de vida, a tecnologia se redefine conforme os estímulos da sociedade. Nascidos sobre a égide militar, computadores e a internet vieram a

25 World Wide Web, cuja sigla é WWW. Em tradução livre: teia mundial, ou como é conhecida, rede mundial de computadores.

mudar grandemente a forma como nos comunicamos, nos divertimos, estudamos, trabalhamos e fazemos negócios.

Em outro lugar do espectro tecnológico, temos os telefones celulares que também suscitaram transformações de grande alcance.

Os telefones celulares não têm a mesma projeção da Internet, mas eles alcançaram estatuto de meio de massa. Eles começaram a moldar como nos comunicamos, seu uso criou novas formas de relacionamentos mediados e, no mercado, começaram a influenciar os padrões de aquisição e propriedade de mídias. (KAVOORI, ARCENEAUX, 2006, p. 1, tradução nossa)26

Os telefones celulares proporcionaram ao usuário novas formas de engajamento e socialização que não eram possíveis antes de sua invenção. A aceitação social que este dispositivo alcançou tornou-o presente em áreas proeminentes da vida cotidiana, tais como negócios, educação e saúde, mudando normas sociais e impactando os padrões culturais.

Para Levinson (2006), a mobilidade proporcionada pelo telefone celular é sua principal inovação, permitindo, pela primeira vez na história da humanidade, que o ato de nos comunicar e todos os seus benefícios associados possam ser alcançados em qualquer lugar, sem que haja a obrigatoriedade da conexão via cabos que caracterizava a telefonia até então.

Ampliando os benefícios relacionados com esta tecnologia, Levinson ainda destaca as características que tornariam os telefones celulares das décadas de 1990 e 2000 nos smartphones que conhecemos hoje, tais como câmeras, envio de mensagens de texto e a conexão com a internet.

Estes dispositivos passaram a permear a vida cotidiana das pessoas, concorrendo para que as barreiras de tempo e espaço fossem vencidas, dando ao ser humano múltiplas possibilidades de comunicação e interação. Mais recentemente, frutos de um processo de convergência tecnológica, os smartphones, passaram a integrar telefonia e computação em um único aparelho, tornando possível acesso a serviços como comunicação por voz, envio de mensagens, aplicações para gerenciamento de informações pessoais e acesso à internet via wireless27. Lançados por volta de 1993, devido ao seu alto custo e as aplicações às quais davam acesso na época, os smartphones eram percebidos como uma ferramenta de negócios

26 No original: “Cell phones lack the hype of the Internet, but they have achieved the status of a mass medium.

They have begun to shape how we communicate, their use has created new forms of media-centered relations, and in the marketplace they have begun to influence patterns of media ownership and acquisition.”

27 Wireless, em tradução livre, quer dizer “sem fio”. Tratam-se das redes de acesso à internet sem fio, a partir do sinal transmitido por um equipamento chamado roteador.

com propósitos corporativos. Para Sarwar e Soomro (2013), esta pode ser considerada uma primeira fase de implantação dos smartphones

Nesta fase, todos os smartphones eram direcionados para empresas e as ferramentas eram incorporadas a partir das necessidades corporativas. Esta era começou com o advento do primeiro smartphone, o “Simon” da IBM, em 1993. O Blackberry é considerado o dispositivo revolucionário desta era, pois introduziu muitas funcionalidades, incluindo e-mail, acesso à internet e à navegação pela World Wide Web, fax e câmera. (SARWAR e SOOMRO, 2013, p. 217, tradução nossa).28

Para os autores, a segunda fase dos smartphones se deu com o lançamento do iPhone pela Apple em 2007, direcionando o dispositivo aos consumidores em geral. Ainda em 2007, o Google lançou o sistema operacional Android. Ambas empresas buscaram introduzir aplicações que fossem úteis ao consumidor pessoal ao mesmo tempo em que diminuíssem os custos do produto, garantindo assim o acesso de um público maior ao dispositivo. Ainda segundo os pesquisadores, vivemos hoje uma terceira fase, na qual, além das aplicações e características anteriores, há a busca por uma experiência excitante e atraente, tanto para empresas como para os consumidores em geral.

Contudo, na contemporaneidade, os smartphones são mais do que dispositivos excitantes ou atraentes. Eles penetram e influenciam fortemente o cotidiano social. Para Lemos (2007, p. 1)29, “as práticas sociais emergentes com as novas tecnologias de comunicação nos colocam em meio a uma cultura da conexão generalizada, engendrando novas formas de mobilidade social e de apropriação do espaço urbano”. Para o autor, a mobilidade proporcionada pelo smartphone atua diretamente sobre a teia social

Estaríamos imersos em uma maior flexibilidade social, uma organização fluida com papéis menos rígidos e lugares sociais intercambiáveis. As diversas formas de mobilidade contemporâneas exigem esforços complexos de compreensão por parte das ciências sociais, que não podem mais pensar em termos de categorias fechadas. A cultura contemporânea só pode ser compreendida através da “mobile sociology”30. Essa nova configuração social vai ser influenciada e impulsionada pelas tecnologias móveis (...) (LEMOS, 2005, p.8).

28 No original: “During this phase all the smartphones were targeting the corporations and the features and functions were as per corporate requirements. This era began with the advent of the very first smartphone “The Simon” from IBM in 1993. Blackberry is considered as the revolutionary device of this era, it introduced many features including Email, Internet, Fax, Web browsing, Camera.”

29 LEMOS, André. Ciberespaço e Tecnologias Móveis: processos de territorialização e desterritorialização na cibercultura. Disponível em: https://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/territorio.pdf. Acesso em fev/2018.

30 Termo que, em tradução livre, quer dizer Sociologia Móvel. Conceito proposto por John Urry no ano 2000, que trata da importância da mobilidade na sociedade atual, com o fluxo de pessoas, objetos, ideias, informações, levando à construção de um processo complexo de interdependência e consequências sociais.

Ou seja, na perspectiva do autor, a referida mobilidade proporcionada pelas tecnologias digitais móveis são agentes de controle e, ao mesmo tempo, agentes de libertação, ao permitir a diminuição das hierarquias.

Ling e Pedersen (2005, p.v, tradução nossa)31 ressaltam que, nos últimos quinze anos, a comunicação móvel se estabeleceu tecnicamente, comercialmente, socialmente e também no imaginário das pessoas. Para os autores, os dispositivos móveis de comunicação mudaram “a forma como nos comportamos na esfera pública”, tornando-se elementos “no nosso senso de espaço público e privado e no desenvolvimento de nossas personas sociais e psicológicas.”. A partir dessa perspectiva, somos mais do que simplesmente usuários das novas tecnologias de comunicação, nós somos gerentes da nossa comunicação, decidindo e fazendo escolhas sobre quais os meios de comunicação, quais os parâmetros de utilização e quais as questões sociais e expectativas às quais responderemos, lidando com as opções de interação que se abrem no cotidiano em um repertório cada dia mais complexo.

Ribeiro, Leite e Sousa (2009, p. 191-192) corroboram com esta visão ao destacar o modo particular com que os smartphones são apropriados na atualidade. Ao entenderem que o dispositivo foi “redimensionado para situações não previstas” e que hoje são “quase como uma extensão de cada indivíduo, acompanhando-o em todos os momentos e para qualquer lugar”, os autores ressaltam o papel do celular no estabelecimento de “novas formas de comunicação e cultura”. Em sua visão, os smartphones e suas características de mobilidade e convergência traduzem eloquentemente a vida na contemporaneidade, na qual rapidez das transformações e novos comportamentos urbanos se destacam. Neste sentido, formas de convivência e de sociabilidade “são promovidas e/ou potencializadas pelo uso da comunicação móvel”, refletindo assim “características relacionadas com as representações da sociedade contemporânea” (Idem, p. 188). Estas características puderam ser verificadas em estudo realizado pelos pesquisadores com adolescentes sobre a forma como os smartphones são apropriados no cotidiano deste grupo. Alguns dos achados dão conta da influência dos smartphones nos hábitos e rituais do dia a dia dos entrevistados, com desdobramentos sobre, por exemplo: a) seu sono – com a verificação de uma prontidão em tempo integral para ligações ou envio/recebimento de SMS32, mesmo durante a noite, o que leva os adolescentes a

31 No original: “It has changed the way we behave in the public sphere. The mobile telephone has become an element in our sense of public and private space and in the development of our social and psychological personas.”

32 SMS – sigla para a expressão em inglês: Short Message Service, cuja tradução livre é serviço de mensagem curta. Ou seja, serviço que possibilita o envio de mensagens de texto curtas, até 160 caracteres, entre dispositivos móveis.

dormirem com seus aparelhos ao alcance das mãos; b) a apropriação que fazem da língua falada e escrita – os pesquisadores notaram a forma curta e objetiva com que as perguntas feitas ao grupo foram respondidas. Embora alguns outros motivos possam ser apontados para esta atitude, os pesquisadores inferem que o hábito do envio de SMS também esteja ligado à forma econômica com que os adolescentes se expressam; c) o estabelecimento de relações emocionais com os dispositivos – os quais foram designados como “filhos” pelos adolescentes; d) o reforço dos laços de aproximação e intimidade – os quais se dão por meio da troca de mensagens sem finalidade específica, mas, como forma de articulação e desarticulação de encontros; e, por fim, e) sua memória e a guarda de sua história – visto que o smartphone armazena os dados pessoais do usuário, mantendo “todas as informações das suas vidas na palma da mão” (Ibidem, p. 199).

As conclusões de estudos como o anteriormente citado nos trazem à luz a complexidade que os arranjos sociais tomaram a partir da mediação realizada pelos smartphones.

A difusão de dispositivos de comunicação sem fio tem se expandido mais rapidamente do que qualquer outra tecnologia de comunicação até o momento. E, muito embora estes avanços tecnológicos tenham sido desenvolvidos com um propósito específico, podemos notar que as pessoas e as organizações acabaram por leva-los para outros caminhos, não antes imaginados. Isto nos faz pensar sobre o quanto o fator social se impõe sobre a inovação tecnológica. E, voltando às ideias de Simondon com as quais abrimos a parte inicial deste capítulo, reforçamos a noção de que cabe ao homem o papel permanente de organizador e intérprete do mundo tecnológico.

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