http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/3602/2/Silvia%20Maria%20Damasceno%20Ribeiro%20Nat%C3%A1rio
Texto
(2) Silvia Maria Damasceno Ribeiro Natário. Taiwaneses Protestantes em Mogi das Cruzes A Igreja Presbiteriana e Formosa: um estudo de caso. Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito à obtenção de Título de Mestre em Ciências da Religião.. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun. São Paulo, SP 2017.
(3) N273t Natário, Silvia Maria Damasceno Ribeiro. Taiwaneses protestantes em Mogi das Cruzes - A Igreja Presbiteriana de Formosa : um estudo de caso / Silvia Maria Damasceno Ribeiro Natário 133 f. : il. ; 30 cm Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2018. Orientador: Prof. Dr. Ricardo Bitun Bibliografia: f. 103-109 1. Taiwaneses. 2. Aculturaçăo. 3. Protestantes. 4. Igreja Presbiteriana de Formosa. I. Bitun, Ricardo, orient.. LC: BL65.C8.
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(5) “A vida espiritual dos homens, os seus impulsos profundos, o seu estímulo à ação são as coisas mais difíceis de prever, mas é justamente delas que depende a morte ou a salvação da humanidade.”. (Andrei Sakarov).
(6) Dedico este trabalho a minha querida mãe pelo constante incentivo em prol da minha formação. acadêmica.. familiares,. esposo. e. Aos. meus. amigos. pela. confiança na realização deste..
(7) AGRADECIMENTOS. À Deus, fonte de toda sabedoria e ciência, pela direção e coragem no decorrer da caminhada, proporcionando a plena realização desta conquista por anos aguardada. Aos meus pais que estiveram sempre ao meu lado, em todas as circunstâncias, ensinando os princípios a serem seguidos na vida. Aos meus irmãos, pelo companheirismo e apoio. À Igreja Presbiteriana de Formosa pela contribuição como campo de pesquisa. Aos Professores e Doutores do programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie por compartilharem conosco seus enriquecedores conhecimentos transmitidos ao longo do curso. Ao Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira pela orientação, transmissão de seus conhecimentos, comentários e sugestões apontadas durante o decorrer do curso e no desenvolvimento do trabalho de pesquisa. Aos Professores Dr. Ricardo Mariano, Dr. Ricardo Bitun e Dr. Antônio Maspoli de Araújo Gomes, componentes da banca, pelos apontamentos realizados e sugestões que contribuíram para o aprofundamento da pesquisa. À instituição Presbiteriana Mackenzie pela oportunidade na evolução acadêmica e no desenvolvimento das habilidades e competências que norteiam a prática docente. À Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual faço parte como membro, pela qual tenho profunda estima e consideração..
(8) RESUMO Este trabalho tem como objetivo analisar a composição da etnicidade e da identidade religiosa, que desempenha papel unificador no grupo de imigrantes taiwaneses protestantes, que ao longo de meio século de aculturação e interação social vem compondo o cenário da diversidade cultural e religiosa na cidade de Mogi das Cruzes no Estado de São Paulo. Esta pesquisa tem como objeto de estudo a Igreja Presbiteriana de Formosa, localizada em Mogi das Cruzes e composta em sua maioria por taiwaneses imigrados para o Brasil, provindos da Ilha Formosa-Taiwan, que se estabeleceram nessa cidade na segunda metade do século XX. A análise faz uma abordagem histórica da formação da Igreja Presbiteriana de Formosa e seus desdobramentos, com a dedicação e trabalho das seis primeiras famílias que chegaram ao município em 1963, responsáveis pela construção do primeiro templo no bairro de Botujuru. A preocupação coletiva e prioritária de preservação da fé protestante em solo brasileiro norteava a forma de viver do grupo; motivado pela esperança de ser o Brasil uma terra próspera, assim como foi a terra de Canaã para os israelitas.. Palavras-chave: taiwaneses, aculturação, protestantes, imigração, etnicidade, Igreja Presbiteriana de Formosa, Mogi das Cruzes..
(9) ABSTRAT This work aims to analyze the composition of ethnicity and religious identity, which plays the unifying role of the group of Taiwanese protestant immigrants, who during half a century of acculturation and social interaction has been composing the scenario of cultural and religious diversity in City of Mogi of the Crosses in the State of São Paulo. This research has as object of study the Presbyterian Church of Formosa, composed mostly of Taiwanese emigrants to Brazil from Taiwan Island, who settled in the city of Mogi of the Crosses in the second half of the twentieth century. The analysis takes a historical approach to the formation of the Presbyterian Church of Formosa and its unfolding, with the dedication and work of the first six families who arrived in the municipality in 1963, responsible for the construction of the first temple in the neighborhood of Botujuru. The collective and priority concern for the preservation of the Protestant faith in Brazilian soil, guided the way of living of the group; Motivated by the hope of Brazil as a prosperous land, just as it was the land of Canaan for the Israelites.. Key. words:. Taiwanese,. acculturation,. Protestants,. Presbyterian Church of Taiwan, Mogi of the Crosses.. immigration,. ethnicity,.
(10) LISTA DE TABELAS. Tabela 1: População Recenseada - Região Metropolitana. de. Sã o Paulo. e. Municípios, 1950, 1960, 1970, 1980, 1991, 2000, 2010. ........................ 110 Tabela 2: População residente, total, urbana total e urbana na sede municipal em números absolutos e relativos, com indicação da área total e densidade demográfica, segundo as Unidades da Federação e municípios/2010. . 110 Tabela 3: Religião de acordo com o Censo 2010, cidade de Mogi das Cruzes. ..... 110 Tabela 4: Distribuição dos trabalhadores por tipo de estabelecimento - Estado de São Paulo – 1940, 1950, 1960, 1970 ..................................................... 111 Tabela 5: Informação sobre a membresia das Congregações da Igreja Presbiteriana de Formosa nos Bairros de Mogi das Cruzes/SP ................................... 111 Tabela 6: Informação sobre a membresia da sede da Igreja Presbiteriana de Formosa em Mogi das Cruzes – Bairro Mogilar ..................................... 111 Tabela 7: Calendário Anual de Programações da Igreja Presb. de Formosa ......... 112.
(11) LISTA DE FIGURAS. Figura 1: Mapa Político de Mogi das Cruzes ........................................................... 18 Figura 2: Mapa Político do Estado de São Paulo .................................................. 18 Figura 3: Vista parcial da cidade de Mogi das Cruzes, 2017 .................................. 19 Figura 4: Mogi das Cruzes, década de 1940 ........................................................... 20 Figura 5: Trem Alvorada, parado na antiga estação de Mogi das Cruzes, no dia de sua primeira viagem.............................................................................24 Figura 6: Vista parcial de Mogi - Rua Senador Dantas, antiga Rua Oriente Mogi ... 25 Figura 7: Imigrantes taiwaneses na embarcação para o Brasil ............................... 34 Figura 8: Primeiros imigrantes taiwaneses e o primeiro. templo. da Igreja. Presbiteriana de Formosa no bairro de Botujuru - Mogi das Cruzes/SP .. 47 Figura 9: Interior do primeiro templo ....................................................................... 48 Figura 10: Interior do primeiro templo. Os quadros afixados na. parede retrata a. trajetória da viagem migratória dos taiwaneses, desde sua saída de Taiwan até a construção do templo em Botujuru. .................................. 49 Figura 11: Parte externa do primeiro templo da Igreja Presbiteriana de Formosa no bairro do Botujuru em Mogi das Cruzes ................................................. 50 Figura 12: Parte externa do templo atual: representação de duas palmas de mãos em sentido de oração ............................................................................. 56 Figura 13: Portal de entrada da Igreja Presbiteriana de Formosa .......................... 57 Figura 14: Templo da congregação no bairrp do Botujuru ...................................... 63 Figura 15: Logotipo: Presbyterian Church in Taiwan (PCT), o mesmo utilizado pelos taiwaneses presbiterianos no Brasil. ............................................ 64.
(12) Figura 16: Celebração dos 150 anos da Presbyterian Church in Taiwan ............. 68 Figura 17: Festa Caipira Naite, na quadra esportiva da Igreja em 2016. ................ 90 Figura 18: Igreja Presbiteriana em Taiwan. ............................................................. 97 Figura 19: Sala de aula da escola bíblica dominical, multirracial. ......................... 101.
(13) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS. ROC: .............................. República da China RPC: ............................... República Popular da China PCT: ............................... Presbyterian Church in Taiwan IDHM: ............................. Índice de Desenvolvimento Humano Municipal PNB: ............................... Produto Nacional Bruto IPF: ................................. Igreja Presbiteriana de Formosa em Mogi das Cruzes ISP: ................................ Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa em São Paulo PIB: ................................ Produto Interno Bruto IBGE: ............................. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
(14) SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 14 CAPÍTULO I - A CIDADE DE MOGI DAS CRUZES NO CONTEXTO DA IMIGRAÇÃO ............................................................................................................. 18 1.1. Localização e Aspectos Geográficos de Mogi das Cruzes ............................. 18 1.2. Retrato de Mogi das Cruzes: Breve Histórico ................................................. 20 1.3. Atividade Econômica de Mogi das Cruzes: O Cinturão Verde e Avicultura .... 26 1.4. Diversidade Étnica da População Mogiana ..................................................... 32 1.5. Os Primeiros Desafios na Nova Terra ............................................................. 34 1.6. As Primeiras Atividades Econômicas: Cultivo de Cogumelos e Avicultura ..... 37 CAPÍTULO II - ESTABELECIMENTO E FORMAÇAO DE UMA COMUNIDADE ÉTNICA PROTESTANTE: A Igreja Presbiteriana de Formosa em Mogi das Cruzes ...................................................................................................................... 40 2.1. O Cenário de Taiwan, após 1949: Fatores que impulsionaram a emigração .. 40 2.2. Brasil: Uma Terra Messiânica: O Altar de Abraão........................................... 42 2.3. Breve Histórico da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa em São Paulo . 44 2.4. Motivação da migração para a cidade de Mogi das Cruzes ............................ 46 2.5. O Primeiro Templo .......................................................................................... 47 2.6. A Inauguração do Templo em Botujuru e o Primeiro Pastor ........................... 50 2.7. Mudança de Templo: Crescimento e Conquistas............................................ 52 2.7.1. Simbolismo Arquitetônico do Templo ........................................................... 55 2.8. Governo e Liderança Eclesiástica ................................................................... 58 2.9. As Congregações: Ministério de Evangelização entre aos Brasileiros ........... 61 CAPÍTULO III – RELIGIÃO E ETNICIDADE ............................................................. 64 3.1. Identidade Religiosa: A Herança da Fé Protestante ....................................... 64 3.2. Confissão de fé da Igreja Presbiteriana de Formosa em Mogi das Cruzes .... 68 3.3. Religiosidade: Fatos e memórias .................................................................... 70 3.4. Identidade Étnica ............................................................................................ 78 3.4.1. Sociabilidade e Aculturação ......................................................................... 85 3.5. Vida de Privações e Ascensão Social: Cinquentenário no Brasil .................... 91 3.6. Rede de Contato Ministerial Nacional e Transnacional ................................... 95 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 98 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................................... 103 ANEXOS ................................................................................................................. 110.
(15) 14. INTRODUÇÃO. Ao visitar pela primeira vez a Igreja Presbiteriana de Formosa em Mogi das Cruzes, a sensação de imediato foi de estar em um outro país dentro do Brasil. Deparei-me admirada com uma espantosa quantidade de cristãos taiwaneses e seus descendentes congregando em um templo espaçoso, com uma ordem litúrgica e ministração de sermão na língua materna, o taiwanês. Missões transculturais sempre me chamaram a atenção e estar no ambiente do templo da Igreja Presbiteriana de Formosa foi como se eu estivesse vivenciando uma missão em outra etnia, sem sair do país. Participar pela primeira vez do culto em um ambiente composto por um grupo étnico diferente do meu foi uma experiência singular, que me levou a alguns questionamentos acerca dos fatores que estão estreitamente relacionados à aglutinação dos taiwaneses na cidade de Mogi das Cruzes: os aspectos étnicos, a identidade religiosa, ou ambas as possibilidades que coexistem. Surge, então, a pesquisa: Taiwaneses Protestantes em Mogi das Cruzes: A Igreja Presbiteriana de Formosa – um estudo de caso. Outras indagações permeiam a questão, dentre elas: como se descreve a história desses imigrantes? Que fatores impulsionaram a vinda das primeiras famílias de Taiwan para ao Brasil? Quais foram os primeiros desafios na nova terra? Como se deu a busca pela manutenção da identidade étnica ao longo do tempo? Como tem sido o processo de aculturação? Qual é a história de formação da Igreja? Ao. analisar a. estrutura do templo,. que. comporta aproximadamente. quatrocentas pessoas e conta ainda com um amplo refeitório, um prédio educacional ao lado, reservado para as salas de aula e uma ampla quadra esportiva, considerei que toda essa estrutura física fosse uma demonstração de que os taiwaneses, além de se estabelecerem na região, expandiram-se em seus projetos de vida, consolidaram sua identidade religiosa e reconstruíram sua etnicidade em um outro país. A imigração dos taiwaneses na segunda metade do século XX para a cidade de Mogi das Cruzes marca o panorama da rica diversidade religiosa no perfil do Brasil plural. A trajetória histórica da Igreja Presbiteriana de Formosa (IPF) no município. de. Mogi contribui para a compreensão da complexidade da igreja étnica no Brasil. Neste.
(16) 15. trabalho há um esforço para descrever os fatores que contribuíram para a composição desse grupo étnico e religioso, desempenhando a função de unificadores sociais para esse grupo de imigrantes taiwaneses em processo de aculturação. A experiência religiosa trazida pelos imigrantes da ilha de Taiwan completou 54 anos de história em solo brasileiro em outubro de 2017. Essa experiência carrega, em mais de meio século, quatro gerações de transmissão cultural, social e religiosa que compõem o cenário de pluralismo étnico na região metropolitana de São Paulo e por que não dizer no Brasil. Para o procedimento da pesquisa em questão, os instrumentos metodológicos utilizados consistiram em análise bibliográfica e pesquisa de campo antropológica através da etnografia, fazendo uso do método indutivo empírico de convivência participante do pesquisador no processo de investigação nas programações sócio religiosas do grupo. Foram registradas as informações orais realizadas através de conversas formais e informais que abrangem o resgate das memórias, dos relatos da história dos membros do grupo e das experiências pessoais, que fazem parte de peças de um mosaico, que unidos, abrangem um todo, com a finalidade de se observar as tradições étnicas, as práticas sociais, as crenças religiosas, os anseios, as aspirações e o comportamento do grupo social. Através da pesquisa participante, foi possível coletar informações por intermédio de questionários e entrevistas que abrangeram diversas faixas etárias, entre elas, as pessoas mais idosas do grupo, bem como a geração mais jovem da comunidade e os oficiais1 da Igreja. A pesquisa documental foi realizada através da análise de depoimentos registrados no Álbum de Aniversário da Igreja, que contém informações preciosas sobre a história da Igreja, seus desdobramentos, a experiência religiosa individual e coletiva dos seus membros e o significado da fé vivenciada e compartilhada pelos anseios do grupo, além de recurso audiovisual e material jornalístico com informações contextualizadas do grupo. O primeiro contato com os taiwaneses ocorreu em uma reunião de culto num domingo pela manhã no mês de março de 2016, no templo da Igreja Presbiteriana de Formosa. A recepção foi acolhedora, o que possibilitou o acesso ao salão de culto. Para minha surpresa, deparei-me com um considerável número de taiwaneses, bem. 1 Os oficiais da igreja taiwanesa protestante são membros eleitos pela membresia da igreja a ocuparem cargos de serviço na igreja de acordo com seus dons e talentos, tais como diáconos, presbíteros e pastores..
(17) 16. trajados, uníssonos, entoando cânticos2 protestantes, em taiwanês. A experiência de ver um grupo coeso de aspecto oriental compartilhando do mesmo espaço físico, surpreendeu-me a ponto de sentir como se estivesse introduzida no interior de uma outra cultura, transcultural. A língua dominante era o taiwanês, contudo, a compreensão do conteúdo foi possível devido à tradução simultânea do sermão e dos cânticos espirituais para a língua portuguesa. Até mesmo os avisos eram transmitidos primeiramente na língua materna e posteriormente traduzidos. Após o encerramento do culto, uma fila se formou para os tradicionais cumprimentos com o pastor, momento oportuno em que me apresentei pedindo-lhe algumas informações e fui logo convidada para descer as escadas e me dirigir ao espaçoso refeitório no andar térreo a fim de participar do almoço comunitário com o grupo. A participação dos taiwaneses no almoço comunitário é uma extensão da comunhão, compartilhada por todos. Outra surpresa foi perceber que a grande maioria se comunicava em taiwanês, inclusive as crianças, o que tornou inicialmente um grande desafio a minha comunicação com eles. Por várias vezes tive a impressão de ser um peixe fora d’água - devido às dificuldades linguísticas - o que criou, de início, um estranhamento cultural. Contudo, com o passar do tempo, essas barreiras foram diminuindo e me aproximei daqueles que permitiam o diálogo. No período de quase dois anos de pesquisa, os contatos também se deram por meio de telefonemas e através das redes sociais, o que contribuiu para dinamizar a pesquisa.. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: Etnicidade e Aculturação. Com referência às teorias relacionadas à identidade, Roberto Cardoso de Oliveira, em sua obra: Os Caminhos da Identidade, realiza uma abordagem que permite elucidar a identidade como um objeto de investigação antropológica ou sociológica, inerente ao estudo de caso do grupo pesquisado. A teoria que trata da identidade étnica e de sua natureza contrastiva nos processos culturais, construída pelo grupo de taiwaneses, é vista, também, sob as lentes da teoria da pesquisadora Manoela Carneiro da Cunha organizadora do livro: Identidade Étnica.. Com base na. teoria da identidade, João Baptista Borges Pereira escreve sobre: Identidade. 2. Os hinos utilizados pelos presbiterianos taiwaneses são provindos do hinário de Taiwan e não fazem parte do hinário Novo Cântico, informações obtidas em entrevista com a liderança da Igreja, pastor Jônatas Chen..
(18) 17. Protestante no Brasil de Ontem e de Hoje, artigo do livro: Religare: Identidade, Sociedade e Espiritualidade, baseado no esquema de Roberto Cardoso de Oliveira. Para a compreensão dos fatores que contribuíram para o estabelecimento e permanência do grupo em Mogi das Cruzes, na área rural da cidade, foi realizada a contextualização da região em seus aspectos geográficos e socioeconômicos, abordados no primeiro capítulo. O segundo capítulo discorre sobre a formação da comunidade. étnica. protestante,. com. levantamento. histórico. dos. fatores. impulsionadores da imigração de Taiwan, dos desafios enfrentados na nova terra e seu estabelecimento. A abordagem realizada no terceiro capítulo nos remete a uma compreensão da construção da identidade étnica religiosa e dos processos de aculturação e ascensão social do grupo. Considerada a maior Igreja que agrega a etnia taiwanesa e seus descendentes na América Latina, a Igreja Presbiteriana de Formosa esforça-se em preservar a língua materna – o taiwanês – como a primeira língua dentro do espaço religioso. A conservação dos costumes, da língua, das crenças e dos casamentos endógenos, tornam-se elos de identidade étnica contrastiva e de preservação cultural, no decorrer de 54 anos de história em Mogi das Cruzes. Esta dissertação apresenta investigações baseadas em fatos narrados que revelam descobertas culturais de um grupo minoritário, originariamente oriental, em processo de aculturação, cujo protagonista – o imigrante taiwanês – demonstra atos de coragem e determinação, não relatada em livros.. Observei inclusive uma. considerável escassez de estudos e raras pesquisas acadêmicas relacionadas à imigração e à interação entre a cultura taiwanesa e a brasileira. Este trabalho fornecerá dados para futuros pesquisadores ampliarem seus conhecimentos nas múltiplas áreas das ciências humanas e das ciências da religião, porque ele se insere no universo do campo religioso protestante, dotado de notório valor étnico-cultural, o que enriquece o panorama histórico brasileiro..
(19) 18. CAPÍTULO I - A CIDADE DE MOGI DAS CRUZES NO CONTEXTO DA IMIGRAÇÃO. 1.1. Localização e Aspectos Geográficos de Mogi das Cruzes. Figura 1: Mapa Político de Mogi das Cruzes3. Figura 2: Mapa Político do Estado de São Paulo, em destaque a cidade de Mogi das Cruzes 4. 3. Informações obtidas em:<https://viniciuscarvalhoblog.wordpress.com/2014/09/01/mogi-das-cruzes. Acesso em: 24.Mar.2017. 4 Informações obtidas no site do Município de Mogi das Cruzes, disponível em:<https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:SaoPaulo_MunicipMogdasCruzes.svg. Acesso em: 24.Mar.2017..
(20) 19. Figura 3: Vista parcial da cidade de Mogi das Cruzes, 2017 5. Apontada como sétima na colocação entre as melhores cidades brasileiras para se viver,6 o município de Mogi das Cruzes está localizado na parte leste do Estado de São Paulo, que compreende a área do Alto do Tietê, na região Metropolitana da cidade de São Paulo. Mogi das Cruzes faz divisa com os municípios de Suzano, Itaquaquecetuba, Arujá, Santa Isabel, Guararema, Biritiba Mirim, Santos e Santo André. A topografia é relativamente plana, com pequenas elevações, salvo a Serra de Itapeti e Serra do Mar. A altitude é de 743.710 metros, em relação ao nível do mar e sua superfície é de 731 quilômetros quadrados. O clima é temperado úmido e a vegetação abrange o bioma da Mata Atlântica.. Devido à ocupação dos índios Tupi na região, a paisagem geográfica recebeu termos de origem indígena; raro é o nome cujo vocábulo não seja indígena. Em Mogi os índios nomearam Botujutu, Capetuba, Sabaúna, Cocuera, Capichinga, Itapety, Tayassupeba, Guararema, Mogy, Pindorama, e outros. (...). O rio Tietê é o principal curso d’água que corta o município, sendo seus tributários principais os rios Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba. (Grinberg, 1981, p.78).. Tendo em vista o vertiginoso desenvolvimento que atingiu a região, esta sofreu uma média de crescimento da ordem de 5% ao ano, o que significa que em 1975 a população. 5. do. Município. que. era. de. 180.000. habitantes. passou. para. Informações obtidas em:<http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/especial-publicitario-mogiagora/platb/2014/11/06/mogi-das-cruzes-e-eleita-a-7a-melhor-cidade-para-se-viver/. Acesso em: 18. Abr.2017. 6 O ranking foi produzido com exclusividade para a publicação “América Economia Brasil”, publicado em 2013 e levou em consideração dados do IBGE e da ONU, fatores como a qualidade de vida da população local, dados do Censo 2010, do Produto Interno Bruto (PIB) e do Índice de Desenvolvimento dos Municípios (IDHM)..
(21) 20. aproximadamente, 387.779 em 2010, de acordo com o levantamento de dados do IBGE, 2010.. 1.2. Retrato de Mogi das Cruzes: Breve Histórico. Figura 4: Mogi das Cruzes, década de 19407. Desde. 1601,. nos. mais. antigos. primórdios,. quando. povoadores. se. estabeleceram em Sant’Ana das Cruzes de Mogi Mirim, como era denominada, até os dias atuais são 416 anos de registros da história da cidade de Mogi das Cruzes. Taunay havia escrito, em 1935 que “a história de Mogi das Cruzes está por se fazer”, (GRÍNBERG, 1961, p. 9). Ela foi interpretada e traduzida através de documentos do Arquivo da Prefeitura Municipal e descrita por historiadores, entre eles, Isaac Grínberg8, “que contribuiu para legitimar a identidade do povo mogiano”. (MORAES, 2010, p. 17).9 Um levantamento dessa história revela um material rico em. 7. Imagem extraída do livro "Memória Fotográfica de Mogi das Cruzes", de Isaac Grímberg,1986. Disponível em> http://pauloaugustomkt.blogspot.com.br/2010/01/historia-de-mogi-das-cruzes.html. Acesso em 18.Mai.2017. Mogi Cruzes década de 1940, Rua Dr. Deodato Wertheimer - a ligação norte-sul e um dos principais corredores comerciais da cidade, no trecho hoje transformado em calçadão, traz à esquerda a Igreja do Rosário, que deu lugar a um hotel, e em frente a popular Praça João Pessoa (Gogelis, 1949). 8 Isaac Grínberg, historiador obstinado no empenho de consagrar a história de sua querida cidade de Mogi das Cruzes, escreve com dedicação um repositório de milhares de acontecimentos registrados no município desde seus primórdios. De todos os pesquisadores sobre temas mogianos, o que deixou maior produção foi sem dúvida, Isaac Grínberg. São dele os livros: História de Mogi das Cruzes (1961); Mogi das Cruzes de Antigamente (1964), Retrato de Mogi das Cruzes (1974), História da Justiça em Mogi das Cruzes (1977), Gaspar Vaz fundador de Mogi das Cruzes (1980), Mogi das Cruzes de 1601 a 1640 (1981); Folclore de Mogi das Cruzes (1983); Memória Fotográfica de Mogi das Cruzes (1986), e Viajantes Ilustres em Mogi das Cruzes (1992). Com formação jornalística e ligação afetiva com a cidade, sempre se dedicou a pesquisar a respeito dela, da qual colecionou grande acervo documental. (Dias, 2010, p. 30;31). 9 Mário Sérgio de Moraes é doutor pela Universidade de São Paulo (USP), professor universitário na FAAP (Faculdade Armando Álvares Penteado) e na UMC (Universidade de Mogi das Cruzes). Publicou as seguintes obras: “O Ocaso da Ditadura” “Pedra da Vigia”, “Eros”; “História da Imigração Japonesa em Mogi das Cruzes” e “Nova História de Mogi das Cruzes”. Editora Mogi News. São Paulo, 2010..
(22) 21. descobertas, envolvendo mitos e heróis com atos de bravura e desbravamento de terras, como narra Moraes:. (...) envolvendo desde sua fundação, o povoado, os indígenas, a religião (catolicismo acentuado), o relevo, um rio de águas puras (Tietê), uma serra própria (Serra do Mar: Mogi-Bertioga), privilégio de poucas cidades do Brasil (Moraes, 2010, p.13).. Com mais de quatro séculos de fundação, muitos sítios arqueológicos foram encobertos por construções. Estudos arqueológicos realizados pela doutora Margarida Andreatta, revelaram restos de cerâmica e líticos polidos referentes ao início do contato entre os brancos e os habitantes originais da terra, entre os séculos XVI ao XVII. “Através do levantamento dessas fontes históricas é possível fazer uma pré-história da região” (Moraes 2010, p.15). Até a metade do século XIX, Mogi das Cruzes serviu de passagem para viajantes e tropeiros que se dirigiam ao estado de Minas Gerais e ao litoral paulista. No seu livro “Cultura e opulência do Brasil”, André João Antonil aponta Mogi como passagem de tropeiros e entreposto comercial: “Dahí vão à aldeia de Tacuaquisetuba, caminho de um dia. Gostarão da dita aldeia até a Villa de Mogi dois dias. De Mogi vão as laranjeiras, caminhando quatro ou cinco dias até as três horas...” (ANTONIL, 1711).. A história nos remete à memória de que na região onde é hoje a cidade de Mogi não havia brancos. A região era habitada por índios ferozes que matavam bandeirantes em expedições pela conquista da região. Em 1590 o bandeirante Domingos Luís Grou morreu com quase todos os seus cinquenta homens em combate com os índios. Os que restaram embrenharam-se nas matas e somente em 1593 conseguiram regressar a São Paulo, onde compareceram à Câmara Municipal fazendo declarações que deixaram os vereadores apavorados com as ameaças dos silvícolas de fazer um cerco em São Paulo. Em consequência, a Câmara paulista deu ordens ao capitão Jorge Correia para que se organizasse uma guerra contra os nativos de Mogi. Em 1594, o capitão Jorge Correia comandou uma entrada de guerra.
(23) 22. contra os índios “pés largos”, dizimando-os. Os poucos que se salvaram, fugiram para o sertão (GRÍNBERG, 1992, p. 14).10 No entanto, os índios Tupi deram grande contribuição para o crescimento da povoação e da vila nos primeiros anos de Sant’Ana de Mogi das Cruzes, formando aldeamentos compostos por mamelucos, que eram filhos de portugueses com as índias. A contribuição indígena também é notada nos nomes dos bairros, rios e serras, além de alguns termos utilizados até hoje como carpir, cutucar, sapecar, e, ainda, arapuca, pipocar, caipira, tapera, capoeira, canoa, jururu, caipora, cuia e outros tantos de origem Tupi. Os bugres serviam como escravos aos seus senhores. (GRÍNBERG,1981, p. 78, 79, 80). Os nativos não eram bem vistos pelos povoadores da Vila de Mogi. O ofício do governador de São Vicente, Dom Luiz Antônio de Souza Botelho Mourão, datado de 21 de dezembro de 1776, enviado ao Rei, declara essa realidade: “As aldeãs de índio que Sua Majestade que Does guarde…no território da vila de Mogi das Cruzes pela mistura das cores melhoria a civilização visto que os índios gozam de muito baixa reputação...”.. A partir da dizimação de parte dos indígenas e da domesticação dos que restaram, criou-se condições para o início do povoamento de brancos. Com a chegada de Dom Francisco de Souza, governador geral do Brasil, em 1599, os brancos desejaram a todo custo pesquisar e descobrir as riquezas minerais que acreditavam existir, e com razão, na região de Minas Gerais, onde efetivamente foram encontradas. O caminho de acesso à região, no entanto, era muito penoso, em alguns trechos era feito apenas pelo rio Tietê. Em 1601, Dom Francisco decidiu abrir o primeiro trecho de estrada de acesso à região e entregou a empreitada a Gaspar Vaz e seus homens, que construíram a estrada e chegaram à região, hoje ocupada por Mogi das Cruzes. Ao chegar, gostaram da região e decidiram morar no novo sítio. Tornaram-se proprietários de uma gleba para plantar, o que era impossível em São Paulo, pois as terras já eram bem povoadas. O sítio se tornaria, logo em seguida, o início do povoamento em Mogi das Cruzes. A abertura da estrada possibilitou muitos. 10. GRÍMBERG, Isaac. Viajantes Ilustres em Mogi das Cruzes. Editora São Paulo: São Paulo, 1992, p.14..
(24) 23. paulistanos transitarem por ela e alguns, com certeza decidiram residir no novo povoado (GRÍNBERG, 1992, p. 16, 17, 24). Através de um requerimento encaminhado ao Governador Dom Francisco, Gaspar Vaz e seus companheiros pediram a elevação do lugarejo à vila, o que despertou grande simpatia do governador pela sua povoação, pois ele tinha interesse na criação da vila de Mogi. Sérgio Buarque de Hollanda apontou boa razão para justificar essa suspeita sobre o interesse do governador na criação da vila de Mogi: “embora o mínimo exigido fosse de trinta assinaturas, o requerimento de Gaspar foi aceito com apenas vinte assinaturas”. Gaspar Vaz assinou o requerimento que o identificava como primeiro morador em Mogi Mirim e afirmava que seus subscritores iniciaram a povoação a mandado do Governador que incentivava a povoação e declarava que “a terra é boa e que em São Paulo não têm terras” (...). Com a justificativa de que se devia ter outra vila porque os moradores de São Paulo – naquele ano de 1611 – “viviam muito juntos e apertados!” Finalmente em 15 de Agosto de 1611 o Capitão Gaspar Coqueiro atestou, entre outras razões, que a criação da nova vila não prejudicava a cidade de São Paulo “por haver muita gente, e estarem apertados, e não terem donde lavrarem” (GRÍNBERG, 1992, p.18). Com o falecimento do governador Dom Francisco, o seu filho e sucessor Dom Luís e Souza, decretou o despacho criando a vila em 17 de Agosto de 1611, que até então, pelos documentos, era conhecida por Boigi, Mogymirim, Boixi Miri, Boisi Mirim, Boigi Mirim, povoação de Sant’Anna e Povoação Nova” (Sesmarias, vol. I, 1921, p. 28, 38). Criada a vila, era preciso proceder à sua solene instalação, marcada para o dia 1º. de Setembro de 1611. Nesta data chegou à vila o primeiro viajante ilustre: Gaspar Conqueiro, poderoso capitão da Capitania (GRÍNBERG, 1992, p.19). Em 1561, Brás Cubas tomou posse das terras que lhe são dadas por sesmaria, fundando a fazenda Pequeri, que teria sido a semente de que nasceu Mogi das Cruzes, que na época denominou Boigy11 (GRÍNBERG, 1961, p. 15).. 11. Mogi é uma alteração de Boigy que, por sua vez, vem de M'Boigy, o que significa "Rio das Cobras", denominação que os índios davam a um trecho do Tietê. Quando a Vila foi criada em 1611, devido ao costume de adotar o nome do padroeiro, passou a ser denominada "Sant'Anna de Mogy Mirim". Na língua indígena, Mirim quer dizer pequeno. Provavelmente, uma referência ao riacho Mogi Mirim. A linguagem popular tratou de acrescentar o termo "cruzes" ao nome oficial da Vila. Era costume dos povoadores sinalizar com cruzes os marcos que indicavam os limites da Vila, de acordo com tese de Dom Duarte Leopoldo e Silva, confirmada pelo historiador e professor Jurandyr Ferraz de Campos. Informações obtidas no site do COMPHAP (Conselho.
(25) 24. Há, no entanto divergências à cerca da data e do fundador de Mogi das Cruzes. Oficialmente a fundação remonta a 1560 e o fundador sendo Brás Cubas - o que vem sendo comemorado anualmente, porém estudos realizados com base na documentação do Prof. Emílio Ferreira em 1935, apontam Gaspar Vaz como principal fundador da cidade, que nasceu por volta de 1601 (GRÍNBERG, 1974, p.117).. Figura 5: Trem Alvorada, parado na antiga estação de Mogi das Cruzes, no dia de sua primeira viagem, 06/05/1960.12. Com as novas tendências econômicas e as mudanças no modo de vida da população, os ares de cidade pacata e sossegada, passaram a ser “história do passado de Mogi”. A agitação quebrou a harmonia da população. Essa modernização registrada no final da II Guerra Mundial, com a exploração da mineração no Brasil, e acelerada pelos anos 50, correspondeu em todo o país à chamada era dos “Anos Dourados”. Nesse período, o crescimento foi de 9% a 11% do PNB (Produto Nacional Bruto), bem acima dos países desenvolvidos. Esse período de crescimento econômico no Brasil ocorreu no governo de Juscelino Kubitschek (1956/1960). Um período de euforia da elite brasileira e de consumo de produtos como os eletrodomésticos, entre outros (MORAES, 2010, p.205). A transição entre o moderno e o tradicional se deu através de rupturas do passado e suas permanências. A constatação do aspecto de mudança para a modernidade pode ser exemplificada através do depoimento de Miled Cury Andere:. Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Paisagístico de Mogi das Cruzes, disponível em:<http://www.comphap.pmmc.com.br/pages/mogi_das_cruzes.html. Acesso em 19.Jun.2017 12 Informações obtidas da Revista Ferroviária, disponível em: <http://www.estacoesferroviarias.com.br/trens_sp/alvorada.htm. Acesso em 31.Mai.2017..
(26) 25. Figura 6: Vista parcial de Mogi - Rua Senador Dantas, antiga Rua Oriente Mogi13. A passagem de Mogi para o desenvolvimento começou com a Mineração. A cidade era muito pacata. Os padeiros deixavam o pão na janela e os leiteiros deixavam o leite. Ninguém pegava. Eu lembro também da demolição da Igreja do Rosário. Foi a coisa mais triste que eu vi na vida. Aquilo fazia parte da vida da gente. Na Igreja, ouvi a reza cantada e triste das freiras. Elas tinham um canto triste batido, e isto nunca me saiu da lembrança. A reação da população foi de ficar chateada (Moraes, 2010, p. 205).. Os influxos de desenvolvimento na cidade de Mogi das Cruzes são marcados pela chegada da estação ferroviária em meados do século XIX; pela entrada de imigrantes entre os séculos XIX e XX, direcionados à zona urbana e rural que compreende o Cinturão Verde; pela fundação da Mineração do Brasil em 1942, a primeira grande indústria que se instalou na cidade e pela criação das Universidades Braz Cubas e a UMC (Universidade de Mogi das Cruzes), com destaque para o curso de Medicina....”O curso de Medicina era famoso. E por quê? Eles eram considerados os ricos. A sensação e o terror do país” (MORAES, 2010, p. 276). Com as instalações das faculdades Braz Cubas, da UMC e em 1972, da Faculdade de Educação Física do Clube Náutico, a cidade além de contribuir como celeiro do “Cinturão Verde” dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, passou a beneficiar os aspetos sócio-econômico-culturais, ao oferecer cursos universitários para a população local e das cidades adjacentes. Paralelamente a esse panorama de crescimento, devemos notar que o desenvolvimento capitalista de grupos empresariais atuando no poder político 13. DIAS, Madalena Marques, 2010. Madalena Marques Dias é bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo (1992-1996) e mestre em História Social (História de São Paulo Colonial) pela Universidade de São Paulo (2001). Autora do livro "História Colonial de Mogi das Cruzes. Elites e formação da vila.".
(27) 26. incentivou princípios econômicos individualistas que fragmentaram os alicerces comunitários de pertencimento social que norteavam a vida dos mogianos.. O. mercado consumidor passou a regulamentar a ordem social e o estilo de vida, rompendo com as velhas formas de viver em nome do “progresso”. Com o progresso, as desigualdades sociais se acentuaram, a desagregação social e a criminalidade aumentaram.. Entretanto,. a. configuração. atual. da. cidade. ainda. evidencia. características importantes do seu passado: o predomínio da média e pequena propriedade, calcada na mão-de-obra familiar (até os anos 70) para o abastecimento do mercado interno incentivado pela aproximação da capital de São Paulo, tanto para compra como para revenda; o conviver comunitário até o início do século XXI; a produção do celeiro agrícola, a policultura (Cinturão Verde), com a chegada dos imigrantes japoneses a partir de 1919 e a busca pela ascensão sócio-econômica da classe média. Após o século XX a cidade passou a ser gerida com ampla visão de empreendedorismo, com investimentos na qualidade de vida dos seus munícipes, o que tem elevado a classificação do ranking de sétima cidade melhor para se viver, de acordo com o levantamento realizado com base nos dados do censo de 2010.. 1.3. Atividade Econômica de Mogi das Cruzes: O Cinturão Verde e Avicultura. A vasta extensão territorial de Mogi das Cruzes propícia à agricultura e, com isso, tornou-se um fator de atração para o imigrante taiwanês. Em 1974, a área urbana de Mogi das Cruzes abrangia o centro da cidade e em volta os bairros centralizados.. Quando terminavam os bairros, começava a Zona Rural. Esta também possuía bairros onde estavam localizadas as chácaras, as granjas, as plantações e as criações. Exemplos de bairros da zona rural: Cocuera, Botujuru, Caputera, Aroeiras, Barroso, Biritiba Uçu, Itapeti, Pindorama, Quatinga, Rio Acima, Varinha, Lambari, Taboão, Rio Baixo entre outros (GRÍNBERG, 1974, p. 33 e 34).. A zona rural do município de Mogi das Cruzes era caracterizada pela alta subdivisão de suas terras em pequenas áreas de produção: Distribuídas entre as culturas de: folhas (alface, escarola, acelga, repolho, agrião); raízes (cenoura, beterraba, nabo, cebola, rabanete, mandioquinha, batata doce); frutas de clima.
(28) 27. temperado (pêssego, uva Itália, caqui, goiaba, ameixa, tangerina); cogumelos champignon e tubérculos (batata inglesa). O valor dessa produção representava em 1.975, 50% do total do valor bruto da produção agrícola do município. A produção agrícola de Mogi das Cruzes tornou-se muito diversificada, quer pelo volume significativo de produção com que concorrem as diversas espécies agrícolas, quer no abastecimento das duas maiores capitais brasileiras: São Paulo e Rio de Janeiro. Dados da história agrícola de Mogi das Cruzes apontam que o município era produtor de café, algodão e fumo em 1852, como relata o historiador local Isaac Grínberg (1995), em seu livro Mogi das Cruzes de Antigamente: Em 19 de março de 1852 a Câmara Municipal comunicava ao Presidente da Província “que este Município exporta cento e cinquenta mil arrobas de café mais ou menos; quatrocentos mil varas de pano de algodão e oitocentas a mil arrobas de fumo” (...). Na mesma época, em 1857, as fazendas de café eram compostas de 875 trabalhadores escravos, trabalhadores livres e nenhum colono estrangeiro (GRÍNBERG, 1995, p.153,154).. Além da localização estratégica entre os dois maiores centros consumidores e industriais brasileiros: São Paulo e Rio de Janeiro, Mogi das Cruzes, conta com condições climáticas e de solo privilegiadas, como são as cidades do entorno da capital paulista. O clima contribui favoravelmente para a produção de verduras, legumes, raízes, frutas e tubérculos, que são produzidos durante todo o ano. Houve um notável desenvolvimento da pequena agricultura de abastecimento voltada às grandes populações urbanas. Todo esse processo ocorreu no início do século XIX, quando os primeiros agricultores espanhóis e posteriormente os japoneses realizaram um verdadeiro trabalho de pioneirismo, revelando as ótimas condições de clima e solo. Como resultado desse pioneirismo, o município ocupou a posição de sucesso como vanguardeiro na produção chamada de “pequena agricultura”, conforme a comprovação da arrecadação imobiliária rural de 1972, em que as terras constituíam em grandes fazendas e grandes sítios a ponto de 90% (noventa por cento) do total de 3.200 (três mil e duzentas) propriedades agrícolas, terem menos de 30 (trinta) hectares ou 10 alqueires paulistas. Toda essa produção de legumes, ovos e aves advinda em sua maioria de pequenas propriedades distribuídas por toda a zona rural,.
(29) 28. evidenciam que em Mogi das Cruzes a reforma agrária há muito tempo é uma realidade.14 A predominância de pequenas propriedades rurais é a característica do município. A maioria das terras é cultivada por imigrantes japoneses, taiwaneses ou descendentes dos mesmos, que conduziram a agricultura à modalidade de exploração altamente intensiva, sempre no sentido de elevar o rendimento por unidade de área, adotando técnicas cada vez mais modernas, em relação à adubação, melhores variedades, tratamentos fitossanitários, chegando a uma extraordinária produção de hortifrutigranjeiros. Outro destaque na atividade econômica de Mogi das Cruzes era a produção de ovos. O município se classificou em 1º. lugar como produtor de ovos do estado de São Paulo e do país na década de 70. Somados os valores de produção agrícola, avícola e pecuária, o município de Mogi ficou em 2º. lugar dentre os 575 municípios do Estado de São Paulo em renda bruta agropecuária, suplantando até mesmo os maiores municípios cafeicultores, canavieiros e algodoeiros do Estado.. Essa. classificação honrosa é uma prova do poderio da terra, principal ponto de atração à imigração oriental, iniciada no século XIX e se estendendo até o século XX.15 “Os 100 anos de imigração japonesa no Brasil (18/06/1908) em que chegaram os primeiros imigrantes japoneses no porto de Santos” (MORAES, 2008, p.220), marca a história do setor agrícola na região de Mogi das Cruzes e abre caminho aos imigrantes taiwaneses, também de origem oriental, meio século mais tarde, na região.16 Com o passar do tempo, cresceu o número de imigrantes japoneses trabalhando na lavoura, o que favoreceu para a formação do Cinturão Verde na região de Mogi das Cruzes:. No ano de 1919, o primeiro japonês a se estabelecer na região de Mogi das Cruzes, no bairro do Cocuera, foi Shiguetoshi Suzuki e sua esposa Feijie Suzuki e seus dois filhos. Aos 32 anos Shiguetoshi era formado no Japão pela Escola Superior de Agricultura, o que não era comum naquela época (MORAES, 2008, p.221).. 14 15. 16. Informações obtidas da Revista da Casa da Agricultura de Mogi das Cruzes. VII Festa do Pêssego e II da Avicultura, Mogi das Cruzes, 1977, p. 133. Informações obtidas da Revista da Casa da Agricultura de Mogi das Cruzes. VII Festa do Pêssego e II da Avicultura, Mogi das Cruzes, 1977, p.125. Um dos fatos sociais mais importantes para a cidade de Mogi das Cruzes foi a chegada de imigrantes de várias nacionalidades, dentre eles os japoneses, na zona rural, que contribuíram para que a formação Cinturão Verde de São Paulo..
(30) 29. Dentre os fatores que contribuíram para a entrada de imigrantes no Brasil estão entre outros, o histórico agrícola da produção brasileira e a aceitação dessa mercadoria no mercado internacional. Esse foi o caso da produção do café, que passou por um período áureo, sendo considerado “Ouro Verde”. De fato a história da região metropolitana de São Paulo em que está inserida a cidade de Mogi das Cruzes confunde-se, nos primeiros tempos, com a história de sua sede.. Alguns autores. afirmam que a metrópole paulista surgiu com a expansão da cidade de São Paulo, na época do café e que o "ciclo do café" fundou a cidade de São Paulo pela segunda vez. De fato, quando aquele produto passou a ser exportado pelo porto de Santos, a cidade de São Paulo, pela sua posição geográfica, já assumia as feições de base comercial, centro do capital financeiro do Brasil e sede da burguesia agrário-comercial (VERÁS, 1991).. O fluxo migratório para o Brasil está relacionado ao acesso a grandes extensões de terra; baixo custo na aquisição de propriedades; consumo no mercado interno; baixo custo da mão-de-obra e a fama de país pacífico, longe dos rumores de guerras. Esses fatores faziam com que o Brasil se tornasse um país atrativo para os imigrantes orientais. No período de exportação do café para o mercado europeu, o país era visto como um verdadeiro “eldorado agrícola”. Afirmava-se no exterior que as pessoas que aqui chegassem ficariam ricas em pouco tempo, porém a realidade era outra. O trabalho era árduo. Diuturnamente era necessário muito esforço e dedicação para ver o fruto produzido. Mas, a favor dos agricultores estavam o clima e o solo favoráveis de Mogi das Cruzes, que contribuíam para evitar a proliferação de pragas nas lavouras, característica do clima ameno da região. Todos esses fatores proporcionaram a fixação dos primeiros imigrantes japoneses e posteriormente, taiwaneses na região. Na história da imigração de Mogi das Cruzes, o imigrante assumiu a condição de arrendatário de pequenas propriedades. Na década de 80 alguns se tornaram proprietários e patrões na região da zona rural da cidade. O ideal destes, na sua primeira fase, era trabalhar na terra, ascendendo socialmente a fim de deixar sua condição rústica de vida (MORAES, 2010, p.222)..
(31) 30. Devido a aquisição da terra em Mogi ser de baixo custo, havia facilidade na aquisição de uma propriedade legitimada pelo seu uso:. A grande maioria desses brasileiros não tinha a terra legalizada, isto é, não eram firmadas em cartório. Eram donos de suas posses mais por sua legitimidade de uso, amparada por um direito consuetudinário, pelos costumes e tempos (MORAES, 2010, p.222).. O imigrante japonês serviu como esteira para o imigrante taiwanês na condição de pequeno agricultor como atividade econômica, com o cultivo de verduras e legumes, compatíveis com o clima da região e de ciclos curtos entre a plantação e a colheita. A principal característica da agricultura da região: minifúndios, baseados na mão de obra familiar, voltados ao abastecimento interno. Diante deste contexto, criava-se o “Cinturão Verde” (MORAES, 2010, p.223). Apesar dos avanços da agricultura mecanizada e dos problemas enfrentados na economia brasileira, a pequena propriedade continua resistindo na região “A cidade de Mogi das Cruzes foi e é um verdadeiro laboratório de experiências genéticas” (MORAES, 2008, p. 230). Os taiwaneses seguem a estrutura agrícola de desenvolvimento econômico baseada na pequena agricultura familiar e na produção voltada para o abastecimento do mercado interno. A definição de agricultura familiar é apoiada em ABRAMOVAY (apud STROPASOLAS, 2006, p. 115) que “concebe a agricultura familiar como aquela em que a gestão, a propriedade e a maior parte do trabalho vêm de indivíduos que mantêm entre si laços de sangue ou de casamento”. Com o intuito de fortalecer o comércio, os taiwaneses associaram-se a cooperativas locais, porém esse esforço não atingiu os resultados esperados pelo grupo, o que os levou a assumir a venda dos seus produtos nas feiras e no comércio em São Paulo. Carregavam as caixas de cogumelos nas costas e as transportavam no caminho que faziam de trem e metrô, levando-as até a capital paulista para comercializá-las. A agricultura, porém, deixou de ser a principal atividade econômica dos taiwaneses, nas últimas três décadas. A partir dessa época, ocorreram mudanças nas atividades econômicas do grupo, que se entrelaçaram com as atividades econômicas urbanas da sociedade brasileira. De acordo com Abramovay e Camarano (1998): Houve nas últimas décadas um intenso esvaziamento do campo, principalmente de.
(32) 31. jovens em busca de novas oportunidades de trabalho. Além do êxodo rural da população jovem, o envelhecimento é uma outra realidade do grupo taiwanês no cultivo dos cogumelos em Mogi das Cruzes. Além de ser considerado um trabalho pesado e de baixa remuneração, a possibilidade de se viver na cidade tornou-se mais promissor do que simplesmente a aceitação de se assumir o estabelecimento paterno, associado à possibilidade de renda regular na profissão urbana, através do ensino superior. A perspectiva de melhores condições de vida pela ampliação do capital através da inserção no mercado de trabalho descaracterizou os núcleos rurais e reestruturou as famílias a partir de novos componentes econômicos, culturais, sociais e percepção de mundo - o que atraiu os jovens a partir da segunda geração e seus descendentes até os dias atuais (CARNEIRO, 1998, p. 58). Os mais velhos - da primeira geração – não dispõem de forças físicas para continuarem ativos na agricultura e seus filhos, ao longo dos 54 anos de inserção no viver urbano, vêm se moldando aos diversos grupos que formam os profissionais liberais, comerciantes, autônomos, funcionários públicos, que nas últimas décadas contribuem com sua mão-de-obra e cultura para o avanço do progresso do país e da região. As propriedades agrícolas continuam pertencendo aos proprietários taiwaneses que as arrendam para os brasileiros trabalharem nelas. O histórico agrícola de Mogi das Cruzes a privilegia, ainda hoje, como a principal fornecedora de produtos hortifrúti aos mercados da região e ocupa a posição especial no sistema Rio de Janeiro-São Paulo. Atualmente, Mogi das Cruzes é responsável pelo abastecimento do CEASA (Central de Abastecimento), feiras livres e mercados, não só da capital paulistana, como também do Vale do Paraíba, Baixada Santista e Rio de Janeiro.. Segundo o engenheiro agrônomo Roberto Teruo, da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) de Mogi das Cruzes, na região, há um grande destaque para a produção de flores, folhosas e maçarias (produtos vendidos em maço), tais como salsinha, cebolinha e coentro, entre outros. Ainda segundo ele, o município de Mogi e região é um dos maiores produtores de hortaliças e frutas do Brasil. A região é considerada a maior produtora nacional de cogumelos comestíveis, além de ser a capital do caqui e da nêspera. O clima fresco e ameno, devido à alta altitude, favorece o desenvolvimento de verduras na região e garante uma maior qualidade dos produtos. Para a agricultura familiar a importância do cinturão verde é muito grande, pois a maioria dos produtores tem propriedades pequenas..
(33) 32. Boa parte destas propriedades conduz a atividade em nível familiar ou com no mínimo dois empregados (TERUO, 2004).17. 1.4. Diversidade Étnica da População Mogiana. Os séculos XIX e XX deixaram marcas no avanço para a modernidade na região com a introdução da primeira estrada de ferro Central do Brasil, em 1876 e a instalação do trem em setembro de 1911, apelidado pelos mogianos de “arranca sertão”. O trem saía de Mogi das Cruzes pela manhã e regressava de São Paulo à tarde (MORAES, 2010, p. 97).. Os avanços nos meios de transporte, com a instalação da estação ferroviária, contribuíram para as transformações do cenário sócio-econômico-cultural de Mogi, possibilitando a vinda de imigrantes espanhóis, italianos, sírios e libaneses, o que fortaleceu o comércio local, com ganhos mais imediatos do que no meio rural. A partir de 1919 houve avanços significativos na agricultura da região. Os imigrantes orientais, principalmente os japoneses, trabalharam como arrendatários de pequenas propriedades na zona rural dos bairros de Mogi, como Cocuera, Porteira Preta e Pindorama, preparando o caminho para que posteriormente os imigrantes taiwaneses cultivassem a terra. Progressivamente Mogi das Cruzes fortaleceu a área urbana em detrimento da zona rural, deixando o aspecto de vila e se tornando cidade, modificando o aspecto da fisionomia urbana. Mais tarde em 1963, os imigrantes taiwaneses reforçaram a mão-de-obra nas pequenas propriedades da zona rural, no bairro de Botujuru em Mogi das Cruzes. O imigrante taiwanês contribuiu para a formação do mosaico étnico-cultural da cidade composto de várias etnias.. Mogi das Cruzes é uma confluência de diversas identidades ao longo de sua existência, como silvícolas, ancestrais indígenas, escravos negros e depois a vinda dos imigrantes europeus, árabes, voltados à atividade comercial, e com a chegada dos imigrantes japoneses, o impulso na agricultura” (MORAES, 2010, p. 25).. O imigrante em Mogi das Cruzes é descrito dentro de características contraditórias à modernidade como sendo bom trabalhador, agricultor, ou comerciante e de pouca cultura como, descreve Moraes, 2010: 17. Informações obtidas da Revista Rural: CINTURÃO - O VERDE MAR DE SÃO PAULO, rev. 82–novembro 2004, disponível em <http://www.revistarural.com.br/Edicoes/2004/Artigos/Rev82_cinturao.htm. Acesso em 17.Jun.2017..
(34) 33. O imigrante em Mogi das Cruzes não é um mero mercenário e sim um pequeno proprietário que moureja naquilo que é seu. Aqui nunca existiram as grandes lavouras presas em mãos de alguns proprietários abastados pelo natural da terra, pelo caipira, de alma cândida e nobre, mas de cultura intelectual completamente nula, analfabetos em quase sua totalidade dedicam-se ao trabalho, mas sem estímulo, sem ambição, sem alegria de viver... Entretanto, já se adaptaram às novas estradas de rodagem e, sem esforço, compreenderam argutamente quanto é oneroso e devastador o colonial carro de boi de eixo móvel, berrando nas divisas e nas várzeas com seu chiar monótono e irritante (MORAES, 2010, p. 119; 120).. O ideário capitalista levou esses imigrantes de Mogi a almejarem “subir na vida”, o que os incentivou a serem donos de lojas ou de roças no campo. Enquanto se fortalecia o comércio no núcleo urbano entre os séculos XIX e XX, no setor comercial varejista; na área rural, a horticultura ganhava espaço com características de pequena propriedade familiar, o que fortalecia o caráter social da cidade.. Além do setor agrícola, os imigrantes também deixaram suas contribuições no município, nos setores de serviços, comércio, indústria e na fundação de associações e escolas. (...) São Paulo continuou sendo o maior polo de recepção da imigração, bem como o “coração da economia nacional”. Portanto, no imaginário migratório – principalmente para os migrantes de áreas menos desenvolvidas – essa área continuará fazendo parte da geografia mental da população (VAINER, 1991).. O município de Mogi das Cruzes com seus milhares de habitantes, divide atualmente seu espaço geográfico entre a zona urbana e o parque industrial ao lado de uma moderna agricultura e pequenas propriedades rurais, cujos proprietários são brasileiros e descendentes de imigrantes taiwaneses e japoneses.. Talvez a relação imigração/industrialização não seja tão nítida e direta como nos anos 60 e 70, mas para os movimentos interestaduais, permanece a forte e complexa relação migração/emprego e, certamente as redes sociais constituem elementos importantes para a manutenção de históricos fluxos migratórios para a metrópole (BAENINGER, p. 87, 2005)..
(35) 34. Retratar a história dos imigrantes protestantes taiwaneses na cidade de Mogi das Cruzes desde sua chegada em 1963: seus desdobramentos até seu estabelecimento; ascensão social e econômica; compreendendo os ideários do grupo social; da individualização e determinação pessoal dos seus agentes, compartilhado com o grupo étnico que compõe um todo histórico, revela a outra face de Mogi das Cruzes, da diversidade cultural. Compreender o contexto histórico, econômico e migratório da cidade, possibilita o acesso às informações que levaram a permanência do grupo de minoria taiwanês protestante e ao mesmo tempo a reconstrução da diversidade étnica e religiosa da população mogiana. Os primeiros investimentos e atividades econômicas desenvolvidas pelos taiwaneses - agricultura e avicultura - nas primeiras décadas da imigração na cidade, convergiram com o forte potencial característico da região de Mogi, colaborando para a consagração e a ascensão sócio-econômica do grupo minoritário - o taiwanês protestante. Sem dúvida, as características do solo e do clima favoráveis possibilitaram a permanência dos taiwaneses que há mais de cinco décadas fazem parte do cenário da população mogiana. “A história das comunidades é uma somatória de histórias de vida que se entrelaçam umas às outras e articulamse a um todo muito maior” (DIAS, 2010, p.121).. 1.5. Os Primeiros Desafios na Nova Terra. Figura 7: Imigrantes taiwaneses na embarcação para o Brasil. Ao chegarem ao porto de Santos, em nove de outubro de 1963, os imigrantes taiwaneses foram encaminhados à um pequeno sítio em Pindorama, na cidade de.
(36) 35. Mogi das Cruzes, do Dr. Yang – “o primeiro taiwanês presbiteriano de que se tem notícia no estado de São Paulo, entre os anos de 1955 e 1956” (TOLLENTINO, 2016, p. 53)18. No primeiro momento, logo que chegaram, os imigrantes ficaram estarrecidos pelo ambiente de mata nativa ao redor do sítio, de acordo com os relatos do Sr. Ming, imigrante taiwanês, que na época de sua chegada no Brasil tinha nove anos de idade. Ele relembra a manhã do dia em que amanheceu em Pindorama19:. Pela manhã vi minha mãe chorar ao ver uma paisagem de densas matas ao redor do sítio, parecia que a situação era até pior comparada com Taiwan, o que provocou tristeza e saudades do país de origem (MING, 2017).. O alojamento que os abrigava era um galinheiro desativado. Era um ambiente fedido e sujo das fezes das galinhas que ficaram por ali. Pindorama nessa época não passava de um lugarejo recoberto de matas, muito deserto e ao longo de uma picada profundamente sulcada pelos rastros de carros de boi, avistavam-se alguns poucos casebres dos carvoeiros. Aos poucos o lugarejo cresceu, adquirindo aspecto de uma colônia. Uma colônia japonesa se estabeleceu na região.20 A topografia de Pindorama, recoberta por matas, muito deserta e com declividade não agradou a grupo de imigrantes. No dia 13 de outubro, o primeiro domingo desde que chegaram ao Brasil, os seis pais das famílias e cinco senhoras. 18. 19. 20. TOLENTINO, Marcelo Cliffton. Protestantes Taiwaneses em São Paulo – a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana em São Paulo – um estudo de caso. Dissertação (mestrado em Ciências da Religião) Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2016, p. 53. A topografia da região é constituída por uma área de declividade suave que faz divisa de um lado com a cidade de Suzano e do outro lado, com a Serra do Mar. Banhada por diversos afluentes do rio Tietê, com uma altitude de 150 metros, supõe-se que muitos anos atrás essa região era toda recoberta por coqueiros, uma vez que “Pindorama” em linguagem indígena significa “Terra de Coqueiros”. Em 1947 durante o período áureo da Cooperativa Suburbana em Pindorama, a diretoria da Cooperativa planejou a instalação de um núcleo de produção hortícola através de seus associados e escolheu essa área como sendo a “Terra Prometida”. Nessa ocasião ocorreram muitas confusões no seio da colônia japonesa que se estabeleceu em Pindorama, situada a 14 Km no sentido sudeste a partir de uma pequena estação de Estrada de Ferro do Brasil que pertence ao município de Mogi das Cruzes. Nesse período, após a 2ª. Guerra Mundial, não querendo aceitar a derrota do Japão, alguns japoneses entraram em conflitos entre seus patrícios, o que trouxe divisão entre eles. Para a realização do levantamento de dados foram feitas visitas de pesquisas na Biblioteca Municipal de Mogi das Cruzes “Benedicto Sérvulo de Sant’Anna”, situada na Praça Monsenhor Roque Pinto de Barros, 360 - Centro de Mogi e ao acervo histórico da cidade de Mogi das Cruzes, com a supervisão do bibliotecário Auro Malaquias dos Santos, que exerce essa função desde 2006 e que contribuiu com importantes materiais históricos levantados para a pesquisa..
(37) 36. foram à cidade de São Paulo para participarem do culto no templo da Primeira Igreja Presbiteriana de Formosa em São Paulo (ISP)21. O percurso era longo. Seria necessário pegar um ônibus até Jundiapeba e depois se transferirem para um trem até São Paulo e ainda andar por vários quilômetros. Como dependiam de transporte público, era preocupante o retorno para Mogi das Cruzes depois do culto, pois teriam que voltar a tempo de pegar o último ônibus até Jundiapeba. Com isso, o grupo teve que se retirar antes que o culto terminasse. Mesmo assim, não conseguiram, naquela noite, pegar o último ônibus que os levariam de volta à Pindorama. Com isso, tiveram que fazer uma longa caminhada até o sítio. O grupo chegou depois das 10 horas da noite, cansados pelo percurso realizado. Devido à distância e às dificuldades com os horários do transporte público, decidiram, naquela noite, que os cultos de domingo seriam celebrados entre eles, nas dependências do sítio em Pindorama e não iriam mais viajar até São Paulo. No dia 14 de outubro, o grupo de taiwaneses visitou a casa do Sr. Wu Huan Long, no bairro de Botujuru22. Após a visita, enquanto esperavam o ônibus, perguntaram ao Sr. Wu, se haveria algum terreno à venda naquelas proximidades. Ao saberem que o terreno ao lado do ponto de ônibus onde eles aguardavam, estava à venda, demonstraram interesse em adquiri-lo, por ser plano e bem localizado. Após dois dias de negociações e análise, fecharam o negócio. No dia 20 de outubro após assinarem o contrato de compra e venda, todos concordaram em ofertar uma porção do terreno da esquina, de 30x30m2 para a construção do templo da igreja. O restante do terreno foi sorteado, em partes iguais, entre as famílias. No mesmo dia, 20 de outubro de 1963, ocorreu pela primeira vez, a celebração de culto dirigida pelo próprio grupo de imigrantes taiwaneses em terra brasileira, no sítio em Pindorama. No dia 27 de outubro realizaram pela última vez o culto no sítio. No dia seguinte, as seis famílias partiram do sítio, contudo, quatro se mudaram para o terreno recém-adquirido em Botujuru e duas famílias foram para Iguape, no sítio do. 21. 22. A ISP foi fundada oficialmente em 22 de Setembro de 1962, de acordo a pesquisa de mestrado realizada por TOLENTINO, 2016, p. 56. O bairro do Botujuru registrou um crescimento demográfico de 64,57% entre os anos de 2000 e 2017. A população passou de 6.611 para 10.880, respectivamente, segundo os dados do IBGE. Isso significa que este é o terceiro bairro mais populoso de Mogi das Cruzes, perdendo apenas para a região de Jundiapeba, com cerca de 36 mil, e o Mogi Moderno com aproximadamente 17 mil. Botujuru está deixando suas características rurais, embora ainda mantenha muito do seu verde..
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