1 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Legislação e programa de estudo do Ensino Religioso da Alemanha
Débora Carvalho Batista
Doutorado em Ciência da Religião
São Paulo Novembro de 2022
2 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Débora Carvalho Batista
Legislação e programa de estudo do Ensino Religioso da Alemanha
Doutorado em Ciência da Religião
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), como exigência parcial para obtenção do título de doutora em Ciência da Religião, sob orientação do Prof. Dr. Frank Usarski.
São Paulo Novembro de 2022
3 BANCA EXAMINADORA
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4 Dedico este trabalho a Deus, à Comunidade Católica Shalom e à minha família, que têm sido meu suporte na trajetória acadêmica, científica e na vida.
5 AGRADECIMENTOS
“O presente trabalho foi realizado com apoio da FUNDASP.”
6 AGRADECIMENTOS
“O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil CAPES/PROSUC - Código de Financiamento 88887.369246/2019-00.”
7 AGRADECIMENTOS
Tenho muitas pessoas a quem agradecer simplesmente por terem estado ao meu lado nesses que foram os dias mais difíceis de minha vida. A primeira delas é Deus, é claro, por ter me sustentado com saúde em meio a tantos choros, medos e angústias; também por ter me levantado todas as vezes em que caí, fazendo Maria passar à frente de tudo e me dar coragem, sabedoria e fortaleza para continuar até o fim, com seu santos, anjos e arcanjos e todas as milícias celestiais.
Essa ajuda, sustento e oração se concretizaram através da vida de muitas pessoas, dentre as quais posso citar: minha família – minha mãe, que rezou incansavelmente todos os dias por mim; meu pai, que rezou e tantas vezes fez os reparos em minha casa para que eu pudesse estudar melhor; minha irmã Diana, que sempre me ajudou com bibliografias e orações; minha irmã Shirley, que era “osso duro de roer” nos treinos para as bancas, e minha irmã Luana, que também rezou muito por mim.
Também agradeço às minhas amigas da EMEI Prof.ª Helena Lian e a toda a Educação Infantil matonense, pessoas muito especiais, que me ajudaram de tantas formas, com orações, conversas, rifa e muita paciência nas minhas necessidades de adaptações de horário e tantas loucuras do doutorado.
Agradeço imensamente à Comunidade Católica Shalom, que suplicou tanto a Deus por mim, desde o começo desta caminhada na pós-graduação, nas pessoas da Monise, Mara, Brízia, Ligiane, Maristela, Luana, Samia, Thaíse, Alice, Daniela Veltri, Lucas, Luciana, Líria, Juliana, Maísa, Emmir, Moisés, além da minha querida Célula São José, que me ajudou financeiramente e também do meu amado Shalom Matão - Nádia, Viviane, Gabriel, Aline, Vinícius, Indiara e, especialmente, Imara, que me ajudou em tantos gráficos! Ou seja, agradeço à comunidade de Vida e de Aliança, da missão de Araraquara, que me socorreu de tantas formas, nas orações, risadas, alegrias e tristezas, para que eu pudesse chegar até aqui.
Louvo e bendigo a Deus pela vida e sabedoria de meu orientador, Frank Usarski, que nunca deixou de me ajudar desde o começo deste percurso acadêmico, recebendo-me de braços abertos no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da PUC-SP – Perdizes, no mestrado e depois no
8 doutorado e me guiando em todos os momentos de felicidade e dor, até que eu pudesse chegar à conclusão deste grande sonho de ser doutora. Também agradeço à minha banca de qualificação, nas pessoas dos professores Eulálio Figueira e Valeska Silveira e também os professores Wagner Lopes Sanches, Rafael Shoji, João Décio Passos, Fábio Stern, da banca final, que gentilmente forneceram todos os passos para conclusão desta pesquisa.
Enfim, gratidão verdadeira aos padres e irmãos da Igreja Católica, principalmente o padre Jean, da paróquia Santa Luzia de Matão/SP, as irmãs do Sagrado Coração de Jesus de São Borja/RS, irmãs Claretianas de Matão/SP, irmãs do Santuário de Schoenstatt de Araraquara/SP, irmãs Marcelinas de São Paulo/SP; aos membros da banca, à Pontifícia Universidade Católica (Andreia, Neffertite e Glair); à professora Ana Maria Senzi, da UNESP Araraquara, ao Shalom Alemanha e a todos que, de alguma forma, se aproximaram de mim ou, mesmo a distância (com a pandemia), se preocuparam em dizer que estavam unidos de coração ao meu, nesta luta pela aquisição de conhecimento.
A Educação transformou minha vida. Nunca tive recursos financeiros, com pai pedreiro e mãe costureira; mas eu e minhas três irmãs, graças a Deus e ao esforço de meus pais, somos todas pós-graduadas! Não posso deixar de agradecer à minha avó, Maria Emídia Batista, que, aos 107 anos, me inspira a nunca deixar de batalhar e sonhar por dias melhores.
A todos, citados aqui, ou não, meu muito obrigada por tudo!
9 RESUMO
Esta tese enfoca o Ensino Religioso confessional e não confessional alemão atual, visando compreendê-lo em sua estrutura legal nacional, sendo base para a estrutura específica de cada Estado. E discutir os currículos de quatro Estados alemães: Turíngia e Saxônia (situados em áreas da antiga Alemanha Oriental), Baixa Saxônia e Baviera (situados em áreas da antiga Alemanha Ocidental). Ainda são objetivos desta pesquisa: compreender a situação religiosa na Alemanha como contexto do Ensino Religioso; estudar a história do Ensino Religioso na República Federal da Alemanha (a partir de 1947); apresentar a regulamentação jurídica do Ensino Religioso nos Estados da República Federal da Alemanha; abordar os currículos do Ensino Religioso cristão, não cristão e alternativo; analisar em que medida as religiões não cristãs são abordadas nos currículos do Ensino Religioso Alemão.
Palavras-chave:
Ensino religioso; Alemanha; leis; currículo; religiões não cristãs.
10 ABSTRACT
This thesis focuses on the current German confessional and non- denominational Religious Education, aiming to understand it in its national legal structure of each Federal State. And to discuss the curricula of four German States: Thuringia and Saxony (located in areas of former East Germany), Lower Saxony and Bavaria (located in areas of former West Germany). Further objectives of this research are: to understand the religious situation in Germany as a context for Religious Education; to study the Religious Education in the Federal Republic of Germany (from 1947 onwards); to present the legal regulation of Religious Education in the States of the Federal Republic of Germany; to address the curricula of Christian, non-Christian and alternative Religious Education, to analyze to what extent non-Christian religions are addressed in German Religious Education curricula.
Keywords: Religious education; Germany; laws; curriculum; non-Christian religions.
11 SUMÁRIO
SUMÁRIO... 11
INTRODUÇÃO... 14
CAPÍTULO I - A SITUAÇÃO RELIGIOSA NA ALEMANHA COMO CONTEXTO DO ENSINO RELIGIOSO... 27
Introdução ao Capítulo... 27
1.1 A situação religiosa na República de Weimar... 28
1.1.1 Antecedentes históricos... 28
1.1.2 Disposições da Constituição de Weimar... 29
1.1.3 Artigos da Constituição de Weimar referentes à religião... 30
1.2 O Terceiro Reich... 31
1.3 A situação do ensino religioso na Alemanha Oriental antes da Reunificação... 33
1.3.1 Criação da República Democrática Alemã (DDR)... 33
1.3.2 O ensino religioso na República Democrática Alemã... 34
1.4 A situação do ensino religioso na República Federal da Alemanha antes da reunificação... 36
1.4.1 Criação da Alemanha Federal da Alemanha... 36
1.4.2 Leis da República Federal da Alemanha... 37
1.4.2.1 Educação religiosa na República Federal da Alemanha... 39
1.5 A situação religiosa da Alemanha unificada... 42
1.5.1 Breve histórico da reunificação... 42
1.5.2 Configuração e tendências do campo religioso atual... 42
1.5.2.1 A diversificação crescente do campo religioso... 43
1.5.2.2 A situação das duas igrejas cristãs... 44
1.5.2.3 A situação do islã... 45
1.5.2.4 A situação do judaísmo... 46
1.5.2.5 A população “sem religião”... 47
Conclusão ao Capítulo... 48
CAPÍTULO 2 – O ENSINO RELIGIOSO NÃO CONFESSIONAL NA ALEMANHA ATUAL: UMA LEITURA ESTADO A ESTADO... 49
Introdução ao Capítulo... 50
2.1 Direito Escolar... 50
2.2 O contexto escolar... 52
12 2. 3 A regulamentação jurídica do ensino religioso não confessional nos
Estados da República Federal da Alemanha... 53
2.3.1 Baden-Württemberg... 53
2.3.2 Baviera... 55
2.3.3 Berlim... 56
2.3.4 Brandemburgo... 57
2.3.5 Bremen... 57
2.3.6 Hamburgo... 58
2.3.7 Hessen... 59
2.3.8 Meckemburgo-Pomerânia Ocidental... 60
2.3.9 Baixa Saxônia... 60
2.3.10 Renânia do Norte-Vestefália... 61
2.3.11 Renânia-Palatinado... 61
2.3.12 Sarre... 62
2.3.13 Saxônia... 63
2.3.14 Saxônia-Anhalt... 63
2.3.15 Eslésvico-Holsácia... 64
2.3.16 Turíngia... 64
Conclusão ao Capítulo... 66
CAPÍTULO 3 - CURRÍCULOS DO ENSINO RELIGIOSO NÃO CONFESSIONAL ATUAL DE QUATRO ESTADOS DA ALEMANHA: BAIXA SAXÔNIA, BAVÁRIA, TURÍNGIA E SAXÔNIA... 68
Introdução ao Capítulo... 68
3.1 Resumo das diretrizes do ensino religioso dos quatro Estados... 70
3.1.1 As religiões não cristãs nas diretrizes de ensino religioso no Estado da Baixa Saxônia... 70
3.1.1.1 As diretrizes do ensino religioso confessional... 70
3.1.1.2 As diretrizes do ensino religioso islâmico... 74
3.1.1.3 As diretrizes do ensino religioso alternativo... 76
3.1.2 As religiões não cristãs nas diretrizes do ensino religioso no Estado da Baviera... 79
3.1.2.1 As diretrizes do ensino religioso confessional... 80
3.1.2.2 As diretrizes do ensino religioso islâmico... 87
3.1.2.3 As diretrizes do ensino religioso alternativo... 88 3.1.3. As religiões não cristãs nas diretrizes do ensino religioso no Estado da Saxônia...
3.1.3.1 As diretrizes do ensino religioso confessional...
90 90
13
3.1.3.2 As diretrizes do ensino religioso judaico... 92
3.1.3.3 As diretrizes do ensino religioso alternativo... 94
3.1.4 As religiões não cristãs nas diretrizes do Ensino Religioso no Estado da Turíngia... 95
3.1.4.1 As diretrizes do ensino religioso confessional... 95
3.1.4.2 As diretrizes do ensino religioso judaico... 99
3.1.4.3 As diretrizes do ensino religioso alternativo... 100
3.2 Leitura sinóptica das diretrizes... 101
Conclusão ao Capítulo... 104
CAPÍTULO 4 – SÍNTESE DO ESTUDO ACERCA DO ENSINO RELIGIOSO NOS ESTADOS ALEMÃES DA BAIXA SAXÔNIA, BAVIERA, SAXÔNIA E TURÍNGIA... 105
Introdução ao Capítulo... 105
4.1 O tratamento de religiões no ensino religioso - um olhar histórico... 105
4.2 O tratamento das religiões nos diferentes tipos do ensino religioso... 109
4.3 O tratamento das religiões no ensino religioso alternativos nos quatro Estados... 113
Conclusão ao Capítulo... 114
CONCLUSÃO... 115
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 118
14 INTRODUÇÃO
Na Alemanha, o ensino religioso vem sendo modificado em uma tentativa de mudança da perspectiva tradicional (ou católico, ou luterano) para a de um ensino sem vínculo eclesial e desinteressado em uma formação religiosa propriamente dita.
Esse fenômeno motivou a proponente desta pesquisa a estudar o ensino religioso na Alemanha. A área é de relevância acadêmica e muito importante para a carreira desta pesquisadora, que há 18 anos atua na educação do município de Matão/SP. Tendo estudado no curso de Letras da UNESP Araraquara, onde obteve o título de bacharel e licenciada em Alemão, a autora também estudou na Alemanha e teve contato com a riqueza cultural e religiosa daquele país.
Sendo assim, junto com seus conhecimentos de jornalista, a doutoranda se motivou a aprofundar os estudos de toda a vida, visando conhecer melhor o ensino religioso alemão e, assim, contribuir com pesquisas na temática e aprofundar-se nesta área que é sua paixão e que vem transformando sua vida há tantos anos: a área da Educação.
Aqui se encontra o olhar original deste projeto de pesquisa: o estudo da estrutura legal do ensino religioso confessional e não confessional alemão.
Portanto, foi necessário mapear as leis e os currículos do ensino religioso na Alemanha e como sua estrutura se estabelece no âmbito de cada Estado. Dentro dessa reflexão, justifica-se a presente tese, que teve por objetivo estudar o ensino religioso alemão, para que houvesse compreensão de sua estrutura legal global e específica e analisar até que ponto as religiões não cristãs são abordadas nos currículos.
O ensino religioso alternativo é um desiderato, como observa Silveira (2021) ao analisar a coleção “Fé Viva”, voltada ao ensino religioso na Inglaterra;
ela conclui que, naquele país, a disciplina expressa a política de governos e da Igreja Nacional, assim como das comunidades religiosas locais, de reconhecer e acolher a diversidade religiosa, procurando transmitir uma noção de pluralidade. Não é, porém, a quantidade de religiões que garante a diversidade, mas a metodologia utilizada no estudo das mesmas a partir de uma abordagem temática capaz de incluir outras crenças, religiões e filosofias. Nesse sentido, o
15 ensino religioso na Inglaterra, a exemplo da política governamental e religiosa, abraça a diversidade religiosa dentro de limites claros, de forma a não colocar em risco a confessionalidade do Estado, porém contribuindo para a formação de uma geração, que é formada para respeitar e valorizar a diversidade cultural e religiosa (SILVEIRA, 2021, p.185).
No banco de teses e dissertações da CAPES, foram encontradas outras teses sobre ensino religioso, dentre elas a de Becker (2010), pela UFC, denominada “Ensino Religioso, entre Catequese e Ciências da Religião: Uma avaliação comparativa de professores do Ensino Religioso no Brasil e da aprendizagem inter-religiosa na Alemanha em busca de um Ensino Religioso interteológico e interdisciplinar”, em que o objeto de pesquisa foram o ensino religioso e a formação de seus docentes no Brasil e na Alemanha. Além disso, Costa (2019), pela PUC-SP, pesquisou a ciência da religião aplicada como o terceiro ramo da Religionswissenschaft: história, análises e propostas de atuação profissional
Foram encontradas ainda 110 teses sobre ensino religioso no banco de teses e dissertações da CAPES, sendo uma intitulada “Formação de docentes para o Ensino Religioso: perspectivas e impulsos a partir da ética social de Martinho Lutero”, pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (OLIVEIRA, 2003), o título “Ensino religioso com adolescentes: em escolas confessionais luteranas da IECLB”, também pela Escola Superior de Teologia de São Leopoldo (STRECK, 2000), e a tese “Direito, religião e esfera pública: bases para discussão do Ensino Religioso nas escolas públicas”, pela USP (PAES, 2020).
Apesar de todos esses trabalhos serem relacionados ou à lei do ensino religioso ou à Alemanha e seus autores, nenhum deles analisou as leis ou currículo do ensino religioso alemão; assim, justifica-se ainda mais o interesse desta pesquisa, que tem o olhar nas leis e currículo do ensino religioso externo, para contribuir com pedagogos, professores, gestores educacionais do ensino religioso e cientistas da religião e interessados na temática do Brasil e do Exterior.
O objeto desta pesquisa foi a legislação e o programa de estudo do ensino religioso alemão na atual República Federal da Alemanha. O ensino religioso alemão, regulamentado por leis especificas de cada Estado da federação, é, ao mesmo tempo, confessional e não confessional. O ensino confessional
16 contempla as religiões católica, protestante e ortodoxa, em alguns lugares; o ensino não confessional, de acordo com o Tribunal Constitucional Federal (no qual esse tipo de escolas é introduzido), é deixado à decisão da maioria democrática do legislador estadual. O foco desta pesquisa foi o ensino religioso não confessional, pois a ciência da religião, base de formação da autora, estuda as religiões sem juízo de valor.
Os Estados federais da Alemanha têm soberania com relação ao ensino religioso. Portanto, apesar de existir uma lei para todo o país, prevalece a autonomia de seus entes federados para deliberar sobre suas próprias leis e currículos. Assim, foram abordados nesta pesquisa:
a) – as diretrizes referentes aos diferentes tipos de ensino religioso;
b) – os conteúdos do ensino religioso alternativo.
O Estado não precisa impedir toda atividade religiosa em suas instituições. Em vez disso, ao permitir a atividade religiosa, permite que seus cidadãos exerçam sua liberdade religiosa no Estado também. Aplicado à educação religiosa, isso significa que, se o Estado submete os alunos a frequentar suas escolas para serem educados e treinados, também lhes faculta instruções religiosas que podem ser importantes de acordo com sua orientação religiosa e ideológica pessoal. Pode, enfim, incluir componentes religiosos em sua educação. Essa visão é baseada no direito da criança à religião.
De acordo com o Artigo 140 GG (Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland, GG - Lei Básica), em conexão com o Artigo 136, §4º do WRV (Weimarer Verfassung ou Weimarer Reichsverfassung, Constituição de Weimar), ninguém pode ser forçado a participar de exercícios religiosos. Como consequência da liberdade de religião e consciência, os responsáveis legais podem (em geral, os familiares responsáveis) determinar a participação da criança (Artigo 7º, §2º GG) e cancelar seu registro na educação religiosa. A criança pode ser ouvida a partir dos dez anos de idade, se quiser ser criada em uma confissão diferente. A partir dos doze anos, essa decisão requer o consentimento da criança.
Desde a plena maturidade religiosa, aos 14 anos, se o aluno exercer seu direito fundamental à inviolabilidade da "[...] liberdade de crença, consciência e liberdade de confissão religiosa e ideológica [...]", de acordo com o Artigo 4, §1º da Lei Básica, ele também decide sobre a própria
17 afiliação religiosa (§5º, Sentença 1, KErzG ). Os alunos pertencentes a uma confissão podem cancelar o registro da educação religiosa de acordo com as diretrizes de cada Estado.
Cabe aos Estados federais estabelecer instruções religiosas. Os requisitos constitucionais federais dão aos Estados espaço para o projeto. Isso acontece sobretudo nas leis das escolas estaduais e, às vezes, também nas constituições estaduais. Os contratos das igrejas estatais também são comuns, regulando a cooperação com as comunidades religiosas.
Sendo os ensinos religiosos confessional e não confessional e, sendo o objeto desta pesquisa a estrutura legal do ensino religioso não confessional alemão, o problema deste estudo girou em torno das seguintes questões:
. Como as leis e diretrizes do ensino religioso refletem a não confessionalidade do ensino religioso alemão?
. Como essa não confessionalidade aparece na estrutura legal da educação religiosa alemã?
. Como se verifica a não confessionalidade na legislação federal e dos Estados?
. Como a não confessionalidade aparece e se relaciona com a confessionalidade nas diretrizes da educação religiosa alemã?
. Quais são as convergências e divergências do ensino religioso não confessional entre os Estados federais?
Na Alemanha, segundo Usarski (2006), no início da década de 1970 (em uma época, portanto, em que a Alemanha era ainda dividida em dois países) alguns dos Estados da então República Federal da Alemanha (Alemanha Ocidental), em face de sua autonomia diante do governo nacional na área da educação, começaram a instalar, nas escolas públicas, uma alternativa ao ensino religioso tradicional. Enquanto este último se caracterizava por uma orientação explícita católica ou luterana, o novo componente curricular visou atender um número cada vez maior de alunos sem vínculo eclesial e desinteressados por uma formação religiosa propriamente dita.
Na obra “Ensino Religioso: construção de uma proposta” (de 2007), João Décio Passos procurou sistematizar a questão do ensino religioso no Brasil, dividindo-o em três modelos – “Catequético”, “Teológico” e “das Ciências da
18 Religião”. Esses modelos foram usados como referência para a análise dos planos de ensino, feita na conclusão.
O modelo Catequético é organizado pela e se sustenta na confessionalidade. Assim, no entender do autor, em todos os momentos históricos após o surgimento do cristianismo, “a catequese era vista como construção, como uma prática escolar voltada para a formação das ideias corretas em oposição às ideias falsas” (PASSOS, 2007: p. 57) – (CNBB, Doc.
26, 8-13). Nesse modelo, os conteúdos ficam sob responsabilidade das igrejas e, com a confessionalidade, aparece o modelo pedagógico tradicional. Contudo, o risco dessa proposta é o proselitismo e a intolerância religiosa.
O modelo Teológico possui uma cosmovisão plurirreligiosa. Seu contexto político é a sociedade secular, sua fonte nasce da antropologia/teologia plural e seu método é a indução. Possui grande afinidade com a escola nova e seu objetivo é a formação religiosa do cidadão; a responsabilidade é das confissões religiosas e comporta um grande risco como catequese disfarçada. Esse modelo teológico é adotado, porque se trata de uma concepção de ER que procura uma fundamentação para além da confessionalidade estrita, de forma a superar a prática catequética na busca de uma justificativa mais universal para a religião enquanto dimensão do ser humano e como um valor a ser educado (PASSOS, 2007, p. 60).
O terceiro modelo, das Ciências da Religião, se apoia especificamente na Epistemologia e, por isto, se distingue dos outros dois modelos: consiste em tirar as decorrências legais, teóricas e pedagógicas da afirmação do ER como uma área de conhecimento... trata-se de reconhecer a religiosidade e a religião como dados antropológicos e socioculturais que devem ser abordados no conjunto das demais disciplinas escolares, por razões cognitivas e pedagógicas (PASSOS, 2007, p. 65). A base teórica e metodológica desse modelo remete à Ciência da Religião; possui uma cosmovisão transreligiosa, seu contexto político é a sociedade secularizada, sua fonte é a ciência da religião e seu método é o de indução. Possui afinidade com a epistemologia atual e seu objetivo é a educação do cidadão; sua responsabilidade é da comunidade científica e do Estado e seu risco é o da neutralidade científica.
Segundo Passos, o modelo mais indicado aplicável às escolas é o das ciências da religião; contudo, é preciso considerar as dificuldades na formação
19 dos professores e na estruturação dos modelos políticos em nível superior. Por tudo isso, as reflexões apresentadas foram desenvolvidas a partir da ideia de três pressupostos de ER. Dois deles, a serem superados nas práticas escolares:
o da fé e da religiosidade. E um último a ser construído: o da educação do cidadão (PASSOS, 2007, p. 133).
Partindo dessa dinâmica e desse entendimento da realidade, Passos considera que “se poderá construir um cidadão livre e responsável. Se este não for mais religioso, o que poderá ocorrer, deverá ser mais ético e consciente da força da religião na vida pessoal e individual” (PASSOS, 2007, p. 46).
Contudo, segundo o autor, é preciso que existam modelos de ensino religioso para que se evite o excesso de conteúdo desnecessário. Dentro dos modelos propostos, é preciso buscar o mais adequado ou os elementos que melhor comporiam o quadro do ensino religioso.
Sendo o ensino religioso confessional e não confessional, e sendo o objeto desta pesquisa a estrutura legal e o currículo do ensino religioso não confessional alemão, as hipóteses deste estudo foram:
1) - Os requisitos legais são inconsistentes. Na Baviera e na Renânia- Palatinado, o componente de “educação ética” está ancorado nas constituições estaduais. Na maioria dos Estados, os regulamentos relevantes podem ser encontrados nas leis escolares, em outros lugares circulares ou resoluções de gabinete. Em alguns Estados são feitas provisões para todos os alunos a partir da 5ª série, enquanto em outros, são feitas provisões apenas para as 9ª e 10ª séries. Não é, portanto, surpreendente que os objetivos de ensino, a estrutura das aulas e os conceitos didáticos também variem muito de um Estado federal para outro. Enquanto no sul da república a ênfase está numa pedagogia baseada em valores tradicionais e dados, no norte o objetivo é encorajar o questionamento crítico a estes valores. Em outras regiões predomina uma forte tendência para o aconselhamento prático de vida.
2) - As leis e diretrizes do ensino religioso fornecem diretrizes para a não confessionalidade, mas são bem gerais, pois o ensino religioso não confessional é deixado à decisão da maioria democrática do legislador de cada Estado, como colocado no Capítulo 1 desta tese, que traz o histórico de como cada Estado foi assumindo certa independência com relação à religião e, consequentemente, ao ensino religioso.
20 3) – Apesar das diferentes nomenclaturas, vimos no Capítulo 2 que existe uma padronização das leis escolares, alcançada através da coordenação do conteúdo e organização entre os Estados, especialmente pelas tradições comuns; pela Conferência de Ministros da Educação e Cultura; pelo reconhecimento mútuo de qualificações para o abandono escolar e o reconhecimento mútuo das qualificações de ensino.
4) – Existem diferenças temáticas do ensino religioso, como visto Capítulo 3. Ele também é chamado de “filosofia” ou “ética” em alguns Estados da federação alemã. Os conteúdos de aprendizagem ensinados nesse componente alternativo permitem uma atribuição cientificamente sistemática clara às áreas específicas da filosofia. Um corte transversal dos currículos de cada Estado mostra uma primazia (muitas vezes, didaticamente exigida) dos tópicos orientados para a prática. Por esse motivo, uma especificação adicional do assunto, sob o título "ética", parece ser possível de uma forma sistemática, mas não obrigatória.
5) – Essas diretrizes não se posicionam sobre um limite máximo ou exigência mínima de alunos por sala. E sobre os conteúdos e materiais didáticos, as diretrizes indicam que podem verificá-los, mas não estabelecem conteúdos comuns a todos os Estados. Com relação à formação dos professores, também não há uma padronização: muitos Estados nem possuem um curso de estudos próprio para a ética como matéria escolar.
6) – O Estado alemão comprometeu-se à neutralidade em relação às religiões e às ideologias. Esse fator abriu espaço para as religiões não cristãs, que hoje são minoria. Assim, existem muçulmanos e crentes em outras religiões não cristãs; além disto, cerca de um terço da população alemã informa não pertencer a nenhuma religião, como visto no Capítulo 3.
Portanto, há convergências e divergências entre os diferentes regulamentos estaduais. As convergências aparecem, por exemplo, em relação ao componente “educação ética”. Em 13 dos 16 Estados federados, a “educação ética” (ou componente análogo) é obrigatória para os alunos que não participam da educação religiosa. Em dois outros Länder (Berlim e Brandemburgo), é dada uma instrução semelhante. Apenas a Renânia do Norte-Vestefália não tem proporcionado, até agora, uma alternativa obrigatória ou optativa para a educação religiosa. Em resumo: visto a partir do prisma da atual realidade
21 jurídica alemã, o tema da ética/filosofia pode ser definido como um componente alternativo (predominantemente obrigatório) à ER.
As divergências nascem do fato de que a educação é uma questão de Estado. Por essa razão, a educação ética aparece em formas heterogêneas.
Isso começa com o nome: enquanto na maioria dos Estados “ética” é o título do componente curricular, em outros se chama “ética geral”, “ética/filosofia”,
“filosofia”, “propedêutica filosófica”, “valores e normas”, “estilo de vida-ética- religião”; em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental há um tema análogo chamado
“estudos religiosos”.
Assim, esta tese teve como objetivo estudar o ensino religioso não confessional alemão atual, visando compreendê-lo em sua estrutura legal geral, nacional, sendo base para a estrutura específica de cada Estado. E discutir os currículos de quatro Estados alemães: Turíngia e Saxônia (situados em áreas da antiga Alemanha Oriental), Baixa Saxônia e Baviera (situados em áreas da antiga Alemanha Ocidental).
Ainda foram objetivos desta pesquisa: compreender a situação religiosa na Alemanha como contexto do ensino religioso; estudar a história do ensino religioso na República Federal da Alemanha a partir de 1947; detalhar a história do ensino religioso na República Federal da Alemanha; apresentar a regulamentação jurídica do ensino religioso não confessional nos Estados da República Federal da Alemanha; apresentar a formação acadêmica de professores de ensino religioso alternativo; e abordar os currículos do ensino religioso alternativo.
A metodologia adotada nessa pesquisa foi a da pesquisa bibliográfica de caráter teórico-prático, por meio da análise de documentos que regulamentam o ensino religioso na Alemanha, quais sejam: legislação e currículos. Todas as traduções dos documentos foram realizadas pela autora da pesquisa, ou seja, não são traduções oficiais, sendo suficientes apenas para o presente trabalho.
A estrutura desta pesquisa se desenvolveu de acordo com os seguintes Capítulos:
Capítulo 1 - A situação religiosa na Alemanha como contexto do ensino religioso
Este capítulo tratou do contexto religioso na Alemanha, o que permitiu avançar para o estudo do ensino religioso naquele país. Assim, na conjuntura da
22 tese, teve como função recapitular as manifestações do ensino religioso como componente curricular em diferentes fases da história da Alemanha, tendo em vista que ele só chegou a seu estado atual graças aos caminhos percorridos historicamente.
A história da Alemanha não foi trazida ao foco, a não ser no absolutamente necessário. A tarefa principal foi trazer informações sobre a situação religiosa atual e suas raízes históricas. Isso foi necessário porque a institucionalização do ensino religioso não confessional reflete mudanças históricas no campo religioso da Alemanha. Até certo ponto, portanto, foi preciso trazer informações contextuais. Nesse caso, foram incluídos elementos da política/História antes de se abordar a questão religiosa propriamente dita.
O início desse percurso foi a República de Weimar, nome dado à república estabelecida na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, e que durou até o início do regime nazista, em 1933, tendo como sistema de governo uma democracia representativa semipresencial. As leis e pensamentos dessa época foram tão marcantes que alguns deles acabaram recepcionados pela Constituição da República Federal da Alemanha e pelos direcionamentos do ensino religioso, tendo como pano de fundo a ligação entre Estado e Igreja, educação e religião.
É importante compreender o papel historicamente significativo do ensino religioso nas escolas, ministrado por até seis horas por semana após a introdução da escolaridade obrigatória nas escolas primárias, no século XIX, assim como os regulamentos legais sobre a relação Estado-Igreja(s) na Constituição, leis e contratos (Kothman, 2015).
Como veremos, no decorrer da Reforma Protestante e da Guerra dos Trinta Anos (nos séculos XV e XVI), a afiliação ao catolicismo ou ao protestantismo nos territórios alemães se deu de acordo com as preferências ou interesses dos governantes locais. Nesse contexto, a maioria das áreas no Sul e Oeste (especialmente Baviera e Renânia do Norte-Vestfália) acabou católica, enquanto o Norte e o Leste se tornaram protestantes. Mais recentemente, quando da instalação e vigência da República Democrática Alemã (DDR ou
“Alemanha Oriental”, de 1949 a 1990), houve um processo estatal de crítica e desestímulo às religiões, o que implicou um crescimento do percentual de auto indicados ateus nos respectivos territórios.
23 Outras vertentes da religião cristã na Alemanha estão nas chamadas Igrejas Evangélicas Livres, uma união frouxa das congregações que aderiram ao Batismo, ao Metodismo e às religiões relacionadas, como os menonitas, bem como as duas igrejas ortodoxas. O evangelismo cristão na Alemanha (das Igrejas Evangélicas Livres) remonta aos esforços dos missionários norte- americanos no século XIX. Tanto a religião grego-ortodoxa quanto a religião russo-ortodoxa se estabeleceram na Alemanha com as populações imigrantes grega e sérvia, nas décadas de 1960 e 1970.
Segundo o censo de 2011, os protestantes (principalmente luteranos) representam 30,8% da população, formando o maior grupo religioso; os católicos romanos formam 30,3% da população alemã; e 38,8% são aderentes de outras religiões ou não informaram a que religião pertencem – um quadro bem equilibrado.
Capítulo 2 - Estado a Estado: o ensino religioso não confessional na Alemanha atual
A regulamentação geral do ensino religioso no país é base para o ensino religioso de cada Estado federado. Na Alemanha não existe um direito escolar uniforme, de âmbito nacional. Lá, os setores da educação primária e secundária estão sob a autonomia dos Länder (Estados). Apesar dessa autonomia/
soberania cultural, as leis escolares dos Estados são muito semelhantes.
Como nossa pesquisa também focou o sistema legislativo do ensino religioso, foi necessário explicar que o direito escolar faz parte do direito administrativo especial, que, por sua vez, faz parte do direito público e regulamenta todos os assuntos relacionados ao funcionamento da escola, especialmente os direitos e deveres dos professores, dos alunos, da autoridade de supervisão escolar e das autoridades escolares, mas também dos familiares responsáveis.
Desta maneira, apesar de a lei escolar ser um assunto para os Länder, a base é encontrada no Artigo 7º da GG. Nela são definidos os seguintes princípios: 1 – Supervisão estatal de todo o sistema escolar; 2 – Educação religiosa: de acordo com os princípios da comunidade religiosa, como componente regular, mas nenhum professor pode ser obrigado a ensiná-lo; 3 – A participação da educação religiosa é de decisão do tutor legal; 4 – Escolas particulares estão sujeitas a aprovação; 5 – Suspensão de pré-escolas.
24 Mas, como foi observado acima, o desenvolvimento do direito escolar é regulamentado pelos Estados federais. A forte padronização das leis escolares é alcançada através da organização entre os Estados por tradições comuns, pela Conferência de Ministros da Educação e Cultura, pelo reconhecimento mútuo de qualificações para o abandono escolar e pelo reconhecimento mútuo das qualificações de ensino.
A educação religiosa é o único componente curricular colocado na Lei Básica como regular para escolas públicas (Art. 7º, §3º, GG). Exceções são as escolas religiosas, para as quais nenhuma instrução religiosa é planejada. A Lei Básica pressupõe diferentes tipos de escolas, já previstas na Constituição de Weimar (WRV). De acordo com ela, as escolas são, em geral, comunitárias – nelas, os alunos protestantes e católicos são ensinados juntos, ficando separados apenas durante a instrução religiosa (Art. 146, §1º do WRV). Estudantes de outras religiões não foram contemplados por essa legislação.
Escolas confessionais se destinam a membros de uma denominação específica (Art. 147, §2º da WRV). Por outro lado, as escolas livres de confissões são caracterizadas pelo fato de não fornecer nenhuma instrução religiosa (Art.
149, §1º da WRV). De acordo com o Tribunal Constitucional Federal, no qual esses tipos de escolas são introduzidos, é deixado à “decisão da maioria democrática do legislador estadual” (Bundesverfassungsgericht - BVerfGE 41, 88 [107]).
Da Lei Básica (GG) decorre que a instrução religiosa está sob supervisão do Estado e comprometida com os princípios democráticos. As participações dos alunos na educação religiosa são avaliadas. As notas dessas avaliações são relevantes para transferência. Os alunos que cancelam o registro no decorrer do ano letivo ainda podem receber uma nota indicando a duração de sua participação. Como todas as aulas regulares, a instrução religiosa deve ser ensinada e financiada pela autoridade da escola com seus próprios professores.
Neste segundo Capítulo foi possível contemplar, ainda, como se dá o ensino religioso em cada um dos 16 Estados federados: sua base legal, objetivos e conteúdo pedagógico, professores e participação de alunos.
25 Capítulo 3 - Currículos do ensino religioso não confessional atual de quatro Estados da Alemanha: Baixa Saxônia, Bavária, Turíngia e Saxônia
O objetivo deste Capítulo foi investigar a importância dada às religiões não cristãs nos currículos do ensino religioso alemão por meio da verificação de espaço, temas e tempos reservados ao ensino religioso alternativo de maneira não apologética.
Isso foi feito a partir de uma análise da legislação e dos currículos atuais de dois Estados: Turíngia e Saxônia, situados em área da antiga Alemanha Oriental, e Baixa Saxônia e Baviera, na antiga Alemanha Ocidental. Serão analisados os Lehrpläne (programas de estudos) do ensino religioso nos Estados referidos.
Situada dentro do território da antiga Alemanha Oriental, a Turíngia foi escolhida por ser, de acordo com pesquisa, o único Estado federal a oferecer formação especial de professores para o componente de “ética”. Já a Saxônia foi eleita pelas poucas informações encontradas a seu respeito – foi preciso investigá-la mais extensivamente. Na Alemanha Ocidental, a Baviera foi escolhida por ser tradicionalmente o Estado mais cristão da Alemanha e a Baixa Saxônia porque, lá, professores que têm uma educação em filosofia, estudos religiosos ou ciências sociais devem ser considerados primariamente adequados para ensinar “valores e normas”.
Foram escolhidos esses quatro Estados, também, por seu tamanho geográfico e representatividade histórica, e também por expressarem a situação do ensino religioso alternativo no país.
É preciso explicar ainda que, na educação básica alemã, as crianças são separadas em três tipos de escolas: Hauptschule, Realschule e Gymnasium.
Hauptschule e Realschule são ensinos voltados para a área técnica, enquanto o Gymnasium é focado na área acadêmica.
Em geral, essa separação é feita ao final da quarta série, quando os estudantes têm, em média, 10 anos de idade. A maioria dos jovens que fazem Hauptschule ou Realschule se forma com cerca de 15 anos e segue na educação profissional. Os que fazem Gymnasium terminam com 18 anos e prestam o exame Abitur, para ingressar na universidade.
26 Portanto, foram analisados os currículos desses três tipos de escolas, com o objetivo de encontrar o valor que os currículos dão a outras religiões não tradicionais e qual a importância dada às religiões não cristãs.
Capítulo 4 – Sínteses
Neste capítulo, o leitor acompanhou a análise do que foi visto sobre Ensino Religioso nos quatro Estados apresentados anteriormente: Baixa Saxônia e Baviera, na Antiga Alemanha Ocidental e Saxônia e Turíngia, na antiga Alemanha Oriental. Esta reflexão foi feita de acordo com critérios, que são chaves de leitura na compreensão das informações obtidas na leitura das diretrizes.
Os critérios, portanto, foram: o tratamento de religiões no ensino religioso – um olhar histórico; o tratamento das religiões nos diferentes tipos do Ensino Religioso e o tratamento das religiões no Ensino Religioso alternativo nos Estados selecionados.
27 CAPÍTULO 1 - A SITUAÇÃO RELIGIOSA NA ALEMANHA COMO CONTEXTO DO ENSINO RELIGIOSO
Introdução ao Capítulo
Neste Capítulo, vamos focar o contexto religioso da Alemanha em suas imbricações com o ensino religioso. O objetivo é recapitular as manifestações do ensino religioso como disciplina escolar nas diferentes fases da história do país, de modo a entender suas configurações atuais.
Nesse sentido, a história da Alemanha não está em questão. Nossa tarefa principal é trazer informações sobre a situação religiosa atual e suas raízes históricas. Isso se faz necessário na medida em que a institucionalização do ensino religioso não confessional reflete mudanças históricas no campo religioso da Alemanha. Até certo ponto, por certo, será preciso trazer informações contextuais. Nesses casos, vamos abordar os fatos políticos antes de chegar à questão religiosa-educacional propriamente dita.
O início desse percurso – ou seja, nosso recorte temporal – reside na República de Weimar, nome dado à república estabelecida na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, em 1919, e que durou até o início do regime nazista, em 1933. Ela tinha como sistema de governo uma democracia representativa semipresencial.
As leis e pensamentos dessa época pré-nazista foram tão marcantes que alguns deles se perpetuam até hoje na Constituição da República Federal da Alemanha e nos direcionamentos do ensino religioso, tendo como pano de fundo a ligação entre Estado e Igreja, educação e religião.
É importante compreender o papel historicamente significativo do ensino religioso nas escolas primárias ao longo do tempo na Alemanha. Ele era ministrado por até seis horas por semana após a introdução da escolaridade obrigatória, no século XIX, e estava abrangido pelos regulamentos legais sobre a relação entre Estado e Igreja na Constituição, leis e contratos (Kothman, 2015).
Essas informações marcam o início de nossa jornada, que tem como objeto o ensino religioso não confessional na Alemanha. A seguir, vamos trazer informações sobre a situação religiosa do país. No primeiro momento, vamos nos familiarizar com a situação religiosa em diferentes momentos da história,
28 inclusive no que diz respeito ao ensino religioso. Em seguida, vamos examinar a situação do ensino religioso: 1) - na República de Weimar; 2) - no Terceiro Reich; 3) - antes da Reunificação alemã; 4) - depois da Reunificação; e 4) - no tempo presente.
1.1 A situação religiosa na República de Weimar 1.1.1 Antecedentes históricos
A lei religiosa alemã é, antes de mais nada, a “Lei das Consequências da Reforma”, porque foi moldada decisivamente pela divisão entre as igrejas católica e luterana que se seguiu ao início da Reforma de 1517. Assim, desde a Reforma Protestante de 1517, o campo religioso na Alemanha foi dividido, basicamente, em duas confissões majoritárias: católica e protestante (sobretudo, luterana).
No decorrer da Reforma Protestante e da Guerra dos Trinta Anos (que aconteceu nos séculos XV e XIV), a religião predominante não era, exatamente, a das “pessoas comuns”, mas a de preferência dos governantes. Isso acabou determinando, ao longo do tempo, uma dominância católica nas regiões sul e oeste da Alemanha, enquanto as porções norte e leste se tornaram protestantes.
No caso do leste, vale observar que o intervalo de algumas décadas de dominação comunista (1949-1990), com suas críticas à religião, também implicou um crescimento do ateísmo.
A disputa sobre a “verdadeira fé” no período imediato pós-Reforma resultou em guerras civis que foram encerradas com a Paz de Westfália, em 1648. Com ela, a questão do domínio da “verdade religiosa” pela esfera política foi parcialmente aquietada. Mesmo assim, no contexto nacional, a liberdade religiosa e o tratamento igual para todas as religiões e visões de mundo só ganharam aceitação gradualmente (Heinig, 2018).
Em 1871, com seu território unificado, a Alemanha “começou a existir”
como o 1º Reich, sob o imperador Guilherme I. Em 1918 aconteceu a revolução alemã que derrubou a monarquia e, assim, a ligação oficial, normativa, entre as igrejas e o Estado. A Alemanha se tornou uma república federativa parlamentarista, adotando uma nova Constituição, a Weimarer
29 Reichsverfassung, WRV (Constituição do Reich de Weimar), em 11 de agosto de 1919 (Sinner, 2020).
Com o estabelecimento da República de Weimar, houve uma virada decisiva em termos de direito religioso e constitucional: o regimento de uma
“igreja estatal” chegou ao fim, assim como todas as outras formas de igreja estatal e de religião oficial. A Constituição de Weimar (WRV) pela primeira vez garantiu a liberdade de religião para toda a Alemanha, proibindo a discriminação das pessoas com base em religião ou crença (Heinig, 2018).
1.1.2 Disposições da Constituição de Weimar
As disposições da Constituição de Weimar, que, como dito, foram adotadas em 1919, são de fundamental importância para a estrutura jurídica da educação religiosa atual, na medida em que foram incorporadas à chamada Lei Básica - Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland ou “GG”1 – e puseram fim ao “Estado cristão”. A Constituição de Weimar, do Reich alemão, estipulava que “o Estado havia dado o tom e assegurado o caráter cristão da população através da educação estatal e do cultivo da cultura” (Grethlein, 2005).
No contexto das disposições sobre a educação, o Artigo 149 da Constituição Imperial de Weimar estipulava:
A educação religiosa é uma matéria comum ensinada nas escolas, com exceção das escolas não denominacionais (seculares). Sua disposição deve ser regulamentada no âmbito da legislação escolar. A instrução religiosa será dada de acordo com os princípios da sociedade religiosa em questão, sem prejuízo do direito de supervisão do Estado. A instrução religiosa e a realização de atos eclesiásticos serão deixadas a critério dos professores, e a participação em assuntos religiosos e em cerimônias e atos eclesiásticos será deixada a critério da pessoa responsável pela educação religiosa da criança(Art. 149, WRV).
A Constituição Imperial de Weimar (WRV), vale observar, ordenou uma separação organizacional entre Igreja e do Estado em seu Artigo 137, mas de forma alguma proibiu ambos de cooperarem e manter relações especiais. Os artigos religiosos de Weimar foram incorporados ao GG de 1948 como lei
1 A Lei Fundamental da República Federal da Alemanha (Grundgesetz für die Bundesrepublik Deutschland – em alemão) é a Constituição da Alemanha, aprovada em 8 de maio de 1949, que entrou em vigor em 23 de maio de 1949. Depois da reunificação, a Lei Fundamental permaneceu, sofrendo algumas mudanças em 1990, e outras emendas em 1994, 2002 e 2006.
30 constitucional válida nos termos do Artigo 140. Assim, tanto o WRV quanto os pais e mães da GG garantiram à religião um lugar no espaço público e na escola estatal (Kothman, 2015).
1.1.3 Artigos da Constituição de Weimar referentes à religião
Em seu Artigo 135, a Constituição Imperial de Weimar afirma que: “(1) Todos os habitantes do Império gozam de plena liberdade de fé e consciência.
A prática da religião sem perturbações será garantida pela Constituição e será sob proteção do Estado. As leis gerais do Estado permanecem inalteradas”.
O Artigo 136 complementa o anterior, afirmando que:
(1) Os direitos e deveres civis e cívicos não devem ser condicionados nem restringidos, nem condicionados, nem limitados pelo exercício da liberdade religiosa.
(2) O gozo dos direitos civis e cívicos e a admissão a cargos públicos devem ser independentes da crença religiosa.
(3) Ninguém será obrigado a revelar suas convicções religiosas. As autoridades têm o direito de inquirir sobre a filiação a uma sociedade religiosa somente na medida em que os direitos e as obrigações dependem dela, ou de uma lei, ou pesquisa estatística ordenada por lei.
(4) Nenhuma pessoa será admitida a um ato eclesiástico ou solene ou a participar de exercícios religiosos sob juramento.
No que respeita ao Estado, o Artigo 137 da Constituição de Weimar afirma que:
(1) Não haverá nenhuma igreja estatal.
(2) A liberdade de associação às sociedades religiosas deve ser garantida.
(3) Cada sociedade religiosa organizará e administrará seus assuntos de forma independente, dentro dos limites da lei aplicável a todos. Ela constituirá seus escritórios sem a participação do Estado ou da comunidade civil.
(4) As sociedades religiosas devem adquirir capacidade jurídica de acordo com as disposições gerais do direito civil.
(5) As sociedades religiosas continuarão a ser empresas públicas.
(6) As sociedades religiosas que são sociedades de direito público terão direito de cobrar impostos com base nas listas de impostos civis, de acordo com as disposições da lei de terras.
(7) As associações devem ser tratadas da mesma forma que as sociedades religiosas com a visão de mundo comum para a tarefa.
(8) Na medida em que a implementação dessas disposições exige regulamentação adicional, esta será de responsabilidade da legislação dos Länder (Estados).
O Artigo 138 afirma que:
31 (1) Pagamentos do Estado às sociedades religiosas com base na lei, tratado ou títulos legais especiais, serão substituídos pela legislação da Terra. Os princípios para isso devem ser estabelecidos pelo Reich.
(2) A propriedade e outros direitos das sociedades e associações religiosas e outros bens devem ser garantidos.
No Artigo 139 é estabelecido que: “(1) os domingos e feriados reconhecidos pelo Estado serão protegidos por lei como dias de descanso, de espiritualidade e elevação espiritual”. No Artigo 140, a lei garante aos membros das forças armadas o tempo de folga necessário para o cumprimento de seus deveres religiosos.
Por fim, o Artigo 141 afirma que: “(1) na medida em que existe a necessidade de serviços religiosos e de assistência pastoral no exército, nos hospitais, instituições penais ou outras instituições públicas, as sociedades religiosas serão autorizadas a realizar atos religiosos. A coerção deve ser mantida afastada”.
Sinner (2020) sintetiza essas disposições legais observando que, nos Artigos de 136 a 141, os legisladores de Weimar estabeleceram a liberdade religiosa e os princípios das “sociedades religiosas” (Religionsgesellschaften).
Assim, não havia uma religião oficial (Staatskirche) e as sociedades religiosas que já eram instituições de direito público permanecem com este status; as demais poderiam pleitear este status desde que “pela sua constituição e o número de seus membros garantem sua continuidade” (Art. 137, §5, frase 2).
1.2 O Terceiro Reich
Terceiro Reich, Alemanha Nazista ou Nazi foram os nomes dados à Alemanha no período de 1933 a 1945, quando o país esteve sob o governo de Adolf Hitler e do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), também conhecido como Partido Nazista.
A religião desempenhou um papel importante durante o Terceiro Reich, principalmente nos primeiros anos do governo de Hitler. Tanto que, no “Dia de Potsdam” (21-03-1933), a cerimônia estatal de reabertura do parlamento do
32 Reich – que marcou a “chegada triunfante” dos nazistas ao poder – ocorreu na Igreja da Guarnição Prussiana de Potsdam.
Não foi necessária nenhuma força de Hitler para alinhar as igrejas protestantes, que representavam dois terços da população alemã: elas acolheram o nacional-socialismo crescente e as “ideias de 1933”, nazistas. O
“despertar nacional” foi visto como um algo desejado, como uma inversão da cultura secular da República de Weimar e como um alívio espiritual para a experiência traumática e da humilhação profunda causada pela derrota em 1918, ao final da Primeira Guerra Mundial.
O movimento de 1933 havia mostrado que os alemães não estavam quebrados espiritualmente, apesar da “escravidão pelo Tratado de Versalhes e suas consequências [,] e estavam caminhando para um renascimento de sua fé”
(Manfred, 2018).
Dessa forma, parte do programa desse protestantismo de corte nazi era um “Cristo arianizado e germanizado, a crença em Adolf Hitler como o ‘Führer’
[dirigente, guia] enviado por Deus e a obrigação de manter a raça ariana ‘pura’
como parte da ‘ordem divina de toda a criação’” 2
Nesse contexto, durante o Terceiro Reich, os protestantes se dividiram em três regiões: 1) – Turíngia, Mecklenburg e alguns outros pequenos Estados alemães, onde a igreja cristã dominava; 2) – Hannover, Baviera e Wurttemberg, com suas igrejas regionais e bispos dominantes influenciando a direção das comunidades, que optaram pela adaptação; e 3) – Mark Brandenburg e Berlim, regiões com eclesiásticos polarizados, típicos da grande igreja prussiana (Manfred, 2018).
Já o catolicismo alemão não era tão propenso à ideologia nacional- socialista. Ele constituía um terço do Terceiro Reich, mas, com a anexação da Áustria, em março de 1938, a proporção de católicos para o Terceiro Reich saltou para 40%. Não houve entre os católicos, porém, um movimento eclesiástico de
2 Nazismo pode ser definido como um movimento político e filosófico que faz prevalecer os conceitos de
“nação” e “raça” sobre os valores individuais. Ele é representado por um governo autocrático, centralizado na figura do ditador Adolf Hitler, que despreza a democracia liberal e o sistema parlamentar.
Incorpora o racismo científico, o antissemitismo, o anticomunismo e a eugenia (exclusão física de grupos considerados “indesejáveis” e impedimento de sua reprodução para uma suposta “melhoria” das características genéticas de uma população).
33 alinhamento em relação ao Partido Nazista, e esta é a maior diferença entre catolicismo e protestantismo no Terceiro Reich (Manfred, 2018).
A educação escolar, durante o período do Terceiro Reich (1933-1945), constituiu-se como meio utilizado pelo partido nazista para propagar sua ideologia sobre a juventude, destacando as transformações ocorridas dentro do currículo escolar regular. E, ainda, o empenho por parte do partido no incentivo à continuidade do ensino ideológico nazi em atividades extracurriculares, como nas da organização Juventude Hitlerista (Hitlerjugend ou “JH”). Nesse sentido e nesse processo de aculturação, grande parte da juventude alemã aceitou e apoiou a construção da identidade almejada e idealizada por Hitler e o nacional- socialismo (Vicente & Witt, 2017).
As aulas de ensino religioso foram, então, suprimidas. Apesar de tentativas de coexistência por parte de alguns membros do partido com as igrejas cristãs, a permanência desse componente nos currículos não teve êxito. O clero foi afastado do corpo docente das escolas e o período que corresponderia ao Ensino Religioso foi preenchido por aulas sobre a doutrina nacional-socialista.
Além disso, a Igreja católica foi perseguida pela Gestapo (Geheime Staatspolizei – polícia secreta do Estado), que passou a ordenar o tipo de sermão que os padres deveriam ministrar em suas missas. Os que pensavam de forma diferente e desafiavam o poder eram enviados a campos de concentração.
A obrigatoriedade de ingressar na Juventude Hitlerista, as altas taxas de desemprego, o governo de viés totalitário e a pobreza crescente deixaram pouca margem para os jovens que desejavam pensar e agir diferente da ideologia nazista. As crianças e os jovens, de forma geral, eram diariamente submetidos a tamanha doutrinação que seria difícil esperar que não seguissem Hitler, pois suas opções de pensamento eram restritas.
34 1.3 A situação do ensino religioso na Alemanha Oriental antes da Reunificação
1.3.1 Criação da República Democrática Alemã (DDR)
Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha era um centro de contradições ideológicas e, também, de interesses econômicos. A reparação da guerra se fazia necessária e sua indústria era alvo de disputas. Havia, assim, um conflito de interesses pelas áreas de influência. Em consequência, houve uma divisão da Alemanha entre as potências vencedoras da guerra: os capitalistas Estados Unidos, França e Reino Unido, de um lado, e a União Soviética (URSS), comunista, do outro.
República Democrática Alemã (RDA ou Deutsche Demokratische Republik – DDR) era o nome oficial do Estado comunista alemão, fundado após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ele foi criado em 7 de outubro de 1949, data em que entrou em vigor sua Constituição. De acordo com sua concepção ideológica, era uma democracia popular. Mas, de fato, era uma ditadura, pois tinha como características a economia planificada, a inexistência do estado de direito, da liberdade de imprensa ou deslocamento. Berlim Oriental era sua capital.
1.3.2 O ensino religioso na República Democrática Alemã
As igrejas eram legalmente obrigadas a adaptar suas atividades às exigências do Estado em muito maior medida do que previa a Constituição de 1949. E, com relação à membresia, não era exigido nenhum documento para entrar na igreja, porém era exigida uma declaração formal de saída. Mas, o imposto eclesiástico cobrado sob a proteção e com a ajuda do Estado não existia desde os anos 1950. As igrejas dependiam, portanto, de seus próprios registros e de pagamentos voluntários, coletas e doações.
Por outro lado, as isenções fiscais, que tinham o efeito de benefícios estatais, eram reguladas por lei. Hollerbach (1980) lembra que faltava uma garantia especial, no entanto, com relação ao patrimônio das igrejas, pois, segundo as regulamentações da época, ele não era mais garantido.
35 As igrejas da RDA viviam sob um Estado centralizado e eram regidas pela lei de 7 de outubro de 1974, de “um Estado socialista de trabalhadores e camponeses”, no qual “a classe trabalhadora e seu partido marxista-leninista”
detinham a “liderança”. Na regulamentação da relação entre Estado e igreja, havia uma ordem transitória no caminho para a completa “libertação” do homem em relação à religião e da igreja, assim como para a afirmação final do ateísmo.
Era, enfim, uma constituição socialista, ancorada tanto na busca pela harmonia de interesses sociais quanto no monopólio absoluto do Estado. Sendo assim, os direitos fundamentais socialistas eram diretamente limitados pelos
“interesses sociais” e pela supremacia da liderança do partido marxista-leninista.
Nesse contexto, a liberdade religiosa era tolerada somente na medida em que não perturbasse o desenvolvimento coletivo rumo à homogeneidade ideológica, ou na medida em que pudesse ser utilizada para o desenvolvimento do próprio socialismo (Hollerbach, 1980).
As escolas da República Democrática Alemã foram completamente secularizadas, sem qualquer forma de organização a partir dos princípios do cristianismo. Nisso, elas diferiam não apenas das escolas da Alemanha Ocidental, como também das tradicionais escolas do passado do Reich.
Enquanto, antes, a religião era um componente curricular obrigatório, agora dominava, em grande parte, uma ideologia marxista “democrática”. Nesse contexto, toda instrução deveria ser permeada pelo espírito do comunismo.
[E as] escolas confessionais do materialismo marxista. Os institutos de formação de professores eram inteiramente controlados pelo Estado e organizados de maneira uniforme. E a liberdade de consciência garantida pela Constituição é, na prática, anulada pelo fato de que nas escolas só as doutrinas do materialismo histórico e dialético têm consideração (Helmreich, 1959).
Os cristãos protestantes da época, nas áreas pertencentes à RDA, estavam organizados em oito igrejas regionais: Mecklenburg, Saxônia e Turíngia (luterana), Berlim-Brandenburg, Saxônia e Anhalt, Greiswald e Görlitz. Todas elas estavam unidas sob a Federação das Igrejas Protestantes da República Democrática Alemã, sendo regidas pelos “Dez artigos sobre a Liberdade e o Serviço da Igreja” (de 8 de março de 1963) e especificadas em relação ao serviço da igreja para o socialismo (Hollerbach, 1980, p. 875, tradução da autora).
36 A estrutura organizacional das igrejas protestante e católica na República Democrática Alemã, no ano de 1974, era a seguinte: 8,47 milhões de protestantes e 1,3 milhões de cristãos católicos, para uma população total de 17 milhões, com cem mil pessoas professando outras religiões. Uma década antes, em 1964, 31,9% da população indicavam não confessar nenhuma religião, o que teria relação direta com a presença socialista no poder e seus esforços no sentido de “superar” as religiões (Hollerbach, 1980, p. 875, tradução da autora).
A igreja católica da RDA compreendia sete distritos jurisdicionais, dos quais somente um permaneceu inalterado em seu estado anterior à guerra, a diocese de Meissen. Os demais passaram a ser conhecidos com a “diocese alemã”.
Assim, as igrejas foram expulsas das escolas por conta do “sistema de educação social uniforme” criado pela RDA. Mas as faculdades teológicas protestantes nas universidades estaduais de Berlim, Greifswald, Halle, Jena, Leipzig e Rostock seguiram funcionando. E teólogos católicos foram treinados na Academia Albertus Magnus (Estudos Filosófico-Teológicos) em Erfurt, uma instituição patrocinada pela Igreja com status de seminário. Entretanto, não havia garantia legal de sua existência, e a Constituição não lhes garantia liberdade acadêmica (Hollerbach, 1980).
A RDA rejeitava a capelania militar financiada pelo Estado, mas havia padres em grandes instituições penais, estabelecidos como funcionários públicos. A ação das igrejas também abrangia prisões e hospitais, e não existiam normas para o funcionamento de instituições de abrangência territorial mais ampla, como a Cáritas (católica) e a Diakonie (protestante).
A presença das igrejas nessas áreas, contudo, era inconfundível, apesar dos obstáculos. Já o Estado apoiava hospitais e lares para o cuidado de crianças sem instrução, idosos e enfermos. E a manutenção de jardins de infância só era possível de forma muito limitada (Hollerbach, 1980).
37 1.4 A situação do ensino religioso na República Federal da Alemanha antes da reunificação
1.4.1 Criação da República Federal da Alemanha
Com a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro áreas jurisdicionais políticas, das quais três foram administradas por Estados Unidos, França e Reino Unido, constituindo a República Federal da Alemanha ou República de Bonn – capital (Bundesrepublik Deutschland, BRD).
Os Estados da BRD eram Baviera, Baden-Württemberg, Bremen, Hesse, Hamburgo, Baixa Saxônia, Renânia do Norte-Vestefália, Renânia-Palatinado, Saarland, Schleswig-Holstein e Berlim Ocidental.
Berlim Ocidental possuía um status especial e uma situação geopolítica única: era um enclave dentro da República Democrática da Alemanha, colado a Berlim Oriental. Ou seja: pertencia à República Federal da Alemanha, mesmo estando cercada, por todos os lados, pelos territórios da República Democrática Alemã.
Até a década de 1950, quase todos os alemães da República Federal da Alemanha afirmavam professar uma fé: 50% se diziam protestantes e 45%
católicos. Já em 1987, a parcela de ateus superava os 11% na Alemanha Ocidental (RFA), enquanto na RDA este percentual girava em torno de 70%
(VOCK, 2009).
No território dos antigos Estados federais ainda existia uma “cultura de filiação denominacional”, embora, desde o início dos anos 1970, tenha se verificado um declínio da prática eclesiástica. As diferenças entre o norte e o sul da Alemanha, ou entre as zonas rurais e urbanas, estão claramente por trás desse fenômeno. Na Alemanha Ocidental ocorreu uma crescente pluralização religiosa, com crescimento visível da proporção de cidadãos muçulmanos (Pickel, 2020).
Na maior parte da Alemanha Ocidental, a tendência no pós-guerra foi a de eliminar as mudanças introduzidas sob Hitler e restituir as escolas à sua estrutura anterior ao nazismo. As constituições elaboradas nos Estados das zonas americana e francesa geralmente faziam referência a um propósito religioso, em muitas delas numa base cristã. As escolas privadas foram