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Arte como campo expandido do urbanismo

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Academic year: 2021

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(…) jamais se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve. (Calvino, 2003:pp59)

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Ao meu avô Harley que mostrou a importância da busca pelo conhecimento e me motivou até o fim com as lembranças que deixou.

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Agradecimentos

Vivências e partilhas com diferentes pessoas e situações evidenciaram tensões e confrontos que me levaram a ter curiosidades e inquietações que impulsionaram o desenvolvimento desse trabalho. Às pessoas que estimularam, motivaram e incentivaram essas reflexões, direta ou indiretamente, deixo meus sinceros agradecimentos.

À Professora Gabriela por ter dado a oportunidade de ampliar meus conhecimentos, proporcionando diferentes situações de aprendizagem. À Professora Paola, por aceitar o desafio de estar presente mesmo a distância, colocando sempre de forma clara seu posicionamento e provocando inquietações que foram essenciais para minha reflexão e amadurecimento intelectual. Aos membros do Laboratório Urbano que contribuiram com críticas e trocas de informações sobre o tema abordado na pesquisa. À Junia, por compartilhar seu conhecimento sempre com tanto carinho e cumplicidade, e pela amizade sempre acolhedora, divertida e enriquecedora. À Rita que, com seu humor, tornou a discussão e a rotina de estudos mais leve e intrigante, e por compartilhar os ritmos e a dança nos momentos de descontração. Aos demais colegas do Madep e professores que me acolheram carinhosamente e partilharam suas ideias, contribuindo para minha formação. Ao Nian e a Elisa por compartilhar as experiências, pelo companheirismo, pelas conversas e reflexões sobre as cidades, pelo apoio no momento decisivo do trabalho. Ao David, que com seu olhar sensível e experiência particular pode mostrar outras possibilidades e realidades da favela. À Raquel que não só compartilhou as angústias do processo de investigação, como também contribuiu com sua experiência de ação nos aglomerados, além claro, da amizade sempre acolhedora. A equipe da Urbel, principalmente a Denise e a Karla que disponibilizaram as informações necessárias sobre o processo de urbanização do Aglomerado da Serra. À Derinéia e demais moradores do Aglomerado, que nos receberam com tanta disponibilidade e compartilharam suas histórias e sentimentos. Aos amigos que conheci em Portugal que tornaram minha estadia mais divertida e acolhedora. À Patrícia que além do carinho, me mostrou os sabores de Portugal. Aos

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amigos do Brasil, que mesmo de longe estiveram presentes e me fizeram entender o sabor doce a amargo da saudade. À Ângela, à Luciana e à Neyde que me ajudaram a ver, entender e enfrentar os desafios. Ao Miguel, que me ensinou a rir e chorar ao mesmo tempo, a ser mais inteira, a ver o mundo com outros olhos e por ter tornado minha estadia em Portugal mais calorosa e alegre. Por fim, agradeço a toda minha família, minha base. Ao meu pai pelo exemplo de luta e determinação. À minha mãe pela capacidade de doação e amor incondicional. Às tias Zuleika e Kleuza por me ajudarem na aproximação das práticas artísticas. Aos meus avós que seguem sempre comigo, exemplos de vida.

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Resumo

A partir do estudo de caso sobre a reestruturação urbana do Aglomerado da Serra, favela situada em Belo Horizonte, Brasil, pretende-se levantar questões sobre as cidades contemporâneas e as maneiras de abordá-las. As diferenças e conflitos inerentes aos espaços urbanos, junto com as mudanças das relações espaço-tempo tornam as cidades lugares complexos e dinâmicos. As reflexões e intervenções sobre eles podem incorporar essas variantes para tentar encontrar uma maior coerência com as características fugazes e plurais da contemporaneidade. Perceber o tecido urbano como um conjunto que abriga as diferenças e dissensos, sem querer uniformizá-lo ou transforma-lo em objeto publicitário e espetacular, torna-se um desafio para quem experiencia e para quem planeja ou projeta os espaços urbanos.

Problematizar as cidades, repensar e questionar sua organização econômica, social ou política faz parte de abordagens tanto urbanísticas quanto artísticas. A interseção entre disciplinas e a proposição da ampliação de seus campos (Krauss, 1984) foram temas desta investigação que buscou um caminho para pensar em um urbanismo sensível e coerente com a fluidez contemporânea (Bauman, 2001). Os usos cotidianos e as apropriações espontâneas dos espaços mostram, como coloca Michael De Certeau (2008) e Henri Lefebvre (1991), possibilidades de pensar a cidade considerando as ações triviais como formas de desvio às imposições dos planejamentos racionais e formais ou como microresistências urbanas ao processo de espetacularização (Jacques, 2010).

Interessa portanto, perceber a relação entre as pessoas e o espaço, as experiências (Tuam, 1983) e partilhas do sensível (Rancière, 2010) que possam despertar novos olhares, novas territorializações ou ressignificações dos lugares, impulsionando uma outra maneira de entendimento do espaço público, levando em conta suas tensões e heterogeneidades de forma que a cidade possa ser considerada um lugar político (Rancière, 2010) capaz de articular os dissensos.

Abordar os espaços opacos e suas particularidades num planejamento urbano, de forma a não excluí-lo, maquiá-lo ou

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homogeinizá-lo é um dos desafios que o urbanismo enfrenta. No Aghomogeinizá-lomerado da Serra, pretendeu-se questionar algumas das intervenções feitas no espaço, através da proposição de experiências, que criaram diálogos e estimularam reflexões a partir do conceito proposto da arte como expansão do campo do urbanismo. Esse posicionamento não pretendeu encontrar uma resposta fechada para a situação, mas sim, tentar disputar um processo que possa ter um viéz sensível, que resista à espetacularização urbana (Jacques, 2010) e à pacificação dos espaços, de forma que o agenciamento dos conflitos e tensões inerentes à cidade garantam o caráter político do espaço público.

Abstract

This thesis would like to raise the question about contemporany cities and how to approach them using the case study about the urban restructuring of the Serra Aglomeration, a slum located in Belo Horizonte in Brazil. The diferences and the conflicts inherent from the urban areas, alongside the change in the relationship between time and space, make cities become complex and dynamic places. In order to try to find more coherence with the various and fugacious characteristics of contemporaneity, the thinking and the interventions behind the urban areas could incorporate these variables into them. Trying to understand the urban texture as a reality that embraces both diferences and contradictions, without wanting to standardize it or transform it into advertising material, becomes a challenge to whoever experiences the urban spaces, plans or designs them.

Questioning the cities and rethinking its economical, social and political organisation belongs to the urban approach as well as the artistic one. The intersection between diferent subjects and the assertion to expand its fields (Krauss, 1984) were themes of this research that aimed for a path to think about an urban planning that is sensible and coherent with the contemporany flow (Bauman, 2001). The daily uses and the appropriation of the spaces allows for various ways of thinking the city,

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according to Michael De Certeau (2008) and Henri Lefebvre (1991), while taking into account the trivial actions as ways of by-passing the rational and the formal planning impositions and also the urban micro-resistances to the ostentatiousness process (Jacques, 2010).

It is therefore important to understand the relationship between the people and the space, the experiences (Tuam, 1983) and the sharing of the sensitive (Rancière, 2010) since it could encourage a new way of looking, a new territoriality or a new meaning for the places. This would booster a new understanding of the public space, so that the city could be considered a political space (Rancière, 2010) able to articulate those contradictions, while taking into account its tensions and heterogenity.

One of the challenges that urban planning faces is how to approach the dull spaces and their uniqueness so not to exclude it, renovate it or homogenise it. The purpose with the Serra Aglomeration was to question some of the interventions taken in this space, through the proposition of experiences, which established dialogues and stimulated the thinking of the concept of art as an expansion of the urban planning. This positioning did not intend to find an answer to the situation in question but rather try to dispute a process that could have a sensitive bias, that would resist urban ostentatiousness (Jacques,2010) and the pacification of spaces in a way that the comission of the conflict and the tension that comes from the city assure the political side of the public space.

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Índice

1 Introdução |1

2 Metodologia |9

3 Desenvolvimento |20 3.1 Cidade e experiência |20

3.2 Urbanismo - do racionalismo ao cotidiano |23

3.3 Experiência 1 – o cotidiano como tática desviacionista |27 3.4 Arte – da obra à vivência |32

3.5 Experiência 2 – relacionando com o espaço |35

3.6 Expansão do campo – arte e urbanismo na fluidez contemporânea |39 3.7 O Aglomerado e o Vila Viva |42

3.8 Experiência 3 – O terreiro é nosso |48

4 Considerações finais |52 5 Bibliografia |56

6 Índice de figuras |62 7 Anexo |66

7.1Trabalho em formato digital |66

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.Introdução

“Sim, eu acredito que exista um povo múltiplo, um povo de mutantes, um povo de potencialidades que aparece e desaparece, encarna-se em fato sociais, em fatos literários, em fatos musicais. É comum me acusarem de ser exageradamente, bestamente, estupidamente otimista, de não ver a miséria dos povos. Posso vê-la, mas… não sei, talvez eu seja delirante mas penso que estamos num período de produtividade, de proliferação, de criação, de revoluções absolutamente fabulosas do ponto de vista dessa emergência de um povo. É isto a revolução molecular: não é uma palavra de ordem, um programa, é algo que sinto, que eu vivo, em encontros, em instituições, nos afetos, e também através de algumas reflexões” (Guattari citado em Guattari e Rolnik, 2010:pp9)1

A citação acima é do final da década de oitenta, porém continua pertinente para as discussões atuais sobre cidades contemporâneas. A complexa dinâmica urbana exige uma abordagem que considere diferentes variantes como a relação espaço-tempo, a pluralidade, as apropriações possíveis e consequentes da relação do corpo com o espaço. A compreensão e consideração dessa heterogeneidade são essenciais para abordar as cidades como lugares políticos2(Rancière, 2000)3. Pensar as cidades não se resume a abordar os centros ou espaços urbanos elitizados e desprezar os periféricos e segregados. Incluir esses espaços opacos (Santos, 2009)4 nos planejamentos sem querer uniformizá-los ou apagá-los do tecido urbano para buscar uma imagem publicitária e espetacular da cidade passa a ser um desafio para todos que intervém e planejam o espaço urbano.

Na tentativa de encontrar um caminho de um urbanismo sensível, capaz de articular diferenças, considerar o sensível e resistir à espetacularização, é que este trabalho pretende abordar o caso de uma favela brasileira, o Aglomerado da Serra, situado em Belo Horizonte, Brasil. O interesse por essa realidade partiu de uma motivação de pesquisa que se iniciou durante meu curso de graduação em arquitetura e urbanismo quando buscava soluções de tipologias de baixa altura e alto adensamento5 como opção de moradias que se contrapunham com os

1

GUATARRI, Felix; ROLNIK, Suely. Cartografias do desejo. 10ed. Petrópolis: Vozes,(1989) 2010. 2

Ver colocações sobre esse assunto no capítulo 3.1. 3

RANCIÈRE, Jacques [2000]. Estética e Política. A partilha do sensível. Porto: Dafne Editora, 2010. 4

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: Globalização e meio técnico científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1997. 5

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2 edifícios verticais que começavam a ser construídos nesse aglomerado6. Na ocasião, muitas pessoas seriam desapropriadas e transferidas para os prédios que estavam sendo construídos pelo programa Vila Viva7 porque viviam em locais de interesse para obras públicas, de risco geológico ou área de preservação.

1.Levantamento de barracos do aglomerado e plantas dos apartamentos construídos pela Urbel |Fonte: Izabel Melo, 20098

6

Aglomerado é uma outra denominação possível para as favelas. É usada para designar um conjunto de casas pequenas, de barracos , ou um conjunto de favelas que cresceram tanto a ponto de se encontrarem e perdendo seus limites visualmente.

7

O projeto Vila Viva é um projeto de iniciativa do governo municipal de Belo Horizonte. Engloba obras de saneamento, remoção de famílias, construção de unidades habitacionais, erradicação de áreas de risco, reestruturação do sistema viário, urbanização de becos, implantação de parques e equipamentos para prática de esporte. de iniciativa do governo municipal de Belo Horizonte. Ver capítulo 3.7.

8

MELO,Izabel Dias de Oliveira. O espaço da política e as políticas do espaço: tensões entre o programa de urbanização da favelas “Vila Viva” e as práticas cotidianas no Aglomerado da Serra. 2009.ca. Dissertação ( Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Instituto de Geociências, 2009.

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3

2.Fotos do Aglomerado da Serra. Belo Horizonte,2011. Fonte: Joana Silva, 20079

9

SILVA, Joana Barbosa Vieira da. Uma casa auto-construída na favela: reflexão sobre formalidade e informalidade na cidade brasileira/ Joana Barbosa Vieira da Silva; docente acompanhante Prof. José Virgílio Borges Pereira. Porto: Faup,2007. 2vol.

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3.Fotos dos novos edifício no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte,2011 Fonte: Arquivo pessoal

Esse processo de transferir pessoas de suas casas para os novos edifícios é bastante delicado e pode gerar grandes impactos sociais10. Além de desestruturar as relações sociais, a mudança de um espaço horizontal, flexível e mais individualizado para outro vertical, rígido e coletivo exige alterações de comportamentos e de estabelecimento de regras que garantam um bom funcionamento dos interesses comuns. Desse contexto surge a seguinte pergunta: de que forma é possível problematizar ou explicitar os conflitos gerados por um processo de reestruturação urbana?

Não é foco desse trabalho avaliar o Vila Viva, mas sim entender como aconteceu, por parte dos moradores, a apropriação desses novos espaços (não mais só as moradias, mas também os espaços públicos e semi-públicos). A partir das observações realizadas, pretende-se levantar possibilidades para incorporar as experiências desse processo a um pensamento urbanístico sensível11, que possa considerar o cotidiano e a relação entre o corpo e a cidade.

10

Ver também <http://www.youtube.com/watch?v=MMumT40OImU&feature=mfu_in_order&list=UL> e

<http://www.youtube.com/watch?v=MMumT40OImU&feature=mfu_in_order&list=UL> Consultado em 2 de agosto de 2011 11

O termo sensível foi utilizado após o estudo das teorias de Rancière sobre a partilha do sensível. Esse assunto será explicado com mais detalhes nos capítulos seguintes.

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5 É difícil, portanto, desvincular por completo uma análise crítica sobre as intervenções feitas que seguem, aparentemente, modelos baseados nos princípios racionalistas.12

Colocam-se então outros questionamentos: quais as consequências das mudanças para as pessoas que habitavam e experienciavam em seus cotidianos espaços caóticos, característicos das favelas, com constantes transformações, quando elas passam a habitar espaços mais organizados, planejados? Como podemos avaliar a mudança de sociabilidade, de movimento, de sensações que aconteciam em espaços tão heterogêneos, dinâmicos e muitas vezes precários após a mudança desses “corpos” para locais mais bem definidos e com menor flexibilidade? Será que esse modelo de urbanização com tendência racionalista é válido para dar conta de um processo de integração dessas áreas periféricas ao tecido da cidade? Considerar práticas cotidianas pode ajudar a incorporar esses espaços periféricos ao tecido da cidade, sem caminhar para uma direção de homogeneização e espetacularização13? Como essas intervenções podem ser feitas sem anular os conflitos inerentes, dissensos e pluralidades das cidades, considerando as características fluidas e efêmeras da contemporaneidade e ainda garantindo que as cidades sejam espaços políticos14?

Uma aproximação ao lugar para tentar entender suas dinâmicas será feita levando em conta os conceitos colocados por Henri Lefebvre (1991)15 e Michel De Certeau (2008)16 sobre a importância do cotidiano e do trivial. A partir de então serão propostas ações pontuais, que tentarão considerar o contexto com todas as suas diferenças e conflitos inerentes de forma a não anular os dissensos. Essas ações podem funcionar como forma de aproximar e estabelecer um diálogo mais próximo com as pessoas envolvidas e talvez servir como dispositivos de intervenções mais adequadas para a realidade das cidades atuais, fugindo do processo de espetacularização e pensando mais numa posição de microresistências urbanas (Jacques, 2010)17.

12

Ver capítulo 3.2 com explicação mais detalhada sobre o contexto das favelas e do programa Vila Viva. 13

Ver o artigo “Espetacularização urbana contemporânea” de Paola B.jacques disponível em:

http://www.portalseer.ufba.br/index.php/ppgau/article/view/1684. O termo espetacularização foi colocado pela autora a partir da obra “Sociedade do Espetáculo” de Guy Debord.

14

Ver Partilha do Sensível de Jacques Rancière. Segundo o autor a noção de política está ligada aos dissensos, desacordos e conflitos existentes nos espaços públicos.

15

LEFEBVRE, Henri.A vida cotidiana no mundo moderno. São Paulo: Atica, (1968)1991. 16

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. artes de fazer. 15ed. Petropolis: Vozes, (1990)2008. 17

JACQUES, Paola. Zonas de tensão: em busca de microresistências urbanas. In BRITTO, Fabiana; Jacques, Paola. Corpocidade: debates, ações e articulações. Salvador: Ed.UFBA, 2010. p.108-119.

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6 Grupos como o Poro em Belo Horizonte discutem e teorizam o contexto urbano brasileiro abordando assuntos do dia a dia em seus trabalhos. O grupo é formado por dois artistas, Brígida Campell e Marcelo Terça-Nada. O trabalho desenvolvido por eles é quase sempre efêmero e segundo os artistas duram o tempo do deslocamento do ritmo cotidiano para um ritmo poético, questionador, e tem como objetivo a tentativa de re-sensibilizar o espaço e estimular ou criar relações entre as pessoas. O foco principal de seus trabalhos é o espaço público, as manifestações efêmeras e as mídias de comunicação popular. Trabalhos como ”Perca Tempo”, “FMI-revisitando Cildo Meireles”, “Faixas de anti-sinalização” são exemplos de intervenções propostas por eles para tensionar, questionar e provocar o espaço público.

A artista Jenny Holzer, assim como o Grupo Poro, usa o espaço público para questionar contextos e provocar os espectadores de sua obra. Entretanto, os suportes escolhidos pela artista para passar sua mensagem que, a princípio de baixo custo (cartazes por exemplo), ganharam também espaços em painéis de led instalados na cidade, normalmente usados para fins publicitários, ou projeções em fachadas. As frases “abuse of power comes as no surprise” and “protect me from what I want” são exemplos de frases que ela usa para questionar situações cotidianas.

Outra artista que usa suportes que normalmente atendem a demandas publicitárias é a Andreja Kulunčić18 . Em seu trabalho artístico ela procura trabalhar com temas que tratam de questões sociais e conta com a colaboração de profissionais de outras áreas como da sociologia, da filosofia, do marketing ou do design. Os temas abordados pela artista tratam de problemáticas presentes nas cidades como a questão do desemprego e a exploração do trabalho ou das diferenças entre classes sociais.

18

Andreja Kulunčić ministrou o workshop Workshop Social Practice in Art em Tomar entre os dias 3 e 5 de maio onde foi possível discutir e experimentar a prática artística como forma de problematização econômoca e social.

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7 4.Grupo Poro. FMI. Belo Horizonte, 2002. Fonte: http://poro.redezero.org

5.Jenny Holzer. Protect me from I want. Nova York, 1985. Fonte: http://monitoriablogart.blogspot.com/2010/11/jenny-holzer.html

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8 No contexto do urbanismo também é possivel identificar algumas referências que abordam contextos e cotidianos da cidade em suas práticas. As discussões e teorias levantas pelo urbanismo cotidiano é um exemplo que considera apropriações e ações triviais em suas ações urbanísticas e também levantam questões sobre a ocupação e organização das cidades. A participação do usuário na cidade ganha mais relevância nesses processos e cada vez mais a contaminação de diferentes disciplinas parece ser necessária e pertinente ao processo. Esse assunto é abordado dentro do contexto acadêmico pelo Laboratório Urbano, grupo de investigação da Universidade da Bahia. Tal grupo investiga as linhas de pensamento de um urbanismo contemporâneo e dentro da vertente Estética, corpo e cidade, buscam dentro da dimensão estética, formas de problematização da cidade através das experiências corporais e as ações cotidianas.19

Percebe-se portanto que tanto artistas quanto urbanistas têm se preocupado em problematizar assuntos do cotidiano e tratar da relação entre o espaço público e seus usuários. A proximidade das ações levanta outra questão: onde termina o urbanismo e começa a arte ou onde começa a arte e termina o urbanismo?

São esses questionamentos que norteiam o desenvolvimento desse trabalho. Apesar da escolha do Aglomerado da Serra como foco do estudo, as questões que aqui surgem podem se estender para outros contextos uma vez que não se pretende encontrar uma resposta fechada, mas sim, buscar e enfocar um processo qualitativo de reflexão e intervenção sobre o espaço público.

19

Ver revista virtual dobra (http://www.corpocidade.dan.ufba.br/redobra/) e site do corpocidade http://www.corpocidade.dan.ufba.br/2010/tema_geral.html

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9 2

.Metodologia

A modalidade escolhida para desenvolver a investigação foi “trabalho de projeto”. Isso significa que a questão proposta será abordada de duas maneiras: uma prática e outra teórica. A experiência prática não é mera ilustração do desenvolvimento teórico bem como a reflexão teórica não é apenas uma descrição da experiência prática. Ambas estratégias são tentativas de resposta ao problema proposto e por vezes se tocam, se completam, embora não exista o comprometimento de chegarem a um mesmo resultado. O desenvolvimento da prática instiga e desperta reflexões sobre a teoria, bem como a teoria contamina as ações e possibilidades das experiências práticas.

As contaminações dos campos, das influêcias, das diferentes referências são importantes para a reflexão que se propõe. Novos olhares, novas experiências, novas linguagens e influências ajudam no processo de subjetivação e sensibilização que se busca nessa investigação. A elaboração do trabalho em Portugal, ajudou nesse sentido o pensamento para intervir numa realidade brasileira e a experiência trazida do Brasil influenciou o desenvolvimento das reflexões e trabalhos feitos em Portugal.

Através de diferentes linguagens (textos, fotografias, desenhos, intervenções no espaço público), pretendeu-se encontrar caminhos para tratar a questão proposta, baseando os estudos em referências visuais e teóricas.

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10 A articulação das informações obtidas nas leituras e nas experiências realizadas nos espaço públicos ao longo dos dois anos de pesquisa deram a base para elaboração da crítica e das experiências em foco nesta investigação.

A palavra experiência aparece nesse texto em substituição da palavra intervenção. Essa mudança foi feita baseada nas colocações de Daniela Brasil (2010)20 que, ao refletir sobre a cidade e o corpo, fala que “é no imprevisível, no inesperado, no não representável que acreditamos residir o potencial transformador destes experimentos artísticos que tensionam corpo-cidade. Por isso gostaria aqui de propor a substituição da nomeclatura “intervenção” por “experimento”. O interventor seria o propositor, iniciador do experimento – do qual ele também é parte integrante e podendo inclusive ser ele próprio o único a ser alterado no fim do processo” (Brasil, in Britto e Jacques,2010:pp125). Portanto, o emprego do termo experiência parece mais adequado para se referir às ações feitas no espaço.

As complexidades das cidades, seus planejamentos, a relação das pessoas com o espaço e sua influência no comportamento são alguns pontos que foram abordados através da introdução de conceitos do urbanismo e da arte, tendo o Aglomerado da Serra como base para o estudo.

Esquema das questões de trabalho

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BRASIL, Daniela. Sobre os experimentos artísticos do corpocidade. In: BRITTO, Fabiana; Jacques, Paola. Corpocidade: debates, ações e articulações. Salvador: Ed.UFBA, 2010.

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11 A investigação está organizada de maneira que a reflexão teórica e as experiências realizadas na favela se misturam no corpo do texto do desenvolvimento, organizados em oito subcapítulos que seguem o esquema de conteúdos abaixo.

Esquema de conteúdo

O primeiro subcapítulo (3.1) introduz o tema cidade e experiência que servirão de base para o desenvolvimento dos capítulos seguintes. A partir da colocação de alguns conceitos de Jacques Rancière (2010) sobre política e partilha do sensível, pretende-se colocar em pauta a dimensão da cidade plural e conflituosa que será abordada ao longo do trabalho. O conceito de experiência desenvolvido por Yi-Fu Tuam (1983)21 também foi explicitado, uma vez que é importante para entender a relação dos corpos com a cidade, para criação de espacialidades e subjetividades que constroem uma cidade viva e dinâmica. Michael de Certeau (2008) e Milton Santos (2009)22 também foram referenciados para embasar a discussão que aborda conceitos de espaço, lugar e do cotidiano como transformador das tentativas de imposições que por vezes são colocadas à cidade.

21

TUAM, Yi-Fu. Espaço e Lugar: a perspectiva da Experiência. São Paulo: Difel, (1977)1983. 22

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12 O segundo subcapítulo do desenvolvimento (3.2) aborda algumas correntes do urbanismo e a possibilidade de incorporar as ações cotidianas no pensamento dessa disciplina. Jihn Chase, Margaret Crawford e John Kaliski23(2008) tratam desse assunto no livro Everyday Urbanism e se referem aos pensamentos dos autores como Henri Lefebvre e Michael De Certeau, também consultados para desenvolver esse capítulo. Acredita-se que a aproximação do urbanista ao dia a dia é uma prática importante para pensar as cidades como um lugar heterogêneo, palco de dissensos, como um lugar político conforme coloca Rancière. São também esses pontos que Paola Berenstein aborda para pensar nas possibilidades de resistência a espetacularização urbana resultante das tentativas de pacificação dos espaços.

Os projetos “Morar de duas maneiras” e “Desvio” são trabalhos que explicitam as tentativas de anular diferenças sociais existentes na cidade e que também precisam ser consideradas no planejamento urbano. O primeiro trabalho contrapõe duas realidades de moradia que existem frente a frente: um prédio de apartamentos e um acampamento cigano. Usando uma linguagem mercadológica pretendeu-se mostar as diferenças entre ambas. O segundo trabalho reflete sobre a falta de cuidado de uma intervenção urbana em integrar esse mesmo acampamento a cidade, propondo um prolongamento da via construída e abruptamente cortada na área proxima às casas ciganas. Esse prolongamento deveria desviar das casas como se realçasse o incomodo da presença de tal acampamento ali. Esses trabalhos foram realizados em Tomar,Portugal, no âmbito do workshop Social Practice in Art no primeiro ano do mestrado.

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13 7.Carolina Anselmo. Morar de duas maneiras. Montagem com fotografia digital. Tomar, 2010.

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14 O terceiro subcapítulo (3.3) apresenta a primeira experiência realizada no Aglomerado da Serra, abordando alguns conceitos como o de táticas desviacionistas, as resistências cotidianas manifestadas através das apropriações do espaço reurbanizado da favela em estudo.

Essa aproximação ao cotidiano só foi possível porque foi estabelecida uma relação com alguns moradores da favela que contribuiram não só com seus depoimentos, mas se disponibilizando a mostrar suas casas novas e antigas, suas rotinas, suas questões. Os primeiros contatos estabelecidos com os moradores foram feitos numa reunião organizada pela URBEL24, que fazia parte das reuniões previstas no programa do Vila Viva para dar orientação aos moradores sobre as novas condições de moradia. Posteriormente os encontros aconteceram nos próprios prédios sem intermediação e, a partir de então, foi-se estabelecendo um diálogo mais próximo com os moradores de dois prédios construídos no processo da nova urbanização.

Outros trabalhos realizados durante o período de desenvolvimento dessa pesquisa também exigiram uma aproximação com a população de certo local. O “Era uma vez”, proposto para a cidade do Porto, consistia em transformar as histórias de moradores das ilhas25 do Porto, Portugal, em minicontos que seriam estampados em cartazes para serem colados em edifícios abandonados da cidade. Uma metáfora de preenchimento do vazio urbano com o vazio social.

O “Estórias em história” foi um trabalho realizado em Crestuma, freguesia em Vila Nova de Gaia, Portugal. O projeto teve o intuito de retomar a memória dos fatos que aconteceram na antiga fábrica de fiação e na rotina do trabalho que marcaram a vida de muitas pessoas que ainda vivem na freguesia. Amizades, desavenças, processo de fabrico, trabalho infantil, são realidades que puderam ser relembradas ou descobertas através da voz de alguns dos operários. O processo de entrevistas e conversas foi importante para promover encontro entre essas pessoas que puderam retomar uma memória que, mesmo passada, continua a marcar o presente vivido dos antigos trabalhadores, seja positiva ou negativamente.

24

URBEL é a Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte e faz parte da prefeitura da cidade. 25

Ilhas são moradias populares que surgiram para abrigar trabalhadores das indútrias na época do desenvolvimento industrial de uma área da cidade do Porto. São habitações pequenas, que se organizam lado a lado, formando um corredor central que tem ao fundo uma casa de banho coletiva que servia todas as unidades.

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15 9.Carolina Anselmo. Era uma vez. Montagem com fotografia digital. Porto, 2010.

10.Carolina Anselmo. Estórias em históra. Montagem com fotografia digital. Crestuma, 2010.

11.Carolina Anselmo. Perfect City. Porto, 2010.26

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16 O subcapítulo seguinte (3.4) vai falar das transformações das práticas artísticas que deixam de dar valor a obra como monumento de contemplação e passam a priorizar os processos, as proposições de situações e vivências. Esse processo de transformação da arte já foi discutido por diferentes autores sendo que as colocações de Walter Benjamin (1994)27 sobre a arte mecânica, Hal Foster (2005)28 sobre o artista etnógrafo, de Frederico Morais (2001)29 sobre a proposição de situações pelos artistas, são o foco de estudo para esse capítulo. Essa perspectiva da arte interessa por se aproximar das cidades e das relações que são capazes de criar ou estimular. O cotidiano, a particiação das pessoas, e sensibilização do corpo, bem como a possibilidade de dar visibilidade às camadas ou conflitos dos espaços púbicos também são questões tratadas pela arte e vem de encontro com os interesses dessa investigação de problematizar os espaços periféricos e opacos da cidade.

No início da pesquisa o tema participação era foco importante, mas ao longo do processo, esse tema foi perdendo força, embora não tenha sido desconsiderado. Percebeu-se que o termo “participação” estava desgastado no contexto estudado pelo excessivo uso nos diferentes projetos propostos para as favelas. Além disso, houve uma mudança da percepção desse trabalho que passou a ser entendido como uma proposta de interesse pessoal, embora exista a consciência da importância da colaboração das pessoas. As teorias de Barthes sobre a morte do autor foram consultadas durante esse momento de estudo.

A segunda experiência realizada no Aglomerado da Serra é o assunto do subcapítulo cinco (3.5). Foram propostas ações para alguns lugares da favela para gerar aproximação do corpo com o espaço e também para questionar alguns pontos do processo de urbanização proposto para o local. A partir de conversas, descrições do lugar e caminhadas tentou-se perceber as referências visuais que cada morador tinha do espaço e como as alterações feitas durante as obras foram recebidas e apropriadas por cada um. Através de intervenções com textos tentou-se criar uma tensão no espaço a fim de levar a reflexões sobre o comportamento e esse processo de mudança.

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BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaio sobre literatura e história da cultura. 7.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 28

FOSTER, Hal. O artista como etnógrafo. (1996), tradução de Nuno Castro.In Marte, Lisboa, Março 2005, n1, p 10-40. 29

MORAIS, Frederico. Contra a arte afluente: o corpo é o maotor da "obra". In: BASBAUM, Ricardo (Org.). Arte Contemporânea

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17 Experiências feitas em Portugal durante o curso como o trabalho “Porto por um Euro”, que se propunha a ser uma deriva30, seguindo influências da teoria situacionista, instigaram a elaboração da ação dos percursos propostos no aglomerado. Francys Alys com sua obra “The Green Line” e Oiticica com a obra “Trilha de açúcar” também abordaram essa questão do percurso e serviram de referências para esse trabalho.

12.Carolina Anselmo. Porto por 1 euro. Montagem digital. Porto, 2010.

13.Francys Alys. The Green Line. Jerusalém, 2004. Fonte: http://www.nytimes.com/imagepages/2011/01/02/02ARTNJ4.html

30 Consultar práticas de flanâncias, deambulações e derivas como movimentos de reação ao urbanismo. “a deriva seria uma apropriação do espaço urbano pelo pedestre através da ação do andar sem rumo” (Jacques, 2004)

(28)

18

14.Hélio Oiticica. Trilha de açúcar. Serra do Curral,Brasil, 1970. Fonte: Catálogo da exposição Neovanguardas do Museu de Arte da Pampulha

Após a explicitação dos conceitos do urbanismo, da arte, da constatação da proximidade e das potencialidades que as duas disciplinas apresentam para abordar o espaço público, propõe-se no subcapítulo seis (3.6) uma discussão sobre a possibilidade de utilização do termo campo expandido para o urbanismo, tal conceito se baseia nas discussões que Rosalind Krauss (1984)31 coloca no âmbito da arte. Pensar na aproximação das disciplinas, das transdisciplinaridades, como fala Suzana Caló (2011)32, parece a princípio um caminho pertinente para se desenvolver teorias e práticas para o contexto fluido (Bauman, 2001)33 da contemporaneidade. As dinâmicas e a efemeridade dos territórios, a alteração da relação espaço tempo passam a ser variáveis importantes de se considerar para intervir nos espaços públicos. Millton Santos (2009) dá um bom embasamento sobre esses temas discutidos nesse capítulo.

31

KRAUSS, Rosalind. Sculpture in the Expanded Field. October, vol 8, 1979. p.30-44. 32

CALÓ, Susana. Félix Guattari e o Colectivo em La Borde – Notas para uma concepção da subjectividade para além do humano. In: PINHEIRO, Gabriela. (Des)Locações: exílio, topologia, deslocalizações = (Dis)Locations: exile, topology, relocation/ ed. Gabriela Vaz Pinheiro.Porto: Editora FBAUP, 2011. p.80-88.

33

(29)

19 É esse mesmo autor que coloca o conceito de espaço opaco, que será posteriormente explicado no subcapítulo 3.7. Em contraposição aos espaços luminosos e espetacularizados da cidade, esses locais passam a ser focos de diferentes discussões e, nessa investigação, é ilustrado pelo Aglomerado da Serra, favela escolhida como lugar de estudo. Uma breve explicação sobre a formação das favelas no Brasil, sobre as características do aglomerado citado e do programa de urbanização proposto para ele será o assunto do subcapítulo sete (3.7).

Depois de todo esse panorama, foi possível pensar em uma última experiência para o local em estudo, levando em consideração o contexto, o cotidiano, os conflitos. O último subcapítulo (3.8) aborda tal experiência.

Por fim, temos a conclusão desse processo, que busca formas de pensar nas intervenções da cidade, seja através da arte ou do urbanismo, considerando suas diferenças e tentando fazer o agenciamento delas, sem cair na espetacularização, higienização ou apolitização dos espaços públicos. Será exposto se foi possível encontrar um dispositivo capaz de problematizar e questionar o processo de reestruturação urbana e social pelo qual o Aglomerado da Serra tem passado afim de estimular o pensamento de um urbanismo mais sensorial e incorporado34.

34 Esse termo foi usado por Paola B. Jacques para falar de um urbanismo que pensa na incorporação do corpo na cidade e da cidade no corpo, fazendo um paralelismo com a fala de Oiticica sobre a incorporação do corpo na obra de arte e da arte no corpo.

(30)

20 3

.Desenvolvimento

3.1 Cidade e experiência

“ A cidade atual é uma cidade de contradições; ela abriga muitas ethnes, muitas culturas e classes, muitas religiões. Essa cidade moderna é fragmentária demais, está cheia de contrastes e conflitos: consequentemente, ela tem muitas faces, não uma única apenas. É a própria condição de abertura que torna nossa cidade de conflitos tão convidativa e atraente para sua crescente multidão de habitantes” (Rykwert, 2004:pp8) 35

O desenvolvimento desta investigação inicia com o tema cidade uma vez que esse é o território por onde as discussões propostas transitarão. Sem querer priorizar um historicismo, serão retomados alguns conceitos clássicos que parecem atuais e pertinentes para a reflexão sobre as cidades atuais, abordada neste trabalho.

O sentido de cidade para os gregos partiu, principalmente, do que eles entendiam por urbes e polis. Urbes está relacionado com o termo arar e vem de um ritual romano de desenhar a planta de uma nova cidade com o arado. Portanto, ao falar de urbes, fala-se da definição do espaço físico. Polis designava a organização social do espaço, a sua constituição política, mas também era nome de um jogo de tabuleiros que dependia da interação entre acaso e regra (a habilidade dos jogadores era demonstrada pela maneira com que improvisam as regras após cada lançamento de dados). Ao tentar criar uma analogia deste jogo com a cidade, pode-se dizer que não deveria haver imposições sobre a ordem política e econômica, mas sim uma construção coletiva, que não aconteceria somente de cima pra baixo, nem de baixo pra cima uma vez que “somos tanto agentes como pacientes quando se trata de nossas cidades.” (Rykwert, 2004:pp

6). Isto posto, outra noção importante para trazer da tradição clássica

para se pensar a cidade atual é a noção de ethos, que seria o modo ou maneira de

habitar o espaço. Esses hábitos ou forma de habitar deveriam considerar o bem comum e é o sentido de partilha do comum que interessa pensar para abordar o

35

(31)

21

espaço público. Jacques Rancière fala de uma partilha do sensível36 que “designa

o sistema de evidências sensíveis que dá a ver, em simultâneo, a existência de um

comum37 e os recortes que definem no seio desse comum, os lugares e as partes

respectivas. (…) Esta repartição das partes e dos lugares funda-se numa partilha dos espaços, dos tempos e das formas de atividades que determinam o modo como um comum se presta a ser partilhado e a forma como uns e outros tomam parte nessa partilha.” (Rancière, 2010:pp13).

São as diferentes formas de habitar, de relacionar e de partilhar o sensível

que compõem a unidade da cidade. Uma unidade “(…) que supõe que a sociedade

civilizada é inerentemente pluralista, que viver em conjunto em tal sociedade significa negociação e conciliação de interesses “naturalmente diferentes” e que “é normalmente melhor conciliar interesses diferentes que coagir e oprimir perpetuamente”.” (Crick, citado por Bauman, 2001:pp203)38.

A possibilidade de considerar essas pluralidades, de opor um mundo sensível a outro (Jacques in Britto e Jacques, 2010:pp109), de assumir o dissenso como parte do lugar faz com que as cidades sejam consideradas lugares políticos.

“O cerne da política reside em actos de subjetivação que separam a sociedade de si própria ao contestarem a «ordem natural dos corpos» em nome da igualdade e ao reconfigurarem de forma polémica a partilha do sensível.”39 (Rancière, 2010:pp95)

Sendo assim, a cidade permite o reconhecimento do corpo político como agente, uma vez que não impõe impedimentos para manifestações ou impulsos diversos, tendo em vista o comum. Dessa forma, o sentido de polis poderia se manifestar nas cidades atuais. Na base dessa política, ainda segundo Ranciére (2010), está uma estética que seria um sistema de formas que determina maneiras de agir de perceber, de pensar. Determina o que é dado a sentir.

“A estética é um recorte dos tempos e dos espaços, do visível e do invisível, da palavra e do ruído, simultaneamente, o lugar e o intuito da política enquanto forma de experiência.” (Rancière, 2010:pp14)

36

“A partilha do sensível é a lei implícita que governa a ordem sensível, define lugares e formas de participação num mundo comum ao estabelecer primeiro os modos de percepção nos quais estes se inscrevem.” (Rancière, 2010:pp94)

37

“Para Rancière «o comum» não é apenas um atributo partilhado por uma comunidade, não é algo que nos é dado, mas que deve ser construído, pondo em comum o que antes não o era.” (Rancière, 2010:pp13)

38

A consulta do texto original não foi possível devido a limitação do tempo de desenvolvimento desta investigação. 39

(32)

22 Aceitar e saber articular a cidade40 com suas diversidades e pluralidades, dando mais espaço para improvisações, permite que as vivências nos espaços sejam mais ricas de virtualidade e mais permeáveis. Embora haja atualmente uma tendência de uniformização dos corpos e das subjetividades, consequentes do capitalismo, imprevisibilidades inevitáveis acabam por “driblar” algumas imposições do sistema dominante e de um poder panóptico que alguns projetos urbanísticos tentam instaurar (Olivieri, 2007;41 Certeau, 2008). A vida cotidiana, que é compartilhada por diferentes pessoas e instituições, e que tem como base a cooperação e o conflito, apresenta um confronto entre espontaneidade e organização que territorializa a política (Santos, 2009)42.

Assim, a realidade construída através de diferentes maneiras é chamada por Yi-Fu Tuam (1983) de experiência. Estas, que podem ser individuais ou coletivas, propiciam diferentes leituras e apreensão dos lugares. Elas transformam lugares em espaços que acabam por ser criados ou conhecidos a partir da atuação sobre ele (Tuam,1983). Isto porque lugar é um conceito estático (Tuam, 1983:198) que indica uma ordenação de elementos que coexistem, uma configuração instantânea de posições que implica uma estabilidade (Certeau,2008). Enquanto que o espaço se cria a partir das relações de movimento, de tempo, de um conjunto de virtualidades disputado a cada instante. “Em suma, o espaço é um lugar praticado”43 (Certeau, 2008:pp202).

A realidade ou a simbolização construída a partir da experiência é resultado da criação de sentimento e pensamento resultantes da vivência e envolvem os sentidos mais diretos e os mais sutis. Silvana Oliviere (2007) coloca que as experiências propiciadas pelos espaços urbanos apresentam duas faces - assim como as cidades - uma objetiva e outra subjetiva. A primeira se relaciona com o movimento do corpo e sua relação com o espaço físico (urbes) e a segunda se relaciona com o tempo e as memórias, afetos e vibrações que ele cria.

“A vida diária na sociedade moderna requer que estejamos conscientes do espaço e do tempo como dimensões separadas e como medidas transponíveis da mesma experiência.” (Tuam, 1983:pp133)

40

Cabe lembrar que todas as cidades, mesmo aquelas rigidamente planejadas e controladas, apresentam situações não previstas, de desarranjos que a vida urbana levanta ou propicia.

41

OLIVIERE, Silvana. Quando o cinema vira urbanismo: o documentário como ferramenta de abordagem da cidade. 2007.ca. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal da Bahia, Faculdade de Arquitetura, 2007.

42

SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo: Globalização e meio técnico científico informacional. São Paulo: Hucitec, 1997. 43

(33)

23 Pode-se dizer então que as espacialidades criadas objetiva ou subjetivamente através da percepção proporcionada pelo movimento, pelos sentidos, pela memória, pela vivência, constroem camadas das cidades que as tornam vivas e dinâmicas. Tanto os corpos configura os espaços como os espaços interferem nesses corpos e nas relações entre si para a vivência do comum, na validação do espaço público. Tentar controlar a forma e o funcionamento desses espaços, através de planejamentos e projetos que visam uma organização, uma homogeinização e algumas vezes uma assepsia, parece um esforço pouco pertinente e contrário as transformações espontâneas da cidade, além de incoerente com as características fluidas (Bauman,2001) de rápidas transformações da contemporaneidade44. Embora hoje exista grande pressão econômica que interfere na conformação e no funcionamento das cidades, é uma dimensão coletiva, heterogênea e política, que retoma os conceitos clássicos de

urbes, polis e ethos, que se pretende defender nesse trabalho. São os espaços

opacos, não racionalizados, representados nesta investigação pelo Aglomerado da Serra que se colocarão como o desafio para a busca de um caminho mais sensível para abordagem das cidades.

3.2 Urbanismo – do racionalismo ao cotidiano

“(…) as cidades acreditam que são obra da mente ou do acaso, mas nem a primeira nem a segunda bastam para manter os muros em pé.” (Calvino, 2003:pp44)

A partir desse trecho e das colocações do capítulo anterior sobre as heterogeineidades das cidades e as experiências que elas proporcionam, inicia-se a discussão sobre as intervenções nas cidades contemporâneas, tão fragmentadas, cheias de contrastes e conflitos, as vezes incoerentes, como já explicitado. Indentificam-se hoje várias linhas de pensamentos sobre os espaços urbanos que vão desde abordagens muito técnicas, formais e teóricas até práticas espontâneas e triviais. Todas essas linhas direcionam as mudanças e as

44

(34)

24 construções das diferentes camadas das cidades e a articulação entre elas passa a ser uma preocupação da prática urbanística atual45.

Esses diferentes urbanismos têm suas origens relacionadas com necessidades e pensamentos característicos de cada época e contextos. Durante o pós-guerra, a necessidade de rápida reconstrução das cidades vinha de encontro com uma teoria urbana e arquitetônica de princípios racionalista e formalmente rígida. Com o tempo esse modelo se mostrou insatisfatório e insuficiente para dar conta das pluralidades e mudanças que ocorreram na cidade, na sociedade, na economia, na relação tempo-espaço.

As cidades hoje são entendidas como uma estrutura mais complexa e dinâmica e não mais como espaços fixos e estáticos. Constantemente são criadas novas territorializações e ressignificações para os lugares que precisam se adequar e responder as dinâmicas sociais e econômicas. Sendo os territórios entendidos como ”(...) produto/construção social, lugar de confronto, de tensões, de conflitos de uso e de apropriação e transformação”(Domingues, 2001:3)46, a busca de um caminho para uma construção de um comum (Rancière,2010), de um tecido urbano integrado, passa a ser então, um exercício de agenciar heterogeneidades e diferenças. As cidades precisam absorver as diferenças espaciais e sociais.

“(…) a homogeinização é um mito, sua percepção sendo o resultado de um “delírio analítico” que associa à ideia de revolução espacial a existência de uma indiferença espacial.” (Santos,Milton,2009:pp 268)

Muitas das intervenções urbanas propostas para algumas cidades atualmente, tem um caráter reparador que se manifesta através da afirmação da memória e do patrimônio e da anulação dos espaços segregados e periféricos

.

Uma tentativa de anulação do tempo, fixar memórias e percepções através de monumentos, como se o lugar fosse sempre um cartão postal, fazem das cidades espaços cenográficos, que funcionam cada vez mais como logotipos e marcas, como lugares do espetáculo

.

Milton Santos (2009) chama esses espaços de áreas luminosas e em contraposição propõe o conceito de zonas opacas que seriam as

45

Quando se fala em prática urbanística atual, não pretende-se definir uma linha única de pensamentos e ação. As possibilidades de retomar algumas teorias ou de propor outras novas devem ser consideradas em cada caso estudado.

46

DOMINGUES, Álvaro. A paisagem revisitada. Disponível em: <http://www.apha.pt/boletim/boletim3/pdf/AlvaroDomingues.pdf > Consultado em 17 de junho de 2010.

(35)

25 áreas inorgânicas, abertas, não racionalizadas, sem exatidão onde normalmente vivem os pobres.

São as áreas luminosas que atraem turistas e investimentos, entretanto as cidades não se constroem somente por essa vertente, mas também com as relações sociais, politicas e econômicas que configuram seu caráter de constantes mudanças. As experiências corporais e sensoriais dos habitantes e transeuntes ressignificam os espaços, criam novas territorializações, negando essa dimensão atemporal e imutável das cidades, afirmando suas dinâmicas e diferenças.

“Em tese, todo lugar é lugar de memória, tautologia que, à guisa de repetição, implica em diferenças que resultam de processos de acumulação, sedimentação, coagulação, dobramentos de acontecimentos, formado na “duração” (Deleuze,1999) os estratos antropomorfos.” (Magnavita, 2008:pp64)47

Alguns planos de requalificação urbana buscam, portanto, uma assepcia urbana, no sentido de esconder seus conflitos em busca de uma imagem homogênea, publicitária e espetacular (Debord, 2009)48. Entretanto, conflitos e dissensos são características inerentes à cidade e a tentativa de uniformização e padronização muitas vezes resultantes desses grandes planos de requalificação leva a uma despolitização do espaço público uma vez que este é entendido como um lugar possível de se opor um mundo sensível a um outro (Jacques,2010). Interessa portanto, considerar as diferenças e conflitos das cidades, negando a espetacularização urbana, através de ações que podem funcionar como microresistências49 que afirmam o cerne da política e do espaço público (Jacques, 2010).

47

MAGNAVITA, Pasqulino. O lugar da diferença. In: Revista de Urbanismo e Arquitetura, América do Norte, 6, dez. 2008. Disponível em: http://www.portalseer.ufba.br/index.php/rua/article/view/3233/2351. Consultado em: 26 Dez. 2010.

48

DEBORD, Guy; ABREU, Estela dos Santos. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, (1992)2009. 49

O conceito de micro-resistência usado por Paola B.Jacques é entendido como parte do processo de espetacularização urbana uma vez que a crítica ao processo também faz parte dele. Seria uma forma de resistência à pacificação urbana sob o registro da infiltração, de pequenos desvios, de ações moleculares (Gatarri, F e Rolnik, 1968)

(36)

26 “Há um ponto em que uma polis, ao avançar na unidade, deixa de ser uma polis; mas de qualquer forma chega quase a perder sua essência, e assim será uma polis pior. É como se se transformasse a harmonia em mero uníssono, ou se reduzisse um tema a uma única batida. A verdade é que a polis é um agregado de muitos membros.” (Bernard Crick citado por Bauman,2001:203)50

Essas microresistências podem ser identificadas pelos usos cotidianos do lugar que subvertem e transformam os padrões impostos. Sendo assim, podemos dizer que o urbanismo cotidiano, ao levar em conta experiências do dia a dia que se desviam das imposições feitas ao local, pode também ser considerado como uma resistência a essa espetacularização resultante das remodelações homegeneizadoras e pacificadoras.

“(…) um tipo de unidade que supõe que a sociedade civilizada é inerentemente pluralista, que viver em conjunto em tal sociedade significa negociação e conciliação de interesses “naturalmente diferentes” e que “é normalmente melhor conciliar interesses diferentes que coagir e oprimir perpetuamente. (Crick, citado por Bauman,2001:203)51

Lefebvre (1991) coloca que as as ações triviais cotidianas constituem as bases das experiências sociais e da verdadeira contestação política. Quando essas ações são anuladas por imposições fisicamente formais, o urbanismo praticado nega a possibilidade dessa disciplina ser um discurso humano e social. Certeau (2008), quando apresenta seu conceito tática desviacionista, que seria uma maneira criativa de utilizar ou desviar aquilo que foi imposto em cada ocasião está também falando de ações que funcionam como discursos e posicionamentos políticos e, em alguns casos, como microresistências a espetacularização urbana através de apropriações e maneiras de utilizar a ordem imposta ao lugar.

A identificação das incoerências entre os espaços abstratos desenhados e planejados e os espaços reais urbanos – e nesse caso considera-se os usos e apropriações espontâneas de cada lugar que legitimam ou não aquilo que foi projetado - é um ponto a ser considerado na busca de uma prática de um urbanismo sensível e incorporado.

50

A consulta do texto original não foi possível devido a limitação do tempo de desenvolvimento desta investigação. 51

(37)

27

3.3 Experiência 1 – o cotidiano como tática desviacionista

Conforme discutido no capítulo anterior, as dinâmicas fluidas das cidades parecem contrariar a rigidez dos grandes planos de caráter racionalista e instigam novas formas de intervir e pensar os espaços considerando as experiências que eles proporcionam e os tempos das dinâmicas atuais. As experiências cotidianas e os comportamentos triviais ganham relevância e passam a ser considerados nas reflexões urbanas, principalente nas de Lefebvre (1991), Certeau (2008) e Debord (2009). Segundo Daniela Brasil (2010), a importância do urbanismo cotidiano está no fato dele ser “uma tentativa de uma formulação teórica que reconecta os significados humanos e sociais com desenho e planejamento urbano: partindo do cotidiano e de pequenos atos de transformações realizados por pessoas comuns, (que) contrapõe-se aos planos totalizadores e espetacularizantes propostos pelo “novo urbanismo”. O “urbanismo cotidiano”52 se dá conta da dimensão temporal e temporária do espaço, da relevância e variedade das presenças e especificidades locais53. Ele propõe mais do que “soluções construtíveis e normativas”, mas sim uma atitude perante a cidade, respondendo às diferentes circunstâncias de forma radicalmente empírica, múltipla e heterogênea.” (Brasil in Britto e Jacques, 2010: pg 123 e 124)

Essa estratégia de intervenção pode ser mais pertinente para abordar as favelas brasileiras, uma vez que são espaços em rápidas e constantes transformações. Entretanto, a maior parte das intervenções nesse contexto são feitas sem levar em consideração as especificidades e complexidades dessa realidade. No caso da intervenções feitas no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, o que se nota é a utilização de uma linguagem aparentemente racionalizadora e que tenta transformar o espaço da favela o mais próximo possível, pelo menos visualmente, dos espaços das áreas formais do restante da cidade. Parece uma tentativa de uniformização, de anulação das diferenças espaciais e tentativa de imposição de uma forma de estar e de experimentar a cidade.

52

Ver livro “Everyday Urbanism” de John Chase, Margaret Crawford e John Kaliski 53

(38)

28 Entretanto, algumas práticas cotidianas dos habitantes dessas zonas opacas, que segundo Milton Santos são “espaços do aproximativo e da

criatividade, opostos às zonas luminosas, espaços de exatidão” (Santos,

2009:pp326), driblam essas imposições54. São práticas que segundo Certeau(2008) podem ser classificadas como táticas desviacionistas, uma vez que são ”maneiras de fazer” vitoriosas, as vezes clandestinas e quase sem visibilidade, capazes de mudar, manipular, persuadir ou seduzir a vontade do outro ou a regra do lugar. São maneiras de caminhar, falar, de se apropriar de algo ou de habitar que obedecem a outras regras diferentes daquela imposta. As construções informais, os usos e apropriações e o movimento do espaço e no espaço da favela podem ser consideradas táticas desviacionistas e dessacralizadoras dos centros urbanos.

“As zonas opacas das cidades periféricas, ou das periferias das grandes cidades globalizadas, são espaços em constante movimento exatamente por serem seus usuários/habitantes os verdaddeiros responsáveis por sua construção coletiva.” (Jacques in Britto e Jacques, 2010:pg112)

Quando se observa, a princípio, o projeto de reestruturação urbana proposto para o Aglomerado da Serra (que incluiu a construção de edifícios e a abertura de ruas que substituiram becos, e seguiu , aparentemente, um modelo rígido) parece existir uma imposição de formas e regras que anulam o dinamismo e os espaços caóticos existentes no aglomerado e consequentemente, altera os comportamentos que poderiam ser entendidos com táticas desviacionistas.

Na tentativa de entender como as alterações no espaço influenciaram o comportamento e a sociabilidade dos moradores, foi feita uma aproximação ao contexto para perceber como aconteceram as apropriações espontâneas e se as ações do dia a dia podem ser consideradas formas criativas de desviar o que foi imposto com a reestruturação urbana, sendo entendias portanto como táticas desviacionistas

54

Para Milton Santos “os espaços inorgânicos é que são abertos, e os espaços regulares são fechados, racionalizados e racionalizadores.” (Santos, 2009:pp326). Segundo o autor os “homens lentos”, que não tem muita mobilidade e para os quais as imagens pre-fabricadas são miragens, são aqueles que conseguem escapar do totalitarismo da racionalidade, quando constroem um imaginário e fabulações em cima de tais imagens não acessíveis a eles.

(39)

29 “ Os urbanistas indicam usos possíveis para o espaço projetado, mas são aqueles que o experimentam no cotidiano que os atualizam. São as apropriações, escapes e improvisações dos espaços que legitimam ou não aquilo que foi projetado, ou seja, são as experiências corporais que reinventam esses espaços urbanos no cotidiano, continuamente.” (Jacques in Britto e Jacques,2010:pg113)

Os primeiros contatos com a rotina dos moradores aconteceu em reuniões de condomínio que tinha como objetivo escolher o nome do edifício, eleger o síndico (representante do prédio), aprovar a convenção de condomínio e decidir sobre a instalação de interfones no prédio. Nesses encontros já se notou um discurso sobre a adequação necessária às novas moradias e as regras do programa Vila Viva. Algumas imposições de comportamento que o modelo vertical pede foram colocadas para que haja uma boa convivência. Durante os dois primeiros anos, os moradores não podem vender, alugar ou fazer qualquer modificação nos apartamentos e no prédio. Não se deve dependurar as roupas fora dos apartamentos nem nas fachadas (embora isso continue acontecendo), deve haver uma maior preocupação com o barulho, com as brincadeiras das crianças, com o uso do espaço comum. Essas regras são exemplos de tentativas de alteração de alguns comportamentos identificados atualmente nos edifícios. Entretanto, essa forma de estar, que continua se manifestando apesar das regras que as negam, nada mais é do que uma repetição de comportamentos trazidos do antigo modelo e entendimento de habitação e conformação dos espaços comuns. Essas repetições podem ser entendidas como um desvio do modelo imposto e, portanto, consideradas como táticas.

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30 15.Fotos dos edifícios no Aglomerado da Serra. Belo Horizonte,2011. Fonte. Arquivo pessoal

Outros acontecimentos também configuram alguns desvios a imposições formais colocadas pela verticalização. Uma pessoa que ganhou um desses apartamentos faz visitas diárias a ele para limpá-lo, fazer um café e a noite volta e dorme no seu barraco, no interior da favela. Dessa forma ela finge estar morando no edifício, conforme é imposto durante dois anos para não perder o imóvel.

Outro ponto que foi levantado é a forma de ocupação e uso dos prédios observado durante as visitas feitas ao fim do dia, quando os moradores já voltaram do trabalho. Parece haver uma reprodução do comportamento que existia nos becos e ruas onde as pessoas habitavam. O hábito de usar a rua como extensão da casa, seja colocando cadeiras, sentando a frente de casa para encontrar os vizinhos, organizando refeições em conjunto, usando como local de recreação parece se repetir. No início da noite é possível notar que as portas dos apartamentos ficam abertas, as escadas viram pontos de encontro, convivência e local de brincadeira das crianças. As ruas também são locais de diversão delas que, por não ter espaço nos apartamentos fazem delas também extensão da casa

(41)

31 ou repetição do beco. Essa ocupação da rua é um pouco complicada porque a pavimentação e alargamento da via atraiu pessoas que passam em alta velocidade de carro ou moto, além de organizarem corridas no local. Alguns acidentes já aconteceram e algumas famílias têm evitado que os filhos saiam dos apartamentos. Essa decisão também gera alguns conflitos. Uma moradora, não deixa seu filho mais novo, de onze anos sair do apartamento porque tem receio dos acidentes e não quer que ele tenha contato com os outros moradores para “salvá-lo”. Segundo ela, os outros dois filhos mais velhos “entraram nas drogas” durante o processo da mudança, pelas novas amizades que fizeram. A consequência disso foi que o filho caçula, já ganhou 17 kg e não faz outra coisa que não seja ver tv.

Outra apropriação não convencional dos prédios foi o uso do sótão, durante um período da pesquisa, por uma usuária de drogas filha de uma moradora. O local foi usado para ela se esconder, se drogar, guardar objetos roubados e fazer suas necessidades fisiológicas, também explicitando uma apropriação do espaço que repetia o seu comportamento do antigo beco que morava.

Segundo depoimentos, alguns prédios têm muitos problemas com violência e drogas. Alguns traficantes que antes dominavam certas áreas do morro agora controlam os prédios e fazem dele seu ponto de venda e esconderijo. São cobradas taxas para transitar nesses edifícios. Uma moradora colocou que apesar das alterações que o programa do Vila Viva trouxe contribuírem para a mudança de vida de algumas pessoas, outras continuam repetindo exatamente o que faziam, só mudaram de endereço.

“(…) ler os objetos equivale a reincluí-los no conjunto das condições relacionais. Essas condições relacionais incluem o espaço e se dão por intermédio do espaço. Nesse sentido é o espaço considerado em seu conjunto que redefine os objetos que o formam. Por isso, o objeto geográfico está sempre mudando de significação.”(Santos,2009:pp 97)

Nota-se que algumas práticas antigas continuam sendo constantes, o que mostra que tais comportamentos desviam do discurso que exige uma adaptação e um aprendizado de comportamento para viver no espaço remodelado. Todos esses comportamentos e apropriações citados configuram-se como táticas desviacionistas e resistências às imposições do plano de reurbanização proposto.

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