Igreja M issionária e Libertação
E rvino S ch m id t
Nosso te m a pod e ser in te rp re ta d o no s e n tid o da co n h e c id a e x pressão de D. B o n h o e ffe r " Ig r e ja só é Ig re ja q u a n d o existe para o u tro s " 1- É um a fó rm u la bastante usada. Podem os o u v i-la com fre q ü ê n cia. Entretanto, e la é m u ito d ifu sa e flu íd a . A o e m p re g á -la é, por isso, necessário d e fin ir de q u e m a n e ira a e n te n d e m o s. O q u e é p a ra nós Igre ja? Q ual é sua missão qu e re ce b e u d o Senhor?
1. Ig re ja M is s io n á ria é Ig re ja e m m a rc h a a p a r tir da e x p e riê n c ia d e l i b e rta ç ã o .
Tanto o p o vo d e Israel co m o ta m b é m a c o m u n id a d e cristã tiv e ra m consciência de serem um p o vo p e re g rin o (Cf. Hb. 13.14). Isto s ig n ific a q u e a q u e la s pessoas q u e fiz e ra m a e x p e riê n c ia do p o d e r de Deus, esti v e ra m em constante m o v im e n to . Estiveram em m a rch a , e s p e ra n d o a to tal re a liz a ç ã o do R eino de Deus. Esse aspecto d o p o vo de Deus em m a r cha nos parece ser de g ra n d e im p o rtâ n c ia para um a c o m p re e n sã o m ais a p ro p ria d a de Ig re ja m issio n á ria em nossos dias. V e ja m o s co m o as p á g i nas bíb lica s nos re la ta m e x p e riê n c ia s de lib e rta ç ã o qu e grupos fiz e ra m e com o os m esm os são im p u ls io n a d o s para fre n te , esp e ra n d o o c u m p ri m e n to das prom essas qu e re c e b e ra m de Deus.
a) A e x p e riê n c ia d e lib e rta ç ã o no A n tig o T e s ta m e n to
A m a io ria dos estudiosos d o A n tig o T estam ento considera o Êxodo o "a c o n te c im e n to fu n d a m e n ta l" para o p o vo de Israel. J ú lio de Santa A n a escreve: "A tra v é s d o m esm o não só a d q u iriu d e n s id a d e histórica, mas e le m esm o m arca o m o m e n to de um a lib e rta ç ã o q u e , d ific ilm e n te ,
1 — BONHOEFFER, D. Resistê n cia e Su b m issã o , 2 ed. Rio de J a n e iro , Paz e Terra - São L e opold o, S in o d a l, 1980, p. 186.
p o d e ria te r sido pre vista em co ndiçõe s n o rm a is"2 . V e rd a d e é q u e fic a mos m a ra v ilh a d o s a in d a h o je , q u a n d o lem os sobre essa e x p e riê n c ia de lib e rta çã o . A tra vé s dos re la to s b íb lico s fa ze m o s id é ia do g ra u de subm is são em q u e se e n c o n tra v a m os isra e lita s sob o d o m ín io de Faraó. Trans parece n itid a m e n te o s o frim e n to p e lo q u e te ve q u e passar o povo.
N ão resta a m e n o r d ú v id a q u e com o passar dos anos a le m b ra n ça q u e Israel m a n te ve do ê x o d o , fo i e n riq u e c id a e e n fe ita d a . M esm o to m a n d o isso em consid e ra çã o , consegu im o s te r um a n ítid a im pressão do q u e tem sido o a c o n te c im e n to do Êxodo. Temos aí um a " in v e rs ã o s ig n ifi ca tiva da o rd e m social: os o p rim id o s co n q u ista m a sua lib e rd a d e através de d u ra g e s ta "3.
U m a n o va p e rsp e ctiva se a b re para o p o vo de Israel. Temos qu e , p o ré m , d e ix a r bem cla ro , q u e p a ra os hebreus esta nova a b e rtu ra de seu fu tu ro é para eles um fa to de Deus. E e le q u e in tro d u z um a n o va d im e n são na v id a d o p o vo . A lib e rta ç ã o q u e e x p e rim e n ta ra m é o b ra de Deus. Essa co m p re e n sã o d o p o vo é g e n u ín a expressão de fé .
N o processo d o Êxodo po d e m o s d is tin g u ir duas fases. A p rim e ira fase é a Saída d o Egito ou Libertação. A se g u n d a é a da p e re g rin a ç ã o p e lo deserto ou o Êxodo p ro p ria m e n te d ito . O p rim e iro m o m e n to m arca um processo de co n fro n ta çõ e s, lutas e decisões q u e se p ro je ta m em d ire ç ã o à lib e rta ç ã o . O o u tro m o m e n to é o qu e co rre sp o n d e à coesão e o rg a n iz a ção do p o vo co m o n a ç ã o "4.
Na p rim e ira fase o d a d o fu n d a m e n ta l é q u e se in te n s ific a a con tra d iç ã o e n tre o p o d e r fa ra ô n ic o opressor e os israelitas. O c o n flito entre am bas as partes já e x is tia , p o ré m de m a n e ira la te n te . A g o ra , torna-se m a n ife sto . Os israelitas, nas suas aspirações, c o lo ca ra m a sua esperança no p o d e r lib e rta d o r de Deus. A c e ita ra m a M oisés com o por e le in d ica d o .
"Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou o Senhor e vos tirarei debaixo das cargas do Egito, vos livrarei da sua servidão e vos resgatarei com braço estendido e com grandes manifestações de julgamento. Tomar-vos-ei por meu povo, e serei vosso Deus; e sabereis que eu sou o SENHOR vosso Deus, que vos tiro debai xo das cargas do Egito" (Ex 6.6,7).
2 — SANTA A N A , J. de. et a lii. Liberdade e Fé. Rio de J a n e iro , Tem po e Presença, 1972, p. 72. 3 — Ib id ., p. 72.
Essas p a la vra s expressam a e sperança d a q u e le s q u e seriam lib e r tados da opressão da q u a l e ra m vítim as. Com outras p alavras: e n tre eles a lib e rta ç ã o já era um a convicção. Era, pois, preciso e n fre n ta r o p o d e r de Faraó.
A segunda fase é a m archa através do deserto. Ela não é m enos im p o rta n te q u e a a n te rio r.
Neste p e río d o surgem a lg u n s p ro b le m a s. A a u to rid a d e de M oisés é posta em questão. A p a re c e m a q u e le s qu e " p e rd e m a visão do fu tu r o " e se p õem a sonhar do passado. Im p o rta n te é observarm os q u e o povo do Êxodo, e m b o ra te n h a fe ito e x p e riê n c ia de lib e rta ç ã o , a in d a não é to ta lm e n te livre . Poderíam os d iz e r q u e se e n co n tra e n tre c u m p rim e n to e nova prom essa. Deve c o n tin u a r sua c a m in h a d a ru m o à te rra p ro m e tid a . E Deus sem pre o a c o m p a n h a nesta ca m in h a d a .
b) L ib e rta ç ã o no N o vo T e s ta m e n to
As re lig iõ e s d o m u n d o quase todas fa la m do a m o r dos deuses, mas fa la m ta m b é m qu e o h o m e m d e ve m e re ce r este a m o r. Em o posição a isso a m ensagem v e rd a d e ira m e n te re v o lu c io n á ria do N o vo T estam ento é o a m o r de Jesus para com os p e rd id o s e desviados, para com os in d ig nos e conden ados. Jesus sentou-se à mesa com p u b lic a n o s e pecadores. Toda a te n çã o era d irig id a aos fracos e o p rim id o s , às pessoas, cuja vid a estava arrazada.
Um a m u lh e r de má re p u ta çã o e n tra na casa de um fa ris e u , o nde Jesus é hóspede. A m u lh e r um e d e ce os pés de Jesus com suas lá g rim a s e o p ro fe ta de N azaré p e rm ite que e la lhe o fe re ç a esta h o m e n a g e m fo ra do com um (Lc 7. 37 ss). A re a çã o d o h o sp e d e iro é in d ig n a ç ã o e espanto. Se esse h o m e m v e rd a d e ira m e n te fosse um e n v ia d o de Deus, e le d e v e ria a fa sta r para lo n g e de si a q u e la m u lh e r de má fa m a !! M as Jesus q u e r d e m onstrar e esclarecer através de sua a titu d e , tão in co m u m , q u e Deus não a b a n d o n a os de p re za d o s, mas q u e r lib e rtá -lo s.
Exatam ente a q u e le s q u e não têm nad a a o fe re c e r, q u e estão no m u n d o de m ãos vazias, são procurados. Jesus se sabia e n v ia d o para a n u n c ia r e v iv e r um a m o r qu e não d e p e n d e de co ndiçõe s e qu e v a le in te g ra lm e n te para todos.
A obra de Jesus e n tre os seres h um anos o rie n ta -se para to d o o g ê nero h u m a n o e, em e sp e cia l, para a q u e le s q u e sofrem to d o tip o de opressão. Assim , Jesus re a liz a a in a u g u ra ç ã o do te m p o , no q u a l todas as cousas serão renovada s. O R eino de Deus, e sp e ra d o no A n tig o Testa m ento, tem o seu início. Escreve J. M o ltm a n n : "Jesus, o M essias da justi
ça de Deus v e io aos q u e n ã o tin h a m d ire ito s , aos pecado re s e aos c o le to res de im p o s to s "5.
Jo a ch im Je re m ia s ch a m o u a te n ç ã o para este m esm o aspecto num estudo e x a u s tiv o sobre as p a rá b o la s. N o centro da m ensagem de Jesus en co n tra -se a se g u in te v e rd a d e : a sa lva çã o lib e rta d o ra vem para os p o bres e pe rd id o s. Diz Je re m ia s q u e as p a rá b o la s de Jesus, p ra tic a m e n te sem e xceção, g ira m em to rn o deste te m a e nasceram em situações de c o n flito .
Elas são c o n scie n te m e n te d irig id a s contra a d ve rsá rio s qu e se re v o lta m contra o fa to de Deus m a n ife s ta r seu a m o r aos in d ig n o s. O resul ta d o dessa op çã o de Jesus p elos h u m ild e s e desprezad os era p re visíve l: Ele a tra i sobre si a ira dos poderosos qu e n ã o d e se ja va m m u d a n ça . S abe mos q u e a cruz fo i o d e se n la ce dessa c o n fro n ta ç ã o .
2. Ig re ja M is s io n á ria v iv e da c e rte z a da re s s u rre iç ã o
Fim trá g ic o p a ra m ais um m o v im e n to , p o d e ria a lg u é m pensar. M as, este não é o fim ! A h istó ria não te rm in a na cruz. "O n d e está ó m o r te o teu a g u ilh ã o ? O n d e está, ó m orte, a tua v itó ria ? " e x c la m a o a p ósto lo Paulo (1 Co 15.55).
"O ódio dos poderosos, sua capacidade opressora não podem acabar com a liberdade dos livres e com a fome de justiça dos justos. Apesar dos poderes deste mundo aparecerem, momen taneamente, vitoriosos, a ressurreição é um signo de que a li berdade não pode ser contida e que, não se pode antepor d i ques à libertação. A esperança, pois, mesmo nos momentos mais escuros, quando parece que não há mais saídas nem solu ções, não pode esgotar-se"6.
N ão h a v ia , a g o ra , m ais m o tiv o para sentir-se d e rro ta d o d ia n te da re a lid a d e . Para usar um a c o m p a ra çã o : o véu do fu tu ro a b riu -se de novo, para nunca m ais se fe c h a r.
U m a nova fo rç a e n tro u na v id a dos discípulos. Um a nova e sp e ra n ça nasceu. Esta e sperança está lig a d a ao Cristo ressurreto, in visíve l em si m esm o, mas visível nos seus e fe ito s. Entra no p la n o um a fo rç a m ais fo rte d o qu e tu d o q u e antes quis m a ta r neles a esperança. Dissemos qu e a li
5 — M O LTM A N N , J. e f a lii. Liberdade e Fé. Rio de J a n e iro , Tem po e Presença, 1972, p. 58. 6 — Ib id ., p.78.
b e rd a d e não m ais p o d e ser c o n tid a . Todas a q u e la s b a rre ira s q u e im p e d ia m a v id a e q u e m a ta va m a esperança , fo ra m vencidas:
" A força do im perialism o romano, do farisaísmo, da opinião pública, da mentalidade flutuante do povo. As forças da morte foram derrotadas. A guerra já estava vencida, embora a bata lha continuasse ainda. Era questão de tempo apenas. Nada mais podia amendrontá-los; enfrentavam o povo, os judeus, o sinédrio, os romanos, os fariseus, a tortura, a prisão (cf. Atos 2.14; 4.19-31; 5.29,41). A vida que neles nascera, já transpuse ra a morte, já era vida nova e vitoriosa (cf. Ef. 2.6). Mesmo que tivessem que sucumbir sob os golpes da morte, a vida não mor reria mais"^.
A g o ra tin h a se n tid o resistir, não se c o n fo rm a r com a situação. A g o ra tin h a se n tid o a g ir para tra n s fo rm á -la ! A g o ra n in g u é m m ais p re c i sava esquivar-se dos c o n flito s e co n tra d içõ e s d o seu te m p o . Era, p e lo c o n trá rio , possível a tu a r a p a rtir dos c o n flito s com vistas a superá-los, "p ro c u ra n d o cria r co ndiçõe s de v id a ond e a lib e rd a d e e a ju s tiç a " pudes sem ser concretizadas.
Isto v a le ta m b é m para nós na nossa m issão de cria r co ndiçõe s de v id a m ais co n d ize n te s com a lib e rd a d e para q u a l Cristo nos lib e rto u (Gl 5.1). A pesar das b a rre ira s qu e nos serão co locada s neste c a m in h o , te re
mos certeza de qu e a esperança não perece. Esta esperança , baseada na ressurreição de Cristo, sem pre fa rá irro m p e r fo rça s q u e p o s s ib ilita rã o um n o vo m u n d o , " m e lh o r e m ais h u m a n o q u e o do p a ssa d o ".
3. Ig re ja M is s io n á ria nã o g ira e m to rn o d e si m esm a
Se nós fa la m o s ta n to em lib e rta ç ã o , e n tã o não e n te n d e m o s este te rm o no seu e s tre ita m e n to de qu e e le , m uitas vezes, é v ítim a . Falam os em lib e rta ç ã o no seu s e n tid o to ta l. Trata-se, in clu sive , de um a lib e rta ç ã o da pessoa de si p ró p ria . E aí e x a ta m e n te qu e se dá o a va n ço em d ire ç ã o aos outros. Isto v a le para a Ig re ja toda. Ela, em sua missão, não p ode g i rar e to rn o de si m esm a. T am pouco d e ve p re o cu p a r-se e xcessivam ente em conservar a sua a tu a l estrutura.
Q uem sabe, estagna m o s, em vez de estarm os em m o v im e n to , em vez de serm os um p o vo em m archa? Será q u e não é assim q u e , com p o u cas exceções, estam os por d e m a is presos a fo rm a s de tra b a lh o qu e fu n
cio n a m com o v e rd a d e iro s obstáculos à re n o v a ç ã o e lib e rta ç ã o em nosso contexto? Q uem observa a nossa m a n e ira de tra b a lh o , p o d e ria te r a im pressão q u e estam os lig a d o s a fo rm a s tra d ic io n a is com o se tivessem sido fix a d a s em c a rá te r d e fin itiv o . Em to d o caso estam os e rra n d o , se nos a p e gam os a d e te rm in a d a s fo rm a s sem q u e stio n á -la s. Pode ser qu e a in d a se jam v á lid a s, mas é preciso q u e s tio n á -la s de co n tín u o . N ão q u e re r substituí-las po r outras q u a n d o com eçam a fa lh a r “ s ig n ific a a p risio n a r-se ao passado, p e rm a n e c e r in in te le g ív e l no presente e d a r as costas para o fu tu r o " 8. Q uem sabe, nós estam os co n se rva n d o estruturas q u e im p e d e m a m is s io D e i na so cie d a d e de hoje? Teríam os, e n tã o , um e x e m p lo de es tru tu ra s heréticas. O nosso caso n ã o p o d e ser fic a rm o s estacionados. Para os cristãos o e sta c io n a m e n to é p ro ib id o . F alando em lin g u a g e m tira d a do m u n d o do trânsito: q u a n ta s pessoas p a g a m pesadas m ultas por estacio n a m e n to p ro ib id o ! Será qu e não vam os ta m b é m nós p a g a r m u ito caro se n ã o p ro cu ra rm o s estruturas m ais d in â m ic a s qu e nos a ju d e m a re a lm e n te serm os um p o vo em m archa?
4. Ig re ja M is s io n á ria é Ig re ja no m u n d o
A Ig re ja qu e p ro c la m a e v iv e a lib e rta ç ã o não pod e e x is tir para si m esm a, mas se de stin a ao m undo.
" A Igreja tem a natureza do corpo de Cristo crucificado e res suscitado somente quando é obediente no mundo, pelo serviço concreto da missão. Sua existência depende inteiram ente do cumprimento de seu serviço. Por isto ela nada é por si mesma, mas é tudo o que é pela existência para os outros. Ela é a comu nidade de Deus quando é comunidade para o m undo"1’’. Cristo o L ib e rta d o r e S a lva d o r c e rta m e n te não é S enhor de um a ig re ja sa tisfe ita consigo m esm a e e sta g n a d a , mas e le é o S enhor de um a Ig re ja em m archa q u e e x ig e " p a r a o u tro s ", se d irig e a o m undo. A a b e r tura para o m u n d o é parte da m issão da Ig re ja . A lib e rta ç ã o q u e e x p e ri m en ta m o s nos conduz em d ire ç ã o aos outros. A í tem os a m o la m estra p a ra a nossa ta re fa m issio n á ria h o je . Porque sabem os o qu e s ig n ific a sa lva ção, buscam os a m a in a r d o e n ça e m iséria. Porque tem os e x p e rim e n ta d o a paz qu e está a cim a de to d o nosso e n te n d im e n to , não po d e m o s s ile n ciar d ia n te de fa lta de paz, do abuso de p o d e r e de q u a lq u e r tip o de es
8 — CMI. U m a Igre ja p a ra o m undo. S. Paulo, P ub lica d o ra Ecclesoa, 1969, p. 32. 9 — M O LTM A N N , J. T e o lo gia da Esp eran ça. S. Paulo, H erd er, 1971, p. 392.
cra vid ã o . Porque sabem os o q u e é justiça d iv in a , e m p e n h a m o -n o s por justiça no m u n d o , por estruturas m ais justas e nos colocam os a o la d o dos d e s p riv ile g ia d o s . Porque nos fo i m ostrada a lo n g a n im id a d e de Deus, q u e re m o s to le râ n c ia e n tre as pessoas e e n tre as nações. Porque vive m o s da re c o n c ilia ç ã o em Cristo, lançam os pontes, somos p a c ific a d o re s e lu ta mos por chances ig u a is para todos. Porque confessam os qu e Deus se to r nou pessoa h u m a n a e qu e somos seus filh o s , e m p e n h a m o -n o s pelos d i reitos hum anos, p e la conservação da d ig n id a d e h u m a n a e por s o lid a rie d a d e com os desprezados.
Porque nos é d a d a a p o s s ib ilid a d e de a rre p e n d im e n to d iá rio , v i vem os em lib e rd a d e e in c e n tiv a m o s todos a d e ix a re m de la d o os p re co n ceitos. Porque esperam os um n o vo céu e um a nova te rra o n d e a justiça h a b ita , fa ze m o s tudo, já a g o ra , p e la h u m a n iza çã o do ser h u m a n o , p e la so cia liza çã o da h u m a n id a d e , p e la paz no m u n d o , em sum a, para que ve n h a re in a r a esperança c ria d o ra e tra n s fo rm a d o ra da nossa re a lid a d e .
O q u e e x p e rim e n ta m o s e o q u e esperam os nos im p u ls io n a para a fre n te , em d ire ç ã o aos irm ãos.
A co n cre tiza çã o do qu e fo i d ito a c im a , é p rá tica da m is e ricó rd ia no se n tid o b íb lic o . "S e d e m isericordiosos com o ta m b é m é m ise rico rd io so o vosso P a i" (Lc 6.36). Esta p a la v ra de Jesus se re fe re à m is e ric ó rd ia co mo sendo a a titu d e característica d o cristão em re la çã o aos seus sem e lhantes (2 Co 4.1). O cristão há de p e rg u n ta r p e lo irm ã o q u e se e n co n tra em d ific u ld a d e e há de se to rn a r o p ró x im o para e le a e x e m p lo do bom sa m a rita n o (Lc 10.25ss).
Da ta re fa m issio n á ria da Ig re ja fa z parte in a lie n á v e l a tra n s fo rm a ção da re a lid a d e de s o frim e n to . Por isso, cristãos viv e m in c o n fo rm a d o s com o a tu a l estado de coisas. N ão se a d a p ta m às co ndiçõe s do m u n d o a tu a l. Ou, para d iz ê -lo p o s itiv a m e n te , p ro cu ra m a n te c ip a r em m e io às condiçõe s deste te m p o , as características do re in o de Deus q u e já v ira m em Jesus Cristo e q u e a in d a a g u a rd a m em sua p le n itu d e . C hegam os, com isso, a um te m a bastante d e b a tid o , o da re la ç ã o e n tre esperança cristã e ação m issio n á ria a q u i e a g o ra . O a p ó sto lo Paulo teve q u e re p re e n d e r a lg u n s q u e , cru za n d o os braços, a g u a rd a v a m in a tivo s a v in d a do Senhor. O c o n trá rio tem os na segund a epísto la de Pedro. A í vem os um g ru p o d e s ilu d id o com a d e m o ra da v in d a do S enhor e da re n o va çã o de todas as coisas. M as nem e sperança passiva, nem a tiv is m o d e s lig a d o da esperança é esperança cristã.
Os cristãos, em to d o o N ovo T estam ento, são e xo rta d o s a respon d e re m c o n cre ta m e n te à lib e rta ç ã o p re se n te a d a . Essa é sua missão. N ão
se trata de atos de v irtu d e p ró p ria , mas de ações q u e já a g o ra co rre sp o n dam ao fu tu ro e s ta b e le c id o em Jesus Cristo.
A Ig re ja só se e n co n tra na m issão de Cristo q u a n d o s o lid á ria com os o p rim id o s , com os qu e sofrem .
Porque Deus em Jesus Cristo e x a lto u p re cisa m e n te um so fre d o r, a Ig re ja obscu re ce ria a sa lva çã o se deixasse de la d o a p re o cu p a çã o pelos q u e sofrem .
Nos dias 18 e 19 de ju n h o d o a n o passado o C onselho D iretor da IECLB esteve re u n id o em s e m in á rio de p la n e ja m e n to sob o te m a "M is s ã o — m a n d a to e in s tru m e n ta l". Neste e n c o n tro é re a firm a d a a visão de Ig re ja com o serva. Em sua e x istê n cia m arca d a p e la opçã o do serviço c a b e -lh e o u v ir o c la m o r d o p o vo e c a m in h a r com os qu e sofrem . Percebe-se, em tu d o isso, a d im e n s ã o p o lític a da missão. "D e u s e x ig e de to d a o rd e m p o lític a , social e e co n ô m ic a a justiça e o ze lo p e lo bem -estar de todos. E no q u e a Ig re ja d e ve insistir, so lid a riz a n d o -s e com os in ju s ti ç a d o s "10. Um a Ig re ja s e rvid o ra d e s a fia o p o d e r dos grandes. E neste sen tid o qu e se constata de m a n e ira re a lista :
" A defesa da vontade de Deus no mundo é tarefa ingrata. Nor malmente colide com interesses maciçamente humanos, opos tos ao que Deus quer. Mas a Igreja fatalm ente há de tornar-se culpada, quando fica devendo ao mundo o anúncio dos propó sitos divinos. Neste anúncio consiste sua tarefa profética, d ifí cil, sim, mas necessária para a salvação do m u n d o ".11 A Ig re ja e n co n tra obstáculos no c u m p rim e n to de sua ta re fa m is sio n á ria . E se fosse por nossas forças, d e s â n im o im p re te riv e lm e n te d e la to m a ria conta. Ig re ja só pod e cu m p rir sua m issão no m u n d o a p a rtir da certeza da ressurreição, a p a rtir da certeza q u e o re in o de Deus nã o pode ser c o n tid o , ou co m o fo rm u la J. M o ltm a n n : "Esta m issão não se re a liz a d e n tro d o h o rizo n te e stre ito dos pa p é is sociais q u e a so cie d a d e concede à Ig re ja , mas d e n tro do vasto h o rizo n te de esperanças d o fu tu ro R eino de Deus, da fu tu ra justiça, da fu tu ra paz, da fu tu ra lib e rd a d e e d ig n id a d e do h o m e m . O C ristia n ism o não d e ve se rvir para q u e o m u n d o co n tin u e sen d o a q u ilo q u e é, ou seja g u a rd a d o n a q u ilo q u e é, mas para qu e se trans fo rm e e se to rn e o qu e lhe está p r o m e tid o " 12.
Por isso, Ig re ja m issio n á ria n ã o pod e s ig n ific a r senão Ig re ja a ser viço do re in o de Deus e da re n o v a ç ã o do m undo.
10 — IECLB re a v a lia sua ta re fa m issio n á ria no país. In: In fo rm aç ão IECLB. A n o IX, n ° 83, se te m b ro d e 1987.
I I — Ibid.