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Cad. Saúde Pública vol.14 número4

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Academic year: 2018

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Cad . Saúd e Púb lic a, Rio d e Jane iro , 14 (4):8 7 6- 87 7 , o ut-de z, 1 99 8 C A RTAS L E T T E R S

P rograma de erradicação do A edes aegypti: inócuo e perigoso (e ainda perd u l á r i o )

The Ae de s ae g yptie rad ic atio n p ro g ram: use le ss, hazard o us (and waste ful, in add itio n)

Lia Gi raldo da Si l va Augusto 1 João Paulo Machado To r res 1 André Mo n t e i ro Costa 1 Ca rlos Pontes 1

Te reza Ca rlota Pirez Novaes 1

1Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva , Ce n t ro de Pe sq u isas Aggeu Ma g a l h ã e s , Fundação Oswaldo Cruz. Rua dos Coelhos 450, 1oa n d a r, Boa Vi s t a , Re c i f e , PE, 5 0 0 7 0 - 5 0 0 , Bra s i l .

Senhor Ed i t o r,

No mundo das fibras ópticas, da engenharia ge-nética e da informática, no qual a ciência aponta pa-ra novos papa-ra d i g m a s, onde a interd i s c i p l i n a ridade e a i n t e g ração do social com o ambiente é o núcleo de seu discurso, deparamos-nos com o trágico pro g

ra-ma que propaga “um país não pode ser derrotado por

um mosquito”, conforme material de divulgação do Mi n i s t é rio da Sa ú d e.

Considerando que: a) a dengue é uma doença p

ro-vocada por um vírus que se aloja no mosquito A ed e s

a e gy p t i ,que o transmite ao homem através da pica-da; b) o mosquito tem um estágio larv á rio no seu ci-clo de vida que depende de cri a d o u ro contendo água p a rada para seu desenvolvimento; c) se não existis-sem cri a d o u ros para as larvas que se tra n s f o rm a m em mosquito, não have ria a doença; um pro g ra m a eficaz seria aquele que centrasse seu foco na elimina-ção de cri a d o u ros e não no mosquito adulto, que faz gastar inutilmente recursos fundamentais para ou-t ras áre a s, como o saneamenou-to básico e a educação a m b i e n t a l .

Independente de outras pro p o s i ç õ e s, re p e t e - s e que um Pro g rama eficiente de controle da dengue n e c e s s a riamente deve centra r-se na eliminação dos c ri a d o u ro s. Entendendo-se cri a d o u ro como sendo águas paradas que são depositárias de ovos do mos-quito (observação: caixas-d’água ou filtros fechados não são cri a d o u ro s, são recipientes que devem ser p rotegidos contra a adição de produtos químicos de qualquer natureza, pois destinam-se ao consumo hu-m a n o ) .

Pro g ramas que não apontem esse caminho são no mínimo perd u l á ri o s, independentemente da ins-tituição de origem e da formação intelectual dos con-s u l t o recon-s que ocon-s indicare m .

A dedução lógica do complexo ciclo da doença aponta para um pro g rama opera t i vo baseado em dois p i l a res: saneamento básico e educação; no entanto, esses componentes foram, na prática, suprimidos do

Pro g rama de Er radicação do A ed e s, perm a n e c e n d o

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pro-8 7 7

Cad . Saúd e Púb lic a, Rio d e Jane iro , 14 (4):87 6 -87 7 , o ut-de z, 1 9 98

C A RTAS L E T T E R S

dutos que são conhecidamente neurotóxicos e aler-gênicos e que, por isto, não dependem de dose para p roduzir seu efeito tóxico.

A análise do pro g rama oficial, surpre e n d e n t e-m e n t e, e-mostra ue-ma dire t riz diferente desta dedução. A pri o ridade do pro g rama oficial está apontada para o combate ao mosquito, que é a terc e i ra fase da ca-deia de tra n s m i s s ã o, pois esta opção é incorreta quan-to à compreensão do processo desta doença, leva n d o à inadequação de procedimentos para o seu contro l e. Testemunhamos um inadequado uso de insetici-das pelos agentes de saúde que estão sendo auxilia-dos por re c rutas do exército em Re c i f e. Na visita, os agentes de saúde informam que estão colocando na

água das caixas d’água um“p ozinho que só é tóxico

p a ra as larvas do mosquito”. Ao ve ri f i c a rmos a natu-reza desse pro d u t o, constatamos no rótulo da emba-lagem que se trata de um org a n o f o s f o ra d o, de nome técnico Te m e f ó s, cujo nome comercial é Abate (um a g rotóxico).

Este produto é bastante conhecido como neuro-tóxico para humanos, fragiliza músculos e nervos e p a ra o qual há evidências em estudos experi m e n t a i s

de efeito mutagênico (Haz a rdous Substances Da t a

Bank Nu m b e r956, 1993). Quanto a possíveis efeitos c a rc i n o g ê n i c o s, solicitamos ao De p a rtamento de Qu í-mica da Un i versidade Fe d e ral de Pe rnambuco uma a valiação do pro d u t o.

Ainda mais surpresos ficamos ao ver que o ve n e-no Temefós é colocado periodicamente em todas as caixas d’água, mesmo aquelas que estão fechadas e que portanto não são cri a d o u ro s. O cálculo de quan-tidade de veneno é feito com o auxílio de uma tabela, que em Pe rnambuco é o dobro da utilizada em São Pa u l o, e usa como medidas: colhere s / b i s n a g a s, le-va ndo em consideração o tamanho físico do re s e rle-va- rva-t ó ri o, independenrva-temenrva-te do volume de água que no momento esteja dentro dele. Assim, podem aumen-tar em muito a concentração do ve n e n o, pondo em risco a vida de pessoas que estão tomando água com q u a l i d a d e, certificada pela empresa de saneamento do estado (Compesa) e pela Vigilância Sa n i t á ria da Se c re t a ria Estadual de Sa ú d e.

Na condição de sanitari s t a s, re a f i rmamos que o modelo de combate à doença está equivo c a d o.

Os próprios agentes de saúde, ao pegarem o pa-cote de ve n e n o, ficam com as mãos cheias da subs-tância tóxica e, como não sabem do ri s c o, expõem-se a esse produto químico sem nenhum cuidado. Po r meio deste alerta queremos que a população não p e rmita que se coloque produto tóxico em suas águas de consumo, bem como a Saúde Pública deve ria

re-ver urgentemente o m odus faciendideste pro g rama.

A população deve ser orientada para cobrir seus re s e rva t ó ri o s, recolher o lixo e não deixar água para-da. Na ve rd a d e, o controle da dengue deve ria ser feito com água, sabão, va s s o u ra, medidas de higiene am-biental, saneamento e educação, tudo muito mais

ba-rato do que o uso de substâncias químicas tóxicas. L e m b ramos que o Manual de Combate à Dengue fei-to pela Se c re t a ria de Estado da Saúde de São Pa u l o

(1997) enfatiza que: “Na ve rd a d e , se todos colabora

s-s e m , não s-seria neces-ss-sário us-sar ins-seticidas-s. A f i n a l , d e alguma forma esses inseticidas sempre prejudicam a s a ú d e , especialmente de crianças, idosos e pessoas a l é r g i c a s”. Mais uma questão que pre c i s a ria ser ava-liada seriamente é o uso de outro produto tóxico no fumacê: o pire t r ó i d e, que provoca reações alérg i c a s

em pessoas sensíveis (Meditext (R)-Med ical Ma n a g

e-m e n t 0.0 ove rv i ew, 01/31/98). Neste sentido, também é um absurdo o uso dessa substância de forma indis-c riminada, sem uma avaliação objetiva de sua efiindis-cá- eficá-cia e de o u t ros danos que provoca à saúde e ao am-b i e n t e.

Referências

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