UFPE – MA535 (INTRODU ¸ C ˜ AO ` A MATEM ´ ATICA II) – 2011.1 Introdu¸ c˜ ao ao espa¸ co euclidiano R
n, subespa¸ cos afins do R
ne seu uso em sistemas lineares – v. 1.0 – Prof. Fernando J. O. Souza Objetivos:
• Dar uma introdu¸c˜ao a alguns temas do estudo do espa¸co euclidiano R
n;
• Descrever parametriza¸c˜oes dos subespa¸cos afins do R
npara expressar conjuntos-solu¸c˜ao de sistemas de equa¸c˜oes lineares;
• Revisar sistemas de equa¸c˜oes lineares.
Na geometria anal´ıtica, representam-se no¸c˜oes geom´etricas algebricamente.
Ela assume uma correspondˆencia entre R e cada reta (o axioma de Cantor- Dedekind). Os resultados que valem para os objetos da geometria euclidiana tamb´em valem para os objetos correspondentes na geometria anal´ıtica (fa- lando tecnicamente, o teorema de Tarski diz que a geometria euclidiana ´e interpret´ avel na geometria anal´ıtica).
Pontos e distˆ ancia. No plano euclidiano R
2e no espa¸co euclidiano tridi- mensional R
3, pontos s˜ao representados pelos elementos de tais conjuntos, ou seja, por duplas (x, y) e triplas (x, y, z) de n´ umeros reais, respectivamente.
Analogamente, define-se um ponto no R
ncomo sendo um elemento do R
n, ou seja, uma n -upla de n´ umeros reais ( x
1, x
2, . . . , x
n) qualquer.
Para que o teorema de Pit´agoras valha ao n´ıvel alg´ebrico, define-se a dis- tˆ ancia euclidiana entre dois pontos ( x
1, x
2) e ( y
1, y
2) no R
2, ou ( x
1, x
2, x
3) e (y
1, y
2, y
3) no R
3, como sendo, respectivamente: p
(x
1− y
1)
2+ (x
2− y
2)
2e p
(x
1− y
1)
2+ (x
2− y
2)
2+ (x
3− y
3)
2. Estas defini¸c˜oes se generalizam do modo esperado para o R
n. A distˆ ancia euclidiana entre dois pontos (x
1, x
2, . . . , x
n) e (y
1, y
2, . . . , y
n) quaisquer do R
n´e definida como:
p (x
1− y
1)
2+ (x
2− y
2)
2+ · · · + (x
n− y
n)
2Tal distˆancia tamb´em ´e o comprimento do segmento cujas extremidades
s˜ao dadas por aqueles dois pontos.
Vetores no plano e no espa¸ co tridimensional. Primeiro, considerar-se-
˜ao vetores sob o ponto-de-vista da rela¸c˜ ao de equipolˆ encia : ` A exce¸c˜ao do vetor nulo, um vetor captura uma magnitude (uma intensidade, norma) ao longo de uma dire¸c˜ao e num dos dois sentidos desta. O vetor nulo − →
0 representa a magnitude nula e n˜ao tem dire¸c˜ao. Segmentos orientados no R
2ou no R
3s˜ao ditos equipolentes quando tˆem o mesmo comprimento, a mesma dire¸c˜ao e o mesmo sentido. Os segmentos que consistem de um ´ unico ponto cada s˜ao considerados equipolentes uns aos outros (eles representam o vetor nulo).
Segmentos orientados s˜ao ditos representar um mesmo vetor precisamente quando s˜ao equipolentes. O vetor representado pelo segmento orientado com extremidades inicial e final dadas por A e B, respectivamente, ´e deno- tado por −→
AB. Assim, a no¸c˜ao de vetor acima n˜ao inclui ponto de aplica¸c˜ao (este seria a extremidade inicial de algum segmento orientado, o qual ´e ape- nas um dentre os infinitos representantes do vetor correspondente). Al´em disto, a norma
− → v
de um vetor − → v ´e, por defini¸c˜ao, o comprimento de qualquer segmento orientado que o represente.
Considerem-se pontos A = (a
x, a
y, a
z), B = (b
x, b
y, b
z), C = (c
x, c
y, c
z) e D = ( d
x, d
y, d
z) do R
3(o caso do R
2´e an´alogo, com duas coordenadas). Os segmentos orientados (A, B) e (C, D) representam o mesmo vetor (isto ´e,
−→ AB = −−→
CD) se, e somente se:
b
x− a
x= d
x− c
x, b
y− a
y= d
y− c
ye b
z− a
z= d
z− c
z.
Denotem-se estas trˆes quantidades por ∆x, ∆y e ∆z, respectivamente. ´ E f´acil ver que a norma e a dire¸c˜ao est˜ao determinadas por elas. J´a o sentido est´a capturado pelos sinais destas quantidades. Se se pensasse apenas nas raz˜oes, (por exemplo,
∆∆yx, se o denominador n˜ao ´e nulo), como no coeficiente angular do caso planar, ter-se-ia apenas a dire¸c˜ao pois, trocando-se ambos os sinais das quantidades, a raz˜ao n˜ao mudaria, mas o sentido do vetor mudaria.
Da´ı, dado qualquer vetor −→
AB (dado em termos de um segmento orientado AB que o representa), ele possui um e apenas um representante com extremi- dade inicial (ponto-de-aplica¸c˜ao) na origem O = (0 , 0 , 0), a saber, o segmento orientado OP onde P = (b
x−a
x, b
y−a
y, b
z−a
z). As coordenadas de P s˜ao di- tas coordenadas do vetor, e se denota −→
AB = −→
OP = ( b
x− a
x, b
y− a
y, b
z− a
z).
Literalmente, “vetor” significa “condutor” . Um ponto-de-vista tem vetores como condutores de pontos: −→
AB conduz o ponto A ao ponto B . Aplicando-
se um vetor a um ponto, obt´em-se um ponto pelo deslocamento, a partir daquele ponto (de aplica¸c˜ao), ao longo da dire¸c˜ao do vetor e no sentido dele por uma distˆancia igual `a norma daquele vetor. Isto ´e expresso atrav´es de:
A + −→
AB = B. Isto ´e consistente com as coordenadas dos pontos e do vetor no sentido de que as opera¸c˜oes podem ser feitas coordenada a coordenada !
(a
x, a
y, a
z) + (b
x− a
x, b
y− a
y, b
z− a
z) = (b
x, b
y, b
z) (1) Combina¸ c˜ oes lineares no plano e no espa¸ co tridimensional. A adi-
¸
c˜ ao de vetores − → u = (u
x, u
y, u
z) e − → v = (v
x, v
y, v
z) no R
3(o caso do plano
´e an´alogo) formaliza as id´eias f´ısica de superposi¸c˜ao e geom´etricas das regras do paralelogramo e do triˆangulo. A n´ıvel de coordenadas, ´e dada pela adi¸c˜ao coordenada a coordenada, ou seja, cada coordenada da soma ´e a soma das coordenadas hom´ologas (de mesma posi¸c˜ao) dos vetores:
−
→ u + − → v = (u
x+ v
x, u
y+ v
y, u
z+ v
z) (2) As equa¸c˜oes (1) e (2) lidam com objetos diferentes (a primeira, pontos e ve- tor; a segunda, apenas vetores). Equa¸c˜ao (1) pode tamb´em ser entendida `a luz da adi¸c˜ao de vetores por meio da correspondˆencia entre pontos e vetores que emanam da origem O = (0 , 0 , 0), exprimindo-se como: −→
OA + −→
AB = −−→
OB . A adi¸c˜ao de vetores ´e associativa e comutativa. O vetor nulo − →
0 ´e seu elemento neutro, e seu elemento inverso ´e −− → u = (− u
x, − u
y, − u
z), o vetor oposto de − → u = (u
x, u
y, u
z). Se − → u = −→
AB, ent˜ao −− → u = −→
BA, onde os segmen- tos orientados ( A, B ) e ( B, A ) tˆem sentidos opostos mas possuem o mesmo segmento (euclidiano) subjacente AB = BA.
A n´ıvel de geometria anal´ıtica, a multiplica¸ c˜ ao de um vetor − → u = (u
x, u
y, u
z) no R
3(o caso do plano ´e an´alogo) por um escalar r ∈ R ´e dada por: r − → u = (ru
x, ru
y, ru
z). As transforma¸c˜oes geom´etricas sobre − → u corres- pondentes `a multiplica¸c˜ao por escalar s˜ao bem conhecidas, e as duas primeiras podem vir combinadas com a terceira: dilata¸c˜ao (expans˜ao) quando |r| > 1;
contra¸c˜ao (redu¸c˜ao) quando 0 < |r| < 1; e invers˜ao de sentido quando r < 0.
Al´em disto, tem-se que 1 − → u = − → u , 0 − → u = − →
0 e −1 − → u = −− → u . Da´ı, a multi-
plica¸c˜ao de um vetor nˆao-nulo por todos os escalares n˜ao-nulos gera todos
os vetores n˜ao-nulos paralelos ao vetor dado. Se os escalares s˜ao positivos, o
sentido ´e preservado; se s˜ao negativos, ele ´e mudado.
Dada uma lista finita de vetores, − → v
1, . . . , − → v
k, uma combina¸ c˜ ao linear deles ´e o resultado do somat´orio de m´ ultiplos deles. Mais precisamente, r
1− → v
1+ · · · + r
k− → v
kpara alguma lista com o mesmo n´ umero k de escalares, r
1, . . . , r
k∈ R . Em particular, o vetor nulo ´e sempre uma combina¸c˜ao linear, tomando-se todos os escalares nulos.
Retas e planos no espa¸ co tridimensional. Combinando-se as id´eias por tr´as da Equa¸c˜ao (1) e das opera¸c˜oes com vetores acima, tem-se descri¸c˜oes param´etricas de retas no R
2, e de retas e planos no R
3(descrever-se-˜ao para este, pois retas parametrizadas no R
2s˜ao an´alogas `aquelas no R
3). Dados um ponto P
0= ( x
0, y
0, z
0) e um vetor n˜ao-nulo − → v = ( v
x, v
y, v
z), o conjunto dos pontos obtidos por condu¸c˜ao do ponto P
0pelos m´ ultiplos de − → v ´e a reta (afim) que passa por P
0com vetor diretor − → v , isto ´e, P (t) = P
0+ t − → v para algum t ∈ R . Cada ponto corresponde a uma escolha do parˆametro t na equa¸c˜ao abaixo:
(x(t), y (t), z(t)) = (x
0, y
0, z
0) + t(v
x, v
y, v
z)
Isto fornece trˆes equa¸c˜oes param´etricas: x ( t ) = x
0+ tv
x, etc. A palavra afim refere-se, neste contexto, ao fato de que se est´a gerando a reta a partir de um ponto P
0qualquer (e n˜ao necessariamente da origem, a qual pode pertencer
`a reta ou n˜ao).
Qualquer vetor n˜ao-nulo paralelo a − → v (isto ´e, qualquer m´ ultiplo n˜ao-nulo de − → v ) serve como vetor diretor para a mesma reta. Tamb´em qualquer ponto da reta pode ser usado como alternativa a P
0. Ambas estas modifica¸c˜oes podem alterar o valor do parˆametro para cada ponto da reta !
Ex.: Dados P
0= (1 , 2 , 3) e − → v = (2 , −6 , 4), os pontos da reta podem ser des- critos como P (t) = (1, 2, 3)+t(2, −6, 4). Por exemplo, P
1= P (1) = (3, −4, 7) e Q = P (−2) = (−3, 14, −5) pertencem `a reta, bem como P
0= P (0).
Tomando-se, agora, o ponto Q e o vetor diretor − → w = −
12− → v = (−1 , 3 , −2) para uma nova parametriza¸c˜ao R(s) = Q + s − → w da mesma reta, tem-se que:
Q = R(0), enquanto P
0= R(−4) e P
1= R(−6). Os pontos n˜ao mudam, mas seus valores do novo parˆametro s s˜ao diferentes daqueles de t .
Analogamente, dados um ponto P
0= (x
0, y
0, z
0) e dois vetores n˜ao-nulos
−
→ u = ( u
x, u
y, u
z) e − → v = ( v
x, v
y, v
z) que n˜ao s˜ao paralelos, o conjunto dos
pontos P (s, t) = P
0+ s − → u + t − → v obtidos de P
0pela a¸c˜ao das combina¸c˜oes
lineares de − → u e − → v ´e o plano (afim) que passa por P
0com vetores diretores
−
→ u e − → v .
Vetores no espa¸ co euclidiano R
n. Pode-se generalizar a no¸c˜ao de vetor do R
2e do R
3para o R
natrav´es de algumas abordagens compat´ıveis umas com as outras. Dados dois pontos A = (a
1, . . . , a
n) e B = (b
1, . . . , b
n), tome- se o vetor −→
AB, formalmente, como o conjunto de todos os pares ordenados (C, D) de pontos C = (c
1, . . . , c
n) e D = (d
1, . . . , d
n) tais que:
b
1− a
1= d
1− c
1, . . . , b
ı− a
ı= d
ı− c
ı, . . . , b
n− a
n= d
n− c
nDisto, −→
AB = −−→
CD, e as coordenadas do vetor s˜ao aquelas do ponto P que lhe fornece o representante (O, P ), onde O = (0, . . . , 0) ´e a origem:
−→ AB = −→
OP = ( b
1− a
1, . . . , b
n− a
n). Tamb´em se tem a a¸c˜ ao de vetores sobre pontos como na Equa¸c˜ao (1): A + −→
AB = B ou, a n´ıvel de coordenadas:
(a
1, . . . , a
n) + (b
1− a
1, . . . , b
n− a
n) = (b
1, . . . , b
n) (3) A adi¸ c˜ ao de vetores e a multiplica¸ c˜ ao de um vetor por um es- calar s˜ao generalizadas da maneira esperada:
−
→ u + − → v := (u
1+ v
1, . . . , u
n+ v
n) (4) r − → u := (ru
1, . . . , ru
n) (5) A adi¸c˜ao de vetores ´e associativa e comutativa , tendo o vetor nulo
−
→ 0 := (0, 0, . . . , 0) como elemento neutro, e o vetor −− → u := (−u
1, . . . , −u
n) (vetor oposto de − → u ) como elemento inverso de − → u para efeito de adi¸c˜ao.
Al´em disto, valem as seguintes propriedades (conforme o esperado) para todos os vetores − → u e − → v , e todos os escalares r, c ∈ R :
1 − → u = − → u ; 0 − → u = − →
0 ; (−1) − → u = −− → u ; (6)
r( − → u + − → v ) = r − → u + r − → v ); (7)
(r + c) − → u = r − → u + c − → u ; (8)
( rc ) − → u = r ( c − → u ) (9)
Combinando-se as id´eias embutidas nas equa¸c˜oes (3) e (4), podem-se gene-
ralizar dire¸c˜ao e sentido no R
2e no R
3, entendendo-se vetores n˜ao-nulos
como paralelos (isto ´e, com a mesma dire¸ c˜ ao) quando eles s˜ao m´ ultiplos
n˜ao-nulos uns dos outros. Quando s˜ao m´ ultiplos por escalares positivos, diz-se que eles tˆem o mesmo sentido. Quando s˜ao m´ ultiplos por escalares negativos, diz-se que eles tˆem sentidos opostos. Apesar do vetor nulo n˜ao ter dire¸c˜ao ou sentido, `as vezes ´e conveniente dizer que ele ´e paralelo a todos os vetores, considerando-se que ele ´e m´ ultiplo de todos eles.
Dados k vetores − → v
1, . . . , − → v
kdo R
n(k ∈ Z ; k > 0), uma combina¸ c˜ ao linear (C.L.) deles ´e o resultado do somat´orio de m´ ultiplos
c
1− → v
1+ c
2− → v
2· · · + c
k− v →
kpara alguma escolha de escalares c
1, . . . , c
k∈ R . Ex.: Tomando-se os coefici- entes todos iguais a zero, tem-se o vetor nulo como C.L. de quaisquer vetores.
Ali´as, considera-se tamb´em o vetor nulo como a ´ unica C.L. obtida de uma lista vazia de vetores (ou seja, k = 0).
Dado um conjunto S de vetores do R
n, diz-se que ele ´e linearmente independente (L.I.) quando cada vetor de S n˜ao pode ser expresso como uma C.L. de alguns dos outros vetores de S. Caso contr´ario, diz-se que S
´e linearmente dependente (L.D.). Tamb´em se diz que os vetores de S s˜ao linearmente independentes ou linearmente dependentes, conforme o caso.
Intuitivamente, independˆencia linear abstrai a id´eia de dire¸c˜oes independen- tes. Em particular: um conjunto que cont´em dois ou mais vetores paralelos
´e, necessariamente, L.D.; todo conjunto que cont´em − →
0 ´e L.D.
Em cursos futuros, discutir-se-˜ao caracteriza¸c˜oes alternativas de L.I. e L.D. Uma delas diz que um vetores s˜ao L.I. se e somente se todo vetor gera- do por eles (como C.L. deles) possui coeficientes ´ unicos (neste caso, tais coeficientes s˜ao denominados coordenadas daquele vetor gerado com rela¸c˜ao
`aqueles vetores L.I. fixados). Outra caracteriza¸c˜ao fornece um crit´erio alg´e- brico muito pr´atico: vetores s˜ao L.I. se e somente se o vetor nulo ´e gerado (como C.L. deles) de forma ´ unica, a saber, todos os coeficientes s˜ao nulos
1.
Um conjunto de vetores L.I. no R
ntem, no m´aximo, n vetores. Quaisquer n vetores L.I. no R
ngeram todos os vetores do R
n(por C.L.).
1
Claro, o vetor nulo sempre ´ e gerado desta forma, sejam os vetores L.I. ou L.D.:
−
→ 0 = 0 − → v
1+ 0 − v →
2+ · · · + 0 − v →
k. Assim, o que o crit´ erio diz ´ e: os vetores − v →
1, . . . , − v →
ks˜ ao L.D.
se e somente se o vetor nulo possui mais de um modo de ser escrito como C.L. deles.
Naturalmente, a norma euclidiana ´e definida como:
− → u
:= p
u
12+ u
22+ · · · + u
n2(10) Ela goza das propriedades estudadas para os casos da reta, do plano e do espa¸co euclidiano tridimensional.
O restante deste verbete ´e opcional e introduzido apenas para a comple- tude deste texto. O produto escalar de vetores em R , R
2e R
3tem diversos an´alogos importantes para espa¸cos vetoriais (abstratos), os quais s˜ao denomi- nados produtos internos e denotados por − → u , − → v
. A generaliza¸c˜ao mais natu- ral no R
n´e imediatamente an´aloga ao produto escalar em dimens˜ao at´e 3, e
´e denominada produto interno euclidiano:
− → u , − → v
:= u
1v
1+ u
2v
2+ . . . + u
nv
nEsta opera¸c˜ao goza daquelas propriedades estudadas para o produto esca- lar (simetria, bilinearidade, rela¸c˜oes com a norma, desigualdade de Cauchy- Bunyakowsky-Schwarz, etc.) e permite definir uma no¸c˜ao de ˆ angulo θ entre vetores − → u e − → v n˜ao-nulos:
θ := arccos
− → u , − → v
− → u
− → v
Como antes, − → u e − → v s˜ao ditos ortogonais (isto ´e, suas dire¸c˜oes s˜ao ortogonais) quando θ =
π2, isto ´e, quando − → u , − → v
= 0. Apesar do vetor nulo n˜ao ter dire¸c˜ao ou sentido, ´e conveniente dizer que ele ´e ortogonal a todos os vetores, considerando-se que seu produto interno com eles ´e nulo.
Subespa¸ cos vetoriais e afins do R
n. Dado um conjunto S de vetores do
R
n, o conjunto de todas as combina¸c˜oes lineares de qualquer n´ umero finito
de vetores pertencentes a S ´e chamado o subespa¸ co vetorial do R
ngera-
do por S. Claro, tais C.L. podem ter muitas redundˆancias. Por exemplo,
tomando-se S = R
n, n˜ao se criam vetores fora de S por C.L. Mesmo se se
toma S consistindo de dois vetores n˜ao-nulos paralelos, todas as suas C.L.s
formam, precisamente, os vetores paralelos a eles, ou seja, o subespa¸co gera-
do por eles dois consiste dos vetores ao longo da reta que passa pela origem
e tem qualquer um deles como vetor diretor. Assim, h´a um interesse em
se descreverem subespa¸cos vetoriais de forma concisa, ou seja, pelo m´ınimo
de vetores geradores necess´arios. Esta ´e a id´eia de base de um (sub)espa¸co vetorial, a qual ser´a estudada em cursos futuros. Pelo momento, lidar-se-
´a com uma situa¸c˜ao bem particular, a qual aparece, sistematicamente, nos conjuntos-solu¸c˜ao de sistemas de equa¸c˜oes lineares, a saber, k vetores do R
ncom k posi¸c˜oes de coordenadas distinguidas, sendo que k − 1 destas coorde- nadas s˜ao nulas, enquanto apenas uma delas ´e igual a 1 e aparece em posi¸c˜oes diferentes para vetores diferentes. Por exemplo, considerem-se os seguintes vetores no R
9, para os quais a 2
a, 6
a, 8
ae 9
acoordenadas est˜ao em negrito:
−
→ v
1= (3, 1, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0)
−
→ v
2= (1 , 0, −4 , 4 , −1 , 1, 0 , 0, 0 )
−
→ v
3= (0 , 0, −1 , 3 , −2 , 0, 4 , 1, 0 )
−
→ v
4= (1 , 0, 2 , −2 , −4 , 0, 2 , 0, 1)
Estes vetores s˜ao L.I.! De fato, veja-se, por exemplo, − → v
1: Todas as C.L.
c
2− → v
2+ c
3− → v
3+ c
4− → v
4dos trˆes outros vetores tˆem 2
acoordenada igual a
c
20 + c
30 + c
40 = 0, que ´e diferente do 1 na 2
acoordenada de − → v
1. Logo, ne- nhuma daquelas C.L.s pode ser igual a − → v
1. De maneira an´aloga, tem-se que cada um dos vetores − → v
2, − → v
3e − → v
4´e independente dos outros trˆes e, portanto, os quatro vetores s˜ao L.I. Diz-se que o subespa¸co vetorial do R
ngerado por eles tem dimens˜ ao 4.
Como aplica¸c˜ao, suponha-se que se obteve o conjunto-solu¸c˜ao de um sis- tema de equa¸c˜oes lineares a 9 inc´ognitas em termos das equa¸ c˜ oes param´ e- tricas abaixo, onde s, s
′, t e t
′s˜ao parˆ ametros, podendo assumir quaisquer valores reais (cada escolha de valores para os quatro corresponde a uma so- lu¸c˜ao). Eles correspondem `as inc´ognitas x
2, x
6, x
8e x
9, respectivamente:
x
1( s, s
′, t, t
′) = −1 + 3 s + s
′+ t
′x
2(s, s
′, t, t
′) = s
x
3(s, s
′, t, t
′) = 2 − 4s
′− t + 2t
′x
4( s, s
′, t, t
′) = −3 + 4 s
′+ 3 t − 2 t
′x
5( s, s
′, t, t
′) = 1 − s
′− 2 t − 4 t
′x
6(s, s
′, t, t
′) = s
′x
7( s, s
′, t, t
′) = −2 + 4 t + 2 t
′x
8( s, s
′, t, t
′) = t
x
9(s, s
′, t, t
′) = t
′Escrevendo-se estas equa¸c˜oes param´etricas como uma equa¸ c˜ ao vetorial para pontos no R
9:
( x
1, x
2, x
3, x
4, x
5, x
6, x
7, x
8, x
9) = (−1 + 3 s + s
′+ t
′, s,
2 − 4s
′− t + 2t
′, −3 + 4s
′+ 3t − 2t
′, 1 − s
′− 2t − 4t
′, s
′, −2 + 4t + 2t
′, t, t
′) Separando-se as contribui¸c˜oes de cada parˆametro (coordenada a coordenada):
(x
1, x
2, x
3, x
4, x
5, x
6, x
7, x
8, x
9) = (−1, 0, 2, −3, 1, 0, −2, 0, 0)+
+s(3, 1, 0, 0, 0, 0, 0, 0, 0) + s
′(1, 0, −4, 0, −1, 1, 0, 0, 0)+
+ t (0 , 0 , −1 , 3 , −2 , 0 , 4 , 1 , 0) + t
′(1 , 0 , 2 , −2 , −4 , 0 , 2 , 0 , 1) isto ´e:
( x
1, x
2, x
3, x
4, x
5, x
6, x
7, x
8, x
9) = P
0+ s − w →
1+ s
′− w →
2+ t − w →
3+ t
′− w →
4onde P
0= (−1, 0, 2, −3, 1, 0, −2, 0, 0) ´e um ponto do R
9, e facilmente se reconhecem os quatro vetores, que s˜ao L.I. Este tipo de descri¸c˜ao permite o reconhecimento do objeto geom´etrico correspondente ao conjunto-solu¸c˜ao atrav´es das id´eias por tr´as da Equa¸c˜ao (3), sendo o vetor, aqui, uma C.L. de quatro vetores. Neste caso, o conjunto-solu¸c˜ao ´e um subespa¸co afim do R
9com dimens˜ao 4 (essencialmente, uma c´opia do R
4), passando pelo ponto P
0com vetores diretores − w →
1, − w →
2, − w →
3e − w →
4.
Em geral, um subespa¸ co afim k −dimensional A do R
n´e o conjunto resultante da a¸c˜ao, sobre um ponto P
0, de todas as C.L.s de k vetores L.I.
do R
nfixados. Geometricamente, trocando-se os pap´eis de ponto e vetor (entre P
0e os vetores de V), pode-se ver o subespa¸co vetorial k −dimensional V gerado pelos k vetores como o conjunto das extremidades finais dos seg- mentos que emanam da origem O e representam aquelas C.L.s. Com esta interpreta¸c˜ao, tem-se que A ´e a transla¸c˜ ao de V pelo vetor −−→
OP
0. Assim, a
origem ´e “mudada” para P
0e, dali, aplicam-se os vetores de V, isto ´e, as
C.L.s dos k vetores fixados, produzindo-se os pontos de A. Em particular,
um subespa¸co afim de dimens˜ao 1 (respectivamente, 2) ´e uma reta (respecti-
vamente, um plano ) no R
n. Observe-se que, a origem pode ser um dos pontos
de A ou n˜ao. Ex.: Dados o ponto P
0= (−1, 3, 0) e os vetores − u →
1= (1, 0, 0)
e − u →
2= (0, 1, 0) no R
3, tem-se que a origem O = (0, 0, 0) ´e obtida como
O = P
0+ 1 − → u
1− 3 − → u
2. Noutro exemplo, substituindo-se P
0por Q
0= (0 , 0 , 1),
n˜ao ´e mais poss´ıvel obter a origem como Q
0+ c
1− → u
1+ c
2− → u
2. Em suma, o primeiro plano afim ´e incidente
2a O , mas o segundo n˜ao.
Sistemas de equa¸ c˜ oes lineares; matrizes associadas. Em geral, siste- mas de equa¸c˜oes lineares n˜ao s˜ao resolvidos por apelo `a geometria anal´ıtica, mas sim por meio de m´etodos alg´ebricos (embora estes incluam id´eias ve- toriais). Em algumas aplica¸c˜oes pr´aticas, costumam aparecer sistemas de dezenas ou centenas de equa¸c˜oes lineares a um n´ umero semelhante de inc´og- nitas. M´etodos mais elaborados e/ou espec´ıficos e suas implementa¸c˜oes com- putacionais aparecer˜ao em eventuais cursos de m´etodos num´ericos (c´alculo num´erico, an´alise num´erica) e otimiza¸c˜ao linear (programa¸c˜ao linear, pes- quisa operacional). As id´eias fundamentais desenvolvidas no presente curso permeiam aqueles m´etodos.
Um sistema de m equa¸c˜oes lineares a n inc´ognitas x
1, . . . , x
n´e da forma abaixo, onde os coeficientes reais a
ıe b
ıs˜ao constantes. Resolvˆe-lo significa achar seu conjunto-solu¸ c˜ ao, o conjunto de todas as n −uplas de vetores do (x
1, . . . , x
n) R
nque satisfazem todas as m equa¸c˜oes:
a
11x
1+ a
12x
2+ · · · + a
1nx
n= b
1a
21x
1+ a
22x
2+ · · · + a
2nx
n= b
2... ...
a
m1x
1+ a
m2x
2+ · · · + a
mnx
n= b
mEle pode ser descrito pela equa¸c˜ao matricial AX = b, onde A = [a
ı]
m×n(matriz dos coeficientes do sistema), X ´e a matriz-coluna de ordem n × 1 que representa as inc´ognitas, e b ´e a matriz-coluna de ordem m × 1 cujas entradas s˜ao as constantes b
ı. Para efeito de c´alculos, ´ muito importante a matriz ampliada do sistema, a qual estende A por uma (n + 1)− ´esima coluna igual a b e, para facilitar a visualiza¸c˜ao, separada das colunas originais de A por uma barra vertical:
a
11a
12· · · a
1nb
1a
21a
22· · · a
2nb
2... ... ... ...
a
m1a
m2· · · a
mnb
m
2
A n´ıvel de geometria anal´ıtica, O pertence ` aquele primeiro plano afim.
Opera¸ c˜ oes elementares. Dois sistemas s˜ao ditos equivalentes quando possuem o mesmo conjunto-solu¸c˜ao (Da defini¸c˜ao, ´e claro que o n´ umero de inc´ognitas n de dois sistemas equivalentes ´e o mesmo). As opera¸c˜oes elemen- tares sobre as linhas de um sistema s˜ao opera¸c˜oes revers´ıveis que resultam num sistema equivalente. Elas s˜ao de trˆes tipos:
• Permutar duas equa¸c˜oes do sistema;
• Substituir uma equa¸c˜ao do sistema por um m´ ultiplo n˜ao-nulo dela;
• A uma equa¸c˜ao do sistema, adicionar um m´ ultiplo n˜ao-nulo de outra equa¸c˜ao daquele sistema.
As opera¸c˜oes inversas s˜ao claras: A primeira ´e sua pr´opria inversa; a se- gunda tem por inversa uma do mesmo tipo, tomando-se o inverso do esca- lar (n˜ao-nulo) utilizado; e a terceira tem por inversa uma do mesmo tipo, adicionando-se, `a nova equa¸c˜ao, o m´ ultiplo oposto da linha cujo m´ ultiplo original a afetou. Dois sistemas s˜ao ditos linha-equivalentes quando um ´e obtido do outro pela aplica¸c˜ao de um n´ umero finito de opera¸c˜oes elementares.
A parte mais interessante ´e que estas opera¸c˜oes s˜ao suficientes para carac- terizar a equivalˆencia de sistemas de maneira construtiva: Dois sistemas de equa¸ c˜ oes lineares s˜ ao equivalentes (isto ´e, tˆem o mesmo conjunto- solu¸c˜ao) se e somente se eles s˜ ao linha-equivalentes.
Convenientemente, tais opera¸c˜oes podem ser aplicadas ´a matriz ampli- ada do sistema, escrevendo-se menos. Isto leva a uma defini¸c˜ao que tamb´em se aplica
3a muitos contextos diferentes daquele da resolu¸c˜ao de sistemas de equa¸c˜oes lineares, a saber, duas matrizes de mesma ordem (n˜ao neces- sariamente vistas como matrizes ampliadas de sistemas) s˜ao ditas linha- equivalentes quando uma pode ser obtida da outra pela aplica¸c˜ao de um n´ umero finito de opera¸c˜oes revers´ıveis dos tipos abaixo, como esperado:
3