Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 854.942 - RJ (2006/0135894-6)
RELATOR : MINISTRO TEORI ALBINO ZAVASCKI
RECORRENTE : ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS
ADVOGADO : WILLIAM FIGUEIREDO DE OLIVEIRA E OUTROS RECORRIDO : MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : LÊO BOSCO GRIGG PEDROSA E OUTROS
EMENTA
PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. ART. 526 DO CPC. SÚMULA 07/STJ. AÇÃO DECLARATÓRIA C/C ANULATÓRIA DE DÉBITO FISCAL PROPOSTA DURANTE A TRAMITAÇÃO DE EXECUÇÃO FISCAL. POSSIBILIDADE, QUANDO A AÇÃO AUTÔNOMA, DESACOMPANHADA DO DEPÓSITO, NÃO PRETENDE A SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO EXEQÜENDO.
1. É vedado o reexame de matéria fático-probatória em sede de recurso especial, a teor do que prescreve a Súmula 7 desta Corte.
2. Se é certo que a propositura de qualquer ação relativa ao débito constante do título não inibe o direito do credor de promover-lhe a execução (CPC, art. 585, § 1º), o inverso também é verdadeiro: o ajuizamento da ação executiva não impede que o devedor exerça o direito constitucional de ação para ver declarada a nulidade do título ou a inexistência da obrigação, seja por meio de embargos (CPC, art. 736), seja por outra ação declaratória ou desconstitutiva.
3. Para dar à ação declaratória ou anulatória anterior o tratamento que daria à ação de embargos, no tocante ao efeito suspensivo da execução, é necessário que o juízo esteja garantido.
4. Entre ação de execução e outra ação que se oponha ou possa comprometer os atos executivos, não há prejudicialidade, mas evidente laço de conexão (CPC, art. 103), a determinar, em nome da segurança jurídica e da economia processual, a reunião dos processos, prorrogando-se a competência do juiz que despachou em primeiro lugar (CPC, art. 106). Nesse sentido: REsp 557.080/DF, 1ª T., de minha relatoria, DJ de 07/03/2005; REsp 887607/SC, 2ª T., Ministra Eliana Calmon, DJ de 15.12.2006; REsp 747389/RS, 2ª T., Min. Castro Meira, DJ de 19/09/2005; REsp 834.028/RS, 1ª T., Ministro José Delgado, DJ de 30/6/06.
5. Na hipótese dos autos, em que a recorrente ajuizou ação declaratória de inexistência de relação jurídico-tributária cumulada com anulatória de débito fiscal sem qualquer pretensão de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, deve ser respeitado seu direito subjetivo de ação, razão pela qual o acórdão que determinou a extinção do processo sem resolução do mérito merece reforma.
Superior Tribunal de Justiça
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Egrégia Primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, conhecer parcialmente do recurso especial e, nessa parte, dar-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Denise Arruda, Francisco Falcão e Luiz Fux votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, ocasionalmente, o Sr. Ministro José Delgado.
Assisitu ao julgamento a Dra FLAVIA PICCOLO BRANDÃO pela parte recorrente: ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS.
Brasília, 1º de março de 2007.
MINISTRO TEORI ALBINO ZAVASCKI Relator
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 854.942 - RJ (2006/0135894-6)
RECORRENTE : ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS
ADVOGADO : WILLIAM FIGUEIREDO DE OLIVEIRA E OUTROS RECORRIDO : MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : LÊO BOSCO GRIGG PEDROSA E OUTROS
RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO TEORI ALBINO ZAVASCKI (Relator):
Trata-se de recurso especial em face de acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro que, em ação declaratória de inexistência de relação jurídico-tributária cumulada com anulatória de débito fiscal, deu provimento a agravo de instrumento interposto contra decisão que rejeitou o pedido de extinção do processo sem resolução do mérito, decidindo que (a) a agravante cumpriu o disposto no art. 526 do CPC e (b) pendentes execuções fiscais visando à cobrança de crédito tributário, não pode o contribuinte ajuizar ação anulatória de débito fiscal, pois os embargos cumprem os desígnios da ação autônoma.
Opostos embargos de declaração (fls. 59-61) para provocar a manifestação do Tribunal a respeito do descumprimento do art. 526 do CPC, restaram desprovidos, ao argumento de que tal formalidade foi atendida, conforme assinalado no julgado embargado.
No recurso especial (fls. 79-89), fundado na alínea a do permissivo constitucional, a recorrente aponta violação aos seguintes dispositivos: (a) art. 526 do CPC, pois o agravante não cumpriu o encargo previsto no referido artigo, e (b) art. 16, § 1º, da Lei 6.830/80, porquanto o ajuizamento de ação declaratória de imunidade tributária cumulada com ação anulatória de débito fiscal após o ajuizamento de execução fiscal relativa ao mesmo débito não implica burla à norma que prevê a garantia do juízo como pressuposto dos embargos à execução, pois a ação autônoma proposta não visa à suspensão da execução fiscal ou a impedir a penhora de bens, efeitos decorrentes da oposição dos embargos do devedor.
Apresentadas contra-razões (fls. 115-121), o recorrido alega, preliminarmente, a incidência da Súmula 07/STJ e a ausência de prequestionamento. No mérito, pugna pela manutenção do julgado.
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 854.942 - RJ (2006/0135894-6)
RELATOR : MINISTRO TEORI ALBINO ZAVASCKI
RECORRENTE : ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS
ADVOGADO : WILLIAM FIGUEIREDO DE OLIVEIRA E OUTROS RECORRIDO : MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : LÊO BOSCO GRIGG PEDROSA E OUTROS
EMENTA
PROCESSUAL CIVIL. TRIBUTÁRIO. ART. 526 DO CPC. SÚMULA 07/STJ. AÇÃO DECLARATÓRIA C/C ANULATÓRIA DE DÉBITO FISCAL PROPOSTA DURANTE A TRAMITAÇÃO DE EXECUÇÃO FISCAL. POSSIBILIDADE, QUANDO A AÇÃO AUTÔNOMA, DESACOMPANHADA DO DEPÓSITO, NÃO PRETENDE A SUSPENSÃO DA EXIGIBILIDADE DO CRÉDITO EXEQÜENDO.
1. É vedado o reexame de matéria fático-probatória em sede de recurso especial, a teor do que prescreve a Súmula 7 desta Corte.
2. Se é certo que a propositura de qualquer ação relativa ao débito constante do título não inibe o direito do credor de promover-lhe a execução (CPC, art. 585, § 1º), o inverso também é verdadeiro: o ajuizamento da ação executiva não impede que o devedor exerça o direito constitucional de ação para ver declarada a nulidade do título ou a inexistência da obrigação, seja por meio de embargos (CPC, art. 736), seja por outra ação declaratória ou desconstitutiva.
3. Para dar à ação declaratória ou anulatória anterior o tratamento que daria à ação de embargos, no tocante ao efeito suspensivo da execução, é necessário que o juízo esteja garantido.
4. Entre ação de execução e outra ação que se oponha ou possa comprometer os atos executivos, não há prejudicialidade, mas evidente laço de conexão (CPC, art. 103), a determinar, em nome da segurança jurídica e da economia processual, a reunião dos processos, prorrogando-se a competência do juiz que despachou em primeiro lugar (CPC, art. 106). Nesse sentido: REsp 557.080/DF, 1ª T., de minha relatoria, DJ de 07/03/2005; REsp 887607/SC, 2ª T., Ministra Eliana Calmon, DJ de 15.12.2006; REsp 747389/RS, 2ª T., Min. Castro Meira, DJ de 19/09/2005; REsp 834.028/RS, 1ª T., Ministro José Delgado, DJ de 30/6/06.
5. Na hipótese dos autos, em que a recorrente ajuizou ação declaratória de inexistência de relação jurídico-tributária cumulada com anulatória de débito fiscal sem qualquer pretensão de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, deve ser respeitado seu direito subjetivo de ação, razão pela qual o acórdão que determinou a extinção do processo sem resolução do mérito merece reforma.
6. Recurso especial parcialmente conhecido e, nesta parte, provido.
VOTO
Superior Tribunal de Justiça
1. Não merece prosperar a alegação de ausência de prequestionamento, uma vez que o acórdão recorrido emitiu juízo sobre os dispositivos apontados como violados.
2. No tocante à apontada violação ao art. 526 do CPC, o recurso não merece ser conhecido. O Tribunal entendeu que "o recurso atende aos requisitos dispostos nos arts. 524 e 526 do CPC, merecendo conhecimento" (fl. 55). A recorrente, porém, sustenta que restou comprovado que o agravante não cumpriu o encargo previsto no dispositivo. Ocorre que, para a verificação do respeito ao dispositivo legal que estabelece a obrigatoriedade do requerimento de juntada aos autos principais, em três dias, da cópia da petição do agravo de instrumento e do comprovante de sua interposição, necessário o revolvimento de matéria fático-probatória, o que não se admite no âmbito do recurso especial, a teor da Súmula 07/STJ.
3. Quanto ao mérito, assim me manifestei nos autos do REsp 677741/RS, 1ª T., de minha relatoria, DJ de 07.03.2005, tendo decidido, no que importa ao presente recurso, o seguinte:
"1. Se é certo que a propositura de qualquer ação relativa ao débito constante do título não inibe o direito do credor de promover-lhe a execução (CPC, art. 585, § 1º), o inverso também é verdadeiro: o ajuizamento da ação executiva não impede que o devedor exerça o direito constitucional de ação para ver declarada a nulidade do título ou a inexistência da obrigação. O meio típico de que dispõe para isso é a ação de embargos do devedor (CPC, art. 736), que, proposta na devida oportunidade (CPC, art. 738) e, se for o caso, com garantia do juízo (CPC, art. 737), tem a eficácia de suspender os atos executivos até o seu julgamento (CPC, art. 739, § 1º). Todavia, o prazo para embargar não é decadencial, a não ser no que se refere ao direito de suspender a execução. Assim, não tendo sido proposta a ação de embargos ou tendo sido o respectivo processo extinto sem julgamento de mérito, nada impede que o devedor intente outra ação cognitiva com aquele mesmo propósito, embora sem a eficácia de suspender a ação executiva, cujos atos podem ser paralelamente praticados. Da mesma forma e pelas mesmas razões, nada impede que o devedor se antecipe à execução e promova, em caráter preventivo, pedido de nulidade do título ou a declaração de inexistência da relação obrigacional. Ações dessa espécie têm natureza idêntica à dos embargos do devedor, e quando os antecedem, substituem os embargos, já que repetir seus fundamentos e causa de pedir importaria litispendência.
Ocorre que, para dar à ação declaratória ou anulatória anterior o tratamento que daria à ação de embargos, no tocante ao efeito suspensivo da execução, é necessário que, da mesma forma, o juízo da execução esteja garantido.
Inexistindo nos autos qualquer demonstração de que o juízo da execução encontra-se garantido - ao contrário, defende o recorrente, no agravo de instrumento em que foi prolatado o acórdão recorrido, ser desnecessário o depósito do valor do débito para que haja sua discussão em juízo (fl. 08) - é inviável o acolhimento do pedido de suspensão da execução fiscal até o final julgamento da ação anulatória do débito. 2. Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial. É o voto."
Esclareço que,entre ação de execução e outra ação que se oponha ou possa comprometer os atos executivos, não há prejudicialidade, mas evidente laço de conexão (CPC, art. 103), a determinar, em nome da segurança jurídica e da economia processual, a reunião dos processos, prorrogando-se a competência do juiz que despachou em primeiro lugar (CPC, art. 106). Nesse sentido: REsp 557.080/DF, 1ª T., de minha relatoria, DJ de 07/03/2005; REsp 887607/SC, 2ª T., Ministra Eliana Calmon, DJ de 15.12.2006; REsp 747389/RS, 2ª T., Min. Castro Meira, DJ de
Superior Tribunal de Justiça
19/09/2005; REsp 834.028/RS, 1ª T., Ministro José Delgado, DJ de 30/6/06.
4. Na hipótese dos autos, em que a recorrente ajuizou ação declaratória de inexistência de relação jurídico-tributária cumulada com anulatória de débito fiscal sem qualquer pretensão de suspensão da exigibilidade do crédito tributário objeto de execução fiscal em curso, deve ser respeitado seu direito subjetivo de ação, razão pela qual o acórdão que determinou a extinção do processo sem resolução do mérito merece reforma.
5. Ante o exposto, conheço em parte do recurso especial e dou-lhe provimento para restabelecer a decisão agravada. É o voto.
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTOPRIMEIRA TURMA
Número Registro: 2006/0135894-6 REsp 854942 / RJ
Números Origem: 20020011364224 200300218923 200513507093
PAUTA: 01/03/2007 JULGADO: 01/03/2007
Relator
Exmo. Sr. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JOSÉ EDUARDO DE SANTANA Secretária
Bela. MARIA DO SOCORRO MELO
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS
ADVOGADO : WILLIAM FIGUEIREDO DE OLIVEIRA E OUTROS
RECORRIDO : MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO
PROCURADOR : LÊO BOSCO GRIGG PEDROSA E OUTROS
ASSUNTO: Tributário - IPTU - Imposto Predial Territorial Urbano
SUSTENTAÇÃO ORAL
Assisitu ao julgamento a Dra FLAVIA PICCOLO BRANDÃO pela parte recorrente: ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS.
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia PRIMEIRA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
A Turma, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso especial e, nessa parte, deu-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Os Srs. Ministros Denise Arruda, Francisco Falcão e Luiz Fux votaram com o Sr. Ministro Relator.
Ausente, ocasionalmente, o Sr. Ministro José Delgado.
Brasília, 01 de março de 2007
MARIA DO SOCORRO MELO Secretária