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Responsabilidade Civil e Criminal

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Academic year: 2021

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Responsabilidade

Civil e Criminal

Curitiba-PR

Marlus Eduardo F. Losso

Marcelo Ribeiro Losso

PARANÁ

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Catalogação na fonte pela Biblioteca do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia - Paraná

© INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA - PARANÁ - EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Este Caderno foi elaborado pelo Instituto Federal do Paraná para o Sistema Escola Técnica Aberta do Brasil - e-Tec Brasil.

Presidência da República Federativa do Brasil Ministério da Educação Secretaria de Educação a Distância

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Diretor de Planejamento e Administração do Câmpus EaD

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Assessora de Ensino, Pesquisa e Extensão – DEPE/EaD

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Coordenadora de Ensino Médio e Técnico do Câmpus EaD

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Coordenadora do Curso

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Revisão Editorial

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Diagramação

e-Tec/MEC

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Apresentação e-Tec Brasil

Prezado estudante,

Bem-vindo ao e-Tec Brasil!

Você faz parte de uma rede nacional pública de ensino, a Escola Técnica Aberta do Brasil, instituída pelo Decreto nº 6.301, de 12 de dezembro 2007, com o objetivo de democratizar o acesso ao ensino técnico público, na mo-dalidade a distância. O programa é resultado de uma parceria entre o Minis-tério da Educação, por meio das Secretarias de Educação a Distância (SEED) e de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC), as universidades e escolas técnicas estaduais e federais.

A educação a distância no nosso país, de dimensões continentais e grande diversidade regional e cultural, longe de distanciar, aproxima as pessoas ao garantir acesso à educação de qualidade, e promover o fortalecimento da formação de jovens moradores de regiões distantes, geograficamente ou economicamente, dos grandes centros.

O e-Tec Brasil leva os cursos técnicos a locais distantes das instituições de en-sino e para a periferia das grandes cidades, incentivando os jovens a concluir o ensino médio. Os cursos são ofertados pelas instituições públicas de ensino e o atendimento ao estudante é realizado em escolas-polo integrantes das redes públicas municipais e estaduais.

O Ministério da Educação, as instituições públicas de ensino técnico, seus servidores técnicos e professores acreditam que uma educação profissional qualificada – integradora do ensino médio e educação técnica, – é capaz de promover o cidadão com capacidades para produzir, mas também com auto-nomia diante das diferentes dimensões da realidade: cultural, social, familiar, esportiva, política e ética.

Nós acreditamos em você!

Desejamos sucesso na sua formação profissional!

Ministério da Educação Janeiro de 2010

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Os ícones são elementos gráficos utilizados para ampliar as formas de linguagem e facilitar a organização e a leitura hipertextual.

Atenção: indica pontos de maior relevância no texto.

Saiba mais: oferece novas informações que enriquecem o

assunto ou “curiosidades” e notícias recentes relacionadas ao tema estudado.

Glossário: indica a definição de um termo, palavra ou expressão

utilizada no texto.

Mídias integradas: sempre que se desejar que os estudantes

desenvolvam atividades empregando diferentes mídias: vídeos, filmes, jornais, ambiente AVEA e outras.

Atividades de aprendizagem: apresenta atividades em

diferentes níveis de aprendizagem para que o estudante possa realizá-las e conferir o seu domínio do tema estudado.

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Sumário

Palavra dos professores-autores ... 11

Aula 1 - Iniciando nossos estudos: contextualização ... 13

1.1 Contextualização... 13

Aula 2 - Histórico da responsabilidade ... 17

2.1 Histórico ... 17

Aula 3 - O conceito de responsabilidade I ... 23

3.1 Conceito de responsabilidade ... 23

3.2 Responsabilidade civil ... 23

Aula 4 - O conceito de responsabilidade II ... 27

4.1 Dano moral ... 27

4.2 Diferenciação entre responsabilidade civil e

responsabilidade criminal ... 28

Aula 5 - Pressupostos da responsabilidade civil I ... 31

5.1 Pressupostos gerais da responsabilidade civil ... 31

5.2 Primeiro pressuposto: conduta humana ilícita, por ação

ou omissão, dolosa ou culposa ... 31

Aula 6 - Pressupostos da responsabilidade civil II ... 35

6.1 As ações e omissões do técnico em segurança no trabalho ..35

Aula 7 - Pressupostos da responsabilidade civil III ... 39

7.1 Segundo pressuposto: existência de um dano ... 39

7.2 Terceiro pressuposto: existência de um dano... 40

7.3 Imputabilidade ... 40

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Aula 9 - Modalidades da responsabilidade civil I ... 49

9.1 Responsabilidade civil contratual ... 49

9.2 Responsabilidade civil extracontratual ... 50

Aula 10 - Modalidades da responsabilidade civil II ... 53

10.1 Responsabilidade civil subjetiva... 53

10.2 Responsabilidade civil objetiva ... 53

Aula 11 - A reparação do dano I ... 59

11.1 O que é reparar? ... 59

11.2 Perdas e danos ... 60

Aula 12 - A reparação do dano II ... 63

12.1 Como se dá a reparação do dano moral ... 63

12.2 Danos à saúde ... 64

12.3 Outras previsões do Código Civil ... 64

Aula 13 - A responsabilidade no Direito do Trabalho I ... 67

13.1 Contextualizando – O conceito de Direito do Trabalho ... 67

13.2 A figura do empregado ... 69

13.3 A figura do empregador ... 70

Aula 14 - A responsabilidade no Direito do Trabalho II ... 73

14.1 Princípio da proteção ao trabalhador ... 74

14.2 Princípio da primazia da realidade ... 74

14.3 Princípio da continuidade da relação de emprego ... 74

14.4 Princípio da irrenunciabilidade de direitos ... 75

Aula 15 - A responsabilidade no Direito do Trabalho III ... 77

15.1 A responsabilidade civil e as relações de trabalho ... 77

Aula 16 - A responsabilidade no Direito do Trabalho IV ... 81

16.1 Outras hipóteses de responsabilidade civil e as relações

de trabalho ... 81

Aula 17 - Medicina e Segurança no Trabalho I ... 85

17.1 Histórico ... 85

17.2 Conceituação ... 85

17.3 Principais conceitos atinentes à matéria ... 86

17.4 Equipamentos de Proteção Invidivual (EPI): ... 87

Aula 18 - Medicina e Segurança no Trabalho II ... 91

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Aula 19 - Medicina e Segurança no Trabalho III... 95

19.1 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA) ... 95

19.2 Programa de controle médico de saúde ocupacional

(PCMSO) ... 97

19.3 Programa de prevenção de riscos ambientais (PPRA) ... 97

19.4 Edificações ... 98

Aula 20 - Medicina e Segurança no Trabalho IV ... 101

20.1 Iluminação ... 101

20.2 Conforto térmico ... 101

20.3 Outros conceitos ... 102

20.4 A divisão de responsabilidades: o que cabe a quem? ... 102

Aula 21 - Medicina e Segurança no Trabalho V ... 105

21.1 Atividades insalubres ... 105

Aula 22 - Medicina e Segurança no Trabalho VI ... 109

22.1 Atividades perigosas ... 109

Aula 23 - Acidentes de trabalho e doenças profissionais I .. 111

23.1 A Configuração do acidente de trabalho e suas

consequências ... 111

23.2 Estatísticas dos acidentes de trabalho ... 115

23.3 Acidente de trajeto... 116

23.4 Doença profissional x doença do trabalho ... 116

Aula 24 - Acidentes de trabalho e doenças profissionais II . 119

24.1 Providências administrativas ... 119

24.2 Garantia de emprego ... 120

24.3 O direito de regresso da Previdência Social ... 120

Aula 25 - Assédio sexual no trabalho ... 123

25.1 Assédio sexual no trabalho ... 123

Aula 26 - Assédio moral no Trabalho ... 127

26.1 Assédio moral ... 127

Aula 27 - A responsabilidade criminal I ... 131

27.1 Conceito ... 131

27.3 A responsabilização do técnico em segurança no

trabalho ... 132

27.4 Contravenção Penal ... 132

Aula 28 - A responsabilidade criminal II ... 135

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28.2 Crime de perigo ... 135

28.3 Homicídio culposo ... 136

Aula 29 - Responsabilidade social das empresas ... 139

29.1 Contexto ... 139

Aula 30 - Uma breve revisão do que foi visto no livro ... 143

30.1 Tema: Histórico e contextualização da matéria ... 143

30.2 Tema: O conceito de responsabilidade civil ... 143

30.3 Tema: Pressupostos da responsabilidade civil ... 143

30.4 Tema: A reparação do dano ... 144

30.5 Tema: A responsabilidade no direito do trabalho ... 144

30.6 Tema: Medicina e segurança no trabalho ... 144

30.7 Tema: Acidentes de trabalho e doenças profissionais ... 145

30.8 Tema: Assédios ... 145

30.9 Tema: Responsabilidade criminal... 145

30.10 Tema: Responsabilidade social das empresas ... 145

Referências ... 147

Atividades autoinstrutivas ... 153

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Palavra dos professores-autores

Prezados alunos

Em nosso dia a dia podemos causar um dano a outrem (seja pessoal/físico, patrimonial ou mesmo moral). Nasce, do dano causado, um dever de repará-lo ou, se não for possível, de indenizá-lo. Isso também ocorre em nossa atividade profissional.

A sociedade em que vivemos está evoluindo de tal forma que a ocorrência do dano não é mais a única preocupação. Pelo contrário, sua reparação é a última instância. Deve-se, sim, dar total atenção e agir com tal cautela para evitar que ele ocorra, por meio de medidas preventivas. Para o técnico em segurança no trabalho é de fundamental importância que conheça pelo menos em síntese, o que é a responsabilidade civil e como ela é aplicada, inclusive como se dá essa precaução e a decorrente reparação do dano, a fim de que tenha consciência de suas atitudes, que tome conhecimento da importância de seu trabalho bem feito, executado com todo o zelo e atenção.

Da mesma forma, é imprescindível o conhecimento da responsabilidade criminal que lhe po-derá ser atribuído pelo desempenho omisso de suas competências.

O que iremos estudar neste livro é uma síntese desses principais aspectos, com exemplos prá-ticos que facilmente correlacionamos com nosso cotidiano.

Bons estudos!

Prof. MSc Marlus Eduardo F. Losso Prof. MSc Marcelo Ribeiro Losso

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Aula 1 - Iniciando nossos estudos:

contextualização

Estamos iniciando a nossa caminhada para compreender um pouco mais como é a responsabilidade, tanto no âmbito civil, quanto no âmbito criminal, do técnico em segurança no trabalho, sob a ótica da lei. Nestas duas primeiras aulas faremos uma análise histórica a respeito da responsabilidade ao longo dos tempos e contextualizaremos o tema para saber a importância de seu estudo.

1.1 Contextualização

Você certamente já deve ter presenciado um acidente de trânsito, em que o veículo que vinha atrás não conseguiu parar e bateu na traseira daquele que transitava em sua frente.

Pois bem, o motorista desatento do veículo de trás deverá reparar o dano causado no automóvel que estava à sua frente.

Observe que não estamos falando apenas de consertar o parachoque, desa-massar e pintar a lataria, etc. Se o veículo ficar parado por certo tempo para reparos, e a vítima necessitar do mesmo para seu trabalho, o indivíduo que causou o dano deverá, ainda, custear as despesas de transporte deste.

Esse é um exemplo muito comum de responsabilidade civil que vemos em nosso dia a dia, dentre diversos outros. Isso acontece porque todos os atos

Figura 1.1: Acidente de trânsito Fonte: www.shutterstock.com

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de nossa vida produzem consequências, e no campo jurídico essas consequ-ências podem se dar em diversos âmbitos. Por isso estudar responsabilidade é tão importante.

Durante o nosso curso iremos estudar as consequências da responsabilidade civil e criminal do técnico em segurança no trabalho. Para tanto, é impres-cindível analisar o contexto histórico de tudo isso, estudar seus requisitos e pressupostos.

Essa análise será iniciada a partir da próxima aula.

Resumo

Nossa primeira aula foi apenas para contextualizar o assunto. Pudemos ver, desde já, que os atos da vida humana podem acarretar consequências pre-vistas na lei, como o dever de reparar um dano.

Atividades de aprendizagem

Analise a jurisprudência abaixo, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e discuta com seus colegas se a decisão é acertada e qual é a lição que se pode tirar dela.

Jurisprudência é uma palavra

que representa uma ou mais decisões, no mesmo sentido, a respeito de uma mesma matéria/

situação. Ela demonstra de que forma um Tribunal vem julgando casos semelhantes.

ACIDENTE DE TRÂNSITO - CNT - CULPA - INDENIZAÇÃO - VALOR.

“Age com culpa o motorista que, desobedecendo o Código Nacio-nal de Trânsito, não guarda a distância de segurança entre o seu veículo e aquele que segue imediatamente à sua frente, dando, por isto, causa ao acidente uma vez que é possível, e portanto pre-visível, que este outro veículo tenha de parar bruscamente. Orça-mentos expedidos por oficinas especializadas, não desautorizados por contraprovas, são elementos idôneos para provar a extensão e o valor dos danos em acidente automobilístico. A recomposição do patrimônio do lesado deve ser a mais integral possível, o que torna irrelevante possuir o veículo sinistrado valor apenas um pou-co superior à importância a ser despendida pou-com a sua reparação e serem utilizadas no conserto.” (4ª Turma Recursal Cível de Belo Horizonte - Rec. nº 2.708/01 - Rel. Juiz Maurílio Gabriel Diniz). Boletim nº. 64.

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Aula 2 - Histórico da responsabilidade

Em verdade, a origem da responsabilidade civil remonta aos tempos antigos e primitivos, e passou por diversas fases históricas. Porém, como ponto de partida para nosso estudo pode-se afirmar que é da essência do ser humano a reação imediata contra um mal que lhe é causado.

O Código de Hamurabi era um bloco de pedra em que as regras e suas punições no caso de descumprimento estavam dispostas a toda a população, com o fim de trazer paz social. Essa exposição pública tinha o objetivo de evitar qualquer alegação de desconhecimento a respeito de suas disposições (apesar de que, naquela época, apenas uma pequena margem das pessoas sabia ler). Para se ter uma ideia, veja algumas de suas regras e punições: se alguém tirar um olho a outro, perderá o próprio olho (196); se alguém quebrar um osso a outrem, parta-se-lhe um osso também

2.1 Histórico

Pois bem, em um primeiro momento histórico, independentemente da cul-pa, se o indivíduo causava um dano, havia uma brutal, desproporcional e violenta resposta a essa injusta agressão.

Essa resposta poderia advir do próprio ofendido, de seus familiares e mesmo do grupo social ao qual pertencia. Essa era a época em que inexistiam países, governos e territórios como conhecemos hoje.

Tal característica é mais marcante no Império Babilônico, com a Lei do

Ta-lião (Lex Talionis) reproduzida no Código do Hamurabi (que se estima que

seja datado de 1.700 a.C.), em que era autorizado aplicar um mal ao agente como retribuição pelo mal causado à vítima.

Você sabia?

Figura 2.1: Código de Hamurabi

Fonte: http://www. panoramio.com

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(197); se alguém bate numa mulher livre e a fez abortar, deverá pagar dez siclos pelo feto (209); se essa mulher morre, então deverá matar o filho dele (210); se o mestre de obras construiu a casa e esta caindo mata o proprietário, o construtor será morto. E se for morto o filho do proprietário, será morto o filho do construtor (229 e 230). Esse Código foi descoberto em 1901, e hoje se encontra exposto à visitação publica no Museu do Louvre, em Paris.

Em síntese, a Lei do Talião pregava o seguinte: se o agressor quebrasse o dente da vítima, teria seu dente quebrado, se danificasse o olho de outrem, teria o seu, na mesma medida, prejudicado. Sem dúvida podemos afirmar que era uma forma primitiva de, pela lei, evitar a prática da justiça com as próprias mãos.

Essa regra da Lei do Talião nos remete à expressão bíblica “olho por olho,

dente por dente”:

Se alguns homens pelejarem, e ferirem uma mulher grávida, e forem causa de que aborte, porém se não houver morte, certamente aquele que feriu será multado conforme o que lhe impuser o marido da mulher e pagará diante dos juízes. Mas, se houver morte, então, darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe. (Êxodo 21: 22-25)

Os teóricos caracterizam esse período como da vingança privada, confor-me descreve Duarte (1999):

Na denominada fase da vingança privada, cometido um crime, ocorria a reação da vítima, dos parentes e até do grupo social (tribo), que agiam sem proporção a ofensa, atingindo não só o ofensor, como todo o seu grupo. A inexistência de um limite (falta de proporcionalidade) no re-vide à agressão, bem como a vingança de sangue foi um dos períodos em que a vingança privada constituiu-se a mais frequente forma de punição, adotada pelos povos primitivos. A vingança privado constituía uma reação natural e instintiva, por isso, foi apenas uma realidade so-ciológica, não uma instituição jurídica. Duas grandes regulamentações, com o evolver dos tempos, encontrou a vingança privada: o talião e a composição. Apesar de se dizer comumente pena de talião, não se tratava propriamente de uma pena, mas de um instrumento moderador da pena. Consistia em aplicar no delinquente ou ofensor o mal que ele

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Em um momento histórico posterior, a vingança era divina, como uma espécie de consequência - reação - pelo ato que era emanada das autorida-des divinas, dos deuses. Na verdade, essas autoridaautorida-des eram as vítimas, e os sacerdotes (representantes na Terra) eram quem aplicavam as penas.

Esse período foi muito importante porque os povos antigos eram muito atre-lados a esses deuses, sendo que a intimidação foi uma forma de evitar o ato danoso. Ademais, o castigo também era brutal e violento, visto que deveria ser na proporção da grandeza do deus ofendido.

A esse respeito, Dias (2005) explica o seguinte:

Com a queda do Império Romano, no século IV, e a conquista dos po-vos germânicos (bárbaros – estrangeiros) sobreveio o direito germânico, porém sob forte influência da Igreja e o seu direito canônico, pela qual a vingança divina era exercida a proporcionalidade do “pecado” cometi-do pelo acusacometi-do contra Deus. O fator que contribui para essa consolida-ção da influência da Igreja é o fortalecimento do poder centralizado do Direito germânico, que buscava adquirir com maior amplitude o caráter de poder público estatal, daí a adoção da concepção da Igreja de opo-sição à pratica individualista da vingança privada (vingança do sangue) utilizada no início do domínio dos povos germânico, embora essa inter-pretação das escrituras sagradas eram deturpadas e os métodos de veri-ficar a culpabilidade provinham de uma revelação divina inquestionável que impunha provações das mais variadas, a fim de corrigir o infrator.

Porém, com o passar do tempo, os povos foram evoluindo. As sociedades passaram a se estruturar em torno de um governante, de um monarca, de um regente. Essa era a autoridade que decretava o castigo a ser aplicado, com base em normas jurídicas criadas.

Para Canto (2005), “neste período o Estado tornou-se forte e chamou para si a aplicação da pena, que perde seu cunho religioso, assumindo uma finali-dade política. O objetivo era a segurança do príncipe ou soberano, por meio da pena, também cruel e severa”.

Assevera ainda que “predominaram o arbítrio judicial, a desigualdade quan-to à punição das classes, a desumanidade das penas, o sigilo do processo, os meios inquisitórios, tudo aliado a leis imprecisas, lacunosas e imperfeitas, a favorecer o absolutismo monárquico e seus protegidos, postergando os direitos dos indivíduos”.

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Nesse período, como evolução da Lei do Talião, pode-se ter como referência a Lei Aquiliana (Lex Aquilia), que para Venosa (2009, p.17) “possibilitou atribuir a um titular de bens o direito de obter o pagamento de uma pena-lidade em dinheiro de quem tivesse destruído ou deteriorado seus bens”.

Portanto, na fase da vingança pública, o interesse maior era de proteger o governante. Para tanto, a legislação existente era cheia de defeitos, favore-cendo a interpretação que essa autoridade desejasse.

Contudo, a vingança pública foi superada por um período humanitário, em que se defendia a criação de normas mais simples, objetivas e de fácil interpretação. O objetivo disso era propiciar mais transparência e respeito ao ser humano.

E finalmente, no final dessa evolução histórica encontramos o período

cien-tífico, em que a análise do evento dano – crime – ganha traços acadêmicos.

Surge a Antropologia Criminal, a Criminologia, e outras áreas de estudo correlatas.

Na linha de acontecimentos, chegamos à Idade Contemporânea. Após a Revolução Francesa (1789), o Código Napoleônico trouxe grandes inovações no campo da responsabilidade civil, inclusive fazendo sua diferenciação com a responsabilidade penal.

Você sabia?

Figura 2.2: Napoleão Bonaparte

A Revolução Francesa tornou-se o símbolo para a queda do absolutismo? Antes disso, a situação econômica e social da França era caótica, com grandes despesas decorrentes de derrotas em guerras (custeadas por 98% da população), indústrias pouco lucrativas e separação do povo em classes. Assim, com o Golpe dos “18 Brumário”, o jovem mili-tar Napoleão Bonaparte tornou-se Cônsul, depois Cônsul Vitalício (1802) e finalmente Imperador (1804), sendo suas principais reali-zações: promulgação do Código Civil, centra-lização administrativa, incentivo à educação

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Conforme afirma Miguel (2006):

O direito francês influenciou vários povos e, por consequência, a legis-lação de vários países, inclusive do Brasil. Assim, ainda que via reflexa, o atual Código Civil e especialmente o revogado Código Civil de 1916, cuja vigência se estendeu até 2002, tiveram aquele Codex como fonte inspiradora, o que levou a consagração da teoria da culpa como regra no campo da responsabilidade civil.

Já imaginou viver naquele período primitivo, sem leis e regras?

Por isso que a responsabilidade civil é muito importante por ser uma das razões que proporcionam a paz social. Afinal, quem descumpre as normas jurídicas certamente estará sujeito à reparação do dano que vier a causar, na forma que veremos adiante em nosso curso.

Resumo

Em conjunto com a primeira aula, hoje foi possível compreender os anteceden-tes históricos que darão embasamento para a continuidade de nossos estudos.

Atividades de aprendizagem

Em conjunto com um colega, imagine como seria viver em um mundo primiti-vo, sem leis e sem regras. Nesse contexto, descreva como seria a responsabiliza-ção de alguém que cometeu algum dano a outrem.

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Aula 3 - O conceito de

responsabilidade I

Após a contextualização e resgate histórico que fizemos nas aulas anteriores, passaremos a analisar o conceito legal de responsabilidade.

3.1 Conceito de responsabilidade

De acordo com o Dicionário Jurídico de José Naufel (1997, p.729),

respon-sabilidade é a “obrigação de responder pelos próprios atos e seus efeitos,

ou por atos de terceiros, em virtude de lei ou convenção”.

Para Lopes (2000, p.550):

A violação de um direito gera a responsabilidade em relação ao que a perpetrou. Todo ato executado ou omitido em desobediência a uma norma jurídica, contendo um preceito de proibição ou de ordem, re-presenta uma injúria privada ou injúria pública, conforme a natureza dos interesses afetados, se individuais ou coletivos. Daí a ideia do ato ilícito, que se caracteriza ou por uma ação ou omissão (...). Assim, o transgressor da lei, que viola o direito ou causa prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar o dano e incorre, assim, em responsabilidade.

3.2 Responsabilidade civil

Mas, afinal, o que é responsabilidade civil?

Para solucionar essa dúvida recorremos aos ensinamentos do Prof. Silvio de Salvo Venosa (2009, p.1), que lembra que a atividade humana pode ou não resultar num dano. Em havendo esse dano, nasce para a vítima o direito de tê-lo reparado (seja pelo retorno ao estado anterior ou mediante o pa-gamento de uma indenização para compensar financeiramente o evento causado).

Essa é a ideia central da responsabilidade civil (dano x reparação).

Ainda, nessa mesma linha de pensamento, continua lecionando que:

Haverá, por vezes, excludentes que impedem a indenização, como vere-mos. O termo responsabilidade é utilizado em qualquer situação na qual alguma pessoa, natural ou jurídica, deva arcar com as consequências

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de um ato, fato ou negócio jurídico. Sob essa noção, toda atividade humana, portanto, pode acarretar o dever de indenizar; Desse modo, o estudo da responsabilidade civil abrange todo o conjunto de princípios e normas que regem a obrigação de indenizar.

Não diferente é o entendimento de Jorge Neto; Cavalcante (2005, p. 749), quando explicam que a responsabilidade civil é:

[...] o instituto jurídico capaz de proporcionar à vítima a reparação dos danos causados, sejam eles com repercussões no âmbito material ou moral, com o restabelecimento da situação anterior ao ato danoso (status quo ante) ou, alternativamente ou simultaneamente, por uma compensação pecuniária equivalente à extensão do dano causado.

Portanto, em linhas gerais, podemos dizer que responsabilidade civil nada mais é do que o dever de reparar um dano que o indivíduo causou (ATO ILÍCITO) voluntária ou involuntariamente.

Nessa linha de raciocínio, Diniz (2002, p.754) explica que “o ato ilícito cria, portanto, para o autor, a obrigação de reparar danos por ele causados a terceiros. Essa obrigação recebe a denominação de responsabilidade civil.”

Esclarece ainda que a responsabilidade civil “é, portanto, a aplicação de medidas que obriguem uma pessoa a reparar dano moral ou patrimonial causado a terceiros, em razão de ato por ela mesmo praticado, por pessoa por quem ela responde, por alguma coisa a ela pertencente ou por simples imposição legal.”

Figura 3.1: O dever de reparar Fonte: www.shutterstock.com

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Você sabia?

A Revista Veja publicou em sua Edição nº 1.740, de 27 de fevereiro de 2002, uma matéria noticiando que as seguradoras vêm ofere-cendo apólices para os mais variados casos de responsabilidade civil: “AS SEGURADORAS OFERECEM APÓLICES AINDA POUCO CONHECIDAS PARA QUEM PRECISA DE COBERTURAS ESPECÍFI-CAS OU TEMPORÁRIAS. Se seu cachorro morder o vizinho, será difícil evitar ouvir alguns desaforos. Mas a conta dos curativos e do tratamento medido, pelo menos, dá para passar adiante. Existem no mercado brasileiro, diversas modalidades de seguro que bem poucas pessoas conhecem, mas que tendem a se tornar populares no futuro. É possível, por exemplo, fazer um seguro especial – e mais barato – para acasos que são usados apenas em fins de se-mana ou para cobrir os riscos decorrentes de algumas atividades profissionais. Numa situação extrema, corretores de seguro que equivocadamente deixam de incluir numa apólice determinado ris-co podem ter, eles próprios, um seguro que garanta o pagamento ao cliente se este vier a ter um acidente justamente nos moldes daquele esquecido na contratação”.

Pois bem, podemos concluir que o dano material, ou seja, aquele em que é possível mensurar economicamente deve ser reparado.

Um exemplo de dano material: ao manobrar seu veículo na garagem do edifício, acaba riscando a lataria do carro do vizinho, e por essa razão, será obrigado à pagar às custas com o conserto (e, como vimos anteriormente, também deverá arcar com as despesas havidas pelo fato do veículo em ques-tão ficar parado nesse período).

Resumo

Tivemos uma aula um pouco mais conceitual, em que foi possível compre-ender os conceitos iniciais de responsabilidade civil e do dever de reparar o dano material.

Atividades de aprendizagem

Após essas primeiras lições, responda o motivo de haver o instituto da res-ponsabilidade civil em nosso Direito.

(26)
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Aula 4 - O conceito de

responsabilidade II

Esta aula é a continuidade da anterior. Hoje analisaremos se no dever de reparação inclui-se o dano moral, além do material. Também veremos a diferenciação entre responsabilidade civil e criminal.

4.1 Dano moral

Figura 4.1: Moral Fonte: www.shutterstock.com

Mas será que é possível reparar um dano exclusivamente moral?

A resposta é sim. De acordo com o art. 5º, inciso V, de nossa Constituição Federal:

TÍTULO II. Dos Direitos e Garantias Fundamentais. CAPÍTULO I DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer nature-za, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

(...)

V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da

indenização por dano material, moral ou à imagem; (destacamos)

O Código Civil Brasileiro, instituído pela Lei Federal nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002, é a norma jurídica base a respeito da responsabilidade civil no direito brasileiro.

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Apesar de possuir várias disposições tratando do tema que estamos estudan-do ao longo de seu texto, dá especial atenção quanestudan-do reserva um Título es-pecial para o instituto da responsabilidade civil (Título IX, Capítulos I e II).

Para interpretar como funciona a responsabilidade civil, é necessário con-jugar dois artigos muito importantes do referido Código (186 e 927), que dizem o seguinte:

Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusiva-mente moral, comete ato ilícito.

Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (Art. 186 e 187), causar dano a ou-trem, fica obrigado a repará-lo.

Dessa leitura chegamos aos seus requisitos e pressupostos, conforme vere-mos em nosso próximo encontro. Porém, antes disso, é necessário estabele-cer a correlação entre as esferas cível e criminal.

4.2 Diferenciação entre responsabilidade

civil e responsabilidade criminal

Recorremos ao art. 935 do mesmo Código Civil Brasileiro, que assim dis-põe: “a responsabilidade civil é independente da criminal, não se podendo questionar mais sobre a existência do fato, ou sobre quem seja o seu autor, quando estas questões se acharem decididas no juízo criminal”.

Isso quer dizer que, se houver alguma decisão reconhecendo a existência de delito/ilícito (crime) no âmbito criminal, o fato em si e a sua autoria não poderão mais ser discutidas na seara do juízo cível.

Maria Helena Diniz melhor detalha como funciona a lógica jurídica dessa questão, explicando que “com isso estabelece a independência da

res-ponsabilidade civil em relação à criminal, ante a diversidade dos cam-pos de atuação da lei civil e da lei penal. A lei civil procura proteger interesses de ordem privada; a penal, combater o crime, que constitui a violação da ordem social”.

Na prática, um ato ilícito na esfera civil pode não gerar consequências no âmbito criminal (como por exemplo, a violação das cláusulas de um contra-to). Por outro lado, um doente mental (que na ótica do direito penal não pode ser responsabilizado por seus atos) pode ser responsabilizado em

repa-Caso queira estudar mais detalhadamente nosso Código Civil e Código Penal, acesse o site do Planalto, e encontrará toda a legislação brasileira disposta de maneira sistemática, cronológica e atualizada. O link é: http://

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Ainda é oportuno observar que se no âmbito criminal o juiz ainda não tiver publicada sua sentença, ou seja, ainda não estiver convicto da existência do ato ilícito e também de sua autoria (que nada mais é do que a identificação exata e individualizada de quem cometeu o crime), a responsabilização civil deverá investigar de maneira independente da criminal o fato em questão e sua autoria.

Resumo

Verificamos que além do dano material, o dano moral também é indenizável. Além disso, fizemos a diferenciação entre a responsabilização civil e criminal.

Atividades de aprendizagem

Juntamente com seus colegas, faça a correlação entre o art. 186 e 927 do Código Civil.

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Aula 5 - Pressupostos da

responsabilidade civil I

Na aula anterior estudamos o conceito de responsabilidade civil. Hoje nossa missão será iniciar a análise de quais são os seus pressupostos, ou seja, os elementos necessários para sua configuração.

5.1 Pressupostos gerais da responsabilida-

de civil

Podemos dizer que os pressupostos básicos da responsabilidade civil são re-sumidos no seguinte: é uma conduta humana ilícita, seja por ação ou

omissão, intencional (dolosa) ou por culpa (negligência, imprudência ou imperícia), que cause um dano, e que entre tais requisitos haja um nexo causal e uma pessoa civilmente responsável (imputabilidade).

De forma resumida, temos como requisitos indispensáveis para que haja a responsabilização civil: 1- conduta humana ilícita (que pode ser por ação ou omissão seja dolosa ou culposa); 2- existência de um dano; 3- nexo de cau-salidade entre esse dano e a referida conduta.

Então vamos estudar cada um deles, suas características e circunstâncias nesta aula e na aula seguinte.

5.2 Primeiro pressuposto: conduta humana

ilícita, por ação ou omissão, dolosa ou

culposa

O pressuposto basilar é considerar uma determinada conduta humana vo-luntária, que pode ser por ação ou omissão, à prática de um ato ilícito. E o

ato ilícito é aquele contrário ao ordenamento jurídico, ou seja, às normas e

leis vigentes. Em resumo, ilegal.

Para Amaral (2008, p.551), “o ato ilícito pode ser penal ou civil, conforme resulte da infração da norma de direito público penal, que visa defender a sociedade, prevenindo e penalizando a infração e retribuindo com a pena cominada, ou da infração de norma de direito privado, que tem por objetivo a defesa dos interesses particulares, de natureza pessoal (direitos da perso-nalidade) ou econômica”.

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Entende que ato ilícito “é o ato praticado com infração de um dever legal ou contratual, de que resulta dano para outrem”.

Em relação à importância de caracterizá-lo, afirma que o ato ilícito é “uma das principais fontes das obrigações, fazendo nascer uma relação jurídica cujo objeto é o ressarcimento do dano causado, a indenização”.

Também há diferenciação nas esferas cível e penal, visto que “o ilícito civil produz a coação patrimonial, gerando uma obrigação de restituir, ou de inde-nizar, ou a execução forçada ou, ainda, a declaração de nulidade de um ato”, enquanto o “ilícito penal além de poder acarretar todas essas consequências, vai mais além, determinando uma coação pessoal, através da pena privativa de liberdade ou de uma medida de segurança” (Maggio, 2001. p.71).

Você sabia que as penas podem ser classificadas entre quatro tipos? São elas:

Privativas de Liberdade: São aquelas em que a liberdade do indivíduo

é restrita, seja de forma total ou parcial. Para cumpri-la, geralmente a pessoa fica presa.

Restritivas de Direitos: São aquelas em que ao invés de restringir a

li-berdade do indivíduo, restringe-se algum direito. Ex: cassação da carteira de habilitação se o motorista causar um grave acidente automobilístico; necessidade de apresentação em delegacia, durante a realização da par-tida de futebol, daquele torcedor que vai ao campo para brigar.

Multa: É o pagamento de algum valor em dinheiro fixado pelo Juiz. Medidas de Segurança: É a espécie de pena que se aplica àqueles

agentes que praticaram algum crime, mas que possuem doença ou per-turbação de natureza mental e que, portanto, necessitam de internação. Ex: internação ou tratamento em hospital de custódia ou até mesmo sujeição à tratamento ambulatorial.

E quanto à culpa, é importante sua verificação? Naturalmente que sim, mas antes de estudá-la, devemos entendê-la.

Venosa (2009, p.23), explica que culpa “é a inobservância de um dever

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Podemos resumir culpa como sendo uma atitude ou falta de atitude que causa uma consequência não desejada. Pode se dar por falta de conheci-mento técnico ou despreparo profissional (também chamada de imperícia), por preguiça ou indiferença (negligência) ou desatenção às regras que deve-riam ser observadas (imprudência).

A noção civil da culpa é confirmada pelo Código Penal, ao conceituar um

crime culposo como aquele “quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia” (Código Penal, art. 18,

in-ciso II).

Diversamente da culpa, o dolo caracteriza-se por um ato voluntário, ou seja, quando o agente procura o ato de maneira intencional, pré-determina-da, desejando a ocorrência de uma determinada consequência. Por exem-plo: Há tempos Fulano mantém desavenças com Beltrano, e um determina-do dia, resolve matá-lo. Para tanto, Fulano adquire um revólver calibre 38 e vai até a residência de Beltrano, toca a campainha e quando este atende, dis-para três tiros à “queima-roupa”. Nessa situação hipotética, não há dúvidas de que Fulano realmente tinha a intenção e vontade de matar Beltrano, e fez tudo para que sua idéia fosse colocada em prática. É a noção de DOLO.

Para o Código Penal, a conceituação de crime doloso é taxativa, seguindo a mesma linha interpretativa da legislação civil, ou seja, diz-se aquele em que “agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo” (Código Penal, art. 18, inciso I).

Como dito, a conduta humana pode ser ativa (ação) ou passiva (omissão). Portanto, é possível sim que uma pessoa seja responsabilizada porque de-veria fazer algo e não o fez. Um exemplo disso é o crime de omissão de socorro previsto no art. 304 do Código de Trânsito Brasileiro (Lei Federal nº 9.503/97):

Art. 304. Deixar o condutor do veículo, na ocasião do acidente, de prestar imediato socorro à vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamen-te, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da autoridade pública: Penas - detenção, de seis meses a um ano, ou multa, se o fato não constituir elemento de crime mais grave.

Parágrafo único. Incide nas penas previstas neste artigo o condutor do veículo, ainda que a sua omissão seja suprida por terceiros ou que se trate de vítima com morte instantânea ou com ferimentos leves.

Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss: IMPERÍCIA é a falta de perícia, ou seja, a falta de habilidade ou experiência repu-tada necessária para a realização de certas atividades e cuja ausência, por parte do agente, o faz responsável pelos danos ou ilícitos penais advenientes;

NEGLIGÊNCIA é a falta de

cuidado, incúria, falta de apuro, de atenção, desleixo, desmazelo, falta de interesse, de motivação, indiferença, preguiça, ou seja, é a inobservância e descuido na execução de ato; e IMPRUDÊN-CIA é a inobservância das precauções necessárias.

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O crime de omissão de socorro também é previsto no Código Penal:

Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:

Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.

Parágrafo único - A pena é aumentada de metade, se da omissão re-sulta lesão corporal de natureza grave, e triplicada, se rere-sulta a morte.

Aliás, o Código Penal explica a importância à omissão na interpretação dos crimes pelos juízes:

Art. 13 - O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omis-são sem a qual o resultado não teria ocorrido.

(...)

Relevância da omissão

§ 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância;

b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado.

Mas o que isso tem a ver comigo? Bem, tem muito ver. Para melhor enten-der, veja o próximo item abaixo.

Resumo

Vimos o primeiro requisito para configuração da responsabilidade civil, seus diversos aspectos e conceitos.

Atividades de aprendizagem

Qual a diferença entre “dolo” e “culpa”. Pesquise em jornais, revistas e na Internet situações que possam exemplificar o conceito de cada um

.

Para você aprofundar sua leitura a respeito do crime de omissão de socorro, acesse o artigo do Prof. João José Caldeira Bastos intitulado “Crime de Omissão de Socorro: Divergências Interpretativas e Observações Críticas”, pelo link a seguir:

http://jus2.uol.com.br/doutrina/ texto.asp?id=11018.

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Aula 6 - Pressupostos da

responsabilidade civil II

Esta aula está intimamente ligada com a aula anterior, em que analisa-mos o primeiro requisito para a configuração da responsabilidade civil. Agora iremos verificar situações específicas do técnico em segurança no trabalho.

6.1 As ações e omissões do técnico em se-

gurança no trabalho

Como você já sabe, o primeiro requisito da responsabilidade civil é “uma conduta humana ilícita, seja por ação ou omissão, seja com dolo ou com culpa”.

Pois bem, você que será um futuro Técnico em Segurança no Trabalho deve estar muito atento às suas obrigações legais específicas para não incorrer em um crime por omissão, além da responsabilização civil, é claro! Para tanto, vale dar uma olhada na Portaria nº 3.275, de 21 de setembro de 1989, ex-pedida pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

Figura 6.1: Segurança no Trabalho Fonte: www.shutterstock.com

Suas principais responsabilidades, segundo a referida norma são as seguin-tes:

informar o empregador, através de parecer técnico, sobre os riscos

exis-tentes nos ambientes de trabalho, bem como orientá-los sobre as me-didas de eliminação e neutralização;

informar os trabalhadores sobre os riscos da sua atividade, bem como as

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analisar os métodos e os processos de trabalho e identificar os fatores

de risco de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho e a presença de agentes ambientais agressivos ao trabalhador, propondo sua eliminação ou seu controle;

executar os procedimentos de segurança e higiene do trabalho e ava-liar os resultantes alcançados, adequando-os estratégias utilizadas de

maneira a integrar o processo prevencionista em uma planificação, be-neficiando o trabalhador;

executar programas de prevenção de acidentes do trabalho, doenças

profissionais e do trabalho nos ambientes de trabalho, com a participa-ção dos trabalhadores, acompanhando e avaliando seus resultados, bem como sugerindo constante atualização dos mesmos

estabelecen-do procedimentos a serem seguiestabelecen-dos;

promover debates, encontros, campanhas, seminários, palestras,

reuni-ões, treinamentos e utilizar outros recursos de ordem didática e peda-gógica com o objetivo de divulgar as normas de segurança e higiene do trabalho, assuntos técnicos, visando evitar acidentes do trabalho, doen-ças profissionais e do trabalho;

executar as normas de segurança referentes a projetos de construção,

aplicação, reforma, arranjos físicos e de fluxos, com vistas à observância das medidas de segurança e higiene do trabalho, inclusive por terceiros;

encaminhar aos setores e áreas competentes normas, regulamentos,

documentação, dados estatísticos, resultados de análises e avaliações, materiais de apoio técnico, educacional e outros de divulgação para co-nhecimento e autodesenvolvimento do trabalhador;

indicar, solicitar e inspecionar equipamentos de proteção contra

in-cêndio, recursos audiovisuais e didáticos e outros materiais considerados indispensáveis, de acordo com a legislação vigente, dentro das qualida-des e especificações técnicas recomendadas, avaliando seu qualida-desempenho;

cooperar com as atividades do meio ambiente, orientando quanto ao

tratamento e destinação dos resíduos industriais, incentivando e cons-cientizando o trabalhador da sua importância para a vida;

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orientar as atividades desenvolvidas por empresas contratadas, quanto

aos procedimentos de segurança e higiene do trabalho previstos na legis-lação ou constantes em contratos de prestação de serviço;

executar as atividades ligadas à segurança e higiene do trabalho

utili-zando métodos e técnicas científicas, observando dispositivos legais e institucionais que objetivem a eliminação, controle ou redução perma-nente dos riscos de acidentes do trabalho e a melhoria das condições do ambiente, para preservar a integridade física e mental dos trabalhadores;

levantar e estudar os dados estatísticos de acidentes do trabalho,

do-enças profissionais e do trabalho, calcular a frequência e a gravidade destes para ajustes das ações prevencionistas, normas regulamentos e outros dispositivos de ordem técnica, que permitam a proteção coletiva e individual;

articular-se e colaborar com os setores responsáveis pelo recursos

hu-manos, fornecendo-lhes resultados de levantamento técnicos de riscos das áreas e atividades para subsidiar a adoação de medidas de prevenção a nível de pessoal;

informar os trabalhadores e o empregador sobre as atividades insalubre,

perigosas e penosas existentes na empresa, seus riscos específicos, bem como as medidas e alternativas de eliminação ou neutralização dos mesmos;

avaliar as condições ambientais de trabalho e emitir parecer técnico

que subsidie o planejamento e a organização do trabalho de forma se-gura para o trabalhador;

articular-se e colaborar com os órgãos e entidades ligados à prevenção

de acidentes do trabalho, doenças profissionais e do trabalho;

participar de seminários, treinamento, congressos e cursos visando o

intercâmbio e o aperfeiçoamento profissional.

Repare a enorme gama de verbos de ação (informar, orientar, analisar, exe-cutar, adequar, propor, promover, inspecionar, incentivar, preservar, calcular, etc.) que você, futuro Técnico em Segurança no Trabalho, deverá colocar em prática no seu dia a dia.

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Por tudo isso que vimos nessa aula é que a omissão de suas responsabilida-des profissionais (ou mesmo a ação de maneira imprudente, com imperícia ou com negligência), além de poder caracterizar um crime (assim sendo, passível de prisão), sujeitará o técnico na obrigação de reparação do dano que vier a causar. Portanto, não deixe que seu futuro profissional seja joga-do. Fique sempre atento!

Resumo

Nesta aula foi possível verificar alguns exemplos de ações e omissões aplicá-veis ao técnico em segurança no trabalho.

Atividades de aprendizagem

Relacione, em uma listagem, quais são as principais ações, em sua opinião, que competem ao técnico em segurança no trabalho. Justifique a escolha de pelo menos três delas.

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Aula 7 - Pressupostos da

responsabilidade civil III

Para continuidade de nossos estudos, lembramos que os pressupostos básicos da responsabilidade civil são resumidos no seguinte: É uma

con-duta humana ilícita, seja por ação ou omissão, intencional (do-losa) ou por culpa (negligência, imprudência ou imperícia), que cause um dano, e que entre tais requisitos, haja um nexo causal e uma pessoa civilmente responsável (imputabilidade).

De forma resumida:

Primeiro Pressuposto: Conduta humana ilícita, por ação ou omissão, por dolo ou por culpa;

Segundo Pressuposto: Existência de um dano;

Terceiro Pressuposto: Nexo de causa entre a conduta e o dano.

7.1 Segundo pressuposto: existência de

um dano

O conceito de dano, para os estudiosos do Direito, não é muito harmônico. Entretanto, sabe-se que está intimamente ligado à ideia de prejuízo. Portan-to, nem sempre um ato ilícito poderá resultar em um dano, e por essa razão, parece-nos correto afirmar que não haverá a necessidade de reparação do dano se não houver um efetivo prejuízo.

Em relação à vítima, pode ser classificado como individual ou coletivo.

Em qualquer dos casos, será definido como dano material (como já expli-camos anteriormente, é aquele que se pode traduzir em uma quantia em dinheiro. Ex: quebrou o vidro, deverá providenciar outro) ou dano moral (de índole psicológica, ou seja, interna de um indivíduo, que atinge sua perso-nalidade).

7.2 Terceiro pressuposto: existência de

um dano

O nexo nada mais é do que o vínculo, a ligação que se dá entre a conduta ilícita do agente e o dano que o evento causou.

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Nesse caso, não haverá vínculo quando o dano não tiver correlação com a conduta humana ilícita.

7.3 Imputabilidade

De maneira simplista, imputabilidade se traduz na possibilidade de se atri-buir a alguém alguma responsabilidade. E para tanto, será necessário verifi-car se essa pessoa possuir alguns requisitos pessoais mínimos. Para melhor exemplificar Venosa (2009, p.66) explica que:

Se o agente, quando da prática do ato ou da omissão, não tinha condi-ções de entender o caráter ilícito da conduta, não pode, em princípio, ser responsabilizado. Nessa premissa, importa verificar o estado mental e a maturidade do agente. Para que o agente seja imputável, exige-se--lhe capacidade e discernimento. A imputabilidade retrata a culpabili-dade. Não se atinge o patamar da culpa se o agente causador do dano for inimputável.

No mesmo sentido arremata Lopes (2000, p.551) que a imputabilidade “de-fine-se como sendo determinação da condição mínima necessária a ser um fato referido e atribuído a alguém, como o autor do mesmo e com o objetivo de torná-lo passível das consequências”.

Pois bem, várias são as situações em que uma pessoa pode ser inimputável, dentre as quais destacamos: menores de 16 (dezesseis) anos de idade, os que não possuem o necessário entendimento.

Em regra, se o agente causador do dano não detiver imputabilidade, outra pessoa poderá por ele responder pelos prejuízos causados. Exemplo: o pai responderá pelo filho menor de idade, o empregador responderá pelos atos praticados pelos seus empregados, etc.

São exatamente os casos previstos no art. 932 do Código Civil Brasileiro:

Art. 932. São também responsáveis pela reparação civil:

I - os pais, pelos filhos menores que estiverem sob sua autoridade e em sua companhia;

II - o tutor e o curador, pelos pupilos e curatelados, que se acharem nas mesmas condições;

III - o empregador ou comitente, por seus empregados, serviçais e pre-postos, no exercício do trabalho que lhes competir, ou em razão dele; IV - os donos de hotéis, hospedarias, casas ou estabelecimentos onde se albergue por dinheiro, mesmo para fins de educação, pelos seus

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Por outro lado, “o incapaz responde pelos prejuízos que causar, se as pesso-as por ele responsáveis não tiverem obrigação de fazê-lo ou não dispuserem de meios suficientes” (Código Civil Brasileiro, art. 928). Essa exceção não é aplicável quando privar o incapaz, ou as pessoas que dele dependem, do necessário para sua sobrevivência.

Resumo

Nesta aula vimos os dois últimos pressupostos para a caracterização da res-ponsabilidade civil, que é o dano e o nexo causal existente entre ele e a con-duta humana ilícita (primeiro dos requisitos). Também foi possível conhecer o que é o instituto da imputabilidade, tema de grande relevância para a responsabilidade civil.

Atividades de aprendizagem

Leia a notícia a seguir e debata com seus colegas como fica a responsabilida-de do motorista responsabilida-de um automóvel que causar sério aciresponsabilida-dente responsabilida-de trânsito. No caso em questão, o motorista poderá ser considerado inimputável?

Figura 7.1: Bebida e direção Fonte: www.shutterstock.com

MOTORISTA EMBRIAGADO ENVOLVE-SE EM ACIDENTE DE TRÂNSITO. Em uma semana em que ocorreu a morte de três

mo-tociclistas, a Polícia registrou mais um acidente de trânsito envol-vendo uma moto e um carro. No final da tarde de quinta-feira, 26, por volta das 19h, a guarnição da viatura de prefixo [...] foi acio-nada pela sala de operações do 6º BPM para comparecer no bairro Getúlio Vargas, pois entre as ruas Quatro e Cinco teria ocorrido

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um acidente de trânsito com lesões corporais. Chegando ao local, os PMs foram informados de que um motoboy transitava pela rua Quatro no sentido bairro/Centro e, ao entrar à direita na rua Cin-co, colidiu com o automóvel [...] que transitava na mesma rua, no sentido contrário, Centro/bairro, sendo que o motorista teria avan-çado na contramão. O motociclista fugiu do local do acidente, mas uma moça que estava na garupa da moto foi localizada quando estava sendo atendida no pronto socorro da Santa Casa. No local do acidente, os PMs notaram que o condutor do carro, E.L.S., de 39 anos, apresentava visíveis sintomas de embriaguez. Diante do fato, o motorista concordou em realizar o teste com o etilômetro, o qual apontou 0,98 miligrama de álcool por litro de sangue.

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Aula 8 - Pressupostos da

responsabilidade civil IV

Ilicitude

Qualidade de ilícito (proibido pela lei).

Você sabia que existem algumas situações em que, aparentemente, a atitude é ilícita, mas o Direito entende como um ato justificável? Nessas hipóteses não será necessário reparado o dano causado. Essas são as situações que veremos nesta aula.

8.1 Caso fortuito e força maior

Figura 8.1: Força maior Fonte: www.shutterstock.com

Os teóricos ainda não entraram em um consenso a respeito da diferença entre “caso fortuito” e “força maior”, mas podemos desde já afirmar que ambos têm como consequência a exclusão da ilicitude.

Para esclarecer essa questão, Venosa (2009, p.50) nos explica que “o caso fortuito (Act of God, Ato de Deus no direito anglo-saxão) decorreria de for-ças da natureza, tais como terremoto, a inundação, o incêndio não provo-cado, enquanto a força maior decorreria de atos humanos inelutáveis, tais como guerras, revoluções, greves e determinação de autoridades”.

Em resumo, podemos afirmar que caso fortuito e força maior são situações

alheias à vontade do agente.

8.2 Culpa exclusiva da vítima

É a situação em que o evento danoso ocorre por culpa exclusiva da vítima.

Um exemplo clássico dessa situação é a seguinte: um veículo para em uma rodovia em uma noite muito chuvosa por falta de combustível; além disso,

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está com as luzes do veículo completamente apagadas e não utiliza qualquer sinalização; o condutor de outro veículo, dirigindo dentro do limite de ve-locidade, ao se deparar com a situação, não consegue frear seu automóvel e colide com o veículo parado; em regra a culpa é de quem causa a batida, mas no caso será do motorista do veículo sem combustível, que não cumpriu as normas de trânsito que determinam a sinalização do local.

Outro exemplo é um viajante de trem que resolve se pendurar no teto da locomotiva e, em uma curva, acaba caindo da composição.

8.3 Fato de terceiro

O terceiro é logicamente alguém que não é a vítima e que não é o causador do dano (na responsabilidade civil contratual, é aquele que não participou do negócio jurídico).

Em muitos casos é até mesmo de difícil identificação da vítima.

É quem, de fato, provocou a situação. Geralmente é matéria de defesa de quem a vítima acusa de ser causador do dano. Exemplo: em um acidente de trânsito, o causador do acidente só o fez em virtude de uma manobra imprevista e perigosa de um terceiro.

8.4 Legítima defesa

Sua estrutura nos remete ao art. 25 do Código Penal: “entende-se por le-gítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”. Por essa razão, para o Direito Penal, a legítima defesa é causa que afasta a ocorrência do crime (Código Penal, art. 19).

Não é diferente a sua interpretação na legislação civil. Prevista no art. 188 do Código Civil Brasileiro, é a hipótese em que o agente causa um dano para se defender de uma injusta violência (atual ou iminente), sendo que essa repulsa deve ser praticada de maneira moderada, de forma a cessar imedia-tamente a agressão.

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Você sabia?

Figura 8.2: Legítima defesa Fonte: www.shutterstock.com

8.5 Exercício regular de um direito (estrito

cumprimento de dever legal)

É um excludente porque o art. 187 do Código Civil Brasileiro define como ato ilícito, pelo raciocínio inverso, quem “excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons cos-tumes”, ou seja, no exercício irregular, ou podemos chamar de abuso de direito, haverá, sim, ato ilícito.

A esse respeito, Lopes (2000, p.525) esclarece que “o direito deve ser exer-cido em conformidade com o seu destino social e na proporção do interesse de seu titular [...] no abuso de direito trata-se de uma conduta consistente no exercício de um determinado direito, porém ultrapassando os seus limites”.

Aponta, ainda, o mesmo autor que “por duas maneiras o abuso do direito é sancionado pela ordem jurídica: de um modo geral, o ressarcimento por per-das e danos; de um modo especial e quando possível e adequado, mediante a supressão ou anulação do fato ou ato abusivo, restabelecendo-se o statu quo ante” (situação anterior).

Amaral (2008, p.245) cita alguns exemplos de situações de abuso de direito muito ligadas ao nosso dia a dia, como: a suspensão do fornecimento de energia elétrica pela concessionária em razão de um pequeno débito; no exercício do poder familiar, a proibição de visita aos avós; abuso no direito

Vamos imaginar um exemplo prático de legítima defesa? Você está indo para seu trabalho quando encontra um antigo inimigo que havia lhe pro-metido de morte. Ao vê-lo, seu inimi-go saca uma arma, aponta para você e, antes mesmo de disparar os tiros (injusta agressão), você consegue do-miná-lo. Porém, com esse ato, você acabou causando-lhe lesões no rosto. A interpretação jurídica que se deve dar é que você fez isso para salvar sua própria vida, e não simplesmente por-que desejava machucar seu desafeto.

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de greve; utilização da proteção jurídica que as empresas possuem para lesar consumidores; etc.

Destacamos que o nosso Direito não protege quem praticar um ato que seja manifestamente ilegal, mesmo que haja uma determinação de seu superior hierárquico (ex: chefe que determina ao empregado para agredir um tercei-ro que é seu desafeto). Afinal, não é porque você é empregado que deve cometer um ato ilegal somente porque seu chefe pediu. Ainda mais porque tal solicitação poderá ser enquadrada como um crime pela legislação penal.

A esse respeito o art. 22 Código Penal entende que: “se o fato é cometido sob coação irresistível ou em estrita obediência a ordem, não

manifesta-mente ilegal, de superior hierárquico, só é punível o autor da coação ou

da ordem”.

Nesse sentido, é importante destacar que, para ser negado, o ato não deve ser apenas ilegal, mas sim manifestamente ilegal, ou seja, que sua ilegalidade fosse fácil de perceber, ou “impossível de ser oculto ou dissimu-lado, que não pode ser contestado em sua natureza, existência; flagrante, indiscutível, inegável; declarado, notório; claro, patente, evidente” (Dicioná-rio Eletrônico Hauaiss da Língua Portuguesa).

8.6 Deterioração ou destruição da coisa

alheia, ou a lesão à pessoa, a fim de re-

mover perigo iminente

É a situação conhecida como “estado de necessidade”, ou seja, para prote-ção de um bem jurídico que está na iminência de ser violado, o agente acaba violando um bem ou direito de terceiro.

Está prevista no art. 188, inciso II, do Código Civil Brasileiro, e também é uma causa de exclusão da ilicitude.

Para melhor entendimento citamos dois exemplos automobilísticos trazidos por Venosa (2009, p.56): imagine um motorista que, para desviar de árvore que está caindo à sua frente, lança o veículo contra a propriedade alheia, invadindo-a e causando danos (ex: derruba o muro); já a segunda situação envolve outro motorista que, tendo percebido um defeito mecânico em seu veículo, e estando o mesmo em direção a um precipício, lança-o sobre uma pessoa que estava transitando no acostamento da rodovia.

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Você sabia?

O Código Civil Brasileiro explica ainda que “se a pessoa lesada, ou o dono da coisa, no caso do inciso II do art. 188, não forem cul-pados pelo perigo, assistir-lhes-á direito à indenização do prejuízo que sofreram”. Porém, terá o agente que causou o dano direito de regresso contra o terceiro, caso este seja o culpado pela ocorrência do perigo, para ver ressarcido do que pagou à vítima ou ao dono da coisa deteriorada (arts. 929 e 930).

Resumo

Aprendemos nesta aula que nem todas as ações humanas ilícitas podem acarretar o dever de deparar o dano. São situações que excluem a ilicitude do ato, e elas foram analisadas em nossa aula de hoje (caso fortuito e força maior; culpa exclusiva da vítima; fato de terceiro; legítima defesa; exercício regular de um direito e estado de necessidade).

Atividades de aprendizagem

Analise as duas decisões abaixo, aponte quais são as hipóteses de exclusão da ilicitude que os respectivos julgadores utilizaram:

MANDADO DE SEGURANÇA. DETERMINAÇÃO JUDICIAL. RE-CUSA NO CUMPRIMENTO PELA AUTORIDADE PÚBLICA AD-MINISTRATIVA. INCABIMENTO. Não cabe à autoridade pública

administrativa recusar ou questionar o cumprimento de determi-nação judicial, salvo nas hipóteses em que a ordem é manifesta-mente ilegal. Ao revés, tem ela o dever de colaborar com a Justiça, não colocando dificuldades ao bom andamento do processo, es-pecialmente quando não demonstra possuir, na espécie, qualquer interesse processual. In casu, observa-se a ocorrência de uma ir-regularidade meramente formal (determinação judicial desprovida de carta precatória), que somente as partes e o executado teriam legitimidade para apontá-la. Sentença denegada (TRT 19º Região. Tribunal Pleno. Numeração Única: 00213-2003-000-19-00-9. Jul-gado em 08/06/2004).

Eca. Apelação. Tentativa de homicídio. Medida de internação apli-cada pelo juízo singular. Recurso visando absolvição pela legítima defesa ou substituição da medida. Internação não justificada sufi-cientemente. Instrução precária. Legítima defesa não configurada

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pelo excesso na reação. Uso de arma de fogo para se defender de desafio para briga “no braço”. Adolescente sem antecedentes graves. Residência com a família e ocupação em atividade lícita (emprego em fábrica de jeans). Reforma parcial da sentença para substituir a medida de internação por liberdade assistida. . RE-CURSO PARCIALMENTE PROVIDO. (TJPR - 2ª C. Criminal - RAECA 765882-4 - Francisco Beltrão - Rel.: Des. Valter Ressel - Rel.Desig. p/ o Acórdão: Des. Valter Ressel - Unânime - J. 28.07.2011)

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Aula 9 - Modalidades da

responsabilidade civil I

A responsabilidade civil possui quatro modalidades, nesta aula veremos duas delas, que são a Contratual e a Extracontratual ou também conhe-cida como aquiliana.

9.1 Responsabilidade civil contratual

A responsabilidade civil contratual é o campo de estudo das consequências do não cumprimento das obrigações jurídicas (tecnicamente chamada de inadimplemento) decorrentes de contratos ou negócios jurídicos em geral.

Neste caso, a fonte de obrigações é o próprio contrato entabulado entre as partes.

Figura 9.1: Contrato sendo fechado Fonte: www.shutterstock.com

Vamos exemplificar: no contrato de financiamento de um automóvel, a insti-tuição bancária empresta o dinheiro cobrando um determinado valor a título de juros remuneratórios (que nada mais é do que a remuneração pelo ato de emprestar). Por outro lado, o interessado recebe a quantia de dinheiro financiada, à vista, com a obrigação de pagar as parcelas pontualmente, no dia pactuado. Caso não venha a cumprir essa avença, pagará uma multa por atraso, juros moratórios – em virtude da demora em quitar com a obriga-ção), além de correr o risco de ter o veículo apreendido. Veja quantas são as consequências.

Para caracterizar o descumprimento do contrato e, portanto, a responsabili-dade, basta o credor demonstrar que o devedor não respeitou suas obriga-ções no prazo e forma pactuados.

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