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Durante os primeiros 30 anos

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Durante os

primeiros 30 anos

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urante esses primeiros 30 anos, como tem funcionado a ABEP?

A diretoria, entre 1976 e 1992, era composta por 8 membros. A partir de 1993, a diretoria vem em versão mais enxuta, com apenas 5 membros, e certamente mais econômica do ponto de vista dos gastos necessários para reuni-la. O conselho fiscal, inicialmente, tem 3 membros titulares e 3 suplentes. Também a partir de 1993, são apenas 2 suplentes.

Coleta Oliveira – Do ponto de vista do desenho institucional da ABEP, hoje a diretoria é menor, a gente fez, não me lembro quando foi, a gente enxugou os cargos. Na verdade, era muito caro fazer reunião de diretoria, essa foi uma grande motivação. Eu acho que a ABEP não perdeu com esse enxugamento, ao contrário, acho que ganhou.

Criado em 1992, o conselho consultivo sofre mudanças em 1998, quando passa a ter 3 membros eleitos e 3 membros indicados pela diretoria. Em seu novo formato, o conselho consultivo gera dúvidas quanto à forma como ele tem funcionado. Muitas vezes dispensável no dia-a-dia da associação, sua existência parece fundamental no caso de grandes decisões.

Eduardo Rios-Neto – Eu tenho minhas dúvidas quanto ao conselho [consultivo]. (...) a primeira vigência do conselho foi na [minha] primeira diretoria. A gente quase que esqueceu de convocar o conselho. Foi uma gafe, tivemos que correr atrás porque houve protestos. (...) mas tem um custo operacional alto, porque para você reunir o conselho, são pessoas de vários locais. E tem uma temporalidade que não se coaduna com a temporalidade da associação. Na associação, dois anos é muito pouco tempo. (...) talvez num momento de crise institucional grave, ele possa ser uma instância que

concurso de pesquisa da abep

“a abep está promovendo agora seu iV concurso de bolsas de pesquisa sobre assuntos popula-cionais.” (Informativo Abep, n° 15,

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ajude. (...) a gente faz eleição de dois em dois anos. Se você não der um voto de confiança na diretoria para realizar as coisas, você burocratiza, impõe uma amarra, que eu acho que mais prejudica a associação do que beneficia. (...) quer dizer, eu acho que sou bem mais crítico do conselho, não tenho receio em falar. Eu confio mais na assembléia e em delegar poder efetivo para a diretoria em dois anos, porque dois anos é um prazo muito curto. Se você não delegar poder para ela, e ela não tiver liberdade de se organizar nesses dois anos, fica muito complicado. Você tem que ficar pegando bênção de muita gente. Não funciona, porque o prazo é exíguo e as pessoas não se mobilizam. Sempre quem se mobiliza são os mesmos.

Coleta Oliveira – (...) talvez as novas diretorias, ou as novas chapas, ou as novas articulações tenham que dar mais atenção ao conselho consultivo. Não só do ponto de vista da sua composição, mas do ponto de vista do seu papel na ABEP. (...) nessa gestão [do George Martine], o conselho consultivo opina muito pouco, eu acho. Na minha gestão, também opinou pouco. Enfim, o papel do conselho consultivo ainda é um papel de vaca de presépio. E para a instituição crescer e para a demografia crescer no Brasil, e essas coisas terem um pouco de harmonia, eu acho que esse conselho consultivo tem que ter um papel. Porque é uma forma de você acomodar grupos e vozes institucionais. EDITORIAL

“Não cabe nenhuma dúvida de que ressurge na pauta de preocupações do Estado brasileiro a questão do crescimento populacional, visto como uma das causas básicas dos grandes males que enfrenta hoje a sociedade brasileira. A ‘desenfreada’ reprodução dos pobres continua a ser olhada como um dos responsáveis decisivos pelo futuro negro que nos espreita cada vez mais de perto, pelo aumento crescente do desemprego”. No momento em que o Senado institui uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o ‘aumento da população’ em nosso país, e parlamentares do partido da situação chegam mesmo a propor a criação, de forma vertical, de um Instituto Nacional de Planejamento Familiar, é justa a preocupação de que medidas estejam sendo elaboradas no planalto brasileiro. Esta preocupação se justifica em face aos pacotes cada vez mais pesados que, da noite para o dia, vão sendo colocados sobre os ombros das classes média e trabalhadora, já curvadas pela falta de recursos para o atendimento de suas necessidades mínimas. Muito é dito sobre tudo fazer para que o direito de cada mulher e de cada homem de terem os filhos que quiserem seja respeitado. A tônica atual aqui, bem como nos demais países do bloco dos ‘em desenvolvimento’ é aparelhar os serviços de saúde materno-infantil de recursos para o planejamento familiar, a fim de garantir tal direito. No nível do discurso, esta posição encontra adeptos, mas os mais avisados preocupam-se com o nível da ação, isto é, como a operacionalização de tais recursos para que os parcos disponíveis sejam canalizados para este setor em detrimento de outros mais importantes para a saúde da população.” (Informativo Abep, n°17, abril-junho/1983, pp.1,2).

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George Martine – Hoje em dia nós temos um conselho consultivo grande, com uma diretoria menor, o que facilita, eu acho, juntar as pessoas a um preço mais módico do que naquela época. Por outro lado, dificulta um pouco isso, uma coisa que até quero conversar com as pessoas, sobre a redução do tamanho do conselho consultivo, porque fica um pouco..., incomoda um pouquinho a logística das reuniões do que deveria existir, da interação que poderia existir com o conselho consultivo.

Neide Patarra – Quando o Martine me ligou agora para falar da gestão do conselho, ele insinuou que está pensando em abolir o conselho. (...) eu me lembro que (...) foi a Elza [Berquó que falou] (...), a gente precisa ter um conselho. Quando você enxuga [a diretoria], tem que ter um conselho. E certas decisões, a ABEP tem patrimônio, a ABEP tem compromissos internacionais, a ABEP tem, de repente, (...) conjuntural que de repente até por imaturidade, desconhecimento e tal. O conselho é o respaldo para essas grandes decisões. E esse conselho vai trazendo uma mistura da experiência dos ex-presidentes com pessoas de outras gerações.

Um ponto que merece destaque no funcionamento interno da ABEP é relativo aos GTs – assunto polêmico...

Coleta Oliveira – (...) uma questão com os GTs, que é a idéia de um certo loteamento da ABEP, no sentido de ter coisas fixas na ABEP. A Anpocs também enfrentou isso, não é uma coisa só nossa (...). É complicado mesmo, porque quando surge um espaço, se configura um espaço, esse espaço tende a se cristalizar como espaço definitivo. (...) significa que as pessoas reagem um pouco como “eu estou perdendo espaço”. Eu acho isso uma coisa complicada. De um lado, tem a coisa de como a gente lida com o fato de que existe uma multiplicidade de objetos, de interesses temáticos na associação, e, ao mesmo tempo, que a gente preserve, ou estimule, uma conversa entre essas diversas problemáticas, ou áreas de interesse. É muito ruim quem trabalha com mortalidade ficar só falando com quem trabalha com mortalidade; quem trabalha com fecundidade só falar com quem trabalha com fecundidade, e a gente perder essa visão mais do todo, da dinâmica social e demográfica. (...) acho que é um desafio, o modelo de funcionamento. E não virar, cada GT, cada espaço, uma ABEPinha.

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Eduardo Rios-Neto – (...) eu sou oriundo de GT. Na minha trajetória, eu falei, eu vim do GT. Então, eu sou basista nesse sentido, eu sou de GT. Eu tinha muita dificuldade, porque realmente há muitas críticas aos GTs, como ingerência nas diretorias. E algumas delas, eu acho que fazem sentido. Depois que passei pelos dois lados, eu sou obrigado a reconhecer que a diretoria da ABEP não pode ser uma federação de GTs. Mas, por outro lado, eu acho que os GTs são uma capilaridade essencial na ABEP. Então, é uma coisa contraditória. É uma relação de tensão grande, mas que tem que ter respeito mútuo. (...) uma das coisas que geralmente é difícil é o coordenador do GT ter uma noção de restrição orçamentária, quando ele propõe uma atividade. Então, o calo aperta na diretoria. O tesoureiro é o primeiro. O maior inimigo, geralmente, dos GTs, é o tesoureiro. Depois, é o secretário. Porque o GT quer fazer um encontro paralelo, fora, etc. Essa é uma tensão natural, porque, por outro lado, é disso que sai a vida da associação. (...) é uma coisa meio dupla. Tanto [eu sou] basista, que além dos GTs, eu criei vários comitês. Quer dizer, se tem uma coisa que marcou a minha gestão, foi uma força muito grande que eu dava aos comitês, além dos GTs. (...) então foi muito profícua essa criação de comitês, mas a ponto de muita gente depois achar que isso daí acabou, que perdemos o controle. Quer dizer, era uma coisa grande demais. Eu tenho minhas dúvidas, acho que só o tempo vai dizer.

Criação da ALAP. Eduardo Rios-Neto, Neide Patarra e Fernando Lozaro, Ouro Preto, 2002

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Daniel Hogan – Eu acho que tem uma tensão natural aqui, que todas as diretorias deverão cuidar, é parte da natureza humana de se proteger, proteger os amigos e ampliar o seu tema, mesmo se às vezes às custas da qualidade. A diretoria vai ter que se preocupar, sim, com a inclusão, com a incorporação de pessoas na ABEP, mas ao mesmo tempo fazer um esforço de defender a qualidade. Às vezes isso vai exigir uma cortada de asas dos GTs. Também porque eu acho que tem alguns temas que não são devidamente atacados pela demografia brasileira, no âmbito da ABEP.

Uma mudança importante e relativamente recente na forma de funcionamento da ABEP está diretamente ligada à expansão das comunicações e da disseminação de informações via rede mundial de computadores. Originalmente utilizada pelo GT de População e Gênero, então sob a coordenação de Sonia Corrêa e José Eustáquio Diniz Alves, a lista de discussão é um enorme sucesso. Atualmente, há uma segunda lista, igualmente bem sucedida, que ultrapassa o âmbito de um único GT e discute questões relativas ao tema população e pobreza.

Eduardo Rios-Neto – (...) as redes de discussão que a ABEP gerou, que têm funcionado a contento. Quando uma coisa dessas dá certo, é de soltar foguete. Eu parabenizo, por exemplo, a gestão do George [Martine]. Talvez tenha começado na da Coleta [Oliveira], não sei precisar bem, esse novo mecanismo, que é uma nova atividade.

Quem paga as contas das muitas atividades realizadas pela ABEP? A Fundação Ford teve um papel inicial fundamental, que culmina com o

endowment, dotação de recursos com a qual são adquiridos imóveis em São

Paulo. Aos poucos, foram sendo incorporadas outras fontes de financiamento, tanto nacionais quanto internacionais. Há três estratégias básicas na captação de recursos: financiamento para as várias atividades da ABEP como um todo, financiamento específico para GTs e recursos captados especificamente para os encontros – os quais, se poupados, viabilizam atividades futuras. Até o Encontro de 2002, a ABEP ainda financiava todos os seus participantes. Atualmente, somente os convidados têm sua hospedagem paga pela ABEP e os demais participantes devem se auto-financiar, como ocorre em outras associações.

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José Alberto Carvalho – No início, basicamente todas as nossas atividades, encontros, etc., foram apoiados pela Fundação Ford (...). É claro que a partir daí, mas muito devagar, dentro de uma estratégia muito bem definida, eles passaram a diminuir os recursos, como pouco a pouco a gente procurou fontes alternativas, inclusive junto às próprias agências brasileiras, como o CNPq. Mais tarde, mas não foi de imediato, passou-se também a receber apoio do Fundo das Nações Unidas de População, FNUAP. Mas não foi de imediato. Diana Sawyer – Quando a ABEP foi fundada, a Fundação Ford deu um endowment muito grande. E foi na gestão da Elza que recebe esse endowment, e eu me lembro dela ter dito: eu fiz um investimento de viúva, um investimento seguro, que foi comprar imóveis. A ABEP tem propriedades por conta desse endowment, e recebe aluguéis. Eu me lembro que um dos imóveis, uma sala, que compramos na área nobre, hoje não é mais área nobre, é lá naquela região de Higienópolis, que virou uma área conturbada.

George Martine – Que eu saiba, os primeiros grupos foram os de gênero e meio ambiente, que receberam financiamento especial da Fundação MacArthur.

SEXUALIDADE E REPRODUÇÃO

“Na maioria dos estudos sobre fecundidade da população brasileira vêm sendo utilizados dados provenientes dos Censos Demográficos e mais recentemente se lança mão de informações procedentes do Registro Civil.

Porém, nos últimos anos, pode-se observar que a ABEP está se preocupando gradualmente com a abordagem das variáveis intermediárias no estudo do comportamento reprodutivo. No II Encontro Nacional de Estudos Populacionais, realizado em Águas de São Pedro, 1980, se fez alusão à redução da libido ou a mudanças no comportamento sexual dos brasileiros como um possível fator, dentre outros, da queda da fecundidade no Brasil. Por ocasião do III Encontro Nacional da ABEP, ocorreu uma sessão complementar intitulada ’Mulher, Família e Reprodução’ (...) nesta, foi colocado que a maior parte dos estudos e pesquisas sobre o comportamento reprodutivo no Brasil não tem se preocupado com o comportamento sexual do qual resulta a fecundidade. Ainda se criticou que os estudos pretendem estabelecer relações diretas entre as variáveis sócio-econômicas e o comportamento reprodutivo.

No momento, dentre os grupos de trabalho constituídos para o IV Encontro Nacional de Estudos Populacionais, existe um sob a epígrafe ’Sexualidade e Reprodução’. O Comitê do Grupo de Trabalho organizou o seguinte temário: a) as relações entre os sexos em questão; b) a constituição da sexualidade; c) sexualidade e identidade; d) casamento e outras formas de relacionamento sexual-afetivo; e) planejamento familiar.” (Informativo Abep, n° 18, julho-setembro/83).

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Paulo Paiva – (...) eu acho que a minha contribuição até foi maior do ponto de vista de gestor, de organizar, de captar recursos. Organizamos um encontro, com uma certa facilidade de recursos. Eu brincava, na época, que os encontros me permitiam gerar renda para a ABEP. Fazia os projetos, captava os recursos e acabava gastando menos, então você tinha uma certa facilidade. Financiava todo mundo. (...) bons tempos, exatamente. Eu me lembro que nós conseguimos recursos, o João Sayad era ministro de Planejamento, conseguimos recurso no Ministério de Planejamento também para a ABEP. (...) eu tenho a impressão que mais ou menos foi o fim desse ciclo de uma certa bonança financeira. Depois a crise atingiu o setor público e foram cortando os financiamentos. A ABEP teve depois que se ajustar e reduzir a diretoria. Mas foi um período muito interessante.

Eduardo Rios-Neto – (...) eu consegui captar um recurso para a ABEP, ou seja, para o encontro da IUSSP, por intermédio da ABEP, internacional, que foi uma grant, que a gente conseguiu da Hewlett Foundation, a gente submeteu, eu fiz a consulta, a gente submeteu à Califórnia, e a Hewlett financiou parte dessa assembléia, e financiou (...) um pouco da troca era que a gente usaria o recurso da Hewlett para pagar passagens e diárias de latino-americanos no encontro de Salvador. Acabou que o recurso, nós conseguimos poupar um pouco, porque

XIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, Ouro Preto, Minas Gerais, 2002

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houve muito recurso, nós fomos muito bem sucedidos por esse encontro de Salvador. E parte desses recursos foram usados para o encontro de Ouro Preto, em 2002, onde foi de fato criada a ata, assinada a ata de criação da ALAP. E foi aí o pontapé inicial para a ALAP.

Coleta Oliveira – Mas a Anpur, que é uma entidade mais nova, faz encontros quase que do tamanho da ABEP, ou maiores. Com uma estrutura bem menor, não financiando quase ninguém. E nós ainda temos a coisa do financiamento, tem que estar sempre nos projetos de financiamento com amplos recursos para financiar, apesar de a gente já ter apertado um pouco essa história do financiamento, mas a gente tenta encaixar, na verdade. E a gente não passa de 500, 600.

Eduardo Rios-Neto – (...) eu me surpreendi muito com o encontro da Anpur, realizado em Salvador, com o crescimento do encontro da Anpur, o número de jovens, a diversidade temática, e o fato que a Anpur não subsidia ninguém. Todo mundo que estava lá, estava pagando.

Ah, os encontros! Os encontros da ABEP, que ocorrem a cada dois anos, são momentos de grande efervescência na demografia brasileira. Aguardados com ansiedade, tanto por estudantes quanto por profissionais, os encontros são um período de intensa e profícua discussão acadêmica. São, ainda, momentos para rever velhos amigos. Mas por que a cada dois anos?

José Alberto Carvalho – Eu não me lembro exatamente [o porquê dos encontros a cada dois anos], mas na verdade havia um de problema de recursos. Primeiro, não se deve esquecer que, contrariamente à economia, a demografia tinha muito poucos centros e instituições nas quais se ancorar. Na realidade o que havia? Havia o IBGE, um pouco, um pouco Fundação Seade. No caso o Cedip já tinha sido fechado há muito tempo, inclusive antes da fundação da ABEP, ainda não havia sido criado o Nepo, e havia o Cedeplar. Não se tratava apenas de um problema de recursos financeiros (...). E havia, obviamente, o Cebrap. Então era muito difícil organizar os encontros. A Anpec sempre organizou os encontros dela anualmente. Nós não tínhamos condição, e na realidade nunca se chegou a defender, pelo que eu possa me lembrar, que os nossos encontros fossem anuais. Existiam poucos centros, nós não éramos muito numerosos em termos de pessoas, poucos centros, isso exigia um esforço muito grande. (...) Eu me lembro aqui de um fato

interessante. Não sei se no terceiro ou quarto encontro da ABEP, alguém ousou indicar o nome de alguém da Bemfam para o conselho fiscal da ABEP. Houve um tremendo rebuliço, e essa pessoa não pôde ficar no conselho fiscal, que não manda coisa nenhuma, (...) mas era algo que a gente entendia de vida ou de morte para nós.

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e como começou a funcionar bem, cada vez com mais trabalhos, de melhor qualidade, os encontros sempre funcionaram não apenas como um lugar para discussões acadêmicas, mas de convivência, de reencontro. (...) eu não me lembro de qualquer proposta para que se passassem a encontros anuais. Os encontros do passado eram pequenos, sem sessões simultâneas. Hoje, com a expansão da demografia através dos cursos de pós-graduação e das temáticas tratadas, os encontros reúnem algumas centenas de participantes. Desde o início, os encontros são um fórum privilegiado de discussão.

Diana Sawyer – Obviamente, você vê aquela ABEP que foi fundada, que nasceu pequena, o grupo de demógrafos era bastante limitado e (...) tudo era festa, era tudo muito divertido. A gente se conhecia, e conhecia todo mundo que participava [dos encontros]. Não tinha uma pessoa que aparecia, que a gente não soubesse quem era. (...) hoje, você vai para a ABEP, eu acho que não conheço 90% das pessoas que estão lá.

George Martine – Nas primeiras cinco, sei lá quantas reuniões [Encontros], talvez até mais, talvez primeiras 7 ou 8 reuniões, todo mundo assistia tudo. Não tinha muita alternativa. A não ser eventualmente um cursinho sobre como usar o WordPerfect, na época era o WordPerfect. Fora isso, você tinha obrigação de assistir e aprender alguma coisa sobre temas sobre o qual não era especialista. Hoje em dia, dado esse crescimento, dado o êxito da ABEP de sair de um grupinho, que na primeira vez, eu não sei quantos éramos, creio que (...) são 52 pessoas que assinaram o documento de fundação da ABEP. Hoje em dia temos, facilmente, várias centenas de pessoas. Então, até por causa disso é muito difícil ter todo mundo no mesmo evento ao mesmo tempo, e é necessário dividir. E com isso, pode ser que se perca um pouquinho da capacidade de dialogar entre disciplinas e de aprender uns dos outros. Mas isso é praticamente inevitável. Acho que ninguém lidou com isso perfeitamente nas outras instituições, associações que eu vejo.

Coleta Oliveira – Era uma coisa muito menor. Não tinha essa partição que tem, daqui a pouco, a especialidade é o meu dedinho do pé (...). Eram os grandes componentes da dinâmica populacional, fecundidade, mortalidade, migração, com alguma abertura para nupcialidade, que sempre foi o patinho feio, porque não tinha muitos estudos nessa área. Então, família entrava em fecundidade, os temas iam indo por aí. Depois, a coisa da força de trabalho surge como

No 4º Encontro, em Águas de São Pedro, era a Elza a presidente, e a escolha da capa amarela, tinha um 4, porque era o 4º Encontro. Mas a capa era amarela, e isso era o símbolo das Diretas Já. Era amarelo por causa das Diretas Já, era o ano das Diretas Já. O que mostra que a atividade da ABEP estava imersa na vida política do país. Isso era muito forte. Os discursos, os homenageados, era muito presente esse nosso compromisso com a vida política, com as ideologias e tal.

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uma subdivisão. Eram grandes divisões. Os encontros eram menores, mas a gente não tinha ainda essa coisa dos alunos participarem, a gente não tinha pós-graduação. Talvez o Cedeplar já tivesse, nessa época, mas não tinha grande participação dos estudantes. Eram mais pesquisadores, titulados ou não, porque muita gente não tinha titulação ainda, a pós-graduação no Brasil ainda era incipiente. Muitas vezes as pessoas iam fazer mestrado e doutorado já mais velhas, já tendo tido atividade profissional antes.

Daniel Hogan – Eu acho que os Encontros, em primeiro lugar, são um fórum importante, talvez mais ainda numa área como a demografia. Importante porque conseguiram manter a coesão, em torno de pessoas que estavam, todos da ABEP, desde sempre, e outras pessoas, que podem mudar de encontro em encontro. Tem período de participação maior ou menor, mas era preciso manter essa coesão. Por que eu digo mais na demografia? Porque as pessoas, fora aquelas que estavam nos dois departamentos [Cedeplar e Nepo], estavam nos departamentos de história, departamento de estatística, faculdades de medicina, ou no órgão de estatística do Estado, do município. E era muito fácil as demandas institucionais tirarem as pessoas dessa central de demografia. (...) sem a associação, sem o encontro de dois em dois anos, para motivar as pessoas a continuar a manter essa identidade de estudos de população, eu acho que não teria acontecido. Então, o encontro é muito importante nesse sentido. É interessante, você já participou o suficiente nos encontros da ABEP, para saber o alto astral que são os encontros da ABEP. Não sei se você vai poder captar nas suas entrevistas alguma pista que explique o alto astral nos encontros da ABEP.

PMR – Qual é a sua hipótese?

Daniel Hogan – Não sei. Mas a verdade, talvez por ser pequeno, ajuda. Por ser, não digo marginal, mas por não ser uma área central, é mais importante ORGANIZAÇÃO IV ENCONTRO

Comitês de Trabalho (Responsáveis pela coordenação e acompanhamento dos trabalhos a serem apresentados e discutidos durante a realização do Encontro)

1. A dinâmica Demográfica em situação de crise;

2. Processos sócio-econômico e demográfico numa perspectiva histórica; 3. Técnicas de análise demográfica;

4. Diferenciais demográficos regionais e seus determinantes;

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para nós estar lá, porque não era só apresentar o paper, era reafirmar a entidade, encontrar as pessoas. Acreditar que aquilo que você está fazendo é importante, que vale a pena e estávamos todos ali, acreditando que é importante. A verdade é que, sem ter todos os elementos para explicar, o encontro da ABEP tem um alto astral. E a prova disso são os não-abepianos, os participantes ocasionais. Você fala com eles, eles notam isso, chama atenção.

Eduardo Rios-Neto – O fato é que a área de demografia cresceu muito. O meu temor é que, fechando a ABEP, há uma volta às origens, o risco é de você excluir o próprio demógrafo que nós estamos formando. Porque a diversidade da área de demografia que nós estamos formando cresceu o suficiente para ter encontros grandes. Em outras áreas profissionais, esses encontros grandes estão ocorrendo. Quer dizer, eu não vejo porque a demografia deveria ser diferente. (...) a pós-graduação no Brasil está crescendo. Se a associação se fechar a essa realidade, eu acho arriscado. Eu acho que se tem algum sinal que o encontro de Ouro Preto [em 2002] mostrou, é que a demografia e a temática dos encontros da ABEP são atrativos o suficiente para mobilizar mais de 500 pessoas. (...) eu não acho que você ter 500, 600 pessoas no encontro da ABEP, hoje, seja populismo. Eu acho que é a realidade da complexidade temática da demografia.

De fato, uma especificidade da demografia é o seu caráter interdisciplinar. Como reflexo disso, cada uma das instituições de ensino é ligada a uma determinada vertente, a uma determinada disciplina.

Elza Berquó – O Cedeplar teve inicialmente uma marca ligada à economia. Você tem a demografia, mas tem uma marca. A nossa lá [no Cedip] era uma marca ligada mais às ciências sociais. Por quê? Porque [tinha] o Cândido Procópio, a Neide etc., a marca era essa. É muito interessante você ver como os grupos de demografia vão se desenvolvendo, e cada um com as suas marcas. Por exemplo, se você olhar para a ENCE, por exemplo, a ENCE já tem uma marca de escola de governo. Por quê? (...) é muito mais, ou era, muito mais voltada, digamos, para essa parte de políticas públicas, administração, (...) preparação de quadros para o governo. Porque o seu nascedouro se dá aí. É muito interessante porque a disciplina vai se ampliando, felizmente, e vai guardando as suas marcas. Paulo Paiva – A outra dimensão disso, que eu acho interessante, é uma certa especialização em alguns centros. Por exemplo, é natural que no Cedeplar a

CONGRESSOS SEMINÁRIOS CONFERÊNCIAS - Seminário Metodológico

“A ABEP promoverá nos dias 6, 7, e 8 de junho de 1984, em Ouro Preto (MG), o III Seminário Metodológico sobre os Censos De-mográficos.” (Informativo Abep, n° 20, janeiro-março/1984).

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especialização se concentrasse mais nas relações da demografia com economia, a inserção no centro, diferentemente no Nepo, uma relação mais com ciências sociais, ou com políticas públicas, que a Unicamp tem um centro interessante nesse campo.

Voltando aos encontros, na perspectiva da diretoria, eles vêm acompanhados de enorme responsabilidade.

Eduardo Rios-Neto – (...) o grande desafio e o grande pesadelo [de todo presidente] é conseguir fazer o encontro. O abepiano coloca tanto peso no encontro, que se você não fizer nada, mas conseguir realizar o encontro, você pelo menos sai inteiro. Esse foi sempre meu lema. Quer dizer, se não fizer nada, mas saiu o encontro, pelo menos você não vai para a fogueira.

A verdade é que os encontros da ABEP têm uma magia especial, que faz com que seus participantes se sintam bem. O depoimento de Frank Goza, na 4a capa do livro, ilustra bem esse sentimento. Além dessa magia, existe todo

um carinho com que as diretorias preparam seus encontros, carinho este que se reflete em cores, sabores e muita diversão nos bailes.

Neide Patarra – E ao mesmo tempo o cuidado estético, vamos publicar (...). Não só [fazer a publicação], mas tem que vir bonita. As faixas são bonitas, o baile é bonito. É uma coisa que vem desde o começo e que marca muito a ABEP.

José Alberto Carvalho – (...) sempre se procurou também dar uma certa atenção não apenas à alma, mas também ao corpo, através dos nossos bailes (...).

Daniel Hogan – É muito legal chegar num encontro da ABEP e ver essas pessoas que se gostam, se respeitam. Não é a mesma coisa que ir para um encontro da Anpocs ou de outro congresso qualquer. É um relacionamento que você se sente em casa, eu acho que muita gente sente isso. Acho muito positivo.

Neide Patarra – (...) ele [Paulo Paiva] sempre dizia: a ABEP é a associação mais charmosa. Chamava de charmosa.

(...) se eu não me engano, já no primeiro encontro depois de fundada a ABEP, em Campos de Jordão, a gente levou os anais antes. Eu me lembro da Carmen Miró dizer: isso é fantástico, eu nunca vi isso, a não ser com os europeus, americanos. Mas nós, os cucarachos? E aqueles anais, a gente tirava xerox, a gente juntava na véspera as folhinhas, grampeava.

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É impossível pensar nos encontros da ABEP sem que a minha memória me leve de volta ao VII Encontro, o primeiro realizado em Caxambu e o primeiro do qual participei, em 1990. Afinal, o primeiro encontro a gente nunca esquece. Na mesa de abertura, me lembro nitidamente da Ana Amélia Camarano, secretária da ABEP, vestida de vermelho, decote canoa, dando as boas-vindas aos participantes. No enorme quarto do Hotel Glória, havia quatro camas de solteiro, ocupadas por mim e pelas outras três bolsistas do Eduardo Rios-Neto – Denise Campos, Emília Paiva e Mônica Vieira, carinhosamente apelidadas por Edson Nunes de “eduardetes”. Neste Encontro, eu – formada em Economia havia um ano, já tendo aplicado para o mestrado em Demografia do Cedeplar – fiz a minha estréia na vida acadêmica, apresentando meu primeiro trabalho, em co-autoria com meu (então) orientador. Na noite da véspera da apresentação, passei algumas horas recostada dentro da banheira vazia, a treinar exaustivamente a minha fala, enquanto minhas amigas dormiam. Meu grande temor eram as perguntas que por ventura fossem feitas, para as quais eu não me sentia preparada. Quando Jorge Jatobá, coordenador da mesa, abriu a palavra para a platéia, me lembro do frio na barriga que senti quando o Paulo Paiva levantou a mão e disse “Eu tenho uma pergunta para a Paula”. Houve, ainda, uma segunda pergunta, feita pelo Carlos Pacheco. Não me lembro do teor das perguntas e, muito menos, das respostas, mas a sensação daquele momento continua muito viva na minha memória.

VI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, Olinda, Pernambuco, 1988

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Eduardo Rios-Neto, o único presidente que não viveu a fundação da ABEP, também tem recordações do seu primeiro Encontro. Sua fala remete ao relato de Tom Merrick, na introdução deste livro, quando ele fala da importância do programa de bolsas da Fundação Ford para a capacitação de demógrafos no País. Eduardo Rios-Neto é, sem dúvida, um exemplo de sucesso daquele programa.

Eduardo Rios-Neto – (...) a ABEP não existiu para mim até meu retorno [do doutorado, em dezembro de 1986]. Eu praticamente conheci a ABEP no doutorado, talvez no mestrado já, em termos de leitura de anais, leitura dos clássicos. Mas havia pessoas famosas, como a Elza [Berquó], a Neide Patarra, que eu conhecia de nome. A Elza, no caso da fecundidade, a Neide no caso da migração. Eu conhecia de nome, de referência. Mas, no fundo, eu conhecia só o pessoal do Cedeplar. (...) a outra pessoa que eu tive referência rápida (...) foi com a Coleta [Oliveira]. (...) mas eu nem conhecia a Coleta. (...) quando eu retornei, a ABEP para mim era um mistério. Eu conhecia muito pouco da ABEP. Tinha alguns contatos no IBGE, mais por causa da minha tese de mestrado, particularmente com o Luiz Antônio [Oliveira]. (...) era um trio quase inseparável, eu conhecia o Celsinho [Simões] e o André Médici, que faziam parte lá do Depis, qualquer que fosse o código na época. Mas nunca no ambiente ABEP. (...) conhecia praticamente todo mundo do Cedeplar, mas conhecia pouco da demografia paulista e carioca. (...) o primeiro encontro que fui foi o de 88, em Olinda. (...) o encontro foi fantástico. Para mim foi um encontro marcante, porque foi o primeiro, foi o contato que eu tive. Eu retornei em dezembro de 86, praticamente comecei a dar aula em 87. E fiz a minha primeira pesquisa de campo em 88, com o Franklin Goza, que era Rockfeller Fellow no Cedeplar. Nós fomos estudar a migração sazonal do corte de cana, do pessoal do Médio Jequitinhonha para a região de Ribeirão Preto. No primeiro encontro da ABEP que fui, que era esse de Olinda, em 88, a gente já tinha resultados da primeira parte da pesquisa empírica, que foi a parte que nós fizemos no Vale do Jequitinhonha, em 87. (...) então, minha participação foi muito marginal, foi de migração. Eu era o “júnior” do Cedeplar. O Zé Marcos [Pinto da Cunha] talvez tivesse começando. Eu lembro da Rosana [Baeninger] e da Marta [Rovery], mas como alunas, eu já não era mais aluno. O Zé Marcos, acho que já não era aluno também, mas eu e Zé Marcos tivéssemos mais ou menos essa mesma data de inserção, não conhecia muito o Zé Marcos. Outro episódio que eu lembro é que participei, talvez até de uma forma um pouco imatura, discutindo alguns resultados, da avaliação de alguns trabalhos de Eduardo Rios-Neto e filhos

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relatórios de andamento do programa ABEP-Ford. Eu acho que talvez tenha sido o último ano do programa ABEP-Ford. E eu tinha sido beneficiado por esse programa ABEP-Ford. A minha única interação com a ABEP antes desse evento foi uma interação importantíssima. Eu tive uma bolsa da Fundação Ford, no programa ABEP-Ford, para a minha dissertação de mestrado. Talvez tenha sido a primeira grant da minha vida, fora a bolsa do CNPq. Eu lembro, pelas fofocas, o professor que teria avaliado o meu projeto teria sido o professor Cândido Procópio, que tinha gostado muito. Eu nem tive o prazer de conhecê-lo, ele faleceu antes de eu retornar ativamente para a demografia. Mas houve controvérsias se o meu projeto era mesmo de demografia, ou se não era de economia do trabalho. Então minha bolsa ficou em suspenso até que o professor Kerstenetzky me entrevistasse. O professor Kerstenetzky foi ao Cedeplar, me entrevistou, e eu tive que convencê-lo de que minha tese não era economia, era demografia. Eu acho que ele teve uma certa boa vontade comigo (...), mas então a ABEP entrou na minha vida, primeiro, via ABEP-Ford. (...) deve ter sido em 80, 81. (...) eu acho que a última versão do programa ABEP-Ford foi exatamente em 88. Essa coincidência eu nunca tinha pensado.

O Encontro de 1992, na Academia de Tênis, em Brasília, também foi memorável para mim. Naquele ano, eu era aluna do 2º ano do mestrado e a minha turma estava lá – a famosa coorte 91, turma do mestrado e doutorado do Cedeplar, que reuniu não apenas jovens iniciantes como eu, mas também

REVISTA BRASILEIRA DE ESTUDOS DE POPULAÇÃO

“A proposta de criação de uma Revista da ABEP foi aprovada por ocasião da Assembléia Geral, no III Encontro Nacional.”

(...) A idéia da criação de tal tipo de periódico, consubstanciada na mencionada proposta, vem se expressando no seio da ABEP, há algum tempo e, pode-se dizer de maneira sucinta, que deriva das seguintes considerações:

1) A ausência de uma publicação periódica, especializada, de âmbito nacional, versando sobre assuntos populacionais;

2) A relevância da produção científica brasileira na área de população, como atestam os Anais do I, II e III Encontros Nacionais da ABEP;

3) A importância da divulgação de assuntos e questões populacionais num momento de mudanças acentuadas da dinâmica demográfica no Brasil;

A importância didática e de subsídios a órgãos públicos que tal divulgação deverá representar.” (Informativo Abep, n°21, junho-abril/1984, p.5).

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demógrafos já famosos e estabelecidos, do calibre de Morvan de Mello Moreira e Celso Simões5. Entre outras coisas, fizemos uma excursão ao chalé

que costumava servir de moradia à já ex-ministra Zélia Cardoso de Mello. “Nos acabamos” no baile, mas nenhuma de nós conseguiu fazer com que o Morvan sequer levantasse da cadeira. Junto com duas colegas, levei uma bronca feia do José Alberto – ainda consigo vê-lo sentado numa mesa redonda, na hora do almoço, com várias pessoas, entre as quais me recordo apenas da Marisa Magalhães. O motivo foi o fato de termos saído da assembléia antes que ela terminasse, já bem tarde da noite. Também me lembro do pedido de desculpas – da parte dele, obviamente – e das minhas lágrimas. Foi nesse encontro que conheci Suzana Cavenaghi, na recepção da Academia de Tênis – quem diria que, anos depois, nos tornaríamos grandes companheiras de alegrias e tristezas durante o doutorado, em Austin.

Desde o meu primeiro Encontro, nunca perdi nenhum. Tive a sorte de ter financiamento internacional para vir, no período em que estive no doutorado – graças a Joe Potter, meu orientador. Nesse sentido, também o destino foi camarada comigo, uma vez que meu filho Hugo e minha filha Alice nasceram em anos ímpares.

Quem são os participantes dos encontros? Além dos associados, há uma proporção importante de não-associados – sinal de que os temas discutidos nos encontros atraem também os não-demógrafos. Uma característica marcante da ABEP é a sua pluralidade. Nela encontram abrigo os profissionais das mais diversas áreas.

Coleta Oliveira – (...) uma parte das pessoas que vêm ao encontro não são sócios da ABEP. É uma parte significativa, não são poucos. Isso tem um lado muito legal, porque significa que o que a ABEP faz tem repercussão.

Neide Patarra – A ABEP se abria incrivelmente. Ela chamava antropólogos, sociólogos, economistas, abria para os geógrafos, fortemente. Psicologia, medicina, medicina social, (...) era como se (...) em torno das questões populacionais, que compareciam ao encontro para alimentar essa concepção ampla, interdisciplinar, aberta, sempre muito atenta às mudanças. E os temas. Por exemplo, eu me lembro

5 Também eram da coorte 9 Moema Fígoli, Cibele Comini César, Iúri da Costa Leite, Irineu Rigotti,

Márcia Caldas de Castro, Marília Brasil, Virgínia Pastor, Camilo Adalton Mariano da Silva, Carlos Augusto dos Santos (o Carlão), Eleonora Santos (a Buró), Angela Oliveira, Maxwell Moreira e os dominicanos Carmem Júlia Gómez Carrasco e Zenon Ceballos.

Teve o caso da diarréia generalizada no Encontro de Vitória. E olha que estávamos num hotel do Senac. Dizem as más línguas que foi vingança contra a secretária [Ana Maria Goldani], que reclamava demais com o pessoal do hotel.

Autor anônimo.

(...) em todos os encontros a gente fica até tarde, a gente bebe, a gente canta, a gente dança, faz piada, fica até tarde, toca, e no dia seguinte, na hora de começar a reunião, a gente está lá na hora certa. Nem que seja de óculos escuros, mas está lá. Isso eu acho uma coisa (...). E os bailes passam a ser tradicionais. Todas as outras associações copiaram a ABEP.

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que a questão de gênero entrou muito prematuramente na ABEP, como um tema absolutamente inerente à demografia. Depois, até mesmo comportamento reprodutivo, transformação dos arranjos familiares, homossexualismo. Esses temas mais delicados socialmente, numa perspectiva conservadora, e que eram inovadores também na antropologia e nas ciências sociais em geral, encontraram na ABEP um campo fértil, um espaço de envolvimento dos próprios associados e de um acercamento com colegas de outras áreas.

Jair Santos – Uma coisa que precisa ser dita, a ABEP nasceu no seio da demografia, com preocupação demográfica, mas num contexto político muito específico. A própria demografia passava por uma discussão político-ideológica grande, entre os que a gente dizia neomalthusianos e os não-controlistas, de sorte que os temas, eu não saberia especificar, mas os temas centrais eram voltados para focos de discussão social, e abrigava, além dos demógrafos, abrigava um pessoal que não encontrava espaço em outras instâncias, para suas discussões. Minorias étnicas, enfim, organizações de homossexuais, o próprio estudante. Isso marcou sempre os encontros da ABEP, acho que desde a primeira vez.

IV ENCONTRO DA ABEP

“Nos dias 7 a 11 de outubro de 1984 a ABEP realizou em Águas de São Pedro, São Paulo, o seu IV Encontro Nacional de Estudos Populacionais. Participaram do Encontro 206 estudiosos da temática populacional. Entre os participantes, destacamos a presença de profissionais vinculados a órgãos de governo e outras instituições nacionais e internacionais de ensino e pesquisa.” (Informativo Abep, n°23, outubro-dezembro/1984, p. 1).

Eu me lembro muito do Encontro de Campos do Jordão, acho que foi o primeiro, no Grande Hotel. (...) era noite já, chega a Helena Lewin, que tinha sido minha professora na PUC [Rio] e era chefe do departamento da PUC. (...) ela chega, eu não tinha visto a hora que ela chegou, e ela desceu, mas já desceu (...) rodando a baiana. Como tinham posto ela com um homem no quarto? Ela, uma senhora, dessas pessoas que jamais sua presença seria não notada, uma mulher enérgica, muito legal. Ela estava na época das passeatas, eu me lembro que fui suspensa, aquela coisa do movimento estudantil. Era sempre ela que ia (...) tirar fulano da cadeia, uma mulher incrível. Mas ela desceu espumando, rodando a baiana. Porque ela chegou à noite, em Campos do Jordão, deram a chave, ela entrou no quarto e encontrou sapatos masculinos, num canto, uma pasta e um paletó. Então, ela estava num quarto com um homem. Como, uma mulher dessa idade, ela, que era chefe do departamento disso ou daquilo? E fomos ver o que era, tinham posto ela com o Andréa Calabi. Porque ninguém conhecia as pessoas. (...) O Andréa Calabi, que era um economista da USP, se inscreveu. Andréa, mulher. Estavam no quarto Andréa Calabi e Helena Lewin. E toca a arranjar quarto para Helena Lewin, aí ela queria um quarto só para ela. Começou assim o primeiro Encontro.

Coleta Oliveira

Ana Amélia Camarano, uma das editoras da Rebep

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A Revista Brasileira de Estudos de População, carinhosamente conhecida como Rebep, é mais um sinal de pujança da ABEP. Criada legalmente em 1982, a Rebep lançou seu primeiro número em 1984, sob os cuidados de sua primeira editora, Neide Patarra. Treze anos depois, a Rebep lançaria seu primeiro volume em inglês, durante a gestão de Ana Amélia Camarano na editoria. Uma outra grande conquista, recentemente, foi a entrada da Rebep no SciElo, graças ao empenho de sua editora Elisabete Bilac.

José Alberto Carvalho – [No início] A ABEP não tinha ainda a revista, que passou a ser um canal muito importante dentro da associação.

Daniel Hogan – [A Rebep] Foi um passo natural no esforço de consolidar a presença de uma disciplina. Porque, ao mesmo tempo em que a gente teve que se posicionar e crescer frente à demografia internacional, e ao mesmo tempo em que era preciso uma certa visão crítica do neomalthusianismo, também tinha as outras áreas de conhecimento. A demografia era uma nova área de conhecimento. Nós somos uma área muito especializada, a demografia. Ao contrário da sociologia, economia, filosofia ou história, que são áreas básicas que têm que existir em qualquer universidade. Demografia não, é uma área muito especializada. Então, a gente precisava se afirmar também nas nossas instituições, e nesse conjunto da academia brasileira. E, ter uma revista, era um sinal de maturidade, um sinal de atividades de vida, de nível acadêmico. Eduardo Rios-Neto – (...) na medida em que o Nepo cresce, o Cedeplar cresce, a ENCE cresce, e que os concursos públicos dependem de publicação científica, eu considero que o cargo de editor da Rebep é um cargo de diretoria, um cargo talvez até, sob o ponto de vista científico, mais honorário ou tão honorário quanto o de presidente.

A gestão de uma associação envolve uma complicada engenharia política. Além da preocupação com a representação regional e institucional nas chapas que concorrem à diretoria e aos conselhos, é preciso, muitas vezes, administrar conflitos, crises e rivalidades internas.

José Alberto Carvalho – Na realidade, eu acho que, dentro da ABEP, as divisões foram muito pequenas. (..) tanto que, até hoje, nas eleições, nunca houve duas chapas. Houve uma eleição, aliás, com uma segunda chapa, mas que morreu em uma semana. Na minha interpretação, a maioria, para não dizer a totalidade das Carlos Eugenio, atual editor da Rebep

Teresa Sales, uma das editoras da Rebep

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grandes divergências, a não ser aquelas do início, entre o pessoal ligado mais ao controle ou não-controle – essa era muito objetiva, era substantiva – mas as demais, como aliás boa parte das divergências do nosso dia-a-dia, tiveram, por origem, problemas pessoais, que às vezes tomam a dimensão institucional, mas sem substância alguma que pudesse justificar essas dissociações. E a prova é que, passado o auge dessas briguinhas pessoais, depois as coisas se acomodam, sem maiores problemas.

Elza Berquó – Na minha visão, eu acho que às vezes é mais difícil lidar com as vaidades [do que com as rivalidades]. De uma maneira geral, nunca houve uma cisão do ponto de vista estratégico-ideológico. Nós nunca tivemos alguém que se definisse “eu sou controlista e acho que o Brasil tem que ter uma política de controle da natalidade”, de uma forma assim explícita. Nunca houve. Aí não sei como nós iríamos fazer. Se houvesse duas candidaturas com posições totalmente antagônicas desse ponto de vista, seria até muito interessante, vamos fazer o teste. Mas eu acho que a gente teve mais conflitos de vaidade. Isso é diferente. E talvez algum ressentimento dessa hierarquia natural que foi surgindo, São Paulo - Minas Gerais. Eu acho que tem um sentimento de que isso precisa mudar, em alguns ambientes. Esses grupos, às vezes até pessoas, precisam apresentar propostas que convençam o eleitorado. Isso é política. Se convencer, tudo bem, isso é democracia. Estamos abertos a isso. Mas é preciso que isso se coloque, que cresça e que venha a público, de uma forma transparente, correta, enfrentando, e colocar isso num processo eleitoral democrático. Eu acho que tudo bem. A fogueira de vaidades é muito grande, mas ela existe em qualquer lugar. Qualquer instância, qualquer lugar. De um lado, é até uma coisa positiva, quando isso é construtivo. Mas quando é destrutivo, é lamentável. Mas isso nunca abalou a ABEP. Aí que está, eu acho que temos mesmo que pensar, que estrutura, que envolvimento, que irmandade, que solidariedade é essa que existe, pelo menos num grupo grande de pessoas-chave para a ABEP, que não permitiu que essas pequenas coisas invadissem o mais importante.

Eduardo Rios-Neto – Eu tive uma crise grande. A minha primeira gestão, além da minha inexperiência, eu herdei crises políticas, que eu não tinha muito a ver com elas, mas tudo bem, paguei o preço. Não tenho do que reclamar. Essas coisas são processos políticos. Uma delas foi o pedido de demissão da Ana Amélia [Camarano] da coordenação, da editoria da revista da ABEP. Isso quebrou um fluxo da revista da ABEP (...). Publiquei a carta que a Ana Amélia

CONCURSO ABEP

“A ABEP promove o VI Concurso de Bolsas de Pesquisa sobre Assuntos Populacionais no Brasil, com apoio financeiro da FINEP. O concurso visa incentivar a análise dos diversos tipos de fenômenos populacionais, através de financiamento de projetos de pesquisa.” (Informativo Abep, n°24, janeiro-abril/1985, p.6).

Maria Coleta de Oliveira, uma das editoras da Rebep

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me enviou na época, tentei ser o mais honesto possível. Mas isso, para mim, gerou um contratempo grande, (...) a revista da ABEP chegou no fundo do poço. Ela já estava num fluxo, e essa ruptura de continuidade, até uma solução, causou um atraso. O CNPq não renovou o processo. Enfim, foi uma luta muito grande. Aí, a Bete Bilac teve um papel fundamental. Eu não tinha, a não ser uma amizade cordial de encontro da ABEP com a Bete, não tinha uma relação política com ela, ela não era do meu grupo. Ela topou pela associação. Foi muito franca comigo, e eu dei toda liberdade para ela. Eu acho que a gente conseguiu reerguer a revista da ABEP, no patamar que estava antes, pelo menos para o patamar que estava antes, regularizar o fluxo. E acho que hoje ela está muito bem. E já no final da minha segunda gestão, ela já estava muito bem, já estava regularizada.

Um dos conflitos que vez por outra se torna mais visível é a questão da alternância da presidência entre Minas e São Paulo, numa reedição da política do café com leite. Na visão dos entrevistados, essa alternância é, em certa medida, conseqüência da maior concentração de demógrafos nestes dois estados, em grande parte explicada pelos cursos de pós-graduação lá existentes. São exatamente as instituições que sediam as pós-graduações que oferecem maior possibilidade de apoio institucional. Com o fortalecimento da ENCE, esse cenário deverá mudar. No entanto, há divergências com relação a essa necessidade de apoio atualmente.

José Alberto Carvalho – Primeiro, você tem que ter uma base institucional. Tanto que, na sucessão da Elza, se não me engano, foi oferecida ao Hélio Moura a presidência. Ele então, não sei se estava no (...) nordeste, ou já na (...), ele declinou o convite. E o argumento era a falta exatamente de uma base. Em algum momento foi oferecido também a alguém do IBGE, também declinaram. Tem que se reconhecer que há uma boa concentração da produção, tanto de recursos humanos quanto de pesquisas, nesses dois centros, Cedeplar e Nepo, então há um peso político maior, mas também como programa de apoio institucional. Coleta Oliveira – Eu acho que isso reflete ainda o poder institucional. Não só poder no sentido bom de controle, mas no sentido de adensamento da massa crítica na área, porque você tem dois programas. O leite é mais forte do que o café, até, porque mais consolidado. Mas tem uma outra tradição, que não tem a ver só com a consolidação do programa na Unicamp, mas as pessoas que estão lá têm história, que estão fora dela e tal. Eu acho que isso é meio inevitável. Eu EVENTOS - Mesa Redonda na

SBPC

“Na próxima reunião da SBPC, que se realizará em Belo Horizonte, no mês de julho, a ABEP terá uma mesa redonda. O prof José Alberto M. de Carvalho será seu coordenador.” (Informativo Abep, n°24, janeiro-abril/1985, p.7).

Elisabete Bilac, uma das editoras da Rebep

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acho que não é à toa que a ENCE propôs a criação de um mestrado. Eu acho que parte da motivação, e legítima, teve a ver com o repaginar de um espaço institucional para a demografia no Rio de Janeiro. (...) eu acho que a tendência (...) é do Rio novamente ser um pólo. Então, o café-com-leite vai se romper, ou vai se flexibilizar com a consolidação [do programa da ENCE].

PMR – Colocar cana-de-açúcar e fazer um café-com-leite docinho.

Coleta Oliveira – É. Ou pôr o carnaval. (...) eu costumo dizer que não existe assento garantido, cadeira cativa na diretoria da ABEP. Mas é claro, se não tiver alguém do Cedeplar, não tiver alguém do Nepo, é esquisito. Parece que o Cedeplar e o Nepo têm cadeira cativa na ABEP. Eu acho que não têm. Daniel Hogan – Nós tentamos muitas vezes, eu pessoalmente tentei muito, tanto no IBGE quanto na Fundação Seade, convencer alguém a ser candidato a presidente. Porque eu achava que esse ressentimento com foco no troca-troca, tinha uma base legítima também. Eu não consegui, mas não foi por falta de tentar. O que me disseram foi que eles não tinham, se chegasse algum momento que precisasse tomar uma posição, não tinham grau de autonomia para agir. Diana Sawyer – Hoje, com essa coisa de internet, você pode fazer reuniões, você pode fazer reuniões à distância. Eu acho que esse apoio institucional não é fundamental. Pode ter sido no início da ABEP, essa coisa de correio. O apoio que eu recebi do Cedeplar foi zero. Zero, não quero dizer zero, eu tinha sala, eu tinha as coisas todas. Mas a ABEP contratou secretária, a ABEP comprou computador, a ABEP comprou isso. O Jacques [Schwarzman, diretor da FACE fez o] (...) acordo de correio. Foi assim.

Daniel Hogan – (...) alguns anos atrás, teve um movimento de interromper essa política do café-com-leite (...) era um presidente fora do eixo (...) Minas-São Paulo, Minas-São Paulo-Minas. De certa forma, é um saudosismo de um período quando todos eram mais iguais, em termos de quantos não eram consolidados enquanto centros de pesquisa, um certo ressentimento da predominância de dois centros. Isso é inevitável. Quando se começa a produzir demógrafos, você amplia a produção de pesquisa, publicação, é um círculo virtuoso. Você consegue começar, consegue garantir mais vagas, vai crescendo, vai consolidando. E isso não aconteceu em outros lugares, ao contrário. Se a gente olhar os centros que eram importantes nos anos 70, a gente vê que Paraná nem área de concentração

EDITORIAL

“(...) No próximo ano estaremos comemorando os 10 nos da ABEP. Faremos nossas comemorações atra-vés de um intenso programa de seminários e publicações, que cul-minará com a realização do V Encontro, em outubro, em Águas de São Pedro. O eixo condutor deste programa será a ampla discussão da nova constituinte brasileira.” (Informativo Abep, n°26, setem-bro-dezembro/1985, pp. 1,2).

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tem mais, na História. Na Saúde Pública, a Stella [Levy] e o Jair [Santos] saíram de lá. Bahia agora vai segurando, mas Guaraci [Souza está sozinha] (...) todos os nossos formandos – nossos, do Cedeplar e do Nepo – ainda não fincaram pé para criar os programas e criar uma densidade parecida nas várias instituições. Eu acho que talvez no futuro isso vá mudar.

O momento da sucessão é quando, em geral, as diferenças se manifestam.

Neide Patarra – Quando eu fui lançada candidata, era para ser o [George] Martine. (...) era a sucessão do Paulo [Paiva]. Era para ser o Martine. Por uma série de avaliações, naquele momento, tinha uma coisa assim: o Martine era representante de uma associação internacional; o Martine não era brasileiro. Então, foi uma coisa delicada (...). Mas era uma decisão, todo mundo explicou para ele.

Daniel Hogan – Aquele momento da minha sucessão, acho que foi no meu segundo mandato, que o Jair [Santos] foi candidato. (...) naquele momento, naquela pressão para ter presidente fora de Cedeplar e Nepo, havia um grupo que propôs uma outra candidatura, Jair. (...) Jair é um amor de pessoa, muito inteligente, um amor de pessoa.

Jair Santos – (...) me dispus, uma certa ocasião, a ser porta-voz de um grupo que, sem inimizades ou sem críticas pessoais, mas que tentava ampliar um pouco essa prática. Isso foi (...) 1996, eu acho. Acabei me candidatando à presidência, acho que foi a primeira vez que teve (...) duas chapas. Tenho a impressão de que foi a primeira vez. Acabou não se consumando, porque afinal eu acho que, eu pelo menos não estava na disputa de poder, estava na disputa de um princípio, de uma causa. Então houve um acordo político, (...) acabei retirando minha candidatura. Mas devo confessar para você que parte da moçada que me apoiava veio reclamar da [retirada da] candidatura. Eu acho que tinha lá uma juventude que queria (...) mudanças. Eu não sei, não sei se seria conveniente. Aliás, é muito difícil dizer, já dizia o filósofo, difícil dizer como seria, se não fosse.

Eduardo Rios-Neto – (...) houve o risco de sair uma chapa de oposição a mim, no final da minha primeira gestão [2000]. A mim, que eu digo, é à diretoria. Que estava associado (...) com uma série de insatisfações, mas de grupos que eu mesmo não julgava que fazia parte. (...) talvez seja o maior momento de V ENCONTRO – Prêmio ABEP

10 anos

“Estabeleceu-se, como parte das comemorações do décimo aniver-sário da ABEP, este prêmio para trabalho inédito ou publicado, de caráter científico teórico ou empírico, qualquer tema da área de estudos populacionais, e se autor deverá ser associado à ABEP.” (Informativo Abep, n° 28 setem-bro-dezembro/1986, p. 3).

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instabilidade meu nesses quatro anos, porque eu fui diretamente atingido, pessoalmente, sem saber porquê, achando que estava tentando fazer o certo. E por causa de brigas seculares, que eu mesmo nunca fiz nenhum esforço para tentar entender muito, e não estava muito interessado. (...) a política não é neutra, isso obviamente eu sempre soube, (...) acaba você comprando as brigas de quem te apoiou. Eu achei que era superior a isso, e nesse episódio ficou muito claro que eu não era superior a isso.

Elza Berquó – A sucessão, pelo menos até agora, não tem sido feita com traumas. Eu não vejo traumas. Não vejo.

Além da política interna, há que cuidar também da política externa. A ABEP tem relações com associações de população internacionais, participa, enquanto instituição, de forma ativa em conferências internacionais e tem o reconhecimento e a liderança não apenas regional, mas internacional.

Coleta Oliveira – (...) a ABEP foi a primeira associação a ser formada. A gente tinha uma interlocução latino-americana através do Clacso, dos grupos de trabalho do Clacso, em que eu também entrei. Eu me lembro, grávida, participando de uma reunião do Clacso no Guarujá. Foi nesse início. Teve algumas reuniões, eu não ia muito a essas reuniões. A primeira reunião fora do Reunião de criação da ALAP (XIII Encontro Nacional de

Estudos Populacionais, Ouro Preto, 2002). Da esquerda para a direita: Raúl Oddone (Paraguai), Fernando Lozano (México), Jorge Bouzá (Paraguai), Ricardo Tavares (Brasil), Magdalena Chú (Peru), Adela Pellegrino (Uruguai), Alejandro Giusti (Argentina).

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Brasil que eu fui, foi a do México, em 74, eu acho. Eu estava nos Estados Unidos, fui dos Estados Unidos. Foi uma reunião que foi o [José Arthur] Gianotti, um trabalho sobre família. Porque na verdade, o que eu digo naquele artigo também para o número especial da revista, era uma área de financiamento que tinha dinheiro, a Ciências Sociais não tinha dinheiro, então uma série de expoentes das Ciências Sociais, ou da (...), tiveram que entrar nesse tema. O Fernando Henrique [Cardoso], por exemplo, estava no projeto da pesquisa nacional de reprodução humana. Porque era a forma de financiamento da subsistência dessas pessoas. Até o Gianotti, leva um trabalho sobre família – eu me lembro que não entendi nada – para o México. Eu me lembro de ir a Cancun com o Gianotti. A Helena Lewin estava nessa reunião também. Enfim, a Ciências Sociais do Brasil, e acho que da América Latina, com toda a onda das ditaduras na América Latina, foram absorvendo pessoas, que foram sendo instigadas a pensar nas questões demográficas como um recurso de sobrevivência. A Ford fez isso, o Procópio teve um papel muito importante no Brasil, como a Carmen Miró teve no Chile, pegando outros países da América Latina.

Paulo Paiva – A comunidade científica, na área de ciências sociais no Brasil, sempre teve uma relação muito forte com a América Latina. Hoje eu falo desse tema até com mais conhecimento porque, depois de passados quase seis anos cuidando da América Latina, eu pude entender bem, ter hoje um coração muito mais latino-americano do que eu tinha no passado. Nós tivemos, por várias razões, uma ligação muito forte, na comunidade acadêmica, que é diferente da sociedade brasileira como um todo. Nós, talvez por questões de língua, nós sempre demos as costas para a América Latina. Mas a comunidade acadêmica não. Por algumas razões. Acho que a Fundação Ford ajudou um pouco, porque ela atuou aqui em alguns países, num período em que os regimes militares afetaram esses países simultaneamente. (...) e a América Latina tem uma instituição, que outras regiões do mundo não têm, que é a Cepal. A Cepal teve a capacidade de congregar cientistas sociais latino-americanos, não só economistas, mas também outros cientistas sociais, que de alguma forma criou uma teia de relação, que depois foi se desenvolvendo. E foi criado também o Pispal, que era uma tentativa de organizar os centros de pesquisa latino-americanos, para coordenar e definir a política de investimento de pesquisas em ciências sociais na América Latina. Então você tinha várias instituições: Fundação Ford, no caso população, Population Council, Nações Unidas etc. A idéia era criar tipo um consórcio para garantir que nós definiríamos, nós, Grupos de Trabalho

Foram definidos três grupos de trabalho para este ano:

-Panorama da população brasileira; -População e Constituinte; -Censo Demográfico de 1990. (Informativo Abep, nº 29, janei-ro-abril/1987).

Carmen Miró e Daniel Hogan em passeio com as famílias

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latino-americanos, quais eram as prioridades, não definidas de fora para dentro. Isso, eu acho que tem um pouco origem e inspiração no papel que a Cepal teve na definição da política econômica para a região. E também, além da Cepal, tínhamos o Celade. Instituições não são feitas do abstrato, são feitas por pessoas. E a América Latina teve a felicidade de ter pessoas muito fortes. Na demografia, certamente Carmen Miró teve um papel fundamental nessa coisa toda. Com Elza Berquó, aqui no Brasil, essa articulação latino-americana pôde se construir.

Daniel Hogan – Era interessante ver que, nesse momento [de preparação para a Conferência do Cairo, em 1994], a demografia brasileira já era conhecida, no âmbito dos que se preocupavam com população. Quer dizer, não só o mundo acadêmico, que já conhecia, já sabia o que era a demografia brasileira, mas também os órgãos nacionais e internacionais. Tinha o retorno para a demografia brasileira. Eu acho que inclusive um dos critérios que a gente teve, quando a gente estava procurando o presidente depois de mim, era justamente ter uma pessoa que soubesse dialogar com a demografia internacional, alguém que tivesse o respeito da demografia internacional, porque estava num período entre o encontro de Cairo e o encontro de Salvador. Eu acho que esse período, os anos 90, marca entre o encontro das Nações Unidas e o encontro

SOCIEDADE BRASILEIRA PARA O PROGRESSO DA CIÊNCIA: COMISSÃO DE ESTUDOS PARA A CONSTITUINTE.

“A SBPC organizou uma comissão especial para elaborar propostas para a Constituinte, referentes à Ciência e Tecnologia. O âmbito da proposta é amplo, incluindo o ensino, a saúde, o espaço territorial e o meio ambiente, as populações indígenas e Ciência e Tecnologia stricto sensu. Antes, porém de encaminhar o referido documento, a SBPC deseja ouvir os vários setores da comunidade científica quanto ao conteúdo.

Posição da ABEP.

A 1ª Vice-Presidente, Maria Coleta Albino Ferreira, foi designada pela ABEP para fazer sugestões à SBPC quanto ao referido documento.

Com relação ao item Direito à Saúde, julgamos oportuna a inclusão de um tópico explicitando que o direito à saúde envolve o acesso a métodos seguros e eficazes se planejamento da prole, garantindo meios de controle da fecundidade e da infertilidade como parte das ações de assistência integral à saúde da mulher. Nesse sentido, secundamos as proposições do documento sobre ‘A Mulher na Constituinte’, elaborado pelo Conselho Estadual da Condição Feminina de São Paulo.” (Informativo Abep, nº 29, janeiro-abril/1987, p.7).

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da IUSSP em Salvador, é o momento em que não há mais dúvidas de que institucionalmente a ABEP amadureceu. Era uma participante à altura das demandas. E se cumpriu nos dois eventos, como precisava. Não era mais aquela história do subdesenvolvido, não tinha mais isso. (...) me lembro do encontro da IUSSP na Bélgica em 73, quando Maria Helena [Henriques], na grande assembléia no fim do encontro, Maria Helena se levanta e oferece a UnB como a sede do próximo encontro. Maria Helena era muito jovem naquele momento, e talvez não sentisse bem o que era país com ditadura, instabilidade política, para arcar com a responsabilidade de fazer um encontro quatro anos distante. Os outros sabiam perfeitamente, nossos líderes sabiam que não era o momento. Mas nos anos 90 era o momento sim, tanto individualmente, quanto institucionalmente. Não são tantas associações científicas no campo de população no mundo. A ABEP eu acho que é uma das mais sucedidas, e as pessoas reconheceram isso.

Diana Sawyer – Hoje, no cenário internacional, a ABEP tem uma certa projeção, ela é conhecida, é respeitada. (...) [Não é] uma associaçãozinha dum país da América do Sul.

Daniel Hogan e Neide Patarra, Nova Déli, 1989

É uma história tão incrível, foi no encontro da IUSSP em Nova Déli [em 1989]. Um grupo de brasileiros resolveu aproveitar e passar uns 4 dias em Kathmandu, no Nepal. Foi uma experiência fantástica, porque o Nepal naquela época, havia pouco tempo, só em meados dos anos 50, abriu suas fronteiras. Então, é uma população que viveu totalmente separada do mundo. E ainda vivia, no final dos anos 80, num estado de pureza inimaginável. [Estavam nesse grupo, além de mim e da Nazaré, minha mulher,] o Eduardo [Rios-Neto] e a mulher dele; a Léa [Melo Silva]; o Duval [Fernandes]; acho que o Carlos Eugênio [Ferreira] (...) nós entramos no avião de uma companhia aérea chamada Royal Nepal Airline, ainda estávamos sóbrios, graças a Deus. Já tinha sido distribuído o cardápio da refeição, aquela moda oriental, cardápios lindos, quando, ainda no solo, começaram a sair chamas da turbina do avião. O Eduardo me chamou atenção sobre o problema do avião, eu ainda xinguei o Eduardo, porque tenho pavor de avião. O comandante, quando acelerou as turbinas, mas ainda no chão, começaram a sair chamas e mais chamas da turbina, o comandante gritou no microfone para todos saírem do avião. Pelo que eu me lembre, ele foi o primeiro a sair. Como eu disse, já tinha distribuído o cardápio. Eu fui um dos últimos a sair, porque a minha mulher fez questão de não deixar nenhum [pacote de compras para trás]. E a hora que estou descendo a escada, o Eduardo estava subindo a escada do avião, para entregar o cardápio de volta à aeromoça. Os nomes mais cabeludos que xinguei na minha vida, foram naquele momento.

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Eduardo Rios-Neto – (...) acho que a ABEP já é uma líder global. Nós tivemos uma sessão na PAA, que ninguém conseguiu. Nós tivemos um presidente da IUSSP. Nós tivemos papel fundamental na criação da ALAP.

A ALAP é um capítulo recente na história da ABEP, apesar da idéia da criação de uma associação regional ser antiga. Representantes das várias associações de população dos países latino-americanos se reúnem em Ouro Preto, em 2002, quando é assinado o documento de fundação, e a ALAP faz seu primeiro encontro em 2004, em Caxambu, precedendo o encontro da ABEP. Não há dúvidas sobre a liderança da ABEP neste processo.

Eduardo Rios-Neto – (...) havia um certo clamor por aproveitar Salvador [IUSSP 2001] para tentar reorganizar, ou organizar pela primeira vez uma sociedade latino-americana. Um pouco isso começou, justiça seja feita, no encontro da ABEP de 2000, quando o Fernando Lozano, do México, veio representando a Somede na ABEP. Aí tinha a “máfia de Austin”. O Fernando veio, cantou lá, tocou piano, cantou com a Simone, o pessoal lá nas boemias. Ele falou: não, precisamos organizar uma associação latino-americana. E ele era o representante internacional da Somede. Um pouco esse clamor do Fernando,

I Congresso de la Associación Latinoamericana de Población (ALAP) - 18 a 20 de setembro de 2004 – Hotel Glória – Caxambu - MG

EDITORIAL

“A ABEP, no seu décimo primeiro ano de vida, conta com 450 associados, assim distribuídos pelo território nacional: 3% na Região Norte; 21% na Nordeste; 50% na Sudeste; 7% na Centro-Oeste e 6% no exterior. (...) O perfil técnico destes associados caracteriza-se pela multidisciplinaridade e pelo pluralismo.” (Informativo Abep, n°30, maio-agosto/1987, p. 1).

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e a mobilização que ele fez com a Somede e essa ligação, ABEP-Somede, é que botou fogo da gente tentar aproveitar o encontro de Salvador e fazer uma assembléia inaugural para dar um primeiro chute para a criação de uma associação latino-americana. O Fernando Lozano foi fundamental mesmo na criação dessa reunião. E por causa dessa motivação, eu consegui captar um recurso para a ABEP, ou seja, para o encontro da IUSSP, por intermédio da ABEP, internacional, que foi uma grant, que a gente conseguiu da Hewlett Foundation, a gente submeteu, eu fiz a consulta, a gente submeteu à Califórnia, e a Hewlett financiou parte dessa assembléia, e financiou (...) um pouco da troca era que a gente usaria o recurso da Hewlett para pagar passagens e diárias de latino-americanos no encontro de Salvador. Acabou que o recurso, nós conseguimos poupar um pouco, porque houve muito recurso, nós fomos muito bem sucedidos por esse encontro de Salvador. E parte desses recursos foi usada para o encontro de Ouro Preto, em 2002, onde foi de fato criada a ata, assinada a ata de criação da Alap. E foi aí o pontapé inicial para a Alap. Então, tanto a assembléia quanto a reunião de Ouro Preto, e o encontro de 2002, foram resultados dessa mobilização, que começou com a vinda do Fernando. Ou seja, foi muito uma parceria Somede-ABEP. Começou com essa vinda do Fernando em 2000, passamos pela reunião de IUSSP e culminamos com Ouro Preto. Além da política interna e da política externa, há um terceiro elemento de políticas envolvido nesta história: as políticas públicas. Será que a ABEP tem algum papel nas políticas públicas?

Daniel Hogan – Eu acho que a ABEP, enquanto instituição, sempre tentou manter uma posição apartidária. Não vou dizer apolítica, porque as pessoas reconhecem isso, reconheceram sempre, que a matéria-prima do nosso trabalho, desenvolvimento populacional, tem uma dimensão política, não se pode ignorar.

SUGESTÕES PARA O CENSO DE 1990

Conforme já foi noticiado, (...) a proximidade do período de preparação do Censo Demográfico de 1990 levou a Diretoria da ABEP a nomear uma comissão para elaborar um documento a ser encaminhado a Fundação IBGE, contendo sugestões para o referido Censo. (...) as contribuições deverão ser feitas a partir de uma avaliação das informações levantadas e divulgadas pelo Censo de 1980, pretendendo-se que elas não se limitem apenas à investigação, mas aborde, também, o processo dos resultados.” (Informativo Abep, n°30, maio-agosto/1987, p.1).

Aí começaram as várias reuniões [dos GTs da Clacso] nos anos 70. A gente se reunia anualmente. (...) em 73, foi no Celade, no Chile. A gente esteve lá 5 dias antes do Allende cair. (...) e nós fomos passar na alfândega, e não sei porquê, no papelzinho tinha a profissão, e o cara perguntou: qual é a profissão mesmo? E nós falamos: demógrafos. Demócrata? Naquele momento, era um perigo você dizer que você era demógrafo. Estava nas vésperas do golpe.

Referências

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