AGRICULTURA
FAMILIAR ASSENTADA
E EDUCAÇÃO
MLKJIHGFEDCBA
(O O M E S T IC A G R IC U L T U R E A N O C IT IZ E N S H IP )
qponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
.d.
o:
aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
l e .
Cio
lio
m
-15.
RESUMO
~s.
ão
E s t e a r t i g o , c o n s t r u i d o a p a r t i r d o c o n t a t o c o m o m u n d o v i v i d o d e a l g u n s a s s e n t a d o s e a s s e n t a m e n -t o s d o C e a r á , c o n s t a t a a r e l a ç ã o i n s t r u m e n t a l e u t i l i t a r i s t a d e a s s e s s o r e s e l i d e r a n ç a s , p r o p o n d o a l -g u m a s d i r e t r i z e s p e d a g ó g i c a s v o l t a d a s p a r a a a ç ã o c i d a d ã eo d e s e n v o l v i m e n t o .
10r ) l
-s-
DCBA
P a l a v r a s - c h a v e : A g r i c u l t u r a f a m i l i a r , c i d a d a n i a ,a s s e n t a m e n t o , c a p a c i t a ç ã o e d e s e n v o l v i m e n t o .
lo:
ra.
ABSTRACT
o T h i s a r t i c l e , e l a b o r a t e d t h r o u g h c o n t a c t s w i t h t h e r e a l i t i e s o f s o m e p e a s a n t h a m l e t s , v e r i fi e d a n i n s -t r u m e n -t a l a n d u t i l i t a r i a n r e l a t i o n s h i p b e t w e e n c o n s u l t a n t s a n d l e a d e r s . l t s u g g e s t s s o m e p e d a g o g i c p r i n c i p i e s o r i e n t e d t o w a r d s c i t i z e n s h i p a t t a i n m e n t a n d
d e v e l o p m e n t .
K e y w o r d s : D o m e s t i c a g r i c u l t u r e , c i t i z e n s h i p ,
p e a s a n t h a m l e t s , t r a i n i n g a n d d e v e l o p m e n t .
o
ASSENTAMENTO COMO INSTRUMENTO
DO MERCADO
Já se tornou lugar-com um , nos docum entos de
instituições governam entais e até m esm o em alguns
docum entos produzidos por representações dos tra-balhadores e escritórios de elaboração de projetos, a
concepção de que o assentam ento rural é um a
unida-de jurídica, política e econôm ica, ou seja, um a área
de terra lim itada (espaço físico-geográfico) que com
-porta um a unidade produtiva organizada sob o com
an-ILicenciado em Filosofia e M estre em Sociologia, professor substituto do Departam ento de Ciências Sociais e Filosofia da UFC.
coordenador do Ethos-XXI e autor deD o L i b e r a l i s m o a o N e o l i b e r a l i s m o , EDIPUCRS. 1998
URIBAM XA VIERI
do dos assentados. Esta concepção se fundam enta no
ideal de reform a agrária que faz a sinergia entre
polí-tica agrária e polípolí-tica agrícola. A polípolí-tica agrária com
o objetivo de prom over o acesso àterra desobstruindo
o longo processo de concentração de terras no país. A política agrícola com o instrum ento de viabilização das
condições objetivas de produção e desenvolvim ento rural, seu objetivo m aiúsculo é a inclusão dos
traba-lhadores rurais com o produtores no processo de
orga-nização econôm ica do país.
Acredita-se que os assentam entos, enquanto
unidades produtivas, são potencialm ente capazes de
evoluír para unidades em presariais, ou seja, são
capa-zes de se integrar ao m ercado na condição de consu-m idores e produtores. Para atingirem tal finalidade
devem ser apoiados por um a ação articulada entre
capacitação e assistência técnica. A diretriz geral da
capacitação, entre outras, é:
T o d o e s fo r ç o d e c a p a c i t a ç ã o d e t é c n i c o s e p r o d u t o r e s e s t a r á v o l t a d o p a r a i d e n t i fi c a r e e s t i -m u l a r -m e c a n i s -m o s d e g e r a ç ã o d e r e n d a e m e l h o r a r a s c o n d i ç õ e s d e b e m e s t a r d a s fa -m í l i a s a s s e n t a d a s(INeRA, 1996)
E o objetivo geral da assistência técnica, entre
outros, é "contribuir àobtenção de altos níveis de
de-sem penho técnico no desenvolvim ento dos em
preen-dim entos financiados com recursos do FXE· · . (BXB.
1994: 138).
Para o raciocínio lógico-form al ou cartesiano,
com o qual nos acostum am os a pensar no cotidiano,
tudo está coerente: os assentados conquistaram a
ter-ra, aos poucos vão conquistando créditos e
equipa-m entos agrícolas, faltaequipa-m agora novos conheciequipa-m entos
e tecnologias, ou seja, falta assistência técnica e
capacitação. O raciocínio conclusivo é fácil, com o na
lógica m atem ática, som ando tudo isso, o resultado
fi-nal é o desenvolvim ento e a prosperidade. M as as
coi-sas são assim na realidade? Aqui o discurso m orde o
rabo e não fica prenha. Já dizia o velho Heráclito que
não tom am os banho duas vezes no m esm o rio, e, o
que vem os form alm ente com o verdade é e não é ao
m esm o tem po, daí as interrogações: será que a visão
tecnicista em pregada nas form ulações dos projetos e
program as de assistência técnica e capacitação são
suficientes para prom over o desenvolvim ento e a
pros-peridade? Por que será que depois de tanto
investi-m ento finvesti-m anceiro, técnico e einvesti-m capacitação, einvesti-m alguns
assentam entos no Ceará, os resultados são
insatisfatórios ou até m esm o negativos?
M inha desconfiança é que parte da resposta a
essas questões se encontra na análise da postura
ins-trum ental e utilitarista adotada por lideranças,
técni-cos e instituições junto aos assentados.
aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
C o m u m e n t e , a a t e n ç ã o d o s a s s e s s o r e s , d a s i n s t i t u i ç õ e s ed o s p r o g r a m a s e s t á v o l t a d a a p e -n a s p a r a a s s e g u r a r q u e s u a s p r o p o s i ç õ e s t é c -n i c a s s e j a m a c e i t a s , a p r e n d i d a s ea p l i c a d a s . E s t a a t i t u d e é t ã o d i s s e m i n a d a q u e é p o s s í v e l a fi r m a r q u e n i n g u é m
MLKJIHGFEDCBA
s e l e m b r a d e p e r g u n t a r s o b r e c o m o o i m p a c t o , a a c e i t a ç ã o e a v i a b i -l i d a d e d a s m u d a n ç a s d e c a r á t e r t é c n i c o p o l í -t i c o e n g l o b a m t r a n s fo r m a ç õ e s n o c a m p o d o s v a l o r e s e a t i t u d e s e d a s c o n c e p ç õ e s d o s t r a -b a l h a d o r e s .É
c o m o s en e s t e , a o c o n t r á r i o d o s d e m a i s , h o u v e s s e a p e n a s o v a z i o . O u e x i s t i n -d o a l g u m a c o i s a , p u d e s s e e l a s e r s i m p l e s m e n -t e s u b s -t i -t u í d a p o r o u -t r a , m e l h o r , m a i s m o d e r n a . Éc o m o s e n ã o h o u v e s s e n e n h u m a r e l a ç ã o e n t r e t é c -n i c a s , m á q u i -n a s , p r o c e s s o s , i m a g i n a ç ã o e s í m b o
-l o s .(Araújo,1995:9)
o
resultado dessa postura técnica é que os as-sentados se integram no m ercado apenas com ocon-sum idores, os recursos do PROCERAIFNE acabam
servindo m uito m ais para dinam izar o m ercado das
indústrias, de insum os, m áquinas e equipam entos, ou
seja, o assentado m oderniza o seu consum o de
recur-sos técnicos m as continua condenado a um a condição
de vida baseada na agricultura de sobrevivência.
E o m ais grave, ainda, num docum ento de dezem
-bro/97, elaborado durante a "Oficina sobre Elaboração e
Análise do Procera", tendo com o participantes técnicos
do INCRA, Banco do Nordeste e do acordo INCRA!
PNUD, foi identificado pelos representantes dos
Esta-dos (CE, BA, SP, M S, PA, RN) os seguintes pontos
crí-ticos na elaboração dos projetos do PROCERA:
1 - Os i n v e s t i m e n t o s n ã o s ã o o r i e n t a d o s p e l o m e r c a d o ; 2 - Os t é c n i c o s n ã o e s t ã o c a p a c i t a -d o s p a r a e l a b o r a r o s p r o j e t o s ; 3 -F a l t a d e p r o -fi s s i o n a i s p a r a a s a t i v i d a d e s d e e l a b o r a ç ã o e
a n á l i s e d e p r o j e t o s ; 4 -A c o m i s s ã o e s t a d u a l d o P r o c e r a n ã o e s t á c a p a c i t a d a p a r a a n a l i s a r p r o -j e t o s c o m d i fe r e n t e s c a r a c t e r í s t i c a s ; 5 -N o p l a -n e j a m e -n t o d a s a t i v i d a d e s fi n a n c i a d a s , d e v e - s e
a v a l i a r , a l o n g o p r a z o , a s p o s s i b i l i d a d e s d e m e l h o r i a d a s c o n d i ç õ e s d e v i d a ; 6 -F a l t a d e r e fe r ê n c i a d o m a r c o z e r o ed e o n d e s eq u e r c h e -g a r ; 7 -N e c e s s i d a d e d e e s t a b e l e c i m e n t o d e p a r c e r i a , p a r a v i a b i l i z a r a e l a b o r a ç ã o ea n á l i -s e ; 8 -R e d u z i d a c a p a c i d a d e o p e r a c i o n a l d o I N C R A , d o B a n c o , ed a s e m p r e s a s c o n t r a t a d a s p a r a e l a b o r a ç ã o ea n á l i s e d e p r o j e t o s ; 9 -F a l
-t a d e d i a g n ó s -t i c o p a r a r e s p a l d a r o s i n v e s t i m e n
-t o s ; 1 0 - N ã o c o n t e m p l a m v i a b i l i d a d e fi n a n c e i r a ; 1 1 - F a l t a d e u m r o t e i r o p a r a o r i e n
-t a r a e l a b o r a ç ã o ; 12 -A s p r o p o s t a s d e i n v e s t i -m e n t o s s ã o , m u i t a s v e z e s , i m p o r t u n a s e d e s n e c e s s á r i a s ( o p r o d u t o r , à s v e z e s , j á d i s p õ e d o s e q u i p a m e n t o s q u e e s t ã o s e n d o fi n a n c i a d o s ) ; 13 - Op r o j e t o n ã o r e fl e t e a s c o n d i ç õ e s r e a i s
d o s a s s e n t a m e n t o s ; 14 -N ã o h á u m l e v a n t a -m e n t o d o s i n v e s t i -m e n t o s p r é - e x i s t e n t e s ; 15 - Os i n d i c a d o r e s d e p r o d u t i v i d a d e s ã o s u p e r e s t i m a -d o s : fi n a n c i a m e n t o d e e q u i p a m e n t o s s o fi s t i c a -d o s , s e m r e c u r s o s h u m a n o s c a p a c i t a d o s p a r a o p e r a r ; 16 - Osp r o j e t o s , d e m o d o g e r a l , n ã o a p r e s e n t a m c r o n o g r a m a d e i n v e r s õ e s ; 17 -E q u i -p a m e n t o s s u p e r - d i m e n s i o n a d o s ; 18 - Osi n v e s -t i m e n -t o s p a r a p e c u á r i a n ã o c o n t e m p l a a c r i a ç ã o d e r e s e r v a e s t r a t é g i c a ; 1 9 - F a l t a i n fo r m a ç ã o
s o b r e o P R O C E R A ; 2 0 - Os i n v e s t i m e n t o s d e -v e m s e r r e a l i z a d o s e m 2e3a n o s , n ã o a t i n g i n -d o o t e t o m á x i m o n o 10
a n o ; 21 -A s p r o p o s t a s fo r m u l a d a s s ã o i n c o e r e n t e s c o m a e c o n o m i a d o
m u n i c í p i o e d o e s t a d o .
ALGO FORA DO LUGAR
Fazendo um a visita a qualquer assentam ento do
Ceará que recebeu investim entos para aplicar em
equi-pam entos e infra-estrutura produtiva, podem os obser-var o uso inadequado de tratores, m áquinas e
cam inhões; abandono de equipam entos e peças em
local não apropriado; desperdício de produção
exce-dente; pagam ento de m ercadoria antes de receber e
conferir; com pra de m ercadoria sem nota fiscal. Será
que estes com portam entos se justificam som ente pela
falta de assistência técnica, capacitação e pelo baixo
nível de escolaridade que persiste no m eio rural?
A idéia de transform ar os assentam entos num a
unidade em presarial não é um a aspiração dos
assenta-dos do Ceará.
MLKJIHGFEDCBA
Éum desejo institucional com partilhado por alguns técnicos e dirigentes. A cultura vigente éum com portam ento sem am bição de m ercado, a
produ-ção de sobrevivência em áreas de sequeiro e a
produ-ção de culturas sem valor de m ercado m as de grande
valor de uso. Pois bem , se a idéia de transform ar os
assentam entos num a unidade em presarial é um a idéia
que se choca com a cultura sedim entada na
consciên-cia dos assentados, com o, na prática, se efetivam a
con-vivência e aceitação dela pelos m esm os?
aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
N e s t e c a s o , n ã o s e c o n s i d e r a m a s n e c e s s á r i a s
a l t e r a ç õ e s q u e a s i n o v a ç õ e s t é c n i c a s e x i g e m o u p r o v o c a m n o s p r o c e d i m e n t o s d e a s s o c i a -ç õ e s e d e g e r e n c i a m e n t o ; e m u i t o m e n o s n o d o m í n i o d e v a l o r e s e d o s c o m p o r t a m e n t o s i n -d i v i -d u a i s e c o l e t i v o . E s s a " a c e i t a ç ã o " , q u e s e d á a p e n a s a o n í v e l d o d i s c u r s o , e q u e c o r r e s p o n d e a p e n a s a u m c o m p o r t a m e n t o d e s u b m i s s ã o o u d e o p o r t u n i s m o , l o g o e s g o t a s u a s e s c a s s a s p o t e n c i a l i d a d e s p a r a d i n a m i z a r a s p o s s i b i l i d a d e s
d e d e s e n v o l v i m e n t o e d e o p e r a r a s t r a n s fo r m a -ç õ e s m a i s p r o fu n d a s . M u i t o s d o s c a s o s d e " a c e i -t a ç ã o " s e -t r a n s fo r m a m e m s u c e s s o s e fê m e r o s e v i r a m v i t r i n e s t e m p o r á r i a s ' p a r a o s v i s i t a n t e s i n c a u t o s o u c r é d u l o s . E q u a n d o o fr a c a s s o m o s -t r a s u a fa c e , a s e x p l i c a ç õ e s t a m b é m c o s t u m a m s e r p a r c i a i s e s u p e r fi c i a i s . S e m e s t a r e m a n c o r a -d a s e m a n á l i s e s s u fi c i e n t e m e n t e c r i t e r i o s a s , e l a s a p o n t a m p a r a j u s t i fi c a t i v a s a r b i t r á r i a s : fa t o r e s e s t r u t u r a i s fo r a d a c a p a c i d a d e i m e d i a t a d e i n fl u
-ê n c i a d o s t r a b a l h a d o r e s e t é c n i c o s ; o u o i m p r e v i s í v e l c o m p o r t a m e n t o d e a l g u m i n d i v í d u o . (Araújo,1995:11)
A form a tradicional de trabalho do assentado
não é vazia de saber. A agricultura praticada por eles
é precedida de um saber que m uitos cham am de
tra-dicional, costum e, crença. Todo processo produtivo
seja broca, destacam ento, queim ada, lim pa,
colhei-ta, conserto de cerca é conduzido por um
conheci-m ento em piricam ente acum ulado e atualizado.
Portanto, qualquer tentativa de alterar o processo
produtivo dos assentados não pode ser feita de
for-m a abrupta. Ufor-m conhecifor-m ento técnico não pode ser
transm itido de im ediato, desconhecendo o
conheci-m ento acuconheci-m ulado pelos assentados. A partir do m
o-m ento que houver por parte dos técnicos, elaboradores
de projetos e orientadores de projetos a devida
paci-ência histórica, pedagógica e técnica para
identifica-rem e com preenderem o saber sedim entado no
im aginário social dos assentados, estará se
abrin-do a possibilidade para acontecer várias sim bioses
entre saberes diferentes (da tradição, da técnica e
da inovação) na direção de um a m elhor
requalificação dos padrões produtivos e adm
inistra-tivos que possam conviver com as m utações de um a
econom ia em processo constante de globalização.
O êxito do desejo de transform ar os assenta-m entos eassenta-m unidade eassenta-m presarial passa pela com
pre-ensão do im aginário social sedim entado pelo m undo
vivido na agricultura de base fam iliar. O ato de
intro-duzir novas culturas, novos conhecim entos para
pro-dução, gestão e organização, m exe e se confronta com
esse im aginário social. É nele que a visão de m undo (suas crenças, desejos, sonhos, religiosidade,
concep-ção de qualidade de vida e riqueza, valores m orais,
sentidos da vida e da m orte) dos assentados é form u-lada. Essa dim ensão estruturada é tam bém
estrutu-rante, é a partir dela que eles orientam suas vidas,
incorporam , convivem , desprezam ou dem onstram m edo diante das novidades.
Ao m esm o tem po que é preciso acessar os
as-sentados ao processo de assistência técnica e capacitação, é preciso saber com o introduzir na sua
base cultural a necessidade do lucro com o objetivo a
ser alcançado, valorizar o desem penho pessoal e criar
um a base m ínim a de com petição produtiva para
tor-nar o m ercado um objetivo a ser alcançado. Sem
es-ses novos valores não terem os assentam entos com o
unidade em presarial produzindo para o m ercado.
Nes-se Nes-sentido, um a nova postura educativa se faz m ister.
EDUCAÇÃO PARA CIDADANIA COMO PARADIGMA DE AÇÃO
A educação para cidadania, com o paradigm a
de ação, deve ter com o objetivo m aior a transform
a-ção da unidade fam iliar assentada em sujeito capaz
de agir contra o processo de exclusão social a que
está subm etida. Para se transform ar em sujeito, os
assentados precisam se reconhecer, recriar e
rein-tegrar num processo que os tom em capazes de
to-2Exem plo de assentam ento no Ceará que virou vitrine tem porária foi o de Santana, no m unicípio de M onsenhor Tabosa e M aceió no
m ar iniciativas em defesa da coisa pública, assum ir
responsabilidades e criar soluções para seus proble-m as, tolerar e respeitar as diferenças. O conteúdo
dessa ação educativa deve contem plar a form a de
convivência sustentável da unidade fam iliar nas
con-dições am bientais do sem i-árido, o desenvolvim ento
com o relação entre o local e o global, a relação
públi-co e privado, a exclusão social e os direitos hum anos.
A educação para cidadania im plica num a
op-ção m etodológica que corresponda a um a determ
ina-da concepção de cultura e de sociabilidade entre a unidade fam iliar assentada. Ela deve ser um processo
interativo entre educação política e am biental, gênero
e saúde reprodutiva da m ulher rural, capacitação
téc-nica para produção e gestão. Deve oferecer
conheci-m entos que fundam entem e sistem atizem a prática
social, econôm ica, política e cultural dos assentados.
Deve, ainda, ser um espaço pedagógico baseado em
valores éticos que correspondam a form as inovadoras
de organização social e de convivência.
A OPÇÃO METODOLÓGICA
Com um ente as questões m etodológicas são
pen-sadas apenas no âm bito das técnicas que se devem
utilizar. No entanto, o problem a m etodológico está em
com o desenvolver todo um processo de conhecim
en-to capaz de perm itir a descoberta, a produção e repro-dução crítica da realidade. Para tanto, o m ais im portante
não é quantidade de inform ação transm itida, m as a
criação de oportunidades para se agir descobrindo e
produzindo conhecim ento que fortaleça a organização
política, econôm ica e cultural da unidade fam iliar e que
desperte um a consciência cidadã.
Na m etodologia não estão apenas os passos, os
m eios ou ferram entas necessárias a um a prática
edu-cacional, m as tam bém a estratégia global que perm ite
dotar de coerência interna, sentido e perspectiva o
tra-balho que se realiza. Nessa perspectiva, a construção
da cidadania vai se esboçando com o um agir em que
os assentados conduzem o processo de transform
a-ção do seu espaço local para o conjunto da sociedade.
Essa estratégia de desenvolvim ento passa
pedagogi-cam ente por duas dim ensões: a consciência que os
assentados vão adquirindo de si m esm os e a
consci-ência que vão adquirindo da realidade local e global.
Não basta para chegar à condição de cidadão
ter conhecim ento apenas de suas condições de vida.
Todo assentado tem consciência de suas dificuldades,
dos seus apertos, em bora nem sem pre conheça "os
porquês". Além do conhecim ento das condições de
vida, faz-se necessário um a ruptura com a form a de
representação sedim entada no seu ethos cultural ao
longo de sua existência. Esse rom pim ento só é possível
num processo de confronto do assentado com ele
m esm o (recriação de seus valores e da sua
auto-esti-m a) e do tensionaauto-esti-m ento dele com a sociedade
(con-fronto com as form as de exclusão social e
antidem ocráticas). Aqui, a relação dialética entre
pú-blico e privado, indivíduo e coletivo é fundam ental,
pois o objetivo da m etodologia é fazer com que os
assentados passem a ser condutores de um processo
de construção de um m odelo de desenvolvim ento
hum ano e sustentável, de relações dem ocráticas e
de ações cidadãs.
e
51
MLKJIHGFEDCBA
li:
E
n
u
d
AS DIRETRIZES PEDAGÓGICAS
nI ]
U
A educação para cidadania é um a ação que tem
intencional idade, por isso ela deve ter algum as
dire-trizes pedagógicas que perm itam atingir os seus obje-tivos. No processo de educação para cidadania algum as
diretrizes são im portantes para que sua efetivação seja
dem ocrática, saudável e eficaz na m udança de m en-talidade e com portam ento:
I!!- O conhecim ento é um a construção perm
a-nente. Ele se constrói sobre um a experiência vivida, pelo m odo de vida individual e coletivo. Um
proces-so de conhecim ento im plica na socialização do
co-nhecim ento já acum ulado, sua crítica, produção e
sistem atização de novos. A produção de conhecim
en-tos novos só se efetiva a partir da vida quotidiana. A
sua sistem atização, por sua vez, nos perm ite produzir
abstrações necessárias para superação dos lim ites do
contexto local projetando a necessidade de um a vida
m elhor e de um a sociedade futura. Na sim biose entre
o saber acum ulado pelos assentados e o saber técnico
já produzido, podem os encontrar a m ediação de com o
introduzir o m ercado com o objetivo a ser atingido pela
ação produtiva da m ão-de-obra fam iliar assentada.
2!!- O objetivo da educação para cidadania não
é apenas repassar inform ações, conhecim ento ou
instrum entalizar, m as perm itir a criação de um livre
espaço de ação onde os envolvidos no processo
pos-sam construir os seus próprios cam inhos, elaborar seus
projetos e articular soluções para seus problem as.
3!!- Na educação para cidadania, a participação,
por si m esm a não pode ser entendida com o m ero ato de estar presente em atividades ou de ser consultado,
m as com preendida com o um processo de liberdade onde
se pensa, estuda, identificam se problem as, descobrem
-se soluções e tom am --se decisões. Há m uitas decisões
s:
é1
o
e projetos sendo aprovados nos assentam entos que são verdadeiras arm adilhas, todavia são tidos com o
legítim os pelo fato de terem passado por um a reunião.
Ora, esse cam inho pode servir m uitas vezes, m uito
m ais, para m anipular e não para provar o seu caráter
dem ocrático.
42 - Na educação para cidadania, as idéias, os
conteúdos e as reflexões devem ser recebidos com
visão crítica, m esm o que venham de quem se confia.
Essa é a condição, pelo cam inho dialético, para
en-contrar de form a criativa as respostas para questões não resolvidas. O pensam ento crítico deve ser
investigativo, exploratório, analítico e não pode
per-der a dinâm ica das relações entre a ação local e o contexto global.
52 - O educador ou educadora deve ter
inte-resse e com prom isso com o desenvolvim ento
hu-m ano e sustentável da unidade fam iliar assentada.
Um com prom isso eficiente é aquele que se expres-sa na com petência profissional. Do ponto de vista
ético, tal com prom isso exige a reciclagem
profissi-onal constante, a atualização e o respeito ao
pro-cesso de aprendizado e cam inhada do assentado e
do assentam ento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO, José Edvar Costa de.
aZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
V a l o r e s e a t i t u d e sd o s a s s e n t a d o s r u r a i s n o c o n t e x t o d a s m u d a n ç a s n e c e s s á r i a s e m s e u s s i s t e m a s p r o d u t i v o s e o r g a n i z a t i v o s . Fortaleza, 1995. (M im eografado). BNB. F u n d o c o n s t i t u c i o n a l d e a ç ã o d o B a n c o d o
N o r d e s t e d o B r a s i l e m a p o i o a o p e q u e n o p r o -d u t o r n o r d e s t i n o . Fortaleza, ago11996.
. F u n d o C o n s t i t u c i o n a l d e F i n a n c i a m e n t o d o N o r d e s t e - p r o p o s t a d e a p l i c a ç ã o . E x e r c í c i o d e 1995. Fortaleza, out/1994.
FREIRE, Gilberto. C a s a G r a n d e e s e n z a l a : form a-ção da fam ília brasileira sob o regim e da econom ia
patriarcal. 22. ed. Rio de Janeiro: Liv. José Olím pio
Ed., 1983.
INCRA - D i r e t r i z e s e s t r a t é g i c a s d e c a p a c i t a ç ã o . Brasília, ago/1996.
W OORTM ANN, K. e W OORTM ANN, E. F. O t r a
-b a l h o d a t e r r a : a lógica e a sim bólica da lavoura cam ponesa. Brasília: UNB, 1997.
XA VIER, Uribam . S e r á q u e o a s s e n t a m e n t o é o c a
-v a l o d e T r ó i a d o s t r a b a l h a d o r e s r u r a i s ? Forta-leza, 1997 (M im eografado).