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INTRODUÇÃO

Meu propósito em pesquisar a adoção da Comunicação para o Desenvolvimento em sociedades pós-conflito ou em conflito latente e a sua contribuição em projetos de ajuda humanitária está relacionado à ação que realizei como consultora de comunicação em projeto da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Isto me aproximou de sociedades pós-conflito, nomeadamente Angola, me possibilitando uma imersão em uma sociedade

com toda a sorte de precariedades de infraestrutura – incluindo a de comunicação – na luta para a reconstrução, construção do país. E, sobretudo, me instigou a conhecer mais uma realidade tão diversa e adversa: a da dificuldade das organizações da sociedade civil, organizações não governamentais, organizações internacionais, governos - nacional e provinciais – em apoiar suas ações na comunicação, por falta de estrutura ou por cerceamento.

Outro forte motivo foi aprofundar o estudo em uma área muito importante e menos explorada - uma vez que não voltada aos princípios do mercado - e poder contribuir no estabelecimento das necessidades e das ações norteadoras em Comunicação para o Desenvolvimento, para quem opera no campo em ajuda humanitária.

A partir do Primeiro Congresso Mundial de Comunicação para o Desen- volvimento (WCCD), ocorrido em Roma em 2006, que reuniu 900 profissionais, governantes, acadêmicos, organizações da sociedade civil, organismos internacionais, Organizações não Governamentais, os trabalhos que se realizam há anos, nos quatro cantos do mundo, foram apresentados, discutidos, sistematizados. O documento resultante desse primeiro encontro de ideias, práticas e experiências denominado The Rome Consensus, que norteou também essa tese, tem como

conclusão a seguinte afirmação de Nelson Mandela. São as pessoas que fazem a diferença. Comunicação para o Desenvolvimento é essencial para fazer a diferença

acontecer.

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comunicação não fossem colocados simplesmente a serviço de interesses do poder, aprofundando as dificuldades já existentes entre as nações, naqueles anos da Guerra Fria. Afirmava M`Bow que o estabelecimento de uma Nova Ordem Mundial da Comunicação faria com que os povos pudessem compartilhar o conhecimento e a visão dos assuntos mundiais. “Quando isso for atingido, a humanidade terá dado um passo decisivo em direção à liberdade, à democracia e à solidariedade”.

Transcrevo a mensagem do Diretor da UNESCO no lançamento do relatório

Um Mundo e Muitas Vozes, por achar que o momento histórico que passamos a

viver a partir de março de 2011, parece comprovar que a Nova Ordem finalmente está a chegar.

Este estudo visa conhecer o uso da comunicação por parte da FAO e de ONGs de Segurança Alimentar e Direitos Humanos localizadas em Angola e em Portugal, com atuação nesses dois países. Toma como ponto de partida o Projeto ANG035/EU/FAO, realizado de 2007 a 2009 nas províncias angolanas de Huambo, Huíla e Benguela, para a capacitação dos atores locais em delimitação de terra e certificação de posse.

Fotografia 2 - Banho matinal.

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A comunicação no apoio aos projetos de Ajuda Humanitária é relacionada aos Direitos Humanos e ao desenvolvimento da própria comunidade para a qual é direcionada e denomina-se Comunicação para o Desenvolvimento. Essa

especificidade difere da comunicação comercial, das relações públicas ou da comunicação institucional. Pressupõe a participação e, traz em si, o debate ideológico sobre o direito à comunicação que teve como marco representativo o Relatório MacBride1, cujas recomendações ainda hoje não estão em vigência em muitos países do sul.

Quero instaurar no âmbito desta tese um novo entendimento quanto a condição das pessoas que são atendidas por projetos de ação humanitária. Em diferentes áreas da ajuda – cultura, educação, saúde meio-ambiente, segurança alimentar, direitos fundamentais – são designadas como beneficiários-alvo. De acordo com o Cambridge o verbete beneficiary teria o significado de “pessoas ou

grupos que recebem dinheiro, vantagem ou ajuda”. E target designaria “pessoa ou

grupo particular de pessoas a quem algo é direcionado ou pretendido”. A transição mais adequada vem a ser rights holders. Vejamos “as seguintes significações: (i)

right considerado certo ou moralmente aceitável pela maioria das pessoas”; holders

quem é oficialmente é propriamente o detentor de alguma coisa”. O direito moral de ser detentor de algo. Direito e não benefício.

O interesse em estudar este campo teve origem em uma pesquisa exploratória realizada em Angola, no ano de 2007, nas províncias de Luanda e Huambo, por ocasião do lançamento do Projeto Terra. Constatei, a partir da observação participante e de entrevistas não estruturadas, a problemática da ineficácia das redes de telecomunicações na integração do país na época. Da mesma forma, me deparei com a falta de familiaridade ou dificuldade de acesso às tecnologias tradicionais e novas tecnologias de informação no exercício do jornalismo e no trabalho humanitário das ONGs locais. A maioria dos meios de comunicação pertencia ao Estado e que era difícil para as ONGs conseguirem concessões para veículos comunitários. Percebi a dificuldade de utilização da comunicação por OIs e ONGs atuantes no campo no momento em que havia a necessidade de informar aos atores sobre a Lei de Terra.

1 O MacBride Report Many Voices, one World

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Fotografia 3 – Mulher separando o grão de milho

Em vias de ser regulamentada em Angola, na época, a Lei iria assegurar o direito e a certificação de posse da terra às comunidades tradicionais ou a outros demandantes, com desdobramento natural na garantia da segurança alimentar e acesso aos recursos naturais como a água. Em um momento em que muitos dos refugiados e deslocados internos retornaram para suas casas, motivados pelo fim da guerra, esse cenário estimulou a realização desta tese.

Procedimentos e limitações

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na Universidade de Coimbra. Mantive entrevistas com importantes dirigentes de ONGs de Segurança Alimentar e Direitos Humanos em Angola e em Portugal.

Fotografia 4 – Mãe e filho indo comprar garrafa de cerveja.

O trabalho em campo evidenciou que o estudo deveria ser aprofundado com a realização de entrevistas na Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), sediada em Roma, onde também foi realizada pesquisa bibliográfica. A escolha da FAO não significa que as demais agências do complexo das Nações Unidas não tenham a mesma relevância, mas por essa ter sido a instituição criadora do conceito de Comunicação para o Desenvolvimento (CpD) e precursora em sua implantação.

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qualitativa foi realizada na FAO/ONU, na Itália. Foram consultadas as organizações

Action AID, Amnistia Internacional, Organização Portuguesa de desenvolvimento -

bastante representativa que opera nas ex-colônias e que solicitou sigilo, designada como Instituição M (IM), Intercooperação e Desenvolvimento (INDE) e a OIKÓS Cooperação e Desenvolvimento, em Portugal. Em Angola, foram entrevistados dirigentes da Municipalistas por La Solidariedad y el Fortalecimento Institucional

(MUSOL) e Organização Cristã de Apoio ao Desenvolvimento Comunitário (OCADEC). Em sua estada no Brasil, foi entrevistada a Coordenadora Internacional em Angola do Projeto Terra.

Fotografia 5 – Mulher com chapéu–de-sol

Essas entrevistas resultaram em um rico material sobre a importância e a aplicação da comunicação nos projetos realizados no campo. E permitiram visualizar as diversas concepções sobre comunicação e sobre os resultados que ela pode gerar em projetos de ajuda humanitária.

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Portanto, o que se buscou foi a análise de um fenômeno contemporâneo dentro de um contexto real (Yin,2005).

O estudo do material coletado em campo e a revisão da literatura permitiram a construção de um referencial teórico-operacional em Comunicação para o Desenvolvimento, um dos objetivos deste estudo. Pretende-se que esse referencial possa contribuir para a efetividade de futuros projetos de Ajuda Humanitária e de Desenvolvimento.

Como limitação deste estudo ressalta-se um entrave burocrático que impediu a concessão do visto de entrada em Angola o que inviabilizou o retorno da pesquisadora ao país. Para dar continuidade à investigação solicitei à Coordenadora do Projeto Terra em Angola aplicar o questionário remetido e registrar as entrevistas. Ressalta-se que não houve ingerência sobre as respostas. As gravações das entrevistas realizadas em Angola foram posteriormente a mim enviadas para a sistematização e decupagem dos dados lá coletados.

Abordagem metodológica

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Durante a realização desta tese utilizou-se além da entrevista, a análise do discurso e a observação para a coleta de dados. O método da observação permite a interação, o envolvimento e o aprofundamento com os fenômenos em estudo, sendo amplamente utilizado na prática da sociologia e da antropologia. Burawoy (2000) considera a observação participante como a técnica que permite vivenciar a realidade dos sujeitos a partir da inserção do investigador no mundo a ser pesquisado, o que lhe permitirá perceber os jogos de poder que perpassam os processos observados. Da mesma forma permite ao pesquisador ficar próximo quanto um membro do grupo a ser estudado, uma vez que participa das atividades rotineiras deste. (Marconi e Lacatos, 2001).

A observação ocorreu na etapa de diagnóstico, primeiramente no período de divulgação do lançamento do projeto ANG035/EU/FAO, quando foram visitadas as diretorias dos meios de comunicação da capital Luanda e lideranças de ONGs de Segurança Alimentar e Direitos Humanos.

Ampliando a visão de mundo

No desdobramento do processo a observação ocorreu durante o seminário de lançamento do Projeto Terra, no Huambo. A província era emblemática por ter sido a principal produtora agrícola na época colonial e por sediar a Faculdade de Ciências Agrárias, que estava se reorganizando para retomar seu papel na formação de angolanos. Por isso tornou-se sede da coordenação do projeto no país.

O evento reuniu as principais lideranças tradicionais – um dos participantes ao iniciar as suas ponderações no seminário de lançamento identificou-se como o “Rei de Huambo”, portanto líder tradicional e ancestral da região –, representantes da sociedade civil, a imprensa local e nacional. Também participaram dirigentes de ONGs ligadas à Segurança Alimentar e Direitos Humanos das três províncias selecionadas para a realização do projeto em Angola: Benguela, Huambo e Lubango. O futuro trabalho foi apresentado aos rights holders do projeto pela FAO,

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O seminário permitiu o esclarecimento de dúvidas levantadas pelos participantes e o acolhimento das reivindicações trazidas pela sociedade civil aos representantes da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação e da Comunidade Europeia. Tive a oportunidade de me inteirar das reivindicações feitas, a maioria delas buscando esclarecimentos sobre a Lei e sobre a certificação de posse definitiva aos que possuíam documentos provisórios anteriormente concedidos.

Em uma ação pré-evento expliquei à direção dos meios de comunicação da capital os benefícios do projeto tripartite que seria realizado pela FAO, por solicitação do governo de Angola e financiamento da União Européia. Na ocasião foi enfatizada a importância do apoio da imprensa para que todos fossem informados sobre o processo de requerer a delimitação de suas terras e a certificação de posse. Em visita ao diretor de Comunicação e Marketing da Televisão Pública de Angola (TPA), Pedro Ramalhoso, testemunhei o insight que teve sobre o que representaria

o projeto para a população. Ramalhoso (2007) revelou que seu avô vivia em uma área que há centenas de anos abrigava a sua família, sem ter nenhuma garantia de posse. A informalidade poderia vir a significar nos tempos atuais a possibilidade de perda do direito de ocupação, caso um ator com maior força política ou econômica, a demandasse (informação verbal).2

Contribuí em Angola para a visibilidade do projeto ao acionar a imprensa em Luanda na divulgação de seu lançamento e, posteriormente, no apoio aos jornalistas durante o evento na província do Huambo. A observação foi relevante para buscar desvendar a ocorrência e a importância da Comunicação em projetos de Ajuda Humanitária.

Procedimentos

A técnica da entrevista por mim utilizada foi realizada com dirigentes de OIs e ONGs de Ajuda Humanitária, que trabalham em projetos realizados em todo o mundo. A entrevista apresenta a vantagem adicional do contato de curta duração com o entrevistado. “[...] Assim, por saber que o entrevistador provavelmente não

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pertencerá ao seu círculo de relações pessoais ou profissionais, poderá revelar aspectos inesperados.” (Mendes, 1999, p.155).

Foi necessário introduzir no instrumento aplicado em Angola, Itália e Portugal questões comuns para posterior análise comparativa. Os conteúdos de cada divisão de assuntos do questionário serão explicados a seguir:

i. Questões referentes à ajuda prestada.

Essas questões foram desenvolvidas buscando esclarecer a atividade prestada pela organização em seus projetos. O interesse foi também saber se havia dificuldades percebidas durante a realização dos projetos que fossem recorrentes. Por fim, procurou-se saber qual a receptividade dos beneficiários.

ii. Questões referentes à importância da comunicação nos projetos.

As questões foram formuladas neste item com os objetivos de perceber qual a importância atribuída pelos doadores à comunicação e a percepção dos respondentes sobre a influência de ações de comunicação no resultado dos projetos.

iii. Questões relativas à adoção da comunicação em projetos recentes

Buscou-se verificar a existência de budget e o percentual para comunicação

nos projetos realizados nos dois últimos anos (2007 e 2008). O levantamento de dados procurou perceber também a existência de planejamento de comunicação estratégica, as prioridades na divulgação ao iniciar um projeto e se os resultados são divulgados aos “beneficiários” ao seu término.

iv. Questões referentes à necessidade da CpD e garantia de direitos

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sua contribuição para o reconhecimento do direito à cidadania e à segurança alimentar pelos beneficiários.

Durante as entrevistas houve flexibilidade em relação ao roteiro e a abordagem de assuntos pelos entrevistados não previstos inicialmente, enriquecendo assim o processo. Surgiram especificidades como no caso da

Amnistia Internacional que não trabalha com organizações doadoras o que suscitou

uma adequação imediata das questões de minha parte.

Por ser a entrevista uma co-construção social o papel do entrevistador deve ser reconhecido nesta ocasião única. Desta forma, devem ser colocadas nas transcrições as perguntas, hesitações e expressões do entrevistador. De acordo com Mendes (1999) a citação de um extrato sem a pergunta do entrevistador é um ato descontextualizado redutor. Na análise das entrevistas para evitar a descontextualização das respostas é preciso transcrevê-las em sua totalidade, evitando a transcrição só de fragmentos ou trechos mais importantes. É preciso indicar o contexto e a dinâmica de cada entrevista, estabelecendo onde e como transcorreu, se houve interferências ou tensões. A íntegra das entrevistas realizadas está no apêndice da tese. As conclusões auferidas estão no relatório elaborado a partir dos dados coletados localizado no corpo da tese.

Para a aplicação das entrevistas foram selecionados membros do staff da

organização internacional, responsáveis pelas divisões de emergência, de segurança alimentar e divisão de Comunicação. Nas ONGs pesquisadas foram entrevistados os seus dirigentes, portanto atores com visão estratégica e poder de decisão dentro das organizações. E, também, poder no processo de negociação e na posterior realização de projetos. O interesse foi identificar a adoção da comunicação em projetos e verificar qual sua contribuição nos resultados.

As entrevistas foram aplicadas por mim em Portugal e na Itália. Em Angola, por problemas burocráticos para a entrada no país, já citados, as entrevistas foram aplicadas pela coordenadora nacional do projeto ANG035/UE/FAO. A dirigente gravou as respostas às perguntas do questionário enviado e, posteriormente, entregou-me as gravações que transcrevi. A coordenadora do Projeto Terra para Angola foi entrevistada em sua estada no Brasil.

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com os coordenadores de Emergência, sociólogo e economista e com o coordenador de Segurança Alimentar, engenheiro agrônomo. Portanto, na Itália foram entrevistados oficiais dos setores de emergência, segurança alimentar e comunicação da FAO.

As gravações em Portugal ocorreram em Aveiro em 21 de outubro de 2009 com o diretor internacional da Action Aid, engenheiro agrônomo. Em Lisboa foram

realizadas em 14 de novembro, quando foi entrevistado o dirigente do Instituto M (IM), graduado em Relações Internacionais. Em 17 de novembro foi entrevistado o diretor do Instituto para o Desenvolvimento (INDE), jornalista; em 18 de novembro o diretor da Amnistia Internacional, advogado e, em 19 de novembro, o diretor da

OIKÒS com a formação em filosofia e sociologia.

Em Angola as entrevistas realizaram-se em 9 de dezembro de 2009 com o diretor para o país da MUSOL, que tem o nível de licenciatura; e em 11 de dezembro com diretor da OCADEC que é técnico agrônomo. Em Porto Alegre, em 23 de março de 2010 foi entrevistada a coordenadora do Projeto ANG035/EU/FAO para Angola, advogada.

De modo geral, as entrevistas transcorreram com boa recepção por parte dos entrevistados. Apenas um se mostrou receoso com a posterior divulgação e solicitou anonimato e confidencialidade para excluir a possibilidade de motivar futuro entrave ao trabalho da ONG. Pela formação acadêmica dos entrevistados, alguns com PhD,

e a grande experiência que tinham no terreno, ao início da entrevista ressaltei a importância de que esse estudo poderia ter para as ONGs. O fato de ter sido indicada aos demais entrevistados pelo Diretor Internacional da Action Aid e de estar

vinculada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra facilitou os contatos e consegui a concordância em 100% das entrevistas solicitadas.

Os dados das entrevistas foram estruturados segundo os seguintes aspectos para posterior análise:

(i) Aspectos políticos: conhecimento da CpD; aceitação da CpD; valorização da CpD pelos doadores; percentual de budget nos projetos;

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(iii) Aspectos técnicos: características dos projetos; benefícios auferidos; importância da CpD para a Organização.

As hipóteses de partida serviram de instrumentos que orientaram a coleta dos dados não impedindo a verificação de outras possibilidades, decorrentes de fatos novos surgidos durante as entrevistas. Os dados foram agrupados para a identificação dos consensos de informação de cada categoria bem como da estabilidade de informação.

No desdobramento do trabalho foi feita a análise das práticas adotadas na realização de projetos e as práticas de comunicação seguidas pela OI. Também analisei as ações adotadas pelas ONGs angolanas e portuguesas entrevistadas, para efeito comparativo. As informações sistematizadas possibilitaram conclusões e a realização de um referencial teórico-operacional em Comunicação para o Desenvolvimento, contribuição dessa tese.

Objetivos e estrutura da tese

O objetivo geral desta tese é identificar qual tem sido e qual deve ser o papel da Comunicação para o Desenvolvimento em Projetos de Ajuda Humanitária, no restabelecimento dos Direitos Humanos em sociedades pós-conflito, como no caso de Angola.

Os objetivos específicos são:

(i) especificar a relevância e a aplicação da Comunicação para o Desenvolvimento, pela Organização Internacional de Segurança Alimentar e Direitos Humanos selecionada, nos projetos humanitários realizados em situações de pós-conflito ou conflito latente3, caso de pós-guerra ou sociedades que vivem em guerra não

declarada.

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(ii) identificar as ações de comunicação realizadas como apoio aos projetos de Ajuda Humanitária de emergência ou projetos de Desenvolvimento4 - esses

específicos da fase de reconstrução - pelas ONGs de Segurança Alimentar e Direitos Humanos selecionadas em Portugal, comparativamente a de organizações similares em Angola.

(iii) identificar a contribuição da Comunicação para o Desenvolvimento no resgate dos Direitos Humanos em sociedades pós-conflito e em conflito latente.

Por hipótese tem-se que há uma forte relação entre a implantação de ações de Comunicação para o Desenvolvimento no apoio a Projetos de Ajuda Humanitária e Projetos de Desenvolvimento e o resgate dos Direitos Fundamentais.

Roteiro dos capítulos

A estrutura da tese divide-se em quatro capítulos. O primeiro “Contextos de Partida” apresenta as características e o processo de reconstrução em sociedades pós-conflito. Aborda as sociedades que estão em conflito latente, mesmo que não declarado, designadas como Estados Frágeis, Falhados e em Colapso (EFFC) e que vivem as Guerras em Paz. Nesse capítulo serão delineadas as características e os

principais problemas desses estágios e as possíveis soluções.

No segundo capítulo “Projetos de Ajuda Humanitária“ serão analisados os projetos de Ajuda Humanitária que contribuem para a solução de situações emergenciais e para a reorganização política, socioeconômica e técnica em operações que objetivam o desenvolvimento. Essas, são implementadas em intervenções realizadas por OIs e ONGs visando também à reconstrução da Paz, como no caso de Angola.

O terceiro capítulo “Comunicação como Instrumento” apresenta a análise da comunicação em seus diferentes contextos: da cultura da Paz, de desenvolvimento

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e da Comunicação como um direito humano, fazendo um contraponto às históricas recomendações do Relatório MacBride do direito a uma comunicação igualitária e horizontal no mundo.

No quarto capítulo “O Estudo de Caso em Angola” há a inserção de um elemento empírico trazido ao debate que é a descrição de um caso especifico situado em Angola. É nesse ponto da tese que são apresentados os resultados auferidos na investigação realizada com a OI e com as ONGs em Angola, Itália e Portugal. O seu conteúdo apresenta ainda a conceituação, delimitação do tema e diretrizes estabelecidas no Primeiro Congresso Mundial de Comunicação para o Desenvolvimento, cujo documento final The Rome Consensus foi colocado nos

anexos.

Como fechamento, apresento as conclusões e os resultados que esta tese permitiu delimitar. Está incluído nas conclusões um referencial teórico-operacional em Comunicação para o Desenvolvimento tendo como contexto de partida o Projeto Terra. As entrevistas permitiram delimitar a estabilidade da informação e as diretrizes em comunicação utilizadas nos projetos e pela OI e ONGs selecionadas. Essas, acrescidas do resultado da pesquisa bibliográfica, permitiram estabelecer os pontos considerados importantes nos projetos em Comunicação para o Desenvolvimento e que espero possam contribuir com futuros projetos.

A primeira conclusão é a de que a Comunicação para o Desenvolvimento passará a assumir uma posição-chave no desenvolvimento dos países e nos projetos de ajuda humanitária, o que deverá ser reconhecido também pelos doadores a partir de agora. Já existe o consenso de que a prática é fundamental para fomentar a conscientização, a participação, a educação, o empoderamento de gênero e o reconhecimento dos direitos e deveres que a prática da cidadania encerra.

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dos educandos, para que possam – como pregava Paulo Freire – se tornar multiplicadores.

A terceira conclusão é a de que o momento se apresenta como o ideal para a realização de uma profunda mudança, pois as ordens sociais do mundo contemporâneo podem se desmanchar no ar na transformação numa velocidade surpreendente e que precisamos poder enxergar neste caleidoscópio, em todas as suas cores e facetas, reordenações, desenhos e inusitados resultados. O nosso olhar deverá estar apto a acompanhar esse admirável mundo novo. Onde a palavra, transmitida à distância, se soma a milhares, milhões de outras palavras, na velocidade da luz, em frações de segundos, fazendo com que o processo individual se transforme em local, nacional, global. E perceber que possui a força para derrubar a velha ordem estabelecida. As novas tecnologias, essenciais para que se possa trilhar por uma Nova Ordem Mundial de Informação e Comunicação, que, viva, permitiu que a comunhão de ideais e de forças libertárias transformassem em realidade desejos individuais, comunitários, nacionais há muito adormecidos ou amortecidos dos povos do norte da África e do Oriente Médio. O que antes de março de 2011 seria impensável. Aparentemente isolados, os indivíduos, comunidades, os povos, as nações, estão conectadas ao mundo e ligadas a uma sociedade em rede. Redes de comunicação que se formam e se transformam, estabelecendo uma nova ordem.

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Creio que estamos a ver a concretização da utopia da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação. E que ela foi gerada de forma vertical, da base para o topo, da periferia para o centro. Do sul para o norte. Em uma ação revolucionária, imprevisível, a partir dos países periféricos, queatingiu, em cheio, um

mundo civilizado atônito. Esse é um caminho a trilhar que confirma os preceitos da

Comunicação para o Desenvolvimento. O novo está posto e nem a tentativa do governo egípcio em evitar a queda, retirando a rede mundial do ar, surtiu efeito. A força da comunicação concretizou a mudança ainda em curso na região. Realizando o que pregara o Relatório da UNESCO, mesmo sem a paridade da comunicação nos países do mundo. O que está a ocorrer no norte da África e que se propaga pelo Oriente Médio, acredito, vem a confirmar essa teoria.

Parafraseando o sociólogo Fernando Henrique repito: cada vez mais, em silêncio, as pessoas se comunicam, murmuram e, de repente, se mobilizam para

“mudar as coisas”. Neste processo, as novas tecnologias de comunicação

desempenham papel essencial. [...] Um mundo que parecia ser basicamente

individualista e regulado pela força dos poderosos ou do mercado, de repente

mostra que há valores de coesão e solidariedade social que ultrapassam as

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1 CONTEXTOS DE PARTIDA

1.1 Um admirável mundo novo

Quem sobrevoa a África pela primeira vez, talvez espere enxergar aquela densa selva colossal, verde escuro, quase negra, úmida e intocada. Com uma vegetação desordenadamente profusa, tal qual imaginou Joseph Conrad, e com as grandes árvores a reinar sobre tudo. Sobre um grande vazio e o grande silêncio de uma selva imperscrutável. O Coração das Trevas se desdobrando como nos primórdios do mundo enfeitiçando-nos em um lugar distante, tal qual acontecera com o personagem Kurtz. “Mas toda essa quietude em nada lembrava a paz. Era a quietude de uma força implacável pairando sobre inescrutáveis desígnios, olhando para você com um ar vingativo” (Conrad, 1998, p.64).

No entanto, quando se deixa a África do Sul em direção a Angola sobrevoando a Botswana e a Namíbia - países que se interpõem geograficamente ao destino - o que se pode ver são extensas áreas, quase sem vegetação, semelhantes ao cerrado ou a caatinga. A densa floresta imaginária não é perceptível quando o avião voa baixo nessa rota, o que acontece durante longos períodos.

Ao nos aproximarmos de Luanda, capital do país, uma cena se apresentou beirando o inusitado. A pista de pouso era margeada a menos de 15 metros, em quase toda a sua extensão, por pequenas casas compostas por quatro paredes de tijolo nu cobertas por telhas de zinco, fixadas com tijolos soltos colocados sobre os quatro cantos.

Essa configuração de moradia se multiplicava aos milhões fazendo com que o olhar até o horizonte pairasse sobre aquela musseque.5 Kassequel (grifo meu)

abriga mais de quatro milhões de moradores que - ao deixarem suas províncias no interior do país - se transformaram em deslocados internos ao fugir das guerras colonial e civil. Aglomeram-se especialmente nas imediações de Luanda integrando

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a crescente população urbana de uma cidade projetada pelos portugueses para abrigar 600 mil habitantes. E onde vivem atualmente mais de quatro milhões de pessoas.

O aeroporto Internacional, 4 de Fevereiro, reunia muita gente de forma desordenada e barulhenta para embarques e desembarques de voos que não tinham total comprometimento com o horário previsto.

Fotografia 6 – Com as compras feitas

As pessoas se acotovelavam para poder passar pelos fiscais de imigração. Longas filas se formavam. Grupos de pessoas esperavam e muitas vezes carregavam seus pertences em enormes trouxas amarradas. Galinhas vivas, acondicionadas em cestas ou em caixas, também viajavam com seus donos.

Mulheres envoltas em panos com a grafia e as cores da África traziam crianças amarradas a elas por outras cores.

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Fotografia 7 – Aconchego e o rei do galinheiro

Um visitante vindo de um país com uma mínima organização no transporte aéreo se sentiria como um protagonista de filmes já vistos, com cenas da chegada em pequenos aeroportos no continente africano. Depois de ter visto na aterrissagem, quase a invadir a pista, milhões de pequenas casas até a vista se perder no horizonte, uma distinção me chamou a atenção por não ser usual em aeroportos na Europa ou na América. Havia uma passagem à esquerda do pequeno saguão para onde se dirigiam os viajantes em geral. No lado oposto uma placa indicava o acesso restrito a diplomatas e a estrangeiros. Por ali a entrada era imediata e livre de aglomerações.

A exigência de informações sobre o motivo da entrada no país, apesar do visto de trabalho já concedido, é maior em Angola do que na chegada aos Estados Unidos. Jornalistas são vistos com desconfiança. O agente angolano fez uma série de questionamentos sobre o que eu faria lá, mesmo sendo consultora internacional contratada pelas Nações Unidas para um projeto solicitado pelo governo nacional.

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incluir a espera de três horas pelas malas. Por isso, quando se vai para Angola o melhor é viajar apenas com bagagem de mão. Na saída do aeroporto as angolanas ofereciam por 2 kwanzas seus coloridos panos aos estrangeiros.

Fotografia 8 - A vendedora de panos

Os infindáveis pequenos casebres, vistos do alto, abrigam homens, mulheres e crianças vivendo sem luz elétrica, sem água encanada, sem água tratada, sem saneamento básico. Há mais de trinta anos. Os deslocados internos, vindos de diferentes regiões, passaram a compartilhar o mesmo espaço geográfico. Diversas etnias de refugiados, que se hostilizavam na época de paz, ao co-habitar na região urbana. Como resultado do convívio forçado ficou usual casamentos em Kassequel

entre os que antes se matavam, afirmou Fernandez (2007) (informação verbal)6. A escassez de infraestrutura básica para enfrentar a vida com dignidade provocava um sentimento de comiseração.

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Fotografia 9 – Mulher africana em casa precária

Com os pobres de Angola representando os pobres de todo o mundo. Pobres que reconhecemos como despossuídos. Despossuídos até do acesso à comunicação. Sem ter televisão homens, mulheres e crianças se reuniam em pequenos bares lá existentes, onde mais de cinquenta pessoas se juntavam ao redor de um aparelho movido a diesel. Essa situação traz em si consequências negativas para as perspectivas de desenvolvimento de milhões de pessoas e espelha a realidade de muitos países do sul nos dias atuais. Como afirmava MacBride (1983, p.23-24)

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Fotografia 10 – Uma tarde em família

A média da natalidade em Angola é de seis filhos por mulher. As brincadeiras muitas vezes incluem os cuidados de crianças com os irmãos menores. Em Luanda muitos da destituída população de refugiados vivem também em favelas verticais. Essas são os blocos de apartamentos no centro da cidade que pertenceram aos portugueses e, que, agora, não têm mais elevadores em funcionamento, estrutura adequada de água e de recursos sanitários. Os que não encontraram abrigo nos prédios estão morando nas musseques com familiares ou conhecidos, o que dificulta

ao governo cobrar taxas e estimar corretamente a sua população urbana.

Um relatório publicado pela da Anistia Internacional em 2010 relatou que ocorreram despejos forçados nos bairros Bagdad e Iraque. A organização, que teve

MacBride como um de seus membros fundadores, informou que em 2009 foi realizada uma das maiores remoções dos últimos anos, quando foram expulsas três mil famílias envolvendo quinze mil pessoas7. O setor da construção civil e a

7 Ver mais informações em:

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http://www.radioecclesia.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2829:amnistia-internacional-reorganização urbana necessitam de áreas para erguerem os novos prédios e os deslocados não são mais aceitos nessa nova lógica de mercado. O uso excessivo da força e maus-tratos por parte das autoridades estão incluídos na denúncia, além de prisões arbitrárias e execuções extrajudiciais.

Fotografia 11 – Irmãos na porta de casa

Na época estava sendo construída, por uma das inúmeras empreiteiras estrangeiras no país, uma nova rua que daria acesso ao aeroporto. As obras estavam suspensas e lonas de plástico preto cobriam a terra para fazer a contenção das áreas que haviam sido revolvidas pelos tratores. Quando as máquinas – depois paradas em meio à obra abandonada - abriram o solo, brotaram diamantes. O governo estava fazendo a licitação internacional para exploração da área, que

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estava situada no meio da região urbana, pelas companhias estrangeiras de comércio de diamantes.

No caminho entre o aeroporto e o centro da capital angolana havia trechos nas ruas onde o calçamento simplesmente desapareceu pela ação do tempo e que não foram mais reparados depois da saída dos colonizadores. Mostravam a terra vermelha que teimava em se espalhar com o vento. Mulheres novas com filhos amarrados por panos às costas, acompanhadas de mulheres mais velhas, varriam a poeira vermelha das ruas, com vassouras feitas de galhos e folhas de árvores. Em uma luta infindável e perdida com o vento. Angolanos espreitavam próximo às calçadas. Os seus carrinhos-de-mão transportavam mercadorias ou, quando na espera de possíveis clientes, serviam de local de descanso para os seus donos.

Fotografia 12 – À espera de clientes

Sem transporte coletivo urbano e sem táxi, na Luanda de 2007, as pessoas circulavam em motos e carros – veículos por vezes sem a mínima conservação necessária – que pecavam pela falta de segurança. Apinhavam-se ainda nas

kandongas (grifo meu) que eram pequenas vans azuis de transporte informal e por

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vinte. Centenas de Kandongas cruzavam as ruas em um interminável ir e vir no

trajeto entre a feira de Roque Santeiro e o centro da cidade. E formavam um emaranhado de azul e branco em meio ao tráfego entupido de carros. A outra forma de mobilidade era andar a pé.

As vias eram difíceis para veículos sem tração 4x4. Da janela do hotel Presidente, se podia ver centenas de portentosas camionetes Mercedes, BMW, Pathfinder, Nissan e WV Tuareg que desembarcavam rodando diariamente de dentro dos navios. Após deixarem o pátio do porto e ganharem as ruas eram paralisadas por milhares de carros, vans, motos e pedestres. Vendedores ambulantes com toda a sorte de mercadorias imiscuíam-se entre os automóveis. Na comercialização de seus produtos, que podiam ser vivos, paravam os carros para oferecer e para entregar compras. Contribuíam para fazer de toda a cidade um enorme engarrafamento.

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Fotografia 14 – O vendedor de árvores de Natal

No trânsito totalmente caótico, sem regras a seguir e sem vontade de segui-las, as poucas polícias sinaleiras (grifo meu) apenas olhavam sem tomar atitude,

numa visível intenção de não se oporem a balbúrdia instituída. Parece que existe uma via paralela em oposição à via oficial e que as coisas estão organizadas para funcionar de outra forma em Luanda, em um processo que parece irreversível. Irreversível porque as pessoas não retornarão mais para o campo. Criaram novas raízes.

Em contraponto aos buracos, à poeira das ruas e às buzinas feéricas de motoristas que não primavam pela calma ou pela direção segura, arremetendo em meio aos pedestres, para meu total espanto irrompeu um reluzente Jaguar [automóvel], em uma cena absolutamente surrealista.

Como que ausentes da agitação Kinguistas (grifo meu) tinham dezenas de

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A beleza natural

A aproximação do centro de Luanda revelou uma cidade margeando uma linda baía, com prédios baixos, no padrão europeu, voltados para uma ilha que se estendia como um estreito em frente da cidade. É a Ilha do Cabo ou Ilha de Luanda que concentra bares e restaurantes, o clube náutico e as praias. E que se tinge de dourado quando o sol se põe defronte de Luanda. De perto os prédios, que eram sólidas construções, pareciam ter virado cortiços. Por toda a cidade se via que as antigas sacadas dos prédios coloniais, semelhantes às construções dos anos sessenta de Lisboa, foram fechadas com tijolos sem reboco ou com outro tipo de “puxados” para aumentar a área dos apartamentos. Essa prática multiplicada por toda Luanda – acrescida de roupas penduradas pelas fachadas, ao estilo português - conferia um estranho aspecto à cidade. Parecia degradada para quem a via pela primeira vez.

Fotografia 15 – Restos do passado

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Presidente para me levar ao escritório da organização em Luanda. Silva (2007) falou: - nós sofremos muito aqui com a guerra. A cada ano que passava sabíamos

que se aproximava a nossa vez de ter que ir lutar. E nos lembrávamos de nossos

amigos que tinham ido e morrido. A cada ano uma leva de conhecidos que ia para a

guerra não voltava (informação verbal).8 O coordenador local do projeto Fernandes

(2007) contou que, em meio à guerra e sem alimentos, a população recebeu do governo três porcos por família. Em Luanda eles eram criados também dentro dos apartamentos, como fez o seu irmão que não vivia em uma casa. Naquela altura até a Palanca Negra Gigante, um dos mais belos antílopes do mundo, animal símbolo do país e existente unicamente em Angola, já havia sido praticamente exterminado pelo povo faminto (informação verbal) 9 no interior, onde se desenrolava a guerra.

Em meio aos prédios desfigurados da antiga cidade colonial cresciam como do nada, estruturas de enormes construções de cerca de 20 andares. Algumas obras ainda no início, com o esqueleto já quase concluído, ladeadas pelos enormes guindastes amarelos, altos como o prédio que surgia. Outras, já em fase de acabamento, eram moderníssimos prédios espelhados, que pareciam terem sido transplantados da Avenida Paulista. Empreiteiras internacionais – brasileiras e chinesas – para cumprirem seus cronogramas iniciais levavam para Angola os operários da construção civil, além dos engenheiros, arquitetos e paisagistas. Os administradores estrangeiros afirmavam que os angolanos não tinham comprometimento com o trabalho, faltando demais. E, que, para respeitar a data de entrega da obra era preciso importar também os pedreiros, serralheiros, pintores, eletricistas, encanadores, azulejistas, marceneiros, vidraceiros, escavadores... Assim o que poderia ser oportunidade de trabalho para os angolanos ficava para os estrangeiros pela falta de formação do povo.

Elevador panorâmico e indignação local

O fornecimento de luz em Luanda pressupunha energia 24 horas por dia. Uma vantagem dos habitantes da capital do país. Na província de Huíla localiza-se o

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município do Lubango que era uma das regiões de desenvolvimento do projeto Terra. Lá só havia fornecimento de luz por seis horas ao dia, em rodízio. Isto há trinta anos.

A União Europeia era a patrocinadora do projeto e foi necessário fazer a apresentação de meu relatório de missão em Angola ao coordenador de segurança alimentar da organização no país. Destoando da falta de reparos de todos os prédios vistos até então, a sede da União Europeia que era um pequeno edifício de cinco andares, que havia sido bem reformado e possuía uma estrutura contemporânea.

Além de mim, participaram da reunião o diretor do projeto da FAO Roma, o Representante da FAO em Angola, o coordenador internacional do projeto no país e o consultor angolano que o coordenava localmente. Na saída desci pelo elevador, enquanto os demais pela escada. Faltou luz e fiquei trancada com o consultor local no pequeno elevador, felizmente panorâmico, de onde se avistava a baía de Luanda e a Ilha do Cabo. Fomos baixados à força por dois angolanos que levaram quase uma hora puxando cabos.

Ao chegarmos na Land Rover branca com o símbolo azul da ONU na porta,

onde os demais nos esperavam acomodados, o Representante me disse que sempre faltava luz. E, portanto, não era recomendável entrar em elevadores. Nesse momento o coordenador internacional disse: - isso é Angola. A que eu respondi: –

não, isso é o elevador. O motorista local que nos apanhava no hotel todos os dias e

nos transportava calado, a menos que fosse consultado, nesse momento e para meu espanto disse inflamado: - é, isso é o elevador. Não Angola. Percebi naquele

momento que muitas vezes comentávamos sobre o projeto e sobre a vida no país. E que, possivelmente, as impressões do olhar estrangeiro não lhe soavam bem.

Uma das críticas frequentes das lideranças locais aos consultores internacionais de ajuda humanitária é a de que chegavam com uma estratégia exógena para ser implantada no país, inflacionavam os preços devido aos seus altos salários para os padrões locais, movimentavam-se em suas Land Rover brancas e,

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vácuo atrás dela que foi preenchido pelo caos. (Power, 2009, p.33). Gusmão pediu que Vieira de Melo prometesse não repetir o Camboja. E não repetir significaria criar estruturas governamentais funcionais que fizessem uma diferença concreta e duradoura para os cidadãos.10

Essa mesma preocupação existia em Angola, pois era primordial que ao final do projeto os resultados fossem importantes também para a população. E isso significaria que os certificados de posse em mãos das pessoas em áreas rurais significassem o empoderamento, a possibilidade de acesso ao crédito para custeio do plantio e surgimento do sustento familiar.

Fotografia 16 - Brinquedo

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Conceitos revisitados

Alguns conceitos abordados passam a ser agora preliminarmente descritos e ressalto que serão aprofundados no corpo da tese. Os projetos realizados por Organizações Internacionais (OIs) e Organizações não Governamentais (ONGs) com o objetivo de viabilizarem negociações aportando força política, know-how

técnico e recursos para reverter quadros de fome, violência, exclusão, discriminação, bem como para minimizar efeitos de crises humanitárias são denominados

Ajuda Humanitária.

Ocorrem após catástrofes naturais ou provocadas pelo homem como nos conflitos bélicos e vêm apresentando efeitos cada vez mais devastadores por inúmeros fatores: mudança da natureza dos conflitos, alterações climáticas, disputa por recursos energéticos e naturais, pobreza extrema e má governação.

Essas são situações afetam diretamente as populações civis, especialmente as pessoas mais pobres e vulneráveis de países não desenvolvidos e resultam, de acordo com o Instituto Português do Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), no surgimento de imensas populações de refugiados ou de deslocados internamente para outras regiões em seus próprios países.

A ajuda humanitária se desenvolve em dois momentos distintos: (i) a fase da emergência imediatamente após o fim do conflito ou da catástrofe; (ii) a fase de desenvolvimento, quando terminam as ações de emergência e uma nova proposta é adotada para que sejam atingidas metas de promoção da retomada do desenvolvimento socioeconômico.

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para as Organizações Internacionais, em um passado recente, foi o Tsunami11 na Tailândia. Isso pela violência e alcance da devastação que resultou em enorme envolvimento da comunidade internacional.

Quando conceitos se tornam realidade

As guerras surgem sistematicamente nos quatro cantos do mundo e só no continente africano a devastação provocada pelo homem atingiu Angola, Moçambique, Serra Leoa, Libéria, Sudão para citar alguns países envolvidos em conflitos recentes. O Egito, a Tunísia, são casos de conflitos que eclodiram em 2011 e que rapidamente foram superados, com a renúncia de seus ditadores pressionados pelo povo e pela comunidade internacional. O reinado do Bahrein, neste momento, tenta romper o ciclo de revolta que chegou dos países vizinhos e se fortalece com a presença do exército da Arábia Saudita. O Iêmen também enfrenta revoltas, como a Síria. A Líbia decidiu fazer jogo duro bombardeando os revoltosos. Como resultado seguiu-se a aprovação das Nações Unidas e o bombardeamento iniciado pela França em 19 de março. Desta vez, ao contrário do que ocorreu no Iraque, as grandes potências não tomaram atitude alguma antes do referendum do

Conselho de Segurança das Nações Unidas. Depois que os Estados Unidos - com o apoio da Grã-Bretanha - abriram a Caixa de Pandora na guerra não autorizada pela comunidade internacional contra o Iraque, os poderosos ficaram mais cautelosos. Aquela guerra começou para ser “rápida” e após uma sucessão de equívocos, denunciados no seu transcorrer, até hoje os americanos não sabem como pôr um final. Nesta foi formada um coalizão de países que será liderada pela OTAN, com o desinteresse americano de liderar o conflito mais uma vez. Adotando uma atitude

11E mais uma vez um tsunami. Desta vez , varreu o Japão no início de março de 2011. Frente

a um mundo atônito que logo se mobilizou para a ajuda humanitária de emergência após a desgraça. Esse certamente terá efeitos muito mais devastadores que seu predecessor. O tsunami foi seguido do maior terremoto registrado no Japão em todos os tempos, acompanhado de contínuos sismos de menor intensidade. O tremor da terra acentuou a devastação da água que varreu o norte do país. Desta vez, ao sinistro da natureza se agregam incêndios e vazamento nos reatores da usina de Fukushima, com perigo real de contaminação do meio ambiente por radiação nuclear. Além de evacuar cidades inteiras em um raio de 30 km da usina, o acidente está motivando uma reavaliação de programas nucleares por governos em todo o mundo.

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diferenciada em relação à era Bush, Obama anunciou do Brasil que aderia a uma “ação militar limitada” na Líbia como apoio à decisão da coalizão..

“O governo Líbio ignorou os avisos de cessar fogo da ONU e manteve os bombardeios. Manteve o ataque à sua própria gente. Atacar não foi a primeira solução e Kadafi teve a chance de parar de atacar o seu povo. As vezes é preciso tomar medidas penosas para proteger civis”

discursou Barak Obama, neste 20 de março.

Numa situação de conflito é necessário garantir socorro e proteção aos civis. Pregava a abordagem clássica que nesse momento deve haver imparcialidade para que haja igualdade na assistência. Ao final dos conflitos torna-se necessária a ajuda para a reconstrução ou, muitas vezes, criação, das estruturas. Por definição a ajuda de Emergência caracteriza-se por intervenções de curta duração. Os projetos que têm financiamento da União Europeia (UE) para a reconstrução, por exemplo, recebem subsídios por apenas seis meses. A Organização tem por objetivo assegurar que a população beneficiada faça frente à situação quando cessar a ajuda humanitária, podendo ter alternativas de ajuda ao desenvolvimento no longo prazo. Isto por ser grande o risco de não haver recursos que substituam a ajuda quando esta acaba.

A reconstrução ao final da guerra muitas vezes deverá ser nos aspectos físico, econômico, político e social como foi o caso do Timor Leste. O país foi totalmente devastado durante a saída das forças da Indonésia que ocupavam o seu território e que implantaram a política de “terra arrasada”, comum ao final de conflitos. O resultado foi três quartos de todas as propriedades do país queimadas ou destruídas. A ação teve início uma hora após 78,5% dos timorenses terem decidido por sua independência em 4 de setembro de 1999, data declarada pelo líder da independência timorense Xanana Gusmão, como o “dia da libertação nacional. (POWER, 2008, p.314).

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A ideia da

cidadania

como um direito universal tem sido reforçada pela crença de ser um valor democrático, universal e baseado no princípio dos direitos humanos. O sucesso como projeto histórico decorre da convergência das lutas pelo reconhecimento, pela dignidade, pela participação e representação livres e igualitárias e pelo usufruto comum de direitos cívicos, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais das sociedades. A construção da cidadania exige o reconhecimento e o respeito à identidade, à cultura, à liberdade de credo e aos direitos políticos. (HESPANHA et al, 2009).

Cidadania é ainda um construto moral, político e jurídico ambivalente que aparece em sociedades históricas complexas e abertas, nas quais o dilema entre indivíduo e sociedade é equacionado mediante o surgimento de esferas públicas que valorizam o “mundo comum”. Na modernidade tais esferas reduzem as influências do privado e realçam a importância da igualdade como conquista política e jurídica sendo a propriedade individual relativizada pela propriedade social. No plano moral, o valor primordial para a cidadania é a igualdade social, significando privilegiar o todo social, a vontade coletiva, a obrigação moral supra-individual e o predomínio da sociedade. (MARTINS, 2009; HESPANHA et al, 2009).

Portanto, podemos entender cidadania como o respeito à diversidade humana que representa o tesouro da unidade humana que, por sua vez, constitui-se o tesouro da diversidade humana (MORIN, 1997). É necessário reencontrar e realizar a unidade humana na manifestação de sua diversidade para respeitar o direito à cidadania. É preciso reencontrar e cumprir a unidade humana na manifestação das diversidades, salvar singularidades e diversidades ao mesmo tempo em que seja instituído um tecido comum. Assim como é necessário que seja estabelecida uma comunicação viva e permanente entre passado, presente e futuro, essa deverá permear as singularidades culturais, étnicas, nacionais e o universo concreto de uma Terra-pátria para todos, reforça Morin. Entende o sociólogo que um dos grandes desafios deste século será:

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assim o objetivo fundamental e global de toda a política que aspire ao progresso e à sobrevivência da humanidade” (MORIN,1997, p.34).

A cidadania pressupõe deveres para com o interesse comum, que se traduzem em cooperação e responsabilidades. A igualdade de obrigações e de benesses em sociedade e os direitos e deveres perante a lei. Muitas vezes essas aspirações não são respeitadas gerando disputas que precisam ser mediadas para que impasses e interesses antagônicos possam ser superados. A

Comunidade

Internacional

- grupo de países pertencentes às Nações Unidas e que de forma conjunta toma decisões a respeito de ações que afetam outros países – deve manter a ordem internacional interferindo em conflitos para mediá-los e para fornecer ajuda para minimizar as suas conseqüências com o trabalho realizado por suas agências.

Existe uma distinção entre a comunidade internacional “oficial”, identificada como a Organização das Nações Unidas, e a comunidade “real” que é a composta pelas grandes potências mundiais e pelas empresas multinacionais. A comunidade internacional “real”, movida por seus imensos interesses econômicos, tem feito valer seu poder de influência nas decisões da ONU. Esse poder paralelo se fez presente em relação à Angola, em virtude de seus enormes recursos naturais. MESSIANT12 (2004 apud PUREZA et al, 2007, p. 13). A indústria do petróleo e a extração de

diamantes posicionam Angola entre os maiores produtores mundiais. A receita derivada do petróleo significa 85% das reservas e dos diamantes 5% (CIA, 2010). Essa riqueza motiva a que interesses econômicos se sobreponham aos interesses humanitários e interesses sociais pelos players internacionais, que junto aos países

hegemônicos formam a comunidade internacional “real”. Em uma sociedade destroçada por décadas seguidas de guerra e em paz apenas a partir de 2002, projetos de ajuda humanitária de desenvolvimento surgem no final da fase da ajuda de emergência.

O direito à cidadania é uma construção que pode ser ampliada com a adoção da

Comunicação para o Desenvolvimento

que é um processo social, baseado no diálogo, que utiliza uma ampla gama de ferramentas e métodos com o objetivo de

12 Messiant, Christine. 2004. “As causas do fracasso de Biecesse e Lusaka:uma análise crítica. Da paz militar à

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partilhar conhecimento e competências. Visa construir políticas e promover debates que resultem em mudança significativa e sustentada em direção ao desenvolvimento e ao bem comum (ONU, 2006, p.9).

Uma estratégia de desenvolvimento que aplica o enfoque da comunicação pode revelar as atitudes silenciosas das pessoas e sua sabedoria tradicional, ao mesmo tempo em que as ajuda a adaptarem suas perspectivas, adquirir novos conhecimentos e habilidades e propagar, de forma massiva, novas mensagens com conteúdo social para públicos mais amplos. (FRASER; VILLET 1994). O intercâmbio de ideias mais intenso entre todos os setores da sociedade, possibilitado pela comunicação, resultará em uma maior participação da população em uma causa comum. Participação essa que é requisito fundamental para o desenvolvimento sustentável como assinalaram os especialistas em comunicação FAO, organização que foi a criadora do conceito e introdutora da sua prática já no início dos anos 80.

Os projetos que pretendem conduzir uma sociedade à solução de problemas políticos e socioeconômicos decorrentes de conflitos poderão ter diferentes enfoques, mas visarão ao

desenvolvimento

. Inicialmente o termo desenvolvimento foi usado em meados do século XIX para designar uma sociedade em evolução, tendo nessa noção o conceito implícito de um desenvolvimento que fosse progressivo. A denominação desenvolvimento relativa aos processos de uma economia industrial e comercial passa a ser usual no século XX. O conceito traz em

si, entretanto, a ideia de seu contrário: o não desenvolvido.

A mudança mais significativa ocorre, após 1945, com a conotação de

subdesenvolvido, termo ao qual se associava a ideia de terras em que os recursos

naturais se desenvolveram ou foram explorados de modo insuficiente; e de economias e sociedades destinadas a atravessar “etapas de desenvolvimento”, de

acordo com um modelo conhecido. Ao mesmo tempo incluía a concepção de sociedades pobres, coloniais ou ex-coloniais e lugares nos quais as idéias já estabelecidas de desenvolvimento deveriam ser aplicadas. Mais ainda, a de

economias e sociedades fadadas a atravessar etapas de desenvolvimento

previsíveis, de acordo com um modelo consagrado. O termo adquiriu uma designação mais branda: em desenvolvimento ou em processo de desenvolvimento

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O desenvolvimento pode alternativamente ser entendido como o processo de ampliação das liberdades individuais, ou seja, das liberdades humanas, pressuposto esse que contrasta com as perspectivas restritivas que identificam o desenvolvimento com índices de crescimento, de industrialização ou de modernização. O papel instrumental da liberdade diz respeito ao modo como os diferentes tipos de direitos, oportunidades e habilitações, contribuem para o alargamento da liberdade humana em geral, promovendo assim o desenvolvimento (Sen, 2003). Esse constituirá o foco de Desenvolvimento prioritário nesta tese.

Entendo que desenvolvimento deva ser holístico visando, em primeiro lugar, o crescimento do ser humano. E que esse crescimento possa concretizar uma

sociedade sustentável, pautada pelos princípios básicos da sustentabilidade

ecológica, econômica, social e política.

Uma Sociedade Sustentável deverá definir seus padrões de acordo com as tradições culturais, parâmetros próprios, composição étnica e em estrito respeito às conquistas universais consolidadas na Declaração dos Direitos Humanos.

Sociedade Sustentável passa a ser um conceito mais apropriado do que o de

Desenvolvimento Sustentável à medida que possibilita a cada sociedade definir seus

padrões de produção e consumo (DIEGUES, 1992). E também decidir o que é bem-estar a partir de sua própria cultura, de seu desenvolvimento histórico e de seu ambiente natural. Portanto, a crença na primazia do padrão das sociedades industrializadas é substituída pela possibilidade de existência de uma diversidade de sociedades sustentáveis. Essas, pautadas pelos princípios básicos da sustentabilidade , já descritos.

A sociedade sustentável apresenta-se como uma das utopias para o século

XXI. Tem o objetivo de conquistar opções econômicas e tecnológicas que visem

principalmente ao “desenvolvimento harmonioso das pessoas” e de suas relações com o conjunto do mundo natural (DIEGUES, 1992). Na sociedade sustentável ou

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participativa, e que uma superação do abismo entre o Norte e o Sul se transmute em cooperação significativa (SACHS, 1993).

Para que o mundo seja o lugar de acolhimento de todos os povos, alguns conceitos devem ser revisitados. A recuperação da natureza somente se dará à medida que a solidariedade for exercida entre todas as espécies vivas. Conceitos recorrentes como sustentabilidade, responsabilidade e esperança deverão ser idéias que guiarão a regeneração planetária. E apontarão para um caminho norteador que possibilitará que o equilíbrio da terra chegue às futuras gerações. Para um mundo sustentável precisará ser alterado seu o eixo, hoje prioritário, do crescimento econômico e dominação da natureza para o bem-estar comum da sociedade planetária. Necessitamos de um modelo cultural que garanta a continuidade e a preservação das espécies vivas. “Em outras palavras, razão, determinação, repetição e objetividade não sobrevivem sem sensibilidade, incerteza, criatividade e subjetividade. No cotidiano, exercitamos simultaneamente multiplicidades, objetivação e subjetivação. Ambas têm a ver com a preservação da Terra-pátria”. (De ASSIS CARVALHO, 2010, p.108).

O princípio de que necessitamos conservar a vida da Terra e, portanto, a vida das espécies incluindo a humana, deverá ser adotado por organismos internacionais, instituições públicas e privadas empenhadas e emprenhadas pelo espírito da harmonia planetária, e pelas nações e seus cidadãos. A responsabilidade e o empenho com o respeito simultâneo para com a diversidade e a unidade dos processos civilizatórios devem como cunhou Hans Jonas, se constituir em patrimônios histórico-culturais a serem preservados a qualquer custo. E que se traduzem na salvaguarda do equilíbrio dos sistemas naturais e a fraternidade entre todos os povos e culturas (De ASSIS CARVALHO, 2010). Equilíbrio dos sistemas naturais, a fraternidade de todos os povos e culturas resultará na consolidação das Sociedades Sustentáveis.

Outro conceito apropriado a esse estudo é o de

Desenvolvimento

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indivíduos são ampliadas, sendo as mais importantes uma vida prolongada e saudável, o acesso à educação e a fruição de um nível de vida decente.

Outras oportunidades incluem a liberdade política, a garantia dos direitos humanos e o respeito próprio. Nessa visão o ser humano é a meta do desenvolvimento e não o seu “meio”. Para o PNUD, o propósito do crescimento econômico deve ser a melhoria da vida humana que será alcançado com os avanços no crescimento econômico, isso para que os progressos no desenvolvimento humano sejam realizáveis e sustentáveis.

Existem Estados em que a liberdade política, a garantia dos direitos humanos e o próprio desenvolvimento humano com tudo o que ele representa – direito à paz, não violência, educação, a habitação, a saúde, a segurança alimentar, a livre expressão - não são respeitados. São denominados

Estados Frágeis, Falhados

e em Colapso

(EFFC) conceito que surge com o final da guerra fria quando os “novos conflitos” ou intraestatais – pré-existentes, mas dissimulados pela Guerra Fria – passam a ser conhecidos e alvo de intervenção de atores internacionais como jornalistas, consultores, investigadores, etc.

De acordo com Pureza (2005) a necessidade de reforma dos EFFC é disseminada como resposta aos conflitos armados intraestatais e aos efeitos sobre a população civil e países vizinhos. Os conflitos internos e erosão das estruturas estatais têm dominado o panorama internacional contemporâneo resultando em 90% de vítimas civis e 40 milhões de pessoas deslocadas em guerras que elegeram a população civil como objetivo militar dos combatentes, o que resultou em um aumento de refugiados e deslocados internos extraordinário.

As características dos EFFC de acordo com (HEDLEY BULL, 1995) são: (i) não assegurarem o mínimo de condições de civilidade internamente, (ii) apresentarem colapso da autoridade central, (iii) haver altas taxas de corrupção, (iv) ocorrer perda do controle territorial, (v) possuírem baixa capacidade administrativa e burocrática, instabilidade política, (vi) existir conflito armado, políticas repressivas e regimes autoritários.

Imagem

Foto 30  –  Mulher cozinhando

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