FUNDAÇÃO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONÔMICAS
Artigos
Carlos Eduardo Soares Gonçalves analisa, com base na teoria econômica, o projeto de parceria público privada.
Eli Roberto Pelin atribui a expectativa de não haver petróleo suficiente para atender a demanda futura como a principal razão para a alta de preço a curto e médio prazo.
Rogério Nagamine Constanzi discute a importância do fórum nacional de trabalho para a reforma sindical no Brasil.
Alexandre Andrade, Carlos Azzoni e Heron do Carmo apresentam uma síntese da me- todologia da pesquisa de índices de preços regionais que vem sendo elaborada pela FIPE.
Panorama Macroeconômico
A carta Fipe descreve as duas polêmicas decisões de política econômica tomadas, em setembro, pelo governo.
Rodrigo Celoto destaca que o superávit primário nos sete primeiros meses deste ano chegou a 5,6% do PIB.
Roberto Troster analisa as razões da elevada taxa de juros no Brasil e conclui que isto se deve a distorções na tributação e à instituição de porcentuais draconianos para os depósitos compulsórios.
Simão Davi Silber destaca que as informações disponíveis até agosto indicam que o setor externo continua a ser o carro chefe na recuperação da economia brasileira.
Fernando Homem de Melo esclarece que, apesar da perda de cerca de 10 milhões de toneladas de grãos neste ano, a produção chegou a 119,3 milhões de toneladas, volume inferior apenas ao recorde de 2003, cuja safra atingiu 123,2 milhões de toneladas.
Manuel Enriquez Garcia comenta os números mais recentes sobre o PIB e destaca o crescimento de 4,2%, ocorrido no primeiro semestre deste ano relativamente ao mesmo período de 2003.
ISSN 1234-5678
Nº 288 Setembro / 2004
INFORMAÇÕES FIPE É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL DE CONJUNTURA ECONÔMICA DA FUNDAÇÃO
ISSN 1234-5678
CONSELHO CURADOR
Maria Cristina Cacciamali (Presidente) Carlos Antonio Luque Carlos Roberto Azzoni Elizabeth M. M. Q. Farina
Hélio Nogueira da Cruz Simão Davi Silber André Franco Montoro Filho DIRETORIA
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Ivo Torres Lenina Pomeranz Luiz Martins Lopes José Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena Pallares Zockun Simão Davi Silber ASSISTENTES
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Sandra Vilas Boas
Nº 288 SETEMBRO DE 2004
AS IDÉIAS E OPINIÕES EXPOSTAS NOS ARTIGOS SÃO DE RESPONSABILIDADE EXCLUSIVA DOS AUTORES, NÃO REFLETINDO A OPINIÃO DA FIPE PANORAMA MACROECONÔMICO
carta Fipe ... 3 finanças públicas ... 4 RODRIGO RODRIGUES CELOTO
política monetária ... 6 ROBERTO LUIS TROSTER
setor externo ... 8 SIMÃO DAVI SILBER
agricultura ... 9 FERNANDO HOMEMDE MELO
nível de atividade e emprego ... 10 MANUEL ENRIQUEZ GARCIA
ARTIGOS 12 ... parceria público privada CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES
15 ... o comportamento dos preços do petróleo no mercado internacional ELI ROBERTO PELLIN
18 ... fórum nacional do trabalho e reforma sindical no Brasil ROGÉRIO NAGAMINE COSTANZI
23 ... índices de preços regionais: metodologia e resultados ALEXANDRE AUGUSTO SEIJASDE ANDRADE, CARLOS ROBERTO AZONI, HERON CARLOS ESVAELDO CARMO
setembro de 2004
panorama macroeconômico
carta Fipe
O mês de setembro foi marcado por duas importantes e polêmicas decisões. A primeira, na tradicional reunião mensal do Conselho de Política Monetária, o já conhe- cido COPOM, foi a elevação da taxa de juros SELIC de 16,00% para 16,25% ao ano. Mais ainda, a sinalização foi de novas altas nos próximos meses. A segunda foi o anúncio, pelo Ministério da Fazenda, do aumento do superávit primário de 4,25% para 4,50% do PIB neste ano. Este é um aumento expressivo da meta. Se consi- derarmos que este aumento é para 2004, sendo que dois terços do ano já se passaram, na margem o superávit é de 1,0% do PIB no último trimestre. Desse modo, a política fiscal contribui para diminuir o ritmo de atividade na margem e ajudar o Banco Central em suas preocupações com a inflação.
Essa política é de grande interesse para o futuro de nossa política econômica. De um lado, estão os analistas que, com algumas ressalvas, consideram o aumento do superávit (e dos juros) como acertada. As ressalvas ficam por conta de um excesso de preocupação com a inflação e com uma eventual excessiva apreciação da taxa de câmbio. Aliás, a ocorrência desta facilitaria o con- trole da inflação. Entretanto, não parece haver grandes problemas com a inflação. O que há, e não é de hoje, é um nível de inércia inflacionária que leva o aumento de preços a ser superior a metas surreais, como a de 4,5%
para 2005 (alterada para 5,1% em 22/09). Será que é ruim uma inflação estável, em algo como 7,0% para um País que está crescendo na margem 6,0% ao ano? Além disso, a eventual apreciação da taxa de câmbio pode explicar as modestas previsões para as exportações em 2005 (US$
94,5 bilhões) e superávit comercial (US$ 24,5 bilhões) relativamente a este ano, feitas pelo Banco Central.
De outro lado, talvez em minoria, estão os economistas que questionam as duas decisões de política econômica.
Por exemplo, Paulo Nogueira Batista Jr. disse que “é im- possível avaliar com um mínimo de precisão os efeitos de um superávit primário mais alto sobre as expectativas, confiança e inflação.” Isto, pela razão de os analistas favoráveis argumentarem que uma política fiscal mais agressiva re- duziria os prêmios de risco e facilitaria futuras reduções da taxa SELIC. (Folha de São Paulo, 23/09/04, p. B-2).
Antes do anúncio do aumento do superávit fiscal, João Sayad e Antonio Delfim Netto já haviam escrito critica- mente sobre o aumento da taxa de juros. O primeiro, estimando em R$ 300 milhões por ano o aumento do juro SELIC, criticou o processo decisório do Banco Central:
“O que está errado é confundir ciência e realidade ou se tornar escravo da liturgia. Liturgia e modelo foram criados para que a decisão do Banco Central ganhe legitimidade. Mas a legitimi- dade depende mais da sabedoria das autoridades monetárias e do reconhecimento que instituições são tão importantes quanto frágeis.” (Folha de São Paulo, 20/09/04, p. A-2).
Finalmente, o deputado Delfim Netto, que tem defendido o estímulo continuado para que o Brasil aumente suas exportações com vistas a garantir o crescimento, ao con- trário do Banco Central com suas modestas metas para 2005, escreveu o seguinte: “Temos uma melhoria espetacular na situação brasileira: um dramático aumento do crescimento e uma redução da taxa de inflação combinados com um superávit primário e em conta corrente.” Ao concluir, disse “Não terá chegado a hora de em lugar de apenas repetir e repetir o aumento do juro, repensar o papel das políticas fiscal e monetária e o do Banco Central?“(Folha de São Paulo, 22/09/04, p. 02). Muito está em jogo. O futuro do Brasil e de seu povo exige esse
“repensar”. O desafio é fazê-lo de maneira séria.
setembro de 2004
RODRIGO RODRIGUES CELOTO (*)
finanças públicas
Necessidade de Financiamento do Setor Público
O superávit primário do setor público de janeiro a julho foi de R$ 52,8 bilhões, ou 5,6% do PIB. No mesmo período do ano passado esse superávit foi de R$ 44,3 bilhões ou 5,2% do PIB.
O governo central contribuiu para um superávit, no período, de R$ 39,6 bilhões (4,2% do PIB) contra R$ 32,7 bilhões (3,83% do PIB) no mesmo período de 2003. Os governos regionais aumentaram seu superávit como proporção do PIB de R$ 9 bilhões (1,06% do PIB) nos primeiros sete meses do ano passado para R$ 11,58 bilhões (1,23% do PIB) no ano em curso. Já as empre- sas estatais tiveram um superávit de R$ 1,59 bilhões (0,17% do PIB) contra R$ 2,64 bilhões (0,31% do PIB) no mesmo período do ano passado.
Os juros nominais, nos primeiros sete meses, foram de R$ 72,2 bilhões (7,65% do PIB) contra R$ 89,2 bilhões (10,47% do PIB) de 2003. O governo central despendeu com juros de R$ 43,4 bilhões (4,6% do PIB), os governos regionais R$ 32,2 bilhões (3,41% do PIB) e as empresas estatais obtiveram receitas líquidas de R$ 3,37 bilhões (0,36% do PIB).
O déficit nominal resultante foi de R$ 19,4 bilhões para o setor público (2,06% do PIB) contra R$ 44,9 bilhões (5,27% do PIB) no mesmo período de 2003, sendo que o governo central contribuiu com um déficit de R$ 3,7 bilhões (0,4% do PIB), os governos regionais contri- buíram para um déficit de R$ 20,6 bilhões (2,18% do PIB) e as empresas estatais com um superávit de R$
4,96 bilhões (0,52% do PIB). Fonte: BCB.
Notas: 1 - Inclui o INSS. (+) déficit (-) superávit.
tabela 1 - necessidades de financiamento do setor público
R$ milhões Correntes % PIB
2003 2004 2003 2004
Discriminação Jan-Jul Ano Jan-Jul Jan-
Jul Ano Jan- Jul Nominal 44 931 79 032 19 407 5,27 5,22 2,06 Governo central 30 034 62 153 3 737 3,52 4,10 0,40 Governo federal1/ 35 417 74 065 6 320 4,16 4,89 0,67 Bacen -5 383 -11 912 -2 583 -0,63 -0,79 -0,27 Governos regionais 15 855 27 002 20 626 1,86 1,78 2,18 Governos estaduais 12 646 22 936 16 974 1,48 1,51 1,80 Governos municipais 3 209 4 067 3 651 0,38 0,27 0,39 Empresas estatais - 958 -10 123 -4 956 -0,11 -0,67 -0,52 Empr. estatais fed. 1 179 -7 834 -5 274 0,14 -0,52 -0,56 Empr. estatais estad. -2 080 -2 311 222 -0,24 -0,15 0,02 Empr. estatais munic. - 57 21 97 -0,01 0,00 0,01 Juros nominais 89 259 145 205 72 203 10,47 9,58 7,65 Governo central 62 713 100 896 43 370 7,36 6,66 4,59 Governo federal1/ 68 198 113 003 46 065 8,00 7,46 4,88 Bacen -5 484 -12 107 -2 694 -0,64 -0,80 -0,29 Governos regionais 24 866 40 824 32 201 2,92 2,69 3,41 Governos estaduais 20 838 34 851 27 589 2,45 2,30 2,92 Governos municipais 4 027 5 973 4 612 0,47 0,39 0,49 Empresas estatais 1 680 3 484 -3 368 0,20 0,23 -0,36 Empr. estatais fed. 1 211 1 763 -5 235 0,14 0,12 -0,55 Empr. estatais estad. 337 1 482 1 743 0,04 0,10 0,18 Empr. estatais munic. 132 239 124 0,02 0,02 0,01 Primário -44 329 -66 173 -52 796 -5,20 -4,37 -5,59 Governo central -32 679 -38 744 -39 633 -3,83 -2,56 -4,20 Governo federal -44 870 -65 343 -54 322 -5,27 -4,31 -5,75
Bacen 101 195 112 0,01 0,01 0,01
INSS 12 089 26 405 14 577 1,42 1,74 1,54 Governos regionais -9 011 -13 821 -11 576 -1,06 -0,91 -1,23 Governos estaduais -8 193 -11 916 -10 615 -0,96 -0,79 -1,12 Governos municipais - 818 -1 906 - 961 -0,10 -0,13 -0,10 Empresas estatais -2 639 -13 608 -1 587 -0,31 -0,90 -0,17 Empr. estatais fed. - 33 -9 597 - 39 0,00 -0,63 0,00 Empr. estatais estad. -2 417 -3 793 -1 521 -0,28 -0,25 -0,16 Empr. estatais munic. - 189 - 217 - 27 -0,02 -0,01 0,00
setembro de 2004 janeiro-julho
2003 2004 % 04/03
Receita Total 203.399 236.411 16,2%
Receitas do Tesouro 161.055 185.788 15,4%
Receita da Previdência 41.761 49.984 19,7%
Transferências 36.098 38.193 5,8%
Receita Líquida 167.301 198.218 18,5%
Despesa Total 135.204 160.238 18,5%
Pessoal e encargos 44.792 47.850 6,8%
Benefícios previdenciários 53.850 64.562 19,9%
Custeio e Capital 35.550 46.749 31,5%
Transferências ao Banco Central 329 327 -0,5%
Despesas do Banco Central 684 750 9,7%
Resultado Primário Gov. Central 32.097 37.980 18,3%
Tesouro Nacional 44.288 52.669 18,9%
Previdência Social (12.089) (14.577) 20,6%
Banco Central (101) (112) 10,4%
Resultado Primário Governo/PIB 3,77% 4,02% 6,6%
Resultado do Tesouro Nacional
A receita do Tesouro Nacional, nos sete primeiros meses do ano, foi de R$ 236,4 bilhões contra R$ 203,4 bilhões no mesmo período do ano passado, um cresci- mento de 16,2%. As receitas do Tesouro subiram 15,4%
e as da previdência subiram 19,7%. Considerando as transferências de R$ 38,2 bilhões, que apresentaram crescimento de 5,8%, a receita líquida alcançou a cifra de R$ 198,2 bilhões, um crescimento de 18,5%.
A despesa total de janeiro a julho foi de R$ 160,2 bilhões contra R$ 135,2 bilhões no mesmo período de 2003, apresentando um crescimento de 18,5%. As despesas com pessoal e encargos, benefícios previ- denciários e custeio capital apresentaram crescimento respectivo de 6,8%, 19,9% e 31,5%.
O resultado primário do governo Central resultante foi um superávit de R$ 37,9 (4,02% do PIB) bilhões, sendo R$ 52,7 bilhões de superávit do Tesouro Nacional, e um déficit de R$ 14,6 bilhões da Previdência Social.
Fonte: BCB.
Notas: 1 - Inclui o INSS. (+) déficit (-) superávit.
Fonte: STN.
tabela 2 - resultado do tesouro nacional - R$ milhões
(*) Economista – Participante do Grupo de Conjuntura da FIPE.
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O índice de Preços ao Consumidor do Município de São Paulo é o mais tradicional indicador da evolução do custo de vida das famílias paulistanas e um dos mais antigos do Brasil. Começou a ser calculado em janeiro de 1939 pela Divisão de Estatística e Documentação da Prefeitura do Município de São Paulo. Em 1968, a responsabilidade do cálculo foi transferida para o Instituto de Pesquisas Econômicas da USP e, posteriormente em 1973, com a criação da FIPE, para esta instituição.
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setembro de 2004
ROBERTO LUIS TROSTER (*)
política monetária
É fato, as taxas de juros no Brasil estão entre as mais altas do mundo e deve-se promover sua redução para aumentar o investimento, diminuir o grau de mortali- dade de empresas brasileiras e engendrar as condições para o desenvolvimento sustentado.
As expectativas de queda da taxa Selic são limitadas.
Representantes de todos os setores da sociedade, inclusive do governo, clamam por ações para baixar o spread bancário, ou seja, a diferença entre a taxa cobrada pelos bancos e os juros básicos. Mesmo con- siderando que em razão da consistência das políticas fiscais e monetárias os spreads vêm caindo, seu valor ainda é muito alto. Para tanto, um diagnóstico correto é pré-requisito para a aplicação da terapia correta.
O primeiro ponto é sobre o valor do spread. Os núme- ros usados como referência são inconsistentes e indu- zem a uma percepção parcial e distorcida da realidade.
Tese de doutoramento defendida na Universidade de São Paulo (USP), há um mês, pela brilhante economista Ana Costa, aprofunda a questão do spread.
A autora demonstra, de maneira categórica, que um primeiro estudo do Banco Central, exaustivamente citado, apresenta limitações de: a) amostra – os pro- dutos selecionados cobrem apenas uma parcela do total do crédito; b) no cálculo da inadimplência – que pode subestimar seu valor; c) há um viés de seleção no conjunto de bancos – usam-se apenas 17 privados e excluem-se os públicos; e d) na definição de margem líquida – a nomenclatura é ambígua e induz a uma interpretação errônea de seu significado.
O trabalho defendido faz uma estimação da participa- ção da margem líquida dos bancos no spread, corrigin- do as distorções apontadas. O resultado é comparado com o obtido com a metodologia e a amostra original do Banco Central. Enquanto o cálculo do BC é de 38,28%, aprimorando a metodologia, corrigidas as
distorções e ampliada a amostra, a margem líquida cai para 7,24% na tese de Ana Costa. A autora conclui que os bancos, “no Brasil, contrariamente ao que estudos anteriores sugerem, apresentam uma componente de margem nessas operações que é, na média, bastante reduzida.” Ou seja, a margem dos bancos não é a razão principal dos juros altos.
Outra causa apontada dos spreads elevados é a con- centração do setor bancário. Entretanto, levantamento do Banco Mundial, feito por T. Bekc em 2003, compa- rando a taxa de concentração bancária entre 74 países, mostra que a concentração brasileira é mais baixa que a média. Uma ordenação coloca o Brasil entre os 20%
menos concentrados.
Os lucros dos bancos são apontados por muitos como altos. A justificativa para serem elevados é o fato de os bancos serem empresas grandes em razão de sua es- cala de operação e risco. Todavia, uma comparação de seu lucro com o patrimônio mostra que a rentabilidade dos bancos não é excepcional. Na recente publicação Valor 1000, de 2004, que mostra o lucro das maiores empresas brasileiras, o banco mais rentável estaria em 129º lugar, e só 5 bancos se situariam entre as 300 empresas mais rentáveis. Neste sentido, deve-se dar ao lucro dos bancos uma avaliação mais ponderada.
É inconteste que no Brasil os bancos cobram juros elevados; no entanto, esses juros não revertem em lucro. Desta forma, enquanto o lucro dos bancos, sua margem no crédito e a concentração são causas secun- dárias, as causas relevantes – tributação, compulsórios e o quadro institucional – devem ocupar um lugar de destaque no debate.
A tributação brasileira é bizantina. Numa operação de um mês que não gere lucros, o investidor não seja remunerado, sem custos bancários, inadimplência nula e com a taxa Selic igual a zero, por conta dos
setembro de 2004 compulsórios, CPMF, FGC, PIS, Cofins, FGC e IOF
produz uma taxa anualizada de 29,40% ao ano. Um absurdo!
Os compulsórios no Brasil são draconianos. Seu uso como instrumento de política monetária e de estabi- lidade bancária já foi abandonado em quase todos os países. Os valores recolhidos no Brasil são os mais altos do mundo e, na prática, o compulsório funciona como um imposto indireto, pois permite o financiamento de parte da dívida do governo a um custo abaixo do de mercado. A questão é que esse tributo camuflado onera todos os demais créditos.
O quadro institucional para operações bancárias é obsoleto e inadequado. Os direitos dos devedores devem ser defendidos de maneira célere, previsível e eficiente, o que não acontece. A título ilustrativo, en- quanto uma falência demora meses em alguns países, aqui, segundo o Banco Mundial, demora dez anos, em média. São milhares de horas de advogados talentosos dilapidadas por excessos de recursos protelatórios e formalismos desnecessários.
A questão dos juros elevados é complexa e envolve outros fatores como a consistência de políticas ma- croeconômicas, o peso dos custos de observância, a informalidade e a dinâmica da economia. Uma de- composição do spread e seus determinantes é condição necessária para uma prescrição acertada das medidas corretivas.
Baixar as taxas de juros é condição indispensável para o País voltar a crescer sustentadamente. Apesar da pre- mência, em 2003 o governo aumentou o recolhimento compulsório, elevou a tributação e apresentou poucos avanços na questão institucional. É irrazoável acreditar
que sem mudanças na direção certa, relativas à tributa- ção, os depósitos compulsórios e o quadro institucional poderá haver quedas expressivas nos juros.
(*) Fipe, Febraban e PUC/SP.
setembro de 2004
As informações disponíveis até agosto de 2004 indicam que o setor externo continua como carro chefe da recuperação da economia brasileira em um ambiente macroeconômico de menor volatilidade. O resultado comercial é um dos mais destacados do mundo: só existe um país emergente com superávit comercial superior ao brasileiro: a Rússia, em razão dos preços elevados do petróleo. Nos últimos doze meses, en- cerrados em agosto, o superávit comercial foi de US$
31 bilhões, com exportações acumuladas de US$ 89 bilhões e importações de US$ 58 bilhões. O Brasil já está se aproximando do patamar de US$ 90 bilhões de exportações, e entre 2005 e 2006 deveremos ter alcançado a marca dos US$ 100 bilhões, já prometidos por vários governos.
Em termos de taxas de crescimento, as exportações estão crescendo a uma taxa anual de 29% e as impor- tações crescem a 25%. Trata-se de um crescimento expressivo, quando comparado com o padrão médio de crescimento do comércio mundial. Até meados do ano, o crescimento mais significativo é de produtos básicos, com um aumento, no primeiro semestre, de 32% com relação a idêntico período do ano passado, seguido pelas exportações de manufaturados, que cresceram 26%.
Com relação aos demais itens do balanço de pagamen- tos, os destaques são os seguintes: o resultado na conta de serviços – no agregado – apresenta comportamento semelhante ao observado nos dois últimos anos. O déficit deve continuar no patamar dos US$ 23 a 24 bilhões. Uma mudança importante ocorreu dentro da estrutura das despesas com serviços, com o aumento das remessas de lucros e dividendos ao exterior, que neste ano estão 5% acima das verificadas em 2003. O resultado final previsto é o crescimento do saldo das transações correntes para US$ 5 bilhões, ou 1,5% do PIB. Trata-se de um resultado expressivo, em termos
de ajustamento do balanço de pagamentos, porém inadequado para o crescimento da economia brasi- leira no longo prazo. O Brasil, antes da mudança do regime cambial, tinha um aporte de poupança externa da ordem de 4% do PIB, e a mudança do balanço de pagamentos ocorrido nos últimos seis anos transfor- mou o País em exportador de capital. Se a dependência de poupança externa no passado era exagerada, no momento atual o superávit em transações correntes reduz a disponibilidade de fundos para financiar o crescimento da economia. Claramente o País, ape- sar do aprimoramento da política macroeconômica, ainda não conseguiu criar um ambiente adequado para o ingresso de capital estrangeiro, sob qualquer rubrica. Os investimentos diretos estrangeiros devem fechar o ano em US$ 10 bilhões e o Brasil não está conseguindo renovar integralmente os empréstimos e financiamentos que estão vencendo neste ano. Até agosto, o movimento líquido de capitais externos era negativo em US$ 3,2 bilhões, fato inusitado para as contas externas do País. Visto de uma outra maneira, o que tem mantido um fluxo cambial positivo e a es- tabilidade da taxa de câmbio é o superávit comercial, já que o fluxo financeiro e de capital tem se mantido sistematicamente negativo.
(*) Professor da FEA-USP.
SIMÃO DAVI SILBER (*)
setor externo
setembro de 2004 Os Números Finais da Safra de Grãos
Infelizmente, o sexto e último levantamento da CO- NAB (Companhia Nacional de Abastecimento) con- firmou uma perda pouco superior a dez milhões de toneladas de grãos, basicamente milho e soja. Mesmo assim, a produção total chegou a 119,3 milhões de toneladas, perdendo apenas para a safra de 2003, cujo total chegou a 123,2 milhões de toneladas. Não fossem os eventos climáticos desfavoráveis (seca na região Sul e excesso de chuvas na região Centro-Oeste), o Brasil teria alcançado o recorde de 130 milhões de toneladas. Entretanto, tudo indica que esse número será superior em 2005, com o plantio que está prestes a ser iniciado.
O crescimento agrícola foi muito fortalecido pela mudança no regime cambial em janeiro de 1999 e pela mais recente valorização de preços de grãos no mercado internacional. Uma pequena evidência é que a área plantada com grãos cresceu 7,9% em 2004, o correspondente a mais 3,5 milhões de hectares. Os principais números da safra de 2004 são os seguintes:
algodão-pluma, 1.272 mil toneladas (+50,1%); arroz, 12.807 mil toneladas (+23,5%); feijão, 3.028 mil tone- ladas (–5,5%); milho, 42.158 mil toneladas (–11,1%);
soja, 49.782 mil toneladas (–4,3%) e trigo, 6.073 mil toneladas (+3,8%).
A despeito dessa perda de produção, o efeito-preço praticamente não existiu. Em uma economia aberta, esse choque foi absorvido por um menor volume de exportações. É interessante notar-se que o impacto positivo nos preços de alimentos ocorreu com as com- binações de frio e chuva em maio-junho, e calor e seca em julho-agosto em produtos mais sensíveis, como os hortifrutícolas. Por exemplo, o recém-divulgado IPCA de agosto, de 0,69%, teve enormes elevações nos preços do chuchu, cebola, tomate e batata. Estes são,
tipicamente, produtos de mercado interno. Os efeitos negativos, entretanto, serão passageiros.
Alguns fatos extremamente positivos, de outro lado, marcaram a safra deste ano. Primeiro, o caso do al- godão-pluma, com um crescimento de produção de 50,1%. Entre 1999 e 2004 nossa produção passou de 520 para 1.272 mil toneladas. Mais ainda. Enquanto em 1998 importávamos 334 mil toneladas (“âncora”
cambial), em 2004 exportaremos 420 mil toneladas.
Hoje o Mato Grosso, com uma tecnologia de ponta, é o maior produtor nacional, com 582 mil toneladas.
Com a redução do protecionismo internacional, o Brasil tem tudo para ser um importante exportador nos próximos dez anos.
Em segundo lugar, nossa produção de arroz é recorde, de quase 13 milhões de toneladas. Enquanto em 1998 o País importou 2.009 mil toneladas (“âncora” cambial), este ano importaremos apenas 800 mil toneladas (do MERCOSUL). Mais importante, estaremos exportando 100 mil toneladas. Finalmente, o caso do milho: em 1998 nossa importação foi de 1.765 mil toneladas (“ân- cora” cambial). Em 2004, por sua vez, nossa exportação está estimada em 4.500 mil toneladas, mesmo com uma produção menor. Em 2003 nossa exportação de milho foi de 3.566 mil toneladas. O Brasil vai se con- solidando como um exportador de milho, pois este é o quarto ano com exportações mais expressivas. Será importante que nossas produção e exportação aumen- tem de maneira consistente, inclusive para melhorar a comercialização desse cereal. Ao concluir, é preciso enfatizar que esses três casos – algodão, arroz e milho – ilustram o fato de sermos exportadores marginais no mercado internacional: os preços não serão mais baixos com nossas maiores exportações.
(*) Professor Titular do Departamento de Economia da FEA-USP e Pesquisador da FIPE.
FERNANDO HOMEMDE MELO (*)
agricultura
setembro de 2004
Segundo informações do IBGE, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) a preços de mercado, no pri- meiro semestre de 2004 em relação a igual semestre de 2003, foi de (+4,2%). Já na comparação entre os últimos quatro trimestres com os iguais trimestres ime- diatamente anteriores, a taxa de variação da produção nacional de bens e serviços mostrou um incremento da ordem de (+1,7%). Por sua vez, o PIB registrou incremento positivo de +1,5% na comparação entre o segundo e o primeiro trimestre de 2004, e de 5,7% na comparação entre o segundo trimestre de 2004 com igual trimestre de 2003.
A variação positiva registrada no PIB, na comparação entre o primeiro semestre de 2004 e igual período de 2003, foi resultante do desempenho positivo observa- do nos três setores da economia, com destaque para Agropecuária, com variação positiva de (+5,7%), da Indústria (+4,7%) e dos Serviços (+2,8%). No setor industrial, o único subsetor que apresentou declínio na produção foi o da Extrativa Mineral (–2,9%), sendo que os demais registraram incrementos positivos: In- dústria de Transformação (+7,3%), Construção Civil e Serviços Industriais de Utilidade Pública, ambos com +2,0%. Já no setor de Serviços, as maiores variações positivas foram observadas em Transportes (+6,9%) e Comércio (+7,6%). Foram observados também incrementos positivos nos subsetores Instituições Financeiras (+3,6%), Outros Serviços (+2,6%), Ad- ministração Pública (+1,5%) e Aluguéis (+1,3%). O subsetor de Comunicações apresentou recuo em sua taxa de crescimento da ordem de (–1,%).
Sob a ótica da demanda, o IBGE informa que na com- paração entre o primeiro semestre de 2004 em face de igual semestre de 2003, todos os grandes agregados registraram altas taxas de crescimento: o Consumo das Famílias cresceu +3,1%, a Formação Bruta de Capital
registrou variação positiva de +6,8% e o Consumo do Governo cresceu +1,4%. No âmbito externo, as Exportações tiveram incremento positivo de +17,8%, enquanto que as importações experimentaram alta de +13,0%.
Deve-se salientar, que as taxas de variação continu- am positivas, contudo com menores altas quando a base de comparação é feita tomando-se períodos mais recentes. Assim, levando-se em conta a série com ajuste sazonal, o PIB a preços de mercado apre- sentou crescimento positivo de +1,5% na passagem do primeiro para o segundo trimestre de 2004. Nesse período de comparação, a Agropecuária apresentou recuo em sua taxa de crescimento (–0,3%), enquanto a Indústria crescia +0,2% e os Serviços registravam variação positiva de +2,5%. Nesse mesmo período de comparação, sob a ótica da demanda agregada, os dados do IBGE mostram que o Consumo do Governo apresentou incremento positivo de 0,2%, enquanto que Consumo das Famílias e Formação Bruta de Capital Fixo experimentaram crescimento de +1,5%.
Por sua vez, nesse mesmo período de comparação as Exportações de Bens e Serviços aumentaram +2,2%, enquanto que as Importações de Bens e Serviços re- gistravam variação positiva de +1,6%.
E como era de se esperar, por ser a base de compara- ção muito baixa em 2003, visto ter sido 2003 um ano em que se registrou queda na taxa de crescimento do PIB, na comparação do segundo trimestre de 2004 em relação a igual trimestre de 2003, o Produto Interno Bruto, a preços de mercado, apresentou expressiva taxa de crescimento: +5,7%. Nesse período de compa- ração, a Agropecuária registrou crescimento positivo de (+5,0%), a Indústria obteve variação positiva de (+6,6%) e os Serviços mantiveram tendência também de alta (+4,4%).
MANUEL ENRIQUEZ GARCIA (*)
nível de atividade e emprego
setembro de 2004
Os artigos do Panorama Macroeconômico foram escritos entre 02 a 14 de setembro de 2004.
Na Indústria, o subsetor que registrou maior taxa de crescimento foi o da Indústria de Transformação (+8,5%), graças ao excelente desempenho das catego- rias de Bens de Capital (com destaque para máquinas e equipamentos) e de Bens de Consumo Duráveis (com destaque para veículos automotores). A Construção Civil registrou variação positiva de +6,7%, enquanto que os Serviços Industriais de Utilidade Pública apre- sentaram variação positiva de +2,7%, nesse mesmo período de comparação.
Dados pontuais, relativos ao mês de julho/04, indicam que a produção industrial registrou taxa de crescimen- to positiva igual a +0,5%, ante o mês imediatamente anterior, na série livre de variações sazonais. Em comparação com igual mês de 2003, o setor industrial evidenciou alta de +9,6% e no acumulado dos últi- mos doze meses o indicador do nível de atividade da indústria manteve a trajetória ascendente, passando de 3,9% em junho para 5,0% em julho.
Diz o IBGE que a taxa de crescimento registrada em julho/04, em face do mês imediatamente anterior, foi devida aos aumentos na produção observados em 16 dos 23 ramos de atividade pesquisadas. Com maiores taxas de crescimento destacam-se os setores de: Veícu- los Automotores (+5,4%), Produtos de Metal (+7,0%), Fumo (+24,2%) e Bebidas (+4,9%). Com recuos na produção, destacam-se os setores de: Farmacêutica (–6,3%), Outros Produtos Químicos (–1,36%) e Outros Equipamentos de Transporte (–6,1%).
Por categorias de uso, e em relação ao mês imediata- mente anterior, Bens de Consumo Duráveis apresen- tou variação positiva de (+1,1%), ao passo que Bens de Capital e Bens de Consumo Semiduráveis e Não Duráveis apresentaram recuo de, respectivamente, –1,1% e –1,0%. Ademais, na passagem de junho/04 para julho/04, o setor de Bens Intermediários apresen- tou taxa positiva de crescimento de +2,3%.
Quanto à desocupação, informações da Pesquisa Men- sal de Emprego do IBGE, realizada nas seis principais
regiões metropolitanas do País (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre), apontam para uma taxa de desocupação no mês de julho igual a 11,2%. Essa taxa foi menor em 0,5% em relação ao mês anterior (em junho/04 foi de 13,0%), e menor em –1,6% que a de julho do ano passado, quando se situou em 12,8%.
Por sua vez, dados relativos ao rendimento médio real habitualmente recebido pelas pessoas ocupadas, coletados também pelo IBGE, registraram em julho/04 o valor de R$ 901,20. Em relação a junho/2004, houve um incremento positivo de 0,6% no rendimento médio das seis regiões metropolitanas.
Enfim, os dados recentes apontam para uma recupe- ração do nível de atividade e emprego da economia brasileira. As comparações quando feitas sobre dados do ano de 2003 mostram altas taxas de crescimento da produção e do emprego. Todavia, quando a base de comparação é o mês de junho/2004, os dados parecem apontar para taxas de crescimento mais modestas, tanto para a produção quanto para o emprego nos próximos meses. É verdade que ainda é muito cedo para se tirar alguma conclusão sobre a trajetória de crescimento do nível de atividade e do emprego nos próximos momentos do tempo. Contudo, é uma cer- teza que ela dependerá do crescimento da economia mundial e de seus reflexos sobre o setor exportador brasileiro.
(*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP.
setembro de 2004
artigos
CARLOS EDUARDO SOARES GONÇALVES (*)
parceria público privada
O caloroso debate acerca das parcerias público priva- da (PPPs) tem permeado os noticiários econômicos e políticos, além de estar ocupando, com mais extensão que outros temas, a tribuna do Senado, onde governo e oposição se revezam na tarefa de expor suas opi- niões sobre o assunto. O primeiro, enfatizando que, devido às restrições fiscais do Estado, a única maneira de se equacionar o problema da acentuada escassez de investimentos em infra-estrutura é via emprego das PPPs; já esta, representada na maioria das vezes pela voz do Senador Tasso Jereissati, chama a atenção para a ameaça que o projeto (em sua atual versão) pode representar para a estabilidade fiscal de longo prazo. Neste artigo analisamos em que situações um contrato de PPP é um arranjo ótimo sob o ponto de vista econômico, sem nos aventurarmos pelos mares incertos da seara política.
Antes de prosseguirmos, o primeiro ponto que é pre- ciso enfatizar diz respeito à aventada idéia de que as PPPs permitirão maiores investimentos por parte do governo, como se, por passe de mágica, ela aliviasse as dificuldades fiscais correntes. Tal afirmação é feita ao arrepio da teoria econômica e dos princípios básicos da contabilidade. Isto porque as PPPs não mudam em nada a restrição orçamentária do setor público. Com efeito, a única maneira de o governo aumentar seus investimentos sem comprometer a estabilidade macro- econômica é cortando gastos com consumo corrente.
Neste sentido, as PPPs não são um elixir mágico, não guardam qualquer relação com maior capacidade de investimento do Estado, e não significam alterações da restrição orçamentária intertemporal. Isto posto, passemos à fundamentação microeconômica deste arranjo contratual, que pode, de fato, ser benéfico para a eficiência da economia.
Como se sabe, muitas vezes as alocações de mercado não são ótimas sob o ponto de vista da sociedade. Isto ocorre em situações onde existem grandes assimetrias informacionais, excessivo poder de mercado, e tam- bém quando é clara a existência de “externalidades”
– positivas ou negativas – decorrentes da ação privada.
No que se refere ao tema aqui em questão, a falha de mercado relevante é a última (“externalidade”), e o exemplo mais corriqueiramente citado pela literatura econômica refere-se ao uso do metrô. Note-se que o uso desta modalidade de transporte está associado a benefícios sociais claramente superiores aos privados (referentes aos ganhos das pessoas que fazem uso do metrô, ou aos lucros de uma empresa privada de metrô), pois quanto mais pessoas se deslocam usando o metrô, menor a poluição de uma cidade e menor o tempo de trânsito para aqueles que seguem se locomovendo de carro. Vale notar que estes ganhos não são “internalizados” pelos usuários ou donos de linha de metrô (que tomam suas decisões baseados exclusivamente no seu bem-estar ou lucro individual),
setembro de 2004 apesar de afetarem grande parte da sociedade. Tem-
se neste exemplo um caso clássico onde os benefícios sociais superam os benefícios privados, e o que a teoria econômica nos diz é que em situações como esta a interferência do governo – no caso específico construindo ou subsidiando a construção de linhas – passa a ser teoricamente desejável.1
Assim como no caso do metrô, existem outros in- vestimentos em infra-estrutura nos quais os ganhos para a sociedade superam os benefícios privados. Por exemplo, obras de saneamento, apesar de em geral não apresentarem taxas de retorno financeiro ele- vadas, quiçá nem suficientes para cobrir os enormes investimentos fixos a ela associados, são claramente desejáveis do ponto de vista da sociedade.
Identificadas as situações nas quais são patentes as externalidades positivas como as acima mencionadas, e assumindo que o setor privado é mais eficiente para tocar quase todo tipo de empreendimento de maneira mais eficiente que o governo (por uma questão simples de incentivos), a pergunta crucial passa a ser: qual a melhor forma de contratar, com o setor privado, ser- viços de utilidade pública? Quando vale a pena optar pelos chamados contratos de PPP, ao invés de licitar ou conceder, por exemplo?
O primeiro caso em que se justifica uma parceria em que o governo garanta, ao longo do ciclo de vida do serviço contratado, uma taxa de retorno mínima para o investidor (devidamente contabilizada como despesa corrente) ocorre quando o retorno privado de opera- cionalizar um serviço é negativo, mas o social positivo.
Neste caso, não há como simplesmente conceder o di- reito de prover determinado serviço dado que ele não é atrativo financeiramente. Prover um subsídio inicial (“once and for all”) que torne compensadora a entrada do investidor privado seria um arranjo equivalente, mas tal opção soa bem mais complicada e infactível em termos práticos.
A segunda situação que justifica a adoção de uma PPP se dá quando há problemas de coordenação entre in- vestidores privados, ou quando há grande incerteza a
respeito do retorno futuro do investimento. Em algu- mas instâncias (quando os mercados de crédito não são perfeitos), o governo, por ser um agente econômico
“grande”, encontra-se em posição privilegiada para arcar com riscos não diversificáveis ou incapazes de serem suportados por um investidor individual. Vale dizer que esta justificativa foi empregada no primeiro grande programa de PPPs, no Brasil, levado a cabo na segunda metade do século XIX. Nesta época, o gover- no imperial objetivava expandir a malha férrea com o apoio do setor privado, mas as enormes incertezas que aos últimos afligiam os impedia de imobilizar grandes somas de recursos nesta direção. A solução veio por meio de um arranjo de PPP, onde o governo garantia uma taxa de retorno mínima para os investidores que se aventurassem na empreitada. Com a queda de incerteza que este esquema propiciou, floresceram os investimentos em linhas férreas e, mais interessante ainda, praticamente não foram necessários desembol- sos fiscais a posteriori. A mera garantia tornou possível o salto de um “equilíbrio ruim”, sem investimento em linhas férreas, para um “equilíbrio bom”, sem que isto onerasse os cofres do Tesouro.
A esta altura valem algumas observações: primeiro, no caso brasileiro do século XXI, há outras maneiras de se minimizar o problema de incerteza do setor privado, que deveriam ser encaradas como prioritárias em re- lação às PPPs, como, por exemplo, o estabelecimento de um marco regulatório de primeira qualidade.
Suponhamos agora que um dado projeto, que necessi- te uma fase de construção dispendiosa antes de entrar em operação, tenha retorno privado positivo, porém abaixo do social. Caso haja espaço no orçamento para tal, faz sentido, em princípio, uma intervenção do poder público. Mas de que forma? Por que, por exemplo, não licitar a construção de uma estrada pa- gando-a com dotação orçamentária e depois firmar um segundo contrato de concessão para os agentes privados desejosos em operá-la?
Primeiramente, enfatizamos que o custo fiscal de uma estratégia licitar/conceder não difere, grosso modo, do custo fiscal de uma PPP, contrato no qual
setembro de 2004
licitação e concessão se dão juntos e dizem respeito a um mesmo agente privado. Obviamente, os bene- fícios fiscais concedidos ao setor privado para atrair sua participação precisam ser os mesmos sob ambos os arranjos,2 mas há uma diferença crucial que faz a balança pender para as PPPs: nelas, os incentivos dos agentes privados de buscarem máxima eficiência e menores custos são maiores na fase de consecução do projeto. Isto se deve ao fato de que, por saber que irá operar aquele investimento por um período longo de tempo, o investidor procurará projetá-lo e executá-lo da maneira mais eficiente possível.
Em resumo, a idéia de que a parceria público privada representa uma folga fiscal que permitirá maiores investimentos é falsa. A PPP é simplesmente uma maneira de contratar o setor privado para a execução de uma obra ou serviço de natureza pública. Como anteriormente explicado, ela pode ser, em algumas situações, um arranjo microeconômico eficiente, mas é, por assim dizer, apenas a “cereja do bolo”. Priori- tário mesmo para o País (a massa do bolo) é seguir conduzindo a política macro de maneira responsável e trabalhar por um marco regulatório eficiente e inde- pendente. Isto trará os tão necessitados investimentos privados. Infelizmente, talvez não existam elixires mágicos no mundo da economia.
1 Ainda assim, muitos autores argumentam que não se pode des-prezar a existência de “falhas de governo”. Em outras pala- vras, a ação pública, ainda que teoricamente desejável, pode se mostrar, na prática, deletéria para a sociedade (dando origem, por exemplo, a grupos de interesse que não permitem que uma intervenção, desejável a curto prazo, mas danosa a longo, seja desfeita. Ex. Política de Substituição de Importações).
2 Em outras palavras, não há ganhos de arbitragem para o governo em optar por uma PPP ao invés do esquema de licitação seguido de concessão.
(*) Professor do Departamento de Economia da FEA-USP.
setembro de 2004 Depois de atingir algo ao redor de US$10 o barril em
dezembro 1998, como conseqüência da queda do consumo ocorrida durante a crise econômica asiática eclodida um ano antes, o preço do petróleo subiu e passou a oscilar entre US$20 e US$30 durante o perí- odo julho de 1999 a dezembro de 2002.
Enquanto em 1998 o consumo mundial era, em mé- dia, 1,5 milhões de barris/dia menor que a produção (73,9MBD contra 75,4MBD), no ano de 2002 esta rela- ção inverteu-se, de modo que o consumo superava a produção em 1,6 milhões de barris por dia (78,4MBD contra 76,8MBD). Visto de outra forma, no período entre estes dois anos, o consumo foi cerca de 500 mi- lhões de barris superior à produção, ou o equivalente, em média, a 300 mil barris/dia. Isto não aconteceu por acaso. Foi resultado do sucesso da OPEP no controle da sua oferta. A idéia foi a de manter os preços do Cartel dentro de um intervalo que começava em US$22 e terminava em US$28. Se o preço caísse abaixo do limite inferior, a OPEP reduzia sua produção. Se ultrapassasse US$28, aumentava-a.
Todavia, em 2003, depois de manter-se praticamente o ano todo em níveis ligeiramente superiores a US$30 o barril, o preço do petróleo inicia em dezembro desse mesmo ano uma escalada de preços que o levou até a casa dos US$50 em agosto de 2004.
Tendo este quadro como pano de fundo, a principal questão que se coloca diz respeito à possibilidade de manutenção dos atuais patamares de preços, por tempo suficientemente longo, a ponto de abortar ou prejudicar o crescimento econômico em escala global ora em curso.
É reconhecido, na literatura econômica, que qualquer recurso não renovável cuja demanda e oferta sejam
inelásticas a preços, e cuja utilização da capacidade instalada de produção esteja próxima de seu limite má- ximo, pode apresentar grande instabilidade de preços no curto prazo por razões de alguma forma associadas aos fundamentos (oferta e demanda), geralmente razões políticas, especulativas e até psicológicas.
Este parece ter sido o caso do petróleo no mercado internacional nos últimos 11 meses. De um patamar em torno de US$30 o barril (WTI) em outubro de 2003, chegou a custar em alguns dias de agosto de 2004 quase US$50. Um aumento de pouco menos de 70% em menos de um ano. Após atingir este “pico”, o preço tem oscilado ao redor de US$40/45 dependendo das notícias.
Há que se destacar que, no momento, não há falta física de petróleo no mercado. Ou seja, o nível atual de consumo é plenamente atendido. O que há, entre- tanto, é a expectativa de não haver produto suficiente para atender à demanda futura de curto e médio prazos. Assim, olhando a questão pelo enfoque do curto prazo há, sim, razões suficientes que justificam os atuais patamares de preço e que, se mantidas inal- teradas, poderão mantê-los por um tempo mais longo e, com isto, prejudicar, de alguma forma, o atual surto de crescimento econômico mundial. Tais razões são alinhadas a seguir.
No curto prazo, tanto a oferta como a demanda de petróleo são reconhecidamente inelásticas a preços.
O tempo necessário de prospecção e operação de po- ços de petróleo varia de 2 a 3 anos em terra e de 5 a 8 anos na plataforma marítima. Portanto, aumentos na capacidade de produção não são imediatos. Pelo lado da demanda, não é possível no curto prazo substituir equipamentos e motores que, para operarem, utilizam derivados de petróleo.
ELI ROBERTO PELLIN (*)
o comportamento dos preços do
petróleo no mercado internacional
setembro de 2004
Adicionalmente, já em 2003 havia o vislumbre de que a capacidade de produção de petróleo do conjunto dos membros da OPEP encontrava-se próximo do limite.
Na média, em 2003 a capacidade de produção dos 10 membros da OPEP mais o Iraque situava-se em 30,6 MBD contra uma produção efetiva em torno de 30,1 MBD. Hoje, estima-se que a OPEP ostente uma capa- cidade ociosa em torno de 3,4%, ou seja, algo como 1 milhão de barris/dia que, num prazo de três meses, poderia ser adicionada à sua produção.
Estabelecido o quadro acima, fatores outros que geram incertezas quanto ao abastecimento futuro de curto prazo passam a ter enorme importância na elevação e na manutenção dos atuais preços no mercado. Do lado da oferta, dois fatores decorrem diretamente da invasão do Iraque por uma coligação de países lide- rados pelos Estados Unidos em 20 de março de 2003.
O primeiro é a instabilidade política acompanhada de violência que se observa no país em razão da reação de parte da população ligada ou não ao antigo regime.
Parte desta reação se manifesta por meio de atenta- dos às instalações de transporte de petróleo, o que acarreta freqüentes interrupções no fornecimento do óleo iraquiano ao mercado. A média de fornecimento desse país, que já fora de 2 MBD, em 2004 tem girado ao redor de 1,8 milhão de barris por dia. O outro, cujo efeito é mais psicológico, são os não raros atentados direcionados aos ocidentais prestando serviços às petroleiras operando na Arábia Saudita.
Outro fator não menos importante a manter aceso um componente de incerteza na oferta é o caso da petro- leira russa Yukos. Esta empresa, que fornece aproxi- madamente 1,7 milhões de barris por dia ao mercado, vem sendo objeto de disputa judicial por problemas com o fisco local. Teria sonegado US$6 bilhões em impostos, objetos de cobrança por parte da receita russa. A cada decisão judicial tornando indisponíveis recursos financeiros da empresa, com riscos de afetar as suas operações de produção, que representa cerca de 2% da produção mundial, faz com que o preço internacional do petróleo suba mais um pouco.
Não bastasse isso, é nos meses de outubro, setembro e novembro – que ocorre a temporada dos furacões que atingem o Golfo do México e o sul dos Estados Unidos. Estes acidentes naturais acabam por paralisar unidades de refino na região, com a conseqüente dimi- nuição, ainda que temporária, da oferta de derivados no mercado americano.
Na esfera da demanda, o consumo de derivados para fins automotivos elevou-se bastante por força do verão no hemisfério norte. Além disso, nos últimos 10 anos tem havido uma expansão acelerada do consumo de petróleo pela China. Em 2003, o consumo chinês cresceu nada menos que 11,5% quando comparado ao ano anterior, e aproximadamente 7%, em média, durante o período 1993/2002.
Assim, na perspectiva de curto prazo, dos fatores ali- nhados que estão pressionando os preços para cima, só se pode afirmar que tanto oferta como a demanda continuarão inelásticas, a capacidade ociosa da OPEP continuará perto do limite e o verão no hemisfério norte terminará no final de setembro. A temporada de furacões terminará em novembro. A demanda pela China poderá arrefecer um pouco caso a prometida política de desaceleração do crescimento seja de fato posta em prática.
Os demais fatores políticos e jurídicos são uma in- cógnita. Em que pese recente acordo com as forças rebeldes do clérigo radical xiita Moqtada al-Sadr, há outras facções em luta no Iraque, principalmente aque- las ligadas ao regime antigo, tidas como as principais responsáveis pelos atentados aos oleodutos. Por seu lado, o desfecho do caso Yukos ainda é incerto.
Segundo recentes estimativas, o efeito da manutenção, por muito tempo, do preço do petróleo nos patama- res atuais será o de estagflações moderadas, cujos níveis serão proporcionais aos respectivos níveis de dependência na importação de petróleo de cada país.
Assim, no caso americano a perda no crescimento do PIB esperado estimada será de 1%, ao passo que no Brasil será de 0,5%, dado sua menor dependência do petróleo importado.
setembro de 2004 Se no curto prazo o cenário mais provável é o da ma-
nutenção dos preços, na expectativa mais otimista, na faixa de US$35/40 o barril, o que esperar do longo prazo?
No longo prazo, a situação é completamente distinta.
Tanto a oferta como a demanda passam a ser elásticas a preços, o que significa que a demanda arrefecerá e a oferta se ampliará. Os níveis atuais de preços são convidativos a uma substancial elevação dos investi- mentos em prospecção de novos campos, tanto dentro da OPEP como nos países produtores fora do Cartel.
Também incentivam a retomada da produção de poços antigos e inoperantes, cujos custos de extração ficaram competitivos. Estes fundamentos implicam que en- quanto a taxa de adição de reservas for maior ou igual à taxa de extração, a tendência dos preços internacionais do petróleo no longo prazo é de queda.
É certo que algum dia as taxas de extração de petróleo serão superiores àquelas de novas descobertas. Quan- do este momento chegar, o crescimento dos preços será monotonicamente crescente, mas terá um limite. Este limite será dado por tecnologias alternativas. Uma de- las é o petróleo sintético obtido a partir da gaseificação e/ou liquefação do carvão mineral. Tal tecnologia já está disponível em escala comercial e é utilizada na África do Sul. Ainda não se disseminou porque o custo do barril de petróleo sintético ainda é muito caro em relação ao petróleo – cerca de US$60.
É também certo que algum dia o petróleo acabará, mas não será fisicamente. A idade da pedra não acabou por falta de pedras. Acabou porque a humanidade descobriu os metais, com os quais passou a fabricar ferramentas e artefatos bélicos de forma mais rápida e eficiente. Da mesma forma, a era do carvão não acabou por falta de carvão. Acabou porque foi jus-
tamente substituído pelo petróleo, mais barato e de uso mais eficiente como fonte de energia. A vez do petróleo chegará. Será substituído algum dia. Quem viver verá.
(*) Pesquisador da Fipe
setembro de 2004
I – Introdução
O governo federal criou o Fórum Nacional do Trabalho - FNT, órgão tripartite e paritário, com intuito de pro- mover o diálogo social sobre as legislações trabalhista e sindical, tendo em vista a necessidade de reforma das mesmas. Com o trabalho do Fórum foi possível elaborar o relatório da Reforma Sindical, que consiste nos consensos que foram obtidos por governo, tra- balhadores e empregadores sobre as mudanças que devem ser feitas na legislação sindical brasileira. A partir do referido relatório e dos consensos expressos no mesmo, o governo vem preparando um projeto de Lei da Reforma Sindical, que deverá ser apresentando ainda em 2004 ao Congresso Nacional. O presente artigo busca avaliar as principais mudanças proposta pelo Relatório da Reforma Sindical que obteve con- senso no âmbito do FNT.
II – Relatório da Reforma Sindical do Fórum Nacional do Trabalho
Foi aprovado em março de 2004 o relatório final do FNT sobre a reforma sindical, tratando sobre a redefi- nição das normas jurídicas sobre organização sindical, negociação coletiva e solução de conflitos. O relatório final consiste de um consenso tripartipe e paritário entre governo, trabalhadores e empregadores.
Um dos pontos consensuados foi a criação do Conselho Nacional de Relações do Trabalho – CNRT, constituído de cinco representantes dos trabalhadores, indicados pelas Centrais Sindicais, cinco representantes dos empregadores indicados pelas Confederações, cinco representantes do governo indicados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Durante os doze primeiros meses após sua instala- ção o referido Conselho será constituído, em caráter provisório, de seis representantes de trabalhadores, empregadores e governo. Os representantes dos tra- balhadores e empregadores serão indicados pelas Cen- trais Sindicais e Confederações que tiveram assento no FNT, enquanto os representantes do governo serão indicados pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
Nos doze primeiros meses a presidência será do Mi- nistério do Trabalho, e após este período será definido o mandato do presidente, sendo que a presidência será rotativa entre as bancadas. Qualquer membro da bancada dos trabalhadores e empregadores poderá permanecer, no máximo, seis anos no Conselho, e a cada três anos deverá haver renovação de pelo menos um terço da bancada dos trabalhadores e empregado- res. Os mandatos terão caráter institucional. A função de membro do Conselho não será remunerada, sendo considerada de interesse público.
Entre as atribuições do CNRT estão: a) propor diretri- zes de políticas públicas e avaliar programas e ações governamentais no âmbito das relações de trabalho;
b) subsidiar a elaboração de pareceres sobre projetos legislativos, na área de relações do trabalho, em tra- mitação no Congresso Nacional; c) propor resoluções e instruções normativas sobre relações do trabalho; d) estabelecer critérios para utilização dos recursos do Fundo Solidário de Promoção Sindical; e) propor cri- térios e dirimir dúvidas sobre enquadramento sindical de representações de trabalhadores e empregadores;
f) examinar, em segunda instância, as contestações e indeferimentos de pedidos de Registro Sindical;
g) revisar a cada oito anos os critérios de aferição da representação das entidades sindicais.
ROGÉRIO NAGAMINE COSTANZI (*)
fórum nacional do trabalho e
reforma sindical no Brasil
setembro de 2004 Além disso, o CNRT deverá propor nova legislação
ao poder executivo no tocante às seguintes questões:
a) as normas estatutárias a serem obedecidas pelos sindicatos de trabalhadores e empregadores que aderirem à exclusividade de representação; b) as normas de funcionamento do Conselho Nacional de Relações do Trabalho; c) o procedimento de cobrança e comprovação do repasse dos valores da contribuição de negociação coletiva.
O CNRT deverá propor, também, a definição dos setores econômicos e dos ramos de atividade econô- mica, para efeito de organização sindical e negociação coletiva, bem como os critérios de enquadramento das organizações sindicais de trabalhadores e emprega- dores. As normas deverão ser definidas levando em consideração que: a) deverá haver compatibilidade entre os níveis da Organização Sindical de Trabalha- dores e de Empregadores para efeito de negociação coletiva; b) a definição dos setores econômicos e ramos de atividade deverá ter como referência o CNAE, a Pesquisa Sindical e outras fontes estatísticas oficiais;
c) compreende-se por setor econômico o campo má- ximo de agregação de atividades afins e por ramos de atividades as subdivisões de cada um dos setores econômicos; d) definir os setores econômicos e os ramos de atividade que terão tratamento específico, tais como os setores rural, portuário e público.
Fica estabelecida a criação de duas Câmaras Bipartites, sendo uma Trabalhadores/Governo e outra Emprega- dores/Governo. A Câmara Bipartite Trabalhadores/Go- verno será constituída de cinco membros indicados pelas Centrais Sindicais e cinco representantes do governo indicados pelo Ministério do Trabalho e Em- prego, enquanto a Câmara Bipartite Empregadores/
Governo será formada por cinco representantes dos empregadores indicados pelas Confederações e cinco representantes indicados pelo Ministério do Trabalho e Emprego. No entanto, nos doze primeiros meses de funcionamento das câmaras bipartites as instituições de cada bancada indicará seis representantes, sendo que no caso dos trabalhadores e empregadores as indicações serão feitas pelas instituições que tiveram assento no FNT. A coordenação das Câmaras será rotativa. As atribuições das Câmaras Bipartites são:
a) examinar, em primeira instância, as contestações e indeferimentos de registro sindical, correspondente às suas respectivas esferas de representação; b) admi- nistrar os recursos do Fundo Solidário de Promoção Sindical - FSPS de acordo com as normas estabeleci- das pelo CNRT e correspondente às suas respectivas esferas de representação.
No tocante à organização sindical, as premissas são que a promoção e a sustentação do diálogo social são instrumentos fundamentais para o futuro virtuoso das relações de trabalho no Brasil, assim como o referido diálogo somente se fortalece mediante a consolidação de organizações sindicais fortes e representativas. O sistema sindical deve ter como referência a represen- tatividade comprovada ou derivada das entidades, de acordo com critérios objetivamente estabelecidos. Por re- presentatividade comprovada entende-se aquela que se baseia diretamente na livre associação dos trabalhadores ou das empresas ou unidades produtivas nos sindicatos de base e no cumprimento dos critérios estabelecidos em lei para cada nível de representação. Compreende- se por representação derivada aquela que advém das entidades sindicais que já obtiveram a comprovação de sua representatividade, preservados os critérios míni- mos exigidos para o seu reconhecimento.
As centrais sindicais devem ser reconhecidas, na estrutura sindical, mediante o estabelecimento e a aprovação dos critérios de representatividade.
As organizações sindicais de trabalhadores serão cons- tituídas com base em critérios de enquadramento por setor econômico e por ramo de atividade econômica, propostas pelo CNRT e aprovados por ato do poder executivo. As entidades sindicais serão constituídas como instituições de âmbito nacional (Centrais Sindi- cais e Confederações por setor econômico), estadual (Federações por ramo de atividade econômica) e muni- cipal (sindicatos por ramo de atividade econômica). Es- tes critérios definem a base mínima de representação, cabendo a cada central sindical definir a organização do seu sistema, podendo existir federações nacionais e interestaduais e sindicatos nacionais, interestaduais, estaduais, intermunicipais e municipais por ramo de atividade econômica.
setembro de 2004
O sindicato com registro sindical anterior à nova le- gislação que obtiver o reconhecimento pelo critério de representatividade comprovada poderá adquirir ex- clusividade de representação sindical, desde que, em Assembléia dos Trabalhadores de sua base de repre- sentação, faça as alterações em seu estatuto aderindo às regras estatutárias previstas na nova legislação. O sindicato com registro anterior à nova legislação que obtiver seu critério de representatividade comprovada e que não adotar as regras estatutárias previstas na lei não terá a prerrogativa da exclusividade de represen- tação, podendo existir, portanto, mais de uma entidade representativa em sua base.
Em caso da constituição de uma nova base de repre- sentação, com a criação de um novo sindicato com representatividade comprovada ou derivada, poderá existir mais de um sindicato.
A Câmara Bipartite do CNRT deverá propor, no prazo máximo de 120 dias após a vigência da nova legislação, as normas estatutárias para os sindicatos aderirem à exclusividade de representação, para análise e aprova- ção por ato do poder executivo. O sindicato com regis- tro sindical anterior à vigência da nova legislação terá 12 meses, após a aprovação das normas estatutárias do CNRT, para optar pela exclusividade de representação, que será mantida durante esse período.
O sindicato que optar pela exclusividade de repre- sentação terá trinta e seis meses, a partir da vigência da nova legislação, para comprovar a sua representa- tividade, que deverá ser igual ou superior a 20% de sindicalizados entre os trabalhadores empregados em sua base de representação. Este prazo poderá ser prorrogado por mais vinte e quatro meses, a depender da análise de desempenho de seus índices de sindica- lização pela Câmara Bipartite do CNRT. Ao término desse período, o não cumprimento dos critérios de re- presentatividade resultará na perda de exclusividade de representação, podendo nessa base ser constituído mais de um sindicato.
O sindicato com exclusividade de representação que não cumprir os critérios de representatividade estabelecido em lei poderá, também, perder suas
atribuições sindicais caso não se vincule, por meio da representatividade derivada, a uma Central Sindical reconhecida.
A contribuição sindical sobre os trabalhadores será gradualmente extinta em um prazo de três anos, caindo de 75% de um dia de trabalho no primeiro ano para 55% e 35% da mesma base, respectivamente, no segundo e terceiro anos. Neste período será mantida a sistemática de repasse atual conforme artigo 589 da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT de: 5% para as Confederações; 15% para as Federações; 60% para os Sindicatos e 20% para a “Conta Especial Emprego e Salário”. A partir da vigência da nova legislação serão extintas as contribuições confederativa e a as- sistencial.
Em substituição às taxas extintas serão criadas as contribuições associativa e a de negociação coletiva.
A associativa é prerrogativa das entidades sindicais de qualquer nível e âmbito de representação, cujo valor deve ser fixado em Assembléia, segundo o princípio da razoabilidade. A contribuição de negociação coletiva terá periodicidade anual e será recolhida de todos os beneficiados por instrumento normativo, indepen- dente de filiação sindical. A contribuição de negociação coletiva será obrigatoriamente aprovada em Assem- bléia de Trabalhadores da base de representação do sindicato, com convocação amplamente divulgada. Os valores pagos pelos trabalhadores, a título de nego- ciação coletiva, não poderão ultrapassar 1% do valor da remuneração líquida recebida no ano anterior, que será paga em, no mínimo, 3 parcelas mensais a partir do mês de abril. A distribuição da contribuição de negociação coletiva será a seguinte: Centrais Sindicais 10%; Confederações 5%; Federações 10%; Sindicatos 70% e FSPS dos trabalhadores 5%.
O FSPS será administrado pela Câmara Bipartite Go- verno/Trabalhadores, com recursos desvinculados do Orçamento Geral da União e administrado com base nas diretrizes do CNRT. O objetivo do FSPS é custear as atividades do CNRT, bem como os programas de valorização da organização sindical, estudos e pesqui- sas nas áreas de economia, saúde do trabalhador, meio ambiente e relações de trabalho.