Superior Tribunal de Justiça

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Texto

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.717.213 - MT (2018/0000155-6) RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI

RECORRENTE : H PRINT REPROGRAFIA E AUTOMACAO DE ESCRITORIO LTDA ADVOGADOS : EUCLIDES RIBEIRO S JUNIOR - MT005222

ALLISON GIULIANO FRANCO E SOUSA - MT015836 EDUARDO HENRIQUE VIEIRA BARROS - MS021019A RECORRIDO : CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

ADVOGADOS : LEANDRO DA SILVA SOARES E OUTRO(S) - DF014499

FLÁVIO AUGUSTO DA COSTA RIBEIRO GARCIA - MT010114

INTERES. : INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO PROCESSUAL - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : PAULO HENRIQUE DOS SANTOS LUCON E OUTRO(S) - SP103560 INTERES. : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : ANTÔNIO CARLOS TORRES DE SIQUEIRA DE MAIA E PÁDUA - DEFENSOR PÚBLICO

INTERES. : ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE" PROCURADOR : AMANDA LINS BRITO FANECO AMORIM

EMENTA

RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. DIREITO EMPRESARIAL E DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA. RECORRIBILIDADE POR AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÕES PROFERIDAS EM PROCEDIMENTO COMUM QUE OBSERVAM A REGRA DO ART. 1.015, INCISOS, CPC/15, COM A FLEXIBILIZAÇÃO TRAZIDA PELA TESE DA TAXATIVIDADE MITIGADA. DECISÕES PROFERIDAS NAS FASES DE LIQUIDAÇÃO E CUMPRIMENTO DA SENTENÇA, NO PROCESSO EXECUTIVO E NA AÇÃO DE INVENTÁRIO QUE OBSERVAM A REGRA DO ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, CPC/15. CABIMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO CONTRA TODAS AS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS QUE SE JUSTIFICA DIANTE DA PROVÁVEL INUTILIDADE DE REDISCUSSÃO DA MATÉRIA POR OCASIÃO DO JULGAMENTO DE APELAÇÃO, QUE, QUANDO CABÍVEL, APENAS OCORRERÁ QUANDO MEDIDAS INVASIVAS E GRAVES JÁ HOUVEREM SIDO ADOTADAS E EXAURIDAS. HIPÓTESES DE CABIMENTO DO AGRAVO DE INSTRUMENTO PREVISTAS NA LEI 11.101/2005. CONCRETIZAÇÕES DO RISCO DE LESÃO GRAVE E DE DIFÍCIL REPARAÇÃO EXIGIDOS PELO CPC/73. RESSIGNIFICAÇÃO DO CABIMENTO À LUZ DO CPC/15. NATUREZA JURÍDICA DO PROCESSO RECUPERACIONAL. LIQUIDAÇÃO E EXECUÇÃO NEGOCIAL. NATUREZA JURÍDICA DO PROCESSO FALIMENTAR. LIQUIDAÇÃO E EXECUÇÃO COLETIVA. APLICABILIDADE DA REGRA DO ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, CPC/15. CABIMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO CONTRA TODAS AS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS NOS PROCESSOS

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RECUPERACIONAIS E FALIMENTARES. MODULAÇÃO. SEGURANÇA JURÍDICA E PROTEÇÃO DA CONFIANÇA. RECORRIBILIDADE DIFERIDA DE QUEM NÃO IMPUGNOU IMEDIATAMENTE AS INTERLOCUTÓRIAS FORA DA HIPÓTESES DE CABIMENTO PREVISTAS NA LEI 11.101/2005. POSSIBILIDADE. APLICABILIDADE DA TESE ÀS DECISÕES PROFERIDAS APÓS A PUBLICAÇÃO DO ACÓRDÃO E A TODOS OS AGRAVOS DE INSTRUMENTOS INTERPOSTOS ANTERIORMENTE, MAS AINDA PENDENTES DE JULGAMENTO NO MOMENTO DA PUBLICAÇÃO DO ACÓRDÃO.

1- O propósito do presente recurso especial, processado e julgado sob o rito dos recursos repetitivos, é definir se é cabível agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas em processos de recuperação judicial e falência em hipóteses não expressamente previstas na Lei 11.101/05.

2- No regime recursal adotado pelo CPC/15, há dois diferentes modelos de recorribilidade das decisões interlocutórias: (i) para as decisões proferidas na fase de conhecimento, será cabível o agravo de instrumento nas hipóteses listadas nos incisos do art. 1.015, observado, ainda, o abrandamento da taxatividade desse rol em razão da tese fixada por ocasião do julgamento do tema repetitivo 988 (tese da taxatividade mitigada); (ii) para as decisões proferidas nas fases de liquidação e cumprimento da sentença, no processo executivo e na ação de inventário, será cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias, por força do art. 1.015, parágrafo único.

3- O regime recursal diferenciado para as decisões interlocutórias proferidas nas fases de liquidação e cumprimento de sentença, no processo executivo e na ação de inventário se justifica pela impossibilidade de rediscussão posterior da questão objeto da interlocutória, na medida em que nem sempre haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e processos, inviabilizando a incidência da regra do art. 1.009, §1º, CPC/15 e também pela altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez que, em regra, serão praticados inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de bens, etc.) que se revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das decisões interlocutórias.

4- Conquanto a Lei 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de instrumento em específicas hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput, art. 59, §2º e art. 100, não se pode olvidar que, por ocasião da edição da referida lei, vigorava no Brasil o CPC/73, cujo sistema recursal, no que tange às decisões interlocutórias, era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/15, de modo que a escolha, pelo legislador, de apenas algumas específicas hipóteses de recorribilidade imediata das interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares deve ser interpretada como o reconhecimento de que, naquelas hipóteses, estava

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presumidamente presente o risco de causar à parte lesão grave e de difícil reparação, requisito exigido pelo art. 522, caput, CPC/73.

5- Ao se reinterpretar a questão relacionada à recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares à luz do regime instituído pelo CPC/15, conclui-se que, tendo o processo recuperacional a natureza jurídica de liquidação e de execução negocial das dívidas da pessoa jurídica em recuperação e tendo o processo falimentar a natureza jurídica de liquidação e de execução coletiva das dívidas da pessoa jurídica falida, a esses processos deve ser aplicada a regra do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15.

6- Assim, nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/15, fixa-se a seguinte tese jurídica: Cabe agravo de instrumento de todas as decisões

interlocutórias proferidas no processo de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15.

7- Para propiciar segurança jurídica e proteger as partes que, confiando na irrecorribilidade das decisões interlocutórias fora das hipóteses de cabimento previstas na Lei 11.101/2005, não interpuseram agravo de instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, faz-se necessário estabelecer que: (i) as decisões interlocutórias que não foram objeto de recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de impugnação pela parte em eventual e hipotética apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º, CPC/15, se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da questão incidente objeto da decisão interlocutória naquele momento processual; (ii) que a presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada a todas as decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos de instrumento interpostos antes da fixação da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se aqueles que não foram conhecidos por decisão judicial transitada em julgado.

8- Na hipótese, a decisão interlocutória proferida no processo de recuperação judicial determinou à parte que devolvesse determinado valor à Caixa Econômica Federal, sob pena de penhora e multa, e, interposto o agravo de instrumento, entendeu o TJ/MT por não conhecer o recurso de agravo de instrumento ao fundamento de que a hipótese em exame não se amoldaria a nenhum dos incisos do art. 1.015 do CPC, de modo que, fixada a tese jurídica vinculante no sentido de que cabe agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos processos de recuperação judicial e de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, deve ser provido o recurso especial, a fim de determinar ao TJ/MT que, afastado o óbice do cabimento, conheça do agravo de instrumento, se preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade, e dê regular

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prosseguimento ao agravo de instrumento.

9 – Recurso especial conhecido e provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas constantes dos autos, por unanimidade, conhecer do recurso especial e dar-lhe provimento, a fim de determinar ao TJ/MT que, afastado o óbice do cabimento, conheça do agravo de instrumento, se preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade, e dê regular prosseguimento ao agravo de instrumento.

Para os fins repetitivos, fixou-se a seguinte tese: "É cabível agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos processos de recuperação judicial e nos processos de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC".

Definiu-se a modulação dos efeitos da tese jurídica da seguinte forma: A tese jurídica se aplicará às decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos de instrumento interpostos antes da fixação da tese, ainda que se encontrem pendentes de julgamento ao tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se, tão somente, os agravos de instrumento que não foram conhecidos pelos Tribunais Estaduais ou Regionais Federais por decisão judicial transitada em julgado, tudo nos termos do voto da Sra. Ministra Relatora. Os Srs. Ministros Luis Felipe Salomão, Raul Araújo, Paulo de Tarso Sanseverino, Ricardo Villas Bôas Cueva, Marco Buzzi, Marco Aurélio Bellizze e Moura Ribeiro votaram com a Sra. Ministra Relatora.

O Sr. Ministro Antonio Carlos Ferreira votou com a Sra. Ministra Relatora quanto à tese repetitiva.

Impedido o Sr. Ministro Antonio Carlos Ferreira apenas no caso concreto. Presidiu o julgamento a Sra. Ministra Maria Isabel Gallotti.

Sustentou oralmente, pelo Recorrido CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, o Dr. LEANDRO DA SILVA SOARES.

Brasília (DF), 03 de dezembro de 2020(Data do Julgamento).

MINISTRA MARIA ISABEL GALLOTTI Presidente

MINISTRA NANCY ANDRIGHI Relatora

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RECURSO ESPECIAL Nº 1.717.213 - MT (2018/0000155-6) RELATORA : MINISTRA NANCY ANDRIGHI

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RECORRIDO : CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

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INTERES. : ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE" PROCURADOR : AMANDA LINS BRITO FANECO AMORIM

RELATÓRIO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

Cuida-se de recurso especial interposto por H. PRINT REPROGRAFIA E

AUTOMAÇÃO DE ESCRITÓRIOS LTDA. – EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL, com base

nas alíneas “a” e “c” do permissivo constitucional, contra o acórdão do TJ/MT que,

por maioria, negou provimento ao agravo interposto em face da decisão unipessoal

que não conheceu do agravo de instrumento por ela interposto.

Recurso especial interposto e m: 19/10/2017.

Atribuído ao gabinete e m: 01/03/2018.

Ação: de recuperação judicial da recorrente.

Decisão interlocutória: determinou à recorrente que devolvesse à

Caixa Econômica Federal, em 48 horas, o valor de R$ 942.388,53, sob pena de

penhora online do valor e multa de R$ 50.000,00 (fls. 42/45, e-STJ).

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interno interposto em face da decisão que não conheceu do agravo de

instrumento interposto pela recorrente, nos termos da seguinte ementa (fls.

142/155, e-STJ):

RECURSO DE AGRAVO INTERNO – DECISÃO – DEVOLUÇÃO DE VALORES – AGRAVO DE INSTRUMENTO NÃO CONHECIDO – ROL TAXATIVO – ART. 1.015, CPC/15 – AMPLIAÇÃO DO ROL – INCIDÊNCIA DO PARÁGRAFO ÚNICO, DO ART. 1.015 - IMPOSSIBILIDADE – DECISÃO MANTIDA – RECURSO DESPROVIDO.

Não é cabível o recurso de agravo de instrumento fora das hipóteses taxativas previstas nos incisos I a XI, do art. 1015, do CPC/15, não sendo possível qualquer interpretação extensiva. Da decisão que determina a devolução de valores à financeira, consoante o caso dos autos, não cabe recurso de agravo de instrumento, posto que não se enquadra em nenhuma das hipóteses do artigo epigrafado, não havendo que se falar na ampliação do rol. A Lei de Recuperação Judicial traz os casos específicos da admissibilidade do recurso de agravo de instrumento, aplicando-se o inc. XIII, do art. 1.015, do CPC/15.

Recurso especial: alega-se negativa de vigência ao art. 1.015,

parágrafo único, CPC/15, bem como dissídio jurisprudencial com acórdãos

proferidos pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, ao fundamento de que a

natureza jurídica e as especificidades existentes nas ações recuperacionais e

falimentares exigem que a elas não se aplique o regime do art. 1.015, incisos,

CPC/15, mas, sim, o regime do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, que elencaria,

em rol não exaustivo, as hipóteses de recorribilidade imediata de todas as decisões

interlocutórias (fls. 157/221, e-STJ).

Juízo de admissibilidade do T J / M T: por entender estarem

presentes os pressupostos de admissibilidade do recurso especial e por verificar a

presença de múltiplos recursos envolvendo a mesma questão jurídica, selecionou

o presente recurso especial como representativo de controvérsia para o fim de

que fosse ele afetado e processado sob o rito dos recursos repetitivos (arts. 1.036

e seguintes do CPC/15) (fls. 245/246, e-STJ).

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Ministério Público Federal: em atenção à decisão de fl. 251

(e-STJ), da lavra do Presidente da Comissão Gestora de Precedentes, Min. Paulo de

Tarso Sanseverino, opinou pela admissão do recurso especial como representativo

da controvérsia (fls. 256/260, e-STJ).

Juízo preliminar de admissibilidade no S T J: por entender que

estavam presentes os requisitos formais previstos no art. 256 do RISTJ,

determinou-se a distribuição deste recurso, por prevenção decorrente do REsp

1.696.396/MT e REsp 1.704.520/MT, a partir dos quais foi fixada a tese da

taxatividade mitigada (tema repetitivo 988) (fls. 262/265, e-STJ).

Acórdão de afetação da 2ª Seção do S T J: por unanimidade,

determinou-se a afetação do processo ao rito dos recursos repetitivos, sem

suspensão do processamento dos processos pendentes, nos termos da seguinte

ementa (fls. 646/658, e-STJ):

PROPOSTA DE AFETAÇÃO. RECURSO ESPECIAL. REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. SELEÇÃO. RITO. ARTS. 1.036 E SS. DO CPC/15. DIREITO PROCESSUAL CIVIL. FALÊNCIA E RECUPERAÇÃO JUDICIAL. LEI 11.101/2005. SISTEMA RECURSAL. DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS. AGRAVO DE INSTRUMENTO. HIPÓTESES DE CABIMENTO.

1. Delimitação da controvérsia: Definir se é cabível agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas em processos de recuperação judicial e falência em hipóteses não expressamente previstas na Lei 11.101/05.

2. Afetação do recurso especial ao rito do art. 1.036 e ss. do CPC/2015.

Manifestação do Instituto Brasileiro de Direito Processual –

IBDP: cientificado acerca da presente questão repetitiva por ocasião do acórdão

que afetou este recurso como representativo da controvérsia, o Instituto Brasileiro

de Direito Processual – IBDP – ofertou manifestação às fls. 325/381 (e-STJ), em

que posiciona pela recorribilidade imediata de todas as decisões interlocutórias

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proferidas no âmbito dos processos recuperacionais e falimentares, com

modulação de efeitos.

Manifestação da União: cientificada acerca da presente questão

repetitiva por ocasião do acórdão que afetou este recurso como representativo da

controvérsia, a União ofertou manifestação às fls. 384/389 (e-STJ), em que se

posiciona pela recorribilidade imediata de todas as decisões interlocutórias

proferidas no âmbito dos processos recuperacionais e falimentares.

Manifestação da Defensoria Pública da União: cientificada

acerca da presente questão repetitiva por ocasião do acórdão que afetou este

recurso como representativo da controvérsia, a Defensoria Pública da União

ofertou manifestação às fls. 392/396 (e-STJ), em que se posiciona pela

recorribilidade imediata de todas as decisões interlocutórias proferidas no âmbito

dos processos recuperacionais e falimentares.

Ministério Público Federal: igualmente opinou pela recorribilidade

imediata de todas as decisões interlocutórias proferidas no âmbito dos processos

recuperacionais e falimentares (fls. 400/406, e-STJ).

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ADVOGADOS : LEANDRO DA SILVA SOARES E OUTRO(S) - DF014499

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INTERES. : INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO PROCESSUAL - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : PAULO HENRIQUE DOS SANTOS LUCON E OUTRO(S) - SP103560 INTERES. : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : ANTÔNIO CARLOS TORRES DE SIQUEIRA DE MAIA E PÁDUA - DEFENSOR PÚBLICO

INTERES. : ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE" PROCURADOR : AMANDA LINS BRITO FANECO AMORIM

EMENTA

RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA. DIREITO EMPRESARIAL E DIREITO PROCESSUAL CIVIL. DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA. RECORRIBILIDADE POR AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÕES PROFERIDAS EM PROCEDIMENTO COMUM QUE OBSERVAM A REGRA DO ART. 1.015, INCISOS, CPC/15, COM A FLEXIBILIZAÇÃO TRAZIDA PELA TESE DA TAXATIVIDADE MITIGADA. DECISÕES PROFERIDAS NAS FASES DE LIQUIDAÇÃO E CUMPRIMENTO DA SENTENÇA, NO PROCESSO EXECUTIVO E NA AÇÃO DE INVENTÁRIO QUE OBSERVAM A REGRA DO ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, CPC/15. CABIMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO CONTRA TODAS AS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS QUE SE JUSTIFICA DIANTE DA PROVÁVEL INUTILIDADE DE REDISCUSSÃO DA MATÉRIA POR OCASIÃO DO JULGAMENTO DE APELAÇÃO, QUE, QUANDO CABÍVEL, APENAS OCORRERÁ QUANDO MEDIDAS INVASIVAS E GRAVES JÁ HOUVEREM SIDO ADOTADAS E EXAURIDAS. HIPÓTESES DE CABIMENTO DO AGRAVO DE INSTRUMENTO PREVISTAS NA LEI 11.101/2005. CONCRETIZAÇÕES DO RISCO DE LESÃO GRAVE E DE DIFÍCIL REPARAÇÃO EXIGIDOS PELO CPC/73. RESSIGNIFICAÇÃO DO CABIMENTO À LUZ DO CPC/15. NATUREZA JURÍDICA DO PROCESSO RECUPERACIONAL. LIQUIDAÇÃO E EXECUÇÃO NEGOCIAL. NATUREZA JURÍDICA DO PROCESSO FALIMENTAR. LIQUIDAÇÃO E EXECUÇÃO COLETIVA. APLICABILIDADE DA REGRA DO ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, CPC/15. CABIMENTO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO CONTRA TODAS AS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS NOS PROCESSOS RECUPERACIONAIS E FALIMENTARES. MODULAÇÃO. SEGURANÇA JURÍDICA E

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PROTEÇÃO DA CONFIANÇA. RECORRIBILIDADE DIFERIDA DE QUEM NÃO IMPUGNOU IMEDIATAMENTE AS INTERLOCUTÓRIAS FORA DA HIPÓTESES DE CABIMENTO PREVISTAS NA LEI 11.101/2005. POSSIBILIDADE. APLICABILIDADE DA TESE ÀS DECISÕES PROFERIDAS APÓS A PUBLICAÇÃO DO ACÓRDÃO E A TODOS OS AGRAVOS DE INSTRUMENTOS INTERPOSTOS ANTERIORMENTE, MAS AINDA PENDENTES DE JULGAMENTO NO MOMENTO DA PUBLICAÇÃO DO ACÓRDÃO.

1- O propósito do presente recurso especial, processado e julgado sob o rito dos recursos repetitivos, é definir se é cabível agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas em processos de recuperação judicial e falência em hipóteses não expressamente previstas na Lei 11.101/05.

2- No regime recursal adotado pelo CPC/15, há dois diferentes modelos de recorribilidade das decisões interlocutórias: (i) para as decisões proferidas na fase de conhecimento, será cabível o agravo de instrumento nas hipóteses listadas nos incisos do art. 1.015, observado, ainda, o abrandamento da taxatividade desse rol em razão da tese fixada por ocasião do julgamento do tema repetitivo 988 (tese da taxatividade mitigada); (ii) para as decisões proferidas nas fases de liquidação e cumprimento da sentença, no processo executivo e na ação de inventário, será cabível o agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias, por força do art. 1.015, parágrafo único.

3- O regime recursal diferenciado para as decisões interlocutórias proferidas nas fases de liquidação e cumprimento de sentença, no processo executivo e na ação de inventário se justifica pela impossibilidade de rediscussão posterior da questão objeto da interlocutória, na medida em que nem sempre haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e processos, inviabilizando a incidência da regra do art. 1.009, §1º, CPC/15 e também pela altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez que, em regra, serão praticados inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de bens, etc.) que se revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das decisões interlocutórias.

4- Conquanto a Lei 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de instrumento em específicas hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput, art. 59, §2º e art. 100, não se pode olvidar que, por ocasião da edição da referida lei, vigorava no Brasil o CPC/73, cujo sistema recursal, no que tange às decisões interlocutórias, era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/15, de modo que a escolha, pelo legislador, de apenas algumas específicas hipóteses de recorribilidade imediata das interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares deve ser interpretada como o reconhecimento de que, naquelas hipóteses, estava presumidamente presente o risco de causar à parte lesão grave e de difícil

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reparação, requisito exigido pelo art. 522, caput, CPC/73.

5- Ao se reinterpretar a questão relacionada à recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas nos processos recuperacionais e falimentares à luz do regime instituído pelo CPC/15, conclui-se que, tendo o processo recuperacional a natureza jurídica de liquidação e de execução negocial das dívidas da pessoa jurídica em recuperação e tendo o processo falimentar a natureza jurídica de liquidação e de execução coletiva das dívidas da pessoa jurídica falida, a esses processos deve ser aplicada a regra do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15.

6- Assim, nos termos do art. 1.036 e seguintes do CPC/15, fixa-se a seguinte tese jurídica: Cabe agravo de instrumento de todas as decisões

interlocutórias proferidas no processo de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15.

7- Para propiciar segurança jurídica e proteger as partes que, confiando na irrecorribilidade das decisões interlocutórias fora das hipóteses de cabimento previstas na Lei 11.101/2005, não interpuseram agravo de instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, faz-se necessário estabelecer que: (i) as decisões interlocutórias que não foram objeto de recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de impugnação pela parte em eventual e hipotética apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º, CPC/15, se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da questão incidente objeto da decisão interlocutória naquele momento processual; (ii) que a presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada a todas as decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a tese e a todos os agravos de instrumento interpostos antes da fixação da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao tempo da publicação deste acórdão, excluindo-se aqueles que não foram conhecidos por decisão judicial transitada em julgado.

8- Na hipótese, a decisão interlocutória proferida no processo de recuperação judicial determinou à parte que devolvesse determinado valor à Caixa Econômica Federal, sob pena de penhora e multa, e, interposto o agravo de instrumento, entendeu o TJ/MT por não conhecer o recurso de agravo de instrumento ao fundamento de que a hipótese em exame não se amoldaria a nenhum dos incisos do art. 1.015 do CPC, de modo que, fixada a tese jurídica vinculante no sentido de que cabe agravo de instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos processos de recuperação judicial e de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, deve ser provido o recurso especial, a fim de determinar ao TJ/MT que, afastado o óbice do cabimento, conheça do agravo de instrumento, se preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade, e dê regular prosseguimento ao agravo de instrumento.

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9 – Recurso especial conhecido e provido.

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RECORRENTE : H PRINT REPROGRAFIA E AUTOMACAO DE ESCRITORIO LTDA ADVOGADOS : EUCLIDES RIBEIRO S JUNIOR - MT005222

ALLISON GIULIANO FRANCO E SOUSA - MT015836 EDUARDO HENRIQUE VIEIRA BARROS - MS021019A RECORRIDO : CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

ADVOGADOS : LEANDRO DA SILVA SOARES E OUTRO(S) - DF014499

FLÁVIO AUGUSTO DA COSTA RIBEIRO GARCIA - MT010114

INTERES. : INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO PROCESSUAL - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : PAULO HENRIQUE DOS SANTOS LUCON E OUTRO(S) - SP103560 INTERES. : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : ANTÔNIO CARLOS TORRES DE SIQUEIRA DE MAIA E PÁDUA - DEFENSOR PÚBLICO

INTERES. : ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE" PROCURADOR : AMANDA LINS BRITO FANECO AMORIM

VOTO

A EXMA. SRA. MINISTRA NANCY ANDRIGHI (Relator):

O propósito do presente recurso especial, processado e julgado sob o

rito dos recursos repetitivos, é definir se é cabível agravo de instrumento contra

decisões interlocutórias proferidas em processos de recuperação judicial e falência

em hipóteses não expressamente previstas na Lei 11.101/05.

RECORRIBILIDADE DAS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS

EM PROCESSOS RECUPERACIONAIS E FALIMENTARES. ALEGADA VIOLAÇÃO AO

ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, CPC/15.

01) Anote-se que, como é notório, houve uma profunda modificação

no sistema de recorribilidade das decisões interlocutórias proferidas na fase de

conhecimento após a entrada em vigor do CPC/15, adotando-se um regime que,

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nesse particular, mais se assemelha ao sistema recursal que vigorou ao tempo do

CPC/39.

02) Com efeito, no regime instituído pelo CPC/15, as decisões

interlocutórias proferidas na fase de conhecimento apenas são imediatamente

impugnáveis por agravo de instrumento quando listadas nos incisos do art. 1.015

ou quando se tratar de hipótese em que a questão decidida precise,

obrigatoriamente, ser imediatamente reexaminada pelo Tribunal sob pena de

inutilidade do reexame apenas futuramente, por ocasião do julgamento da

apelação (tema repetitivo 988).

03) Entretanto, é preciso salientar que esse regime recursal é

aplicável apenas às decisões interlocutórias proferidas na fase de conhecimento,

na medida em que, para as fases subsequentes à fase cognitiva propriamente dita

(liquidação e cumprimento de sentença), para o processo executivo e para a ação

de inventário, aplica-se um regime recursal distinto – previsto no art. 1.015,

parágrafo único, CPC/15 – que prevê que todas as decisões interlocutórias

proferidas nestas fases ou processos serão imediatamente recorríveis por agravo

de instrumento.

04) Esse, aliás, é o recente e uníssono posicionamento da Corte

Especial do STJ:

CIVIL. PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO DE CONTRATO LOCATÍCIO. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA QUE INDEFERE O PEDIDO DE REVOGAÇÃO DO BENEFÍCIO DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA EM PROCESSO EXECUTIVO. RECORRIBILIDADE IMEDIATA POR AGRAVO DE INSTRUMENTO. POSSIBILIDADE. CABIMENTO DO RECURSO EM FACE DE TODAS AS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS EM LIQUIDAÇÃO E CUMPRIMENTO DE SENTENÇA, EXECUÇÃO E INVENTÁRIO, INDEPENDENTEMENTE DO CONTEÚDO DA DECISÃO. INCIDÊNCIA ESPECÍFICA DO ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC/2015. LIMITAÇÃO DE CABIMENTO DO RECURSO, PREVISTA NO ART. 1.015, CAPUT E INCISOS, QUE SOMENTE SE APLICA ÀS DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS PROFERIDAS NA FASE DE CONHECIMENTO. SUSPENSÃO DO PROCESSO ATÉ REALIZAÇÃO DE PERÍCIA EM

(15)

Superior Tribunal de Justiça

AÇÃO DE INTERDIÇÃO DA LOCATÁRIA. PERTINÊNCIA DA SUSPENSÃO. EXAME DA INFLUÊNCIA E DOS REFLEXOS DA PROVA TÉCNICA NA EXECUÇÃO. SÚMULA 7/STJ.

1- Ação proposta em 14/06/2016. Recurso especial interposto em 26/10/2018 e atribuído à Relatora em 11/04/2019.

2- O propósito recursal consiste em definir: (i) se é recorrível, de imediato e por meio de agravo de instrumento, a decisão interlocutória proferida no processo de execução que indefere o pedido de revogação do benefício da gratuidade da justiça; (ii) se o processo executivo poderia ser suspenso até realização da prova pericial a ser realizada na ação de interdição da executada.

3- Somente as decisões interlocutórias proferidas na fase de conhecimento se submetem ao regime recursal disciplinado pelo art. 1.015,

caput e incisos do CPC/2015, segundo o qual apenas os conteúdos elencados na

referida lista se tornarão indiscutíveis pela preclusão se não interposto, de imediato, o recurso de agravo de instrumento, devendo todas as demais interlocutórias aguardar a prolação da sentença para serem impugnadas na apelação ou nas contrarrazões de apelação, observado, quanto ao ponto, a tese da taxatividade mitigada fixada pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça por ocasião do julgamento dos recursos especiais repetitivos nº 1.696.396/MT e 1.704.520/MT.

4- Para as decisões interlocutórias proferidas em fases subsequentes à cognitiva – liquidação e cumprimento de sentença –, no processo de execução e na ação de inventário, o legislador optou conscientemente por um regime recursal distinto, prevendo o art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015, que haverá ampla e irrestrita recorribilidade de todas as decisões interlocutórias, quer seja porque a maioria dessas fases ou processos não se findam por sentença e, consequentemente, não haverá a interposição de futura apelação, quer seja em razão de as decisões interlocutórias proferidas nessas fases ou processos possuírem aptidão para atingir, imediata e severamente, a esfera jurídica das partes, sendo absolutamente irrelevante investigar, nessas hipóteses, se o conteúdo da decisão interlocutória se amolda ou não às hipóteses previstas no caput e incisos do art. 1.015 do CPC/2015.

5- Na hipótese em exame, foi proferida, em processo de execução, decisão interlocutória indeferindo o pedido formulado de revogação do benefício da gratuidade de justiça anteriormente deferido à parte, tratando-se de decisão imediatamente recorrível, por agravo de instrumento, com base no art. 1.015, parágrafo único, do CPC/2015.

6- A eventual impertinência da suspensão do processo executivo até realização da prova pericial a ser realização na ação de interdição da parte adversa é questão incognoscível no recurso especial, tendo em vista a necessidade de reexame do acervo fático-probatório no que se refere a potencial utilidade e os efetivos reflexos que a prova técnica causará à execução em cuja defesa se alega, justamente, a incapacidade civil da contratante.

7- Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa extensão, provido. (REsp 1.803.925/SP, Corte Especial, DJe 06/08/2019).

(16)

Superior Tribunal de Justiça

05) O motivo pelo qual há um regime recursal para a fase de

conhecimento e outro regime recursal, substancialmente distinto, para as fases

subsequentes, para a execução e para o inventário, é objeto de profundo examine

da doutrina.

06) Quanto ao ponto, destaque-se inicialmente as lições de Teresa

Arruda Alvim, Maria Lúcia Lins Conceição, Leonardo Ferres Ribeiro e

Rogério Licastro Torres de Mello:

14. Interlocutórias proferidas em liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, no processo de execução e no processo de inventário – parágrafo único. O parágrafo único significa que, como os casos que alistam terminam por decisão que não comporta apelação, as interlocutórias (todas) proferidas ao longo da fase de liquidação, do cumprimento de sentença, da execução ou do inventário têm de ser impugnáveis pela via do agravo de instrumento. (ARRUDA ALVIM, Teresa; CONCEIÇÃO, Maria Lúcia; RIBEIRO, Leonardo Ferres da Silva; MELLO, Rogério Licastro Torres de. Primeiros comentários ao novo Código de Processo Civil: artigo por artigo. 2ª Ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. p. 1.617).

07) Também nesse sentido, leciona William Santos Ferreira:

No parágrafo único do art. 1.015 há previsão geral de cabimento de agravo de instrumento de todas as interlocutórias proferidas em fase de liquidação de sentença ou de cumprimento de sentença, processo de execução e processo de inventário, isto porque são hipóteses que não encerram uma sentença de mérito, portanto, seria extremamente confusa e arriscada a previsão apenas pontual de cabimento do agravo. (FERREIRA, William Santos. Comentários ao Código de Processo Civil. Vol. 4 (Coord.: Cássio Scarpinella Bueno). São Paulo: Saraiva, 2017. p. 453).

08) De igual modo, acrescentam Luiz Guilherme Marinoni e Daniel

Mitidiero:

Também caberá agravo de instrumento contra decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação, na fase de cumprimento de

(17)

Superior Tribunal de Justiça

sentença, no processo de execução e no processo de inventário (art. 1.015, parágrafo único, CPC/2015). No primeiro caso, a justificativa do cabimento do agravo está em que inexiste previsão de apelação no procedimento que visa à liquidação. No segundo e no terceiro, a apelação, embora possa ter lugar, não é usual – em outras palavras, não é um ato necessário do procedimento, salvo para nele colocar fim. O quarto caso justifica-se pela necessidade de imediata revisão das decisões interlocutórias em inúmeras situações que envolvem o processo de inventário. (MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Comentários ao Código de Processo Civil. Vol. XVI. São Paulo: Thomson Reuters, 2018. p. 213/214).

09) Ainda no mesmo sentido, ensinam Fernando da Fonseca

Gajardoni, Luiz Dellore, André Vasconcelos Roque e Zulmar Oliveira Jr.:

12. Liquidação de sentença, cumprimento de sentença, processo de execução e de inventário. A limitação ao cabimento do agravo na fase cognitiva do processo é contrastada com a ampla possibilidade de sua utilização na liquidação e no cumprimento de sentença, no processo de execução e de inventário. Basta no particular que em tais processos seja proferida decisão interlocutória, a fim de ser viável o manejo do agravo de instrumento. Tal amplitude decorrente da consideração sobre a verticalidade com que tais decisões atingem as esferas jurídicas das partes. Além do mais, em parte desses processos, as decisões mais significativas são proferidas antes da sentença propriamente dita, que normalmente se limita a constatar fatos produzidos por atos processuais anteriores (a execução é exemplo significativo, art. 924). Seria assim desmedido aguardar a sentença para que os mais importantes atos processuais fossem submetidos aos recursos. (GAJARDONI, Fernando da Fonseca; DELLORE, Luiz; ROQUE, André Vasconcelos; OLIVEIRA JR., Zulmar. Execução e recursos: comentários ao CPC de 2015. São Paulo: Método, 2017. p. 1.075).

10) Essa igualmente é a lição de José Miguel Garcia Medina:

Nos casos previstos no parágrafo único do art. 1.015 do CPC/2015, está-se diante de incompatibilidade do procedimento em que foi proferida a decisão interlocutória com o regime de impugnação apenas por apelação, porque, ainda que possível a prolação de sentença (p. ex., art. 925 do CPC/2015, na execução de título extrajudicial), isso ocorrerá quando o procedimento já tiver se exaurido, não havendo para a parte, pragmaticamente, interesse em

(18)

Superior Tribunal de Justiça

interpor apelação (o que pode tornar inviável também a apelação contra decisão interlocutória, no caso do §1º do art. 1.009 do CPC/2015). (MEDINA, José Miguel Garcia. Novo Código de Processo Civil Comentado. 4ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. p. 1.503).

11) Finalmente, como sintetizam Nelson Nery Jr. e Rosa Maria de

Andrade Nery:

38. Liquidação de sentença. O CPC/1973, na reforma de 2005/2006, firmou o entendimento de que da decisão sobre a liquidação de sentença caberia agravo de instrumento e não apelação. Essa saída é, de fato, a mais lógica, tendo em vista que da decisão de liquidação depende o seguimento do cumprimento de sentença, e não seria compensador nem em relação ao tempo, nem em relação à possibilidade de satisfazer o crédito, aguardar o julgamento de uma apelação, mesmo que sem efeito suspensivo (e se o Tribunal modificar a decisão?).

(...).

39. Cumprimento de sentença e execução. Nestes casos, não é viável aguardar a apelação contra a sentença que finaliza esses procedimentos, pois o curso do levantamento e alienação de bens, por exemplo, pode ficar prejudicado, criando o risco de o devedor dilapidar os bens que poderiam servir à satisfação do crédito. Existe, pois, o interesse em que tais procedimentos sejam céleres, além do que já seria esperado em razão da garantia constitucional da duração razoável do processo.

(...).

40. Inventário. A partilha, objetivo máximo do inventário, não pode ficar à espera de decisões menores do processo. E isso acontece não apenas porque os bens correm o risco de deterioração e desvalorização, mas também porque os interesses de várias pessoas, e também do Estado, estão voltados à solução da partilha. Vale ressaltar que a decisão final da partilha também é sentença, muito embora não esteja assim qualificada no CPC 203 §1º. (NERY JR., Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Código de Processo Civil Comentado. 16ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016. p. 2.241).

12) Examinando-se o conteúdo das lições doutrinárias acima

reproduzidas, conclui-se que as razões pelas quais há um regime distinto para as

referidas fases procedimentais e processos são, em síntese: (i) a impossibilidade

(19)

Superior Tribunal de Justiça

em que nem sempre haverá apelação nessas espécies de fases procedimentais e

processos, inviabilizando a incidência da regra do art. 1.009, §1º, CPC/15; (ii) a

altíssima invasividade e gravidade das decisões interlocutórias

proferidas nessas espécies de fases procedimentais e processos, uma vez

que, de regra, serão praticados inúmeros e sucessivos atos judiciais de índole

satisfativa (pagamento, penhora, expropriação e alienação de bens, etc.) que se

revelam claramente incompatíveis com a recorribilidade apenas diferida das

decisões interlocutórias.

13) Examinando-se as circunstâncias justificadoras do regime recursal

distinto previsto no art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, percebe-se que esses

mesmos motivos estão presentes nos processos recuperacionais e

falimentares, impondo-se que recebam eles o mesmo tratamento.

14) Quanto ao ponto, não se pode olvidar, desde logo, que a

aplicabilidade do CPC/15 aos processos recuperacionais e falimentares decorre

expressamente do art. 189 da Lei 11.101/2005, segundo o qual a legislação

processual geral se aplicará, no que couber, aos procedimentos regidos pela lei

especial.

15) Conquanto a Lei 11.101/2005 preveja o cabimento do agravo de

instrumento em específicas hipóteses, como, por exemplo, o art. 17, caput (contra

a decisão que julga a impugnação), art. 59, §2º (contra a decisão que concede a

recuperação judicial) e art. 100 (contra a decisão que decreta a falência), deve ser

levado em consideração que, por ocasião da edição da referida lei, vigorava no

Brasil o CPC/73, cujo sistema recursal, no que tange às decisões interlocutórias,

era diametralmente oposto ao regime recursal instituído pelo CPC/15.

16) Com efeito, considerando que, ao tempo do CPC/73, o cabimento

do agravo de instrumento estava condicionado à verificação, pelo relator, de que a

(20)

Superior Tribunal de Justiça

decisão interlocutória era “suscetível de causar à parte lesão grave e de difícil

reparação” (art. 522, caput), é correto concluir que as específicas hipóteses

de cabimento reguladas pela Lei 11.101/2005, repise-se, editada na vigência

da legislação processual revogada, somente visam dar concretude ao referido

dispositivo previsto na legislação processual geral, indicando algumas

situações em que aquele requisito, exigível para o cabimento do recurso

na modalidade instrumental, estava presumivelmente presente.

17) Dessa forma, tendo sido modificado profundamente o regime

recursal pelo CPC/15, é preciso também ressignificar as hipóteses de cabimento

previstas de modo esparso na Lei 11.101/2005, adequando-as ao modelo de

recorribilidade das decisões interlocutórias instituído pela nova lei processual,

especialmente sob a perspectiva da natureza jurídica dos processos

recuperacionais e falimentares.

18) Nesse sentido, faz-se necessário trazer à colação as lições de

Paulo Henrique dos Santos Lucon:

A recuperação judicial está disciplinada nos capítulos III e IV da LRF. Embora a LRF não traga uma definição do instituto, verifica-se que a recuperação judicial é um processo judicial destinado a empresas viáveis economicamente e cujo objeto é uma renegociação coletiva de seu passivo. O artigo 49 da LRF estabelece que todos os créditos existentes na data do pedido de recuperação judicial serão pagos na forma do plano de recuperação judicial, salvo os créditos tributários e os previstos nos artigos 49, §3º, e 86, II, da LRF. Em linhas gerais, a recuperação judicial é bifurcada em dois procedimentos paralelos: i) negociação do plano de recuperação judicial e; ii) habilitação e verificação de créditos. Deferido o processamento da ação, as ações e execuções propostas contra a recuperada serão suspensas. Trata-se do stay period, que tem como objetivo justamente oferecer um período de 'fôlego' para que a empresa possa se reorganizar e apresentar seu plano de recuperação judicial. O plano será apresentado aos credores e votado em assembleia geral. Aprovado o plano, opera-se a novação das dívidas sujeitas à recuperação judicial. De acordo com a lei, o devedor permanecerá em recuperação judicial pelo prazo de 2 anos, sendo, ao fim, proferida sentença de encerramento da recuperação judicial.

(21)

Superior Tribunal de Justiça

(...)

Já a falência, regulada no capítulo V da LRF, é um processo de liquidação judicial do patrimônio do devedor para pagamento de seus credores, observando-se a ordem de preferência prevista na LRF. A falência pode ser requerida pelo próprio devedor ou por seus credores, cabendo destacar que a recuperação judicial também pode ser convolada em falência. No geral, presentes os requisitos, será proferida sentença que decretará a falência do devedor. A doutrina esclarece que a decisão que decreta a quebra deve ser considerada sentença, na medida em que encerra uma fase processual, porém contra tal decisão será cabível a interposição de agravo de instrumento. Ao fim do procedimento, será proferida a sentença de encerramento da falência, que apreciará as contas do administrador judicial e poderá ser impugnada por recurso de apelação. (LUCON, Paulo Henrique dos Santos. Agravo de instrumento no processo de recuperação judicial e falência in Portal Migalhas, 01/11/2019. Acesso realizado em 07/04/2020).

19) Significa dizer, em síntese, que o processo recuperacional

possui natureza jurídica de liquidação e de execução negocial das dívidas

da pessoa jurídica em recuperação, ao passo que o processo falimentar possui

natureza jurídica de liquidação e de execução coletiva das dívidas da

pessoa jurídica falida.

20) Diante desse cenário, a melhor intepretação ao art. 1015,

parágrafo único, CPC/15, é de que a recorribilidade imediata, por agravo de

instrumento, das decisões interlocutórias proferidas na fase de liquidação e no

processo executivo não abrange apenas a liquidação e a execução previstas no

CPC/15, mas, ao revés, contemplam também processos que, conquanto

disciplinados por legislação extravagante, igualmente possuam natureza

jurídica de liquidação e execução, como é o caso, por exemplo, dos

processos recuperacionais e dos processos falimentares previstos na Lei

11.101.2005.

21) Sustentando a aplicabilidade do art. 1.015, parágrafo único,

CPC/15, aos processos de recuperação judicial e falência, lecionam André

(22)

Superior Tribunal de Justiça

Um dos principais exemplos não contemplados no art. 1.015, parágrafo único do NCPC e nos quais não há perspectiva de apelação em tempo razoável diz respeito aos processos de recuperação judicial e falência, disciplinados na lei 11.101/05.

Na recuperação judicial, somente será proferida sentença de encerramento do processo após o cumprimento de todas as obrigações previstas no plano de recuperação judicial aprovado e que se vencerem em até dois anos depois da concessão da recuperação (art. 63, lei 11.101/05), quando já superadas todas as discussões sobre o deferimento e o processamento da recuperação, os critérios para a deliberação em Assembleia de Credores e os credores habilitados para votar, assim como a votação propriamente dita do plano de recuperação judicial apresentado e sua homologação.

Da mesma forma, sendo decretada a falência, somente será proferida sentença de encerramento após ultimada a arrecadação dos ativos, com a distribuição do produto aos credores habilitados e a apresentação do relatório final pelo administrador judicial (art. 156, lei 11.101/05).

Muito embora a lei 11.101/05 preveja expressamente o cabimento de agravo de instrumento em algumas matérias específicas, o que continuará a ser admitido no novo CPC, por força do inciso XIII do caput do art. 1.015, há inúmeras outras situações em relação às quais não se encontra semelhante previsão e que devem ser submetidas à disciplina do novo Código, de aplicação subsidiária, nos termos do art. 189 da lei 11.101/05.

Como exemplos de matérias em que não se regulou de forma expressa o cabimento de agravo de instrumento e que ostentam inegável relevância, pode-se apontar (i) a decisão do juiz que aprecia a competência para a recuperação judicial, ou (ii) a que determina que os planos de recuperação devem ou não ser unificados no caso de pedido de recuperação apresentado por mais de uma empresa, ou (iii) a que determina a unificação das assembleias gerais de credores no caso de pedido de recuperação apresentado por mais de uma empresa, ou (iv) a que defere o processamento da recuperação judicial, ou (v) a que aprecia, no curso do processo falimentar, o pedido de continuação provisória das atividades do falido; ou (vi) a que indefere, também na falência, o pedido de venda antecipada dos bens arrecadados perecíveis, deterioráveis, sujeitos a considerável desvalorização ou, ainda, que sejam de conservação arriscada ou dispendiosa.

Em todos esses casos e em muitos outros, encontra-se presente a mesma situação que dá fundamento ao art. 1.015, parágrafo único do NCPC: não há perspectiva de interposição de apelação em tempo hábil para que a matéria seja submetida à apreciação do tribunal.

Tal dispositivo deve, assim, ser interpretado de forma funcional: a recorribilidade imediata de qualquer decisão interlocutória mediante agravo de instrumento não deve ficar restrita aos casos previstos de forma expressa no parágrafo único do art. 1.015 do NCPC, aplicando-se igualmente aos processos de recuperação judicial e de falência, sob pena de ensejar situações de irrecorribilidade prática não contempladas pelo sistema. (ROQUE,

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Superior Tribunal de Justiça

André Vasconcelos; BAPTISTA, Bernardo Barreto. O novo CPC e o agravo de instrumento na recuperação judicial e falência: por uma interpretação funcional

in Portal Migalhas, 03/08/2015. Acesso realizado em 07/04/2020).

22) De igual modo, ensina José Miguel Garcia Medina:

Além das hipóteses referidas no parágrafo único do art. 1.015 do CPC/2015, algo parecido poderá ocorrer, p. ex., em se tratando de decisões interlocutórias proferidas no curso de procedimento de recuperação judicial previstos na Lei 11.101/2005, nos casos em que a mencionada lei não tiver previsto o cabimento de agravo. É o que pode se dar, p. ex., com a decisão que defere o processamento da recuperação, prevista no art. 52 da referida Lei (que não se confunde com a

decisão que concede a recuperação, que, de acordo com o § 2º do art. 59 da Lei 11.101/2005, é agravável, inserindo-se no que dispõe o art. 1.015, XIII, do CPC/2015), dentre tantas outras decisões que podem ser proferidas, no curso de tal procedimento. No caso da decisão que defere o processamento da recuperação, caso se imponha que a parte prejudicada impugne a decisão interlocutória apenas quando surgir, no processo, sentença apelável, isso ocorrerá, ordinariamente, quando do encerramento do procedimento da recuperação judicial (art. 63 da Lei 11.101/2005), momento processual em que, praticamente, o processo já terá se exaurido. Essa hipótese, segundo nosso modo de pensar, é abrangida, analogicamente, pela prevista no parágrafo único do art. 1.015 do CPC/2015, pois, também naquele caso, incompatibilidade do procedimento com o regime de impugnação às interlocutórias apenas por apelação. Se, de um lado, a analogia e a interpretação extensiva não seriam admissíveis, nos termos da tese da “taxatividade mitigada” firmada pelo STJ, a hipótese acabaria se inserindo entre aquelas em que, de acordo com essa orientação, seria inútil aguardar-se a prolação de sentença apelável; logo, cabível o agravo de instrumento, por esse motivo. (MEDINA, José Miguel Garcia. Curso de direito processual civil moderno [livro eletrônico]. 5ª ed. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2020. p. 7-40).

23) Como se depreende da lição acima reproduzida, a regra do art.

1.015, parágrafo único, CPC/15, igualmente possui a sua razão de ser no fato de

que será absolutamente inútil a rediscussão futura da questão incidente, seja

porque, em algumas hipóteses, sequer haverá apelação, seja porque, quando

sobrevier a apelação, a questão incidente objeto de decisão interlocutória não

(24)

Superior Tribunal de Justiça

recorrida de imediato já terá sido efetivamente implementada e exaurida,

tratando-se, inclusive, da mesma ratio decidendi que levou a Corte Especial do

Superior Tribunal de Justiça a fixar a tese jurídica da taxatividade mitigada (tema

repetitivo 998).

24) Anote-se, por derradeiro, que o cabimento do agravo de

instrumento contra todas as decisões interlocutórias proferidas em

processos recuperacionais e falimentares já foi objeto de enfrentamento

desta Corte, ocasião em que foi adotada a mesma tese jurídica que se propõe

seja fixada no presente recurso especial repetitivo:

RECURSO ESPECIAL. RECUPERAÇÃO JUDICIAL. SISTEMA RECURSAL. DECISÃO INTERLOCUTÓRIA. HONORÁRIOS DO ADMINISTRADOR JUDICIAL E RENOVAÇÃO BENEFÍCIO PRODEIC. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CABIMENTO. ART. 1.015, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPC/15. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA. POSSIBILIDADE.

1. O Código de Processo Civil, na qualidade de lei geral, é, ainda que de forma subsidiária, a norma a espelhar o processo e o procedimento no direito pátrio, sendo normativo suplementar aos demais institutos do ordenamento. O novel diploma, aliás, é categórico em afirmar que "permanecem em vigor as disposições especiais dos procedimentos regulados em outras leis, às quais se aplicará supletivamente este Código" (art. 1.046, § 2°).

2. A Lei de Recuperação e Falência previu sistema recursal próprio, prevendo, para diversas situações específicas, o recurso adequado a desafiar o correspondente ato judicial. Estabeleceu, ainda, em seu art. 189, que, "no que couber", haverá aplicação supletiva da lei adjetiva geral.

3. Com relação aos recursos, por sua característica estritamente processual, assim como pela ausência de vedação específica na Lei n° 11.101/2005, deve incidir o novo diploma processual, seja para suprimento, seja para complementação e disciplinamento de lacunas e omissões, desde que, por óbvio, não conflite com a lei especial. Deveras, verifica-se que a lei especial não se ocupou de situações que, por sua natureza e relevância, devam ser passíveis de contradita por meio de recurso.

4. O rol taxativo do art. 1.015 do CPC/2015 não afasta a incidência das hipóteses previstas na LREF, pois o próprio inciso XIII estabelece o cabimento do agravo de instrumento nos "outros casos expressamente referidos em lei". Havendo disposição expressa da Lei de Recuperação de Empresas e Falência, essa prevalecerá sobre o numerus clausus do dispositivo do CPC, de modo que a aplicação desse Código será apenas para suprimento de lacunas e omissões. Por outro lado, se o provimento judicial, no âmbito

(25)

Superior Tribunal de Justiça

falimentar/recuperacional, enquadrar-se em uma das hipóteses do rol do diploma processual, será também possível o manejo do agravo de instrumento.

5. Nas decisões interlocutórias sem previsão específica de recurso, incidirá o parágrafo único do art. 1.015 do CPC/2015, justamente porque, em razão das características próprias do processo falimentar e recuperacional, haverá tipificação com a ratio do dispositivo - falta de interesse/utilidade de revisão da decisão apenas no momento do julgamento da apelação -, permitindo a impugnação imediata dos provimentos judiciais.

6. Assim como se dá nos procedimentos previstos no parágrafo único do art. 1.015 do CPC/2015, as decisões de maior relevância na recuperação judicial e na falência são tomadas antes da sentença propriamente dita, que, via de regra, se limita a reconhecer fatos e atos processuais firmados anteriormente. Consequentemente, aguardar a análise pelo Tribunal, apenas em sede de apelação, equivaleria à irrecorribilidade prática da interlocutória, devendo incidir a interpretação extensiva do dispositivo em comento.

7. Além disso, a natureza também processual (de execução coletiva e negocial) da LREF justifica a interpretação do parágrafo único do art. 1.015 no CPC (ou dos incisos do caput do art. 1.015) no sentido de estender a interposição do recurso de agravo de instrumento às decisões que envolvam matérias dos regimes falimentar e recuperatório.

8. Na hipótese, o magistrado de piso indeferiu os pleitos das recuperandas quanto à renovação do benefício fiscal (PRODEIC) e determinou que elas efetuassem o imediato depósito de 40% dos honorários do administrador judicial, sob pena de convolação da recuperação em falência. Portanto, tal decisão desafia o recurso de agravo de instrumento, na forma do artigo 203, §2°, do CPC.

9. Recurso especial provido. (REsp 1.722.866/MT, 4ª Turma, DJe 19/20/2018).

(...)

RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. EMPRESARIAL. LEI DE RECUPERAÇÃO JUDICIAL E FALÊNCIA. SISTEMA RECURSAL PRÓPRIO. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. APLICAÇÃO SUPLETIVA. DECISÕES INTERLOCUTÓRIAS. AGRAVO DE INSTRUMENTO. CABIMENTO.

1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 2015 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ).

2. Cinge-se a controvérsia a definir se é cabível a interposição de agravo de instrumento contra decisão proferida após a sentença de habilitação de crédito, para a qual a LREF não prevê recurso específico.

3. A Lei nº 11.101/2005 tem normas de direito material e processual, instituindo um regime recursal próprio. Esse regramento não é exaustivo, prevendo a lei a aplicação supletiva do Código de Processo Civil quando for cabível.

4. Nas hipóteses em que a lei especial apontar o recurso próprio, esse é o que deve ser utilizado, somente se cogitando da incidência das normas adjetivas se não houver previsão expressa do remédio aplicável.

5. As questões interlocutórias proferidas durante o processamento da recuperação judicial e da falência (e que não se enquadram

(26)

Superior Tribunal de Justiça

nos incisos do artigo 1.015 do CPC/2015) não terão oportunidade de revisão em eventual apelação, como prevê o art. 1.009, § 1º, do CPC/2015.

6. Na forma como a Lei de Recuperação de Empresas e Falência está estruturada, é necessário que as decisões interlocutórias sejam decididas desde logo. A recuperação judicial não é um processo em que há uma sucessão ordenada de atos que termina na sentença. A recuperação judicial busca coordenar o interesse dos credores e do devedor, a partir da realização de diversos atos paralelos, que ao final serão alinhados para possibilitar a votação do plano e sua eventual aprovação ou a decretação da quebra. As questões surgidas nas fases postulatória e deliberativa não podem aguardar a sentença de encerramento.

7. O legislador elencou outras situações em que, como no caso da recuperação judicial e falência, não será possível a revisão de questões interlocutórias em futura apelação, admitindo sua impugnação por agravo de instrumento, norma que deve ser aplicada por interpretação extensiva aos processos de recuperação e falência.

8. Recurso especial conhecido e provido. (REsp 1.786.524/SE, 3ª Turma, DJe 29/04/2019).

25) A conclusão, pois, apenas pode ser de que cabe agravo de

instrumento de todas as decisões interlocutórias proferidas no processo

de recuperação judicial e no processo de falência, por força do art. 1.015,

parágrafo único, CPC/15.

MODULAÇÃO DE EFEITOS. PROTEÇÃO À SEGURANÇA

JURÍDICA E À CONFIANÇA.

26) A fim de propiciar a necessária segurança jurídica e proteger as

partes que, confiando na irrecorribilidade das decisões interlocutórias fora das

hipóteses de cabimento previstas na Lei 11.101/2005, não interpuseram agravo de

instrumento com base no art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, faz-se necessário

estabelecer que decisões interlocutórias que não foram objeto de

recurso de agravo de instrumento poderão ser objeto de impugnação

pela parte em apelação ou em contrarrazões, como autoriza o art. 1.009, §1º,

(27)

Superior Tribunal de Justiça

CPC/15, nos processos em que efetivamente houver a previsão de cabimento do

recurso de apelação e se entender a parte que ainda será útil o enfrentamento da

questão incidente objeto da decisão interlocutória naquele momento processual.

27) De outro lado, também é necessário estabelecer que a

presente tese jurídica vinculante deverá ser aplicada: (i) a todas as

decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou

a tese; (ii) a todos os agravos de instrumento interpostos antes da fixação

da tese e que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao tempo da

publicação deste acórdão, excluindo-se, tão somente, os agravos de instrumento

que não foram conhecidos pelos Tribunais Estaduais ou Regionais Federais por

decisão judicial transitada em julgado.

RESOLUÇÃO DA HIPÓTESE EM EXAME.

28) Na hipótese, a decisão interlocutória proferida no processo de

recuperação judicial determinou à recorrente que devolvesse à Caixa Econômica

Federal, em 48 horas, o valor de R$ 942.388,53, sob pena de penhora online do

valor e multa de R$ 50.000,00 (fls. 42/45, e-STJ).

29) Interposto o agravo de instrumento pelo recorrente, entendeu o

TJ/MT por negar provimento ao agravo interno interposto em face da decisão

unipessoal que não conheceu do recurso de agravo de instrumento, ao

fundamento de que a hipótese em exame não se amoldaria a nenhum dos incisos

do art. 1.015 do CPC (acórdão recorrido de fls. 142/155, e-STJ).

30) Assim, considerando que a tese jurídica vinculante fixada neste

recurso especial repetitivo é de que cabe agravo de instrumento contra todas as

decisões interlocutórias proferidas nos processos de recuperação judicial e de

(28)

Superior Tribunal de Justiça

falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC/15, o provimento do

recurso especial é medida que se impõe, a fim de determinar ao TJ/MT que,

afastado o óbice do cabimento, conheça do agravo de instrumento, se preenchidos

os demais pressupostos de admissibilidade do recurso, e dê regular

prosseguimento ao agravo de instrumento interposto pelo recorrente.

CONCLUSÃO.

31) Forte nessas razões, CONHEÇO o recurso especial repetitivo, a

fim de:

(i) Fixar a seguinte tese jurídica: “É cabível agravo de instrumento

contra todas as decisões interlocutórias proferidas nos processos de recuperação

judicial e nos processos de falência, por força do art. 1.015, parágrafo único, CPC”.

(ii) Modular os efeitos da tese jurídica: “A tese jurídica se aplicará

às decisões interlocutórias proferidas após a publicação do acórdão que fixou a

tese e a todos os agravos de instrumento interpostos antes da fixação da tese e

que ainda se encontrem pendentes de julgamento ao tempo da publicação deste

acórdão, excluindo-se, tão somente, os agravos de instrumento que não foram

conhecidos pelos Tribunais Estaduais ou Regionais Federais por decisão judicial

transitada em julgado”.

(iii) Dar provimento ao recurso especial: “Para determinar ao

TJ/MT que, afastado o óbice do cabimento, conheça do agravo de instrumento, se

preenchidos os demais pressupostos de admissibilidade do recurso, e dê regular

(29)

Superior Tribunal de Justiça

(30)

Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO SEGUNDA SEÇÃO

Número Registro: 2018/0000155-6 PROCESSO ELETRÔNICO REsp 1.717.213 / MT

Números Origem: 10060289120178110000 877514

PAUTA: 10/06/2020 JULGADO: 10/06/2020

Relatora

Exma. Sra. Ministra NANCY ANDRIGHI

Ministro Impedido

Exmo. Sr. Ministro : ANTONIO CARLOS FERREIRA

Presidente da Sessão

Exma. Sra. Ministra MARIA ISABEL GALLOTTI Subprocurador-Geral da República

Exmo. Sr. Dr. SADY D´ASSUMPÇÃO TORRES FILHO Secretária

Bela. ANA ELISA DE ALMEIDA KIRJNER

AUTUAÇÃO

RECORRENTE : H PRINT REPROGRAFIA E AUTOMACAO DE ESCRITORIO LTDA

ADVOGADOS : EUCLIDES RIBEIRO S JUNIOR - MT005222

ALLISON GIULIANO FRANCO E SOUSA - MT015836 EDUARDO HENRIQUE VIEIRA BARROS - MS021019A

RECORRIDO : CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

ADVOGADOS : LEANDRO DA SILVA SOARES E OUTRO(S) - DF014499

FLÁVIO AUGUSTO DA COSTA RIBEIRO GARCIA - MT010114

INTERES. : INSTITUTO BRASILEIRO DE DIREITO PROCESSUAL - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : PAULO HENRIQUE DOS SANTOS LUCON E OUTRO(S) - SP103560

INTERES. : DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE"

ADVOGADO : ANTÔNIO CARLOS TORRES DE SIQUEIRA DE MAIA E PÁDUA -

DEFENSOR PÚBLICO

INTERES. : ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO - "AMICUS CURIAE"

PROCURADOR : AMANDA LINS BRITO FANECO AMORIM

ASSUNTO: DIREITO CIVIL - Empresas - Recuperação judicial e Falência - Concurso de Credores

CERTIDÃO

Certifico que a egrégia SEGUNDA SEÇÃO, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:

Julgamento retirado de pauta pela Sra. Presidente da Segunda Seção, por destaque do Sr. Ministro Luis Felipe Salomão, no uso da prerrogativa do parágrafo 3º do artigo 1º da Resolução STJ/GP nº 9/2020.

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Referências

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