• Nenhum resultado encontrado

A identificação do brasileiro com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "A identificação do brasileiro com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil"

Copied!
64
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA NATÁLIA DE ÁVILA

A IDENTIFICAÇÃO DO BRASILEIRO COM A COPA DO MUNDO DE 2014 NO BRASIL

Palhoça 2014

(2)

NATÁLIA DE ÁVILA

A IDENTIFICAÇÃO DO BRASILEIRO COM A COPA DO MUNDO DE 2014 NO BRASIL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel.

Orientador: Prof. Antônio Carlos Santos, Dr.

Palhoça 2014

(3)

NATÁLIA DE ÁVILA

A IDENTIFICAÇÃO DO BRASILEIRO COM A COPA DO MUNDO DE 2014 NO BRASIL

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Jornalismo e aprovado em sua forma final pelo Curso de Comunicação Social, da Universidade do Sul de Santa Catarina.

Palhoça, 26 de novembro de 2014.

____________________________________ Prof. e orientador Antônio Carlos Santos, Dr.

Universidade do Sul de Santa Catarina

____________________________________ Prof. Jaci Rocha Gonçalves, Dr.

Universidade do Sul de Santa Catarina

____________________________________ Prof. Claudia Schaun Reis, Esp.

(4)

AGRADECIMENTOS

Primeiramente a Deus, por ter me dado saúde para concretizar mais uma etapa da minha vida e forças diante das dificuldades.

Ao meu orientador Antônio Carlos Santos, pelo incentivo e suporte oferecido.

Ao meu pai Vilmar de Ávila, por acreditar em mim e fazer com que esse sonho se tornasse realidade.

A minha mãe Rosana M. Santos de Ávila, por ter ficado ao meu lado todos esses anos, mesmo em situações de estresse.

Ao meu namorado Jefferson Nogueira Junior, por me encorajar nos momentos em que tive medo.

A minha família, amigos e colegas de classe, pessoas que de alguma forma fizeram parte da minha formação, obrigada a todos.

(5)

RESUMO

Esta monografia é o resultado de um estudo sobre “A identificação do brasileiro com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil”, baseado na influência que a mídia pode causar numa população, em relação a sua identificação com determinado assunto, neste caso, com o Mundial de 2014. Veremos inicialmente o conceito de identidade e a identificação do brasileiro com o futebol e com as Copas. Em seguida, será feita uma breve apresentação do país-sede da Copa, Brasil, mostrando sua realidade atual e como a mídia brasileira, com suas notícias sensacionalistas, induziu de certa forma os brasileiros a terem uma identificação/identidade negativa e/ou positiva deste evento esportivo. Falaremos também sobre a relação da mídia e da política, principalmente por 2014 ter sido o ano da eleição presidencial e sobre as manifestações “anti-copa”, em suma, como os meios de comunicação abordaram esses acontecimentos e o que isso gerou de consequência ao Mundial. Por fim, apresentaremos o fechamento ou conclusão (desfecho) desta monografia, que abordará como os veículos de comunicação e os cidadãos brasileiros reagiram com a derrota da seleção brasileira e como foi o comportamento da mídia após a Copa.

Palavras-chave: Copa do Mundo. Influência. Mídia. Notícias. Identificação. Identidade.

(6)

ABSTRACT

This present work is the result of a study about the "Brazilian citizens identification with the World Cup 2014 in Brazil" based on the influence that the media can cause a population in relation to their identification with the World Cup 2014. We'll see, initially, the concept of identity and identification of Brazilians with soccer and the World Cup. Then, a brief presentation of the host country of the World Cup, Brazil, will be showing the current reality and how the Brazilian media, with sensational news, induced the negative and/or positive identification/identity of this sporting event to the Brazilians. The work will also talk about the relation of media and politics, mainly because 2014 was the year of the presidential election and the demonstrations of "Anti-Cup" demonstrations, as the media shows these events and what were the consequences to the result of the World Cup. Finally, the conclusion will analyze how these communication vehicles and Brazilian citizens reacted to the national team defeat and how was the behavior of the media after the World Cup.

(7)

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Títulos negativos antes de começar o Mundial ... 53 Tabela 2 – Títulos positivos após começar o Mundial ... 53

(8)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 7

2 O CONCEITO DE IDENTIDADE ... 9

3 PAÍS-SEDE: CRÍTICAS AO MECANISMO DA IMPRENSA BRASILEIRA ... 20

3.1 COMO E POR QUE A MÍDIA INFLUENCIA A VIDA DOS BRASILEIROS? ... 29

4 RELAÇÃO: POLÍTICA E MÍDIA ... 35

5 MANIFESTAÇÕES – “ANTI-COPA” ... 43

6 DESFECHO ... 51

(9)

1 INTRODUÇÃO

O trabalho de conclusão de curso denominado A identificação do

brasileiro com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil foi desenvolvido com base no

estudo do Mundial de 2014 e na identificação/identidade (positiva e/ou negativa) criada pela população, como, em parte, efeito da mídia brasileira tradicional e alternativa. A princípio, o intuito desta monografia foi analisar como uma população pode se identificar e respectivamente ter uma identidade a partir da relação com determinado assunto, referente principalmente a sua sociedade ou ao momento em que vive. Além disso, mencionamos como uma notícia pode manipular e modificar a identificação/identidade de uma pessoa e analisamos quais os interesses que movem os veículos a dar forma a uma questão popular, ou seja, como estes veículos vendem e venderam as suas notícias.

A Copa do Mundo de 2014 foi um dos assuntos mais falados, discutidos e divulgados na mídia nacional e internacional no ano de 2014 e muitas faces sobre este evento esportivo foram apresentadas nos veículos de comunicação, por isso, nos capítulos que compõem este trabalho, foi necessário mostrar como a mídia e os meios de comunicação “induziram” a criação de uma identificação/identidade do brasileiro com a Copa no Brasil, tanto no sentido de trabalhar para essa identificação quanto para desfazer o laço da população com o evento. É inevitável que a população brasileira utilize da mídia para saber de tudo o que está acontecendo no país e no mundo, economia, política e acontecimentos rotineiros, enfim, e não foi diferente ao acompanhar o que estava sendo feito para que a Copa fosse realizada a tempo da sua abertura no dia 12 de junho de 2014. Os brasileiros estavam preocupados com os gastos para a construção e reformas dos estádios e a má distribuição do dinheiro público estava sendo o motivo de manifestações por várias cidades no país. A mídia sempre soube do tamanho do poder que tem “em cima” das pessoas e por isso usou de artes e manhas para expor todas as esferas da Copa do Mundo no Brasil, seguindo, claro, seus próprios interesses.

As faces e os lados que a mídia mostrou do Mundial foram diversificadas. Em primeira instância, o que estava em evidencia era a “parte ruim”, isto na época da sua preparação, quando as manchetes eram os atrasos nos estádios e a possível

(10)

corrupção na sua elaboração. Já a parte boa do Mundial foi noticiada durante a sua exibição, quando a sua organização começou a ser julgada como “exemplar”, além disso, só se falava na seleção brasileira e o quanto a Copa estava sendo um grandioso espetáculo. Para finalizar, a pauta “Copa do Mundo” desapareceu aos poucos dos meios de comunicação, após sua temporada no país, sendo substituída pelas Olimpíadas de 2016.

No primeiro capítulo, apresentamos ao leitor o conceito de identidade e destacamos a identificação do povo brasileiro com a competição Copa do Mundo e com o futebol, paixão que veio para o Brasil no século XIX. Primeiramente, este era um esporte destinado apenas aos ricos e, posteriormente, acabou virando a sensação dos funcionários de fábricas. Hoje em dia é um dos esportes mais populares do país. Capítulo este que foi elaborado principalmente com pesquisas do livro, A identidade cultural na pós-modernidade, de Stuart Hall, entre outros.

No decorrer do trabalho, examinamos o papel da mídia em relação ao Mundial de 2014 da FIFA (Fédération Internationale de Football Association), desde os seus primeiros passos, quando o Brasil foi escolhido para ser sede da competição até os acontecimentos que rodearam o fim da sua breve passagem pelo Brasil. Muito deste estudo está baseado no livro de Cremilda Medina: Notícia, um

produto à venda: jornalismo na sociedade urbana e industrial.

Os aspectos políticos, como a reação da mídia ao relacionar os problemas da Copa ao Governo atual e as manifestações dos “anti-copa” também foram estudados na presente monografia, que teve como fechamento (desfecho), o modo como os meios de comunicação lidaram com o fim da Copa no Brasil, após a seleção brasileira perder a chance de conquistar o hexacampeonato, como também, como foi o comportamento da mídia após a Copa do Mundo de 2014 passar pelo país do futebol e dos melhores jogadores do mundo.

Os últimos capítulos do TCC, A identificação do brasileiro com a Copa do

Mundo de 2014 no Brasil, foram constituídos com a ajuda dos seguintes livros: A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia, de John Thompson, Protesta Brasil: Das redes sociais às manifestações da rua, de Ricardo Freitas e Edson

Fernandes, além do livro Cidades Rebeldes – Passe livre e as manifestações que

(11)

2 O CONCEITO DE IDENTIDADE

O presente capítulo busca analisar e explicar o conceito de identidade e como esta identidade foi trabalhada pelos meios de comunicação em decorrência da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. O estudo deste capítulo será feito com base no livro de Stuart Hall, A identidade cultural na pós-modernidade, que apresenta um amplo estudo sobre as questões das identidades, além do livro de Manuel Castells,

O poder da Identidade, entre outras referências.

A Copa do Mundo de 2014 provocou diversos tipos de identidades na população brasileira. O Mundial acabou fomentando a reação do cidadão brasileiro em função das notícias de corrupção e das tantas “coisas ruins” que foram noticiadas na mídia brasileira durante a sua preparação, motivadas especialmente pela indignação com o descaso com a nossa saúde e com a educação do nosso país, que, apesar de ser um dos países mais ricos do mundo, está abaixo da média, quase insuficiente: o Brasil nada mais é que a: “[...] sétima maior economia mundial, segundo o FMI, Fundo Monetário Internacional.”. (TERRA, 2014).

A identificação e a identidade da nossa nação com a Copa do Mundo tem uma história: a do brasileiro apaixonado pelo futebol, que apesar de todas as adversidades, esteve em frente à TV torcendo pelo Brasil em todos os jogos da seleção, neste que é o torneio mais importante do futebol mundial.

Para entender um pouco mais sobre o que é identidade e sobre as várias identidades que podem ser construídas numa única pessoa, como por exemplo, a identidade do cidadão brasileiro e a identidade do apaixonado pelo futebol, será necessário voltar no tempo e conhecer mais sobre os conceitos anteriores que formaram a identidade que conhecemos hoje. Hall (2002) afirma que o conceito de identidade mudou de acordo com os tempos (anos ou séculos). Inicialmente, a identidade tinha ligação com o conceito do sujeito do Iluminismo, em seguida foi associada ao conceito sociológico e, por fim, “pós-moderno”. Porém, é a parte do livro em que Hall (2002) fala sobre a identidade baseada numa cultura nacional (que veremos adiante), que realmente interessa para o atual capítulo.

Apesar disto, é importante explicar cada um destes três conceitos de identidade, que diz respeito a momentos históricos da humanidade, para que possa ser entendida a criação da identidade no nosso universo:

(12)

O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção da pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado de capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou ‘idêntico’ a ele – ao longo da existência do indivíduo. (HALL, 2002, p.10 e p.11).

Este primeiro conceito, é totalmente distinto dos conceitos posteriores. O sujeito do Iluminismo acreditava que a identidade era como se fosse uma parte de uma pessoa, uma personalidade, que nasce e permanece ao longo de sua vida e acaba “morrendo” com este mesmo indivíduo. Algo que não muda independente dos momentos pelos quais a pessoa passa durante a vida. Obtendo um conhecimento mais amplo sobre a política do “jogo de identidades” que vamos ver mais a frente, é possível verificar com mais facilidade o equívoco realizado por este primeiro conceito, já que qualquer ser humano pode sim ter mais que uma identidade, e esta mudança e criação de identidade está totalmente relacionada com a cultura, com a geografia de um país, com as pessoas que estão ao seu redor, por quem sente admiração, o que ele lê na mídia, enfim, tudo que está ao seu alcance. Já o conceito sociológico, que vem depois do conceito do Iluminismo, é o que mais se aproxima do conceito atual de identidade:

A noção de sujeito sociólogo refletia a crescente complexidade do mundo moderno e a consciência de que este núcleo era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com ‘outras pessoas importantes para ele’, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura – dos mundos que ele/ela habitava. (HALL, 2002, p.11).

No conceito sociológico, as pessoas podem formar e modificar uma identidade, levando em consideração como vivem e com quem se relacionam, ou seja, a sua relação com a sociedade. O ser humano extrai da sociedade informações que podem servir de base para criar a sua identidade: “A identidade, nessa concepção sociológica, preenche o espaço entre o ‘interior’ e o ‘exterior’ – entre o mundo pessoal e o mundo público.”. (HALL, 2002, p.11). O conceito sociológico serviu de ponte para a criação do conceito “pós-moderno”, já que foram essas questões que tornaram possível definir a identidade como não sendo, “[...] fixa, essencial ou permanente.”. (HALL, 2002, p.12). Uma pessoa que ficou exposta a diversas especulações, opiniões e retratos da Copa do Mundo no Brasil, por exemplo, poderia ficar perplexa com as matérias que divulgavam o dinheiro que foi

(13)

gasto para que a Copa ficasse pronta a tempo e, no primeiro instante, poderia até ser contra isto. Porém, esta mesma pessoa pode ter sido a primeira a decorar sua casa com bandeiras verdes e amarelas e a reservar os ingressos para assistir de perto as partidas. Estamos falando de uma só pessoa, que possui dois tipos de identidade, que podem se alternar de acordo com o que está acontecendo no país, na sua cidade ou até em seu bairro. A identidade ligada ao conceito “pós-moderno”: “é definida historicamente, e não biologicamente.”. (HALL, 2002, p.13).

O momento histórico, por sua vez, tem uma participação muito grandiosa na construção de uma identidade, aliás, de uma identificação ou não com qualquer fato, que vai gerar esta identidade. No caso, a identidade e a identificação são palavras distintas que possuem significados parecidos, dado que uma surge da outra. A identidade nasce da identificação de uma pessoa com uma data histórica, com um acontecimento inesquecível que trouxe uma lembrança agradável ou não, com o que essa pessoa veste ou deixa de vestir, com o que está passando na TV, o que está na moda ou em evidência e com o que acredita ser certo ou errado naquele momento. Por isso, a identidade está sempre em construção e tende a não ficar parada no mesmo lugar por muito tempo, assim como, pode ser constantemente multiplicada em uma mesma pessoa. A identificação segue esta mesma linha, já que você com certeza acabou se identificando com um estilo musical que hoje em dia não suporta mais ouvir ou já pegou uma foto em que vestia uma roupa que jamais usaria nos dias de hoje. Assim como a identificação com alguma coisa pode mudar durante um tempo, a identidade do ser humano, derivada da identificação, também pode mudar com o passar dos anos. Segundo Castells (1999, p.23): “Não é difícil concordar com o fato de que, no ponto de vista sociólogo, toda e qualquer identidade é construída. A principal questão, na verdade, diz respeito a como, a partir de quê, por quem, e para quê isso acontece.”.

Dentro do Brasil, existe o brasileiro que está preocupado com a situação da nação, que é o brasileiro cidadão “responsável” e ao mesmo tempo existe o brasileiro que sempre esteve ansioso para ver o Brasil campeão do mundo, que é o cidadão “amante” do futebol. Na verdade, esses dois tipos de identidade podem ser encontradas na mesma pessoa, já que a indignação de alguns com o modo como este evento foi estabelecido no Brasil não suspendeu a vontade de ver a seleção brasileira campeã da Copa de 2014, o que acabou não acontecendo. Esta dupla identidade, com base em que Hall (2002) fala em seu texto, pode ser traduzida

(14)

como “jogo de identidades”. Neste caso, pode acontecer a fragmentação ou a pluralização nas identidades das pessoas, que, na vida, podem e apresentam mais que uma “face”. Além disso, esse “jogo de identidades” possui diversos elementos, um deles é:

Uma vez que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada. Esse processo é, às vezes, descrito como constituindo uma mudança de uma política de identidade (de classe) para uma política de diferença. (HALL, 2002, p.21).

Utilizando ainda o exemplo da Copa do Mundo de 2014 e envolvendo a mídia brasileira, tanto corporativa quanto alternativa, é importante ressaltar que o que o que foi veiculado nessas mídias sobre a Copa (maléfico ou benéfico), influenciou e muito a criação de uma identidade negativa e/ou positiva na população brasileira. A mídia tem a função de nos informar; dessa maneira, quando uma pessoa quer saber o que está acontecendo no mundo ou na sua cidade, ela lê o jornal local, liga a TV no programa que a mantém atualizada dos acontecimentos e vive rodeada desses meios de comunicação para não se sentir alienada. Hall (1987 apud HALL, 2002, p.13) compartilha deste ponto de vista ao afirmar que: “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.”. E a mídia, sem que nós percebamos, nos “rodeia” dentro do carro quando escutamos o rádio, na academia quando andamos na esteira e assistimos à televisão. Na hora do almoço, quando sentamos à mesa para prestar atenção no jornal, ou seja, a mídia e as informações que são colocadas para a sociedade podem sim transformar uma identidade.

Qualquer matéria apresentada num jornal famoso como a Folha de São Paulo ou num telejornal com grande audiência como o Jornal Nacional (Rede Globo) pode criar com o receptor da mensagem um vínculo que abrange confiança e credibilidade, que pode fazer com que o telespectador crie uma identificação com a opinião que está sendo exposta na matéria, com o jornal e com a emissora. No caso da Copa, se uma pessoa leu apenas jornais que falavam mal do torneio, que destacavam o possível fracasso de sua administração ou o atraso na entrega dos

(15)

estádios1 e não teve acesso a notícias que falavam sobre aspectos positivos para o país, como, por exemplo, o crescimento da cidade-sede Curitiba, acabou ficando propenso a se identificar muito mais com essas notícias que referenciaram a Copa como um problema do que como algo bom para a nossa nação. A capital do Estado do Paraná, Curitiba, por pouco não participou da Copa, por atrasar a reforma da Arena da Baixada, deixando para o último minuto a sua conclusão. No entanto, a infraestrutura da cidade deu um “salto” e as diferenças de Curitiba de antes e depois de se tornar uma das cidades que recebeu o Mundial puderam ser vistas pelos moradores e por seus visitantes. Segundo o site da Prefeitura Municipal de Curitiba:

Fazem parte desse conjunto de obras a extensão da Linha Verde, uma importante via de ligação da cidade; a reforma da Rodoferroviária e de um dos maiores terminais de ônibus urbanos de Curitiba; e a implantação de um sistema de controle e monitoramento de tráfego. A cidade também ganhou novas trincheiras, viadutos e binários e várias ruas foram revitalizadas. (CURITIBA, 2014).

Dessas obras, a trincheira de Guabirotuba ficou pronta em outubro de 2013, oito meses antes da estreia do Brasil na competição.

Contudo, quando é colocada em questão a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, outra identidade entra em cena neste “jogo de identidades”, que vimos acima. A identidade com o Mundial pôde ser criada temporariamente, de acordo com o que saiu nos veículos de comunicação, com o que foi postado em redes sociais, conversado em rodas de amigos e que, de alguma forma, influenciou as pessoas a ter uma imagem positiva e/ou negativa desse evento. Entretanto, não podemos esquecer que o Brasil tem uma identidade cultural (nacional) muito forte, que é de um povo conhecido como apaixonado pelo futebol e pela sua seleção. E é desta identidade nacional originada da cultura nacional, que vamos retratar a seguir.

Porém, antes de aprofundar o estudo sobre a identidade e a cultura nacional, vamos apresentar em primeira instância o conceito de cultura que Azevedo (1986) expõe em seu livro, Comunidades Eclesiais de base e inculturação da fé:

Conjunto (complexo) de sentidos e significações, de valores e padrões, incorporados e subjacentes aos fenômenos perceptíveis de ação e comunicação da vida de um grupo ou sociedade concreta.

1 Veremos alguns exemplos destas manchetes negativas sobre a Copa do Mundo no Brasil, no próximo capítulo: País-sede.

(16)

Um conjunto que, consciente ou inconscientemente, é vivido e assumido pelo grupo como expressão própria de sua realidade humana e passa de geração em geração, conservado assim como foi recebido ou transformado efetiva ou pretensamente pelo próprio grupo. (AZEVEDO, 1986, p. 413-416).

Como falamos anteriormente, as identidades nacionais são criadas pela cultura nacional. Em seu livro: A identidade cultural na pós-modernidade, Hall (2002, p.48) as define brevemente: “[...] as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da

representação.”. Hall (2002, p.48) acredita que a nação ou um país, “não é apenas

uma entidade política, mas algo que produz sentidos – um sistema de representação

cultural.”, ou seja, as pessoas que são de uma nação fazem a “cara” desse país, são

elas que constroem o lugar onde vivem e que dão continuidade e sentido a este mesmo lugar. Uma nação pode ser reconhecida pelos acontecimentos históricos, pelo tipo de pessoa, de ideia, tradição ou costume. O Brasil, por exemplo, é conhecido como o país do futebol em todo o mundo, e, por consequência disso, a população brasileira é vista como apaixonada pelo futebol e esta paixão acaba representando nossa cultura, ou nos representando. Além disso: “uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos.”. (HALL, 2002, p.50).

Até certo ponto do livro: A identidade cultural na pós-modernidade, Hall (2002) designa a cultura nacional como unificada, isto claro, antes da globalização. Entretanto, a partir do momento que ela é definida e examinada com mais cautela, essa questão acaba sendo colocada em cheque, principalmente quando entram em evidencia as muitas diferenças que uma nação possui. Diferenças de classe sociais, de etnia, de religiões, entre outros outras:

Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-las como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Elas são atravessadas por profundas divisões e diferenças internas, sendo ‘unificadas’ apenas através do exercício de diferentes formas de poder cultural. Entretanto – como nas fantasias do eu ‘inteiro’ de que fala a psicanálise lacaniana - as identidades nacionais continuam a ser representadas como unificadas. (HALL, 2002, p. 61 e p.62).

(17)

Apesar de todas as diferenças que envolvem um povo ou uma nação, a identidade nacional que deriva da cultura nacional continua sendo identificada como unificada, apesar de as pessoas não terem as mesmas descendências e o mesmo jeito. Porém, com a globalização no final do século XX, essas identidades foram se modificando e andando de acordo com as culturas nacionais. As identidades que antes eram unificadas acabaram ficando deslocadas ou pluralizadas:

O que é importante para nosso argumento quanto ao impacto da globalização sobre a identidade é que o tempo e o espaço são também as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. Todo meio de representação – escrita, pintura, desenho, fotografia, simbolização através da arte ou dos sistemas de telecomunicação – deve traduzir seu objeto em dimensões espaciais e temporais. (HALL, 2002, p.70)

Hall (2002, p.73) afirma que: “Colocadas acima do nível da cultura nacional, as identificações ‘globais’ começam a deslocar e, algumas vezes, a apagar, as identidades nacionais.”. Cada vez mais as pessoas estão ligadas com o mundo, compartilham ideias e tradições numa viagem ou via internet, dialogam e trocam informações sobre os seus países de origem, encurtando assim as distâncias de culturas e aproximando cada vez mais as identidades, já que é normal uma pessoa se identificar com alguma coisa que vê, não só no seu país, como também em outros. Esta conexão pode ser chamada de aculturação, que é o: “Processo de transformações que se verificam numa pessoa ou grupo pelo contato com uma cultura que não é a sua ou pela interação de duas ou mais culturas distintas.”. (AZEVEDO, 1986, p. 413-416). Então, tudo o que é exposto para todas as culturas nacionais, e as nossas culturas nacionais que são expostas para outros países, podem influenciar para que a identidade nacional mude e crie outra vertente:

Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação globalmente interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas – desalojadas – de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem ‘flutuar livremente’. (HALL, 2002, p.75).

A globalização pode interferir nas identidades culturais, mas isso não quer dizer que ela é a única “culpada” disso. As identidades estão expostas às mudanças que também dizem respeito às questões políticas e históricas, ou seja, a identidade é constituída por representações.

(18)

Essas representações por sua vez, estão inseridas dentro de um país, de uma cidade ou de um bairro. As pessoas criam essas identidades, de acordo com o que está perto delas e então acontece a endoculturação: “Processo pelo qual uma pessoa é introduzida à sua própria cultura. Sublinha a relação do indivíduo à sua cultura, assim como o termo paralelo - socialização - do vocabulário sociológico e psicológico enfatiza a relação da pessoa no seu contexto social.”. (AZEVEDO, 1986, p. 413-416).

Até o exato momento, foi exemplificado, no capítulo atual, o significado de identidade e suas vertentes, e como ela pode transparecer numa pessoa para que ela se torne mais “cidadã” dentro do seu país de origem (Brasil). Entretanto, uma das identidades mais características, que é a identidade do “apaixonado pelo futebol”, ainda não foi estudada. Para aprofundar o entendimento desta identidade, devemos analisar o que o futebol representa para os brasileiros.

O brasileiro ama o futebol e ama a Copa do Mundo. Esse amor faz parte da tradição que é esse esporte no país, essa paixão já faz parte da personalidade das pessoas que aqui vivem. Não é dúvida para ninguém que o Brasil é o país do futebol. Desde a sua popularização, nas primeiras décadas do século XX, quando o esporte era voltado exclusivamente para as classes sociais mais favorecidas e posteriormente os primeiros times foram criados por funcionários de fábricas, o Brasil exporta e já exportou centenas de jogadores para a Europa e outros continentes, e por diversas vezes jogadores brasileiros foram escolhidos como os melhores jogadores do mundo, recebendo a bola de ouro da FIFA. (ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014). Todos esses destaques favoráveis ao país engrandeceram ainda mais a paixão do brasileiro pelo futebol, que ultrapassa barreiras e cresce cada vez mais todos os anos. Os torcedores viajam frequentemente para ver seus times em campo, pagam ingressos caros, passam frio e calor e se reúnem para assistir jogos em bares, em casa com a família, e praticamente respiram o universo futebolístico. Os homens principalmente, pois, além de assistirem, ainda jogam pelada com os amigos durante a semana, ou nos finais de semana; jogam futebol dentro das escolas na aula de educação física e geralmente são os presidentes de torcidas organizadas por possuírem uma identificação maior com o futebol. Essa identificação com o futebol consiste, uma vez que esse é um esporte praticado em grande parte por homens, certas vezes pode ser agressivo e de difícil entendimento em relação a algumas regras, como por

(19)

exemplo, o impedimento de um gol. Porém, hoje em dia, mais e mais mulheres estão gostando de futebol, indo assistir seus times nos estádios, matriculando-se em cursos de juízes e bandeirinhas e criando até torcida organizada. Além disso, o futebol feminino também está crescendo num âmbito mundial, recebendo destaque principalmente nas olimpíadas e nos torneios como a Copa do Mundo do futebol feminino.

Desde o final do século XIX, quando os ingleses trouxeram o esporte para o Brasil, o futebol começou a esculpir a identidade nacional. Primeiro, os brasileiros se identificaram com o esporte e depois criaram sua identidade apaixonada pelo futebol, que perdura até hoje. Claro que essa paixão se intensificou a partir da Copa do Mundo de 1938, quando o Brasil ficou em terceiro lugar no torneio, fazendo uma partida belíssima na Itália, mostrando que tinha potencial para ir mais adiante neste tipo de competição. Todavia, foi no ano de 1950, quando a Copa ocorreu no Brasil, que o esporte caiu no gosto do povo e virou tradição no nosso país. Nessa ocasião, a derrota para o Uruguai na final gerou a união de diversos cidadãos brasileiros, sendo eles pobres ou ricos. No dia da final, o Maracanã estava lotado e os torcedores fizeram uma festa incrível que é lembrada até hoje. Essa união pode ser traduzida como a identidade nacional, que nada mais é que cidadãos que gostam, são apaixonados e estão juntos seguindo um mesmo ideal. Apesar de todas as diferenças do Brasil, no que diz respeito principalmente às classes sociais, os brasileiros acabam se tornando um só quando o assunto é futebol, e pelo menos uma vez em cada quatro anos se abraçam e esquecem de que pertencem a “mundos” diferentes. (ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014).

As Copas seguintes reafirmaram ainda mais o amor dos brasileiros pelo futebol e pela seleção brasileira. A vitória na Copa de 70 no México é um exemplo disto. A conquista da taça para o Brasil fez com que os brasileiros tivessem alegria e orgulho de sua própria seleção, principalmente pelo fato de que foi nesta Copa que o Brasil se tornou o primeiro tricampeão em Copas do Mundo, com os títulos de 58, 62 e de 70 na casa dos mexicanos. (CABO; HELAL; SILVA, 2010).

Quando o Brasil foi campeão mundial pela terceira vez no país da tequila e dos nachos (México), levando para casa a taça Jules Rimet, além de os brasileiros de todos os estados comemorarem, um em especial estava muito satisfeito com mais uma conquista do Brasil e ele se chamava Emílio Garrastazu

(20)

Médici, o presidente do Brasil na época. Durante todo o torneio, antes mesmo de a seleção trazer a taça para o Brasil, Médici usou de toda a popularidade do futebol e da Copa do Mundo a seu favor, utilizando a mídia nacional para que isto fosse reforçado. Era a primeira vez que uma Copa do Mundo era transmitida na TV e praticamente todos os jornais veiculavam por comando de Médici as informações que ele queria que o povo soubesse. E esse fator ajudou e muito para que os brasileiros fossem influenciados a “aturar” ou até, a aceitar mais o governo, que usou a paixão pelo futebol como isca para que isso fosse concretizado. Apesar de a alegria da vitória contagiar os brasileiros, a situação do Brasil não era das melhores, dado que, o país vivia uma época de ditadura militar, que ocorreu do ano de 1964 até o ano de 1985. Médici era o responsável por uma ditadura militar pesada, que torturava as pessoas que eram contra o seu regime militar; usou da mídia a favor do seu governo e o igualou com o futebol, dizendo que os jogadores eram exemplos aos cidadãos, por defender a nação. No decorrer de toda a competição, vários jornais noticiavam esta comparação com o futebol e o governo Médici, que atingiu a população em cheio, por ser influenciada pelo que estava sendo publicado, como também pelo fato de essas notícias estarem sendo associadas a um esporte que era idolatrado naquele ano. (ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2014).

Na época do torneio de 1970, até uma música foi criada para fazer publicidade do governo e principalmente do então presidente: “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil no meu coração. Todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente, parece que todo Brasil deu a mão!”. (GUSTAVO, 1970). Apesar de todos os problemas que ecoavam por todos os estados brasileiros, era essa canção que embalava a população na época da Copa do Mundo de 70.

O fato de a seleção brasileira ter bons resultados nas Copas do Mundo, quase sempre indo para a final e ganhando até agora cinco troféus, fez com que a ligação do brasileiro com o futebol e a ligação do brasileiro com a Copa do Mundo fosse infinitamente maior de acordo com os anos. Além das Copas do Mundo, o brasileiro também é muito envolvido com o campeonato brasileiro e agora, mais precisamente no século XXI, está cada vez mais interessado em competições do continente Europeu. Se o Brasil tivesse ganhado a Copa do Mundo de 2014, seria a

(21)

primeira seleção a ser hexacampeã do mundo, mas esse sonho tão esperado pelos fanáticos do futebol foi frustrado2.

Infelizmente, o futebol não está relacionado apenas com o esporte em si; existem muitas questões políticas e burocráticas por trás de todo este espetáculo. O esporte já esteve ligado a algumas tragédias do nosso país, como na época da ditadura, quando os que protestavam eram machucados, torturados e exilados, e a censura eclodia no país. Apesar disso, o futebol também une as pessoas e serve de distração para amigos, conversas entre pessoas desconhecidas, gera abraços e gritos unidos por um mesmo motivo, sendo “esquecidas” assim todas as diferenças que existem neste país. Todos criam uma identidade de irmãos, mesmo quando os pais não são do mesmo sangue. São deixadas de lado as diferenças religiosas e de estilos musicais, e em época de Copa até os vascaínos e os flamenguistas se abraçam, já que estão juntos por um mesmo ideal e torcem pela mesma seleção. Sem dúvida alguma, o futebol e a Copa do Mundo são um dos únicos motivos para que pessoas com vidas tão distintas se tornem uma só nação, verdadeiramente. Eles proporcionam um “momento especial”, que é exposto no livro O que é

sociologia do esporte do autor Ronaldo Helal:

De saída nos damos conta de que os eventos esportivos são vividos como momentos especiais, destacados da vida diária e ocorrendo em lugares apropriados que lhes conferem um caráter extraordinário. É como se o espetáculo esportivo proporcionasse uma pausa naquilo que podemos chamar de “vida real”, a vida do dia-a-dia, do trabalho, das contas para pagar, dos problemas familiares, etc. Na verdade, essa tendência a se destacar da vida diária, a se constituir em um momento especial, de celebração e de festa, é não somente própria do universo esportivo, como também incentivada pela sociedade mais ampla, que elege o esporte para expressar os seus sentimentos mais profundos. Isto porque todas as culturas exaltam e comemoram aquilo que as fazem diferentes e únicas a seus próprios olhos. (HELAL, 1990, p.61).

O Brasil nesse contexto faz do futebol a sua principal festa e respeita e vivencia a Copa do Mundo como ela de fato é: o evento futebolístico mais importante do Mundo.

2 Falaremos sobre a derrota da seleção brasileira na semifinal da Copa do Mundo do Brasil no desfecho deste Trabalho de Conclusão de Curso.

(22)

3 PAÍS-SEDE: CRÍTICAS AO MECANISMO DA IMPRENSA BRASILEIRA

O país-sede da Copa do Mundo de 2014, Brasil, foi escolhido há sete anos, no dia 30 de outubro de 2007, pelo Comitê Executivo da FIFA, na maior cidade da Suíça, Zurique. (GLOBO ESPORTE, 2007). Apesar do COL (Comitê Organizador Local), ter possuído um tempo amplo do dia da escolha até a abertura da Copa, que ocorreu no dia 12 de junho de 2014, em São Paulo, os atrasos de construções e reformas que não ficaram prontas a tempo do Mundial acabaram manchando a organização pré-copa no país do futebol.

Durante toda a preparação para a Copa do Mundo e principalmente a partir do ano de 2013, um ano antes de a competição começar, todas as obras que foram iniciadas ou que já estavam em andamento para que a Copa fosse realizada com sucesso viraram a principal pauta nos veículos de comunicação do Brasil e do Mundo. Nos meses que antecederam o torneio, bastava ligar a TV ou o rádio, procurar na internet ou abrir um jornal para ver, ouvir e ler notícias que exaltavam os atrasos e o gasto abusivo com o Mundial no Brasil. Todos os dias até a abertura da Copa, em junho de 2014, foram expostas matérias e reportagens sobre atrasos nas reformas dos estádios, sobre as construções superfaturadas, as possíveis corrupções e escândalos relacionados às manifestações das organizações “anti-copa”. O enfoque principal da imprensa brasileira era mostrar o quanto o Brasil estava gastando para sediar a Copa, e, além disso, expor nacionalmente e internacionalmente uma dúvida sobre o evento no Brasil poder ser um possível fiasco e motivo de vergonha.

A mídia acabou negando o valor do Brasil, quando insistiu em mostrar que não tínhamos condições de um acolhimento internacional do porte desse evento, duvidando assim de uma boa organização do Mundial. Antes do grande espetáculo chamado: Copa do Mundo, os meios de comunicação reforçaram a nossa inferioridade cultural. Nesse contexto, tem toda a razão a exigência de Ribeiro (2006) quando diz no documentário: O Povo Brasileiro, A Invenção do Brasil, que: “é preciso negar as negações sobre nós mesmos.”. Infelizmente, a mídia começou a negar as negações apenas quando a Copa foi iniciada, como veremos detalhadamente mais adiante.

(23)

No livro Notícia, Um Produto à Venda: Jornalismo na Sociedade Urbana e

Industrial, Medina (1988) destaca em um de seus capítulos a situação da imprensa

de São Paulo do século XX, época em que o livro foi escrito. Apesar de ser uma informação de décadas atrás, a definição que ela utilizou para descrever as notícias num modo geral, ainda pode ser designada para as notícias atuais, como também serve de explicação para estas informações maldosas sobre a Copa de 2014 terem sido a escolha preferida das redações: “as notícias predominam no dia-a-dia, carregadas de dupla função de informar/distrair.”. (MEDINA, 1988, p. 71). Além disso, Medina (1988) reforça que as notícias têm o objetivo de atingir o nível da massa de leitores, com manchetes de polícia, entrevistas, novidades da “sociedade”, entre outras.

As matérias que mostravam comparações com outros países que sediaram a Copa, enfatizando principalmente a diferença com as despesas realizadas na Alemanha em 2006 e na África do Sul em 2010, também predominaram nas manchetes de diversos veículos, em especial, corporativos. Para se ter uma noção, uma matéria com o título, Gastos com estádios fazem Copa do

Mundo no Brasil bater recorde de custos, foi publicada no ano de 2010, quatro anos

antes de a Copa do Mundo ser realizada no Brasil. Na época, o país tinha investido pouco mais de R$ 5 bilhões de reais nas reformas e obras para o torneio e apesar de o número ainda não ter atingido os gastos feitos pela Alemanha e estarem abaixo do total final que foi utilizado para produzir a competição no Brasil, os meios de comunicação já intitulavam o Mundial de 2014 como o mais caro de todos os tempos. (R7 ESPORTES, 2010).

Três anos depois, a comparação dos custos do maior espetáculo do futebol executado no Brasil com os demais países-sede de Copas anteriores continuou sendo pauta na mídia brasileira. Uma matéria da Revista Época, edição virtual, escrita por Luana Martins, fez questão de reafirmar que a competição na nação dos amantes do esporte seria a mais cara da história: Governo admite que o

Mundial de 2014 deve atingir R$ 28 bilhões em julho e pode custar até R$ 33 bilhões, era a informação contida em seu título. No decorrer desta mesma notícia

são comentadas as despesas em obras e infraestrutura; entretanto, uma frase sensacionalista exposta no decorrer da notícia chama a atenção e auxilia na afirmativa de que a mídia corporativa e alternativa queria prejudicar a imagem da Copa: “[...] não é apenas a quantia de dinheiro que sai dos cofres brasileiros que

(24)

aumenta.”. Martins (2013) quis dizer que todo o custo da Copa estava saindo dos cofres públicos, sendo que diversas construções foram financiadas por empresas privadas, além do apoio dos governos estaduais: “[...] não há dinheiro do orçamento da União nos estádios. Eles foram erguidos com financiamento do BNDES, recursos locais e recursos da iniciativa privada e somam R$ 8 bilhões.”. (PORTAL DA COPA, 2014). Esta matéria exposta no portal online da Revista Época foi publicada no dia 21 de junho de 2013, mês em que as notícias contra a Copa começaram a fervilhar em todos os cantos do país, após as manifestações contra a tarifa de ônibus, que acabaram virando um protesto contra a Copa do Mundo no Brasil, quando as pessoas pediam um Brasil com educação e saúde “padrão FIFA”. Se analisarmos com cautela, podemos perceber que a diferença de custo de R$ 5 bilhões de reais para R$ 28 bilhões é gigantesca; todavia, o intuito das duas notícias foi enfatizar mais a comparação e os problemas relacionados com a Copa de 2014 do que os próprios valores divulgados. Isto pode ser reafirmado observando os títulos das matérias anteriores, que em nenhum momento falam de números, e sim que a Copa do Mundo do Brasil foi a mais cara que as Copas anteriores. É claro que os valores para dar cor a este evento em países como a Alemanha e África do Sul são bem distintos do custo para concretizar a Copa no Brasil, porém devemos analisar algumas informações para perceber o porquê de uma comparação dessas ser totalmente fora dos padrões jornalísticos “aceitáveis” e de “mau” gosto, com o único intuito de implantar uma imagem negativa do torneio na população brasileira.

De acordo com a última atualização feita na “Matriz das Responsabilidades”, um documento realizado pelo Governo Federal e as cidades-sede da Copa, contendo todas as informações do evento da FIFA, foram gastos R$ 28 bilhões de reais entre reformas em aeroportos, estradas, mobilidade urbana e infraestrutura, num total de 51 obras. O gasto previsto era de R$33 bilhões de reais para dar vida ao maior acontecimento do futebol mundial no país “verde e amarelo”. Apesar de este número ser muito alto, o Governo deixou claro que o valor estava dentro do orçamento, mas não chegou a afirmar se tinha investido todo esse dinheiro para realizar a Copa ou se tinha ultrapassado esse valor. (EM TEMPO, 2014).

A África do Sul, por exemplo, sediou a Copa do Mundo em 2010 e gastou cerca de R$ 7 bilhões de reais. Fazendo uma breve relação, podemos perceber que o Brasil subiu e muito o preço de um Mundial. Também foi possível perceber o que

(25)

acontece após um país sediar uma competição esportiva tão grandiosa, já que, mesmo gastando cerca de R$ 21 bilhões de reais a menos que o Brasil gastou para realizar a Copa, a África do Sul não conseguiu arrecadar mais do que investiu, saindo assim no “prejuízo”. Porém, devemos pontuar que a África do Sul perdeu dinheiro, mas ganhou muito com as melhorias feitas para que o evento fosse realizado, visto que a infraestrutura das cidades-sede obteve um grande avanço para receber o evento e os turistas. E, com o fim da Copa, os turistas foram embora, mas o que foi feito em benefício às cidades e consequentemente aos moradores permaneceu no país africano. (PLACAR, 2011).

Já a Alemanha, que foi o país-sede da Copa do Mundo em 2006, gastou cerca de 10,7 bilhões de reais para fazer a Copa, ou seja, um valor inferior ao que foi desembolsado pelo Brasil. Contudo, pontuar esses gastos diversificados destes países para realizar uma Copa é querer utilizar desses dados para reforçar uma identidade ruim sobre a Copa do Mundo no Brasil, principalmente pelo fato de que a realidade destes outros países, principalmente a Alemanha, é totalmente diferente da realidade atual do Brasil. É evidente que os gastos com a Copa nestes países comparados com o Brasil apresentam uma diferença significativa. Porém, seria sim uma comparação justa se os dois países, Brasil e Alemanha, por exemplo, tivessem o mesmo nível de desenvolvimento, de tecnologia e se os dois fossem uma potência mundial. É nítido que a Alemanha não precisou melhorar sua mobilidade urbana, suas estradas ou seus aeroportos para receber a Copa, ao contrário do Brasil, que usou a liberação de recursos que um torneio deste tamanho viabiliza para obras e reformas, para que assim fosse possível o país obter um maior desenvolvimento. Assim que a Alemanha foi escolhida como país-sede da Copa de 2006, já deu início às reformas e construções dos estádios e quase não teve que fazer construções às pressas. (MARTINS, 2013).

Querer evidenciar essas comparações para gerar tumulto e sensacionalismo nas matérias, reportagens e postagens foi um dos meios mais aplicados nas redações e acabou tomando conta do universo dos meios de comunicação que de certa forma influenciaram vários brasileiros a se opor ao Mundial, antes mesmo de ele começar.

É inevitável não afirmar que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil foi o alvo certo da mídia brasileira, desde sua preparação até o seu fim. Uma das grandes causas desse ocorrido ter alimentado muito as redações de todos os meios de

(26)

comunicação foi motivada por este ser o maior evento futebolístico do mundo, ou seja, ele é um acontecimento de consumo garantido:

Os grupos econômicos e políticos se esforçam, na medida do possível, em avivar as mensagens de opinião e os temas mais particulares – locais, bairro, lutas no plano municipal, estadual e federal. E os acontecimentos de consumo garantido, pela importância internacional ou imediata de seus efeitos, provocam um esforço dos editores em complementar as matérias com contexto, antecedentes, opiniões de especialistas e um nível mais profundo de humanização. (MEDINA, 1988, p. 72).

Por ser um acontecimento de consumo garantido, a Copa do Mundo necessitou de uma cobertura grandiosa; entretanto, a mesma obteve duas vertentes no que diz respeito à propagação de informações associadas a ela. Em cada um dos momentos, a preparação e o andamento da “festa” do futebol, as notícias foram mostradas de um ângulo diferente quando divulgadas para a população. Antes de a Copa começar, a imprensa tradicional brasileira estava focada em expor as obras que não estavam prontas, preferindo mostrar diferenças dos gastos das Copas anteriores, como já foi enfatizado nos parágrafos anteriores, e principalmente falava e muito dos erros do Brasil e do governo brasileiro. O curioso, ou então podemos substituir por “o esperado”, é que essas comparações e todos esses títulos negativos sobre o Mundial de 2014 no Brasil diminuíram a partir do momento em que a Copa do Mundo começou. O artigo publicado por Luciano Martins Costa no Blog Observatório da Imprensa, uma mídia alternativa, exemplifica essa situação com autenticidade. O título, A imprensa no clima da Copa, já diz muito; e os dois primeiros parágrafos explicam o que realmente aconteceu com a mídia brasileira perto de a Copa do Mundo no Brasil ser iniciada:

A imprensa brasileira entrou em clima de Copa do Mundo. Com reportagens, entrevistas e artigos, os jornais se afastam dos pessimistas e seguem em alegre caravana para a Granja Comary, em Teresópolis (RJ), onde os jogadores da Seleção se reúnem na segunda-feira (26/5) para começar os treinamentos.

[...] Daqui para a frente, é de se esperar um engajamento cada vez maior dos três principais diários de circulação nacional no projeto do hexacampeonato. Nas edições de segunda-feira (26) já se pode observar uma mudança significativa nas primeiras páginas, e o noticiário sobre uma suposta crise econômica se dilui como o vinho na água. Mesmo a Folha de S. Paulo, que procura se apresentar como um jornal crítico ao nível da rabugice, vem com um caderno de esportes leve e festivo. (COSTA, 2014).

(27)

Além disso, o texto ainda traz uma crítica ao jornalismo feito antes e durante a Copa, ou a metamorfose pelo qual ele passou:

Certamente, entre os efeitos do grande evento está a produção de certa amnésia que apaga a memória de tantos escândalos patrocinados pela entidade. Mas é tempo de futebol e, como se sabe, quando a bola começa a rolar, o jornalismo se transfere para as arquibancadas, e a mitológica objetividade vai para o chuveiro. (COSTA, 2014).

A mudança drástica nos noticiários foi percebida até por jornais do exterior, que esperavam uma catástrofe na Copa do Brasil, devido à imprensa brasileira alarmar tanto os problemas e causar a desconfiança de que a disputa entre as melhores seleções do mundo pudesse ser concretizada com sucesso; aliás, a imprensa internacional acreditava que a Copa do Mundo seria um fiasco. Eles não criaram essa imagem negativa segundo seus próprios instintos. A própria imprensa brasileira manchou a preparação do torneio mais grandioso do futebol, pois a todo o momento comunicava sobre os atrasos, as manifestações, a violência, as greves nos metrôs e isso fez com que a mídia internacional achasse que a Copa seria um fracasso. No entanto, após o apito do juiz no primeiro jogo da Copa, quando o Brasil jogou contra a equipe da Croácia, o tom mudou. A imprensa brasileira só falou bem do Mundial e a imprensa internacional não entendeu nada. A única opção que restou foi entrar na onda da “surpresa” boa da Copa e noticiar os pontos positivos da Copa que até então “não” iriam aparecer. Patrícia Dichtchekenian, do Portal Fórum, escreveu uma matéria que expôs esta mudança nas pautas e notícias difundidas na imprensa internacional:

Para o New York Times, as premonições catastróficas deram lugar a ‘soluços menores” e o coro do pessimismo em escala mundial foi rapidamente substituído por uma grande euforia coletiva – fenômeno descrito pelo Le Monde como o ‘milagre brasileiro’.

Nos últimos meses, houve uma série de preocupações que permeou a imprensa internacional. Sobre a organização do evento, previa-se que os estádios não estariam prontos, os movimentos sociais “ameaçariam” o andamento dos jogos e os transportes estariam caóticos. Até a escassez de água em São Paulo foi motivo de apreensão para alguns veículos, enquanto outros questionavam o efeito das altas temperaturas da Amazônia e as suas consequências para os jogadores europeus. Segundo o jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o que os brasileiros estavam realmente ansiosos era por ‘um Brasil melhor’. (DICHTCHEKENIAN, 2014).

O pessimismo que envolveu a Copa do Mundo no Brasil foi tão grande que até os brasileiros se surpreenderam com um evento “organizado”, sem muitos problemas visíveis a olho nu, podemos dizer. Não teve vergonha, (não estou incluindo a

(28)

partida contra a Alemanha, que falaremos mais a frente), grandes confusões, ou um vexame como era anunciado pela mídia brasileira e respectivamente pela mídia internacional: “Apesar de parte das críticas dos jornais internacionais terem tido fundamento, a histeria coletiva dos pessimistas só serviu para exportar o complexo de vira-lata do brasileiro [...]”. (DICHTCHEKENIAN, 2014).

Uma das empresas jornalísticas que julgou mal a Copa do Mundo, antes mesmo de ela acontecer, expondo matérias sensacionalistas e dando ênfase ao fracasso que poderia ser esta competição no Brasil é o mesmo veículo que faturou muito com a audiência das transmissões dos jogos do Mundial: “Só com o que é pago pelos patrocinadores, a Globo embolsou cerca de R$ 1,44 bilhão. O preço de tabela por cota de patrocínio era de cerca de R$ 180 milhões. Adicione à conta o que o grupo ganha com a retransmissão dos jogos para outros veículos.”. (COLETIVO INTERVOZES, 2014). A realidade é que a imprensa está “superficialmente” dos dois lados da moeda, ou seja, não quer perder em nenhum aspecto e por isso às vezes (ou quase sempre), é hipócrita.

A partir do momento que foram iniciadas as partidas e os jogos começaram a ser transmitidos na televisão, todas essas manchetes maliciosas foram colocadas de lado e todo o brilho e a magia da festa mais esperada por todo o mundo e que só acontece de quatro em quatro anos entrou em cena. Notícias sobre os problemas da Copa no Brasil foram entrando em extinção e as notícias sobre a seleção, as transmissões dos jogos, as reportagens de crianças que invadiam os treinos da seleção brasileira e recebiam o carinho dos jogadores viraram pauta nos mesmos veículos de comunicação que só destacavam o lado “podre” do torneio no país. Essa mudança na cobertura da Copa do Mundo gerou dúvidas e questionamentos na imprensa internacional, como já foi citado nos parágrafos anteriores, que percebeu a mudança repentina das matérias que antes eram totalmente negativas e alarmantes, para notícias que exaltavam a linda Copa que o Brasil estava realizando.

A verdade é que toda essa exposição dos malefícios que a Copa do Mundo poderia trazer para os brasileiros e que permaneceu na mídia por todos os anos que antecederam a competição e principalmente meses antes, trouxe consequências e sugestionou a população, de que a Copa seria ruim para o Brasil, o que fez com que muitos brasileiros tivessem objeções sobre o Mundial, principalmente na época dos seus preparativos. Enquanto o país do futebol se

(29)

preparava para receber turistas de todo o mundo, delegações das seleções participantes, e as obras e construções estavam a todo o vapor, o olhar “maldoso” da mídia, criou uma dúvida cruel na cabeça dos brasileiros, que a todo instante se perguntavam se a Copa do Mundo iria trazer mais benefícios do que malefícios para a nação, ou se ela ia ser de fato boa ou ruim para o nosso país e para a nossa economia. Foi neste exato momento de questionamento que a identificação e; consequentemente, a identidade das pessoas em relação a este grandioso evento futebolístico entrou em cheque, e uma nova identidade foi formada: a identidade negativa sobre a Copa do Mundo no Brasil. A crise da identidade/identificação foi gerada pelas notícias veiculadas em âmbito Nacional que a todo instante mostraram faces do torneio, o transformando em vilão ou mocinho, isto claro, dependendo do interesse da matéria, do que eles (os veículos) queriam vender para seus consumidores. Aliás, podemos afirmar que a informação dentro dos meios de comunicação é movida por interesses, seja de quem expõe uma matéria ou de quem vai ter interesse ou não de ler, escutar ou ver a mesma. Medina (1988, p.20) exemplifica em seu livro: Notícia, Um Produto à Venda, que existem alguns critérios específicos para a notícia, segundo alguns autores, eles são: “atualidade, interesse por parte do público, veracidade e facilidade de assimilação ou clareza [...]”.

A criação dessa identidade negativa ou positiva dos brasileiros em relação à Copa esteve totalmente vinculada à mídia, que a todo o momento noticiou essas matérias sobre o espetáculo da FIFA, fazendo assim com que o povo utilizasse dessas fontes para saber se o que estava acontecendo ia favorecer ou não o país, como explica Mercer (1990 apud HALL, 2002, p. 9): “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe como fixo, coerente e estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza.”.

Tudo o que foi noticiado, induzido e manipulado dentro dos meios de comunicação, principalmente consumado por esta mídia comercial que quis martirizar a Copa antes mesmo que fosse iniciada, influenciou e muito nesta identificação negativa do brasileiro com o Mundial e esta influência pôde ser vista nas ruas, com manifestações e protestos de pessoas contra o Mundial e em pesquisas que destacavam o quanto os cidadãos estavam interligados positivamente ou negativamente com a Copa.

(30)

Segundo levantamento da Confederação Nacional do Transporte - CNT/Instituto MDA, realizado em fevereiro de 2014, mais de 70% dos brasileiros estavam descontentes com os investimentos feitos para a Copa, por serem desnecessários. A pesquisa exata mostrou que 75,8% das pessoas entrevistadas em 137 municípios, não concordavam com os gastos que estavam sendo feitos para realizar a Copa no Brasil, e apenas 13,3% dos entrevistados eram a favor dos investimentos efetuados. (ESTADO DE MINAS, 2014).

Essa pesquisa foi realizada com 2.002 pessoas, e teve como tema os investimentos da Copa e não o acontecimento “Copa do Mundo” no Brasil. Já em uma pesquisa feita para saber se os brasileiros eram a favor do Mundial no Brasil, efetuada pelo Datafolha em fevereiro de 2014, mostrou que apenas 52% dos brasileiros eram a favor da Copa no Brasil, uma queda de 13%, já que em setembro de 2013, 65% dos entrevistados eram a favor (FONSECA, 2014). Apesar de essa pesquisa trazer uma queda na porcentagem de pessoas que gostavam da ideia de ter o Mundial no Brasil, sempre existiram mais pessoas a favor do que contra. Porém, era necessária uma queda de 2% para que a população se encontrasse “oficialmente” dividida em questão a achar favorável ou não o evento no Brasil. Além disso, a margem de erro do Instituto de Pesquisa Datafolha é de dois pontos percentuais, tanto para mais, quanto para menos, ou seja, essa divisão já poderia estar instalada no país.

Com o início da Copa, a pesquisa não obteve muitas mudanças. O Datafolha efetuou uma pesquisa seis dias antes da abertura que mostrou que 51% dos entrevistados eram a favor da Copa no Brasil, uma mudança de menos 1% apenas. Porém, o percentual de pessoas contra o Mundial teve uma queda de 6%. Em abril de 2014, 41% das pessoas entrevistadas não eram a favor da Copa; em junho, mês do início do torneio, apenas 35% das pessoas eram contra. (DATAFOLHA 2014). É claro que este resultado “positivo” sobre a pesquisa de quem foi contra a competição estava totalmente relacionado com a ansiedade e a emoção de a Copa do Mundo estar acontecendo no país de origem dessas mesmas pessoas, e é exatamente nesse ponto que a identidade do “apaixonado” pelo futebol ganha força. Outro motivo crucial para existir essa pequena mudança na pesquisa foi a mídia ter “esquecido” as manchetes negativas da Copa e ter colocado em cheque o amor pelo futebol, pela Copa e pela seleção brasileira em sua grade de transmissão.

(31)

3.1 COMO E POR QUE A MÍDIA INFLUENCIA A VIDA DOS BRASILEIROS?

A mídia brasileira usa de diversos procedimentos para que a notícia veiculada nos meios de comunicação sirva de exemplo, de opinião e seja vendida como a versão correta e exata de um fato: “A realidade é transportada para construções lógicas, dedutivas, indutivas, polêmicas e revestidas de juízo de valor”. (MEDINA, 1988, p.111). Diversos autores da comunicação, de diferentes épocas, como Adorno e Jean Lohisse, por exemplo, falam da mensagem jornalística, da informação ou da notícia de uma forma diferente, pois cada um segue a sua teoria. Porém, observando a mensagem jornalística como uma comunicação voltada para a massa, a notícia nada mais é que um produto de consumo e de entretenimento, que faz parte da nossa sociedade e da indústria cultural, como afirma Medina (1988, p.73):“A mensagem jornalística resulta da articulação de um conjunto de elementos estruturais característicos do processo de informação.”. Ou seja, a mensagem jornalística também é uma mensagem codificada e criada por um repórter, que trabalha em um veículo de comunicação, e por seus demais profissionais, como o revisor e o editor-chefe, que lapidam a matéria até ela obter sua estrutura final para ser então divulgada:

A edição propriamente dita amadurece na sala de redação depois que os telegramas estão reunidos ou os repórteres chegaram da rua. O material coligido e em “redação bruta” chega às mãos do editor que vai decidir sua formulação gráfica na página do jornal. Tanto faz se o jornal tem rotinas de diagramação e de redação, como se faz experiências mais livres (caso do Jornal do Brasil do Rio e Jornal da Tarde de São Paulo), é o editor que define a formulação da mensagem. (MEDINA, 1988, p.79 e 80).

Entretanto, uma matéria, reportagem ou até uma pequena nota não são difundidas na mídia de acordo com o que o repórter pensa e idealiza. Tudo o que é postado em sites, publicado em jornais e divulgado na TV passa por um filtro comandado pela empresa jornalística, que, por sua vez, possui seus princípios, como interesses econômicos e políticos dentro do seu mecanismo de comunicação. As matérias expostas aos telespectadores são selecionadas a dedo e as designadas como sem importância perdem espaço e vão para o lixo, como se as notícias fossem frutas e as ditas “podres” não servissem para o nosso consumo. A escolha de uma matéria para ser veiculada na mídia está diretamente envolvida com os interesses

(32)

da empresa de comunicação, ou seja, interesses em ter audiência, ser destaque no noticiário, entre outros, como também a definição das pautas para fazer uma reportagem, que é o início desse processo: “Toda matéria jornalística parte de uma pauta que pode ser intencional, procurada ou ocasional (acontecimento totalmente imprevisto) [...]”. (MEDINA, 1988, p. 73). Dentro desta pauta existe a angulação, um componente da mensagem totalmente vinculado com os “três níveis gerais de comunicação numa sociedade urbana em industrialização ou pós-industrializada: o nível-massa, o grupal e o pessoal.”. (MEDINA, 1988, p. 73). Dentre estes três níveis, dois deles devem ser examinados com cautela para que possamos entender o porquê de tantas notícias negativas da Copa do Mundo de 2014 terem saído na mídia durante o período da sua organização, e em seguida, o motivo da grande mudança nos noticiários, já que os informes positivos viraram o foco dos veículos de comunicação a partir do momento que as partidas começaram.

O primeiro nível a ser estudado será o nível grupal. Este nível anda lado a lado com os interesses da empresa jornalística, e consequentemente com seus interesses internos e externos. Na mídia nada “acontece” por acaso. Ou seja, a pauta e respectivamente a matéria, como já foi mencionado, não vai estar baseada nos ideais do repórter, e sim nos ideais da própria empresa, e esta mesma irá conduzir o conteúdo da matéria e como ela vai ser apresentada ao público. A empresa:

[...] conduz o comportamento da mensagem captada do real à sua formulação estilística. Nem sempre é fácil chegar a esse componente, porque ele não se apresenta claramente. Estudar a presença difusa e subjacente da empresa jornalística na mensagem expressa ou mesmo no comportamento do repórter que aí trabalha é uma tarefa de pesquisas que envolvem instrumental econômico, sociológico e psicológico. (MEDINA, 1988, p. 73).

O nível grupal, que faz parte da angulação, pode ser visto especificamente em matérias e colunas de opinião. A matéria de opinião neste contexto é designada como matéria que quer impor uma característica, um pensamento, influenciar indiretamente as pessoas e não diretamente como uma coluna de opinião. As matérias negativas que falavam sobre os preparativos do Mundial no Brasil e que tinham a intenção de determinar um parecer, um palpite ou uma crítica, transpareciam o nível-grupal em sua formação. A mídia com suas matérias denegrindo a imagem da Copa acabou dando um “empurrão” para grande

(33)

parte da população brasileira ter uma identificação negativa com a Copa, e o resultado disso foi a intensificação de uma identidade negativa podendo ser vista em protestos de alguns cidadãos nas ruas de diversas cidades do Brasil, como em São Paulo, Rio de janeiro e Belo Horizonte. Além disso, os “anti-copa” 3, que possuem esse codinome por terem ido totalmente contra a Copa do Mundo no Brasil, não aceitavam a competição antes mesmo de ela começar a ser desacreditada pela mídia, e eles também iam às ruas pedir uma educação e uma saúde padrão FIFA já no ano de 2013, um ano antes da realização do evento.

A angulação da empresa jornalística sob qualquer matéria que será publicada pode ser localizada também em diversos aspectos jornalísticos, principalmente, como afirma Medina em Notícia, Um Produto à Venda:

[...] em toda a codificação de jornalismo informativo: a seleção dos telegramas, sua formulação no código lingüístico e visual, a orientação dos editores ao corpo de repórteres e a preocupação dos redatores em ‘fecharem’ as páginas de acordo com a política jornalística da empresa manifestam a presença não mais acintosa como nos idos de 40 que Nélson Rodrigues registra em suas peças, mas relativamente sutil de um ‘o patrão quer assim, ele é quem manda’. (MEDINA, 1988, p. 74).

Outro nível que dita às regras nas matérias vistas na mídia e que têm muito a ver com o nosso estudo sobre a Copa do Mundo no Brasil, é o nível-massa, que também está conectado com os interesses e poderes de uma empresa jornalística, porém, apresenta uma preocupação maior com o telespectador, leitor ou ouvinte, ou seja, está mais focalizado em facilitar a vida das pessoas que criam um contato com uma publicação, seja ela de um jornal, ou de um site de notícias na internet: “O nível-massa vai crescendo e se superpondo ao dos grupos políticos e econômicos ligados à empresa, tão logo esta assuma uma caracterização de grande indústria da informação.”. (MEDINA, 1988, p.75). Esse nível também foi detectado frequentemente nas notícias sobre a preparação do Mundial, quando os veículos de comunicação enfatizavam os atrasos de reformas: “Esse outro componente de angulação está difuso em todas as mensagens de jornalismo informativo e de jornalismo interpretativo.”. (MEDINA, 1988, p. 75). Podemos afirmar que as matérias mostradas em programas de TV, capas de jornais, no rádio ou na internet são

3 “Anti-copa”: poderá ser visto mais à frente nesta monografia, um capítulo específico falando e descrevendo os “anti-copa”, que participaram de várias manifestações nas cidades brasileiras, contra o Mundial de 2014.

(34)

mensagens informativas e de interpretação. Fato é, que quando a empresa coloca um pouco que seja de seus interesses dentro de sua matéria, ela mesma pensa na interpretação que quer que seu telespectador tenha da reportagem ou notícia, ela sabe o “estrago” que vai causar, ou tentar, pelo menos. O nível-massa pode ser analisado nas matérias pelos seguintes aspectos:

[...] apelos visuais e lingüísticos, na seleção das fotos, a preocupação em corresponder a ‘um gosto médio’ ou, em outros termos, em embalar a informação com ingredientes certos de consumo. Não só a formulação está relacionada com a angulação-massa, o próprio conteúdo – dados significativos de realidade que passam para a representação – recebe essa influência. (MEDINA, 1988, p. 75).

As matérias relacionadas com a Copa do Mundo no Brasil fazem parte deste contexto, pois são consideradas de interesse de todos, e para se tornarem “atraentes” são utilizadas várias formas para que essas reportagens virem ponto de referência para os seus telespectadores:

Novamente, os telegramas selecionados, sobretudo das famosas histórias de interesse humano, as notícias de grandes olimpianos mundiais, a complementação biográfica pitoresca de certos agentes históricos (políticos, artístico, científicos), que estão angulados pelo nível-massa da indústria cultural. (MEDINA, 1988, p.75).

Títulos chamativos, textos mais determinados a exibir um apelo emocional do que de fato informar passam a ser o foco principal da mídia sensacionalista, ou seja, montar uma matéria que deixe o leitor, telespectador e internauta mais antenado no que está realmente acontecendo não é mais o ponto forte de uma publicação ou do jornalismo atual. O “negócio” da vez é o consumo garantido, a venda propriamente dita das notícias, e a manipulação com fotos em ângulos certos para impressionar valem mais do que a própria informação. A função do jornalista de levar até as pessoas as informações corretas e de uma forma sensata, detalhada e comprometida se desfaz; a notícia se torna uma mera mercadoria.

Ainda dentro da angulação, existem outros três níveis, dos quais dois explicamos melhor, o nível-massa e o nível grupal. Medina (1988) ainda descreve em seu livro três outros níveis secundários que podem ser seguidos através dos níveis massa e grupal, as derivações: informativa, interpretativa e opinativa. Considerando as notícias maléficas sobre a Copa que já exemplificamos no capítulo País-sede, que existiram durante o ano de 2013 até junho de 2014, podemos

Referências

Documentos relacionados

Com base no exposto, pode-se supor que o predomínio de marcação de consulta médica a partir do acolhimento traduziria, primeiramente, ausência de modificações

•   O  material  a  seguir  consiste  de  adaptações  e  extensões  dos  originais  gentilmente  cedidos  pelo 

Os objetivos que o senhor tem em trabalhar com a capoeira, é primeiro é de poder possibilitar que ele que ele vivencie uma cultura corporal nossa isso é muito

A ausência de mulheres liberais na Colônia Cecília é um fator de divisão mesmo dentro do contexto anarquista, conforme a fala do narrador: “as mulheres que

De 100 doentes de doenças agudas que De 100 doentes de doenças agudas que utilizam serviços médicos, não morrem na utilizam serviços médicos, não morrem na miséria em

Além disto vieram também mostrar a urgência de se repensar o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) que, como a não contratação de milhares de

Os resultados encontrados indicam uma associação estatisticamente significativa da remuneração executiva com o Novo Mercado e os Níveis Diferenciados de governança corporativa, que

No Brasil, o roteiro básico para elaboração dos Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) e a lista de verificação de Boas Práticas de Fabricação (BPF) para estabelecimentos