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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

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LUIZA MARIA ABREU DE MATTOS

O MEIO AMBIENTE COMO UM VALOR COSMOPOLITA NO CURRÍCULO ESCOLAR DE BIOLOGIA: comparando livros didáticos do Brasil e da Alemanha

RIO DE JANEIRO

2019

(2)

Luiza Maria Abreu de Mattos

O MEIO AMBIENTE COMO UM VALOR COSMOPOLITA NO CURRÍCULO ESCOLAR DE BIOLOGIA: comparando livros didáticos do Brasil e da Alemanha

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do Título de Doutor em Educação

Orientadora: Profª Drª Maria Margarida Pereira de Lima Gomes

RIO DE JANEIRO

2019

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AGRADECIMENTOS

À Margarida, pela orientação, pela parceria, pela amizade, e, principalmente, pelo exemplo de pessoa e de profissional; meu muitíssimo obrigada por topar encarar esse projeto comigo e estar me orientando desde 2004;

Aos professores que aceitaram fazer parte da banca de defesa de projeto, de qualificação e de defesa de tese, Marcia, Fred, Mariana e Isabel, obrigada pela honra de poder contar com professores e pesquisadores de altíssimo nível como vocês e pelas valiosíssimas contribuições;

Ao PPGE/FE/UFRJ, por possibilitar o desenvolvimento desse trabalho e ser um exemplo de espaço de excelência acadêmica e compromisso social; aos seus professores, por todos os ensinamentos; e, em especial, à Solange Rosa, toda a minha admiração pelo seu profissionalismo e generosidade inigualáveis;

À CAPES, pelo financiamento da bolsa de doutorado sanduíche na Alemanha, que ampliou imensamente a qualidade desse trabalho e gerou inúmeras possibilidades de trocas e parcerias;

Ao IPN, e, em especial à Profª Drª Ute Harms, pela acolhida na Alemanha e pelas orientações e ensinamentos; aos colegas de Kiel, em especial Lara, Deidre, Johanna, Caro e Daniela; e aos amigos de Braunschweig Uli, Klaus-Peter e Marianne, por toda a ajuda com a pesquisa e com o einleben;

A todos os membros e parceiros dos grupos de pesquisa e extensão liderados pela professora Margarida, por apoiarem o desenvolvimento desse trabalho de tantas formas;

e, em especial, àquelas que tiveram uma relação mais direta com esse projeto, Lívia, Fernanda, Silvia, Rosana, Teresa, Viviane e Bianca, meu muito obrigada;

Àqueles que dividem comigo, desde o início, escolhas profissionais, trajetos de

pesquisa e opções de vida, que são muitos, mas dentre os quais eu não poderia deixar de

citar como pessoas que contribuíram diretamente para a conclusão desse trabalho Maria,

Juju e Titi, obrigada pelas co-orientações na pesquisa e na vida;

(6)

À EAC, por apoiar esse projeto, possibilitando os ajustes necessários para compatibilizar o trabalho em sala de aula com o desenvolvimento da pesquisa; a todos os meus amigos na EAC, que fazem essa instituição ser especial; e, em particular aos colegas e amigos, que contribuíram de forma mais direta para que esse projeto saísse do papel e se tornasse uma tese: Achim e Renata – sem palavras para agradecer toda a ajuda; Luisa e Denise – obrigada pelas substituições e pela parceria de sempre; e Paulo – obrigada por compartilhar comigo formas de ver a escola, a pesquisa e as graças da vida;

A toda a minha família e amigos, que viveram essa tese comigo nos últimos anos;

em especial à minha mãe Sonia, por tudo, sempre; à Denise e ao Roberto, por serem avós maravilhosos; e à Esmeraldinha por cuidar de mim e me ajudar a cuidar de todos;

Ao João e ao Zeca, por serem incríveis e terem encarado bravamente os últimos quatro anos com uma mãe doutoranda, todo o meu amor é de vocês;

E por fim, ao Cris, mil palavras não seriam o suficiente para agradecer todas as trocas, todo o crescimento e tudo o que a gente compartilha, desde discussões teórico- metodológicas, ao projeto de vida e às crises existenciais, passando pelo escaneamento de todas as imagens da tese e pela correção do abstract; portanto, para você, um agradecimento especial, em forma de música do Vance Joy: “Started with a word; Now, look at where we are; Everything we've done; Is there on our faces for anyone willing to;

Read between the lines”.

(7)

RESUMO

MATTOS, Luiza Maria Abreu de Mattos. O meio ambiente como um valor cosmopolita no currículo escolar de Biologia: comparando livros didáticos do Brasil e da Alemanha. Rio de Janeiro, 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

O trabalho apresenta um estudo comparado sobre o tema meio ambiente no currículo escolar da disciplina Biologia em dois diferentes países, Brasil e Alemanha, discutindo como esse vem se constituindo como um valor cosmopolita. A partir da articulação entre teorizações sobre cosmopolitismo e sistema de razão de Thomas Popkewitz e estudos curriculares sobre a história das disciplinas escolares de Ivor Goodson, busca-se compreender como as macrotendências transnacionais sobre o meio ambiente – crítica, pragmática e conservacionista – se relacionam com as tradições curriculares – acadêmica, pedagógica e utilitária no ensino escolar de Biologia. Com base na investigação de aspectos históricos dessa disciplina escolar nos dois países estudados, discute-se de que maneira essas tendências transnacionais sobre meio ambiente na educação são apropriadas, traduzidas e adaptadas a partir de questões locais de cada um desses países, gerando hibridizações. Em termos metodológicos, articula-se a discussão teórica e a revisão da literatura com a análise de documentos curriculares e de livros didáticos, sendo esses os principais materiais empíricos investigados, analisados como documentos históricos a partir da perspectiva da história do tempo presente.

As análises realizadas no estudo apontam que a forma como o meio ambiente vem

se constituindo como um valor cosmopolita na disciplina escolar Biologia parece estar

relacionada a um processo transnacional de hegemonização da macrotendência

pragmática, apoiado no conceito de educação para o desenvolvimento sustentável. Porém,

essa tendência é atravessada pelas tradições de ensino do currículo escolar de Biologia de

diversas formas, assim como por questões locais de cada país, relacionadas à história

dessa disciplina escolar. Na Alemanha, as hibridizações se referem, principalmente, a um

predomínio da concepção hegemônica transnacional relacionada ao conceito de

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desenvolvimento sustentável, baseada na macrotendência pragmática, porém, que apresenta elementos da macrotendência crítica. A rejeição de aspectos comportamentalistas e a inclusão de questões relacionadas às desigualdades socioeconômicas seriam exemplos desses elementos, que parecem estar em grande parte relacionados à tradição didática alemã. Já no Brasil, é observada uma oscilação entre as três macrotendências, com presença significativa da macrotendência crítica. Esse quadro parece ser resultado de um processo de hibridização entre macrotendências transnacionais e características locais, como o desenvolvimento acadêmico e processo auto reflexivo do campo da Educação Ambiental e suas diferentes correntes; a aproximação entre movimentos ambientais e sociais; e o contexto histórico de reabertura política na qual tais discussões se desenvolveram.

Concluindo, o estudo apresenta o desenvolvimento de uma proposta de análise que amplia as potencialidades de articulação entre estudos curriculares e educação comparada, com base no argumento de que a investigação de consensos internacionais sobre valores considerados cosmopolitas, universais e transcendentais, como é o caso do tema meio ambiente no ensino da disciplina escolar Biologia, é uma contribuição potente e necessária para a compreensão dos processos de construção desses conhecimentos.

Nesse sentido, sugere-se que, em estudos futuros, as análises e discussões aqui desenvolvidas podem ser aprofundadas com a ampliação do contexto de estudo para outros países, além da Alemanha e do Brasil, e ainda, com a investigação de livros didáticos de diferentes períodos históricos.

Palavras-chave: currículo escolar de Biologia, meio ambiente, cosmopolitismo,

história das disciplinas escolares, estudo comparado, Brasil, Alemanha, livros didáticos

(9)

ABSTRACT

MATTOS, Luiza Maria Abreu de Mattos. O meio ambiente como um valor cosmopolita no currículo escolar de Biologia: comparando livros didáticos do Brasil e da Alemanha. Rio de Janeiro, 2019. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2019.

This doctoral thesis discusses how environmental issues became a cosmopolitan value in school Biology curriculum, presenting a comparative study between two different countries, Brazil and Germany. Based on theories developed by Thomas Popkewitz about cosmopolitanism and the system of reason and Ivor Goodson’s curricular studies on the history of the school subjects, it investigates how transnational macro-trends of the environmental field - critical, pragmatic and conservationist - relate to the curricular traditions - academic, pedagogical and utilitarian in school subject Biology. The investigation of historical aspects of this school subject helps to understand how these transnational trends are appropriated, translated and adapted, generating hybridizations related to the local issues of each country. School textbooks are analyzed as historical documents of the present time, based on an articulation of theoretical framework, literature review and curricular documents.

The analysis indicates that the way the environment is becoming a cosmopolitan

value in the school subject Biology seems to be related to a transnational process of

hegemonization of the pragmatic macro-trend, related to the concept of education for

sustainable development. However, this trend is intersected by the teaching traditions of

the school Biology curriculum in several ways, as well as by local issues of each country,

regarding the history of this school discipline. In Germany, hybridizations refer mainly

to a predominance of the transnational hegemonic conception related to the concept of

sustainable development, based on the pragmatic macro-trend, but also presenting

elements of the critical macro-trend. Examples of those situations are the rejection of

behavioral aspects and the inclusion of issues like socioeconomic inequalities, which

seem to be largely related to German didactic tradition. In Brazil, an oscillation between

(10)

the three macro trends is perceived, with a significant presence of the critical macro-trend.

This seems to be the resulting process of hybridization between transnational macro- trends and local characteristics, such as the academic development of the Brazilian Environmental Education field and the studies regarding its currents; the connection between local environmental and social movements; and the historical and political context in which such discussions were developed, after the end of the military period.

In conclusion, the study develops an analysis strategy that amplifies the dialogue possibilities between curricular studies and comparative education, based on the assumption that investigating internationally agreed values that are considered cosmopolitan, universal and transcendental, as environmental issues in the school subject Biology, is an important and necessary contribution to the understanding of the processes related to the construction of knowledge. In this sense, it is suggested that, in future studies, the analysis and discussions developed here can be deepened by expanding the context of study to other countries, besides Germany and Brazil and by the investigation of schoolbooks from different historical periods.

Key words: biology curriculum, environment, cosmopolitanism, history of school

subjects, comparative study, Brazil, Germany, schoolbooks

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LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1: Mapa das comunidades discursivas da Educação Comparada... 61

Figura 2: Capa do livro A1 ... 153

Figura 3: Capa do livro A2 ... 153

Figura 4: Capa do livro A3 ... 153

Figura 5: Capa do livro A4 ... 154

Figura 6: Capa do livro A5 ... 154

Figura 7: Capa do livro B1 ... 154

Figura 8: Capa do livro B2 ... 154

Figura 9: Capa do livro B3 ... 154

Figura 10: Capa do livro B4 ... 154

Figura 11: Capa do livro B5 ... 154

Figura 12: A1, p. 374 ... 157

Figura 13: A1, p. 375 ... 158

Figura 14: A2, p. 384 ... 159

Figura 15: A3, p. 196 ... 160

Figura 16: A4, p. 418 ... 161

Figura 17: A5, p. 353 ... 162

Figura 18: B1, p. 280... 163

Figura 19: B2, p. 265... 164

Figura 20: B3, p. 78... 165

Figura 21: B4, p. 133... 166

Figura 22: B5, p. 257... 167

Figura 23: A2, p. 386 ... 170

Figura 24: A5, p. 354 ... 171

Figura 25: B5, p. 259... 174

Figura 26: B1, p. 277... 176

Figura 27: B1, p. 278... 177

Figura 28: B2, p. 278... 179

Figura 29: B2, p. 276... 180

Figura 30: B3, p. 75... 182

Figura 31: B3, p. 76... 183

Figura 32: B2, p. 264... 187

Figura 33: B2, p. 274... 189

Figura 34: B2, p. 275... 190

Figura 35: A4, p. 405 ... 193

Figura 36: B5, p. 256... 194

Figura 37: B4, p. 132... 196

Figura 38: B4, p. 117... 198

Figura 39: B4, p. 119... 199

Figura 40: B4, p. 120... 200

Figura 41: A2, p. 385 ... 202

Figura 42: A2, p. 390 ... 203

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Quadro 1: Trabalhos encontrados na busca A ... 33

Quadro 2: Campos e objetos de pesquisa dos trabalhos encontrados na busca A ... 38

Quadro 3: Trabalhos encontrados na busca B ... 41

Quadro 4: Trabalhos encontrados na busca C ... 105

Quadro 5: Quantidade de trabalhos encontrados na busca C em cada período de publicação .. 106

Quadro 6: Livros alemães analisados ... 146

Quadro 7: Livros brasileiros analisados ... 147

Quadro 8: Referências completas dos livros analisados ... 153

Quadro 9: Capítulos analisados ... 155

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CNE Conselho Nacional de Educação

COGEAM Coordenação Geral de Materiais Didáticos

DCNEA Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Ambiental

EAC Escola Alemã Corcovado - Rio de Janeiro (Deutsche Schule - Rio de Janeiro) Eco-92 Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente ocorrida no Rio de Janeiro, em 1992 / Conferência do Rio

EICOS Programa de Pós-Graduacão em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social

FE Faculdade de Educação

IPN Instituto-Leibniz para Ensino de Ciências e Matemática da Universidade de Kiel (Leibniz-Institut für die Pädagogik der Naturwissenschaften und Mathematik an der Universität Kiel)

KMK Conferência Permanente de Ministros da Educação e Assuntos Culturais dos Estados da Alemanha (Kultusministerkonferenz)

LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC Ministério da Educação

NEC Núcleo de Estudos do Currículo

OCDE Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico PCNs Parâmetros Curriculares Nacionais

PDSE Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior

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PIEA Programa Internacional de Educação Ambiental

PISA/OCDE Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Programme for International Student Assessment of the Organisation for Economic Co-operation and Development)

PNE Plano Nacional de Educação

PNEA Política Nacional de Educação Ambiental PNLD Programa Nacional do Livro Didático PNMA Política Nacional do Meio Ambiente

PNUMA Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente

PPGE/UFRJ Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro

ProNEA Programa Nacional de Educação Ambiental SEB Secretaria de Educação Básica

TIMSS Tendências no Estudo Internacional da Matemática e das Ciências (Trends in International Mathematics and Sciences Study)

UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro

UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (United Nations Organization for Education, Science and Culture)

ZfA Escritório Central das Escolas Alemãs no Exterior (Zentralstelle für das

Auslandsschulwesen)

(15)

SUMÁRIO

Primeiras palavras... 17

Introdução: das inquietações da prática docente a um problema de pesquisa ... 18

1. Compreendendo a educação comparada para entender o meio ambiente ... 32

1.1 Comparações entre a educação do Brasil e da Alemanha: o que dizem os trabalhos encontrados no levantamento ... 32

1.2 Comparações entre questões curriculares de dois ou mais países: o que dizem os outros trabalhos encontrados no levantamento ... 40

1.3 O campo da Educação Comparada: entre a ciência e a reflexão reformadora internacional ... 49

1.4 Cosmopolitismo, sistema comparado de razão e história do presente: contribuições de Thomas Popkewitz ... 69

2. Disciplina escolar Biologia na Alemanha e no Brasil ... 82

2.1 Currículo e disciplinas escolares com base em Ivor Goodson ... 82

Currículo como construção social: uma alternativa à alienação das teorias curriculares 83 Disciplina escolar, estabilidade e mudança ... 86

2.2 Como a disciplina escolar Biologia tem sido vista por autores brasileiros ... 91

2.3 Como a disciplina escolar Biologia tem sido vista por autores alemães ... 97

3. O meio ambiente na disciplina escolar Biologia no Brasil e na Alemanha ... 103

3.1 O que dizem as pesquisas sobre o tema meio ambiente no contexto da disciplina escolar Biologia ... 103

3.2 Meio ambiente e Ensino de Biologia: aspectos históricos ... 113

(16)

3.3 Documentos curriculares do Brasil e da Alemanha ... 131

4. O meio ambiente na disciplina escolar Biologia no Brasil e na Alemanha: análises dos livros didáticos ... 140

4.1 Livros didáticos como fontes de estudos das disciplinas ... 140

4.2 Livros didáticos de Biologia no Brasil e na Alemanha ... 142

4.3 Estratégias de análise ... 147

4.4 Análises dos livros ou o que “diz” o material analisado ... 153

5. O meio ambiente no currículo escolar de Biologia: um valor cosmopolita entre macrotendências e tradições ... 207

Considerações finais ... 218

Referências ... 224

(17)

Primeiras palavras

O trabalho aqui apresentado foi desenvolvido no contexto do Programa de Pós- Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGE/FE/UFRJ), como parte dos requisitos do curso de doutorado.

Desenvolvido ao longo de quatro anos, o texto traz marcas desse longo processo de desenvolvimento da pesquisa, assim como do contexto histórico brasileiro e internacional dos últimos anos. Ao discutir valores cosmopolitas, em um momento em que noções como democracia, direitos humanos e racionalidade cientifica, até então tidos como universais, estão sendo questionados, julgo pertinente iniciar destacando alguns pontos.

Primeiramente, é importante reafirmar que esse se trata de um trabalho de cunho

acadêmico, desenvolvido a partir de intenso aprofundamento teórico e que, portanto, se

apoia, valoriza, e se encontra no campo do conhecimento científico. Em segundo lugar, é

impossível ignorar a importância das discussões aqui propostas no cenário político atual,

dessa maneira, parto do princípio de que discutir o valor meio ambiente com base em

teorizações que buscam investigar como esse valor se forma a partir de supostos

consensos, construídos em contextos de disputas envolvendo relações entre conhecimento

e poder, é uma forma de resistência. Por último, trata-se de uma investigação

desenvolvida a partir do “chão da escola”, articulando experiências de sala de aula com

discussões teóricas e acadêmicas do campo da Educação e que, portanto, carrega também

essa marca, da produção de conhecimento por professores, que ensinam, estudam e

pesquisam e que possuem, por conta disso, uma visão privilegiada, embora

desprestigiada, do processo de ensino-aprendizagem.

(18)

Introdução: das inquietações da prática docente a um problema de pesquisa A pesquisa aqui desenvolvida se trata de um estudo comparado sobre o tema meio ambiente no currículo escolar da disciplina Biologia em dois diferentes países, Brasil e Alemanha. A relevância e a urgência das questões ambientais na contemporaneidade, assim como o papel protagonista que a disciplina escolar Biologia tem assumido no tratamento desse assunto são fatores fundamentais para a compreensão da relevância do estudo aqui proposto. A escassez de trabalhos encontrados sobre o tema no levantamento realizado - que será apresentado mais adiante no texto - também reafirma sua pertinência no sentido de contribuir para as discussões acadêmicas acerca desse assunto.

O trabalho foi produzido paralelamente à minha atuação como professora de Biologia na Escola Alemã Corcovado do Rio de Janeiro (EAC), experiência que tem me permitido ter um contato privilegiado com os currículos de Biologia alemão e brasileiro e que provocou o surgimento das questões iniciais que motivaram a pesquisa.

Por fazer parte de uma rede de escolas alemãs no exterior, reconhecida pelo Zentralstelle für das Auslandsschulwesen (Zfa) - Escritório Central das Escolas Alemãs no Exterior – a EAC oferece dois modelos de currículo escolar: o ramo brasileiro, que segue as normas educacionais do Brasil e tem o ensino de língua alemã como idioma estrangeiro; e o ramo alemão, que segue, concomitantemente, as normas educacionais do Brasil e da Alemanha. O ramo alemão possui a maior parte das suas aulas em língua alemã e segue os moldes do ensino alemão, tendo como objetivo tanto a conclusão do Ensino Médio brasileiro como a obtenção do Abitur - a conclusão do Ensino Médio da Alemanha, que possibilita o acesso às universidades alemãs (ESCOLA ALEMÃ CORCOVADO- EXPERIMENTAL, 2017).

Portanto, a Escola Alemã Corcovado é considerada uma escola alemã no exterior,

que faz parte do sistema de ensino alemão, ao mesmo tempo que atende às orientações

oficiais brasileiras para a Educação Básica. Em função disso, no Ensino Médio, o ramo

alemão apresenta uma estrutura curricular que conta com disciplinas e professores

alemães e brasileiros, que seguem os documentos curriculares oficiais dos seus

respectivos países. Dessa maneira, alunos desse segmento possuem dois tempos de aula

semanais de Biologia com um professor brasileiro, com base em um currículo brasileiro,

(19)

e dois tempos de aula semanais de Biologie

1

com um professor alemão, que segue um currículo alemão. Esses currículos apresentam pontos de convergência, mas são elaborados de forma independente, a partir dos documentos curriculares oficiais de cada um dos países em questão. Em algumas disciplinas, como é o caso da Biologia, a escola desenvolve um projeto intitulado “aulas compartilhadas” em determinadas séries. Neste projeto, uma aula semanal é ministrada conjuntamente por dois professores da mesma disciplina, sendo um brasileiro e um alemão, com o objetivo de integrar as duas perspectivas e, portanto, dialogar acerca dos sentidos do que é considerado válido como conhecimento escolar.

Desse modo, ao trabalhar com turmas do ramo alemão entre os anos de 2013 a 2017, tive a oportunidade de participar desse projeto, e, portanto, de ministrar junto com professores alemães uma aula semanal para turmas do 1º ano do Ensino Médio. Tanto no currículo brasileiro, quanto no currículo alemão, o tema Ecologia é abordado nessa série.

Se, por um lado, alguns aspectos têm me parecido bastante semelhantes nos dois currículos, como por exemplo a divisão da Ecologia

2

em subtemas bem semelhantes, a abordagem do tema meio ambiente nos dois currículos sempre me pareceu bastante diferente. Enquanto as atividades e os materiais didáticos alemães parecem investir mais em tradições pedagógicas voltadas para a valorização de aspectos cotidianos nos processos de aprendizagem do aluno, o currículo brasileiro se mostra fortemente influenciado pelos exames de concursos de acesso às universidades (vestibulares e Enem), e, portanto, voltado para as tradições acadêmicas do campo da Ecologia

3

(GOODSON, 1995)

4

. Em trabalho anterior, (MATTOS, L. M. A.; HARTMANN- KRETSCHMER, A.; GOMES, M. M., 2016) observamos que exercícios apresentados em um livro didático alemão tratam, principalmente, de levantamento de dados pelos alunos, enquanto no livro brasileiro predominam atividades com base em questões de vestibulares e ENEM.

1

Biologia em alemão

2

Ao me referir à Ecologia, nesse contexto, trata-se do item Ecologia presente na lista de conteúdos programáticos dos documentos curriculares oficiais e livros didáticos de ambos os países.

3

Nesse caso, ao me referir ao campo da Ecologia, estou tratando do campo científico das Ciências Biológicas.

4

As tradições de ensino pedagógica, utilitária e acadêmica, aqui abordadas com base no autor Ivor

Goodson, serão discutidas de forma mais aprofundada posteriormente.

(20)

Assim, atuando em parceria com professores alemães em sala de aula, compartilhando turmas e projetos ao longo desse período, me vi tomada por diversas inquietações, tais como: A que finalidades educacionais os currículos escolares de Biologia no Brasil e na Alemanha procuram atender quando abordam o tema meio ambiente? As finalidades educacionais desse ensino podem ser consideradas semelhantes? São finalidades ligadas a aspectos do campo do Ensino de Biologia ou àqueles associados a movimentos socioambientais tais como a Educação Ambiental? O meio ambiente é abordado a partir de uma visão crítica ou conservadora

5

nesses dois países? De que maneira o fato de que a Alemanha é uma potência europeia e o Brasil, um país periférico latino-americano faz com que a forma como se compreende a questão ambiental seja diferente nesses dois países? De que maneira os documentos e eventos internacionais sobre o tema meio ambiente impactam dois países tão distintos? Quando assumimos que o tema meio ambiente é uma questão internacional, isso significa que estamos ensinando a mesma coisa em todos os lugares do mundo? Olhar para o modo como esse tema tem sido trabalhado em outro país – no caso, a Alemanha – me permite compreender melhor questões relacionadas a esse tema no Brasil? Quais são as tendências internacionais sobre esse tema e quais são as questões específicas da abordagem brasileira? Em suma, quando falamos de meio ambiente no ensino de Biologia no Brasil e na Alemanha estamos falando sobre a mesma coisa? Quais são os principais fatores que levam a essas semelhanças e diferenças?

Tais inquietações podem ser consideradas o “pontapé inicial” do trabalho aqui apresentado e foram formuladas tanto com base na minha experiência profissional na escola alemã, como a partir de referenciais acadêmicos relacionadas à minha trajetória como pesquisadora, que têm direcionado o meu olhar para o tema meio ambiente no ensino de Biologia desde a graduação. Contextualizando tal trajetória, comecei a me envolver com as áreas de Ensino de Ciências e Educação Ambiental em projetos de extensão universitária e estágios de iniciação científica enquanto realizava o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, no período entre 2001 e 2004 e, desde então, questões sobre a relação entre a crise socioambiental e o papel da escola e do ensino de Biologia nesse contexto me instigam. Optei por exercer a docência como professora da Educação Básica, por entender que a experiência no “chão da escola” seria fundamental

5

Aqui estou utilizando os termos crítico e conservador de maneira inespecífica. Nas discussões teóricas

retornarei a esse assunto, aprofundando tal discussão.

(21)

para que eu conseguisse atuar nesse campo e compreender suas principais questões.

Paralelamente, dei continuidade à minha trajetória acadêmica buscando me aprofundar nos estudos relacionados a essa mesma temática – a relação entre as questões ambientais e o ensino escolar de Biologia - realizando o curso de bacharelado em Biologia na modalidade Ecologia e o mestrado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social, me dedicando especialmente ao estudo dos referenciais teóricos da Educação Ambiental Crítica

6

. Nesse contexto, a minha experiência como professora de Ciências e Biologia em diversas escolas do Rio de Janeiro evidenciava o forte distanciamento entre as discussões acadêmicas no campo da Educação Ambiental e a abordagem dos temas relacionados ao meio ambiente no currículo escolar de Biologia. Em outras palavras, comecei a perceber, a partir da minha experiência prática, que muitas das proposições para a Educação Ambiental escolar discutidas nos debates acadêmicos desse campo pareciam estar em desacordo com as práticas escolares.

Ao dar prosseguimento à minha formação acadêmica e começar a desenvolver uma proposta de pesquisa para a realização do doutorado, essa inquietação me levou a buscar subsídios para compreender melhor a relação entre o ensino de Biologia e as discussões ambientais, o que me direcionou para os estudos curriculares e, mais precisamente, para o estudo da história das disciplinas escolares. Esse interesse resultou na minha aproximação com o projeto de pesquisa “Conhecimentos ecológicos nas disciplinas escolares Ciências e Biologia: um estudo curricular sócio-histórico”

7

. Tal projeto se caracterizava por desenvolver uma abordagem a partir do campo do currículo, em especial da história das disciplinas escolares e dos conhecimentos escolares, na busca por compreender os sentidos atribuídos aos conhecimentos ecológicos em materiais didáticos de Ciências e Biologia (GOMES, 2009). As pesquisas desenvolvidas pelo grupo em questão enfocam, principalmente, a compreensão sócio-histórica da produção e utilização de materiais didáticos - livros, apostilas, textos, estudos dirigidos, exercícios, imagens e roteiros de aulas práticas - produzidos para as disciplinas Ciências e Biologia

6

No contexto do Programa de Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social (EICOS/UFRJ), sob orientação do Prof. Dr. Carlos Frederico Loureiro, desenvolvi minha dissertação de mestrado intitulada “A Avaliação de Ações de Educação Ambiental: um estudo exploratório no âmbito da gestão pública sob uma perspectiva crítica” apresentada em 11 de maio de 2009.

7

O referido projeto foi coordenado pela Prof

a

. Dr

a

. Maria Margarida Gomes no Núcleo de Estudos do Currículo da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEC/FE/UFRJ) até 2016.

Atualmente, a presente pesquisa se desenvolve no contexto do Grupo de Estudos "Currículos escolares,

ensino de Ciências e materiais didáticos" também coordenado pela Prof

a

. Dr

a

. Maria Margarida Gomes no

NEC/FE/UFRJ.

(22)

no período compreendido entre a década de 1950 e o momento atual, considerando, ainda, depoimentos de autores e professores e propostas oficiais de ensino para essas disciplinas (ibidem).

Dialogando com tais produções, comecei a amadurecer as minhas inquietações sobre o meio ambiente e a disciplina escolar Biologia com base em referenciais do campo do Currículo, principalmente nos estudos do autor Ivor Goodson

8

(1983, 1990, 1995, 1997). A partir de diversos trabalhos do grupo de pesquisa liderado pela professora Dra.

Maria Margarida Gomes (GOMES, 2008; GOMES, 2009; GOMES, SELLES & LOPES, 2013; VASCONCELOS & GOMES, 2011; MOURA, 2015; ORLANDE, 2016;

FERREIRA, 2017), o estudo da história das disciplinas escolares e dos materiais didáticos foram se mostrando caminhos potentes nesse sentido. Portanto, em diálogo com as teorizações curriculares de Ivor Goodson, ao desenvolver este trabalho, parto de uma concepção de currículo como construção social, que possui uma evolução sócio-histórica, se constituindo como terreno de contestação, fragmentação e mudança (GOODSON, 1997, p. 27). Dessa forma, ao propor uma investigação sobre o meio ambiente no currículo escolar de Biologia, estou compreendendo o currículo como resultado tanto do que é formalmente legislado, como de todos os processos de interpretação, subversão e transformação que definem o que conta como conhecimento válido e legítimo. Me baseio também nos trabalhos de Gomes (2008, 2009), em diálogo com Goodson, ao entender que os livros didáticos além de fatos, dados e outras informações, também expressam regras, normas e padrões de comportamento, que resultam de disputas e decisões curriculares relacionadas à história das disciplinas escolares (GOODSON, 1983). Dito em outras palavras, a construção das estratégias teórico-metodológicas desse trabalho se baseia na concepção de que os livros didáticos são expressões curriculares que podem revelar ações, disputas e decisões curriculares ocorridas no interior das disciplinas escolares. Portanto, ao analisar esses materiais busco discutir de que maneira o currículo escolar de Biologia no Brasil e na Alemanha, enquanto construção sócio-histórica, vem produzindo sentidos para o tema meio ambiente.

Autoras que vêm trabalhando sob a perspectiva da história das disciplinas escolares no Ensino de Biologia no Brasil, com base nas teorizações de Ivor Goodson, como Sandra Selles, Marcia Ferreira, Maria Margarida Gomes e Alice Lopes (SELLES

8

As teorizações curriculares de Ivor Goodson serão discutidas com maior profundidade no capítulo 2.

(23)

& FERREIRA, 2005; MARANDINO, SELLES & FERREIRA, 2009; GOMES, SELLES

& LOPES, 2013; GOMES & FERREIRA, 2000; LOPES, 2000), também vêm sendo contribuições relevantes nesse sentido. Os trabalhos desenvolvidos por essas autoras sobre a história das disciplinas Ciências e Biologia têm nos mostrado que essas disciplinas escolares apresentam relações com as Ciências da Natureza, porém, possuem configurações próprias e distintas do campo científico, apresentando influência de tradições de ensino tanto de natureza acadêmica, como utilitária e pedagógica. Tanto fatores externos, quanto fatores internos à comunidade disciplinar estão relacionados às oscilações e diálogos entre essas tradições, marcando padrões de estabilidade e mudança, que garantem a continuidade das disciplinas escolares

9

. Assim, ao investigar a inserção do tema meio ambiente no currículo da disciplina escolar Biologia, compreendo que é preciso considerar tanto a influência do conhecimento acadêmico das ciências de referência, como questões cotidianas e sociais relevantes que estão relacionadas a esse tema, levando em conta que esses saberes são reorganizados e reestruturados, configurando-se como conhecimentos escolares que expressam finalidades próprias do nível básico de ensino (GOMES, 2009).

Como sugerem os trabalhos de GOMES , 2008; GOMES, SELLES & LOPES, 2013, OLIVEIRA, 2009; AMORIM et al. 2004; VASCONCELOS & GOMES, 2011 o tema meio ambiente vem se inserindo nos currículos escolares de Ciências e de Biologia através de uma articulação entre interesses científicos – com o fortalecimento da Ecologia, enquanto campo das Ciências Biológicas – e questões educacionais e sociais – nesse caso, sob uma forte influência dos movimentos socioambientais, principalmente de noções do campo da Educação Ambiental. Olhando para o histórico da relação do tema meio ambiente com o ensino, diversos autores (LAYRARGUES & LIMA, 2014;

LOUREIRO, 2004; ALIER, 2007, TOZONI-REIS, 2004) sugerem que, nas últimas décadas, a concepção de Educação para o Desenvolvimento Sustentável (ESD

10

) tem dominado o cenário internacional.

Tal tendência, associada a uma visão conservadora e pragmática de educação para o meio ambiente, vem concorrendo, especialmente no Brasil, com uma macrotendência

9

Os conceitos de tradições de ensino, comunidade disciplinar e padrões de estabilidade e mudança são desenvolvidos, com base nas teorizações de Ivor Goodson, no capítulo 2.

10

Internacionalmente utiliza-se a sigla ESD com base na formulação na língua inglesa Education for

Sustainable Development.

(24)

crítica, que agrega diversas correntes da Educação Ambiental que defendem a necessidade de associar as questões ambientais a um questionamento mais amplo acerca dos modelos sociais e de desenvolvimento contemporâneos. Enquanto na Alemanha a Educação para o Desenvolvimento Sustentável - ou a macrotendência pragmática, de acordo com Layrargues & Lima (2014) – vem se constituindo como a visão consensual nas discussões acerca desse tema (UNTERBRUNER, 2016; SCHLEICHER, 1995;

BÖGEHOLZ et. al. 2014), no Brasil a heterogeneidade de tendências tem sido uma marca do campo, assim como o contraponto da macrotendência crítica a essa visão conservadora e pragmática da educação para o meio ambiente (LAYRARGUES & LIMA, 2014;

LOUREIRO, 2002, 2004; GUIMARÃES, 2004).

A comparação entre esses dois países pretende tornar visíveis as diferenças históricas que têm gerado princípios distintos sobre o que significa o ensino sobre o meio ambiente. Nesse sentido, dialogando com o campo da Educação Comparada, me apoio, principalmente em concepções desenvolvidas por autores como António Nóvoa, Isabel Madeira, Jürgen Schriewer e, em particular, Thomas Popkewitz para pensar a comparação internacional no contexto das discussões sobre currículo escolar de Biologia e meio ambiente. Buscando entender as relações globais e nacionais/locais e as hibridizações

11

entre as tendências transnacionais e as questões específicas regionais, em um contexto que considera as relações entre conhecimento, poder e práticas educacionais, a estratégia de estudo comparado, aqui utilizada, está sendo desenvolvida na perspectiva do cosmopolitismo e dos sistemas comparados de razão desenvolvidos por Thomas Popkewitz (POPKEWITZ, 2000, 2012a, 2012b, 2014). Comparar as especificidades do Brasil e da Alemanha, nesse contexto, tem como objetivo buscar compreender como diferentes padrões e princípios históricos tornam o objeto “meio ambiente” passível de reflexão e ação internacionalmente. Assim, concebendo a escola como um projeto histórico que gera múltiplas trajetórias e que não se restringe às barreiras das nações

11

Reconheço que os termos hibridização e hibridismo têm sido utilizados no campo do Currículo com diferentes significados e com base em diferentes referências, como, por exemplo, nos estudos de Antônio Flávio Moreira (MOREIRA, A. F. B.; MACEDO, E. F. Faz sentido ainda o conceito de transferência educacional? In: MOREIRA, A. F. B. (org.) Currículo: políticas e práticas. 9. ed. Campinas: Papirus, 2006.

p.11-28.; MOREIRA, A. F.; PACHECO, J. A. (orgs.) Globalização e educação: desafios para políticas e práticas. Porto: Porto, 2006.) e de Alice Lopes e Elizabeth Macedo (LOPES, Alice Casimiro.

Recontextualização e Hibridismo. Currículo sem fronteiras, v. 5, n. 2, p. 50-64, 2005.; LOPES, Alice

Casimiro; DE MACEDO, Elizabeth Fernandes. The curriculum field in Brazil in the 1990s. International

handbook of curriculum research, p. 185-203, 2003.). Porém, nesse estudo me refiro a esse conceito a partir

da forma como ele tem sido trabalhado pelos autores do campo da Educação Comparada com quem estou

dialogando, António Nóvoa, Isabel Madeira, Jürgen Schriewer e, em particular, Thomas Popkewitz.

(25)

(POPKEWITZ, 2017, p. 16), investigo como essas diferenças são produzidas com base em diálogos transculturais, considerando as hibridizações como processos multidirecionais e não hierárquicos. No entanto, considerar esses processos de hibridização dessa forma, não significa ignorar que eles se dão em contextos de desigualdade. O universalismo das teses culturais sobre o cosmopolitismo da criança define o que é civilizado e racional e, consequentemente o que é provinciano e bárbaro, com base na razão da modernidade europeia, portanto, a Alemanha, enquanto potência europeia, e o Brasil, enquanto país periférico latino-americano, ocupam posições desiguais no que se refere à definição do que é e do que não é cosmopolita. Assim, parto da hipótese de que, apesar de possivelmente apresentarem finalidades e propostas pedagógicas e formativas aparentemente semelhantes em relação ao tema meio ambiente na disciplina escolar Biologia, os currículos brasileiro e alemão também apresentam potencialidades e limitações distintas. Estou concebendo, portanto, com base nas teorizações de Thomas Popkewitz, que o meio ambiente no currículo escolar de Biologia pode ser considerado um valor da racionalidade cosmopolita contemporânea e que, portanto, apresenta tendências transnacionais, assim como hibridizações com questões regionais que são mediadas por relações entre poder, conhecimento e práticas educacionais. Me interessa, dessa forma, investigar os sistemas comparados de razão que tornam esse objeto possível e quais são os fatores sócio-históricos – sob uma perspectiva do tempo presente

12

- relacionados à inserção desse tema no currículo escolar de Biologia.

Assim, a partir da trajetória de construção da proposta de pesquisa aqui apresentada, diversas questões foram re-elaboradas a partir dos diálogos construídos com os referenciais teórico-metodológicos. Com base nas discussões brevemente apresentadas aqui, e que serão aprofundadas nos capítulos seguintes, estabeleço como principais questões de pesquisa, que orientam o trabalho:

a. De que maneira o meio ambiente vem se constituindo como um valor cosmopolita (POPKEWITZ 2012a, 2012b, 2014) na disciplina escolar Biologia?

b. Como as macrotendências transnacionais do meio ambiente no ensino – crítica, pragmática e conservacionista (LAYRARGUES & LIMA, 2014) – se relacionam

12

Concepção que será explorada com base nas teorizações de Thomas Popkewitz desenvolvidas no capítulo

1.

(26)

com as tradições de ensino (GOODSON 1983, 1995, 1997; SELLES & FERREIRA, 2005; GOMES, SELLES & LOPES, 2013; GOMES & FERREIRA, 2000; LOPES, 2000) do currículo de Biologia no Brasil e na Alemanha?

c. De que maneira as tendências transnacionais sobre meio ambiente na educação são apropriadas, traduzidas e adaptadas a partir de questões locais de cada um desses países gerando hibridizações (POPKEWITZ, 2012a, 2012b, 2014; NÓVOA &

YARIV-MASHAL, 2003; NÓVOA, 2009; SCHRIEWER, 2009)?

d. Quais são os principais aspectos da história da disciplina escolar Biologia (com base em GOODSON 1983, 1995, 1997; SELLES & FERREIRA, 2005; GOMES, SELLES & LOPES, 2013; GOMES & FERREIRA, 2000; LOPES, 2000), nesses dois países, que estão relacionados a esse processo?

É importante ressaltar aqui que as questões acima propostas foram sendo desenvolvidas de acordo com os referenciais teórico-metodológicos utilizados, e, portanto, de forma coerente com esses, foram pensadas como guias para o desenvolvimento da pesquisa, e não como perguntas a serem respondidas de forma direta, sob uma perspectiva positivista de Ciência. Tais questões se delinearam, dessa maneira, como rumos para a pesquisa, que foram direcionando o debate e os diálogos explorados durante o estudo, ao mesmo tempo em que foram sendo transformadas como resultado do próprio desenvolvimento da pesquisa.

Importante também destacar, ainda, que trata se de um estudo desenvolvido no

Brasil, e por uma pesquisadora brasileira, portanto, a comparação pretendida se dá nesse

contexto e isso integra a proposta de pesquisa. Em outras palavras, não tenho a pretensão,

e nem seria condizente com os referenciais teóricos adotados, de realizar uma

investigação comparativa que se pretenda técnica ou neutra, mas estou assumindo, desde

o início do desenvolvimento dessas questões, que, enquanto pesquisadora, meu olhar está

ancorado em referenciais brasileiros e, portanto, a comparação com a Alemanha se

mostrou uma forma potente de explorar questões relacionadas ao tema de pesquisa,

levando-se em conta que determinados aspectos possuem uma forte relação com

(27)

tendências transnacionais, enquanto outros apresentam especificidades próprias da realidade brasileira.

Nesse sentido, a análise comparativa com outro país, nesse caso, a Alemanha, me permite entender e identificar tais aspectos, de uma forma que um estudo voltado unicamente para a realidade nacional provavelmente não me permitiria. Como afirma António Nóvoa (2009, p. 24) “o outro é a razão de ser da educação comparada”, pois somente olhando para o outro, conseguimos compreender tanto o que é comum, como o que é específico da nossa realidade. Assim, considerando a Alemanha como um país que representa uma potência europeia e o Brasil, como um periférico latino-americano, considero que essa comparação produtiva, não somente no sentido de compreendermos questões específicas de cada um desses dois países, mas também para explorarmos diversos aspectos que dizem respeito ao tema meio ambiente no ensino escolar de Biologia sob a ótica do cosmopolitismo.

No intuito de embasar a construção das estratégias teórico-metodológicas deste trabalho e dialogar com as produções já existentes relacionadas ao problema de pesquisa, incialmente optei por realizar um levantamento de trabalhos acadêmicos buscando artigos, teses e dissertações no âmbito da educação comparada que tratassem especificamente do Brasil e da Alemanha, com foco nas questões curriculares.

A partir de consulta aos sites de várias bibliotecas de universidades federais brasileiras, foram levantadas as principais bases de dado nacionais e internacionais na área acadêmica de uma forma geral, e específicas do campo da educação. Em seguida, foram selecionadas aquelas que possuíam maior relevância e que apresentavam acesso livre, ou convênio com o governo brasileiro para acesso aos trabalhos, e essas foram utilizadas para a realização do levantamento:

- ACADEMIC JOURNALS DATABASE journaldatabase.info/

- BANCO DE TESES & DISSERTAÇÕES - CAPES http://bancodeteses.capes.gov.br/

- BIELEFELD ACADEMIC SEARCH ENGINE (BASE) https://www.base-search.net/

- DIRECTORY OF OPEN ACCESS JOURNALS (DOAJ) https://doaj.org/

- DOMÍNIO PÚBLICO www.dominiopublico.gov.br/

- EDUBASE edubase.modalbox.com.br/portal/

- ERIC INSTITUTE OF EDUCATION SCIENCES eric.ed.gov/

- IBICT Biblioteca digital brasileira de teses e dissertações bdtd.ibict.br/

- MEU PERGAMUM MEC/INEP http://pergamum.inep.gov.br/pergamum/biblioteca/

- NDLTD - Networked Digital Library of Theses and Dissertations www.ndltd.org/

- PORTAL CAPES PERIÓDICOS www.periodicos.capes.gov.br/

- PPGE UFRJ http://www.educacao.ufrj.br/ppge/ppge-teses.html - SCIELO.BR www.scielo.br/

- SCIELO.ORG www.scielo.org/

(28)

Mesmo tendo utilizado diferentes portais acadêmicos, nacionais e internacionais, e tendo procurado por trabalhos do campo da Educação de uma maneira mais geral - para além do campo do Currículo - essa primeira busca resultou em uma quantidade muito reduzida de trabalhos

13

- apenas seis, o que me indicou a necessidade de ampliar o levantamento realizado. Decidi, então, buscar trabalhos que se relacionassem de forma mais abrangente com os campos com os quais dialogo. Optei, portanto, por buscar trabalhos de educação comparada que tratassem de estudos curriculares sobre dois países diferentes (mesmo que esses não fossem o Brasil e a Alemanha), entendendo que tais trabalhos me possibilitariam compreender quais têm sido as principais questões e estratégias de pesquisa utilizadas nas produções acadêmicas no campo da educação que comparam questões curriculares de dois países diferentes.

Paralelamente, realizei também uma busca por trabalhos sobre o ensino do tema meio ambiente no contexto da disciplina escolar Biologia, por entender que tais produções poderiam me ajudar a dialogar com outros trabalhos que têm discutido esse mesmo tema – o meio ambiente no currículo escolar de Biologia – porém, em outros contextos não comparativos.

Buscando por diferentes termos correlacionados aos temas em questão, certas palavras-chave e combinações se mostraram especialmente produtivas. Algumas adequações tiveram que ser realizadas de acordo com as particularidades de cada portal, como, por exemplo, a tradução dos termos para o inglês em bancos internacionais e variações das combinações de palavras chaves possíveis, que se adequassem aos diferentes instrumentos de busca de cada portal. Assim, três tipos de buscas foram realizadas:

A. Para a busca por trabalhos de educação comparada que tratam do Brasil e da Alemanha, utilizei as seguintes palavras chaves, em diferentes combinações do tipo e/ou: comparado/comparativo, currículo/ensino/escola, Brasil/brasileiro, Alemanha/alemão.

B. Para a busca por trabalhos de educação comparada que tratam de questões curriculares em diferentes países, foram utilizadas as palavras-chave, em diferentes combinações do tipo e/ou:: comparado/comparativo, currículo.

13

Os trabalhos encontrados no levantamento serão discutidos nos capítulos 1 e 3.

(29)

C. Para a busca por trabalhos que tratam do ensino do tema meio ambiente no contexto da disciplina escolar Biologia, os termos utilizados, em diferentes combinações do tipo e/ou foram: ensino, biologia, meio ambiente/ambiental.

As buscas foram realizadas entre agosto de 2015 e agosto de 2016, em todas as bases listadas anteriormente, e as palavras chave acima foram combinadas de diversas formas em todos os campos que os buscadores dos portais permitiam (título, palavras- chave, resumo, etc.). Em seguida, a partir da leitura do título e/ou resumo de todos os resultados encontrados, selecionei aqueles artigos, teses ou dissertações que se referiam de fato aos temas levantados. Tais trabalhos são apresentados e discutidos detalhadamente nos capítulos seguintes. De uma maneira geral, tal levantamento apontou a necessidade de investir em um maior aprofundamento teórico no campo da Educação Comparada - tema do capítulo 1 -, assim como a necessidade de fazer um resgate da relação entre a disciplina escolar Biologia e o tema meio ambiente - assunto que discutido no capítulo 3.

Em relação às estratégias metodológicas para a análise dos livros didáticos, a escolha de quais desses materiais analisar foi feita com base nas políticas nacionais brasileira e alemã que se referem a esse tema. No Brasil, o Programa Nacional do Livro didático (PNLD) foi a principal referência para a escolha dos livros, em função da importância desta política para a circulação de livros didáticos no país

14

. Para viabilizar o trabalho com as fontes de pesquisa alemãs, foram estabelecidas parcerias com centros de pesquisa na Alemanha, dentre os quais destaca-se o IPN - Leibniz-Institut für die Pädagogik der Naturwissenschaften und Mathematik, considerado a principal referência na área da pesquisa em Ensino de Ciências da Natureza na Alemanha.

15

A Prof

a

. Dr

a

. Ute

14

De forma resumida, o PNLD tem como principal objetivo subsidiar o trabalho pedagógico dos professores por meio da distribuição de coleções de livros didáticos aos alunos da educação básica de todas as escolas públicas do país. O programa é executado em ciclos trienais e a cada ano o MEC adquire e distribui livros para todos os alunos de um segmento. Os livros distribuídos não consumíveis deverão ser conservados e devolvidos para utilização por outros alunos por um período de três anos. O Ministério da Educação, através da Coordenação Geral de Materiais Didáticos (COGEAM) no âmbito da Secretaria de Educação Básica (SEB), avalia e seleciona as obras inscritas no Programa Nacional do Didático (PNLD) e é responsável, ainda, pela elaboração do Guia dos Livros Didáticos voltado a auxiliar o professor na escolha dos livros didáticos http://portal.mec.gov.br/component/content/article?id=12391:pnld

15

O Instituto-Leibniz para Ensino de Ciências da Natureza e Matemática – IPN - faz parte da associação

Leibniz-Gemeinschaft que reúne 91 instituições de pesquisas na Alemanha, consideradas de alto nível de

qualificação. Criado em 1966 e afiliado à Universidade Christian-Albrechts de Kiel, o IPN é um centro de

referência nacional para a pesquisa em Ensino de Ciências e desenvolve pesquisas de longo termo e de

grande escala, além de programas de formação continuada de professores, projetos de ensino em parceria

com as escolas e publicações de caráter científico e pedagógico (https://www.leibniz-

gemeinschaft.de/en/institutes-museums/einrichtungen/ipn/).

(30)

Harms

16

, chefe o departamento de Didática da Biologia desse centro de pesquisa, se disponibilizou a co-orientar este projeto no contexto do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação (MEC) do Brasil. Portanto, parte da presente pesquisa foi feita na Alemanha, no período de setembro a dezembro de 2017, e teve como objetivo principal o levantamento de dados relacionados às fontes de pesquisa desse país, tais como documentos curriculares e livros didáticos. Os detalhamentos sobre a escolha dos livros que compõem a amostra analisada, assim como as discussões relativas à construção das categorias de análise são apresentados no capítulo 4.

O texto está organizado em cinco capítulos. No capítulo 1, apresento as discussões sobre Educação Comparada que vêm me permitindo desenvolver uma fundamentação teórica para o estudo comparado aqui em questão. Inicio com a análise dos trabalhos encontrados no levantamento realizado nessa área e, em seguida, apresento uma breve revisão histórica do campo. Ao final do capítulo, discuto as contribuições dos autores específicos com os quais estou dialogando, em particular, aquelas de Thomas Popkewitz.

No capítulo 2, apresento discussões sobre a disciplina escolar Biologia no Brasil e na Alemanha. Apresento as concepções teóricas de currículo e disciplina escolar que estou assumindo nesse trabalho, com base nas teorizações curriculares de Ivor Goodson, em diálogo com as principais autoras brasileiras que têm trabalhado com esse autor no Ensino de Biologia. Em seguida, exploro as contribuições dos principais autores alemães que têm discutido a disciplina escolar Biologia.

No capítulo 3, busco compreender como o tema meio ambiente vem se inserindo no ensino de Biologia, primeiramente através da análise dos trabalhos encontrados no levantamento realizado, e, em seguida, buscando discutir aspectos históricos sobre a relação entre o tema meio ambiente e o ensino, tanto no âmbito internacional, como nos contextos específicos do Brasil e da Alemanha. Ao final do capítulo, apresento alguns

16

A Prof

a

. Dr

a

. Ute Harms é pesquisadora na área de Ensino de Ciências desde 1996, tendo publicado

dezenas de artigos científicos e capítulos de livros nacionais e internacionais. Atuou como professora e

pesquisadora em diversas universidades na Alemanha (Carl von Ossietzky Universität Oldenburg, Ludwig-

Maximilians-Universität München, Universität Bremen) e tem experiência de pesquisa em instituições na

França e na Suécia. Atualmente é professora na Christian-Albrechts-Universität zu Kiel e diretora do

Departamento de Didática da Biologia do IPN desde 2007 (https://www.ipn.uni-kiel.de/en/the-

ipn/departments/biology-education/staff/harms-ute).

(31)

dos principais documentos curriculares que se referem ao ensino do tema meio ambiente, no contexto da disciplina escolar Biologia, no Brasil e na Alemanha.

O capítulo 4 traz as análises dos livros didáticos investigados. Iniciando com uma discussão teórica sobre o livro didático como fonte de estudo das disciplinas escolares, o capítulo apresenta alguns esclarecimentos sobre a produção, a distribuição e a utilização dos livros didáticos no Brasil e na Alemanha, as estratégias de análise que estão sendo desenvolvidas, assim como as análises dos livros em si.

Por fim, apresento o capítulo 5 e as considerações finais, espaços nos quais as

principais reflexões, conclusões e discussões geradas pela realização dessa pesquisa são

elaboradas e desenvolvidas.

(32)

1. Compreendendo a educação comparada para entender o meio ambiente

Conforme indicado na introdução, neste capítulo são discutidas referencias do campo da Educação Comparada que vêm me permitindo construir uma fundamentação teórica para investigar o meio ambiente no currículo escolar de Biologia, a partir de uma abordagem comparada. Em um primeiro momento, apresento os resultados do levantamento realizado acerca de trabalhos comparativos no campo da Educação sobre o Brasil e a Alemanha e sobre questões curriculares de dois ou mais países distintos. Em seguida, faço uma revisão do histórico da Educação Comparada, traçando um panorama das principais questões desse campo desde seu surgimento até o momento atual, apresentando ainda os desafios e as possibilidades do contexto contemporâneo. Por fim, discuto a perspectiva de Educação Comparada adotada nesse trabalho, que tem como principal referência o autor Thomas Popkewitz, em diálogo com autores como António Nóvoa, Isabel Madeira e Jürgen Schriewer.

1.1 Comparações entre a educação do Brasil e da Alemanha: o que dizem os trabalhos encontrados no levantamento

Utilizando as estratégias que foram previamente apresentadas na introdução, a

primeira busca realizada no contexto do levantamento dessa pesquisa enfocou trabalhos

comparativos no campo da Educação que tratassem especificamente do Brasil e da

Alemanha e resultou em apenas seis trabalhos, como citado anteriormente. O quadro a

seguir (QUADRO 1) apresenta as referências completas dos trabalhos encontrados:

(33)

A1. BECKER, M. (2010). O Ensino Religioso Entre Catequese e Ciências da Religião: Uma avaliação comparativa da formação dos professores do ER do Brasil e da aprendizagem interreligiosa na Alemanha em busca de um ensino religioso interteológico e interdisciplinar. Tese (Doutorado em Educação). – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.

A2. GRAF, L.; POWELl, J. J. W.; FORTWENGEL, J. (2014). Scientific Conference. Made only in Germany? Internationalization and Transfer of Dual Study Programs. History of Vocational Education and Training (VET): Cases, Concepts and Challenges, Zurich, Switzerland (09-09-2014).

A3. LEVINSON, C. Y. (2000) Student Assessment in Eight Countries. Educational Leadership, vol.57(5), p.58-61.

A4. RIOLFI, C.; SCHULER, D.; BARZOTTO, V. (2009). Comparação de Duas Experiências de Sondagens na Alfabetização: Brasil e Alemanha. Educação: Teoria e Prática, v. 20, n. 34, p. 133.

A5. SCHMIDT, W. H.; HOUANG, R.; SHAKRANI, S. (2009). International Lessons about National Standards. Thomas B. Fordham Institute: Washington, DC.

A6. SILVA, C. E. da; PFAFF, N. (2011). Bagunça na escola: estratégias para serem aplicadas entre escola e grupos. ETD – Educação Temática Digital, Campinas, v.12, n.2, p.1-21, jan./jun. 2011 – ISSN: 1676- 2592.

Quadro 1: Trabalhos encontrados na busca A

Todos os trabalhos encontrados foram publicados entre os anos de 2000 e 2014.

Dois deles (identificados aqui como trabalhos A4 e A6) são artigos publicados em periódicos revisados por pares (ambas publicações brasileiras); um trabalho (A3) se refere a um artigo publicado em periódico específico do campo da educação, porém não revisado por pares (americano); um (A1) se trata de uma tese de doutorado (brasileira);

um (A2) é uma transcrição de conferência realizada em um evento de pesquisa internacional (evento realizado na Suíça, porém o texto da conferência produzido por pesquisadores de universidades alemãs e luxemburguesa); e um (A5) trata de um relatório publicado por uma instituição de pesquisa (americana). Uma breve análise de cada um dos trabalhos encontrados é apresentada a seguir, descrevendo suas informações mais relevantes, tais como objetivos, principais referenciais teórico-metodológicos e conclusões. Contribuições significativas de cada trabalho para o estudo aqui apresentado também são apresentadas.

Na tese identificada aqui como trabalho A1, o autor se propõe a avaliar o Ensino

Religioso e interreligioso e a formação dos seus docentes no Brasil e compará-lo com a

concepção da aprendizagem interreligiosa no Ensino Religioso alemão. O trabalho

desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do

Ceará e concluído em 2010 apresenta como referenciais teórico-metodológicos o uso do

(34)

método hermenêutico, que o autor denomina de tripé metodológico “ver-julgar-agir”.

Adota-se um conceito de pós-modernidade denominada positiva, no sentido de uma crítica radicalizada ao racionalismo moderno, na qual pressupõe-se uma continuidade dialética entre modernidade e pós-modernidade. As principais conclusões do trabalho indicam que o Ensino Religioso baseado nas Ciências da Religião insere-se em uma postura positivista moderna. Propõe-se, portanto, um Ensino Religioso

“interteolológico”, interdisciplinar e interreligioso, mais adequado a preparar os alunos para uma leitura do fenômeno religioso pós-moderno.

O trabalho A2 é uma transcrição de conferência realizada em um evento de pesquisa internacional denominado “History of Vocational Education and Training (VET): Cases, Concepts and Challenges” que ocorreu em Zurique em 2014. Os autores se propõem a analisar o grau de internacionalização do sistema dual de ensino na Alemanha, e, em seguida, analisar as condições institucionais para a transferência desses programas para outros países: França, EUA, México, Brasil e Qatar. A análise exploratória é baseada em entrevistas com especialistas e outros atores envolvidos na área em questão nos seis países e é utilizada uma abordagem denominada neo-institucional histórico-comparativa (que se refere ao institucionalismo histórico e à teoria da organização sociológica). As entrevistas são analisadas a partir de um referencial teórico relacionado à análise qualitativa de conteúdo. O trabalho não apresenta conclusões, somente a proposta da pesquisa. Como contribuições relevantes desse trabalho destacam- se as descrições acerca de dual apprenticeship training (formações na qual há diferenciação entre Vocational Training – formação técnica/prática and Higher Education – formação teórica/acadêmica) e dual study programs (formações na qual há hibridização entre Vocational Training e Higher Education presentes na Alemanha, Áustria e Suíca).

O trabalho A3 é um artigo publicado em um periódico americano específico do

campo da educação, porém não revisado por pares. A autora compara avaliações em

escolas de oito diferentes países (entre eles Brasil e Alemanha) através de entrevistas com

educadores dos países em questão. As conclusões do trabalho apontam que as avaliações

variam de formas múltiplas em cada um dos países analisados, porém as questões

principais são semelhantes. O trabalho indica ainda que na Alemanha não existia (em

2000, quando foi publicado o artigo) nenhum instrumento de avaliação nacional com o

objetivo de avaliar os estados, como ocorria no Brasil.

Referências

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