PODER JUDICIÁRIO
SÃO PAULOSEGUNDO TRIBUNAL DE ALÇADA CIVIL Décima Câmara
APELAÇÃO SEM REVISÃO Nº 574.975-0/7 - SÃO BERNARDO DO CAMPO
Apelante: Inoque da Cruz
Apelado : Instituto Nacional do Seguro Social
CERCEAMENTO DE DEFESA. Não ocorrência. O julgador sentiu-se habilitado à entrega da prestação jurisdicional diante da prova existente e que lhe ofereceu elementos de convencimento. A alegada necessidade da produção de outras provas deveria evidenciar um âmbito, ou uma extensão de imperiosidade, suficiente para aferir-se sobre a possibilidade de ser alijada a prova já produzida.
DOENÇAS DO TRABALHO. MALES DA COLUNA E DISACUSIA. NEXO CAUSAL. Não restaram comprovadas “... as condições especiais e excepcionais, ambientais e de execução do trabalho ...”. As provas não permitem concluir, com segurança, que o trabalho exercido pelo Apelante agiu como concausa no agravamento das doenças, nem admitem a aplicação do princípio in dubio pro misero.
Em infortunística o que se repara, em forma de prestações mensais, é a incapacidade resultante do acidente ou da doença profissional e não o fato em si mesmo considerado.
Voto nº 4.006 Visto.
INOQUE DA CRUZ ingressou com Ação de Prestações por Acidente do Trabalho contra o INSTITUTO NACIONAL DO SEGURO SOCIAL, qualificação e caracteres das partes nos autos, alegando que no exercício de suas funções tornou-se portador de redução da acuidade auditiva e de males da coluna, em razão da agressividade
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do seu ambiente de trabalho.
Encartado o laudo firmado pelo Perito Judicial e vencida a instrução, houve entrega da prestação jurisdicional sendo julgada improcedente a pretensão (folhas 114/115).
Recorreu o Autor. Persegue a reforma da decisão. Argüiu em preliminar a nulidade do processo por indeferimento da prova oral. No mérito insiste sobre a existência da doença na coluna “... especialmente diante do fato da legislação acidentária CONSAGRAR O PRINCÍPIO DA CONCAUSALIDADE ...” (folha 125) e da disacusia neurossensorial
bilateral.
O INSS apresentou contra-razões sustentando o acerto da decisão (folhas 136/139).
A PROMOTORIA DE JUSTIÇA e a PROCURADORIA DE JUSTIÇA inferiram pelo não provimento do recurso.
É o relatório, adotado no mais o da r. sentença.
O recurso deve ser apreciado nos limites especificados pelas razões para satisfação do princípio
tantum devolutum quantum appellatum.
Não houve cerceamento de defesa de qualquer ordem. O julgador sentiu-se habilitado à entrega da prestação jurisdicional diante da prova existente e que lhe ofereceu elementos de convencimento. A alegada necessidade da produção de outras provas deveria
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evidenciar um âmbito, ou uma extensão de imperiosidade, suficiente para aferir-se sobre a possibilidade de ser alijada a prova já produzida. As questões receberam a devida apreciação na r. sentença.
A doença profissional ou do trabalho assenta-se nos requisitos de causalidade, de prejudicialidade e do nexo etiológico. Causalidade porque, em princípio, não há dolo. Prejudicialidade em razão da lesão corporal ou perturbação funcional que pode causar a morte, ou a perda, ou a redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. A configuração do nexo etiológico ou causal, aliado aos demais elementos caracterizadores, conduz, inevitavelmente, à procedência da pretensão que for deduzida em Juízo .
NEXO, do latim nexu, significa vínculo ou ligação. ETIOLÓGICO refere-se à etiologia, do grego
aitologia, que pode ser entendido em infortunística como o
estudo sobre a origem do mal incapacidade. CAUSAL, do latim causale, é o que se relaciona com a causa. É essencial para o reconhecimento do acidente e da doença profissional ou do trabalho, a relação de causa e efeito, o nexo etiológico ou causal.
A teoria da concausa é admitida pela lei e pode ser definida como sendo o elemento que concorre com outro, formando o nexo entre a ação e o resultado, entre o acidente e/ou doença profissional ou do trabalho e o
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trabalho exercido pelo empregado. Deste modo, prescinde-se do nexo causal direto e exclusivo entre o dano e o trabalho, para a configuração do acidente ou da doença profissional ou do trabalho.
A vistoria no local de trabalho revelou:
“... O autor trabalhava como motorista, segundo as informações dos acompanhantes.
A sua função consistia em dirigir o caminhão poliguindaste levando as caçambas cheias de papéis e papelões (para reciclagem).
Para colocar e retirar (“descer”) as caçambas do caminhão, o autor precisava encaixar as correntes nas mesmas, movimentar 2 manivelas que levantam e abaixam as caçambas.
Trata-se de um trabalho sem dispêndio de esforço físico, sem realizar movimentos articulares constantes e repetitivos de flexo-extensão e má posição com a coluna (...) ruído: - 73 –80 dB (dirigindo o caminhão poliguindaste) ...” (folha 84).
Está constitucionalmente garantido que todo dano decorrente de acidente do trabalho deve ser reparado, e que esse dano é coberto pelo seguro obrigatório acidentário a cargo do INSS. Dano, derivado do latim
damnun, de forma genérica quer dizer todo o mal ou ofensa
sofrido por alguém. No sentido jurídico é apreciado em razão do efeito que produz. É o prejuízo causado.
A prova médico-pericial atestou:
Em relação à perda auditiva, o exame otológico acusa:
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Ouvido esquerdo = 6,74% Perda Bilateral = (...) 7,05% CONCLUSÕES
O quadro audiológico apresentado é sugestivo de disacusia sensorial, ou seja, por lesão das células ciliadas do órgão de Corti, nos ouvidos internos.
A disacusia bilateral e simétrica acompanhada de um típico escotoma em 4000 Hz, nos indica resultados compatíveis com uma Perda Auditiva Induzida por Ruídos (PAIR) ...” (folha 93).
Isto permitiu ao perito concluir:
“Clinicamente o autor não apresentava deficit auditiva conversando em tom de voz normal.
As membranas timpânicas apresentavam-se sem alterações no exame otoscópico.
Na sua atividade diária o autor não estava disposto a ruído intenso, conforme medição feita por este perito.
... O perito entende que não há, no presente caso, benefício acidentário a ser concedido ao autor ...” (folhas 86/87).
Quanto aos males da coluna registra o laudo:
“... CONCLUSÃO:-
O autor apresenta HÉRNIA DE DISCO LOMBAR ...”. No presente caso, o perito não admite o nexo entre esta patologia e o trabalho pois, na sua atividade diária como motorista de poliguindaste, o autor não dispendia esforço físico, não realizava movimentos articulares constantes e repetitivos de flexo-extensão e má posição com a coluna, fatores que poderiam ter desencadeado o aparecimento desta moléstia.
O autor é portador também de ESPONDILOARTROSE CERVICAL.
No exame clínico da coluna cervico-dorsal o autor não apresentava contratura na musculatura paravertebral bilateralmente, sem limitação aos movimentos articulares,
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sem desvios, sem sinais inflamatórios (dor, calor, rubor e tumor).
No presente caso, não existe incapacidade funcional para o trabalho ...” (folhas 85/86).
Não restaram comprovadas “... as condições especiais e excepcionais, ambientais e de execução do trabalho ...”
(folha 3). As provas não permitem concluir, com segurança,
que o trabalho exercido pelo Apelante agiu como concausa no agravamento das doenças nem admitem a aplicação do princípio in dubio pro misero.
Em infortunística o que se repara, em forma de prestações mensais, é a incapacidade resultante do acidente ou da doença profissional e não o fato em si mesmo considerado.
Em face do exposto, rejeitada a matéria preliminar, nega-se provimento ao recurso.
IRINEU PEDROTTI Relator