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João Andrade Peres TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO

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Academic year: 2019

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Texto

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TÓPICOS DE LINGUÍSTICA DO TEXTO

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ÍNDICE

1 Texto, Contexto e Discurso... 1

2 Questões gerais de tipologia semiológica e funcional dos textos ... 3

2.1 Diversidade dos textos quanto aos meios (media / “média”): “unimédia” / “multimédia”; texto oral e texto escrito; monólogo e diálogo; registo. ...3

2.2 Diversidade dos textos quanto à função e a aspectos do conteúdo ...4

2.2.1 A tradição clássica dos grandes tipos de texto (os antigos “géneros”) ...4

2.2.2 Tipologias de ”padrões textuais” ou de “sequências textuais” (microtextos) ...5

2.2.3 Sistematização das propostas da literatura e algumas sugestões de inovação (Peres, roteiro de aulas, ms., 2007) ...8

3 Textualidade... 10

3.1 Textualidade, coerência e coesão textuais ...10

3.2 Textualidade e gramaticalidade...10

3.3 Interdependências semânticas ...13

4 Cadeias referenciais... 14

4.1 Subtipos de cadeias referenciais...14

4.2 Pró-formas e elementos nulos ...16

5 Análise de alguns tipos de cadeias referenciais... 18

5.1 Análise de cadeias referenciais normais ...18

5.2 Análise de cadeias referenciais problemáticas ...28

5.2.1 Ausência de pró-forma...28

5.2.2 Problemas de estrutura argumental ou de caso ...28

5.2.3 Adição de pró-forma em estruturas tipicamente elípticas...28

5.2.4 Adição de pró-forma com redundância de argumentos ...28

5.2.5 Ausência de antecedente ...29

5.2.6 Incompatibilidade entre os elementos da cadeia referencial ...30

5.2.7 Intercalações com pró-formas prospectivas problemáticas...30

6 Referência indeterminada e verbos pronominais ... 31

6.1 A expressão da Referência indeterminada ...31

6.1.1 Referência indeterminada por meio de pessoas gramaticais...31

6.1.2 Referência indeterminada com expressões nominais vagas...32

6.1.3 Referência indeterminada por meio de elementos nulos...32

6.1.4 Sujeito indeterminado com o pronome pessoal de 3.ª pessoa (se) ...33

6.1.5 Construções ditas “apassivantes” (com “partícula apassivante” se) ...33

6.1.6 Sujeito indeterminado pronominal versus construções ditas “apassivantes” (com “partícula apassivante” se)...33

6.2 Breves notas históricas sobre se ‘apassivante’ e se impessoal...34

6.3 Para um conceito de verbo pronominal...38

6.3.1 Aspectos gerais da combinação de verbos e pronomes pessoais ...38

6.3.2 Verbos comuns e verbos pronominais ...41

6.4 Análise de dados relativos a verbos pronominais e à sua coocorrência com sujeitos indeterminados pronominais ...43

6.4.1 Dados relativos a verbos pronominais ...43

6.4.2 Dados relativos a sujeitos indeterminados pronominais ...46

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1

TEXTO, CONTEXTO E DISCURSO

TEXTO

Produção linguística constituída por uma ou mais frases e que constitui uma unidade de sentido (dependente, em geral, de uma estrutura – um esquema ou plano do texto e de uma rede de interdependências).

Pressupõe-se uma definição apropriada de frase bem como o sistema (de princípios e de regras) que permite construir as frases de uma dada língua, isto é, a gramática dessa língua. O texto é um objecto linguístico (eventualmente “multimédia”).

O sentido do texto em si é indeterminado, abstracto. um texto só ganha pleno sentido quando tomado como discurso.

DISCURSO

Texto em contexto” (van Dijk 1977). O discurso é um objecto de comunicação.

Conceitos adjuvantes CONTEXTO

Engloba a situação (ou certos traços dela) e também sistemas de conhecimento.

(Cf. Widdowson 2007: 20).

SITUAÇÃO DE ENUNCIAÇÃO

Papel dos dêicticos – pronomes pessoais (eu, tu, ...), advérbios de tempo (agora, hoje,...) e de lugar (aqui, aí, ali, cá, ...) – como elementos identificadores das situações.

SISTEMAS DE CONHECIMENTO (a que a informação é associada) Em geral, um texto activa conhecimento prévio:

É muito grave que o preço do petróleo esteja a subir.

[dito por um vendedor de gasolina, pelo ministro das Finanças ou pelo chairman da Fede-ral Reserve americana...]

CONHECIMENTO PARTILHADO (ou “conhecimento comum” / “base epistémica” / “base

cognitiva”; ingl. commonground): Conversa ouvida num comboio:

– Achas que tudo vai correr bem?

– Acho. A situação está controlada e tudo deverá correr como previsto. Dentro de umas duas horas conheceremos o resultado.

(4)

DISCURSO (língua e acção verbal em contexto)

TEXTO (língua e acção verbal)

SOBRETEXTO

SUBTEXTO1 ... SUBTEXTOn

ACTO LOCUTÓRIO (língua)

ACTO ILOCUTÓRIO (acção verbal)

SITUAÇÃO E SISTEMAS DE CONHECIMENTO

(incluindo o conhecimento

partilhado)

ACTO PERLOCUTÓRIO

PRODUÇÃO + COMPREENSÃO TEXTO EXPLÍCITO + TEXTO IMPLÍCITO

Acto locutório – o enunciado em si

Acto ilocutório – o enunciado enquanto forma de acção verbal (acto de fala).

actos ilocutórios: ASSERTIVOS, DIRECTIVOS, COMPROMISSIVOS, DECLARATIVOS, EXPRESSIVOS, DECLARAÇÕES ASSERTIVAS

Acto perlocutório – a intenção comunicativa (communicative purpose) de um acto ilocu-tório ou os efeitos atingidos, ainda que não pretendidos.

[Cf. Austin 1962 e Searle 1969.]

Comparem-se duas notícias numa estação televisiva:

TV-X: O fogo está controlado, prevendo-se que seja extinto dentro de algumas horas. TV-Y: A floresta continua a arder, não se sabendo quando o fogo será extinto. [Diferentes efeitos perlocutórios.]

Numa situação em que alguém abre uma janela, qualquer das frases que se seguem pode ser uma reacção adequada:

Está frio! / Estás com calor? / Estás com muito calor!

(5)

2

QUESTÕES GERAIS DE TIPOLOGIA SEMIOLÓGICA

E FUNCIONAL DOS TEXTOS

2.1 DIVERSIDADE DOS TEXTOS QUANTO AOS MEIOS

(MEDIA / “MÉDIA”): “UNIMÉDIA” / “MULTIMÉDIA”;

TEXTO ORAL E TEXTO ESCRITO; MONÓLOGO E DIÁLOGO;

REGISTO.

As línguas naturais enquanto sistema semiológico constituído por signos.

Distinção entre signos, ícones, imagens, símbolos e sinais [Cf. Barthes 1964]

VARIAÇÃO DOS TEXTOS QUANTO AOS MEDIA

MEIOS AUDITIVOS

MEIOS VISUAIS

expressão visual

LÍNGUAS NATURAIS

(+)

expressão sonora

não-verbal estática cinética (ou dinâmica)

expressão corporal

LÍNGUAS ARTIFICIAIS

MODOS DE REALIZAÇÃO DAS LÍNGUAS NATURAIS

monólogo diálogo

oral lição, discurso, ... conversa, debate, ...

LÍNGUA NATURAL

escrita diário, memórias, ... carta, SMS, chat, ...

var

iaç

ão

de

r

egi

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2.2 DIVERSIDADE DOS TEXTOS QUANTO À FUNÇÃO E A

ASPECTOS DO CONTEÚDO

2.2.1 A tradição clássica dos grandes tipos de texto (os antigos “géneros”)

Na Retórica, Aristóteles disserta sobre o discurso da “persuasão”. Estabelece “três géneros de discursos retóricos”:

• ••

DELIBERATIVO

• ••

JUDICIAL

• ••

EPIDÍCTICO (cf. p. 104)

Usam-se por vezes os termos “político”, “forense” e “demonstrativo” como sinónimos de cada um dos referidos termos aristotélicos, respectivamente.

Tipologia dos géneros (literários) que remonta a Platão e a Aristóteles:

• ••

ÉPICO (ou NARRATIVO)

• ••

DRAMÁTICO (ou TEATRAL)

• ••

LÍRICO [nunca foi encontrado o fragmento de Aristóteles sobre o género lírico.]

PISTAS PARA UMA CLASSIFICAÇÃO GERAL

DOS GRANDES TIPOS FUNCIONAIS (OU GÉNEROS) DE TEXTO

TEXTO LITERÁRIO / NÃO LITERÁRIO

•••• TEXTO LITERÁRIO: POESIA / PROSA / TEATRO (TRAGÉDIA / DRAMA / COMÉDIA)

POESIA:épica, lírica, ...

PROSA:ficção, ensaio (?), oratória (?), memórias (?), ...

•••• NÃO LITERÁRIO: CIENTÍFICO, JURÍDICO, JORNALÍSTICO, PUBLICITÁRIO, DIDÁCTICO,...

(7)

2.2.2 Tipologias de ”padrões textuais” ou de “sequências textuais”

(microtextos)

Da consideração apenas de grandes tipos (ou géneros) para a atenção à diversidade de “sequências textuais” (Adam) – na maioria dos autores: genres (géneros, sem a ampla acepção clássica) – que podem coexistir num mesmo texto.

Algumas tipologias de sequências textuais (tipologias de genres)

• Werlich 1976: NARRATION, DESCRIPTION, EXPOSITION, ARGUMENTATION. (Cf. Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40.)

• Longacre 1976: NARRATIVE, PROCEDURE, EXPOSITORY, HORTATORY. (Cf. ib.) • Longacre 1996: NARRATIVE, PROCEDURAL, BEHAVIORAL, EXPOSITORY. (Cf. Dooley e Levinsohn 2001: 8.)

• Beaugrande e Dressler 1981: NARRATION, DESCRIPTION, ARGUMENTATION [“Discourse modes» clássicos e mais comuns.]

(Cf. p. 184 e Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40.)

• Wodak 1986: NARRATIVE, ARGUMENTATIVE, DESCRIPTIVE, INSTRUCTIVE. (Cf. Titscher et al. 2000: 23.)

• Adam 1997: NARRATIF, DESCRIPTIF, ARGUMENTATIF, EXPLICATIF, DIALOGAL. (Cf. Adam 1997 : 44)

LONGACRE 1976

DEEP − projected + projected

SURFACE − prescription + prescription

+ succession + chronological

framework NARRATIVE PROCEDURE

− succession − chronological

framework

EXPOSITORY HORTATORY

«Surface-level criteria refer to the appearance or not of a chronological linkage in the text and the presence of prescription (instructions or injunctions for something to be done). The corresponding deep-level criteria deal with the succession of elements and the presence of time as projected (e.g. future plans and wishes) or not projected (e.g. occurring in the past). These criteria reflect on specific linguistic choices such as the use of pronouns (e.g. notice the generic ‘you’ in procedural texts), modality, tenses and cohesion.»

(8)

LONGACRE 1996

Agent orientation

+ −

+ Narrative Procedural

Contigent temporal

succession − Behavioral Expository

«CONTINGENT TEMPORAL SUCCESSION refers to a framework “in which some (often most) of the events or doings are contingent on previous events or doings” (p. 9). Thus, Little Red Riding Hood’s arrival at her grandmother’s house is contingent on her setting out through the woods, and the putting of a cake in the oven (in a recipe) is contingent on hav-ing first mixed the hav-ingredients. […] AGENT ORIENTATION, refers to whether the discourse type deals with “events or doings” which are controlled by an agent (one who performs an action), “with at least a partial identity of agent reference running through the discourse”. […] Again, Little Red Riding Hood and the wolf are agents in that story; the hearer is a (potential) agent in an exhortation, etc.» (Dooley e Levinsohn 2001: 8)

BEAUGRANDE E DRESSLER 1981

Discourse Modes:

Narration: the telling/writing of a story, consisting of a unique sequence of events that took place at a specific point in time;

Description: presentations of how something looks (smells, tastes, etc.);

Argumentation: the process of supporting or weakening arguments, views, theories etc.

(cf. Georgakopoulou e Goutsos 2004: 40)

WODAK (1986)

Narrative text varieties (tales, stories, etc.) rely on temporal ordering principles. • Argumentative text varieties (explanations, scientific articles, etc.) use contrastive

devices.

Descriptive text varieties employ predominantly local (that is, spatial or temporal) elements (as in descriptions, portrayals, etc.).

Instructive text varieties (such as textbooks) are both argumentative and enumerative.

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ADAM (1997)

Prototypes de séquences”:

NARRATIF

“En tant qu’unité textuelle, tout récit [texte narratif] correspond certes idéalement à la défi-nition minimale qu’on peut donner de la textualité : suite de propositions liées progressant vers une fin” (p. 45)

DESCRIPTIF

“Comme le dit l’article «Description» de l’Encyclopédie: «Une description est l’énumération des attributs d’une chose.»” (p. 81)

ARGUMENTATIF

“[…] on se demandera si certaines suites de propositions peuvent être marquées comme des suites réinterprétables en termes de relation Argument(s) Conclusion, Donnée(s)

Conclusion (Toulmin 1858 : 97) ou encore Raisons Conclusion (Apothéloz et al. 1989). Ces variantes rendent toutes compte d’un même phénomène : un discours argumentatif vise à intervenir sur les opinions, attitudes ou comportements d’un interlocuteur ou d’un auditoire en rendant crédible ou acceptable un énoncé (conclusion) appuyé, selon des mo-dalités diverses, sur un autre (argument/donnée/raisons).” (p. 104)

EXPLICATIF

“Expliquer nous semble constituer une intention particulière qui ne se confond pas avec informer ; le texte explicatif a sans doute une base informative, mais se caractérise, en plus, par la volonté de faire comprendre les phénomènes: d’où, implicite ou explicite, l’existence d’une question comme point de départ, que le texte s’efforcera d’élucider.” (p. 128)

DIALOGAL

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2.2.3 Sistematização das propostas da literatura e algumas sugestões de inovação (Peres, roteiro de aulas, ms., 2007)

+ DINÂMICO

SEQUÊNCIA FOCALIZADA EM EVENTOS

(enquanto entidades concretas) – DINÂMICO

(SEQUÊNCIA FOCALIZA-DA

EM ESTADOS OU EM

OBJECTOS ESTÁTICOS)

SEQUÊNCIA FOCALIZADA EM EVENTOS (enquanto entidades

abs-tractas) OU EM OBJECTOS

NÃO ESTÁTICOS PPT=T0 PPT≠≠≠≠T0

– DIRECTIVO DESCRIÇÃO ESTÁTICA DESCRIÇÃO DINÂMICA NARRAÇÃO DIRECTA NARRAÇÃO DIFERIDA

IN(ACÇÃO) INSTRUÇÃO

SISTEMAS DE VALORES OU (IN)ACÇÃO EXORTAÇÃO

+ DIRECTIVO

RACIOCÍNIO ARGUMENTAÇÃO

NOTAS

a. As sequências de um texto não pertencem necessariamente todas a um mesmo tipo. Por isso, faz sentido distinguir entre tipo predominante

(ou principal) e tipo(s) secundário(s) de um texto.

b. Uma sequência textual pode exibir traços de mais de um tipo de sequência. Por isso, faz sentido, considerar que uma sequência textual pode ser caracterizada por traços predominantes e por traços secundários.

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Descrição estática1

«Catalão é um município brasileiro do estado de Goiás. Localiza-se à latitude 18º09'57” sul e à longitude 47º56'47” oeste, estando a cidade à altitude de 835 metros. [A] sua população estimada em 2006 era de 71 680 habitantes. Possui [uma] área de 3778 km².»

(Wikipédia, excerto do artigo “Catalão, Goiás”)

Descrição dinâmica

«Este tipo de sistema circulatório [aberto ou lacunar] não apresenta capilares nem veias; um ou mais corações, com 2 a 3 câmaras (aurículas e ventrículos), bombeiam o sangue (…) por um vaso dorsal. O sangue então dirige-se a cavidades chamadas seios ou lacunas na massa visceral ou manto, e volta quando o coração relaxa, através de orifícios chamados

ostíolos.» (Wikipédia, excerto do artigo “Sistema circulatório”)

Narração diferida

«Os soldados rebeldes filipinos que ocuparam um hotel em Manila, exigindo a demissão da Presidente Gloria Arroyo, decidiram render-se, anunciou o seu líder em directo à televisão. Pouco depois foram detidos pelos militares.» (Público Online, 29-11-2007)

Instrução

«Caso (…) pretenda adicionar um novo serviço de correio ao “Outlook Express”, clique no menu “Ferramentas”, escolha “Contas...”, clique em “Adicionar” e seleccione “Cor-reio...”.» (www.Clix.pt)

Exortação

«Desista de uma discussão quando já não tiver o que dizer; ou admita quando os seus argu-mentos forem baseados em intuição ou gosto.

Durante discussões animadas, frequentemente dizemos coisas das quais nos arrependemos. Não esconda este sentimento.» (Wikipédia, Normas de conduta) )

Argumentação

«No acórdão (…) lê-se que “ficou provado que A. é portador de HIV e que este vírus exis-te no sangue, saliva, suor e lágrimas, podendo ser transmitido no caso de haver derrame de alguns destes fluidos sobre alimentos servidos ou consumidos por quem tenha na boca uma ferida”. Por essa razão, (…) se continuasse a ser cozinheiro representaria “um perigo para a saúde pública, nomeadamente dos utentes do restaurante do hotel”.» (Público, 21-11-2007)

«Agora que já temos, pelo menos, quatro canais de televisão, nota-se por vezes a falta de um segundo televisor. Por outro lado, este é um equipamento que ocupa um certo espaço, coisa que não abunda em muitas casas. Assim sendo, nada melhor do que um ecrã com duas imagens; claro que será um pouco difícil alguém concentrar-se numa imagem com outra logo ao lado, mas isso é outra questão.» (Corpus Natura-Público, par 72939)

(12)

3

TEXTUALIDADE

3.1 TEXTUALIDADE, COERÊNCIA E COESÃO TEXTUAIS

A TEXTUALIDADE consiste no conjunto das propriedades que fazem de uma sequência GRA-MATICALde frases um TEXTO. Num plano bastante geral, tem-se considerado que estas

pro-priedades se organizam no quadro de duas macro-propro-priedades do texto: a COERÊNCIA TEX-TUAL e a COESÃO TEXTUAL.

A propriedade da coerência textual define-se num plano conceptual e não num plano exclusi-vamente linguístico. Tem a ver com a articulação de sentidos que permite que um texto seja ele próprio uma unidade de sentido. O senso comum capta esta noção com alguma clareza quando identifica certos tipos de discurso (por exemplo, de carácter patológico) como “incoerentes”. Note-se que uma noção estrita (e estreita) de coerência poderia, indesejavelmente, levar a não considerar textos algumas formas de expressão verbal estética em que é precisamente a ausên-cia de nexos triviais de sentido que permite a abertura a sentidos outros, eventualmente profun-dos e estimulantes para a mente. Dadas as características que identificam um texto, é interes-sante colocar a questão do contraste entre texto e não-texto. Vejam-se exemplos simples:

Camões escreveu os Lusíadas. Queres ir ao cinema?

O aquecimento global é um problema sério. Vou trocar de carro.

O arquitecto do Pavilhão de Portugal na Expo foi o Siza Vieira! Convido-te para jantar! Picasso pintou Les Demoiselles d’Avignon. A Torre de Pisa tem uma forte inclinação.

[Só o contexto – no sentido amplo – permite decidir.] [Questão: um noticiário constitui um texto?]

A coesão textual é a propriedade compósita que permite que um texto seja percepcionado como um todo estruturado, em função de interdependências semânticas e sintácticas entre os seus componentes, frásicos ou outros. Assegurada a base de GRAMATICALIDADE (cf. 3.2) em

que um texto assenta, a unidade textual é alcançada por meio dos chamados FACTORES DE COESÃO TEXTUAL. Como se verá, alguns desses factores são específicos do plano textual, enquanto outros se podem observar também no plano da frase. Podem organizar-se em dois grandes domínios: INTERDEPENDÊNCIAS SEMÂNTICAS de vários tipos entre elementos de uma

frase ou de um texto, que podem ser elementos lexicais, pronominais ou nulos, proposicionais ou não (cf. 3.3, 4 e 5) e CONEXÕES INTERPROPOSICIONAIS, isto é, relações de significado que

se estabelecem entre proposições, com suporte sintáctico variável, envolvendo ou não um conector interproposicional ou elementos anafóricos (nulos ou não) e que, a partir das proposi-ções conectadas, geram um valor semântico acrescentado (cf. Peres 2009).

3.2 TEXTUALIDADE E GRAMATICALIDADE

Uma condição prévia para a existência de um texto é a verificação de GRAMATICALIDADE nos

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“A guerra foi também um rito de passagem que os portugueses (homens e mulheres) de uma geração posterior (felizmente) não irão ter. Resta saber se o facto de, neste preciso momento, ao serem instiladas a estes últimos doses maciças de informação sobre os episódios ditos “glo-riosos” da nossa História da época dos Descobrimentos, como se fosse impossível retomar o orgulho perdido sem sarar as feridas escondidas, resta saber se algum dia se chegará a bom termo na compreensão de um povo que nunca soube muito bem o que fazer com o que con-quistou pela “cruz e pela espada” e que soube sempre melhor como chorar pelo que perdia do que alegrar-se com o que ganhava.” (Público, 27-03-1992, p.11)

• •• •

“A tese é a seguinte: todos os indivíduos que forem agora submetidos a concurso público para preenchimento dos cargos, quando terminarem a sua comissão de serviço de três anos, a reno-vação poderá ser automática e já não é preciso mais concurso nenhum para manter os directo-res de serviço e os chefes de divisão.” (Público, 18-02-1998, p.6)

• •• •

“Qualquer livro que se escreva sobre os produtores mais originais que estão espalhados pelo mundo ou ainda se se assinalar no mapa-mundo onde estão os malucos do vinho, o nome de Didier Dagueneau e a região francesa do vale do Loire têm entrada assegurada.”

(Expresso, Única, 04-10-2008, p. 126)

• •• •

“A tão discutida frase do ministro Manuel Pinho na China, a propósito da vantagem competiti-va da economia portuguesa que lhe adviria dos baixos salários que por cá se praticam, só pecou por ser dita no local errado: de baixos salários e «dumping» social se compõe a vertiginosa produtividade da economia chinesa e o seu originalíssimo modelo de ‘socialismo’, em que já só o PCP parece acreditar. À parte esse erro geoestratégico, o que Manuel Pinho disse reflecte exactamente o que continua a ser o pensamento dominante em largas camadas do nosso patro-nato e até dos nossos economistas. Por mais ‘modernização’ invocada, por mais ‘choques tec-nológicos’ apregoados, por mais verbas públicas gastas em ‘qualificação’ e formação profis-sional, há coisas que nunca mudam, como essa fé de tantos empresários de que quanto pior pagarem aos seus trabalhadores, mais próspera será a firma.”

(Expresso,PRIMEIRO CADERNO,10-03-2007, P.5) • •• •

“Uma frase de Vítor Constâncio no Parlamento foi muito reveladora do nosso tempo. O gover-nador do Banco de Portugal disse que nunca pensou que Oliveira Costa fosse capaz de agir como agiu. Na verdade, parece inimaginável. Como a acusação de que são alvo os ex-gestores do BCP, com Jardim Gonçalves à cabeça.

Mas estas revelações - como a que ocorreu com Madoff e com tantos outros em todo o mundo - só surgem devido à crise. Ao contrário do que muitos têm dito, a crise não se deve à existência de gestores assim. O movimento é o oposto: descobrimos que há gestores assim, porque esta-mos em crise. E, por muito que a regulação controlasse as instituições e as pessoas, há sempre aspectos que escapam, meandros que não se entendem.”

(Expresso,PRIMEIRO CADERNO,27-06-2009, P.3) • •• •

“Um dia perguntaram-me o que era o 'ar do tempo'. O célebre air du temps de que falam can-ções e poetas. Pois bem, eis uma questão a que não é fácil responder. Apesar de ser simples saber o que é o ar e o que é o tempo, o ar do tempo é uma das mais complexas perguntas que podem ser feitas, mesmo a um homem como eu - sábio!”

(14)

“Só em Outubro de 2002, sustentam os acusados, os serviços do banco detectaram que as 17 sociedades tinham um dono formal, embora não fosse conhecido o último beneficiário. A solu-ção encontrada foi vendê-las ao ABN, que pagou metade em dinheiro e o restante em notes indexadas à acção BCP. Mas continuava a persistir o problema do último beneficiário dos veí-culos. É aí que é proposto a três clientes (...) que assumam essa titularidade, nas seguintes con-dições: o banco reestruturava o crédito às sociedades e fazia um financiamento a dez anos. Se a acção chegasse aos 6 euros, o titular pagava uma comissão, ficando com o restante; se perdes-se, o banco encaixava a perda. E assim o BCP não consolidou o prejuízo porque as sociedades passavam a ter dono e o banco não as assumia como suas; e não constituiu provisões porque o crédito não estava vencido.

De forma sintéctica [sic], esta é a tese da defesa. A maior debilidade reside em saber quem mandou constituir as 17 offshores. Alguém dentro do banco? Um cliente que nunca assinou os papéis? Colaboradores ligados à relação com os investidores, que constituíram os veículos na convicção de que os iam colocar no mercado? E qual foi o objectivo desse acto? Comprar acções próprias para fazer subir o preço? É isso que o Ministério Público vai ter de provar. Não vai ser fácil. Por isso, ou muito me engano ou Jardim Gonçalves vai ser absolvido.”

(Expresso,ECONOMIA,25-07-2009, P.5)

• •• •

836 “Acresce ainda que a prever-se que as obrigações tributárias ou para com a Segurança Social a partir de 1 de Janeiro de 1994, poderiam beneficiar do regime excepcional de paga-mento, contido no Decreto-Lei nº 225-1994, conduziria ao apagamento efectivo do ordenamen-to jurídico das infracções fiscais praticadas a partir de Janeiro de 1994, traduzindo-se, assim, numa verdadeira amnistia fiscal, que está fora de causa.”

(Comunicado do Ministério das Finanças, Público, 17-11-1994) •

•• •

837 “A boa disposição manifestada por Jorge Sampaio e Rebelo de Sousa não esconde, por isso, a oposição do segundo e do seu grupo, o PSD, quanto à gestão dos destinos da cidade por parte da actual Câmara de Lisboa.” (LEGENDA DE FOTOGRAFIA,DN, 22-01-1991, p. 24)

• •• •

326 “Devido ao fácil acesso de fotocopiar a cores os selos fez com que, desta vez, a Direcção-Geral dos Espectáculos optasse por um holograma (...) que torna mais difícil a sua reprodu-ção.” (Diário de Notícias, 26-12-1990, p.12)

• •• •

«Talvez um dos motivos por que Uma Paixão Humana... esteve na lista dos «best-sellers» seja pelo facto de ele comprovar muitas das nossas intuições sobre a música.»

(Expresso, Actual,29-12-2007, P.14)

• •• •

“Uma mulher inteira é incómoda e não faz sonhar. Da Dama das Camélias de Dumas à Mãe de Gorki, andou-se algum caminho, e daí a Virgínia Woolf (lésbica, lésbica não se esqueçam, dizem, e as outras também: a Mansfield, a Rebecca West, talvez as Brönte, escavem, escavem, e mais um bocadinho e apanham a George Eliot, com nome de homem, para não falar na Geor-ge Sand (...) enfim, uma tropa nada recomendável, dizem) mais caminho se andou.” (Clara Fer-reira Alves, Expresso, Revista, 26-01-2002, p.64)

[NB: Predicação interrompida por longa estrutura parentética, mas bem-formada.]

BIBLIOGRAFIA ESPECÍFICA

(15)

3.3 INTERDEPENDÊNCIAS SEMÂNTICAS

Entre dois ou mais elementos de um texto podem verificar-se diversos tipos de interdepen-dências semânticas, nomeadamente as que têm a ver com a SENSIBILIDADE AO CONTEXTO de determinadas realizações linguísticas e as que se materializam em CADEIAS REFERENCIAIS.

Exemplificaremos de seguida o primeiro destes tipos e dedicaremos maior atenção ao segundo nas secções 4 e 5.

Verifica-se sensibilidade ao contexto quando a ocorrência de uma forma linguística está dependente de determinados valores semânticos contextuais. Comparem-se os dois textos seguintes:

(1) a. Talvez o director venha à reunião. Se ele vier, podemos pôr o problema. b. # O director vem à reunião. Se ele vier, podemos pôr o problema.

O segundo texto é sentido como anómalo em virtude de a oração condicional que aparece no segundo período não ser compatível com o valor modal de certeza veiculado pela frase o direc-tor vem à reunião. Porém, é compatível com o valor modal de possibilidade expresso em talvez o director venha à reunião.

As entidades que são referidas através de cadeias referenciais podem pertencer a diferentes subdomínios ontológicos, nomeadamente o dos objectos físicos, o das propriedades, o das situações ou os dos intervalos ou das quantidades de tempo. Por analogia com uma tradição da Lógica (em relação a domínios de quantificação), podemos falar de cadeias de primeira ordem quando se trata de referência aos objectos mencionados, de segunda ordem quando são referi-das propriedades, de terceira ordem quando se trata de situações e, finalmente, simplificando, de cadeias de ordem alta (tomado o epíteto como equivalente a “superior à terceira ordem”) quando estão em causa cadeias de valores como, por exemplo, os do domínio temporal. Aqui vamos concentrar-nos apenas em cadeias de ordens baixas (i.e., da primeira à terceira). De ordem alta seriam as cadeias de valores temporais ou afins presentes nos seguintes textos:

(2) O Luís esteve cá entre as três e as oito. Durante esse tempo, escreveu dez páginas. (3) Os documentos chegam amanhã. Depois, podemos discutir o assunto.

(16)

4

CADEIAS REFERENCIAIS

4.1 SUBTIPOS DE CADEIAS REFERENCIAIS

Nos estudos sobre texto, é habitual tratar conjuntamente dois tipos muito diversos de cadeias de valores semânticos: as cadeias de relações referenciais e as cadeias de dependências referenciais.

CADEIAS DE RELAÇÕES REFERENCIAIS

Nas cadeias de relações referenciais, as expressões que formam cadeia de significado têm valor semântico por si próprias, mas os seus valores estão relacionados entre si. Os elos destas cadeias são sempre constituintes lexicais. Seguem-se exemplos de vários subtipos:

CADEIAS LEXICAIS DE SINONÍMIA

(5) Fernando Pessoa está nos Jerónimos.

Que diria o autor do Guardador de Rebanhos, se pudesse falar?

CADEIAS LEXICAIS DE ANTONÍMIA

(6) Moral de telenovela: os bons são sempre premiados e os maus são sempre punidos.

CADEIAS LEXICAIS DE HIPERONÍMIA

(7) A esperança de vida dos portugueses situa-se acima dos setenta anos. A dos europeus também.

CADEIAS LEXICAIS DE CADEIAS DE HIPONÍMIA

(8) Hoje em dia, os jovens lêem pouco, mas os estudantes de Letras exageram.

CADEIAS DE DEPENDÊNCIAS REFERENCIAIS

Nas cadeias de dependências referenciais, um ou mais dos elos que formam a cadeia não têm valor semântico independente, obtendo-o a partir de outros elos colocados antes ou depois deles. Os elos dependentes destas cadeias podem ser constituintes lexicais, pronomes (ou, mais geralmente, pró-formas) ou elementos nulos.

Uma forma intuitiva de descrever a relação de dependência em causa consiste em dizer que os elos dependentes ‘transportam’ o descodificador do texto para outro lugar do próprio texto, o que levou os gramáticos a subclassificarem as cadeias de dependências usando qualificativos baseados no verbo grego (e também latino) fero, que significa transportar. Assim, todas as cadeias de referência podem ser consideradas ‘cadeias fóricas’ (i.e., de ‘transporte’ de signifi-cado).

(17)

dependente está antes do que lhe transmite o seu valor, a cadeia é chamada cadeia catafórica

(literalmente, ‘que transporta para diante ou para baixo’; mais transparentemente, cadeia pros-pectiva). Segue-se um exemplo de cadeia retrospectiva (ou anafórica) lexical:

(9) Falei ontem o Paulo. Com tanto trabalho, o pobre do rapaz não sabe para onde se virar.

É também deste tipo uma cadeia lexical de reiteração como a que se segue:

(10) A cidade é feia. A cidade é suja. A cidade não tem espaços verdes. Que fazer com a cidade?

[N.B.: nesta cadeia, em que se repete o sintagma nominal definido a cidade, a sua iden-tificação terá normalmente sido dada no texto anterior ou é assumida como conheci-mento partilhado, salvo se se falar das cidades em termos genéricos.]

Dão-se agora exemplos de cadeias retrospectivas e prospectivas contendo pró-formas ou elementos nulos:

(11) Ontem, o Álvaro comprou um livro para a Ana. [ ] Ofereceu-lho hoje. cadeias retrospectivas:

1. [Álvaro] − [ ] 2. [um livro] − [o] 3. [a Ana] − [lhe]

(12) Embora isso não lhe agrade, a Cecília tenciona [ ] passar a vir mais cedo. cadeias prospectivas:

1. [isso] − [ [a Cecília] passar a vir mais cedo] 2. [lhe] − [a Cecília]

cadeia retrospectiva: 3. [a Cecília] − [ ]

(18)

4.2 PRÓ-FORMAS E ELEMENTOS NULOS

É importante a distinção entre pró-formas e elementos nulos.

PRÓ-FORMAS

Importa acentuar que estamos a considerar apenas um tipo de pró-formas, que são os vulgar-mente chamados pronomes pessoais. Não referiremos, pois, algumas outras subclasses do pronomes, por várias razões: nuns casos (dos pronomes relativos e os interrogativos), porque exibem características sintácticas muito distintas das dos pronomes pessoais; noutro caso (o dos chamados pronomes indefinidos), porque envolvem uma semântica muito própria que não interessa aqui ter em conta; finalmente, noutros ainda (os demonstrativos e os possessivos), sobretudo pela simplificação que resulta da restrição do campo de análise.

As pró-formas ditas pessoais podem ocorrer em cadeias referenciais com constituintes de dife-rentes categorias sintácticas, pelo que são elas próprias de difedife-rentes categorias (daí insistirmos em não lhes chamar apenas ‘pronomes’). Vejam-se exemplos:

(14) Quando o Luís entrou na sala, ficou espantado. Ele não esperava tanta gente. (PRÓ-SN) (15) Quando o Luís entrou na sala, a Ana foi abraçá-lo. (PRÓ-SN)

(16) Quando viu o Luís, a Ana abraçou-o. (PRÓ-SN)

(17) Quando viu o Luís, a Ana deu-lhe um abraço. (PRÓ-SN)

(18) A Vera disse que o director estava a ser desonesto; disse-o porque é corajosa. (PRÓ-F) (19) Penso que o Dinis não vem à reunião, mas isso não impede que trabalhemos. (PRÓ-F) (20) Se o Dinis é inteligente, a Joana não o é menos. (PRÓ-SA)

Vários autores têm considerado a construção fazer o mesmo como um pró-SV. Sem subscrever sem mais esta análise, apresentam-se apenas alguns exemplos:

(21) O Luís foi nadar para o lago e o Dinis fez o mesmo.

(22) Se o Filipe ofereceu flores à Ana, porque não o fez à Luísa?

(23) Se o Filipe ofereceu flores à Ana, porque não fez o mesmo {com/?a} a Luísa? (24) O Filipe ofereceu flores à Ana e o Dinis fez o mesmo à Luísa.

ELEMENTOS NULOS

Tal como as pró-formas, também os elementos nulos podem ocorrer em cadeias referenciais com constituintes de diferentes categorias:

(25) [SN O Dinis]i comprou um carro, mas [SN ]i não o pagou.

(26) É difícil [F' a Ana conseguir que o Luís venha à reunião]i, mas ela tem de tentar [F' ]i.

(19)

(28) [SN O Filipe]i [V deu]j um livro à Sofia e [SN ]i [V ]j um disco ao Paulo.

(29) [SN O Filipe]i [V deu]j [SN um livro]k à Sofia, mas [SN ]i não [V ]j [SN ]k à Ana.

(30) O Luís foi [SP à praia]i e a Ana também foi [SP ]i.

É importante acentuar que nem sempre é possível interpretar uma pró-forma ou um elemento nulo como sendo substituível sem mais pelo constituinte lexical com o qual se encontra em cadeia referencial.

(31) a. [SN O Paulo] viu-se no espelho.

b. [SN O Paulo] viu [SN o Paulo] no espelho.

(32) a. [SN Todos os estudantes] se inscreveram no curso de cinema.

b. [SN Todos os actores] inscreveram [SN todos os actores] no curso de cinema.

(33) a. [SN Alguns atletas] já estão a preparar-se para a prova.

b. [SN Alguns atletas] já estão a preparar [SN alguns atletas] para a prova.

É evidente que no primeiro par – (37a)/(37b) – as frases são equivalentes, mas que não o são nos restantes.

É ainda de notar que, em muitos casos, o constituinte lexical tem uma interpretação semântica diferente da que é atribuída à pró-forma ou ao elemento nulo. É o que se passa nos casos seguintes:

(34) Dois terços dos países da UE combinaram [ ] reduzir os seus impostos.

LEITURA COLECTIVA LEITURA DISTRIBUTIVA

(35) Quase todos os estudantes concordaram em se [ ] encontrarem amanhã

LEITURAS COLECTIVAS

para [ ] assinarem a proposta.

(20)

5

ANÁLISE DE ALGUNS TIPOS DE CADEIAS REFERENCIAIS

5.1 ANÁLISE DE CADEIAS REFERENCIAIS NORMAIS

Bibliografia específica

Dooley e Levinsohn 2001: 7-10.

Georgakopoulou e Goutsos 2004: 99 ss. Koch 2004: 36-39.

A.

(

Expresso,

PRIMEIRO CADERNO

, 24-11-2007, p. 44)

Se alguém apostasse, há quatro anos,

que Barroso e Sócrates estariam como ‘Deus com os anjos’,

muito amigos,

a celebrar o terceiro ano de mandato do presidente da CE,

seria considerado insano.

Mas a vida, sobretudo a vida política, dá muitas voltas

e é pródiga em surpresas.

A celebração de hoje

não significa que amanhã

não voltem a ser adversários ferozes.

(21)

Se [

1

alguém

1

] apostasse, há quatro anos,

que

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[

2

[

3

Barroso

3

] e Sócrates

2

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2

] como ‘Deus com os anjos’, [

2

] muito amigos,

a celebrar o terceiro ano de mandato d[

3

o presidente da CE

3

]

4

}

,

[

1

]seria considerado insano.

Mas [

5

a vida ], sobretudo a vida política, dá muitas voltas

e [

5

] é pródiga em surpresas.

{

6

[

4

A celebração de hoje

4

]

não significa que amanhã

[

2

] não voltem a ser adversários [

um do outro

]

ferozes.

6

}

(22)

B. FRAGMENTO DE TEXTO SOBRE O CINEASTA WERNER HERZOG

2

«Dificilmente se surpreende o bávaro que nasceu durante a guerra e se lembra

distinta-mente do bombardeamento de Rosenheim, em 1945, que fugiu de casa aos 14 anos e

fez, a pé, todo o caminho até à fronteira jugoslavo-albanesa, que aos 17 tentou começar

a filmar (um produtor acolheu favoravelmente um projecto, mas quando viu o miúdo

que lho enviara perguntou-lhe se o jardim de infância já queria fazer filmes) e que, aos

19, quase ia morrendo quando desceu o Sudão para entrar no Congo Belga e assistir à

pós-independência do território para que todo o mundo olhava. Foi depois dessa

aventu-ra que Werner Herzog conseguiu assinar o seu primeiro filme — Heaventu-rakles (1962) —,

financiado com poupanças de empregos vários, de recurso. E desde logo se tornou o seu

próprio produtor, uma prática que o cineasta advoga consistentemente.»

(

Expresso, Actual

, 2007-10-20, p. 14)

2 A análise e as notas que vêm nas três páginas seguintes tiveram o contributo de Telmo Móia, a quem

(23)

que [ ] nasceu durante a guerra e [ ] se lembra distintamente do bombardeamento

de Rosenheim, em 1945,

que [ ] fugiu de

(2)

casa

de

[ ] aos 14

(3)

anos e [ ] fez, a pé, todo o caminho

de

[ ]

até à fronteira jugoslavo-albanesa,

que aos 17 [ ] [ ] tentou [ ] começar a

(4)

filmar

(

(5)

um produtor

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acolheu favoravelmente

(6)

um projecto

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filmagem

de

[ ],

mas quando [ ] viu o miúdo

(1′′′′)

que [ ] lho enviara [ ] perguntou-lhe

se

(7)

o jardim de infância já queria [ ] fazer filmes)

e que, aos 19 [ ], [ ] quase ia morrendo

quando

(8)

[ ] desceu o Sudão para [ ] entrar n

(9)

o Congo Belga e [ ] assistir à pós-

-independência do território para

(9′′′′)

que todo o mundo olhava [

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Foi depois dessa aventura que

(10)

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E desde

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(12)

[ ] se tornou o seu próprio produtor,

(24)

Dificilmente se surpreende

[

1

o bávaro

[

1

que

1

] [

1

] nasceu durante a guerra e [

1

] se lembra distintamente do

bombar-deamento de Rosenheim, em 1945,

[

1

que

1

] [

1

] fugiu de [

2

casa

de

[

1

]

2

] aos 14 [

3

anos

3

] e [

1

] fez, a pé, todo o

caminho

de

[

2

] até à fronteira jugoslavo-albanesa,

[

1

que

1

] aos 17 [

3

] [

1

] tentou [

1

] começar a [

4

filmar

4

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5

um produtor

de

[

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filmes

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] acolheu favoravelmente

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6

um projecto

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filmagem

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mas quando [

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] viu [

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o miúdo [

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] enviara

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] perguntou-[

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se [

7

o jardim de infância

7

] já queria [

7

] fazer filmes)

e [

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que

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], aos 19 [

3

], [

1

] quase ia morrendo

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8

[

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] desceu o Sudão para [

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] entrar n[

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o Congo Belga

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] assistir à pós-independência

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território para [

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que

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] todo o mundo olhava

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Foi depois d[

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1

Werner Herzog

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] conseguiu [

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] assinar [

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o [

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seu] primeiro filme

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11

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(1962) –, [

11

] financiado

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1

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com poupanças de empregos

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1

] vários, de recurso

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E desde [

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] [

12

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1

] se tornou o [

1

seu próprio

1

] produtor

12

],

(25)

NOTAS

1. Colocaram-se em itálico, cortadas por uma linha horizontal, várias preposições não realiza-das, de modo a facilitar a identificação de expressões elididas: “casa de []”; “caminho de

[]”; “projecto de []”; “financiado por []”; “empregos de []”.

2. Há no texto cadeias retrospectivas (ou anafóricas) de diferentes tipos. Salientam-se as características especiais de três delas:

• a cadeia (4) envolve dois elementos nulos relacionados com a denotação de filmar, mas que não são formas verbais; para facilitar a interpretação, colocaram-se em itálico, cor-tadas por uma linha horizontal, expressões (nominais) que evidenciam essa relação: “produtor de filmes”; “projecto de filmagem”;

• a cadeia (10) associa a expressão logo ao tempo em que ocorre a situação descrita pela frase [Werner Herzog conseguiu assinar o seu primeiro filme – Herakles (1962) –, financiado com poupanças de empregos vários, de recurso] e não à situação em si mesma;

(26)

C. Novos dados de estudo sobre alimentação

Os dados do estudo confirmam o que já se sabia: são os mais jovens quem come

mais vezes bolos e bolachas, refrigerantes e sumos e comida rápida com molhos.

Nestes grupos de alimentos a ingestão vai diminuindo com a idade.

Os mais jovens analisados pelo estudo (que começa nos 18 anos) “têm um

compor-tamento alimentar que pode indiciar um risco de agravamento do excesso de peso

quando forem mais velhos”, alerta o nutricionista José Camolas (...). Este tipo de

consumo acontece mesmo em jovens com peso baixo e normal. Mesmo que a

inges-tão de comida hipercalórica não conduza, nesta faixa etária, ao excesso de peso, os

alimentos em causa representam “um comportamento de risco”. É na juventude que

se encontram tendencialmente os valores mais baixos de excesso de peso (19,2 por

cento) e obesidade (4,6 por cento), mas estes tendem a subir com a idade, à medida

que aumenta a probabilidade de hábitos mais sedentários de vida, conclui.

(27)

[

1

Novos dados de

[

2

estudo sobre alimentação

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1

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] começa nos 18 anos)

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o nutricionista José Camolas

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Este tipo de consumo

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acontece mesmo em [

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jovens

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] com peso baixo e normal.

Mesmo que a ingestão de comida hipercalórica não conduza, n[

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os alimentos em causa

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É na juventude que se encontram tendencialmente [

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os valores mais baixos de

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10

estes

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] tendem a subir com a idade

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…], à medida que aumenta

(28)

TEXTOS PARA TREINO

D. Fernando Madrinha, “No metro de Barcelona”,

Expresso

, 27-10-2007

«As imagens foram registadas pelas câmaras do Metro de Barcelona e as televisões deram-lhes a justa e justificadíssima divulgação. Um 'cabeça-rapada' entra numa carruagem falando aos gritos pelo telemóvel, senta-se pesadamente num banco, atirando os pés para o banco da frente, como se estivesse em casa e fosse o dono do mundo. Levanta-se de súbito e, sempre ao tele-móvel, agride repetidamente uma jovem sentada ali perto. Primeiro à bofetada, por fim a pon-tapé. As câmaras mostram-no depois, saciado o ódio racista, a sair calmamente da carruagem, sempre ao telemóvel, como se nada se tivesse passado. Como se as agressões que acabava de cometer contra a rapariga equatoriana fossem gestos naturais em si, mil vezes repetidos impu-nemente, sem resposta nem consequências.

Indefesa, a rapariga. E só. Tão só que a sua solidão nos impressiona e repugna tanto como a própria agressão de que estava a ser vítima. Naquela carruagem, não se viu um gesto nem um protesto, não se ouviu um grito nem um alerta. Todos os passageiros continuaram placidamente sentados e tranquilos nos seus lugares, sem que aquela agressão parecesse violentar a sua cons-ciência, ou ofender a sua humanidade. Nenhum deles se sentiu obrigado a intervir, a dizer uma palavra ou a esboçar um movimento que fosse para travar o canalha, que mais tarde se descul-pou com a bebedeira e que a polícia acabou por mandar em paz. Assim ficou o crime uma vez mais sem castigo e se reforçou o sentimento de impunidade dos delinquentes racistas que, aliás, não são apenas brancos, como sabemos bem.

Cenas como a do Metro de Barcelona nem sempre chegam às televisões, mas são cada vez mais frequentes nas cidades da velha Europa. 'Cabeças-rapadas' e marginais de várias espécies mascarados de nacionalistas multiplicam-se e exibem-se com descaramento cada vez maior. Partidos da extrema-direita racista e xenófoba ganham força um pouco por todo o lado, em especial no Leste Europeu. E na muito neutral e asséptica Suíça, um desses partidos acaba mesmo de ganhar as eleições legislativas.

(29)

E. Mário Crespo, “In Memoriam”,

Expresso

,

Única

, 04-08-2007

3

«APAIXONEI-ME por ela logo que a vi. Depois foram anos de ternuras, irritações, grande paródia e angústias. Era leviana. Um Verão esteve fora de casa um mês. Voltou de noite, faminta, e a lamuriar-se do que tinha passado. À medida que íamos envelhecendo, eu comecei a levantar-me mais vezes de noite e ela começou a ter o sono mais leve. Eu acho que era de propósito que ela me fazia tropeçar nas escadas, na penumbra doméstica de noites em claro em que se julga que se vê tudo e não se vê nada. Eu praguejava e ela, como sempre, conseguia de mim indulgência instantânea com os olhos enormes, profundíssimos, numas feições minucio-sas de uma perfeição que parecia irreal. Era muito bela. Tinha uma tolerância imensa para com as tropelias que eu lhe fazia. Uma vez tentei atrelar-lhe uma carrocinha de brinquedo. Ficou imóvel, esfíngica de ultraje, no meio do chão da sala. Soltei-a e, como sempre nestes confron-tos, ela disparou escada acima num prodígio de velocidade e tornou-se invisível. As represálias vinham logo a seguir. Num corredor materializava-se como que por artes diabólicas à minha frente, num ataque fulminante. Depois veio a terrível consciência de que para ela eu, não sendo Deus, era provavelmente um deus. Era infinitamente maior e viveria uma eternidade mais que ela. O preço da ilusão de omnipotência era decidir quando é que tinha chegado a altura de parar de vez com as traquinices, emboscadas, batalhas e carícias. A altura chegou. Em três ou quatro semanas a aparência sedosa muito brilhante passou a um opaco sujo. A maravilhosa agilidade suportada por um corpo perfeito e uma musculatura admirável esvaiu-se e ela ficou um embru-lhinho de pele e osso. Só os grandes olhos, maiores ainda, continuavam a olhar-me com um milhão de perguntas. Foi tão pouco tempo desde o primeiro instante em que a vi, e no entanto tínhamos envelhecido os dois. Como deus menor que sou levei tempo demais a decidir. «Para eles será como adormecer» disseram-me, mas eu exerci o direito divino de mais uma noite de tentativas porque, por adormecer que fosse, desta vez eu sabia que não haveria acordar, não haveria o bocejar matinal nem eu a sacudiria de cima do meu lado da cama para receber em resposta um olhar diabolicamente belo de desdém absoluto. No fim, não tive que decidir. Cha-mou-nos duas vezes numa voz nova que nunca tínhamos ouvido (que disparate, eles não falam) e entre ecografias e soro intravenoso disse-nos adeus a todos. Não sei se nos veremos outra vez, deuses menores não sabem essas coisas. Mas tenho uma certeza. Gostámos um do outro tanto quanto é possível uma gata gostar de um homem. No nosso caso talvez tenhamos gostado um bocadinho mais.»

(30)

5.2 ANÁLISE DE CADEIAS REFERENCIAIS PROBLEMÁTICAS

5.2.1 Ausência de pró-forma

764 “Bastante pior que o anterior, este programa segue, todavia, os moldes do anterior.” (Diário de Lisboa, 06-06-1990, p. 32)

933 “Existe agora uma lista familiar de queixas europeias contra a política americana que inclui, embora não se limite, a retirada da administração Bush do Protocolo de Kyoto (…).” (Tradução de texto de Francis Fukuyama, Público, 20-08-2002, p.9)

673 “Diversos deputados (...) referiram que a reacção do ministro foi pouco clara quanto à defesa do seu secretário de Estado. Mas que, possivelmente, porque não ouvira os ataques dos populares.” (Público, 11-07-1997, p. 5)

5.2.2 Problemas de estrutura argumental ou de caso

495 “A pouca simpatia que os da situação lhe nutriam impediu-lhe uma carreira clínica normal e foi assim que ele entrou no mundo dos negócios (...).”

(O Jornal, 02-08-1991, p. 21)

493 “O caso mais insólito que conhecemos é o de um homem de 52 anos que recentemente encontrou uma carta de um amigo, escrita em 1961, desde então esquecida no fundo de uma gaveta. E apressou-se a respondê-la, dando-lhe as informações que o amigo pedia, sobre o paradeiro de algumas namoradas.” (O Jornal Ilustrado, 23-08-1991, p. 20)

126 “Mas em qualquer dos casos, só tem de ligar para lá – se for necessário registo, sê-lo-á pedido no momento da sua ligação.” (Público, 19-12-1994, p. XVIII)

5.2.3 Adição de pró-forma em estruturas tipicamente elípticas

124 “Finalmente, as jovens de hoje são mais realistas e cínicas do que nós o éramos na juventude.” (Público, 03-08-2001, p. 9)

127b “Três anos depois, Melancia foi absolvido, como não poderia deixar de sê-lo.” (Público, 06-08-1993, p. 15)

5.2.4 Adição de pró-forma com redundância de argumentos

«Factura Electrónica / quarta-feira, 20 de Abril de 2005

(31)

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anto bastou que o Governo anunciasse o lançamento de alguns grandes projectos de infra-estruturas para que surgissem, como cogumelos após as primeiras chuvas de Outono, os artigos de opinião contra aquilo que já se tornou comum apelidar política do betão.» (Expresso,ECONOMIA, 24-05-2008, p.29)

5.2.5 Ausência de antecedente

5.2.5.1 Elementos de tipo retrospectivo (ou anafórico) sem antecedente

“Nos últimos dias, a irresponsabilidade e a falta de sentido de Estado tomou conta de vários políticos. Fragilizar o supervisor do sistema financeiro na situação actual é a pior coisa que se pode fazer. Mas fazê-lo deixando a pairar a ideia de que a culpa é do supervi-sor e não de quem cometeu actos lesivos é errar completamente o alvo e só pode decorrer de quem põe a luta política acima dos interesses do Estado ou utiliza o facto para se conti-nuar a vingar do governador, por supostas afrontas no passado”

(Expresso, Economia, 25-10-2008, p.11)

1146 “Hoje é Dia Mundial da Poupança e se ainda não tem esse hábito deve começar já a fazê-lo.” (Público, Economia, 31-10-2008, p. 10)

5.2.5.2 Pronominalização de particípio passivo ou de predicativo do sujeito

não realizado

654 “José Afonso Pimentel pensa que trabalho infantil está conotado com «exploração» e nunca sentiu que o estivesse a ser. Das filmagens só guarda memórias boas.”

(Público, 22-07-1997, p. 37)

772 “É possível que a SIC ou Albarran, ou os dois tenham infringido regras de decência. Se assim foi, espera-se que corrijam o que deve sê-lo.” (Público, 23-02-1997, p. 9)

354 “Ministro alega segredo de justiça

Tal tese não foi acolhida pelos parlamentares, que consideram estar-se, sim, perante uma tentativa de sonegar informações aos parlamentares, informações estas que não podem cair sobre a alçada da figura do segredo de justiça, pois se o fossem também o ministro não poderia ter acesso a essas.” (Diário de Notícias, 16-05-1991, p. 3)

[NB: problema também com o segundo demonstrativo.]

5.2.5.3 Aposto nominal sem antecedente

245 “O Governo filipino apresentou ontem queixa contra Imelda Marcos, mulher do ex-ditador Ferdinando Marcos, por fraude fiscal, preparando assim o julgamento da viúva do falecido presidente para quando esta regressar ao país, autorização que lhe acaba de ser concedida e que vai ao encontro dos seus reiterados pedido nesse sentido.”

(32)

5.2.6 Incompatibilidade entre os elementos da cadeia referencial

5.2.6.1 Antecedente proposicional e pró-forma nominal

616 “A partir de hoje, se é um dos 200 milhões de falantes do português que existem em todo o mundo, vai poder ter a sua página na WWW sem pagar nada por isso. Quem o ofe-rece é a Iniciativa Mosaico, do Ministério da Cultura, através do projecto Terràvista (...).”

5.2.6.2 Antecedente proposicional e pró-forma nominal

+ ausência de antecedente

768 “Eis um recado para os PALOP: se quiserem dialogar na língua portuguesa (o que não existe), urge fazer com que a alfabetização – alargada a toda a população – se torne num exercício do mesmo (refiro-me ao diálogo), pelo qual a realidade social é descodificada com o fim de revelar, claramente, o empenhamento da palavra na infra-estrutura do poder político.” (Público, 29-09-1991, p. 23)

5.2.6.3 Antecedente nominal e pró-forma proposicional

765 “O Governo regional da Madeira apreciou ontem uma proposta de decreto legislativo regional que possibilita a reforma antecipada aos agentes e funcionários da administração pública que o pretendam fazer.” (Público, 09-07-1994, p. 24)

1145 “Estas são as questões essenciais a que José Sócrates tem de responder e que, salvo melhor opinião, ainda não vi que tenha feito satisfatoriamente.”

(Expresso, PRIMEIRO CADERNO, 30-01-2009, p. 33)

5.2.6.4 Antecedente adjectival e pró-forma adverbial

842 “Para o antigo ditador, o assunto era político e assim o tratou, de 1946 a 1958 (...).” (Público, 09-04-1997, p. 20)

5.2.7 Intercalações com pró-formas prospectivas problemáticas

689 “Um dos fenómenos mais curiosos surgidos nos últimos tempos entre nós é o que diz respeito ao sucesso. A estratégia montada à sua volta está a imergir-nos, fascinando uns, inquietando outros. Cavaco Silva tornou-se – e chegou a dar-lhe, na campanha eleitoral, dimensões de mito – o seu maior profeta; metade dos portugueses, sobretudo os mais jovens, comungaram-no.” (Público, Fim-de-Semana, 11-10-1991, p. 3)

(33)

6

REFERÊNCIA INDETERMINADA E VERBOS PRONOMINAIS

A presente secção visa chamar a atenção para um tipo muito particular de cadeias referen-ciais, que parecem suscitar especiais dificuldades de construção. Trata-se de cadeias que envolvem marcadores de referência indeterminada (isto é, expressões ou formas grama-ticais que permitem que, em vez de se referirem entidades concretas, se mantenham inde-terminadas – ou incertas – as entidades envolvidas no significado de uma predicação), especialmente quando nessas cadeias estão envolvidos verbos pronominais.

Para que se possam analisar cadeias referenciais que envolvem referência indeterminada e verbos pronominais, impõe-se primeiro clarificar os dois conceitos em causa, o que será feito em 6.1 e 6.2, respectivamente.

6.1 A EXPRESSÃO DA REFERÊNCIA INDETERMINADA

Em geral, as gramáticas apenas mencionam a referência indeterminada associada à função sintáctica de sujeito. Contudo, os SUJEITOS INDETERMINADOS constituem apenas uma ins-tância das construções de REFERÊNCIA INDETERMINADA.

6.1.1 Referência indeterminada por meio de pessoas gramaticais

Primeira ou segunda pessoa do singular SÓ PRIMEIRA PESSOA

(36) A galinha da[ ] vizinha é sempre melhor do que a minha. (37) [ ] Devagar, que tenho pressa ([ ]).

(38) Antes burro que me leve do que cavalo que me derrube.

SÓ SEGUNDA PESSOA

(39) Chega-te aos bons e serás como eles. (40) Entre marido e mulher, não metas a colher.

(41) Filho és, pai serás, assim como fizeres [ ], assim acharás [ ]. (42) Guarda o que não presta, terás o que é preciso [ ].

(43) Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. (44) Não guardes para amanhã o que podes fazer hoje. (45) Quem te avisa [ ] teu amigo é.

(46) 1148 “Gosto daquelas canções em que, se estiveres de olhos fechados e minima-mente concentrado, vês todo o filme desenrolar-se à tua frente.”

(Sean Riley, Público, Ípsilon, 22-05-2009, p. 26)

PRIMEIRA E SEGUNDA PESSOAS

(47) Ajuda-me [ ], que eu te ajudarei [ ].

(48) Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.

Primeira pessoa do plural

(49) Se trabalhamos, merecemos um salário.

(50) Se não pagamos impostos, não temos direito a exigir benefícios. (51) Se queremos ser respeitados, temos de respeitar.

Terceira pessoa do plural

(52) Dizem para aí que os impostos vão subir.

(53) Contam que em tempos houve aqui um teatro romano. (54) Tiraram daqui a paragem de autocarro.

Referências

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