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O Cavaleiro de Altex

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Academic year: 2022

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O CAVALEIRO DE ALTEX

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O CAVALEIRO DE ALTEX Ficção - Escrito em 1990 Revisado em 2007

Rio de Janeiro / Brasil

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Desejo a todos que até esse momento ainda não tenham conseguido alcançar o que tanto procuram, possam encontrar em “O Cavaleiro de Altex” o caminho certo para seu equilíbrio e sua felicidade.

Todo ser humano deveria se dedicar desde cedo com mais seriedade às causas divinas, que na verdade não são de Deus, mas sim suas próprias. Pensando nisso, procurei com dedicação e carinho encontrar a forma mais simples de tocar o seu coração. Portanto, espero que “O Cavaleiro de Altex”, além de entretenimento, seja também um divisor de águas em sua vida.

Não tenha pressa em terminar sua leitura e guardar o livro.

Leia com atenção, e se for preciso releia-o. Posso garantir que

descobrirá em alguma dessas páginas o alívio necessário para

sua caminhada. Ao terminar, comente com seu irmão, amigo

e vizinho sobre tudo o que aqui foi alertado. Não se furte de

rever seus conceitos de vida, e se necessário for, reformule-

os.

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Dedicado a

Yvette da Cunha Pinhão (madrinha/mãe) Maria de Mendonça Gonçalves (sogra) Em memória

Agradecimentos À Deus

Ao Dr. Pedro André Alves pelas orientações específicas.

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PRÓLOGO

Não dá para precisar ao certo se ele sempre foi assim, mas a verdade é que, de um tempo para cá ficou notório que Kleber se tornara um cético, pelo menos é o que acham seus irmãos Flávio e Paulo. Desde então, para todos que dele se achegam e tentam trazê-lo à realidade lhe falando ou perguntando sobre religião, diz: “Eu me encontro muito acima dessas coisas. Tudo isso que há por aí não dá para acreditar. Sendo assim, o melhor é não perdermos tempo”.

Logo após esse jargão, ele desconversa e muda de assunto não deixando margem para qualquer debate sobre esse tema.

Sua posição chega além, pois impõe algumas ressalvas com relação a Deus.

Poucas também foram às vezes que Kleber de Freitas dedicou o seu tempo à leitura de um livro, seja de ficção ou romance, entretanto, sem entender muito bem, viu-se entrando numa livraria no centro da cidade e surpreendeu-se olhando com atenção os exemplares que ali estavam expostos. Chegou até a examinar alguns livros que lhe chamaram atenção manuseando-os. Porém, como não tinha o hábito daquele tipo de leitura, encontrava-se meio perdido, resolvera ir embora desistindo assim da compra. Já estava quase saindo da loja quando foi abordado pelo vendedor. Um rapaz de boa aparência e olhar vivo.

- Gostaria de adquirir um bom livro, senhor?

- Sim, mas estou na dúvida do que ler. Tem algum livro que

possa arriscar uma indicação?

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- Claro! Veja esse aqui, por exemplo. Está sendo muito procurado.

- Vocês vendedores são todos iguais, para vender fazem e dizem de tudo.

- Nada disso senhor, repare bem; não estou indicando pelo simples fato de querer vender mais um livro.

- Não? E por qual razão então?

- Trata-se de um lançamento atualíssimo e já está na terceira edição.

- Desculpe, mas isso não quer dizer nada, tem propaganda que induz as pessoas a comprarem e nem sempre se adquire algo bom.

- O que posso garantir-lhe é que, quando esse título chega à loja, logo acabam e não tenho conhecimento de nenhuma propaganda sobre este livro. Mas fique a vontade quanto à escolha.

- Deixa-me ver: “O Cavaleiro de Altex”. Hum! Pelo título parece ser interessante. É sobre a Idade Média?

- Não tem nada há ver com essa época.

- Pode me adiantar sobre o tema?

- Prefiro não dizer. Posso sem querer dissuadi-lo da leitura.

O melhor é que descubra por si mesmo, embora não me furto de lhe assegurar ser um excelente livro.

- Está bem, vou levá-lo.

- Garanto que o senhor não vai se arrepender.

- Se o livro for tão bom quanto você é vendedor, estarei bem servido.

- Ótimo! Mais algum em especial?

- Não se entusiasme tanto com o meu elogio, é só esse

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mesmo. Obrigado.

Kleber pagou o livro e na saída ouviu o rapaz deixando o convite em aberto.

- Volte sempre que estarei às ordens, senhor.

- Se a leitura realmente me agradar, com certeza você terá mais um cliente.

Ao chegar em casa com aquele livro, logo despertou atenção fazendo com que seus filhos se entreolhassem. Sua esposa, conhecendo-o há tantos anos, ficou intrigada com aquela aquisição. Enquanto ele tomava banho, Janaína não se conteve e ao fazer um rápido folheado no livro percebeu tratar-se de literatura mística. Resolveu não falar nada e observar o comportamento do seu marido quando ele descobrisse sobre o tema tratado na leitura, algo que ele tinha abominação.

Kleber, sempre sistemático, nesse mesmo dia quebrou sua rotina e começou a ler seu novo livro logo após o jantar, deixando de lado seu precioso computador. Repetindo este ato nos dias que se seguiram.

***

O ser humano tecnologicamente conseguiu evoluir rápido e

assustadoramente. Quanto a isso não há o que se negar,

entretanto por outro lado, mesmo alcançando a tão sonhada

evolução, embruteceu e está muito próximo do estagio inicial

de sua existência. – A selvageria – Basta para isso observar a

nossa volta, que temos a comprovação dessa afirmativa. Não

existem mais respeito nem solidariedade dentro das próprias

famílias. Somos medidos pelo que temos não pelo que somos.

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Com o crescente desrespeito ao próximo e a falta de humanidade, a vida perdeu o valor e mata-se por qualquer motivo. O culto a diversas divindades em algumas regiões, a proliferação de igrejas interessadas somente em crescer materialmente e os conflitos políticos religiosos são acontecimentos que complementam aquela afirmação e dão mostra da falência universal humana. O mais preocupante e entristecedor, salvo algumas exceções, é que não se tem conhecimento de nenhuma iniciativa no sentido de reverter esse quadro.

Paralelo a tudo isso, nos últimos dez anos, vários são os sinais que vêm acontecendo ao redor da terra, cada vez mais devastadores. Sinais do tipo: furacões, inundações, mudança de temperaturas, terremotos, derretimento das geleiras, maremotos e a desertificação de grandes áreas, além de outras situações tão importantes quanto, e de total conhecimento nosso. Todo esse conjunto indica que o planeta está num processo avançado degenerativo e entrando em colapso tanto na parte material como na espiritual.

Embora haja várias reuniões no sentido de minimizar essas

distorções, onde cientistas que estudam tais fenômenos

alertam para o perigo e mesmo contando com o esforço de

alguns chefes de estado na procura da solução para o

problema, a grande maioria dos responsáveis por tudo, e que

representam uma pequena parte da humanidade, teima em

ignorá-los e não dá a verdadeira atenção a eles. Continuando

com a pesca predatória, alimentando a destruição

indiscriminada do meio ambiente, poluindo e desmatando

áreas enormes, contribuindo dessa forma para acabar com os

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mananciais hídricos em regiões antes ricas desse elemento.

Devido à ganância excessiva e ao crescente egoísmo, as grandes Nações junto com suas mega empresas, esquecem e condenam milhões de seres humanos a viverem na miséria absoluta, sem qualquer direito ou esperança de uma vida melhor, afastando-se dessa forma cada vez mais da essência Divina.

Distanciam-se da paz como se ela não fosse essencial à existência humana e encontram-se perdidos em lutas desnecessárias em vários locais no planeta, ora para defender interesses ou apropriar-se de locais produtivos, ora pela simples expansão territorial, ora em nome de um Deus que julgam ser o melhor e mais poderoso ou simplesmente por achar que a sua ideologia seja a mais correta. Na verdade, escondem seus interesses de ordem lucrativa, que com certeza nada acrescentam ao crescimento espiritual. Sem se darem conta os homens caminham a passos largos para um conflito de proporções mundiais que provavelmente não conseguirão evitar, e muito menos controlar, levando dessa forma a destruição total do planeta.

Neste ano de 2019, durante alguns dias, o mundo toma conhecimento e participa de incidentes paranormais que vêm acontecendo nos locais sagrados onde sempre são realizadas grandes peregrinações de fiéis. Esses acontecimentos estão sendo estudados e documentados por cientistas de renome e paralelamente acompanhados com muita atenção por vários religiosos interessados em desvendar tais mistérios.

Os registros como não podiam deixar de ser, estão a cargo

da mídia mundial sendo divulgados nos jornais, revistas, TV

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a cabo, Internet, etc. Os mais conhecidos e melhores repórteres desta atualidade foram destacados para investigar de perto tais fatos e entrevistar os líderes responsáveis pelos locais onde os fenômenos estão ocorrendo.

Notícias locais: – Israel, Jerusalém.

Sangra o Muro das Lamentações: durante um dia e meio neste local o sangue verteu em seis pontos do muro.

Sangue na Mesquita de Omar: também durante um dia, o sangue brotou da “rocha sagrada” que se encontra dentro da Cúpula do Rochedo.

Pequeno lago de sangue se forma na Basílica do Santo Sepulcro. No Gólgota, o sangue brotou em seu solo como fonte e permanece vivo para que todos possam ver.

O jornalista brasileiro Roberto Dias, muito conhecido por ser um ateu radicalista é designado por seu jornal para cobrir tais acontecimentos.

Assim que sua viagem foi confirmada e de posse do horário da partida, foi para casa arrumar sua mala e comemorar seu quadragésimo aniversário, com a mulher Magda e sua filha Letícia de oito anos, antes de viajar.

Não tinham convidado os parentes porque não podiam

fazer uma recepção mais demorada devido à necessidade de

embarcar naquele mesmo dia. Porém, quando chegou,

encontrou seus pais e sogros a esperá-lo. A pequena recepção

foi rápida, alegre e calorosa, fato que deixou Roberto

emocionado, bem mais do que nos outros aniversários

comemorados anteriormente onde a badalação se fazia

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presente.

Eram quase 23:00h quando Roberto encontrou-se no aeroporto internacional Tom Jobim com a fotógrafa Júlia e o cinegrafista Saulo, dois integrantes da equipe que o acompanhariam nessa viagem.

Logo em seguida estavam embarcando para Israel. O avião levantou voo dentro do horário previsto.

No dia seguinte, já em Jerusalém depois de se hospedarem no hotel Menorah, eles alugaram um táxi e foram andar pela cidade para fazer o reconhecimento dos locais onde estavam acontecendo os misteriosos incidentes. Tentar descobrir junto aos populares do local a origem de tudo aquilo ou algum registro novo eram os seus objetivos neste primeiro momento.

Por volta das 16:23 h seu celular tocou. Era uma ligação de sua casa. Roberto sabia que sua mulher só ligava quando tinha algo importante a tratar e essa agora deveria ser grave.

- O que é Magda? Aconteceu alguma coisa?

- Roberto, hoje a Letícia amanheceu com febre de 40°C.

Não houve jeito de fazer a febre baixar com os remédios.

- Por que não a levou ao médico?

- Mas claro que a levei a clínica! Ela chegou a desmaiar quando o Dr. Nelson a examinava.

- O que o doutor acha?

- Ele recomendou que a internasse para fazer uma série de exames, pois não encontrou nada que justificasse a febre e o desmaio.

- Então é grave o estado dela?

- Aparentemente não.

- Por que não? Ele já sabe o que é?

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- Também não, mas nos tranquilizou e disse que a internação é mais por prevenção do que necessidade.

Explicou que no hospital, os exames são feitos mais rápidos e logo ele terá uma posição do que realmente aconteceu para começar um tratamento, se for o caso.

- E quando ele acha que terá esses resultados para analisar?

- Ainda hoje. Fique tranquilo que ela está bem agora.

- Vou deixar o celular ligado. Assim que tiver alguma informação do Dr. Nelson, avise-me. Não importa a hora que for.

- Está bem, vou desligar. Beijos, nós te amamos.

- Outro, eu também.

***

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CAPÍTULO UM Em busca da verdade:

Contando com a influência e conhecimento de alguns membros da embaixada brasileira, Roberto conseguiu um intérprete para acompanhá-lo e marcar para o dia seguinte três entrevistas exclusivas e necessárias para realizar suas reportagens. A primeira delas com Amyr Ehud, hoje rabino- chefe de Israel; a segunda com o Aiatolá Ahmad Mohsen, influente líder do mundo muçulmano; a terceira e última entrevista, com Demétrius IV, o patriarca ortodoxo de Jerusalém.

A entrevista com o rabino Amyr Ehud começou às 8:00 h da manhã, na praça próxima ao Muro da Lamentação e foi acompanhada por Saulo, responsável pela filmagem via satélite, enquanto que Júlia registrava todo o local com sua pequena mais eficiente máquina fotográfica e também filmadora.

- Bom dia, senhor Ehud. É um prazer enorme conhecê-lo e obrigado por me conceder essa entrevista.

- Bom dia, Roberto. O prazer é meu também.

- Como é de seu conhecimento, nossa entrevista será publicada para milhões de pessoas e a maioria ainda hoje não sabe nada sobre este lugar. Dessa forma, preciso informar aos leitores o porquê deste local ser tão sagrado para os judeus e por que é chamado de Muro das Lamentações.

- Farei um resumo para seu registro. Roberto, após a

destruição do Templo de Salomão por Nabucodonosor em

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586 a.C., outro templo foi erguido neste local, que mais tarde foi reformado por Herodes, o Grande, em 20 a.C., mas também foi destruído por Tito em 70 d.C. De todo o complexo sobrou apenas esta parede, a do lado ocidental do antigo templo, que você está vendo a sua frente e que foi deixado de propósito pelo general Tito para que nós os judeus tivessemos a amarga lembrança de que Roma vencera a Judeia. Neste local considerado sagrado desde o tempo de Salomão, constantemente os judeus vêm aqui orar, fazer seus pedidos e chorar a destruição do templo. Daí o nome Muro das Lamentações.

1

Após todos esses acontecimentos destrutivos, por traz do que restou no local, foram construídas duas mesquitas; e passou a ser considerado o terceiro lugar mais sagrado para o Islamismo.

- Acredito que já temos material suficiente para deixar nossos leitores informados.

- Então, em que mais posso ajudar na sua reportagem?

- Senhor Ehud, eu vou tentar ser o mais objetivo possível;

o sangue na Cúpula da Rocha, no Santo Sepulcro e no Muro das Lamentações, para o senhor, esses acontecimentos têm alguma coisa a ver com o sagrado ou não passam de charlatanismo?

- De forma alguma é charlatanice. Posso afirmar sem medo de errar: está aí um sinal de Deus.

- Mas, Ehud, por que o senhor nos faz essa afirmação?

- Simplesmente porque Ele escolheu os três locais mais

1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Muro_das_Lamenta%C3%A7%C3%B5es

http://terrasantaviagens.com.br/whitepaper/templodesalomao/templodesalom

ao.php

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sagrados de Jerusalém para dar seu recado.

- Qual seria esse recado, senhor Ehud?

- Roberto, meu amigo, por ali passaram os grandes profetas das três religiões monoteístas. Quer mais prova do que isso?

Eu não tenho dúvida de que Deus está mostrando que a humanidade deve rever sua posição religiosa e unificar sua adoração em um único Deus.

- E que deus é esse, senhor?

- O único e verdadeiro Deus: Yahveh – o Deus de Israel – é claro.

- Desculpe essa minha próxima pergunta, mas não posso de forma alguma deixar de fazê-la.

- Faça-a, Roberto. Já estou acostumado com essas perguntas.

- O senhor não está indo com muita sede nas suas conclusões religiosas?

- Interessante. Você, como todo bom repórter, me surpreendeu. Pensei que faria outra pergunta. Pode até ser que o senhor tenha razão, entretanto acredito estar no caminho certo e vou lutar para que isso aconteça.

- O que lhe faz crer serem esses sinais verdadeiros e sua conclusão certa?

- Para seu conhecimento: há muitos anos atrás, quando eu ainda tinha meus oito anos, Deus me salvou em Auschwitz.

Hoje entendo o porquê daquele milagre. Esse é o desafio que terei que enfrentar.

- O senhor está me dizendo que tentará unificar as religiões

numa só e em um só Deus só por que no passado foi salvo de

um campo de concentração?

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- Exatamente, Roberto. Na verdade não é porque fui salvo, mas sim para que fui salvo por Ele? Essa seria a pergunta correta.

- E o senhor acredita agora que esses sinais são o chamamento deste Deus que o salvou, para a missão de unificar os povos em um único Deus?

- Com certeza, assim como Ele um dia me salvou, hoje devo iniciar o trabalho de salvação dos homens. Creio que você deva ir pensando em tudo e também rever sua posição, para acertar na escolha.

- Obrigado por ter me recebido, senhor Ehud, mas devo informá-lo que não acredito em Deus e em nada do que está acontecendo.

- É uma pena. O senhor tem mais algum compromisso?

- Sim, tenho também uma entrevista marcada com o Senhor Ahmad.

- Com Ahmad Mohsen?

- Ele mesmo. Por que o espanto?

- Nada de mais. Só estranhei. Devo lhe avisar de que o senhor vai lidar com um homem extremamente radical e não creio que ele vá elucidá-lo em alguma coisa.

- Obrigado, mas preciso ouvir o depoimento de todos os lados envolvidos com esses fatos.

- Desejo-lhe boa sorte.

Despediram-se. Roberto dirigiu-se para onde faria sua

próxima entrevista. Havia combinado o encontro com Ahmad

Mohsen em frente à Mesquita de Omar, também conhecida

por Cúpula da Rocha, local onde estava havendo o outro

incidente. No caminho, Júlia aproveitou para fazer mais

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algumas fotos e pôde registrar um número maior de pessoas pelas ruas.

- Já estive duas vezes em Israel e não me lembro de ter visto tanta gente como agora. – Constatou Júlia.

- É porque quando você esteve aqui ainda não tinham tido a ideia de jogar extrato de tomate nesses locais. – Ironizou Roberto.

- Você está de ironia, mas tudo o que está acontecendo pode ser sério. Já parou para pensar?

- Não me faça rir, Júlia. Sério é o que pode estar acontecendo com minha filha e eu estou preso nesse fim de mundo escutando baboseiras sobre Deus. Para piorar a situação, minha esposa não me liga.

- Não estou brincando quando me refiro a esses acontecimentos. E fique calmo que Magda já ligará.

- Deixa essa conversa para outra hora. Vamos, senão nos atrasaremos.

***

Na hora combinada lá estava Ahmad acompanhado de dois dos seus assessores. Roberto mesmo estando a uma distância considerável logo deduziu pelo uso da bengala que aquele homem de estatura pequena e frágil também era cego, além de coxo. De posse das perguntas que faria a ele, deu início à entrevista. Optara por fazer três a quatro perguntas básicas aos três entrevistados e as demais de acordo com o desenrolar da entrevista ou com a conveniência do momento.

- Bom dia, senhor Ahmad. Prazer em conhecê-lo e

obrigado pela presença.

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- Bom dia, Roberto, muito prazer.

- Antes de começar nossa entrevista, gostaria de conhecer mais sobre este local.

- Muito bom este seu pedido. Seus colegas só estão interessados em saber a origem do sangue. Será uma alegria poder falar deste lugar. O Domo da Rocha ou Cúpula da Rocha

2

chamada às vezes erroneamente de Mesquita de Omar, faz parte de uma maior área islâmica conhecida como Nobre Santuário ou Al-Haram al-Sharif. Esta área contém tanto a Mesquita de Al-Aqsa como o Domo da Rocha, construídos pelo califa Abd al-Malik entre 687 e 691 d.C.

sendo o Domo construído sobre a “rocha sagrada” no Monte Moriah. A rocha foi considerada como um santuário e altar por Abraão, Jacó e outros profetas. Os reis Davi e Salomão também consideraram o local como sagrado. Daqui partiu o profeta Maomé para a sua viagem aos céus quando foi trazido de Meca. Quanto a “Domo da Rocha” recebeu esse nome devido à grande rocha, ainda atualmente exposta dentro da Mesquita. Também segundo a tradição judaica, foi naquela rocha que Abraão preparou o sacrifício do seu filho Isaac, a Deus. O primeiro templo aqui construído foi há três mil anos pelo Rei Salomão.

Sentindo que se deixasse Ahmad ficaria ali falando sobre aquele local o resto do dia, Roberto resolveu interrompê-lo.

- Senhor Ahmad essas informações já são suficientes.

- Então ótimo, para a sua reportagem o que mais deseja

2 http://www.gotquestions.org/Portugues/Domo-da-Rocha.html

https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%BApula_da_Rocha

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saber?

- Senhor Ahmad, serei bem objetivo: este fato que ocorreu na Cúpula da Rocha e nos outros locais sagrados. Para o senhor eles estão interligados?

- Não posso afirmar que estejam. Embora eu esteja quase convencido de se tratarem de um sinal de Alá.

- Mas senhor Ahmad, por que razão você se inclina nesta direção?

- Esses locais são os mais sagrados de Jerusalém e Alá os escolheu para dar seu recado.

- Que recado é esse que não se vê escrito em lugar algum, senhor Ahmad?

- Roberto, não sendo você deste lugar e não conhecendo nossa história, fica difícil de entender o que falo. Por ali passaram os grandes profetas, por isso penso que Alá está nos mostrando a sua vontade. A humanidade não pode continuar adorando tantos deuses.

- Então o senhor acredita que Deus não quer mais concorrência? E em quem nós deveremos adorar a partir de agora?

- Exatamente isso, senhor Roberto, sem concorrência.

Devemos adorar o Deus que falou a Maomé e que nos foi apresentado por ele; Alá.

- Senhor Ahmad, tenho de fazer-lhe esta pergunta.

- Fique a vontade, Roberto. É para isso que você está aqui.

Se estiver no meu conhecimento não o deixarei sem resposta.

- Se o senhor estiver enganado, como ficam essas suas conclusões religiosas?

- Interessante você me fazer essa pergunta, mas posso

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assegurar que isso não me preocupa. Eu não diria que o senhor não tem razão, entretanto acredito estar certo e vou buscar inspiração para saber qual o caminho que devo percorrer para alcançar esse êxito.

- A doutrina islâmica é vista pelos que não a professam como sendo muito rígida. Também os meios usados, contra aqueles que não seguem o que está no livro do Islã, são extremamente agressivos. O senhor pretende intensificar e endurecer ainda mais o sentido dessa unificação religiosa?

- É como eu lhe disse: vou buscar inspiração e farei o que for necessário no sentido de mostrar o caminho certo aos infiéis.

- O que lhe faz crer serem esses sinais verdadeiros, e a sua conclusão pessoal certa?

- Vou lhe confidenciar uma passagem de minha vida, que só hoje começo a entender. Há alguns anos atrás quando sofri o atentado fiquei com uma dificuldade para andar além de ter perdido a visão. Foi nesta ocasião, ainda lembro como se fosse hoje, que escutei uma voz falando comigo, que dizia:

“Hoje só perdeste a visão do mundo e passará a andar com mais cautela, pois da sua vida eu ainda vou precisar no futuro”. Foi falado só para mim. Digo isso porque os que estavam a minha volta não a escutaram. Era Alá que acabava de me salvar. Hoje entendo o porquê daquela conversa. Ele estava me preparando para o que terei de enfrentar agora.

- O senhor está me dizendo que vai unificar as religiões em um só deus?

- Sei o quanto é difícil, mas tentarei Roberto. Com a

conversa que tive naquela ocasião, hoje fica bem claro o que

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eu devo realizar. Creio que você também já deve ir pensando em tudo que está acontecendo e no que acabo de lhe falar.

- Sua preocupação me gratifica senhor Ahmad, mas eu não professo nenhuma religião. Talvez por ser ateu, quem sabe?

- O que posso lhe garantir é que com Alá tudo fica mais claro. Lembre disso.

- Bem, não pretendo tomar mais o seu tempo. Obrigado por tudo.

- Já terminou sua entrevista?

- Sim, senhor Ahmad. Tenho outra entrevista marcada para as 14:00 h com o patriarca de Jerusalém, senhor Demétrius IV.

- Vai falar também com o beato?

- Não sei se ele é beato, só fui informado que ele responde por aquela igreja onde também está ocorrendo esse mistério do sangue. O senhor tem alguma recomendação especial?

- Não, nada em especial. O senhor vai lidar com um homem como eu, crente no seu Deus. Só que sendo ele sabedor de que o senhor é ateu, provavelmente tentará convertê-lo àquela religião. Esteja preparado.

- Terei que correr o risco da conversão, já que tenho de ouvir todos os lados envolvidos com esses acontecimentos.

- Desejo-lhe boa sorte.

- Obrigado.

***

Cada deslocamento realizado por Roberto em Jerusalém o

deixava cada vez mais convencido de que a verdadeira Babel

era ali. Não tinha visto até aquele dia tantas línguas serem

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faladas em um só lugar, nem mesmo quando esteve em Nova Iorque, local considerado como sendo o centro do mundo.

- Você tem razão, Júlia. Tem gente demais por aqui. – Comentou Roberto.

- Eu não sou um expert, mas já ouvi mais de dez idiomas diferentes. – Registrou Saulo.

- Acredito ser esta uma das razões para ninguém se entender neste lugar. Aqui é a verdadeira Torre de Babel. – Reconheceu Roberto.

Novamente o celular tocou. Roberto constatou ser de casa e rapidamente atendeu.

- Sim. Qual o resultado dos exames, Magda?

- Graças a Deus os exames não acusaram nada.

- Mas por que a febre e o desmaio? O doutor não encontrou uma razão específica para isso?

- Como nada foi constatado, ele acha que foi uma virose forte e, devido à febre ter aumentado muito, ela teve uma pequena convulsão sem consequências graves que resultou na perda de consciência.

- E como ela está?

- Está ótima, já chegamos em casa. Parece que nada aconteceu. Foi só mesmo um susto.

- Deixa-me falar com ela rapidamente?

- Ela está dormindo. O doutor Nelson além de algumas vitaminas receitou um relaxante e disse para deixá-la descansar.

- Ótimo, quando ela acordar diga-lhe que mandei um beijo.

- Direi. Mas o que ela queria mesmo era falar com você.

- Então assim que ela acordar me liga.

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- Combinado.

- Agora deixa eu trabalhar senão me atraso para a entrevista. Vou continuar com o celular ligado, qualquer coisa me ligue. Tchau, beijos.

- Tchau, e fique com Deus.

- Qual deles. Aqui neste lugar tem três. – Roberto ironizou.

- Não brinca. Tchau.

Magda desligou o telefone em seguida sem deixar Roberto falar alguma coisa. Ela detestava quando seu marido brincava ou desdenhava de algo ligado a Deus.

A curiosidade ainda era muito grande. Milhares de pessoas continuavam visitando o local para ver o que muitos chamavam de milagre. O sangue que brotara no Gólgota.

A segurança encarregada do local orientava para que as pessoas em fila indiana passassem pelo local e não parassem, evitando dessa forma uma grande concentração no local.

Roberto foi recebido por Demétrius dentro da própria Basílica do Santo Sepulcro. Precisamente no local onde segundo a crença Cristo fora crucificado e há poucos dias o sangue tinha brotado e ainda lá permanecia intacto.

- Boa tarde. Prazer em conhecê-lo, senhor Demétrius.

Estou agradecido por me receber.

- Boa tarde. O prazer é todo meu. Espero que estejas sendo bem recebido e que seja proveitosa a sua passada por Jerusalém.

- Obrigado pelos votos e posso assegurar-lhe que estou sendo, além de bem recebido, também esclarecido.

- Que bom, é sinal que nem tudo está perdido por aqui.

- Devo lhe confessar que estou impressionado com este

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local.

- Não é para menos meu caro. Tudo começou em 326 d.C.

quando Helena, mãe do imperador Constantino, visitou Jerusalém com o objetivo de procurar os locais associados aos últimos dias de Jesus, ela identificou o local da crucificação (o rochedo chamado Gólgota) e a tumba próxima conhecida como Anastasis ("ressurreição", em grego) que significa “levantar, erguer”. Daí o imperador decidiu então construir um santuário apropriado no local onde fora erguido por Adriano em 135 d.C. o templo de Afrodite. A Basílica do Santo Sepulcro

3

está construída no lugar onde Jesus Cristo foi crucificado, sepultado e de onde ressuscitou no Domingo.

Você está num dos locais mais sagrados da cristandade. Por aqui passou nada mais nada menos que o Filho de Deus.

- Pode ser.

- Mas é claro que sim Roberto, tem alguma dúvida?

- Nenhuma senhor Demétrius. Podemos começar? – Roberto para não ter que aturar uma possível catequese desvencilhou-se rapidamente da posição duvidosa.

- Quando quiser. Aliás, pensei que já tivesse começado.

- Tentarei não tomar muito do seu tempo e lhe farei algumas perguntas semelhantes a que fiz aos senhores Ehud e Ahmad. O senhor tem alguma objeção quanto a isso?

- De forma alguma. Acredito que assim fica bem clara a posição de cada segmento religioso.

- Ótimo, então comecemos. O sangue que escorre na

3 https://pt.wikipedia.org/wiki/Santo_Sepulcro

http://www.jba.gr/Portuguese/Sobre-a-ressurrei%C3%A7%C3%A3o-de-

Jesus.htm

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Cúpula da Rocha, que brota aqui no Santo Sepulcro e o do Muro da Lamentação, para o senhor esses acontecimentos tem alguma coisa em comum ou não passam de uma montagem para enganar o povo?

- Não tenho nenhuma informação nesse sentido e também não acredito que seja uma farsa. O que posso lhe afirmar é como sou um religioso que crê em Deus, entendo que Ele esteja tentando se comunicar conosco.

- Mas, senhor Demétrius, qual a prova e baseado em que o senhor faz essa afirmação?

- Cristo ontem escolheu Jerusalém para mostrar ao mundo o seu amor por nós. Ele hoje está de volta mais uma vez para nos lembrar de toda sua obra através desse recado.

Justamente no local onde seu sangue foi derramado no passado. Quer prova maior?

- E que recado seria esse, senhor Demétrius? Tem alguma coisa escrita que não temos conhecimento.

- Nada por escrito Roberto, mas estes locais, apesar de conturbados, continuam sendo sagrados. Aqui, grandes profetas ensinaram à humanidade os valores espirituais. Por essa razão, Cristo está mais uma vez nos mostrando qual a sua vontade. Temos a obrigação como religiosos de direcionar nossa crença há um único deus.

- Pelo visto pretende unificar todas as crenças em torno do seu Deus. Correto? Ou eu estou enganado?

- Não, você não está enganado. O único e verdadeiro Deus, – o que o nosso senhor Jesus Cristo falou – o Espírito Santo.

- Já não tenho tanta certeza se faço ou não a próxima

pergunta.

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- Qual a razão de não fazê-la.

- Temo ofendê-lo, mas não posso deixar de fazê-la, senhor Demétrius.

- Roberto, tenho certeza de que não me ofenderá. Não se constranja, é para isso que está aqui. Farei o possível para tirar todas as suas dúvidas. Se o conhecimento estiver comigo, é claro.

- Sua convicção é contagiante, mas se o senhor estiver errado o que fará com suas conclusões religiosas?

- Eu tinha quase certeza de que o senhor faria essa pergunta. Eu já me fiz essa mesma pergunta algumas vezes.

Acredito estar no caminho certo e vou fazer o que for preciso para continuar nele. Até porque eu conto com a inspiração do Espírito Santo.

- Deve haver mais uma razão para o senhor crer que esses sinais sejam verdadeiros?

- Sim, há uma experiência vivida. Ainda lembro como se fosse hoje. Quando criança eu escutei uma voz falando comigo: “Demétrius não te afaste de mim, pois terás uma missão a realizar na minha Igreja”. Era Jesus que já naquela época me convocava. Hoje não tenho mais dúvida e entendo ser essa a realização de que ele falou e terei por responsabilidade.

- O senhor está me dizendo que também tentará unificar todas as crenças em um só deus?

- Exatamente, Roberto. Está bem claro o que deve ser feito,

só não vê quem não quer. Eu sei que o senhor é descrente,

mas mesmo assim deveria ir pensando em tudo que está

acontecendo. Não deixe passar a oportunidade de se converter

(27)

a Deus, ele encontra-se sempre com os braços abertos a receber seus filhos de volta.

- Obrigado pelo alerta, senhor Demétrius, e me desculpe pelo que vou falar: sou um ateu convicto. Pode até ser que um dia eu pense diferente, mas por enquanto não.

- O que posso lhe assegurar é que só através de Cristo chegará ao Pai. A mudança é o senhor que decide.

- Bem, não pretendo tomar mais o seu tempo. Obrigado pela entrevista.

- Já terminou sua entrevista? Tão rápido assim?

- Não foi tão rápido. É que quando o encontro se torna agradável, o tempo voa. Obrigado, senhor, por sua atenção.

- Sempre que precisar arranjarei um tempo para atendê-lo, meu filho.

Terminada a última entrevista Roberto agradeceu a Ashur

por sua valiosa ajuda como intérprete, despedindo-se.

(28)

CAPÍTULO DOIS Continuando a busca:

As investigações e reportagens de rua que Roberto realizou em Jerusalém não acrescentaram em nada ao que todo mundo já sabia. Tudo continuava sendo um verdadeiro mistério, nem mesmo os cientistas envolvidos tinham conseguido uma explicação lógica para o que estava acontecendo.

Roberto Dias mal acabara de entrevistar esses líderes religiosos, novos sinais idênticos aos já acontecidos começaram a aparecer em outras partes do mundo.

Da redação do jornal veio a ordem para continuarem com o trabalho sobre aqueles sinais que voltavam a acontecer. Dali mesmo, depois de enviar via Internet o conteúdo das entrevistas de rua, fotos e documentários para serem editado, Roberto, Júlia e Saulo viajariam para os novos locais.

Primeiro passariam por Meca, depois iriam a Mathura, na Índia, e por último viajariam para Lhasa, no Tibet.

- Vamos, Saulo. Nós ainda não comemos. Quanto mais rápido despacharmos as malas e a sua aparelhagem, mais cedo ficaremos livres para almoçar. Não quero ficar sem comer.

- Almoçar, não. Jantar. Ainda bem que a Júlia já foi para o restaurante e está adiantando nosso pedido.

- Mais três locais e todos distantes um do outro. Saulo prepare-se; não vai ser fácil.

- Eu já pensei nisso e estou me preparando

(29)

psicologicamente.

- O pior é que teremos tanto trabalho para entrevistar outros fanáticos iguais aos que acabamos de conhecer e que com toda certeza dirão a mesma coisa.

- Será que eles são iguais mesmo, Roberto?

- Não tenho a menor dúvida, você vai ver. Vamos almoçar, pois só temos uma hora e meia de folga. Logo teremos que embarcar.

- Alguém vai estar nos esperando?

- O pessoal da embaixada vai estar lá.

- Muito bom ter alguém que fale a língua desse pessoal. Se não fosse Ashur, você não teria conseguido fazer essas entrevistas – Ashur é um funcionário da embaixada brasileira e o único tradutor que Roberto conseguira.

- É verdade, não tinha pensado nisso. Eles se recusam a falar em inglês. Impressionante... Nessas horas é que me arrependo de não ter aprendido falar francês.

Almoçaram rapidamente e embarcaram.

***

Notícias locais: – Arábia Saudita, Meca.

Mesquita Sagrada Al Masjid Al-Haram: da Pedra Negra que se encontra dentro da Kaaba também brota sangue.

Índia, Mathura.

Tinta ou Sangue? No Templo Sri Krishna Janmabhoomi, de uma das pinturas de Krishna escorreu o líquido vermelho.

Lhasa, Palácio de Potala.

Templo Jokhang: a estátua dourada do Buda Shakyiamuni

também chorou sangue.

(30)

Roberto tinha consciência de que esta viagem seria cansativa, pois além dos fenômenos estarem acontecendo em lugares distantes um do outro, os mesmos eram de difícil acesso. Com certeza isso dificultaria em muito suas entrevistas investigativas, mas como era profissional reuniu sua equipe e tocou em frente.

Eles chegaram à cidade de Meca por volta das 21:00 h.

Encontraram-se no aeroporto com Omar, funcionário do consulado brasileiro, responsável por toda movimentação da equipe pela cidade e também o interprete se fosse necessário.

Depois de instalados no hotel Makkah, resolveram descansar.

Começariam a trabalhar cedo, pois a entrevista com outro Aiatolá – senhor Ali Mustafá – estava acertada para o dia seguinte às 15:00 h.

- O que iremos fazer da manhã até à tarde. – Perguntou Júlia?

- Reportagens, reportagens e reportagens. – Roberto falou imitando o chefe deles e todos riram.

- Acho que só vou fotografar sangue divino mesmo.

- Júlia, este é um lugar imprevisível, às vezes também ocorrem atentados e escorre sangue comum. Quem sabe com um pouco de sorte talvez você consiga fotografar desse tipo também. – Brincou Saulo.

- Não sei como você consegue fazer piada com esse tipo de coisa.

Roberto chamou atenção dele fingindo seriedade fazendo com que Júlia se irritasse.

- Vocês dois não têm jeito mesmo.

(31)

Procuraram descansar até mais tarde, pois só começariam os trabalhos de rua por volta das 10:00 h.

Roberto acreditou ser melhor formular a esses novos líderes religiosos, que seriam entrevistados, as mesmas perguntas básicas que fizera antes, já que os sinais se repetiam em solo sagrado e eram idênticos aos anteriores.

No horário combinado, foi recebido por Mustafá dentro da própria Mesquita Sagrada. Próximo ao local onde há poucos dias o sangue tinha brotado e, ainda lá, dentro da Kaaba, permanecia intacto.

- Bom dia, prazer em conhecê-lo, senhor Ali e obrigado por me receber.

- Bom dia, Roberto. Que Alá habite e transforme o seu coração. O prazer também é meu, só gostaria que o senhor me chamasse por Mustafá.

- Sua vontade será satisfeita.

- Está se convertendo ao Islã?

- Não, senhor. Duas mulheres já moram em meu coração e não há mais espaço para ninguém. Eu quis dizer é que vou chamá-lo de Mustafá.

- É uma pena, mas espero que aqui fique esclarecido todo esse mistério e que sua reportagem ganhe algum prêmio. Seja bem vindo à casa de Alá e que nossa cidade possa recebê-lo com carinho.

- Obrigado, eu estou sendo bem recebido.

- Ótimo, é sinal que não somos tão bárbaros como vocês mesmos da imprensa propagam mundo afora.

- Nem tanto assim senhor. Também existe uma participação

do seu povo, mesmo que pequena, mas existe.

(32)

- Pode ser. Afinal nem tudo é perfeito.

- Bem. Mustafá pode me falar um pouco desse lugar e o que ele representa?

- Com certeza. A Mesquita Al Masjid Al-Haram sempre foi um pátio em torno da Kaaba e aqui se realiza a peregrinação anual a Meca, uma obrigação somente para aqueles que são física e financeiramente capazes de empreendê-la. Aqui o profeta Abraão foi incumbido por Deus de reconstruir a Kaaba juntamente com seu filho Ismael. Isto demonstra que o Islã é a religião de Deus e não uma religião feita pelo profeta (Maomé) Muhammad, pois os ritos e as normas da peregrinação não foram estabelecidos pelo profeta, mas sim por Deus, como também não está vinculada à pessoa deste profeta, nem à sua vida, mas sim a Abraão e ao seu filho Ismael, mostrando, dessa forma, a abrangência e o universalismo do Islã. Logo, a peregrinação é um atendimento ao chamamento que o profeta Abraão dirigiu a todos os homens, obedecendo à ordem de Deus. Dentro da Kaaba encontra-se a Hajar el Aswad ou Pedra Negra

4

, uma das relíquias mais sagradas do Islã e, segundo a tradição muçulmana, remonta ao tempo de Adão e Eva sendo que essa pedra foi recebida por Abraão das mãos do anjo Gabriel (Arcanjo Gabriel). Estas são as razões deste lugar ser o mais sagrado do mundo para nós devotos do Islã.

4 https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedra_Negra https://pt.wikipedia.org/wiki/Caaba

https://www.epochtimes.com.br/masjid-al-haram-lugares-mais-

sagrado-muculmanos/

(33)

- Muito bom, com esta explanação nossos leitores passarão a entender um pouco mais sobre sua crença. Podemos começar nossa entrevista?

- Quando você quiser, estou a sua disposição.

- Mustafá, eu serei rápido e objetivo. Possivelmente lhe farei perguntas com o mesmo sentido das que fiz a outros líderes religiosos que acabei de entrevistar por esses mesmos motivos. O senhor tem alguma objeção quanto a isso?

- Roberto, você é o profissional. Acredito que assim seus leitores e outros que vejam ou leiam a matéria passem a entender melhor nós muçulmanos, e com isso vejam melhor a posição de cada religião.

- Ótimo, então comecemos: – os acontecimentos naqueles locais sagrados, para o senhor, têm o mesmo significado deste sangue que escorreu na Pedra Negra que está no interior da Kaaba? E mais: esse acontecimento tem alguma coisa a ver com o sagrado ou não passa de uma farsa?

- Roberto, eu não tenho a menor dúvida de que esses sinais estão interligados. Quanto a ter algum charlatão por traz de tudo isso, a nossa polícia ainda não descobriu nada e eu particularmente não tive até o momento nenhuma prova nesse sentido; portanto não acredito que seja. Entretanto, pelo que vi, posso afirmar ser outro sinal de Alá.

- Mas, Mustafá, baseado em que o senhor faz essa afirmação? Você não pode estar sendo enganado pela sua fé?

- Aqui, este local que você está vendo, é a casa de Deus.

Para aqui são voltadas todas as orações realizadas pelos

muçulmanos ao redor do mundo. Por que razão minha fé me

enganaria? Deus mais uma vez escolheu um local sagrado, e

(34)

não podia ser outro senão a sua própria casa para dar seu recado.

- Digamos que realmente aqui seja a casa de Deus. Que recado seria esse, Mustafá? Por que não veio ele em pessoa dizer o que quer, como das outras vezes no passado?

- Roberto, Deus tem suas razões e com certeza sabe o que está fazendo, não serei eu que vou questioná-lo. Porém vou tentar torná-lo conhecedor da nossa história. Sei que será difícil de entender o que falo, mas veja que por estes locais onde apareceram os sinais passaram os grandes profetas das três religiões monoteístas. Agora, mais uma vez outro local onde passaram vários profetas. Não pode haver prova mais concreta de que o nosso Deus está nos convocando para uma missão e eu não tenho dúvida de que Ele está nos mostrando qual a sua vontade. Devemos unificar definitivamente a humanidade em torno da nossa crença e mostrar por esses mesmos sinais a existência de um único Deus.

- Mustafá, os sinais estão aparecendo em locais onde deuses diferentes são adorados. Então eu pergunto: – esse deus que o senhor se refere seria o seu?

- Com certeza. O verdadeiro Deus, o que Abraão seguiu, respeitou e falou, o mesmo que Maomé nos confirmou: Alá, o Misericordioso.

- Mustafá, terei que fazer uma pergunta que talvez não goste.

- Faça-a, Roberto. Não saia daqui sem conseguir suas informações. Da minha parte tentarei tirar todas as suas dúvidas.

- Não estaria o senhor se precipitando em suas conclusões

(35)

religiosas?

- Eu tinha quase certeza de que essa pergunta seria feita.

Até eu já me questionei algumas vezes. Aliás, quem é que não anda por ai se perguntando? Não posso negar que você tem razão, mas também não posso afirmar que tenha. Eu creio estar certo e vou fazer o que for preciso para seguir o caminho nesta direção. Até porque tenho Maomé a me inspirar.

- O que lhe faz crer que esses sinais são verdadeiros e sua conclusão está certa?

- Pura inspiração. Eu era como você. Não acreditava em nada até o dia que escutei uma voz me perguntando:

“Mustafá, o que pensas da vida? Achas que eu não existo?

Esta vida quem lhe deu fui Eu e não foi para você andar por aí me ignorando. Estou esperando que faças a tua parte, pois a minha eu continuo fazendo”. Naquele instante soube que era Alá que me falava. Hoje mais do que qualquer coisa, eu entendo o porquê daquela conversa; esse é o desafio que terei que enfrentar.

- Vejo que você está bem informado ao meu respeito, mas eu ainda não estou ouvindo vozes. Deixa-me ver se entendi bem sua resposta. O senhor está dizendo ao mundo que vai unir esforços no sentido de unificar as crenças num único deus?

- Você entendeu perfeitamente, Roberto. Não posso deixar de atender a esse clamor; só quem não quer ver não entende.

Eu sei que o senhor é descrente, mas até mesmo você precisa

pensar em tudo que está acontecendo. É chegada à hora, não

perca a oportunidade de se converter.

(36)

- Obrigado pelo aviso Mustafá, mas deixei claro aos outros líderes que entrevistei, que tudo isso não faz nenhum sentido na minha cabeça. Talvez quem saiba um dia eu passe para o outro lado.

- O que posso lhe assegurar é que, quando você encontrar Alá, tudo ficará bem mais fácil. Pense no que lhe falo.

- Bem, nosso encontro foi bem agradável. Obrigado mais uma vez.

- Não tem por que agradecer. Espero não tê-lo aborrecido.

- Quando o encontro é agradável tudo passa despercebido.

Em momento algum fui aborrecido.

- Fico feliz em saber e sempre que precisar estarei à disposição. Possa Alá habitar seu coração.

- Espero que você esteja certo. Boa sorte.

Roberto não contava que Mustafá fosse tão pensativo e respondesse a suas perguntas tão pausadamente. Dessa forma a entrevista levou mais tempo do que ele previra, e por conta desse imprevisto, perderam o voo para a Índia. Tiveram que viajar no dia seguinte.

***

Acordaram bem cedo, fizeram um desjejum para lá de reforçado, fecharam a conta no hotel, correram para o aeroporto e embarcaram no primeiro voo. Toda essa precaução e correria tinham uma razão: quando chegassem ao lugar de destino, não teriam tempo talvez nem para fazer uma refeição.

O mesmo processo se repetiu quando chegaram à Nova

Delhi. No aeroporto Indira Gandhi, Gilton Dilti outro

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funcionário do consulado brasileiro os aguardava. Só foi o tempo das apresentações e já estavam viajando para a cidade de Mathura, que fica a 150 km da capital. Teriam mais ou menos duas horas de viagem para acertar com Gilton toda a programação de trabalho. Roberto, ao ser informado dos horários, pediu para passar primeiro no Templo Sri Krishna Janmabhoomi. Assim, Júlia adiantaria seu trabalho tirando as fotos necessárias; ele e Saulo aproveitariam também para dar continuidade às suas reportagens e saber algumas impressões do que os populares estavam achando daquilo. Ali em Mathura eles iriam precisar e muito da ajuda do Gilton, pois provavelmente não encontrariam alguém naquele local que falasse inglês, e muito menos o português.

Pouco antes das 14:00 hs. Roberto foi levado ao escritório onde teria sua entrevista atendida pelo guru Rachna Bhutto.

- Roberto, mais um pouco e estará terminado nosso trabalho por aqui.

- Não vejo a hora, Saulo. Essa repetição de tudo já está começando a me cansar.

Roberto com a sua equipe foi recebido por Rachna, um simpático e frágil senhor de 92 anos, porém lúcido e de uma alegria contagiante, no horário previsto com a recomendação de ser rápido devido à idade avançada e por também estar com os horários comprometidos para outras entrevistas individuais.

- Prazer em conhecê-lo, senhor Rachna, e desde já obrigado.

- É uma grande alegria recebê-lo, Roberto. Krishna

também o saúda e está feliz por sua visita a Mathura.

(38)

- Obrigado, eu também estou feliz por estar aqui.

- Que bom, é sinal de que a intenção foi alcançada. Estou a sua disposição, podemos começar? – Sorria como uma criança.

- Desculpe, mas não entendi. O que o senhor quis dizer com “intenção alcançada”?

- Vou lhe explicar: como você acaba de falar “também estou feliz”, o mundo também precisa ficar feliz. Vindo até nós, todos se sentem em paz e saem felizes. Aqueles que não podem vir aqui vão tomar conhecimento dos acontecimentos através das suas matérias e das que os seus colegas de outras partes do mundo também estão fazendo. Essa é a intenção:

unir todo mundo ao mesmo objetivo e torná-lo feliz.

- Olhando por esse prisma, sua explicação até que faz algum sentido, mas...

Nesse instante, Roberto lembrara-se filha e ficou tentado a comunicá-lo sobre sua enfermidade, mas logo desistiu.

- Diga Roberto, não se cale.

- Deixa pra lá, não é nada de tão importante.

- Não devemos nunca nos calar Roberto, principalmente quando precisamos ter certeza de alguma coisa. Ao silenciar, retardamos ou até mesmo interrompemos nosso aprendizado, seja ele material ou espiritual. Devo orientá-lo que o aprendizado é obrigatório e caso não o faça nesta vida, com certeza terá de fazê-lo em outra. Aqui na Índia, chamamos de

“Roda do Samsara”

5

, devemos estar sempre buscando elevação espiritual, para dela nos livrarmos.

- Vou me lembrar deste seu conselho daqui para frente.

5 https://pt.wikipedia.org/wiki/Samsara

(39)

Bem, como o senhor mesmo acaba de falar, o mundo está tomando conhecimento desses acontecimentos pelas reportagens que nós os jornalistas estamos fazendo. Por isso antes de falarmos sobre esses acontecimentos, preciso saber um pouco mais a respeito do seu Deus e desse local onde está ocorrendo tais sinais, para passar aos nossos leitores.

- O nosso querido Krishna

6

nos deixou Sua mensagem e foi a Mensagem do Amor. Ele nasceu numa prisão. Isso foi um sinal para ficarmos sabendo que todos nós nascemos na prisão do "eu", a prisão deste mundo. Com sua sabedoria divina nos ensinou a libertação e disse; "Abandona todos os teus deveres, busca-Me para teu abrigo, não te preocupes, pois Eu te livrarei de todos os males”.

- Parece que o Cristo também falou algo parecido com isso, só que de outra forma senhor Rachna.

- É verdade, senhor Roberto, entretanto Krishna foi um Mensageiro de Deus que viveu na Índia antiga a mais ou menos 5.000 anos, bem antes de Cristo. Ah! Não entenda essa minha colocação como desmerecimento de tudo o que Cristo ensinou. Saiba que quando necessário somos visitados por seres iluminados enviados pelo pai no sentido de nos orientar na busca constante do crescimento espiritual. Precisamos estar sempre atento para saber identificá-los.

- E por que é tão sagrado aquele local?

- Quanto ao Templo Sri Krishna Janmabhoomi

7

, ele está construído em cima da prisão subterrânea em que Krishna

6 http://giridhari.com.br/introducao/quem-e-krishna/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Krishna

(40)

nasceu, e desde então lá o reverenciamos, embora haja pelo menos mais um templo que reivindique ser o lugar certo do nascimento de nosso grande líder espiritual. A população é dividida sobre o real local de Seu nascimento, entretanto algumas evidências confirmam ser ali o lugar certo. Tenho muito mais a falar sobre esse assunto, porém para não me alongar, creio ter sido bem esclarecedor e acrescentado o suficiente para suas anotações.

Roberto entendendo que o Guru estava preocupado com o tempo de duração da conversa agradeceu-o e iniciou a entrevista.

- Senhor Rachna, obrigado por estas informações. Serei bem objetivo para não tomar seu tempo. As perguntas já estão praticamente prontas e são mais ou menos iguais às que eu venho fazendo. O senhor vê algum empecilho em respondê- las?

- De forma alguma, é muito bom que sejam assim. O povo vai entender melhor o que está acontecendo e também o pensamento dos líderes que eles seguem.

Mais uma vez ao responder o senhor Rachna tinha um sorriso singelo nos lábios.

- Ótimo, então comecemos. Ultimamente eu não tenho visto outra coisa que não seja sangue escorrendo nos locais mais sagrados para os homens. O senhor acredita que seja o mesmo que escorreu na pintura de Krishna? E para o senhor, o que esses acontecimentos significam?

- Não tenho nenhuma informação científica que prove ser o

sangue daqui igual aos outros, mas também não posso dizer

que não seja. Quanto aos fatos que estão acontecendo nesses

(41)

locais que o senhor acaba de mencionar, não tenho uma posição a respeito, pois não os vi. Entretanto, o daqui eu acredito que seja um sinal divino.

- O senhor acha que este sinal não tenha aparecido em outros locais. O que o leva a pensar dessa maneira?

- Eu não disse que não acredito naqueles, eu disse que não os vi. Agora, quanto a ser divino, as vezes a simplicidade intriga de tal forma que complica. É quando os mais leigos não entendem e confundem. Deus em sua sabedoria mais uma vez escolheu um local, que também é sagrado, para deixar o seu recado e ensinamento para todos nós que vivemos em uma das suas moradas, sem exceção.

- E esse recado é tão importante a ponto de intrigá-lo, senhor Rachna?

- Roberto, eu acredito que nesse curto espaço de tempo o senhor tenha ouvido dos outros religiosos que, por esses locais onde estão aparecendo os sinais, passaram os grandes profetas e homens considerados santos. Multidões visitam esses locais a procura do entendimento e da paz, eu mesmo já estive neles. Portanto não há como negar que tudo isso seja um aviso. Deus está realmente nos convidando à reflexão.

- Qual o Deus que quer dessa forma, senhor Rachna?

- Krishna. Não existe outro senhor Roberto.

- Senhor Rachna, o que vou lhe perguntar não tem nada de pessoal.

- Mesmo que tivesse eu não o deixaria sem resposta. – Sorriu.

- Seu povo além deste, adora mais uma infinidade de

outros deuses. Qual desses deuses eles optariam para seguir?

(42)

Não estaria o senhor se precipitando nas suas conclusões religiosas ao eleger Krishna como sendo o único Deus?

- Gostei da sua pergunta. O senhor até tem razão em pensar dessa forma, mas existe um detalhe que o senhor desconhece;

realmente são vários deuses que o povo adora, entretanto seus pensamentos são dispersos e nem sempre alcançam a elevação espiritual necessária. Este é o ponto a ser trabalhado e a razão pela qual devemos redirecionar o caminho. Quanto a seguir um Deus é simples. Naquele tempo, o Manifestante de Deus, trouxe uma nova civilização para os de Seu tempo.

Libertou o homem do mal e salvou-o do sofrimento.

Assegurou aos Seus seguidores que no futuro novamente Deus manifestar-se-ia para repetir o que ele, Krishna, tinha feito, isto é, guiar os povos errantes do mundo diretamente ao caminho de Deus. Ele também falou ao seu discípulo amado Barta, que está escrito lá no seu livro sagrado, o “Bhagavad Gita”

8

: – "Sempre que houver declínio da retidão e a injustiça triunfar, ó Barta, então Eu Me manifestarei para proteger o Bem, destruir o Mal e restabelecer a Justiça. Eu Me manifesto de tempos em tempos".

- O que lhe faz crer serem esses sinais verdadeiros e o seu pensamento certo?

- Por tudo que acabo de lhe expor e mais a intuição de um velho pensador. Nada mais que isso. Hoje entendo que precisamos mudar, apesar de ser um desafio enorme o que temos de alcançar.

- O senhor pretende ensinar ao seu povo e ao resto do

8 http://gita.vraja.net/cap/intro.htm

http://www.culturabrasil.org/zip/bhagavadgita.pdf

(43)

mundo esse novo caminho?

- Exatamente, Roberto. Está bem claro o que todos devem fazer. Eu sei que para o senhor que é descrente fica difícil, mas como nosso povo já crê em deuses, não será tão difícil unificar suas crenças em um único. Acredito que Ele esteja nos mostrando qual a sua vontade. Devemos rever tudo que temos feito. Amar primeiramente a um único Deus e em seguida ao nosso próximo. O perdão e a caridade precisam caminhar juntos, pois sem eles não há salvação, aliás, jamais me cansei de ensinar e durante toda a minha vida não fiz outra coisa, que não isso, como exemplo. Creio que o senhor também deva tentar, não custa nada e lhe fará um bem enorme.

- Obrigado pelo seu conselho, senhor Rachna, e me desculpe, mas crer em um Deus para mim ainda é uma idéia muito remota. Quanto ao modo de viver que o senhor menciona, sem a interferência de Deus, eu já pratico.

- Será mesmo? Várias situações colocadas em nossa vida nos parecem favoráveis e acreditamos que estamos ajudando o próximo e contribuindo para o nosso bem estar, mas na realidade o que estamos fazendo sem perceber é adquirindo novas dívidas. Só espero que não demore muito em realizar suas mudanças, Roberto. As consequências pela demora podem ser penosas. Pense nisso, só depende da sua vontade.

Até na repreensão, o velho guru foi generoso, sendo sutil e mostrando um sorriso convidativo e de cumplicidade.

- Também sei disso, mas obrigado pelo alerta. Bem,

chegamos ao final, creio que já tomei muito do seu tempo. –

Roberto resolveu encerrar o encontro por dois motivos; achou

(44)

que poderia estar cansando o velho e simpático guru e porque começou a se sentir desconsertado.

- De forma alguma. Sua entrevista foi realizada dentro do tempo que planejamos.

- Seu conceito de tempo difere do nosso e a sua educação mais ainda, por isso não podemos abusar. Obrigado, senhor Rachna.

- Venha mais vezes. Estarei sempre por aqui para atendê-lo, caso precise.

Terminada a entrevista, Roberto comentou com sua equipe:

- De todos esses líderes que entrevistamos até agora, este velhinho encantador, é para mim o homem mais sábio deles.

Contrariando meus princípios, até arriscaria dizer ser ele um iluminado.

- Realmente a simplicidade e o carisma que ele possui se transforma em luz e nos envolve de tal maneira que dá vontade de não parar de ouvi-lo. – Complementou Júlia.

- Também não é tanto assim, gente. Ele só tem um sorriso cativante, nada mais. – Ponderou Saulo.

- Você não perde a mania de contrariar. Acorda homem. – Reclamou Júlia sorrindo e tentando imitar o guru.

Retornaram a Nova Delhi e agora com mais calma puderam fazer aquela refeição tão desejada. Só viajariam ao Tibet no dia seguinte, pela manhã.

Roberto, Júlia e Saulo mais uma vez levantaram bem cedo.

Tomaram café, fecharam a conta e foram ao aeroporto para

garantir seus embarques, pois foram informados de que havia

muitas pessoas querendo também embarcar para Kathmandu

e de lá para Lhasa. Esses sinais estavam se tornando um

(45)

estorvo para quem dependia em viajar de avião para trabalhar.

***

Para a realização dessa entrevista, foi preciso a intervenção direta da embaixada brasileira junto não só às autoridades do Nepal, como também as do Tibet. Ficou acertado que o próprio Dalai Lama os receberia. O encontro seria oficial e não poderia passar de meia hora, sendo Roberto recomendado para quando se dirigisse ao religioso, usasse o tratamento

“Sua Santidade”. Em vista disso, tão logo chegaram a Lhasa, não perderam tempo e começaram as buscas. Júlia tirou todas as fotos possíveis para uma ampla divulgação e Roberto, junto com Saulo, fizeram uma série de reportagens com os habitantes do local.

- Roberto, você reparou que até o povo tem as mesmas respostas?

- É verdade. Poderíamos ficar no hotel e repetir as primeiras entrevistas. – Comentou Saulo.

- Vamos, gente. Não adianta reclamar! Nós viemos até aqui para trabalhar, não para passear. – Rindo, Júlia mexeu com eles.

- Isso mesmo o trabalho nos espera. Além do mais, “Sua Santidade” não pode ficar a nos esperar. – Ironizou Roberto.

Por volta das 15:00 h Roberto foi recebido por Duzum no Templo Jokhang em frente à estátua dourada de Shakyamuni onde há poucos dias chorara sangue e este, ainda lá, também permanecia intacto.

- Boa tarde, sou o Roberto repórter do Brasil, é um prazer

enorme conhecer “Sua Santidade” e obrigado por me

(46)

conceder seu tempo precioso. – Roberto não conseguiu esconder sua ironia. Achava aquele tratamento ridículo.

- Boa tarde. Roberto, meu nome é Duzum... Devo lembrá- lo que o respeito não está no título que se carrega, mas sim na pessoa que o detém... Ser tratado pelo título também não me agrada em nada, portanto pode me chamar pelo meu nome...

Espero que nosso povo e nossa cidade os estejam acolhendo com carinho? No que posso ajudá-lo Roberto?

- Comungo com o mesmo pensamento senhor Duzum e para sua informação estamos sendo muito bem recebido. – Agora, Roberto já não usava mais de ironia.

- Que bom, fico feliz em saber. Estou a sua disposição, podemos começar?

- Sim, mas só depois que nos deixar ciente do que representa esse lugar para o senhor e seus fiéis.

- Aqui é o centro espiritual do Tibet. Toda a cidade foi construída em torno do Templo Jokhang

9

que é a construção mais antiga, ela foi erguida por volta do ano 641. Aqui durante séculos, no Palácio Potala viveram os Dalai Lamas e onde também se encontram seus restos mortais. Este local no passado antes de ser tomado pela China funcionou como a sede de governo do Tibet. E hoje com a retomada da soberania Tibetana, eu o Dalai Lama e o Panchen Lama pudemos retornar e daqui liderar o Estado e a Religião novamente. Só lamentamos ainda não podermos entrar no território chinês para divulgar a doutrina.

- Obrigado Senhor Duzum pela sua ilustração, serei direto e lhe farei perguntas que já fiz a outros religiosos nesses dias.

9 http://portuguese.cri.cn/165/2007/06/05/[email protected]

(47)

- Ótimo, quanto mais simples e transparente melhor, acredito que a humanidade ficará satisfeita em poder comparar todas as respostas.

- Ótimo, então comecemos; – Esse sangue que escorre em todos esses templos religiosos, inclusive aqui na estátua do Shakyamuni

10

, para o senhor tem alguma coisa a ver com o sagrado ou estão tentando fabricar um milagre?

- Devo confessar que desconheço qualquer informação nesse sentido, e também não creio que seja obra de charlatães, até por que este local como o senhor pode ver é muito bem guardado, qualquer um que aqui entrasse seria logo desmascarado... Não tenho nenhuma dúvida que esses acontecimentos são um sinal Divino.

- Senhor Duzum, esta afirmação que o senhor faz não é precipitada?

- De forma alguma, Deus, depois daqueles locais, mais uma vez escolheu outro local sagrado no mundo para dar seu recado...

- Todos estão tendo o mesmo pensamento, na sua visão qual seria esse recado?

- Roberto, tudo o que você viu faz parte da historia

religiosa de vários povos... Os locais onde estão aparecendo

os sinais são conhecidos como sagrados por toda a

humanidade, vários homens sempre dão um jeito e passam

por esses locais para meditar e sentir sua energia e olha que

eu estou falando de várias épocas, não é de agora que isso

acontece. Pode haver prova mais contundente que Deus está

mais uma vez convidando a humanidade a mudar... Devemos

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