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Escavando entre papéis: sobre a descoberta, primeiros desaterros e destino das ruínas do teatro romano de Lisboa

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Academic year: 2021

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Vir bonus peritissimus aeque.

Estudos de homenagem

a

Arnaldo do Espírito Santo

Maria Cristina Pimentel

Paulo Farmhouse Alberto

(eds.)

Centro de Estudos Clássicos

LISBOA

(2)

Vir bonus peritissimus aeque.

Estudos de homenagem a Arnaldo do Espírito Santo

Edição de:

Maria Cristina Pimentel Paulo Farmhouse Alberto

Revisão: Ana Matafome, Ricardo Nobre e Rui Carlos Fonseca Publicado por:

Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Alameda da Universidade 1600-214 Lisboa – Portugal Tel.: (351) 217 920 005 Fax: (351) 217 920 080 E-mail: [email protected] Website: http://www.fl.ul.pt/cec Paginação e impressão:

Grifos – Artes Gráficas, Lda.

Capa: Paulo Pereira Foto de capa: José Furtado Número de exemplares: 500 Lisboa | 2013

ISBN: 978-972-9376-29-0 Depósito Legal: 366077/13

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sobre a descoberta, primeiros desaterros e destino

das ruínas do teatro romano de Lisboa

Carlos Fabião

Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [email protected]

Desejando colaborar no volume de Homenagem ao meu Querido Amigo e Colega Arnaldo Espírito Santo, proponho uma análise da informação disponível sobre a descoberta e intervenções realizadas nas ruínas do teatro romano de Lisboa. Pareceu-me tema adequado para quem, durante a sua carreira académica, soube construir pontes entre a cultura clássica, em sentido estrito, e as tradições clássicas na cultura ocidental.

1. A descoberta do teatro romano de Lisboa

De entre os vestígios da cidade romana de Felicitas Ivlia Olisipo, revelados no decurso da reconstrução que se seguiu ao grande terramoto de 1755, o mais relevante foi sem dúvida o teatro, identificado em área compreendida entre a Rua da Saudade e a Rua de S. Mamede.

O que se publicou sobre as circunstâncias da descoberta do monumento e primeiras acções de desaterro do mesmo constitui aquilo a que podemos chamar um conhecimento “cristalizado”, estabelecido a partir de uma única fonte, o opúsculo Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno, manifestas causas, e atendíveis circunstancias da erecção do Tablado e Orquestra do antigo Theatro Romano, descoberto na excavação da Rua de São Mamede perto do Castello, com a intelligencia da sua Inscripção em honra de Nero, e noticia instructiva d’outras Memorias alli mesmo achadas e atégora aparecidas, da autoria do excêntrico Professor Régio de Gramática e Língua Latina Luiz Antonio de Azevedo e dado à estampa em 1815. Nas páginas da Dissertação ficamos a saber que o monumento teria sido descoberto em 1798, como noticiou a Gazeta de Lisboa, que o arquitecto italiano da Casa Real Portuguesa Francisco Xavier Fabri trabalhara no seu desaterro e no desenho das ruínas, sendo Azevedo o autor da leitura das duas inscrições encontradas, a monumental, do proscaenium, dedicada a Nero (CIL II, 183 // EO, 70), e o cipo consagrado ao augustal C. Heius

Maria Cristina Pimentel, Paulo F. Alberto (eds.), Vir bonvs peritissimvs aeqve. Estudos de homenagem a Arnaldo do Espírito Santo, Lisboa, Centro de Estudos Clássicos, 2013, pp. 389-409.

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Primus (CIL II, 196 // EO, 71), o benemerente promotor do embelezamento do teatro 1.

A ilustração do opúsculo, da autoria de Fabri, incluiu o prospecto das ruínas, o desenho do cipo e de duas estátuas de silenos que ornavam o edifício – “o Prospecto da elevação das ruinas do Theatro Lisbonense, que o perito Arquitecto Regio Francisco Xavier Fabri com espirito verdadeiramente Patriotico, e zelo e aumento da Nação Portugueza, nos comunicou gratuita e francamente” 2.

Desde então, de Castilho 3 e Vieira da Silva 4 a Jorge Alarcão 5, Theodor Hauschild 6,

Dias Diogo 7 ou Lídia Fernandes 8, bem como toda a restante (e abundante) literatura

publicada, todos reproduziram a lição de Azevedo e as ilustrações de Fabri, tendo ganhado maior protagonismo nos últimos anos o grande desenho aguarelado, também da autoria do italiano, que constitui peça central do estudo do monumento e do Museu do Teatro Romano de Lisboa, intitulado Mapa geral da Escavação que se fez perto da Rua de São Mamede por baixo do Castelo desta Cidade de Lisboa 9. Somente Adriano Vasco

Rodrigues, em artigo publicado em 1987, quando assumiu efemeramente a direcção dos trabalhos arqueológicos no local, sugeriu que a descoberta do monumento poderia ser um ano mais antiga, invocando em favor desta proposta o depoimento de Ruders 10, o

que só poderá resultar de um equívoco, uma vez que a visita do capelão sueco às ruínas foi narrada em carta enviada de Lisboa a 18 de Junho de 1799, referindo o “notável monumento arqueológico, que no Outono passado se descobriu, casualmente” 11, logo,

o Outono anterior a Junho de 1799 seria o de 1798. Como se verá, também não estaria Ruders correctamente informado, porque a descoberta é anterior ao Outono.

1 Gazeta de Lisboa, Supp. XLVII, de 23 de Novembro de 1798; segundo Supp. à Gazeta de Lisboa,

VI, de 9 de Fevereiro de 1799; Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno, manifestas causas, e atendíveis circunstancias da erecção do Tablado e Orquestra do antigo Theatro Romano, descoberto na excavação da Rua de São Mamede perto do Castello, com a intelligencia da sua Inscripção em honra de Nero, e noticia instructiva d’outras Memorias alli mesmo achadase atégora aparecidas, Lisboa, Na Nova Impressão da Viuva Neves e filhos, 1815.

2 Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno…, cit.,

p. 46.

3 J. Castilho, Lisboa Antiga, Segunda Parte, Bairros Orientaes, Tomo I, Coimbra, Imprensa da

Universidade, 1884.

4 A. V. Silva, Epigrafia de Olisipo (subsídios para a história da Lisboa romana), Lisboa, Câmara

Municipal de Lisboa, 1944.

5 J. Alarcão, O teatro romano de Lisboa. In: Actas del Symposio: El Teatro en la Hispania Romana,

Badajoz, 1982, pp. 287-302.

6 T. Hauschild,“Das Roemische Theater von Lissabon. Planaufrahme 1985-1988”, Madrider

Mittei-lungen, 31, 1990, pp. 348-392.

7 A. M. D. Diogo,“O Teatro romano de Lisboa. Notícia sobre as actuais escavações”, Teatros

Roma-nos de Hispania. CuaderRoma-nos de Arquitectura Romana, 2, 1993.

8 L. Fernandes, “Capitéis do teatro romano de Lisboa”, Anas, 14, 2001, pp. 29-51; Idem, “As bases de

coluna nos desenhos dos séculos XVIII e XIX do Teatro romano de Lisboa”, Revista Arqueologia e Historia, 56-57, 2004-2005, pp. 83-94; Idem, “Teatro Romano de Lisboa os caminhos da descoberta e os percursos de investigação arqueológica”, Al-madan, II série, 15, 2007, pp. 28-39; L. Fernandes, A. Caessa, “O proscae-nium do Teatro romano de Lisboa”, Arqueologia & História, 58-59, 2006-2007, pp. 83-101.

9 I. Moita, “Notícia de Novos Achados e Documentos Referentes ao Teatro Romano”, in Estudos de

Arte e História. Homenagem a Artur Nobre de Gusmão, Lisboa, Veja, 1995, pp. 372-377.

10 A. V. Rodrigues, O teatro Romano de Felicitas Julia (Lisboa), Suplemento de Ingenium, Dezembro,

1987, pp. 5-6.

11 Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal 1798-1802, tradução António Feijó, prefácio e notas de

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A relevância do monumento olisiponense justificou o sucesso da Dissertação, destacada sempre de entre as obras de Luiz Antonio de Azevedo, por ser, nas palavras de Inocêncio: “a única memoria que ficou d’aquelle celebre monumento, cujas reliquias e fragmentos se deixaram perder de todo, ao que parece, pela proverbial incúria com que estas cousas foram sempre tratadas entre nós” 12. O verbete dedicado ao Professor

de Gramática na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira alinha pelo mesmo tom, dizendo da Dissertação que se trata de: “o único documento existente do teatro romano que existiu na rua de S. Mamede ao Caldas, e cujas ruínas se pulverizaram nos entulhos municipais” – bem entendido, o verbete, claramente tributário do Dicionário Bibliographico, terá sido publicado antes da década de 60 do século XX, quando, por iniciativa, primeiro, de Fernando de Almeida e, depois, da Câmara Municipal de Lisboa, com Irisalva Moita, se procedeu a novas intervenções na área onde jaziam as ruínas. Refira-se, também, que o texto de Inocêncio, dado à estampa na década de 60 do século XIX, contradiz as informações de Júlio Castilho de que ainda estaria visível o monumento nessa época 13.

A existência de algumas notas dissonantes ou de elementos de desconhecida procedência, como os desenhos que se conservam entre os papéis de Fr. Manoel do Cenáculo Villas-Boas, na Biblioteca Pública de Évora, ou o da colecção Vieira da Silva (presentemente no Museu da Cidade, em Lisboa, com cópia exposta no Museu do Teatro Romano) e alguma veemência assertiva da Dissertação ou nas notícias publicadas na Gazeta de Lisboa, cuja autoria Azevedo reclama 14, não eram suficientes para apoquentar

os investigadores. Paralelamente, o circunstanciado estudo sobre Fabri, realizado por Ayres de Carvalho, revelou novos dados que, embora precisando aspectos da sua intervenção, suscitavam novas interrogações. Refiro-me concretamente ao Relatório 1799, onde se propõe o embargo às obras que os proprietários do terreno tinham reiniciado sem autorização e se propõe aquilo a que hoje chamaríamos a “musealização” das ruínas – “no cazo de querer S. Mag. Conservar o antigo Monumento no mesmo lugar, em que se achou, sou de parecer, que se compre o Terreno, e a parede dos Edificantes; e se torne a colocar outra vez no seu lugar parte das Pedras da Inscripção, que se tirarão para fora, antes de eu ser encarregado de vigiar sobre a indagação

daquelas Antiguidades” 15 –, o sublinhado é meu, justamente por revelar a existência

de um antes da intervenção do italiano, suficientemente importante para ter posto a descoberto e retirado do lugar alguns elementos do muro do proscaenium com a conhecida epígrafe monumental.

Relendo a primeira notícia publicada sobre o edifício, no Segundo Suppplemento á Gazeta de Lisboa, XXVII, de sábado 7 de Julho de 1798, percebemos que esse antes existira de facto, uma vez que narra a última sessão pública do ano da Real Academia das Sciencias de Lisboa, a 4 de Julho, na qual o padre Joaquim de Foyos, oratoriano, leu uma memória: “sobre qual fora o tempo da fundação do Theatro Romano, ultimamente descuberto na escavação da rua da Saudade, e sobre qual fora o Imperador a quem o

12 Innocencio Francisco de Silva, Dicionario Bibliographico Portuguez, T. 5, Lisboa, Imprensa

Nacional, 1860b, p. 215.

13 J. Castilho, Lisboa Antiga, Segunda Parte, Bairros Orientaes, cit., p. 117.

14 Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno…, cit. 15 Fabri, 1799, in Ayres de Carvalho, Os três arquitectos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico.

Man-uel Caetano de Sousa (1742-1802) José da Costa e Silva (1747-1819) Francisco Xavier Fabri (1761-1817), Lisboa, Academia Nacional de Belas-Artes, 1979, pp. 142; 152.

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mesmo Theatro fora dedicado.N.B. O descubrimento do resto da inscripção achada no referido Theatro, declarando ser Nero o Imperador a quem elle fora dedicado, confirmou em parte as Conjecturas do P. Foyos, que pelas suas reflexões criticas tinha assentado ser o mesmo Theatro dedicado a Nero ou a Caligula” 16. Registe-se e sublinhe-se o facto

de ter existido um momento em que não era claro o nome do imperador que figurava na inscrição monumental, que permite datar do mês de julho de 1798 o desaterro do lado oeste do proscaenium – infra se comentará a relevância deste dado. Registe-se ainda que ignoramos a razão pela qual o oratoriano, mais versado em questões poéticas e gramaticais, se ocupou das ruínas do teatro, não havendo notícia de que esta conferência tenha passado a escrito, por nada constar na relação das suas obras elaborada por Inocêncio da Silva 17.

Não ficou por aí a atenção dos académicos já que na mesma sessão se apresentaram também outros trabalhos relacionados com o teatro romano: “O P. José de Azevedo, da Congregação do Oratorio, leo huma Memoria acerca de huma Medalha de Alexandre Magno, descuberta na escavação já mencionada, e oferecida á Academia pelo seu Correspondente de numero Joaquim José da Costa e Sá” – um nome a reter – e “O Desembargador João Vidal da Costa e Sousa leo a traducção das Legendas de duas moedas Arabes; e a Inscripção de hum annel também Arabe, que fora achado com huma das ditas moedas na escavação já mencionada”. Naturalmente, não sabemos do que trataria a primeira, uma vez que se afigura pouco provável que ali se tivesse encontrado alguma moeda do macedónio; a segunda é mais interessante por demonstrar não estar exclusivamente focada no passado Clássico a atenção dos eruditos e antiquários da época, como tantas vezes se supõe.

Seguramente, foram submetidas outras memórias à Academia, de que só restavam até há pouco notícias da sua elaboração: uma, da autoria do Professor Régio de Latim e Sócio Correspondente Joaquim José da Costa e Sá (justamente o que oferecera à agremiação científica a moeda); a outra, da autoria de Francisco Fabri, destinada a acompanhar o belo desenho aguarelado já mencionado (Mapa geral). Sabia-se da existência da primeira pela relação entregue por Manoel José Maria da Costa e Sá contendo a lista das obras de seu pai, demonstrando uma actividade académica, merecedora de reconhecimento pela concessão de uma pensão para a viúva e filhos. Da relação consta uma Descrição de um monumento da antiguidade romana investigado pelo autor (eram as ruínas de um teatro romano, descoberto na Rua da Saudade, perto do Castelo) 18. Sobre a segunda, foi o próprio arquitecto que afirmou, em documento

datado de 7 de janeiro de 1800: “fiz varios riscos, que mostravam as ruinas daquele Monumento, huns dos quaes apresentei á Academia das Sciencias, propondo á mesma Academia, em huma descripção minha, sobre aqueles Vestígios da Antiguidade, que daria, alem da Planta geral, hum livro com todos os Fragmentos de Arquitectura, que atégora se tinhão descobertos; assim tambem das Figuras, Inscripções, e Capiteis de varias qualidades, e da particularidade do Estuque, que até do tempo de Néro preziste naqueles Capiteis, e Columnas, com o qual estavão revestidos” 19.

16 Supp. Gazeta, 1798.

17 Innocencio Francisco de Silva, Dicionario Bibliographico Portuguez, T. 4, Lisboa, Imprensa

Nacional, 1860a, pp. 80-81.

18 Innocencio Francisco de Silva, ibidem, pp. 97-102.

19 Fabri, 1800, in Ayres de Carvalho, Os três arquitectos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico…,

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Desta segunda memória nada se sabe, embora pareça claro que o Mapa geral constituía um desses riscos realizados pelo arquitecto italiano, porque nele se podem ver 33 referências numéricas, cuja descodificação remetia certamente para a (ainda não encontrada) memória descritiva. Como adiante se explicará afigura-se provável que o desenho se encontrasse na Academia, em 1799. Foi adquirido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1977, estando anteriormente na posse da Casa de Lafões 20, dado que

reforça e sublinha o contexto da sua elaboração - como é sabido, o 2.º Duque de Lafões foi um dos fundadores, em 1779, da Real Academia das Sciencias de Lisboa, tendo sido nomeado seu presidente perpétuo, no ano seguinte.

Foi justamente um borrão da primeira destas memórias que pude identificar na Coleção Portugal da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e estou profundamente grato ao meu Amigo Manuel Filipe Canaveira, conhecedor do meu interesse pela História da Arqueologia em Portugal, por me ter chamado a atenção para alguns documentos potencialmente interessantes daquela Coleção.

2. O manuscrito I-32, 27, 017, n.º 003 da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (Coleção Portugal): uma relação dos primeiros desaterros realizados nas ruínas do teatro romano de Lisboa

O manuscrito, da autoria de Joaquim José da Costa e Sá, compõe-se de um caderno de 6 fólios (12 páginas), guardado numa capa de papel que ostenta o seguinte título: Estudo sobre os monumentos romanos encontrados no sítio arqueológico que se acredita ter sido a cidade de Cetóbriga [sic], s/l., 16/05/1798. Desconhece-se quem terá colocado esta capa no documento e escrito um título que nada tem a ver com o seu conteúdo. Tentei averiguar se haveria uma troca de capas, mas na realidade nada mais há naquela Coleção que se pudesse prestar a uma tal confusão. Como se compreende, é este mesmo título que figura no ficheiro e catálogo publicado por Beatriz Nizza da Silva 21, sendo por isso mesmo impossível supor que se tratava na realidade de um

manuscrito de teor distinto.

Por se encontrar muito riscado, entrelinhado e com anotações marginais, trata-se seguramente de um borrão da Memória apresentada à Academia das Sciencias de Lisboa. Naturalmente, não é possível saber a que fase concreta da elaboração do texto final poderá corresponder, mas afigura-se plausível supor que conteria já todos os dados relevantes sobre a primeira intervenção realizada no local onde se achava o teatro romano olisiponense. Se mais acrescentos o autor tiver feito terão sido apenas excursos de erudição. O último fólio [6 e 6v.º) contém a notícia de duas epígrafes latinas encontradas em Lisboa, no ano de 1797, em um jardim nas casas de esquina do largo de Santo António – respetivamente, CIL II 206 e 220 / EO 65 e 66 –, que em nada acrescenta a informação já conhecida por outras fontes.

Não se pretende publicar aqui o documento na íntegra, mas somente extrair os elementos mais relevantes para o conhecimento da intervenção realizada em maio de 1798 nas imediações da Rua da Saudade. Como se verá, os dados são inesperados e ajudam a contextualizar muitos dos detalhes até agora não explicados do acervo documental existente sobre a descoberta e primeiros trabalhos de desaterro realizados

20 I. Moita, “Notícia de Novos Achados e Documentos Referentes ao Teatro Romano”, art. cit., p. 374. 21 M. B. N. Silva (dir.), Roteiro de fontes para a história portuguesa contemporânea. Arquivos do

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no local onde se erguia o teatro romano de Lisboa. Ajudam a perceber também qual terá sido a estratégia de abordagem às ruínas e os seus actores.

Na transcrição utilizo o sinal / para indicar quebra de linha; // para indicar mudança de página; entre VV vão as partes do texto que se encontram entre linhas; entre [ ] o que se encontra à margem.

Descripção / do Monumento de Antiguidade Romana, invés - / tigado pelo professor Regio Joaquim José de Costa / e Sá desde o 1 dia do presente mês de Maio do / anno de 1798 até ao dia 16 do dicto, em que se deo por finda a Excavação.

O título do manuscrito é desde logo esclarecedor, para além de permitir estabelecer sem qualquer dúvida a cronologia da descoberta e primeiros trabalhos realizados, o seu destino / objetivo é também claramente enunciado, entre considerações eruditas que não cito:

Sendo hum dos V mais V principais cuidados desta / Real Academia a investigação dos Monumentos / antigos, que em o nosso Reino se tenhão descuberto, / ou de novo se descobrirem [Flº 1]

[…] Por tanto como algumas / Pessoas eruditas, e não eruditas me dissessem que / na Rua da Saudade, que corre de Leste a Oeste // [fl. 1vº] por baixo das ruínas do antigo Convento dos Loyos / V por V na parte que olha ao Norte com a direcção ao / Meio-dia [à margem: na distancia de / 78 palmos, e 36 / de altura] se tinhão achado vestígios antigos em / huma excavação, e desentulhos, que se fez para se / abrirem os alicerces de huma Propriedade de / Casas de José António Dias, me conduzi ao / dito sitio, e entrando na profundeza excava - / da, que se acha apontada, por ser huma terra levadiça, logo comecei a divisar grandes / pedras lavradas de cantaria, e de primoroso mar - / more, que indicavão serem degraos de al - / guma escadaria, que com effeito são, e de fi - / gura semicircular, que vão correndo por baixo / do entulho para a parte que olha a Oriente, [à margem: onde terminão;] e prosseguindo fui dar a fundo da excava - / ção, que naquelles primeiros dias não estava a - / inda muito descuberta, como agora se tem feito […]

[…] Incumbio-se desta excavação / o Coronel Engenheiro o Ill. [riscado] Srº [riscado] Manoel / Caetano de Sousa, e com zelo V fez V descortinar todo / o edifício, que se acha em muitas partes des - / truncado [à margem: e maltratado] pelas V injurias do V tempo. Consta este Monu - / men - // [fl. 2] numento, que pela sua figura, e legenda mostra ter sido hum Theatro Romano […]

Esta é a primeira revelação surpreendente do documento. Contrariamente ao que sempre se supôs, não foi Fabri, mas o velho arquiteto de Obras Públicas, da Casa do Infantado e Patriarcal, Manuel Caetano de Sousa quem dirigiu os primeiros desaterros do monumento romano, entre os muitos afazeres que então o ocupavam. Atendendo ao ambiente de intriga e conflito que envolvia estes homens e que teria o seu desfecho no “caso” do Palácio Real da Ajuda 22, percebe-se que o italiano não faça referência ao

seu antecessor, contudo, melhor se enquadra assim o já aludido comentário: “antes de eu ser encarregado de vigiar sobre a indagação daquelas Antiguidades” 23 que, de

supostamente factual, ganha contornos sibilinos. De registar será também a descrição (e as próprias palavras) do autor, para melhor se entender como foi descoberto o teatro e como se iniciaram os desaterros. Finalmente, no criterioso estudo realizado sobre as

22 Ayres de Carvalho, Os três arquitectos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico…, cit., 1979. 23 Idem, ibidem, pp. 142; 152.

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vidas e obras dos três arquitetos da Ajuda, Ayres de Carvalho não logrou identificar esta intervenção de Caetano de Sousa, de entre as múltiplas que enumerou, um claro indício da escassa importância que o velho arquiteto mafrense lhe atribuiu.

Prossegue Costa e Sá com a descrição do monumento:

[…] consta, digo, / de huma estilobata de pedra mármore [à margem: de tres cores / entre / si alternadas em / toda a sua alousa] no com - / primento de 35 palmos com-pletos em toda a / sua extensão desde o ponto Oriental até ao / Occidental: sendo V esta V extensão ocupada nos lados exteriores por dous / semicírculos em forma / de nichos, / e a do meio / em linha / recta, V tendo o primeiro pedestal / de [sic] dous palmos * e dous décimos V de largura; V o seu primeiro vão de figura / semicircular de dez palmos; o segundo V pedestal V de dous palmos e meo, o vão seguim - / do em linha recta de outo palmos menos hum / quarto; o terceiro V pedestal V de dous pal - / mos e hum quarto, o terceiro V vão V semicircular V onde estava a Estatua / de Hercules; de figura semicircular / de outo palmos e hum quarto e o quarto V pe-destal V / de dous palmos e meo: a altura da / estilobata he de quatro palmos e meio me - / nos hum decimo: Em todo este comprimento / da estilobata abaixo da cornija superior V della V se lê a Inscripção onde faltão letras que formem / syllabas, para se completarem palavras; mas / que do mesmo sentido, e pela comparação [à margem: e parallelo] de / outras Inscripções se entendem: / As pedras humas são manchadas [à margem: de branco e /encarnado, como / he a pedra leoz / de Pero-Pinheiro, e de mármore assalina- / do ou pyrytes sulfúreo V da Serra de SintraV Pedrei- / ra de Pe-nalva junto ao Convento dos Padres / Trinos do Termo de S. Pedro [todo o sublinhado está riscado no original] de Cintra: ) o / marmore arrancado [riscado no original] do lugar onde estava // [fl. 2 vº] – a figura do Hercules he encarnado de Paço de / Arcos: mármores que sendo bem polidos são lucidíssimos, como se vêem no interior do [à margem: majestoso Edifício] – (segue-se um elogio aos dotes pios da rainha que pro-movia então a construção da Basílica da Estrela, o majestoso edifício mencionado) *[à margem, em baixo: O Palmo Portu - / guez contém 8 polle - / gadas do pé do Rei / de Paris]

Os detalhes sobre a natureza das rochas ornamentais utilizadas são preciosos justamente por remeterem para uma identificação empírica que, por certo, não se deveria aos conhecimentos do Professor de Latim, mas aos do experimentado arquiteto. Particularmente interessante resulta esta suposta identificação da matéria-prima do pavimento da orchestra (“o marmore do lugar onde estava a figura do Hercules”) como “encarnado de Paço de Arcos”, que usualmente não se costuma considerar no estudo das rochas ornamentais usadas em escultura ou suportes de epígrafes na Lusitania.

[…] Achava-se prostrada em terra huma Estatua / de mármore branco, do tamanho natural, que re - / presenta a Hercules todo nú, descançando com / a mão direita sobre o hombro esquerdo, e recostado sobre o lado esquerdo, reclinado na pelle do leão / Nemeo, cujas garras aparecem pela parte / superior do hombro esquerdo, como se demonstra: / tem parte da cara cortada, de ser que não poem / em equivocação ser a Estatua do Hercules Lybico [à margem: The- / ba- / no] / pelo esférico da ca-beça, e pela grenha da barba; / tem as pernas, que cruzavão huma sobre a outra, / mutilladas da barriga para baixo [à margem: serve-lhe de recli - / natorio a pelle do / leão Nemeo]

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Apresentam-se de seguida algumas considerações eruditas sobre Hércules e a sua iconografia, que não vem ao caso comentar, importa sim reter esta identificação da estátua do Sileno como sendo um Hércules, porque o tema está muito presente nos textos de Luiz de Azevedo, concretamente, a refutação explícita desta identificação, ainda que sem nunca citar a memoria ou sequer o nome de Costa e Sá.

A Escultura, / segundo o parecer dos Intelligentes na Estatua - / ria, e quanto tam-bem posso alcançar he de Estat / uaria Romana: Appareceo alli mais huma pe - / dra circular com a figura como de plyntho, ou / peanha, segundo o modo vulgar de chamar, em que / estava reclinada a Estatua, a qual me dizem com - / serva o Senhorio do Predio em seu armazém

Como não poderia deixar de ser, o autor refere-se à inscrição do muro do proscaenium, transcrevendo-a:

[…] A inscripção he como segue em toda a ex- / tensão da estilobata imediata à cor-nija em ci - / ma - // [fl. 3] malha superior:

AVG. GERMANICO. PONT. MAX. TRIB. / POT. III. IMP III. COS. II DESIGNATO / III (….) OSCAENIVM ET. ORCHESTRAM. / CVM ORNAMEN (…..) VSTALIS. PERPETVVS. /

C. HEIVS. PRIMVS

[à margem: as letras da Inscrip - / cão tem três pollega - / das, e três linhas de / alto. xxx]

Ilustração, e Observação / Este monumento, que mostra ter sido um Theatro [à mar-gem: pois na Inscripção se faz men / ção do Prosce / nio, ou Tablado, / e Orchestra, / como se depre - / hende] pelas combinações da letra Inscripcional, / e seu contexto, foi consagrado à gloria e honra / do V Imperador V Tiberio Claudio Cesar Augusto Germanico / Pontifice Maximo com o Poder Tribunicio, pelo / Augustal Perpetuo C. Heio Primo […].

Seguem-se algumas considerações eruditas sobre o imperador Cláudio e à margem, o autor escreveu:

Nota: / Daqui se colhe que / o Monumento descuberto / tem 1756 anos.

A incorreta identificação do imperador mencionado na inscrição justifica-se por se encontrar ainda incompleto o desaterro, faltando toda a parte inicial da epígrafe. Assim, a terminação de AVG GERMANICO tanto poderia referir-se a Cláudio como a Calígula ou a Nero, pelo que plenamente se justifica a hesitação expressa na mencionada comunicação à Academia pelo padre Foyos, sugerindo a identificação de Calígula ou Nero como os possíveis homenageados 24.

Ainda à margem do fl. 3:

Encontrão-se / mais entre aquellas / ruinas pedaços de / columnas striadas / com dous palmos, / e três polegadas, e / cinco linhas de di - / ametro, que mostrão ser da Or- / dem Dorica ou / Corinthia, cujas bases se vem [sic] ainda / despedaçadas. Na- / da há que possa / resistir ao tempo / gastador, e destrui - / dor! Descobrirão-se [sic] /

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mais duas medalhas / de metal Corinthio, / tão carcomidas, e / safadas, que apenas / se lê em huma das / faces hum V, e como / a perna de hum P.

Não parece que nenhuma destas moedas fosse a suposta de Alexandre doada à Academia e causa alguma estranheza que nada se diga nesta memória sobre a dita (v. supra). Acrescente-se que a incorreta identificação da ordem arquitetónica utilizada nos elementos constituintes da frons scaena do teatro, nem dórica, nem coríntia, mas jónica, é reveladora do desconhecimento dos cânones da arquitetura clássica, não somente do professor de língua e gramática latina, mas também de Caetano de Sousa, claramente pouco versado na estética antiga.

A notícia é rematada por dois apontamentos interessantes. O primeiro diz respeito ao suposto destino que deveria ser dado às relíquias do teatro:

[fl. 5 v.º] Taes são as observações Historico-Filologicas, que pu - / de traçar conforme as forças de meus es - / tudos, e talentos; sujeitando-me em tudo ao / mais erudito juízo, que esta sabia e Ilus - / tre Academia possa fazer; [à margem: e para que com mais / apurada critica se averi - / gue o dito Monumento] parecendo- / lhe conve-niente, se valerá daquela autoridade, que a Rainha N. Senhora […] lhe tem outorgado e conferido, para o mandar recolher […] fazendo-o conduzir para / o lugar, onde se depositem e conservem / estas Peças de Antiguidade.

Ao que parece, a ideia preconizada seria a de recolher os vestígios mais relevantes, eventualmente, para que no lugar se pudesse edificar de novo, ou seja, nada de muito diferente do que já se fizera em outras áreas da cidade reconstruída, mas claramente discordante da posterior proposta de Fabri 25.

O segundo apontamento:

[fl. 5 v.º]O Coronel Engenheiro / Manoel Caetano de Sousa me promete / oferecer e apresentar um Desenho com todas / as suas justas dimensões, e cores dos marmo - / res huma Estampa que represente o Mo - / nu // [fl. 6] numento em respeitoso obse-quio […].

Assim ficamos a saber que Caetano de Sousa foi o autor dos primeiros desenhos realizados sobre os vestígios do teatro, provavelmente, tanto dos que se conservam entre os papéis de Frei Manoel do Cenáculo (simples esboços), como dos mais sofisticados desenhos aguarelados que pertenceram a Vieira da Silva e se conservam na posse do Museu da Cidade de Lisboa. Os esboços do espólio de Cenáculo, desde sempre conhecidos, mas só recentemente reproduzidos por Justino Maciel 26, apresentam

somente uma parte do proscaenium do monumento olisiponense e respetiva inscrição, justamente a que transcreve Costa e Sá – já Hübner e Vieira da Silva tinham notado esta particularidade, initium omisit Cenaculo, nas palavras do alemão (CIL II, 183); mais certeira a observação do olisipógrafo: “Na cópia fornecida a Cenáculo estão suprimidas as palavras do 1.º vão (semi-circular), e as do segundo (rectangular) até AVG GERMANICO, porque quando ela foi tirada ainda as ruínas do teatro não estavam

25 C. Fabião, “Ler as Cidades Antigas: Arqueologia Urbana em Lisboa”, Penélope – fazer e desfazer

a História, 13, 1994, pp. 147-162.

26 M. J. Maciel, “A Época Clássica e a Antiguidade Tardia”, in P. Pereira (dir.), História da Arte

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completamente descobertas” 27 –; referem somente uma estátua de sileno e todos os

apontamentos que deles constam reproduzem literalmente a memória do académico. Sempre pareceu natural que estes esboços estivessem na posse do franciscano, por ser conhecido o seu gosto pelas antiguidades e as acções que desenvolveu (muitas vezes em vão) para conservar os vestígios romanos revelados pela reconstrução da cidade depois do grande terramoto 28, poderemos acrescentar, agora, mais uma razão para a posse

destes esboços: Joaquim José da Costa e Sá era casado com uma prima de Manoel do Cenáculo 29.

O manuscrito de Costa e Sá é extremamente interessante porque permite reconstituir como foi descoberto o monumento, esclarece sobre a sequência das intervenções realizadas e identifica os autores do acervo documental que se conserva sobre o teatro de Felicitas Ivlia Olisipo, creio ser também revelador da estratégia primeiramente adoptada para lidar com as relíquias de época romana.

3. Descoberta do monumento, sequência dos trabalhos realizados e seus autores

Não restam dúvidas de que o monumento foi identificado em Abril de 1798, nos desaterros para a reconstrução da cidade de Lisboa, junto à rua da Saudade, na zona imediatamente a sul do convento dos Loios. A primeira notícia publicada na Gazeta de Lisboa refere explicitamente o monumento ultimamente descuberto na escavação da rua da Saudade 30, Costa e Sá refere-se à mesma rua e descreve a sua descida à

escavação a partir da zona das ruínas do convento dos Loios, “entrando na profundeza excavada […] logo comecei a divisar grandes pedras lavradas […] que indicavam serem degráos de alguma escadaria […] que vão correndo para baixo do entulho para a parte que olha a Oriente onde terminão” (Fl. 1 v.º), ou seja, desceu ao local pelo lado da cavea, desde a rua da Saudade. O primeiro desenho da colecção de Frei Manoel do Cenáculo documenta esta rua, não havendo sequer indicação da de S. Mamede (Fig. 1), apresenta também, em modo realista, os contornos do entulho e a estreita passagem que descia na direcção da orchestra e muro do proscaenium, que começavam a estar desaterrados, passando sobre alguns dos degraus da cavea; e o segundo, que tem por título: Monumento que se achou nas ruinas da parte do sul do Convento dos/ Loyos em Lisboa a 36 palmos de fundo (Fig. 2), apresenta análoga perspectiva. Neste último, mais esquemático, assinala-se o mesmo troço do proscaenium e respectiva inscrição, mas desenha-se à margem, do lado esquerdo e na vertical, o que seria o seu prolongamento para o lado nascente, não falta também o esboço da cavea, sobre o lado direito, indicado com a letra B (Fig. 2). Ambos os desenhos são coincidentes com a descrição de Costa e Sá, exibindo o primeiro as notações sobre as cores dos distintos elementos do muro do proscaenium, devendo corresponder à promessa feita ao Professor de Latim pelo arquitecto - [fl. 5 v.º] “O Coronel Engenheiro / Manoel Caetano de Sousa me promete / oferecer e apresentar um Desenho com todas / as suas justas dimensões, e cores dos marmo - / res huma Estampa que represente o Mo

27 A. V. Silva, Epigrafia de Olisipo (subsídios para a história da Lisboa romana), cit., p. 174. 28 Carlos Fabião, “Ler as Cidades Antigas: Arqueologia Urbana em Lisboa”, Penélope – fazer e

desfazera História, 13, 1994, p. 150.

29 Innocencio Francisco de Silva, Dicionario Bibliographico Portuguez, T. 4, cit., p. 97. 30 Segundo Supp. Gazeta de Lisboa, XXVII, de 7 de Julho.

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- / nu // [fl. 6] numento em respeitoso obsequio” (Descripção). Ambos apresentam, o mesmo segmento (incompleto) da inscrição monumental e são também coincidentes na indicação do local de identificação da estátua do sileno: a zona da exedra de planta rectangular situada entre as duas de feição semicircular 31, a localização não coincide

com a apresentada por Fabri no Mapa geral (Fig. 3). Esta divergência pode ter interesse para aferir do “realismo” do desenho do italiano.

É interessante notar que o acesso ao monumento desaterrado continuaria a fazer-se a partir da rua da Saudade, como se depreende da descrição de Ruders, embora o sueco mencione a rua de S. Mamede como local de achado do edifício: “Chegado a uma das mais altas colinas da cidade (…) desci por um caminho muito sinuoso, entre terrenos estratificados, até que fui dar a uma pequena praça onde muros de terra limitavam o horizonte por todos os lados. Colunas abatidas, umas inteiras, outras em pedaços; arquitraves e capitéis jaziam espalhados aqui e acolá. Era o sítio onde se erguia outrora o teatro romano” 32. É justamente em perspectiva a partir da rua da Saudade

que se desenham todos os apontamentos gráficos das ruínas, ainda que o proscaenium e a parede que as delimita pelo lado Sul se encontrem junto à rua de S. Mamede, o que justificará ser esta última artéria sistematicamente mencionada quando se fala do teatro, apesar de a parede ali existente ser inibidora de um qualquer acesso às ruínas a partir da dita rua 33.

Os primeiros desaterros foram realizados às ordens de Caetano de Sousa pelos meses de Abril e Maio de 1798, revelando o início da imma cavea, da orchestra e três das exedrae do proscaenium. Revelaram parte da inscrição que celebra os benefícios realizados no edifício a expensas do augustal C. Heius Primus, bem como uma das estátuas de Sileno que ornavam a área nobre do edifício. O Professor Régio de Gramática Latina e Académico de número da Real Academia das Sciencias Joaquim José da Costa e Sá encarregou-se da primeira memória Histórico-Filológica da epígrafe identificada e da descrição da estátua. Nestes primeiros momentos, o padre Joaquim de Foyos ocupou-se também da grande inscrição em comunicação à Academia das Sciencias e resulta evidente que os trabalhos deveriam ter continuado porque a notícia da Gazeta afirma já, em nota, que a dedicatória se reportava a Nero, ultrapassando assim as dúvidas expressadas pelo oratoriano 34.

A segunda planta, dos papéis de Cenáculo, documenta já o início do alargamento. No lado esquerdo da folha, a tracejado e na vertical, assinalado com a letra B, apresenta-se o esboço da continuação para leste do muro do proscaenium, embora o desenhador se equivoque, supondo existirem duas novas exedrae semicirculares ladeando o pequeno nicho a oeste daquele onde se situavam os degraus de acesso ao pulpitum (Fig. 2, letra B). Mas não restam dúvidas de que se trata do prolongamento do muro de delimitação do proscaenium, quer pela identificação do nicho com degraus, quer pela notação dos três fustes de colunas que ali se encontravam e que figuram em todos os desenhos posteriores. Nada indica que o autor deste possa ter sido outro que não o do primeiro desenho, logo, é admissível que fosse ainda Caetano de Sousa a supervisionar os

31 Cf. Fig. 1, X e 2, letra C.

32 Carl Israel Ruders, Viagem em Portugal 1798-1802, cit., p. 53.

33 Supp. à Gazeta, Nov. de 1798; Gazeta, 1799; Mapa geral de Fabri; Carl Israel Ruders, op. cit.;

Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno …, cit.

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trabalhos. Este segundo desenho regista uma vez mais a inscrição incompleta, com o mesmo desenvolvimento constante do anterior 35.

A Memória de Costa e Sá e os dois desenhos da Pasta 1 da Biblioteca Pública de Évora correspondem aos primeiros registos do desaterro do teatro. Mas há outros dados interessantes: na legenda à esquerda do desenho 1, esclarece-se o “sítio donde estava huma figura de pedra, a qual foi para a arrecadação das obras publicas para se guardar” (Fig. 1); a mesma localização da estátua é indicada no desenho 2 (Fig. 2). Costa e Sá transmite a ideia de que haveria intenção de remover e arrecadar as relíquias encontradas: “parecendo- / lhe conveniente, se valerá daquela autoridade, que a Rainha N. Senhora […] lhe tem outorgado e conferido, para o mandar recolher […] fazendo-o conduzir para / o lugar, onde se depositem e conservem / estas Peças de Antiguidade” [Fl. 5 vº]. O acto de arrecadar a estátua e a provável remoção dos elementos do muro do proscaenium com inscrição constituem as práticas habituais que acompanharam o processo de desaterro, remoção de entulhos e reconstrução da cidade de Lisboa, depois do grande terramoto 36. Só numa segunda fase, com a entrada em cena de Fabri, se

começou a esboçar outra estratégia.

Desconhecemos o momento exato de entrada em cena daqueles que ficaram registados como os estudiosos do monumento. Como se pode ler nas notícias da Gazeta em Novembro do ano da descoberta os trabalhos continuavam e apareceu o cipo CIL II, 196 / EO 71, estando já em acção um outro Professor Régio de Gramática e Língua Latina Luiz Antonio de Azevedo: “Na excavação da rua de S. Mamede, junto á da Saudade, perto do Castello desta Corte, continuão a descobrir-se memorias do antigo Theatro dedicado a Nero. Appareceo pois de novo certa Lapida com huma Inscripção em partes lacunas, e em partes gastada e comida dos seculos, a qual vem a ser hum padrão, que em obsequio do mesmo Augustal, que erigio e dedicou áquelle Imperador o Tablado e Orquestra do mencionado Theatro, levantarão alguns libertos e pessoas da sua propria família. Dar-se-há suprida e traduzida por Luiz Antonio d’Azevedo, Professor Regio de Grammatica Latina, que, cheio de zelo pelas Antiguidades Romanas, a communicou, trabalhando actualmente n’uma Dissertação sobre este Assumpto” 37. A

intervenção de Azevedo não foi pacífica, não só porque reviu a leitura da inscrição monumental apresentada por Costa e Sá, como propôs distinta interpretação para as estátuas recolhidas, contestando deste modo o seu antecessor. A polémica instalou-se no espaço público, como se depreende da notícia de Cornide, de Fevereiro de 1799 – “al pie del antiguo castillo, que es por donde estuvo situada la Lisboa romana, se ha empezado a descubrir antes que nosotros llegásemos aquí, un teatro romano dedicado a Nerón y, aunque aparecen algunas columnas y tres estatuas, todo es de mal gusto y lo mejor que he visto es el escenario, que han sacado casi entero, colocándolo fuera de la excavación, es de mármol de colores y contiene una inscripción en que se hizo la dedicatoria al emperador. Las estatuas son de Hércules y de una mujer, bien que sobre las de aquél se armó aquí una disputa entre dos anticuarios, pues uno las quiere que pertenezcan al hijo de Júpiter y Alcmena y el otro dice que son unos Silenos; yo hasta

35 Cf. Fig. 1 e 2.

36 C. Fabião, “Ler as Cidades Antigas: Arqueologia Urbana em Lisboa”, art. cit. 37 Gazeta de Lisboa, Supp. ao XLVII de 23 de Novembro de 1798.

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ahora no he visto las disertaciones pero sí una estatua que, a la simples vista, me parece del primero” 38.

O apontamento de Cornide tem várias referências merecedoras de comentário, registe-se, por agora, que o erudito espanhol não ficou muito impressionado com aquilo que viu (“aunque aparecen algunas columnas y tres estatuas, todo es de mal gusto”) e, surpreendentemente, alude a uma terceira estátua, feminina, que não figura em nenhuma outra notícia que sobre o teatro e seu desaterro se publicou. Na viagem a Lisboa, acompanhava Cornide, com as funções de desenhador, o arquiteto Melchor del Prado, que desenhou as ruínas do teatro olisiponense, claramente a partir do Mapa geral de Fabri, como tem sido notado 39. Provavelmente, a reprodução foi feita na

Academia das Sciencias, onde Cornide consultou diversa documentação. O desenho, conservado na Real Academia de la Historia, em Madrid, está datado de Fevereiro de 1799, servindo assim de terminus ante quem para a elaboração do grande desenho aguarelado do italiano – a obra de Del Prado foi várias vezes referida e reproduzida, cf. a mais recente publicação 40.

Particularmente interessante no depoimento de Cornide é a referência a que o mais interessante que vira fora a inscrição, aparentemente, removida já da sua posição original: “el escenario, que han sacado casi entero, colocándolo fuera de la excavación, es de mármol de colores y contiene una inscripción en que se hizo la dedicatoria al emperador”. Como já assinalei, esta referência dá contornos mais precisos e concretos ao posterior texto de Fabri, que alude às “Pedras da Inscripção, que se tirarão para fora, antes de eu ser encarregado de vigiar sobre a indagação daquelas Antiguidades” 41.

A intervenção de Fabri teve início ainda nos finais do ano de 1798, a fazer fé em documento que o próprio redigiu. No Relatório, datado de 16 de Março de 1799, revelado por Ayres de Carvalho, escreveu o italiano: “Jozé António Dias e de Manuel Loureiro, em que requerem que V. Ex.ª lhes conceda licença para continuarem a Obra, que principiarão em hum Terreno junto á Rua da Saudade, que fim do anno passado lhe suspendi” 42, reportando que voltara a suspender a obra, com um intuito específico:

“porque no cazo de querer S. Mag. Conservar o antigo Monumento no mesmo lugar, em que se achou, sou de parecer, que se compre o Terreno, e a parede dos Edificantes; e se torne a colocar outra vez no seu lugar parte das Pedras da Inscripção, que se tirarão para fora, antes de eu ser encarregado de vigiar sobre a indagação daquelas Antiguidades; e que se faça huma Parede em redor do Teatro, não só para conservação daquele Monumento, e de todos os mais Fragmentos de Arquitectura, de Capiteis, e Colunas, que ali se tem descoberto; mas também para suster o grande Entulho, de que está cercado por todos os lados o antigo vestígio do Teatro” 43.

Pelo que conhecemos dos arquitectos, não é de estranhar a mudança de atitude. Manuel Caetano de Sousa era um homem nascido e criado para o ofício na “escola de Mafra”, ou seja, sem uma formação académica formal, e ilustre representante (e

38 J. M. Abascal, R. Cebrián, Los viajes de José Cornide por España y Portugal de 1754 a 1801.

(Antiquaria Hispanica, 19 / Catálogo de manuscritos de la Real Academia de la Historia, 4), Madrid, Real Academia de la Historia, 2009, p. 458.

39 L. Fernandes, A. Caessa, “O proscaenium do Teatro romano de Lisboa”, art. cit., p. 84. 40 J. M. Abascal, R. Cebrián, op. cit., p. 458.

41 In Ayres de Carvalho, Os três arquitectos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico…, cit., p. 141. 42 Fabri, in Ayres de Carvalho, op. cit., p. 141.

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praticante) de um barroco tardio, mais afeito à reprodução daqueles modelos do que a assimilar novidades. A sua escassa familiaridade com os cânones da arquitectura clássica está bem patente na manifesta dificuldade em identificar a ordem arquitectónica do teatro. Tinha também larga experiência das obras em Lisboa e das práticas de arrecadação das antiguidades encontradas, para libertar o terreno para a reconstrução. Para além do mais, as suas múltiplas actividades deixar-lhe-iam pouco tempo livre para se ocupar de ruínas – no ano de 1798, por exemplo, esteve envolvido na edificação da ponte de Cheleiros, nas imediações da sua Mafra natal 44. Já Fabri tinha um perfil

completamente distinto. Estudara na Academia Clementina de Bolonha, onde se forjava o novo gosto neo-clássico, resultante do crescente conhecimento da arquitectura antiga que decorria dos desaterros realizados em Estábias, Herculano e Pompeia. Por isso, teria uma outra sensibilidade para apreciar e valorizar o edifício romano, decorrendo da sua formação académica e do seu conhecimento das realidades de Itália a ideia de promover a conservação in situ das ruínas.

Em aberto, fica uma interrogação, relacionada com o Mapa geral de Fabri. Teria sido desenhado antes dos elementos do muro do proscaenium terem sido removidos, como o desenho sugere? Naturalmente, não é fácil esclarecer a questão. Contudo, tem algum interesse verificar que se representou a primeira estátua de Sileno em posição oblíqua, sugerindo um contexto primário de achado, quando os restantes documentos (mais antigos) lhe indicam outra localização 45. Provavelmente, o muro do proscaenium

no seu devido lugar seria uma recriação e não propriamente aquilo que se observava então no local, como outros detalhes sugerem.

Em 7 de Janeiro de 1800, o italiano alimenta ainda a ideia de realizar um detalhado estudo do monumento, aprofundando o já feito. Em novo documento divulgado por Ayres de Carvalho esboçou o seu plano: “na ocasião das descobertas da Escavação do Antigo Teatro, ao pé do Castelo, fiz varios riscos, que mostravam as ruinas daquele Monumento, huns dos quaes apresentei á Academia das Sciencias, propondo á mesma Academia, em huma descripção minha, sobre aqueles Vestígios da Antiguidade, que daria, alem da Planta geral, hum livro com todos os Fragmentos de Arquitectura, que atégora se tinhão descobertos; assim tambem das Figuras, Inscripções, e Capiteis de varias qualidades, e da particularidade do Estuque, que até do tempo de Néro preziste naqueles Capiteis, e Columnas, com o qual estavão revestidos, ou fosse por motivo de se fazer a Obra com maior brevidade, ou porque a Pedra não fosse capaz de se lhe esculpir aqueles Emblemas e Ornatos, que a ordem da Arquitectura pedia: porem como todo esse trabalho merece ser feito no mesmo lugar da dita Escavação, S. Alteza Real haja por bem de me determinar, se quer que o faça, porque é necessário cômodo para me transportar com todo o preciso. Julguei, que devia propor isto na presença de V. Ex.ª, por não faltar ao Real Serviço, e ao que tinha prometido á Academia das Sciencias, como coiza útil, e necessária, pela singularidade do Monumento, que merece todo o empenho de se dar a Publico com a maior exacção, e desempenho” 46. Deste modo,

ficamos a saber que na área desaterrada se conservaria ainda boa parte dos elementos arquitectónicos encontrados, provavelmente também a segunda estátua de sileno. Não

44 Ayres de Carvalho, op. cit., pp. 19 e 37-59. 45 V. supra e cf. Fig. 1, 2 e 3.

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custa admitir que a aparência do local fosse algo próximo do representado no Prospecto desenhado para ilustrar a Dissertação de Azevedo 47.

4. Epílogo: o destino final do teatro de Felicitas Ivlia Olisipo

Os inícios do século XIX foram tempos conturbados, na Europa e em Portugal. A iminência de uma invasão promovida por Napoleão Bonaparte agitava fortemente o meio lisboeta, onde se confrontavam os “afrancesados” e os defensores da “velha aliança britânica”; onde se debatiam as múltiplas possibilidades de resposta à ameaça franco-espanhola. Um pouco à margem destas questões, o pequeno mundo dos arquitectos agitava-se em torno daquele que era o grande projecto nacional do momento: a construção de um novo Palácio Real, na Ajuda.

Manoel Caetano de Sousa desenhara o novo Palácio e encarregava-se de dirigir a sua construção, presumivelmente, nem por um instante já pensaria nas ruínas do teatro romano que começara a desaterrar alguns anos antes. Agitavam-se, porém, os concorrentes e Francisco Fabri em associação a um outro arquitecto de formação italiana, José da Costa e Silva, que estudara também na bolonhesa Academia Clementina (como Fabri), e na de S. Lucas, Roma, intrigavam contra o “antiquado” projecto de Caetano de Sousa. Ao que parece, muitos foram os temas de que se compôs o conluio, extensamente exposto e detalhadamente analisado por Ayres Carvalho 48. A intriga

culminou com o Real Decreto de 21 de Janeiro de 1802 que retirou a Caetano de Sousa a obra, entregando-a aos “italianos” Costa e Silva e Fabri. O velho arquitecto não se conformou e acabaria por morrer, fulminado por uma síncope, em plena sala do trono do Palácio de Queluz, na sequência de uma acesa altercação com o Ministro de Estado Sousa Coutinho, justamente sobre o tema da obra da Ajuda 49. Foi o definitivo triunfo

dos “italianos” e de um novo estilo na arquitectura nacional.

Atendendo ao que se encontrava em jogo, fácil será perceber que de modo algum as ruínas do teatro romano constituíssem a preocupação principal de Francisco Fabri. Ainda foi o autor do Prospecto com que Luiz Azevedo ilustrou a sua Dissertação 50, mas

não sabemos de quando datará, uma vez que a produção da obra se arrastou por largos anos - trata-se da Memoria mencionada na notícia da Gazeta de Lisboa, de 1798 – “Luiz Antonio d’Azevedo, Professor Regio de Grammatica Latina, que, cheio de zelo pelas Antiguidades Romanas, a communicou, trabalhando actualmente n’uma Dissertação sobre este Assumpto” 51. Neste último desenho, encontramos a última representação das

ruínas do teatro, revelando que os trabalhos de desaterro não tinham cessado em 1799, data do Mapa geral – cf. Fig. 3 e 4.

Em 1807, Junot invade Portugal e a Corte retira-se para o Brasil. A situação tornou-se ainda mais caótica, embora a obra da Ajuda tenha prosseguido. Finalmente, em 1811, Costa e Silva retira-se também para o Brasil, correspondendo a uma ordem Real, e Fabri permaneceu em Lisboa, continuando a dirigir a obra da Ajuda até à data

47 Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno …, cit.,

Est. X; v. Fig. 4.

48 Ayres de Carvalho, Os três arquitectos da Ajuda do “Rocaille” ao Neoclássico…, cit. 49 Idem, ibidem, p. 19.

50 Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno …, cit. 51 Gazeta de Lisboa, Supp. ao XLVII de 23 de Novembro de 1798.

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da sua morte, em 1817. Não se afigura credível que voltasse a ocupar-se das ruínas do teatro.

Com Fabri na Ajuda, é bem provável que os proprietários do local das ruínas tentassem retomar a utilização do espaço. Se já o haviam tentado antes, por mais de uma vez, apesar da vigilância do arquitecto, é provável que o tivessem voltado a fazer, desta feita com êxito. Não sabemos quanto tempo passou até desaparecerem por completo as ruínas do edifício, “cujas reliquias e fragmentos se deixaram perder de todo”, como escreveu Inocêncio da Silva em 1860 52. Terá sido no intervalo de tempo que

vai da publicação da Dissertação de Azevedo 53 ao citado verbete de Inocêncio, de 1860.

Do conflito entre os Professores de Latim, pouco mais sabemos, para além do que ficou escrito. Joaquim da Costa e Silva faleceu em 1803 54, pelo que também não poderia

ter continuado a defender os seus pontos de vista, mesmo que tivesse essa intenção. Do teatro, conservou-se a memória e a estátua do Sileno aparecida aquando dos primeiros desaterros feitos às ordens de Caetano de Sousa e mandada guardar. Acabaria por dar entrada na Academia Nacional de Belas-Artes e tornar-se espólio do chamado Museu das Janelas Verdes (actual Museu Nacional de Arte Antiga), transitando daí para o Museu Ethnologico (hoje Museu Nacional de Arqueologia), por iniciativa de José Leite de Vasconcelos 55. Nos inícios do século XX, Vasconcelos considerava desaparecida

a outra estátua mencionada por Fabri e Azevedo (idem, ibidem). Provavelmente, teria ficado junto às ruínas do teatro, juntamente com os outros elementos arquitectónicos, a aguardar a concretização da conservação in situ preconizada pelo italiano. Vieira da Silva veio localizá-la, de novo, a ornamentar os jardins do Marquês de Rio Maior, às Portas de Santo Antão 56.

Não deixa de ser irónico verificar como Francisco Fabri não só se apropriou do grande projecto de fim de vida de Manoel Caetano de Sousa, o “seu” Palácio da Ajuda, mas apagou para a posteridade o seu papel na descoberta e primeiros desaterros do teatro de Felicitas Ivlia Olisipo. O mesmo se poderá dizer de Azevedo, relativamente a Joaquim José da Costa e Sá. Não restam dúvidas de que o italiano tinha maior apetência (e mais sólida preparação) para o estudo do edifício romano e que Luiz Antonio Azevedo leu e interpretou com maior correcção as epígrafes latinas ali encontradas. Mas creio ser da mais elementar justiça resgatar do esquecimento os nomes dos pioneiros da descoberta e desaterro do velho teatro olisiponense.

52 Innocencio Francisco de Silva, Dicionario Bibliographico Portuguez, T. 5, cit., p. 215. 53 Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno …, cit. 54 Innocencio Francisco de Silva, Dicionario Bibliographico Portuguez, T. 4, cit., pp. 97-102. 55 J. L. Vasconcelos, Religiões da Lusitânia na parte que principalmente se refere a Portugal, vol. 3,

Lisboa, Imprensa Nacional, 1913, pp. 242-243.

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Figura 1. Planta s/ título. Biblioteca Pública de Évora, Gaveta 8, pasta n.º 1, Planta n.º 1.

Na demarcação com as letras são das cores B – Pedras brancas

Z – Pedras azuis Im – Pedras Imcarnadas

X Sitio donde estava huma figura de pedra a qual foi para / Arecadação das obras Publicas para se guardar.

Note-se como o desenho dos vestígios do antigo teatro se inscrevem sobre um registo cadastral daquela zona da cidade. Certamente por lapso, o proprietário do terreno foi identificado como José António Luiz, quando todos os outros documentos o identificam como José António Dias.

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Figura 2. Planta s/ título. Monumento que se achou nas ruínas da parte do sul do convento dos Loyos em

Lisboa a 36 palmos de fundo. Biblioteca Pública de Évora, Gaveta 8, pasta n.º 1, Planta n.º 2. A. Monumento que se achou nas ruinas da parte do sul do Convento dos / Loyos em Lisboa a 36 palmos

de fundo.

B. Outro lado do mesmo pavimento que se acha tudo [sic] lageado

C. Sitio em que se achou huma figura de pedra nua na configu - / ração de estar deitada. D. Varias columnas que se acham na situação notada de construção tosca

E. Principio de escada que aparece do lado do entulho que vay / continuando a abrirse ; tudo isto no mesmo pavimento / e o campo ou outra face mencionada com a letra B, com as mesmas / dimensões que o da letra A.

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Figura 4. Luiz António Azevedo, Dissertação Critico-Filologico-Historica Sobre o verdadeiro anno,

ma-nifestas causas, e atendíveis circunstancias da erecção do Tablado e Orquestra do antigo Theatro Romano, descoberto na excavação da Rua de São Mamede perto do Castello, com a intelligencia da sua Inscripção em honra de Nero, e noticia instructiva d’outras Memorias alli mesmo achadase atégora aparecidas, Lisboa, Na

Nova Impressão da Viuva Neves e filhos, 1815. Est X, p. 46.

Figura 3. F. Fabri, Mapa geral da Escavação que se fez perto da Rua de São Mamede por baixo do Castelo

desta Cidade de Lisboa. Desenho aguarelado que pertence ao Museu da Cidade de Lisboa (agradeço à Mes-tre Lídia Fernandes, responsável pelas actuais investigações do teatro romano de Lisboa e digitalização do

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REFERÊNCIAS Manuscritos

Descripção / do Monumento de Antiguidade Romana, invés - / tigado pelo professor Regio Joa-quim José de Costa / e Sá desde o 1 dia do presente mês de Maio do / anno de 1798 até ao dia 16 do dicto, em que se deo por finda a Excavação. Manuscrito da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Coleção Portugal, I-32,27,017, n.º 003 – na capa e nos índices da Biblioteca: Estudo sobre os monumentos romanos encontrados no sítio arqueológico que se acredita ter sido a cidade de Cetóbriga, s/l., 16/05/1798.

Planta s/ título. Biblioteca Pública de Évora, Gaveta 8, pasta n.º 1, Planta n.º 1.

Planta s/ título. Monumento que se achou nas ruínas da parte do sul do convento dos Loyos em Lisboa a 36 palmos de fundo. Biblioteca Pública de Évora, Gaveta 8, pasta n.º 1, Planta n.º 2.

Impressos

Abascal, J. M., R. Cebrián, Los viajes de José Cornide por España y Portugal de 1754 a 1801. (Antiquaria Hispanica, 19 / Catálogo de manuscritos de la Real Academia de la Historia, 4), Madrid, Real Academia de la Historia, 2009.

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Pertinenza della similitudine del Nilo con la siccità della Argolide. Intertestualità, parados-sografia e scoliastica nel quarto libro della Tebaide di Stazio . . . 255

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Figura 2. Planta s/ título. Monumento que se achou nas ruínas da parte do sul do convento dos Loyos em  Lisboa a 36 palmos de fundo
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