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Verinotio - Revista On-line de Educação e Ciências Humanas. Nº 5, Ano III, Outubro de 2006, periodicidade semestral – ISSN 1981-061X.OS (DES)CAMINHOS DA PAIXÃO
Antônio José Lopes Alves*
Resumo
No presente artigo se intenta delimitar as principais características da paixão, entendida como movimento das potências humano-sociais do sentir. Capacidade humana que é elaborada historicamente e formatada dentro do circuito das relações sociais nas quais os indivíduos existem efetivamente e se realizam como sujeitos concretos. Nesse sentido, a paixão é uma forma de expressão do próprio caráter de ser do humano, isto é, eminentemente societário, o qual se perfaz pela via de um multiverso de liames e nexos recíprocos. Relações sociais que, na esfera da afetividade, se traduzem pela busca e reconhecimento da dependência radical de um outro que completa e torna pleno o indivíduo, não obstante plenitude que é sempre delicada e frágil, em razão de depender visceralmente da própria relação para ser. Paixão que é, portanto potência de sentir o outro que é social e histórica, se manifesta dentro dos contornos da vida social onde os indivíduos concretos vivem e atuam, exprimindo, por isso, o caráter desta mesma sociabilidade.
Palavras-chave: Paixão – Individualidade – Sociabilidade – Literatura
The embezzlements of the Passion
Abstract
In the present article if it intends to delimit the main characteristics of the passion, understood as movement of the human being-social powers of feeling. Capacity human being who is elaborated historicamente and formatted inside of
the circuit of the social relations in which the individuals exists effectively and if they carry through as concrete citizens. In this direction, the passion is a form of expression of the proper character of being of the human being, that is, eminently societário, which if perfaz for the way of a multiverse of liames and reciprocal nexuses. Social relations that, the sphere of the affectivity, if translate for the search and recognition of the radical dependence of one complete other that and becomes full the individual, not obstante fullness that is always delicate and fragile, in reason to depend viscerally on the proper relation to be. Passion that are, therefore power to inside feel the other that is social and historical, if manifest of the contours of the social life where the concrete individuals live and act, stating, therefore, the character of this same sociability.
Key-words: Passion – Individuality – Sociability – Literature
Para falar da paixão, nada mais adequado que referir inicialmente um mito contado por Aristófanes no diálogo O Banquete, de Platão. No mito em questão, consta que os homens, em tempos idos, contavam-se em três gêneros: além dos dois atuais (masculino e feminino), havia os andróginos, indivíduos que possuíam todos os membros e partes do corpo em dobro – eram por assim dizer, plenos. Presunçosos e vigorosos, tramavam contra os deuses e pensavam escalar os céus para investir contra os olímpicos. Zeus e os demais deuses deliberaram puni-los por sua hybris (em grego, desmedida, excesso, insolência, intemperança), cortando-os ao meio. Coube a Apolo voltar-lhes o rosto e a banda para a mutilação, a fim de que a contemplação constante desta infundisse-lhes o sentimento de moderação. Assim, “desde que nossa natureza se mutilou em duas, ansiava cada um por sua própria metade e a ela se unia, e envolvendo-se com as mãos enlaçando-se um ao outro, no ardor de se confundirem, morriam de fome e de inércia, em geral por nada quererem fazer longe um do outro”.
Esta nova situação era tão dolorosamente sentida que, à morte da metade, a que permanecia viva juntava-se indistintamente com masculino e feminino, o
que causava a possível destruição de seres unívocos. A solução encontrada pelo compadecido Zeus para este inconveniente foi colocar o sexo na frente, facilitando a busca e a perpetuação da raça: “É então de há tanto tempo que o amor de um pelo outro está implantado nos homens, restaurador da nossa antiga natureza, em sua tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana”.
Nesta narrativa mítica, na qual constam todos os elementos próprios ao pré-racional – tais como a intervenção divina, a referência a um tempo primordial, a punição por uma falta humana etc. – Aristófanes mostra, contudo, uma percepção realista da paixão, como afirmação cabal e exemplar do radical carecimento individual pelo outro, algo autêntica e particularmente humano, caracterizador da natureza humana, como experiência da sua própria incompletude e finitude.
A paixão é algo muito diferente do observado na natureza, pois, no caso humano, o pathos (em grego, literalmente, “o que se experimenta”, “sofrimento”, “movimento da alma”) é vivido não sob a determinação ou o mando do instintivo, regulado direta e totalmente pelos padrões da espécie e recebido geneticamente pelo indivíduo-exemplar, e sim como expressão, a um tempo, da necessidade inegável do outro, da existência exterior do objeto da minha necessidade e do reconhecimento deste mesmo objeto. É um sofrer no qual se põe um movimento radical do ente em direção a algo, reconhecido e sentido como carecimento direto e inegável. No caso do animal, não podemos afirmar, sem o peso da metáfora, que ocorra relação e reconhecimento: há, no máximo, a identificação rude e direta da contraposição macho versus fêmea, que serve à atividade instintiva da reprodução física da espécie, durante um período de tempo dado, estabelecido a priori para cada um dos exemplares da espécie em questão. Não há busca, procura de uma afinidade ou construção de uma imagem desejada, as quais podem ser assinaladas mesmo no caso anti-humano da perversão e da violência; os animais, exceto em situações anômalas ou experimentais, não se estupram nem propriamente se amam. Afinal, qual o por quê dessa diferença tão cortante entre humanidade e animalidade?
Não está a razão em algum elemento metafísico, enigmático ou incompreensivelmente irracional. A essência daquela distinção, do afeto humano frente ao impulso instintivo da animalidade, reside antes na determinação social da individualidade, da radical e irremediável interdependência recíproca que caracteriza o ser social. A este respeito, Marx nos diz, em um de seus textos mais ricos e menos conhecidos:
Se um indivíduo A tem a mesma necessidade de um indivíduo B, não haveria relação entre eles; não seriam, do ponto de vista da sua produção, indivíduos diferentes. Todos dois têm necessidade de respirar, para eles o ar existe como atmosfera; isto não cria entre eles nenhum contato social; enquanto indivíduos que respiram, têm eles apenas uma relação de corpos naturais, e não de pessoas. Só a diversidade de necessidades e de sua produção suscita a troca e, por isso mesmo, a sua igualização no ato da troca, e por isso mesmo a igualização social dos indivíduos.
Ou seja, reconhecimento, carecimento e diferença entre os seres humanos se põem como princípio de sua própria existência no mundo; o fato de eu não me produzir sozinho, de não me bastar a mim mesmo, é constituinte da minha existência humana. Tal articulação entre necessidade, reconhecimento e diferença é, no caso humano, caracterizada pela reciprocidade, por um mútuo precisar-se. Solidão e egoísmo, longe de fazerem parte de uma pretensa natureza humana perversa, só existem na medida em que lutam ingloriamente por negar a existência da minha individualidade para unir-se a outra. Como nos diz Marx em seus Grundrisse, “que esta necessidade de um possa ser satisfeita pelo produto do outro e vice-versa, que um seja capaz de produzir o objeto de necessidade do outro e que cada um se apresente ao outro como o proprietário do objeto de sua necessidade, isto prova que cada um ultrapassa, enquanto homem, sua própria necessidade particular”.
O egoísta necessita de outro – nem que seja para negar-lhe a vida. Tal não é observado na produção animal, nem mesmo naquela que aparenta sociedade, pois as formigas singulares, por exemplo, produzem-se em conjunto, ou as abelhas, se tomadas de modo unitário, estão divididas em tarefas. Primeiramente,
assim, não estão num e noutro caso por obra de deliberação ou de escolha (limitada ou não), mas, ao contrário, como determinação biológica; e, em segundo lugar, produzem sempre todas as mesmas coisas ou segundo os mesmos padrões, de forma que não há diversidade real, relação entre indivíduos. Há no máximo interação coagida pelo instinto: “Um enxame de abelhas não forma au fond senão uma abelha, e todas produzem a mesma coisa”, conforme dizia Marx nos Grundrisse.
Não quer dizer isto que possamos derivar o amar do trabalhar, mas tão-so-mente diz respeito à indicação do fato de amar ser característica própria do homem que atinge uma altura de sentidos, uma intensidade de mobilização da capacidade humana de afeição, ímpar em origem e conseqüências. No amor não só o outro tem o objeto de minha necessidade, mas é ele próprio o objeto de minha carência. Careço do outro imediatamente. Ressalte-se que, longe de “coisa misteriosa”, a paixão nada tem de estranho, é uma necessidade humana; precisar do outro, experimentar esta “precisão” e conseguir viver, satisfazendo-a ou não, é a própria raiz do homem, o que há de mais humano.
Com certeza, os homens não seriam suscetíveis à paixão se fossem destituídos da aparelhagem própria ao sentir, se fossem impassíveis à afecção. Na ausência da “aparelhagem natural” dos sentidos, ser-nos-ia impossível apaixonarmo-nos por algo ou por alguém. A existência do corpo, deste corpo, fornecido, inicialmente, pelas vias da natureza, é uma barreira intransponível, pois é a condição de ser neste mundo. Sem corpo não estamos aqui, não seríamos seres, não poderíamos sentir, carecer, precisar, necessitar, pois “ser sensível é sofrer” (Marx, de novo): um ser sem nada fora dele não tem mundo, não tem ser, pois, completo por definição, não tem necessidade nem relação. Embora, barreira intransponível, este corpo seja momento inicial, ponto de partida, não diretor de sua própria experiência, uma vez que o próprio corpo humano é modificado pela ação consciente, deliberada ou não, do próprio homem. O corpo e afetos humanos têm uma história, não são meras realizações de padrões preestabelecidos.
Sentir tesão não é estar no cio, não é obedecer aos ditames, às ordens particulares de uma época de acasalamento, pois para ninguém (nem mesmo para o adolescente mais inexperiente em sexualidade), um rapaz ou uma moça qualquer são indiferentes. O desejo no indivíduo nunca é dirigido, a machos e fêmeas em geral, mas a um ou alguns em especial, pois “o amor não se contenta em transmutar o homem em objeto para um outro, faz dele objeto determinado, este ser-aí, infeliz, e individual, um objeto exterior, sensível e manifesto, e não somente interior, plantado no cérebro” (Marx).
É um sofrer, um padecer determinado e específico por um objeto determinado e específico. É o padecimento do outro enquanto outro. Assim, a importância do outro para mim é determinada pelo que no outro pode responder aos meus anseios, é a procura específica por um outro específico; assim sendo, a paixão exige como contrapartida o respeito pelo outro, o correto reconhecimento do que há no outro: independentemente dos móbeis causadores do meu voltar-me para ele, se não for capaz de distinguir a outra pessoa de per se não terei jamais a oportunidade real de estabelecer uma interação de meus desejos com os dela, de minha capacidade com as dela, de meus limites com os dela. Para sempre prisioneiro de um desejo, de um sentir, de uma experiência sem objeto, nunca realizarei o intento infinito de completar-me; restará apenas a frieza real de uma paixão imaginária, destituída dos outros: não sinto, sou apenas sentido.
Como exemplo de tal situação, tomemos um conto de juventude de Thomas Mann, Os Famintos, cuja personagem principal, Detlev, coloca no horizonte, como única possibilidade da paixão, o amor solitário. Aqui vigem os ditames de uma interioridade pura em competição com o objeto carecido. Objeto de meu padecimento que é posto, inicialmente, como inalcansável, e depois como totalmente irrelevante frente a uma subjetividade abstrata, separada da coisa de seu sentir, erigida em momento absoluto e único da liberdade pessoal. Não por acaso o herói do conto é um artista. Encarnação da subjetividade hipostasiada, gozando de uma soberania aparente, tenta afirmar-se negando sua instância de objetivação, o conteúdo do mundo e, por isso, nega-se a si mesmo.
O solitário sentiu seu espírito estender-se, agarrar e formar algo, como se tivesse mãos. “Afinal, vocês são meus” – pensou – “e estou acima de vocês. Posso ver com um sorriso através de suas almas ingênuas. Observo e perpetuo, meio apaixonado, meio zombeteiro, cada um dos seus movimentos ingênuos. Sinto em mim o poder da palavra e da ironia, sempre que observo essa sua inconsciência; meu coração pulsa de desejo e na sensualidade que é o poder de irritá-los em minha arte, e de assim expor ao mundo a sua precária felicidade, para que o mundo se comova”.
Assim como na “arte pela arte” tem-se a posição de uma linguagem que se recusa falar de, a ser expressividade que, ao se contentar em falar de si mesma, de nada fala, contudo, na paixão solitária temos um sentir sem objeto, ou um objeto apenas interior, sem textura, sem peso, sem ser, identidade abstrata e absurda entre quem sente e o que é sentido: “Mas todo aquele impulso desafiador voltou a desmoronar dentro dele, transformado em melancolia e nostalgia. Ah, só uma vez, por uma única noite como aquela, não ser artista, ser apenas homem! Escapar uma só vez da maldição que ressoava em seu ouvido, dizendo: ‘Você não tem direito de viver, precisa criar! Não deve amar nem saber!’ Ah, viver uma só vez, e amar, partilhar da vida das criaturas vivas, e beber em mágicos sorvos a felicidade das coisas banais!”.
Disseco o outro como a mim mesmo, somente vejo-me potente ao anular a perspectiva do outro – é esta sempre falha, imprudente, falsa. É o amor interpretativo, no qual de jogo a paixão torna-se torneio sem regras, ou com regras estabelecidas na e por minha solidão. Imagine-se, entregar-me ao outro, perder-me?! Eu e somente eu posso sentir o que sinto. Não é, então, mais jogo, mas brincadeira de esconde-esconde, na qual contamos infinitamente, sem termos coragem de encontrar o outro. Assim como contamos até quando bem entendermos, escondem-nos e nos achamos com quem e no momento em que gratuitamente nos entendemos. O que resta, então, do amor? Tão-somente sua figura abstrata, sublimada, etérea, do amor fraternal cristão, sem a mediação particular do reconhecimento do outro como individualidade efetiva, insuprimível e irredutível ao meu sentir. O outro existe, agora, apenas na persona vaga dos
“irmãos”. Correlata que é da recusa do mundo real e de suas demandas, a subjetividade condenada à interioridade pura e autocomplacente, no gozo de uma aparente plenipotência, soçobra em recolhimento e solidão: “e quando em sua casa sentou-se entre seus livros, quadros e bustos, comoveu-se com as doces palavras: ‘filhinhos, amai-vos uns aos outros...’”.
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Doutorando em Filosofia no IFCH da Unicamp, mestre em Filosofia pela UFMG, professor do Colégio Técnico da UFMG e membro do Grupo de Pesquisa Marxologia: Filosofia e Estudos Confluentes. E-mail: [email protected] .