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Metáfora e futebol na vida cotidiana

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Academic year: 2021

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Luciane Corrêa Ferreira

Universidade Federal de Minas Gerais

Segundo Lakoff e Johnson (1980), a metáfora desempenha no cotidiano, além de uma função estética, também uma função cognitiva. A essência da metáfora reside no fato de que, por meio dela, compreendemos algo ou um evento em termos de outro. Vejamos a metáfora VIDA É UM JOGO, em que conceitualizamos vida por meio de nossa experiência concreta com jogo. Considerando que a cultura brasileira possui uma ligação forte com o futebol, muitas metáforas e expressões idiomáticas em português são motivadas pela experiência com jogo, por exemplo, o uso de expressões como “show de bola” e “dar um cartão vermelho”. Buscamos responder quais domínios experiências alvo são mapeados pelo domíno-fonte futebol e que domínios fonte vão motivar o mapeamento metafórico, cujo domínio alvo é o futebol? Utilizaremos metodologia da Linguística Aplicada (Cameron, 1999) e da Linguística de Corpus aplicada ao estudo da metáfora (Deignan, 2005), associada à ferramenta de pesquisa linguística Webcorp, a fim de verificar o número de concordâncias e os contextos de uso em que as expressões metafóricas aparecem. Por fim, resultados preliminares da pesquisa utilizando a ferramenta de pesquisa linguística WebCorp apontam que o domínio experiencial FUTEBOL serve de domínio-fonte e alvo para expressões metafóricas em português.

1. Introdução

Vejamos a letra de uma canção chamada “Sem saída” de autoria de Cid Campos e Augusto de Campos: A estrada é muito comprida

O caminho é sem saída Curvas enganam o olhar Não posso ir mais adiante Não posso voltar atrás Levei toda a minha vida Nunca saí do lugar

Este trecho apresenta algumas metáforas conceptuais. A estrada está relacionada com a metáfora conceitual A VIDA É UMA VIAGEM (Lakoff & Johnson, 1980), em que utilizados a nossa experiência com o domínio experiencial viagens para falar sobre o conceito abstrato vida. Sob a perspectiva da Teoria da Metáfora Conceitual, a compreensão ocorre por meio de mapeamentos metafóricos entre diferentes domínios da nossa experiência, isto é, do domínio experiencial concreto VIAGEM para o domínio experiencial abstrato VIDA, como no esboço que segue:

VIDA É UMA VIAGEM Mapeamento metafórico

Fonte Alvo

a viagem → a trajetória da existência

os viajantes → as pessoas

a estrada → a vida

curvas → percalços

o caminho sem saída → problema sem solução o destino da viagem → o destino da vida

ir adiante → progredir

voltar atrás → desistir de algo

No caso específico dessa canção, os autores retomam um mapeamento estruturado sistematicamente e bastante rico em que as pessoas que percorrem a estrada correspondem a viajantes que tomam um ‘caminho’ comprido e sem saída. As ‘curvas’ correspondem aos problemas que enfrentamos na nossa vida, ‘ir adiante’ corresponde a progredir e ‘voltar atrás’ a desistir de algo ou a mudar de idéia. Enfim, essa metáfora conceitual é frequentemente utilizada na linguagem

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arbitrários. Por isso mesmo, quando alguém utiliza uma expressão metafórica, geralmente compreendemos de maneira automática tal enunciado.

De acordo com a visão experiencialista (Lakoff, 1987), o significado é definido em termos da nossa experiência corpórea, isto é, a nossa experiência corpórea no e com o mundo define a esfera do que é significativo para nós e determina a nossa maneira de compreender o mundo. O experiencialismo atribui um papel central à experiência corpórea na constituição do significado, na compreensão e no raciocínio. Na mesma linha do experiencialismo na filosofia, a Teoria Contemporânea da Metáfora (Lakoff, 1993) postula que o sistema conceitual humano é, em grande parte, metafórico na proporção que contém mapeamentos de inferências de domínios mais concretos para domínios mais abstratos. Tais mapeamentos não são arbitrários, mas sim motivados por nossa natureza corpórea, sensório-motora, isto é, como nossos corpos funcionam e interagem no mundo.

Tendo a metáfora (2) Decidimos tomar caminhos distintos, pois a nossa relação acabou como exemplo, seriam considerados inconsistentes com essa metáfora algumas características do amor, tais como: o custo do amor e o tempo de duração do amor. Assim, “quando um conceito é estruturado por uma metáfora, significa que ele é parcialmente estruturado e pode ser entendido de algumas maneiras, mas não de outras” (Lakoff & Johnson, 1980, p. 13). Evidências obtidas por meio de estudos empíricos, apresentadas por estudiosos da metáfora (Gibbs, 2006; Cienki, 2005; Gibbs, Lima & Françoso, 2004), trazem à luz como a experiência sensório-motora, isto é, o nosso corpo em ação no mundo, motiva o pensamento e, consequentemente, o uso e a compreensão de linguagem metafórica. Esses estudos experimentais demonstram que as experiências corpóreas recorrentes dos indivíduos frequentemente desempenham um papel em como eles compreendem o significado metafórico e porque muitas palavras e expressões têm um determinado sentido. Por exemplo, pode ser que os indivíduos criem simulações das mensagens ouvidas que envolvam processos do tipo “como deve ser isso” que utilizem experiências tácteis e cinestésicas (Gibbs, 2006).

Outra questão instigante para os linguistas cognitivos é se todas as correspondências das metáforas conceptuais são compreendidas e estariam associadas quando se tenta compreender um enunciado metafórico. Esta discussão será feita a seguir.

2. Cognição e a compreensão de metáforas

Além da dificuldade de se determinar qual é a metáfora conceitual que emerge da análise sistemática de expressões convencionais, há também o problema de se descobrir como as correspondências de determinada metáfora conceitual são criadas e armazenadas. Gibbs e Ferreira (no prelo) investigaram se os sujeitos entendem umas, algumas ou todas as correspondências associadas com a metáfora conceitual quando processam expressões metafóricas convencionais motivadas por determinada metáfora conceitual. A literatura na área de linguística cognitiva não apresenta uma resposta para esta pergunta porque ela nunca havia sido colocada anteriormente. Já sob uma perspectiva psicolinguística, provavelmente existam várias respostas, dependendo do momento da compreensão analisado. Outro objetivo do estudo foi descobrir porque algumas correspondências de metáforas conceptuais estão mais relacionadas do que outras. Por exemplo, ao ouvir o enunciado metafórico “Ela lutou contra a sua raiva”, perguntou-se se o indivíduo reconhecia que as várias correspondências associadas com a metáfora conceitual RAIVA É UM OPOSITOR (em uma briga) (Lakoff, 1987, p. 392) estavam implicadas. Ou se o sujeito ao ler “Ela lutou contra a sua raiva”, julgava expressões como “Ela explodiu de raiva” ou “Ela ficou cheia de raiva" como não sendo relacionadas com a primeira, porque elas são motivadas por uma metáfora conceitual distinta que é RAIVA É UM LÍQUIDO AQUECIDO EM UM RECIPIENTE (Kövecses, 2005, p. 39), embora elas se refiram ao mesmo domínio-alvo RAIVA, mas têm um domínio-fonte diferente (RECIPIENTE) que dá origem a um conjunto diferente de correspondências do que para a metáfora conceitual RAIVA É UM OPOSITOR (em uma briga). A hipótese preditiva foi de que itens com uma metáfora conceitual, metáfora linguística e correspondência consistentes, por exemplo, o enunciado metafórico "Ela ficou cheia de raiva” combinado com “sentir raiva é como sentir uma substância ou objetos contidos em um recipiente”, cuja metáfora conceitual é RAIVA É UM LÍQUIDO AQUECIDO EM UM RECIPIENTE, assim como itens que têm enunciados metafóricos com um domínio-fonte comum, tal como OPOSITOR em “Ela lutou contra a sua raiva” ou “Ela foi dominada pela sua raiva” seriam julgados com uma pontuação alta. Por outro lado, também foi previsto que os sujeitos, ao lerem enunciados metafóricos com domínios-fonte diferentes e, portanto, não relacionados, como "Ela ficou cheia de raiva” (DF: RECIPIENTE) não conseguiriam associá-los à correspondência “o indivíduo luta contra a raiva, assim como luta contra o opositor em uma briga” (DF: OPOSITOR). Os resultados apontam que os sujeitos julgaram com pontuação maior os enunciados metafóricos com as correspondências consistentes do que os não relacionados. Isso sugere que os indivíduos parecem reconhecer que uma metáfora verbal implica certos significados relacionados à metáfora conceitual subjacente, embora a compreensão de metáforas verbais não pareça implicar diretamente correspondências com o domínio-alvo que emergem de metáforas conceptuais diferentes. Tal resultado constitui evidência de que as pessoas conseguem inferir ao menos uma pequena gama de correspondências motivadas por uma metáfora conceitual subjacente quando lêem enunciados metafóricos convencionais.

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3. Considerações sobre a linguística de corpus

Nas palavras de Sardinha:

a Linguística de Corpus é a área da linguística que se ocupa da coleta e exploração de corpora, ou conjunto de dados linguísticos textuais, em formato legível por computador, que foram coletados criteriosamente com o propósito de servirem para a pesquisa de uma língua ou variedade linguística. Como tal, dedica-se à exploração da linguagem através de evidências empíricas, extraídas por meio de computador (2000, p. 325).

Uma pesquisa baseada em corpus nos possibilita detectar mais rapidamente padrões de uso da linguagem do que o uso da intuição ou o estudo de textos isolados, à medida que palavras ou expressões são recuperadas automaticamente do corpus e classificadas. Deignan (2005) argumenta que uma abordagem da linguística de corpus pode dar uma contribuição substancial para a nossa compreensão da metáfora. Estudos que utilizam métodos empíricos para explorar os dados de metáfora em linguagem em uso (Boers, 1999; Charteris-Black, 2000) revelam que a linguagem metafórica usada em contextos naturais é muito diferente da linguagem encontrada em dados sobre metáfora coletados através da introspecção (Berber Sardinha, 2007). Por isso, acredita-se que a utilização de metodologia da linguística de corpus pode contribuir para uma análise menos subjetiva das expressões metafóricas. A seguir, será apresentada uma breve introdução à linguística de corpus e será estabelecida a sua relação com os estudos sobre a metáfora conceitual.

A linguística de corpus, assim como a Teoria da Metáfora Conceitual, surgiu somente nos anos 80, por depender de capacidades de memórias de computadores enormes e de altas velocidades de processamento. Uma abordagem baseada na linguística de corpus aplicada ao estudo de expressões metafóricas em inglês tem a sua base na lexicografia. Os lexicógrafos estão interessados em investigar dados linguísticos que ocorrem naturalmente e o seu trabalho baseia-se em um corpus computadorizado enorme que é uma coleção de textos retirados de diferentes fontes e armazenados no computador. Embora os corpora talvez sejam limitados, eles fornecem dados que ocorrem naturalmente, enquanto que a alternativa seriam dados derivados das intuições dos próprios falantes, ou dados elicitados dos participantes, metodologia de coleta empregada nos estudos da psicologia cognitiva.

Um corpus grande o suficiente para pesquisa linguística pode possuir dezenas de milhões de palavras, dependendo do que se pretende pesquisar. Muitos corpora grandes, como, por exemplo, o British National Corpus (BNC) e o COBUILD, tentam representar a linguagem que cada adulto falante nativo usa todos os dias. A Web, considerada um corpus aberto, não-especializado, é uma compilação de uma ampla variedade de fontes faladas e escritas de gêneros diferentes. O seu tamanho permite generalizações sobre a linguagem como um todo. A Web é revolucionária (Kilgariff & Greffenstette, 2003) e oferece aos pesquisadores de todas as áreas a oportunidade de acesso a uma ampla variedade de tipos de linguagem. A Web tem um tamanho estimado de 10 a 20 bilhões de páginas indexáveis (Gulli & Signorini, 2005). Para ser indexável, uma página deve permitir acesso público irrestrito, e outra página de acesso público deve direcionar para essa página com uma etiqueta HTML stardard (Fletcher, 2005). Um corpus desse tamanho requer um programa de software para processar os dados. O termo ‘Web corpus’ é usado aqui para designar o corpo de documentos disponíveis livremente online que podem ser acessados diretamente como um corpus. Fletcher (ibid) adota a definição de ‘Web como corpus’ e utiliza a metáfora ‘caça’ (hunting) para a ação de procurar diretamente informação específica na Web com a mediação de uma ferramenta de busca. Neste estudo, escolheu-se a Web como banco de dados para a seleção das metáforas utilizadas nesse estudo e o Google como a ferramenta de busca para checar o número de ocorrência das metáforas.

4. Utilizando a Web como corpus

A vantagem de usar a Web como corpus, e não um corpus como o COBUILD ou o BNC, é que, para procurar expressões de uso inovador, como é o caso de metáforas novas, assim como palavras raras, frequentemente não se encontram evidências em um corpus fechado. Um exemplo disso é a busca contrastiva da expressão deep breath (em Português, respirar fundo) realizada por Kilgarriff e Grefenstette (2003). Enquanto que, no BNC, tal expressão obteve 732 concordâncias para 100 milhões de palavras em 1998, na primavera de 2003, a mesma expressão apareceu em 868.631 páginas (a expressão talvez tenha aparecido mais de uma vez em cada página). Os pesquisadores necessitam de grandes fontes de dados e crêem que modelos probabilísticos de linguagem baseados em grandes quantidades de dados, mesmo que os dados apresentem ‘ruído’, ainda são melhores do que aqueles baseados em estimativas que partem de um conjunto de dados menores e ‘limpos’, como é o caso de um corpus fechado como o BNC. Escolheu-se o Google para a pesquisa na Web porque essa ferramenta apresenta o número de ocorrências com os resultados no canto superior da página, o que facilita a visualização. Para a pesquisa das expressões metafóricas, utilizamos alguns filtros disponíveis em ‘pesquisa avançada’ que permitem refinar a busca se definirmos o número de resultados a ser apresentado e escrevermos a expressão exata, assim como a língua da busca (inglês).

Embora alguns pesquisadores argumentem que a Web não é representativa como fonte de dados para a pesquisa linguística, Kilgarriff e Grefenstette (2003) assinalam que nem a Web, nem outros corpora são representativos. Os pesquisadores normalmente aceitam o nome do corpus como um rótulo para o tipo de texto que o corpus contém. Um dos problemas dos textos da Web é que eles são produzidos sem muita preocupação com correção, isto é, a Web é

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Askjeeves) apresentarem somente um pequeno contexto para cada ocorrência (o Google fornece um fragmento de cerca de dez palavras), assim como o fato dos resultados da busca que apresentam a expressão pesquisada em títulos e manchetes irem para o início da lista. As estatísticas de ocorrência das expressões pesquisadas não apresentam um alto grau de confiabilidade; por exemplo, quando há uma pequena alteração no texto, a mesma expressão pode aparecer em várias ocorrências dentro da mesma busca, o que representa um problema para o pesquisador que precise registrar o número de ocorrências de determinada expressão.

Uma vantagem de usar pesquisa de corpus é que se tem acesso a uma quantidade de dados linguísticos que nenhuma memória humana é capaz de guardar. Entretanto, insights sobre linguagem originados a partir de corpus, uma vez obtidos, frequentemente parecem conhecidos ao pesquisador, pois confirmam informação que é parte do conhecimento linguístico do falante competente. Tais insights talvez sejam considerados óbvios pelos pesquisadores; entretanto, eles podem ser difíceis de acessar usando somente a intuição. Evidência da linguística de corpus aponta que os falantes têm dificuldades para descrever o conhecimento linguístico fora de contexto, por exemplo. Fatos óbvios sobre o uso da metáfora, que, porém, passam despercebidos, apontam para o caminho da consulta de grandes corpora a fim de investigar metáforas linguísticas. Os resultados do estudo de concordâncias para muitas palavras em linguística de corpus demonstram que a frequência de ocorrência dos sentidos metafóricos talvez seja maior do que a frequência de ocorrência de sentidos não-metafóricos, embora os últimos sejam primários sob uma pespectiva psicológica (Deignan, 1999). O registro do número de concordâncias de cada expressão metafórica em toda a Web é relevante para se estabelecer uma comparação baseada na realidade de uso da língua, como os resultados da pesquisa de corpus da Web, e dados obtidos com os falantes.

A seguir discutiremos a relação da metáfora com a Linguística de Corpus.

5. Metáfora e linguística de corpus

A direção dos estudos em linguística de corpus geralmente parte da palavra para o significado. Como Deignan (1999) assinala, no caso da metáfora, às vezes os padrões podem ser traçados partindo-se de evidência linguística para uma possível metáfora conceitual subjacente. Entretanto, não é possível trabalhar na outra direção, isto é, partindo-se da metáfora conceitual para a evidência linguística, basicamente porque o computador não consegue inferir o significado do falante. Embora a linguística de corpus e os corpora disponíveis na Web1 ofereçam uma ferramenta poderosa para observação na pesquisa sobre a metáfora, a intuição informada do pesquisador ainda é necessária para que se possa decidir se uma citação é mesmo metafórica, assim como também para julgar se uma determinada metáfora linguística é a realização de uma metáfora conceitual. Vários estudos apontam que as intuições dos falantes acerca do grau de convencionalidade e da ocorrência de expressões metafóricas (Gibbs, 1994; Ferreira, 2008) não coincidem necessariamente com os resultados de pesquisa utilizando metodologia da linguística de corpus.

O debate se a ‘metáfora no pensamento’ desempenha um papel na compreensão de expressões metafóricas tem sido objeto de vários estudos, e muitos resultados dependem da metodologia utilizada para se examinar os dados (Keysar et al., 2000; Semino et al., 2004; Deignan, 2005). Uma pesquisa baseada em corpus nos possibilita detectar mais rapidamente padrões de uso da linguagem do que o uso da intuição ou o estudo de textos isolados, na medida em que palavras ou expressões são recuperadas automaticamente do corpus e classificadas. A linguística de corpus está interessada em padrões linguísticos típicos. No caso dos estudos sobre a metáfora, o principal foco de interesse da linguística de corpus é a metáfora convencional (Deignan, 2005). Deignan considera que qualquer sentido de uma palavra encontrado menos de uma vez a cada mil citações da palavra pode ser considerado um uso inovador ou raro. Embora os corpora talvez sejam limitados, eles fornecem dados que ocorrem naturalmente, enquanto que a alternativa seriam dados derivados das intuições dos próprios falantes, metodologia emprestada da psicologia cognitiva (Gibbs, 1994). Um importante argumento contrário ao uso restrito de conhecimento intuitivo dos linguistas como fonte de informação é o fato de que os pesquisadores de corpus e os lexicógrafos frequentemente encontram usos não previstos de vocábulos (Deignan, 2005). Evidências da linguística de corpus apontam que os falantes têm dificuldades para descrever o conhecimento linguístico fora de contexto, por exemplo. Fatos óbvios sobre o uso da metáfora que, no entanto, passam despercebidos, apontam para o caminho da consulta de grandes corpora a fim de se investigar metáforas linguísticas. Os resultados do estudo de concordâncias para muitas palavras em linguística de corpus demonstram que a frequência de ocorrência dos sentidos metafóricos talvez seja maior do que a frequência de ocorrência de sentidos não-metafóricos (Deignan,1999). O registro do número de ocorrências de cada expressão metafórica em toda a Web é relevante para se estabelecer uma comparação baseada na realidade de uso da língua escrita por meio dos resultados da pesquisa de corpus realizada na Web com a ferramenta WebCorp.

Boers utilizou a análise de corpus em seu estudo sobre metáforas da área da saúde em textos sócio-econômicos. Ele contou sistematicamente o número de metáforas linguísticas derivadas do domínio-fonte da saúde nos editoriais semanais da revista The Economist, comparando as edições de um período de dez anos. Essa análise obteve um total de 1.137.000 palavras. Boers constatou que a base corpórea da metáfora motivou a produção de metáforas linguísticas com o domínio-fonte SAÚDE principalmente nos meses de inverno, isto é, quando a saúde é um tópico mais recorrente devido às doenças de inverno. Tal resultado foi tomado como um indício do papel da motivação a partir da nossa experiência corpórea, na compreensão de enunciados metafóricos. Boers trabalha também a partir de uma perspectiva intercultural e constatou nesse estudo que metáforas sobre SAÚDE são mais produtivas em inglês do que em holandês (p. 48).

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Agora vejamos a seguir dados acerca da utilização de metáforas de futebol em português.

6. Metáfora e futebol

As culturas nacionais em que nascemos se constituem em uma das principais fontes de identidade cultural. Uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (Hall, 1999, p. 50). A narrativa da nação (p. 52) fornece estórias, imagens, símbolos e rituais nacionais, como o jogo de futebol, que simbolizam ou representam as experiências partilhadas, as perdas, os triunfos e os desastres que dão sentido à nação. Uma pesquisa recente revela que 10% dos participantes da capital São Paulo acreditam que o futebol melhor representa a cultura brasileira, depois da música (13%) e do carnaval (12%) (Folha de São Paulo, 20/10/2010). Segundo Lakoff (1987), a linguagem figurada de uma comunidade talvez seja encarada como reflexo dos padrões convencionais de pensamento e visões de mundo daquela comunidade.

Quando um reporter afirma que “os fãs não conseguiram ver sangue durante o jogo”, o domíno-fonte guerra é ativado a fim de descrever a experiência abstrata de sofrimento envolvida quando os fãs assistem a um jogo de futebol. Portanto, a metáfora conceitual ativada aqui é FUTEBOL É GUERRA. No próximo exemplo, o conhecimento do leitor sobre o domínio experiencial GUERRA é utilizado para descrever um jogo de futebol difícil, de modo que o leitor visualiza automaticamente a imagem desse jogo difícil:

É guerra. Tenho que matar para não morrer“ (Scolari, F, The Sun, 19.6.2004) MC: FUTEBOL É GUERRA

FUTEBOL GUERRA

alvo  fonte

No exemplo retirado do site da torcida do Corinthians, a Gaviões da Fiel, podemos constatar como o hino do clube traz referências religiosas:

Salve o Corinthians, O campeão dos campeões,

Eternamente dentro dos nossos corações MC: FUTEBOL É RELIGIÃO

FUTEBOL ← RELIGIÃO (Ferreira, 2009)

Em uma análise preliminar, Priscila Ferreira (2009) constatou que o domínio-experiencial RELIGIÃO é o motivador utilizado para as letras do hino de diferentes clubes de futebol. Ela ilustra isso com um vídeo do time catarinense Avaí e afirma que, nesse vídeo, ocorre uma associação do caminho para a vitória com o caminho para Deus seguindo o esquema de imagens FONTE-CAMINHO-DESTINO (Johnson, 1987), em que o juiz é como Deus e os torcedores de um clube são como os seguidores de uma religião.

Vejamos a metáfora VIDA É UM JOGO, em que conceitualizamos a vida (domínio abstrato) por meio de nossa experiência concreta com jogo. Considerando que a cultura brasileira possui uma ligação forte com o futebol, muitas metáforas e expressões idiomáticas nesses idiomas são motivadas pela experiência com o jogo, por exemplo, o uso de expressões como “show de bola” e “dar um cartão vermelho”, tomadas emprestadas do universo do futebol. Buscamos responder: quais domínios experiências alvo são mapeados pelas metáforas de futebol? Que domínios fonte vão motivar o mapeamento metafórico, cujo domínio alvo é o futebol?

Semino & Maschi (1996) demonstraram como Silvio Berlusconi se alinhou com os eleitores italianos durante a sua campanha para primeiro-ministro, utilizando o seu conhecimento de futebol e o seu poder como dono do A.C. Milan, a fim de fazer oposição à esquerda e ganhar as eleições italianas no início dos anos noventa. Semino & Maschi constataram que Berlusconi mapeou principalmente dos domínios-fonte FUTEBOL, GUERRA e BÍBLIA para o domínio-fonte POLÍTICA.

A seguir discutiremos a metodologia empregada no estudo.

7. Metodologia

Primeiro, fizemos uma análise top down dos dados discursivos a partir de uma perspectiva da linguística aplicada por meio da qual buscamos as metáforas que aparecem no discurso (Cameron, 1999). Utilizamos uma abordagem dedutiva a fim de ver em que medida as metáforas conceptuais postuladas podem explicar ou motivar a incidência no uso de signos linguísticos convencionais e novos (Steen, 2007).

A seguir utilizamos metodologia da Linguística de Corpus aplicada ao estudo da metáfora (Deignan, 2005) e a ferramenta de pesquisa linguística Webcorp, a fim de verificar o número de concordâncias e os contextos de uso em que as expressões metafóricas selecionadas aparecem.

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- show de bola, dar um cartão vermelho e adversário indigesto.

Os dados foram retirados de jornais brasileiros (Folha SP, Estado de Minas e blogs de torcedores) Os procedimentos adotados para a análise das metáforas foram os seguintes:

1. Identificação das expressões metafóricas nos textos, por exemplo em jornais online e sites de torcidas; 2. Identificação do domínio conceitual da metáfora (domínio-fonte e –alvo);

3. Determinação da metáfora conceitual de cada expressão metafórica do estudo; 4. Análise empírica do contexto de uso com a ferramenta Webcorp.

A seguir serão apresentados e analisados os resultados da pesquisa das expressões show de bola e dar um cartão vermelho, obtidos por meio da pesquisa utilizando a ferramenta de pesquisa linguística Webcorp.

8. Resultados e discussão

Metáfora linguística: Show de bola Metáfora conceitual: X É FUTEBOL

Os resultados da análise do contexto, apresentados na pesquisa utilizando a ferramenta Webcorp, apontam que, na expressão show de bola, futebol é utilizado como domínio-fonte para se falar sobre diferentes assuntos, como Natal e garotas. Das 15 concordâncias, somente um uso foi literal e os outros 14 foram metafóricos. Show de bola não é uma expressão interessante para análise, pois os contextos de uso da expressão não variam muito. O contexto de uso mais frequente nos resultados do Webcorp foi a pornografia, com referência a garotas show de bola.

Vejamos agora uma outra expressão analisada, que é dar cartão vermelho. Existe uma similaridade experiencial entre as ações que desempenhamos em nossas vidas e a prática de jogos (Lakoff & Johnson, 1980). O futebol representa uma parte importante da vida e da cultura brasileira. Além de muitas expressões serem motivadas pelo futebol, muitas imagens e gestos também são influenciados pelo jogo. No Brasil, recentemente um senador deu um cartão vermelho para um colega no congresso. Trata-se aqui de um exemplo do domínio-experiencial futebol que mapeia determinadas ações na esfera experiencial da política brasileira.

Metáfora linguística: Dar cartão vermelho Metáfora conceitual: X É FUTEBOL

No caso do exemplo citado anteriormente, futebol serviu claramente como domínio-fonte e política como alvo, a metáfora conceitual subjacente é POLÍTICA É FUTEBOL. Os resultados da pesquisa para a expressão dar cartão vermelho no Webcorp foram os seguintes: 72 concordâncias, das quais 37 são usos metafóricos e 14 usos literais.

No exemplo seguinte, o domínio-fonte ALIMENTO mapeia no domínio-alvo FUTEBOL para discutir uma partida: O Ramalhão é um adversário indigesto para o Timão. Ano passado foi o único time a não ser batido por nós na Série B. (Fan blog, yulebisetto/2009/07/29)

O mapemanto FUTEBOL É ALIMENTO descreve aqui o adversário do Corinthians (o Timão) como um adversário difícil, comparando-o a uma comida de difícil digestão, que faz mal. A busca no Webcorp obteve como resultado 62 concordâncias, todas usos metafóricos.

Ao analisar os contextos de uso de metáforas de futebol gerados pela ferramenta Webcorp, descobrimos que alguns contextos motivam o uso de futebol como domínio-fonte, por exemplo, política, enquanto outros contextos motivam o uso de futebol como domínio-alvo. Esse é o caso quando os jogadores falam em “sacrifício” pelo time de futebol, uma alusão à metáfora subjacente FUTEBOL É RELIGIÃO, em que os jogadores vão fazer um sacrifício físico, uma prática comum nas religiões que passa pela experiência corpórea – no discurso metafórico sobre futebol fala-se também em dar o sangue por um time, para atingir um objetivo no futebol.

9. Considerações finais

A expressão metafórica dar um cartão vermelho, motivada pelo domínio-fonte FUTEBOL, é um exemplo de como dados de linguagem em uso podem revelar que uma expressão apresenta uso predominantemente metafórico. Os resultados da pesquisa feita para tal expressão com a ferramenta WebCorp apontaram 37 concordâncias com uso metafórico e 14 concordâncias com uso literal. Por fim, resultados da pesquisa utilizando metodologia da Linguística de Corpus, com auxílio da ferramenta de pesquisa linguística Webcorp, apontam que o domínio experiencial FUTEBOL serve tanto de domínio-fonte (POLÍTICA É FUTEBOL, como na expressão “Os deputados estavam prontos para dar um cartão vermelho a Renan Calheiros”2) como de domínio-alvo (FUTEBOL É ALIMENTO, por exemplo na expressão “além de ser um adversário indigesto, o Barcelona passa...”) para expressões metafóricas.

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O presente estudo servirá de ponto de partida para um amplo exame das metáforas de futebol presentes no discurso da mídia em português e alemão a partir de uma perspectiva da linguística aplicada.

Referências

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Referências

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