UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS
TIAGO HERCULANO DA SILVA
UMA
RESSIGNIFICAÇÃO DO CORPO
NU EM CENA
NATAL/RN
2019
TIAGO HERCULANO DA SILVA
UMA RESSIGNIFICAÇÃO DO CORPO NU EM CENA
Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – PPGArC da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, na linha de pesquisa Pedagogias da Cena:
Corpo e Processos de Criação, como
requisito parcial para a obtenção do Título de Mestre em Artes Cênicas.
Orientadora: Profª Drª Nara Salles
NATAL/RN 2019
Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI
Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial do Departamento de Artes - DEART Silva, Tiago Herculano da.
Uma ressignificação do corpo nu em cena / Tiago Herculano da Silva. - 2019. 100 f.: il.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Natal, 2019.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Nara Graça Salles.
1. Corpo. 2. Nudez. 3. Artes cênicas. I. Salles, Nara Graça. II. Título. RN/UF/BS-DEART CDU 792
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus pela oportunidade de cursar a pós e realizar esse trabalho de conclusão.
Também dedico este trabalho a melhor família do mundo: à minha mãe Judite Regina Herculano da Silva e ao meu pai Luis Herculano da Silva, pelo amor, carinho, compreensão. Aos meus irmãos, pelos seres humanos maravilhosos que são.
À minha orientadora Drª Nara Salles por toda paciência e dedicação com minha pesquisa. Sem você nada disso seria possível, obrigado!
Agradeço as professoras Drª. Lara Rodrigues e a Drª. Luciana Lyra que contribuíram com suas aulas para o entendimento do meu corpo inserido nessa pesquisa. Também aos amigos especiais que me ajudaram nessa jornada de pesquisa, estiveram por perto sempre me incentivando e não me deixaram desistir, Ednaldo Costa e Carlos Lins.
A todos aqueles que de uma certa maneira que sempre estiveram dando força e coragem para atravessar essa jornada. E a todas as pessoas que contribuíram, direta e indiretamente, para a realização deste trabalho.
RESUMO
O olhar da grande maioria das pessoas perante a nudez está norteado pelos padrões sociais impostos, porém podemos entendê-la pelo viés artístico pois este pode nos proporcionar um olhar diferenciado. O corpo desnudo está sujeito ao julgamento das aparências e as inevitáveis associações ao pecado original, no mundo atual onde as religiões permeiam muitas ações cotidianas da população, assim, acaba por ser tratado como ofensivo, até mesmo dentro do campo artístico, e as obras que utilizam a pele como figurino tendem a carregar o peso dessas associações feitas por meio dos paradigmas sociais existentes. Obras artísticas, que utilizam a nudez como elemento estético e poético, podem proporcionar uma percepção diferenciada desse corpo nu em cena. Na busca por um olhar diferenciado, a hipótese aqui levantada propõe que esta nudez seja entendida não como ausência de figurino ou exibição intima do corpo, mas pela pele como veste, pelo qual, o artista pode ressignificar o uso do corpo desnudo em cena.
ABSTRACT
The view of the great majority of people in the face of nudity is guided by imposed social standards, but we can understand it by artistic bias because it can give us a different look. The naked body is subject to the judgment of appearances and the inevitable associations to original sin, in the present world where religions permeate many daily actions of the population, thus, it is treated as offensive, even within the artistic field, and the works that use the skin as costumes tend to carry the weight of such associations made through existing social paradigms. Works of art, which use nudity as an aesthetic and poetic element, can provide a differentiated perception of this naked body in the scene. In the search for a differentiated look, the hypothesis proposed here proposes that this nudity be understood not as absence of costume or intimate exhibition of the body, but by the skin as clothes, by which, the artist can resignify the use of the naked body in scene.
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1: Memes com a performance Macaquinhos ... 53
Imagem 2: Notícia falsa da morte do artista de La Bête ... 55
Imagem 3: Nota de esclarecimento do SESC/CE ... 59
Imagem 4: Print (fotografia) do celular do pesquisador quando ele recebeu o vídeo ... 60
Imagem 5: Mandala ... 72
Imagem 6: Escrita de “carne” no corpo ... 74
Imagem 7: Público escrevendo no atuante ... 75
Imagem 8: Pintando no rosto ... 78
Imagem 9: Palavras escritas na pele ... 82
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO:
Meu corpo ... 10
CAPÍTULO 1: Percebendo o nu artístico.
1.1 A instauração cênica Corpo Livre ... 19 1.2 Nu castigado ... 31
CAPÍTULO 2: Associações feitas ao desnudamento.
2.1 O nu sexualizado ... 38 2.2 A descontextualização do nu ... 50
CAPÍTULO 3: Uma ressignificação do corpo nu em cena.
3.1 A instauração do nu na cena ... 64 3.2 Escrituras na pele ... 79
CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Um nu resistente ... 91
INTRODUÇÃO
Meu corpo.
Ao longo do texto apresentarei o tema desse estudo, seus objetivos e a metodologia, se faz necessário elucidar que tomo meu corpo na pesquisa como uma possibilidade de questionamento do nu na arte. Se faz importante também abordar os motivos e caminhos que me fizeram pesquisar tal assunto e aqueles que me mobilizaram a estar em cena; assim como o processo criativo desenvolvido. Esta pesquisa dissertativa é percebida como um processo que perpassa por minha corporeidade desde muito antes de ingressar no programa de pós-graduação e acredito que irá até para depois e além desse percurso.
Dessa forma, esta pesquisa com abordagem qualitativa de forma descritiva; não possui um produto finalizado nessa escrita ou uma conclusão onde apontamos soluções para os problemas que conduzem as indagações, mas a partir dos estudos teóricos abordo uma possibilidade cênica que tem como objetivo colocar em questionamento e discutir fatores sociais, estéticos, sexuais e políticos que associam o nu artístico a algo ofensivo.
A questão que permeia minha premissa é procurar compreender o que torna o nu artístico tão castigado em nossa atual sociedade. Com intuito de dialogar com essa questão sobre o nu que abordarei como a pesquisa se originou antes do ingresso no programa de Mestrado em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e como foi todo o seu processo de criação cênica ao longo dos dois anos inserido no programa.
Enquanto pesquisava na graduação sobre iluminação cênica, tema central da minha monografia, tive contato com questões de gênero por meio de Ednaldo Costa, mestre em gênero pela universidade estadual da Paraíba/UEPB. Entre nossas prosas e indagações cotidianas, terminei desenvolvendo o interesse no campo de estudo de gênero. Após uma tentativa fracassada de ingressar nesse programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas com uma pesquisa em iluminação, sendo reprovado na entrevista, decidi que deveria direcionar meus estudos para aquilo que mais me interessava no momento: as questões de gênero.
O desafio estava em descobrir o que queria estudar no campo de pesquisa sobre assuntos e temas que permeavam os estudos de gênero. Recorrendo a memória, recordo que participei de uma Leitura Dramática promovida pelo SESC de João Pessoa no ano de 2012 em que fui o diretor. O objetivo era lermos de forma dramática um texto do autor Nelson Rodrigues. A obra que escolhi foi Álbum de Família. Nessa obra existe uma personagem que representa as meninas que estão grávidas do personagem Jonas. Quando distribui esse papel para um dos atores do grupo para a apresentação, o ator se recusou fazer a leitura do personagem da grávida sobre a justificativa de que ele era homem e não queria representar uma mulher em cena. Fiquei com a frase do ato em mente quando ele recusou o papel da leitura: “quero algo que seja do meu gênero; não
interpreto gênero oposto”. E ainda conversando com outras pessoas do meio artístico
pude perceber o quanto esse meio é carente de estudos que envolvem gênero. Tanto aquele meio artístico que está inserido nas universidades quanto aquele que está fora delas. O machismo em nossa sociedade está dentro e fora da esfera artística impondo normas, discursos e valores.
Quando um ator se recusa a realizar uma leitura de um papel feminino, também quer dizer que não quer ser percebido por aquele papel. Não quer ser visto nas Leituras Dramáticas do SESC como aquele que leu a grávida. Existe uma rejeição do papel por entender que ele é inferior por ser do gênero oposto ao seu, por se tratar de uma mulher. Isso eu entendo como uma forma de machismo presente em nossa sociedade que está para além do campo artístico e que podemos colocar em questionamento por meio da pesquisa e da arte.
O que sobrou dessa história foi a vontade de estudar algo que questionasse esses padrões sociais, seja o machismo ou o sexismo. Após a graduação, resolvi realizar mais uma vez a prova para o mestrado na cidade de Natal pela UFRN, foi quando tive acesso a um artigo da orientadora desta dissertação (2013); intitulado Integrando ensino,
pesquisa e extensão: instaurações cênicas urbanas como processos de criação da encenação “Carmin”, que questionava a possibilidade do artista usar sua pele como
figurino em cena e seu corpo como não indicativo de gênero e faixa etária.
Não obtive o ingresso no programa de Pós Graduação em Artes Cênicas naquele ano, mas obtive algo mais valioso: a certeza que encontraria orientação para um possível projeto que estudasse arte conectando-a aos estudos de gênero. Esse artigo foi a base para a construção do meu projeto inicial que tinha como objetivo realizar uma análise acerca do entendimento do trabalho corporal envolvendo a dessexualização do
corpo, como maneira de possibilitar o desprendimento de padrões sociais que bloqueiam a criação poética do ator.
Em minha ideia o ator citado aqui, da leitura do SESC, construiu seu corpo ao longo de sua trajetória de vida pessoal e artística de forma que este está arregrado aos padrões machista e sexistas. Um corpo masculino que só pode interpretar um papel masculino. Dessa forma, a ideia de dessexualizar o corpo estaria direcionado para uma perspectiva em que um possível trabalho cênico possibilitasse o questionamento desses valores que constroem o corpo para, depois, desconstruí-los.
Assim, a dessexualização seria entendida como um meio de desconstruir do corpo aquilo que o torna sexualizado ou aquilo que impõem que ele pertence ao gênero x ou y. Segundo a Judith Butler (2016) somos educados a sermos heterossexuais (heteronormatividade compulsória), a sermos do gênero que nossa fisiologia determina e nos comportarmos como tal. Nesse processo, nossos corpos são construídos por um forte viés sexual e cisgênero como aponta a autora.
Essa busca por um corpo que não determinasse gênero ou não estivesse impregnado a normas machistas estava presente em meu projeto escrito inicialmente e aceito no programa. Em meu entendimento, se faz necessário uma abordagem dos estudos sobre gênero dentro do campo artístico corroborando com todos que abordam essas questões em suas obras.
A metodologia inicial consistia num estudo de caso em que abordaria questões apontadas no artigo de Salles (2013) dialogando com indagações de gênero que gerassem possibilidades artísticas, na qual, o corpo do atuante seria desprendido daquilo que o provocasse entraves cênicos.
Meu entendimento sobre pesquisa atravessa o viés apontado por André Carreira (2012) que aborda os estudos artísticos como um processo e não um produto. Nesse processo de dois (2) anos do mestrado, o foco da pesquisa mudou no sentido de enfocar e aprofundar os estudos sobre a nudez. O artigo de minha orientadora já abordava o nu por uma perspectiva poética em que gerava a possibilidade do artista usar sua pele como figurino.
Foi com intuito de trabalhar essa abordagem do artigo em minha prática dissertativa que planejei uma criação cênica com seu grupo de artistas, o CRUOR Arte Contemporânea; que realizaram a obra Corpo Livre – obra que possui um caráter de nudez artística como elemento poético da cena –, assim, reorganizei meu projeto de pesquisa logo no início de minha jornada no mestrado. Não se tratava apenas de uma
abordagem sobre um ator que não desejava ler um papel de gênero oposto ao seu, mas, agora, tinha como foco falar sobre como um corpo nu que não carregasse artifícios que o identificasse por um gênero e, assim, poderia interpretar qualquer gênero que desejasse ou transitar entre eles.
Entendo que um corpo nu em cena está desprovido de artifícios (vestes), que possuem a função de realçar seu gênero. Por esse motivo que comecei a olhar para o corpo nu como um elemento que pudesse não carregar esses artifícios classificadores de gênero.
Segundo Goldenberg (2007) nossos corpos são construídos ao longo da vida pelos padrões vigentes da sociedade em que estamos inseridos, nessa construção, os valores dessas sociedades são impregnados aos corpos. Esses valores são desde aqueles que pregam uma estética ou o uso de roupas até aqueles que determinam normais sexuais. A dessexualização, seria uma possibilidade de desconstruir esses valores quando esses corpos estão nus em cena.
Durante a pesquisa cheguei a possibilidade de que o corpo quando se apresenta nu ele está sujeito ao julgamento das aparências e da sexualidade. A percepção mais comum desses corpos é pelos prismas normativos sociais que terminam, em obras que abordaremos nessa dissertação, tratando-os como algo ofensivo. A nudez permeia por questões de gênero, por questões que envolvem os padrões sociais, sexuais e estéticos. E a pesquisa possui como objetivo levantar questões sobre como esses padrões influenciam a forma como lidamos com nosso corpo e com os corpos dos outros, principalmente quando esta corporeidade se apresenta desnuda.
Compreendi como mais interessante voltar a atenção para o meu corpo. Como ele foi construído ao longo dos anos, quais suas influencias, quais seus padrões estéticos, sexuais, sociais e artísticos. No início relutei bastante contra essa possibilidade de estar em cena na prática dissertativa. Não achava interessante ter meu corpo exposto em cena. Não me sentia preparado para tal ação. Foi quando as disciplinas do curso do mestrado me proporcionaram compreender que é possível e interessante sim uma pesquisa a partir do próprio corpo.
Na disciplina ministrada pela professora Drª. Lara Rodrigues, Epistemologia do
Corpo na Arte, usamos da técnica da capoeira como meio de perceber e entender o
próprio corpo e a aproximação dessa corporeidade com nossas pesquisas. A disciplina foi fundamental para voltar minha percepção para meu corpo. Pensar sobre ele e como ele se apresenta dentro do meu universo.
O mais interessante desta disciplina foi a possibilidade dessas reflexões que afetavam nossas pesquisas. No meio acadêmico é muito recomendado aprofundar e discutir nossas questões da pesquisa com base em outros pesquisadores e estudiosos da área em que você investiga, mas nesse momento da minha pesquisa tinha que inserir meu corpo na prática e precisava pensar sobre esse corpo. Obvio que em momento nenhum são abandonados aqueles estudiosos que lhe ajudarão a formar a base discursiva da fundamentação teórica, mas um elemento importante e fundamental estava sendo inserido e ele poderia ditar novas possibilidades metodológicas e artísticas para com o processo de estudo.
Discorrer sobre si próprio sempre me pareceu desconfortável, para isso, tinha que reviver dores físicas provocadas por cicatrizes de uma operação e questionar hábitos de um comportamento defensivo perante outras pessoas que foi construído ao longo da minha vida. Só o fato da cicatriz de uma operação marcada na pele ser pensada, já me direcionava outras formas de lidar com isso. Minha metodologia agora abordava meu corpo, dessa forma, esse corpo que ditava possibilidades artísticas na medida em que pensava sobre como lidar com ele em cena. Para colocar meu corpo em cena, tinha que entendê-lo antes. Entender a forma como lido com ele, quais seus pudores e os medos carrego.
A disciplina me retirou da zona de conforto tanto fisicamente, quando tinha que realizar atividades de equilíbrio em que dores apontavam para minha operação, até em relação com outros corpos em sala de aula quando tinha que me aproximar ou me distanciar destes. Pensei nessas aulas em como estar aberto ao toque de outros corpos no meu corpo e todo esse refletir terminou gerando a possibilidade de como lidar com o toque quando em minha prática dissertativa os espectadores riscam minha pele.
Em alguns momentos as aulas pareciam confusas, pois ainda era abstruso para mim a ideia de pensar em si próprio como elemento condutor da disciplina e da pesquisa. Fatos foram acontecendo em outras disciplinas que me instigavam a continuar a pesquisa e perceber a necessidade de se discutir sobre o nu artístico.
Sempre me surpreendeu o fato de alunos de cursos de teatro, seja durante a minha graduação na UFPB ou neste mestrado na UFRN, tirarem a roupa na sala e ficarem de cueca – em um dos períodos uma aluna ficou com os seios à mostra, enquanto outros meninos fizeram as atividades inteiras sem camisa, basicamente de
lycra – como se nada dessa história da exposição do corpo fosse tabu ou problema, ou
Isso parece um paradoxo, mas explico. Ambientes acadêmicos tendem a serem bastante repressores e retrógados em diversos assuntos. A nudez entra na questão de como um elemento visto, até por outros alunos de uma pós-graduação, pode ser percebida como algo desnecessário. Em uma disciplina, nessa pós-graduação em Artes Cênicas, no ano de 2017, o aluno Marcelo dos Anjos Tendência1 desejou realizar seu trabalho final utilizando o nu como elemento. O objetivo do trabalho era explorar sensações corporais dos sentidos e o tato estar presente na esfera das sensações corporais.
Porém o discente foi repreendido por seus colegas do programa de pós-graduação que argumentaram que sua proposta era vista como ofensiva e descontextualizada, mesmo fazendo parte de suas investigações e de sua pesquisa neste mestrado. O argumento foi moldado no fato do ambiente de sala de aula não contextualizar a proposta tornando-a ofensiva, mesmo o aluno argumentando sobre o nu lhe provocar sensações táteis e explicar justificando todo o projeto a ser executado.
Esse exemplo prático aponta para o fato de que as pessoas que fazem os ambientes institucionais acadêmicos não ajudam e não permitem experimentações do uso do nu como poética. Para o aluno em questão a nudez estaria contextualizada por meio das sensações provocadas pelo sentido tátil, mas o local onde a encenação ocorreria não permitia que a obra fosse executada, em um claro processo retrógrado e ultrapassado; dentro de um centro de pesquisa em Artes Cênicas em uma universidade aonde o corpo deveria ser visto apenas como elemento estético e poético.
Naquela aula a atividade era uma exploração aos cinco sentidos e as sensações táteis provocadas pelo nu foram descartadas, não pela professora da disciplina, mas por outros alunos e alunas da pós-graduação. No grupo da rede social Whatsapp, grupo formado pelos alunos da turma de mestrado, os argumentos eram rasos, fincados apenas na ideia que no trabalho em sala o nu não era necessário, as sensações táteis poderiam ser realizadas de outra forma, por outros caminhos.
As possibilidades de vários caminhos sempre são interessantes para uma pesquisa, porém quando se reprime um caminho termina por inibir uma possibilidade de exploração. No caso da sala de aula, esse corte retira a possibilidade do outro na exploração de algo que, para o aluno, poderia vir a ser um possível gerador de conhecimentos dentro da proposta da aula.
Tirar a camisa em praia ou na frente de alguém sempre se mostrou para mim uma experiência bastante difícil. O ato soava como um conflito de não se expor. Pensar sobre meu corpo perante minha pesquisa na disciplina me ajudou a perceber quais as reações o meu corpo nu me causava e o que precisava ser desconstruído para a minha prática da cena.
Nesse mesmo ano vivemos um grande alvoroço no Brasil de obras que sofreram repressão devido os artistas se apresentarem nus. DNA de Dan; La Bête e Macaquinhos, são algumas das obras que abordarei nessa escrita e que estiveram envolvidas em 2017 com algum tipo de repercussão devido ao uso da nudez como elemento poético. Esses fatos de repressão dessas obras só reafirmaram em mim a importância de se pesquisar esse tema e se trabalhar na luta contra a perseguição a nudez na arte e aos artistas que realizam obras com esse caráter.
Realmente nem tudo são flores em uma pesquisa cujo objeto, tem uma abordagem na nudez; buscando entender os motivos que a tornam compreendida como algo ofensivo, nem sempre é compreendido. Pesquisar o nu provoca várias sensações e reações tanto na própria pessoa quanto em outras pessoas. Em outros corpos, acontece um estranhamento como se o assunto não fosse para ser pesquisado ou não pertencesse a esfera dessa universidade na qual o pesquisador está inserido. Como se o nu na arte sempre estivesse ali e sempre irá estar, portanto, a polêmica deveria ser por parte de quem não estudou artes apenas. Um problema do interprete/espectador e não do artista. E como se não houvesse justificativa/necessidade para uma pesquisa sobre o nu.
Durante essa pesquisa ouvi muitas vezes a minha investigação sendo tratada com muita banalidade, de várias pessoas dentro do programa de pós-graduação que falaram: “Quando vamos te ver nu? Tô doido para ver tua apresentação” ou outras colocações como “É muito fácil tua pesquisa é só ficar nu, não precisa ler nada pra isso”. Esses acontecimentos apenas realçam minha ideia que muitos ainda dentro do meio acadêmico da UFRN estão despreparados para discutir uma questão tão delicada como a presença do nu nas artes, tornando essa pesquisa relevante com intuito de contribuir para o avanço do tema em pauta no meio acadêmico.
Segundo Carreira: “a função fundamental da pesquisa acadêmica é produzir novos olhares sobre os objetos artísticos, sobre suas histórias, seus procedimentos e, finalmente, sobre suas conexões com outras práticas culturais” (2012, pp. 16-17). Somente por meio da pesquisa que podemos entender um determinado assunto sobre outros prismas que não são aqueles pregados pelo conhecimento genérico. O
conhecimento comum sobre o nu está vinculado ao sexual, ao ofensivo e a arte pode ajudar a percebermos por outras perspectivas e questionar essas que provocam apenas opressão.
Nessa dissertação abordo essa opressão e como ela prejudica o meio artístico como um todo. Para isso, no primeiro capítulo investigo a obra Corpo Livre. Essa obra surgiu como um ato contra a opressão a uma apresentação com nudez na cidade de Natal no estado do Rio Grande do Norte e tem como objetivo questionar que corporeidade é essa que socialmente está sendo tão castigada por se apresentar nua, além de abordar a possibilidade que o artista tem em seu direito de apresentar nu usando de sua pele como figurino em cena. Essa obra passou por um processo administrativo na UFRN, pelo qual vamos começar a questionar sobre como o nu é entendido como ofensivo.
Muito desse sentido da nudez como ofensiva está arregrada nos padrões sociais que determinam que o corpo deve estar vestido, caso contrário, ele é sujeito a relação com o atentado ao pudor e punido por lei. Essa associação da nudez como um ato de decoro público foi sofrida pelo artista que realiza a obra o DNA de Dan, o performer Maikon Kempinski. Por meio dessa obra vou realizar uma breve abordagem tentando explicar como acontece essa rejeição ao nu, como a sociedade entende esse nu como algo não artístico e como o artista é afetado nessa relação de rejeição.
É válido salientar que muito daquilo que se rejeita no nu possui um forte vínculo ao corpo sendo percebido como um potencial sexual e erótico. O corpo nu sofre dessa associação com o sexual de forma bastante forte em nossa sociedade. Essa associação que abordaremos na primeira parte do segundo capítulo em que voltaremos os olhos para os acontecimentos envolvendo a obra La Bête, do performer Wagner Schwartz, que foi acusado de pedofilia devido ao fato de um vídeo de cenas da sua performance ter viralizado na internet de maneira descontextualizada.
Nesse mesmo capítulo ainda abordaremos como esses compartilhamentos fora do contexto artístico terminam por provocar discursos de ódio e perseguição perante os artistas. Alguns artistas possuem sua rotina de vida completamente mudada, e como estes discursos resultam em projetos de leis que tem como objetivo censurar e proibir qualquer tipo de arte que utilize o nu como elemento poético.
É nesse contexto que usaremos como fio condutor para dialogar sobre a descontextualização da obra cênica uma das obras artísticas mais incompreensivas do meio artístico brasileiro, o Macaquinhos. Para essa análise abordarei a política social
(SÁEZ, 2016) que aponta para o ato da performance como abominável e ofensiva tornando-a, assim, um referencial nacional de má qualidade artística e do uso da nudez como algo sexual e ofensivo. Desejo abordar o real contexto da obra e tentar retirar dela todos os castigos e repressão que lhe impõem. Macaquinhos, por ser uma obra já pertencente ao imaginário nacional quando se refere ao uso do nu artístico na arte da cena, terminou proporcionando a esta pesquisa ideias para uma parte importante da prática: a necessidade da desconstrução daquilo que torna nosso corpo sexual e como realizar essa abordagem.
Por fim, em um último capítulo abordo, em duas partes, mais diretamente sobre a minha prática cênica. Como pode ocorrer uma possibilidade de ressignificação do corpo nu. Corpo que desconstruí, por meio de ritos de passagens (GENNEP, 2011), e reconstruí por meio da escrita em minha pele. Abordarei sobre minha experiência em cena e como esse meu corpo construído socialmente passou por um processo simbólico de desconstrução e reencontro consigo mesmo.
Os ritos de passagem são usados para marcar, como o próprio nome aponta; a passagem de um estado para o outro do sujeito e do seu corpo. Essa transição está escrita nesse capítulo final em que gero um questionamento sobre o que faz nossos corpos serem sexuais e esteticamente aceitos com intuito de desconstruir esses conceitos. Penso que nossos corpos não estão isentos daquilo que vivemos, lemos e fazemos, dessa forma, sempre somos um novo ser a cada pesquisa, a cada dia. O meu corpo não é o mesmo corpo que iniciou a pesquisa com medo da exposição, mas também não encontro uma solução definitiva para os problemas que envolvem o nu, no entanto trago uma possibilidade de dialogar com questões pertinente a nudez artística e apresento um corpo que está presente nessas indagações.
Durante a pesquisa refletir muito sobre aquilo que meu corpo falava para mim mesmo em relação ao nu ter forte relação com o estético, sexual e com o medo da minha imagem ser colocada fora do contexto artístico apenas para provocar uma polêmica ou uma chacota. Na experiência cênica, busquei ressignificar todas essas relações corporais dando-as um novo sentido aquilo que me oprime e aquilo que já oprimiu tantos outros artistas: a forma como o nu é percebido socialmente.
Minha maior contribuição para com o meio artístico é exatamente a coragem de realizar esse diálogo sobre o assunto, pelo qual, aponto para uma perspectiva e procuro proporcionar uma possibilidade de vermos e entendermos a nudez artística pelo viés poético.
PERCEBENDO O NU ARTÍSTICO
Início a escrita sobre essa pesquisa apontando um fato ocorrido na cidade de Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte, que desencadeou na criação da obra
Corpo Livre, pela coligação cênica CRUOR Arte Contemporânea, esta obra artística
originou essa pesquisa. Objetivamos, assim, introduzir a discussão sobre como o nu artístico é percebido como ofensivo, para depois, abordarmos a rejeição que esse elemento artístico possui socialmente e como isso afeta o artista tanto em sua esfera pessoal quanto artística.
Nesse capítulo também demonstro como o nu é castigado socialmente, para isso, farei uma análise da obra DNA de Dan, do performer Maikon Kempinski, que sofreu com a percepção social do nu sendo entendido como um ato de atentado ao pudor. O Artista chegou a ser detido e teve sua rotina de vida mudada devido a forma como interpretaram seu desnudamento.
A crítica dos acontecimentos ocorridos em torno dessas obras artísticas faz-se necessário para entendermos como os meios artísticos estão sujeitos as associações sociais que tratam a nudez como elemento ofensivo.
Essa nudez é percebida como ofensiva quando não está associada a uma ideia de comercialização cuja mídia incentiva por meio do entretenimento. A arte, no caso dessas obras que iremos dialogar nesse capítulo, possuem a proposta do uso da nudez como elemento questionador de um assunto. Dessa maneira, terminam por terem seus desnudamentos percebidos por outro prisma que não aquele compreendido socialmente como aceitável.
1.1 A instauração cênica Corpo Livre.
A atriz/bailarina Ana Carolina Vieira realizou uma apresentação, lançando mão do desnudamento, intitulada “Não Conte Detalhes” de autoria do coreógrafo João Alexandre Lima, no dia 27/04/2012 em comemoração ao Dia Internacional da Dança,
no Teatro Alberto Maranhão, na cidade de Natal2. A falta de uma censura prévia perante
a apresentação, que ocorreu na frente de crianças, causou um grande incomodo aos pais e representantes do teatro gerando toda uma problemática perante a nudez da obra. Sua apresentação foi vista como um nu desnecessário. Sendo até associado a algo errado, impróprio e imoral.
Esse acontecimento foi agravado devido ao fato, alegam os dirigentes do teatro, de que a bailarina sempre ensaiou vestida e porque esta vendeu os ingressos para o evento aos seus alunos e alunas, crianças, e não as informou, assim como à direção do teatro, sobre o uso da nudez como figurino. Somente quando ela entrou em cena que foi percebido o desnudamento. Havendo, assim, uma clara rejeição da direçãodo teatro e dos pais perante a obra, além de sua associação a um afrontamento a todos pelo uso da nudez.
O resultado foi que a atriz foi afastada do Teatro Alberto Maranhão, não podendo mais fazer parte dele e nem apresentar essa encenação, além da sua exoneração da escola de dança onde ela ministrava aulas para crianças e adolescentes. Esse afastamento foi a pedido dos pais que não queriam seus filhos e suas filhas tendo aula com a bailarina.
Por mais que o meio teatral, da dança, artes visuais ou até os meios acadêmicos se considerem mais adeptos e compreensivos as experimentações ou propostas, a nudez é ainda algo que ainda afronta e causa desconforto. Ao longo dessa pesquisa podemos perceber em meios sociais diversos, artísticos ou não, um certo medo em relação ao nu. Um pudor construído socialmente que resulta na ideia da imagem de um corpo nu, fora das esferas privadas, como uma afronta à moral e aos bons costumes.
Em muitos momentos o objetivo da encenação não é afrontar, mas acontece que as pessoas que trabalham nestes locais se sentem afrontadas e ofendidas pela imagem daquele corpo nu. Isso ocorre devido a esses indivíduos não conseguirem romper com o idealismo imposto pelas normas sociais, nem mesmo durante a apreciação para com outras obras. Não existe abertura a novos pensamentos e propostas que a arte pode lhes proporcionar. O nu apresenta-se, para eles, como uma afronta ao seu ideal de comportamento e conduta social, mesmo ele sendo abordado pelo viés de uma proposta eminentemente artística.
2 Reportagem da bailarina para uma emissora local da cidade de Natal. Disponível em:
Para além dessa perspectiva que entende o nu como afronta, podemos acentuar que nem tudo na arte é sinônimo de um nu castigado. Sabemos que os meios artísticos se utilizam do nu ao longo da História da Arte. A escultura nua, por exemplo, parece parada no tempo e no espaço, imóvel, carregando nas costas todas as ditas belezas que a conceituam como “clássica” ou “perfeita”. A escultura permanece contemplada e adorada com a designação de que indubitavelmente é arte. Podendo ser movida de ambientes e usada para simbolizar uma época que não retornará nunca.
Nas palavras de Freire:
O nu numa escultura não choca nem enrubesce. Porque uma escultura ou uma estátua não passam de um corpo inerte, sem desejo, nem pulsão, sem fendas nem carne, é talhado para fixar a morte. O mesmo, no entanto, não ocorre com a expressão do nu experimentado nas artes vivas, a dança, o teatro, etc.. Assim como o corpo é mais corpo quando se movimenta, a nudez é mais ela própria quando abre-se e fecha-se em seus detalhes, músculos, cicatrizes. É este tipo de nudez pulsante que atinge, de maneira ambígua, à sociedade, ocasionando desde êxtases estéticos à pânicos morais de repúdio e censura (FREIRE, 2013, s/p).
A questão permeia na forma como um corpo vivo e pulsante nos afeta ao vermos uma cena com nudez. Esse corpo vivo nu não carrega nas costas as belezas classificadoras do clássico ou do é arte. Ele poderá provocar no espectador um novo questionamento dos padrões sociais que ele segue como construção de sua identidade coletiva. Padrões que envolvem a materialização do corpo até o controle de seus hábitos e vestimentas.
A escultura nua não é mais ou menos arte que um corpo nu posto em cena ou vice-versa. São elementos necessários na arte como um todo. São elementos que podem nos fornecer conhecimentos sobre épocas e sobre comportamentos. Que podem nos ajudar a entender melhor o mecanismo social do qual fazemos parte. Por meio dessa compreensão, vale salientar que o nu da escultura é percebido como uma expressão histórica, parada no tempo, como ousamos falar, uma expressão da morte. Muitas vezes, forjada no contemplativo artístico. Enquanto o nu da bailarina, que apontamos aqui, está vivo e afeta as pessoas provocando, em alguns, desconforto devido colocar em questionamento os seus valores vigentes.
Foi nesse clima de repressão a apresentação da bailarina que o grupo de pesquisa Cruor Arte Contemporânea criou a instauração cênica Corpo Livre. O Cruor Arte Contemporânea é uma coligação de prática da cena do Núcleo Transdisciplinar de
Pesquisas em Artes Cênicas e Espetaculares da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, coordenado pela orientadora desta dissertação, que compreendeu ser importante questionar a causa da atriz/bailarina Ana Carolina resultando na criação da instauração em resposta a toda a opressão sofrida pela artista.
Instauração Cênica é um conceito desenvolvido pela professora já mencionada
(2004) que aprofunda a arte da performance para caminhar por novas proposições artísticas. A ideia é transformar o local com a atuação deixando nele algum vestígio. Esse vestígio pode ser uma alteração física no ambiente – como uma marca de tinta – ou na interação das pessoas com o local. Sempre que as pessoas passarem por aquele ambiente vão ativar sua memória da ação cênica e poderão voltar a se relacionar com questionamentos provocados pela ação ressignificando sua relação com o tema que foi abordado e com o local. Havendo, dessa forma, uma transformação no ambiente e nas pessoas que dele fazem parte.
A obra Corpo Livre foi uma resposta para com o teatro que proibiu e afastou a bailarina por ter dançado nua e foi apresentado pela primeira vez no largo em frente ao teatro Alberto Maranhão. Depois foram realizadas apresentações em outros locais. Salles (2013) faz uma descrição de como é a obra:
[...] “Corpo Livre”, esta instauração cênica urbana consiste em convidar artistas da cidade para que, em determinado local e hora, dancem ou executem uma partitura de três minutos, tendo o corpo nu pintado com pasta d’água. Esta se desenvolve da seguinte maneira: o grupo sai em cortejo, acompanhado por músicos e musicistas, ainda com roupas, de determinado local da cidade e vão a um ponto onde houve algum tipo de repressão ao corpo; quando chegam, sentam-se e formam uma mandala, e aqueles que têm o corpo nu pintado de branco, entram na mandala, tiram suas roupas e executam a partitura de três minutos; logo após, colocam as roupas e vão embora da mesma forma que chegaram: em cortejo (SALLES, 2013, p. 79).
Quando a arte se propõe em ir a um local “onde houve algum tipo de repressão ao corpo”, ela termina por levantar aquele questionamento naquele local buscando desconstruir conceitos arregrados ali e ressignificar aquilo que é pertinente. Chegar no local sem uma preparação prévia deste e então fazer acontecer uma transformação do local é característica da Instauração Cênica.
A luta contra a opressão, nesse caso falamos sobre a repressão ao corpo que se apresentou nu, é um caminho que a arte está disposta a percorrer e sabe que pode provocar resultados significativos. Portanto, a obra Corpo Livre não foi uma nudez
gratuita ou desnecessária, como muitos podem afirmar, mas uma luta contra meios de opressão social.
O próprio título da obra já aponta para a ideia do corpo sendo livre em sua expressão. Dele poder expressar-se na arte sem as normais sociais vigentes o castigarem ou o controlarem. É muito importante para essa pesquisa começar a discussão sobre o nu abordando uma obra que visa uma possível liberdade de expressão do nu artístico. Ao longo dessa escrita dissertativa estudamos pesquisadores que nos falam sobre como corpo que carrega os conceitos impostos pela sociedade (GOLDENBERG, 2007) e outros que tratam a corporeidade como suporte para a expressão da arte (PIRES, 2005). Com intuito de apontarmos para como o corpo é construído socialmente e como ele, estando desnudo, pode ser uma expressão artística sem carregar os conceitos sociais que o construíram ao longo da sua vida.
A luta pelo direito de expressar pelo corpo aquilo que deseja, mesmo este estando nu, é algo que nos chama a atenção na obra Corpo Livre. O corpo livre dessa associação que afirma que o desnudamento da bailarina foi um atentado ao pudor, foi uma afronta. Libertar o corpo dessa obrigatoriedade social que percebe a nudez como um elemento não artístico e sim como sexual ou comercial.
O Cruor Arte Contemporânea busca em suas obras a desmistificação de conceitos opressores e a recolocação da arte como mecanismo que visa uma melhoria social onde é apresentada, todas as obras do Cruor Arte Contemporânea têm um forte cunho social e político. Nenhum espectador sai ileso ao assistir uma obra como Corpo
Livre, questionamentos são levantados durante e depois por essas pessoas que se vêem
perante suas ideologias podendo repensá-las. É por meio dessa provocação de repensar
sobre o corpo que o artista e o espectador podem juntos perceber a arte de outras
maneiras, com um outro olhar, assim como a possibilidade aberta de perceberem o nu em cena pelo viés poético.
O corpo nu na instauração Corpo Livre foi construído com caráter ritualístico (SALLES, 2013), ou seja, como uma quebra do tempo e do espaço lógico para buscar uma ligação com o sagrado. Esse sagrado permite ao atuante se desprender de tudo que é terreno – incluímos aqui a vergonha, os padrões sociais e os bloqueios de aparência– para se conectar consigo mesmo de forma ancestral e poética. O conceito de liminaridade presente nos rituais foi amplamente explorado com os artistas instauradores da cena: Keila Campanelli, Sandro Souza Silva, Patricia Tobias, Fernanda
Galvão, Josie Pessoa, Heloisa Souza e Patrícia Sousa. Entendemos por liminaridade3 o
ato simbólico em que o participante de um ritual se encontra fora da influência do sistema social em que está inserido, ou seja, se encontra em um momento de suspensão. Nesse momento de suspensão, o performer consegue se desprender simbolicamente daquilo que o liga as normas sociais, como a vergonha ou o pudor, assim, consegue realizar uma obra com nudez. Consegue ressignificar no corpo os seus próprios entraves ao ponto de conseguir entender e aceitar de maneira mais efetiva o desnudamento como forma artística.
O entendimento que na arte o corpo nu se coloca em um lugar anterior à dita civilização, portanto mais próximo da natureza, nos forneceria um encontro com uma ancestralidade percebida durante a nudez por aqueles artistas que a realizam. Local onde o índio, o ancestral brasileiro, entende o corpo próximo a natureza de forma que ambos coexistem. A roupa, a vestimenta são uma invenção humana imposta pela sociedade civilizada como uma norma social, uma ordem naturalizada e explorada pelo sistema mercadológico.
Esta sociedade está distante desse ancestral e a nudez pode ser um meio de se reconectar a essa ancestralidade. O nu percebido pelo viés ritualístico está sempre nessa perspectiva de retorno ancestral e, por meio deste, a quebra daquilo que prende o ser humano no que conhecemos hoje como terreno ou carnal. Mas existem diversas formas diferentes de perceber a nudez, outra bastante comum é a perspectiva libertária.
A sensação de libertação sentida por quem faz uma cena de nudez é resultado do desprendimento de toda a norma social que proíbe o desnudamento, como essa que estimula estarmos sempre vestidos. A atriz Keila Campanelli, que participou da instauração cênica Corpo Livre aponta que “o despir não poderia ser somente das roupas, havia algo que inconscientemente dentro de mim me dizia que a roupa era por si só um elemento visual forte e que acompanhado dela uma esfera maior se abria uma vez que essa barreira era rompida” (SILVA, 2017, p. 7). A atriz aponta o rompimento da barreira construída socialmente que proíbe a nudez artística. Um despir não apenas das roupas, mas das ideias retrógadas que são impostas a todo ser humano pelos processos civilizatórios.
Ela complementa afirmando que “o meu despir era o meu ato de reafirmação da minha liberdade como um resgate a minha natureza e o meu livre arbítrio de escolha”
3 SARTIN, Philippe Delfino. Sobre liminaridade: relendo Victor Turner em chave pós-estrutural. Goiás;
(SILVA, 2017, p. 7). É a partir do rompimento com as normas sociais opressoras que o atuante sente essa sensação de libertação. O corpo nu passa a ser entendido como uma
nudez libertária.
O espectador pode sentir essas sensações pela obra, mas terá que lutar contra os padrões que fazem parte de sua vivência para senti-la. Já o artista que está em cena, também realiza essa batalha, entretanto pode apresentar uma maior disponibilidade para a luta por buscar sempre o fato de se questionar, por levantar e rever suas questões e posicionamentos. O corpo nu é um caminho pelo qual as pessoas, artistas ou espectadores, vão de encontro com os seus enfrentamentos. São pelas vivências que o corpo cria e recria seus signos e significados.
A instauração cênica Corpo Livre também enfrentou obstáculos ao longo de suas apresentações e o maior deles foi o processo administrativo sofrido pela professora e criadora da obra. Houve uma apresentação, a convite do congresso de Antropologia, dentro da UFRN na frente da biblioteca Zila Mamede que resultou em um processo administrativo.
A repercussão dessa apresentação foi imediata em todo o campus da universidade, inclusive tendo sido noticiado no G1 como algo muito ruim acontecendo dentro de uma universidade e alguns apontaram o dedo para condenar a apresentação enquanto outros para defender o ocorrido. Em seu artigo, Freire aborda sobre a repercussão dessa apresentação:
No caso da apresentação no CCHLA, muitos ao tomarem conhecimento por meio da imprensa apontaram o dedo acusador e desferiram comentários desqualificadores contra o grupo Cruor e a sua expressão criativa do nu. Como verdadeiros censores do “bom gosto”, aqueles afirmaram, uns mais categoricamente e outros com mais timidez, que aquilo ali não se tratava de “arte”. Aliás, frisemos, o que seria das vanguardas artísticas se não houvessem os conservadores e sua pretensão de ditar “limites” e “convenções” à expressão estética, não é? (FREIRE, 2013, s/p).
Se torna relevante nessa citação o fato do público apontar para a obra buscando classificá-la como é arte ou não é arte. Obras que possuem um caráter de nudez terminam sempre passando por essa “classificação” que os detentores do “bom gosto” fazem. Não apenas obras que questionam algum assunto ou colocam algo em atrito para gerar indagações, como o corpo questionado na obra do Cruor, mas qualquer cena que tenha algum caráter de nudez apresentado.
A falta de interesse do público em questionar algo ou a falta de disposição para novas experiências artísticas só reforça os seus conceitos sobre o que é arte tornando outras possibilidades como impropria ou erradas aos seus olhos. Só podemos perceber a arte por outros caminhos quando nos dispomos a tal. “[...] quando estamos dispostos e aptos a permitir que o faça. Caso contrário, para nós não é arte. O artista cria apenas um produto artístico; a obra de arte é o que esse produto faz na experiência da pessoa, e esta depende tanto de pessoa quanto do produto” (DEWEY, 2010, p. 41).
Quando o espectador, ou até determinados artistas, não se dispõem para essas outras possibilidades artísticas usam das rotulações e definições como meio de tentarem escapar ou não aceitar determinada obra. Como se a rotulação decidisse tudo que envolvesse a polêmica, nesses casos, o é arte seria um decreto que permitisse a obra acontecer e o não é arte fosse um mandado de proibição. Porém o conceito de arte é muito amplo e cada pessoa pode percebê-lo de forma singular, é a experiência artística do indivíduo que formará o modo como ele vê a arte e o que entende por arte; será como ele classificará determinada obra como Belas-artes, outras como Artes-uteis e até como Não-arte (DEWEY, 2010).
Lembramos, também, que um sistema comercial inteiro fica determinando aquilo que “presta” e aquilo que “não presta”. O teatro, que tem que competir com as redes sociais, os filmes e os shows, também sofre com essa determinação do sistema. Todos esses fatores influenciam naquilo que a sociedade entende como arte, consequentemente, influenciará no modo como percebemos realizações artísticas que possuem um cunho questionador perante a opressão no corpo por meio da nudez.
O artista não tem controle sobre como o espectador perceberá sua obra, pode este espectador ter contato durante toda sua vida com diversos modos de percepção da arte e não a perceber como artística. Além de que muitas obras artísticas não buscam definições em seus trabalhos, mas buscam as sensações e questionamentos. A definição, muitas vezes, restringe o fazer artístico e a busca não é defini-la, mas criar uma interação do espectador ou/e do artista com o mundo em que vive por meio de uma experiência artística pela obra de arte. Existe no Brasil vários grupos, coletivos e coligações além do Cruor que trabalham com estas questões.
É importante entendermos como o espectador constrói sua visão do que considera como artístico. Pois essa visão irá, como vimos no apontamento de Freire (2013), influenciar bastante naquilo que é determinado como polêmico ou não em obras com nudez. Também é importante frisar que não trabalhamos nessa pesquisa com as
teorias da recepção, mas entendemos, pelas nossas análises, que é pela recepção do espectador, a forma como ele lida com aquilo apresentado em cena, que a polêmica perante o nu se desenvolve.
Quando a instauração Corpo Livre aborda os meios de repressão ao corpo impostos por uma sociedade, também deseja repensar sobre esse assunto para que possamos construir uma sociedade menos opressora. Observemos,
Nosso trabalho propõe uma discussão sobre o corpo do artista, o nu em cena, o direito de usar a pele como figurino, a liberdade em nossas criações e que um corpo em cena não seja motivo para indicativo de idade. Segundo nosso entendimento, o artista deve ter liberdade total para usar seu corpo nu apenas como obra artística (SALLES, 2013, p. 79).
O corpo do artista como obra de arte é entendido aqui quando o artista usa de seus recursos corporais para uma criação poética independentemente de estar nu ou não em cena, mas, estando nu, seu corpo é capaz de criar poéticas e diálogos com o meio em que está inserido. Dessa forma, é capaz de ressignificar até a sua própria pele usando-a como figurino: aquilo que reveste meus músculos é minha vestimenta primordial, bela, poética e artística.
Na atualidade devido aos aplicativos de relacionamento ou aqueles de interações sociais o corpo termina por ser colocado de forma que ele expresse tudo aquilo que o indivíduo é ou aquilo que ele tem para oferecer. Dessa forma, entendemos que o corpo é uma expressão da identidade do indivíduo, mesmo que involuntariamente, esse indivíduo tenta expressar em seu corpo sua identidade. Existem em quase todas as sociedades indivíduos que expressam na pele sua identidade, pelas tatuagens, por exemplo, ou por meio das vestes que usam e etc.
Para entendermos mais profundamente como o corpo é percebido na atualidade nesse processo de representação daquilo que teríamos para oferecer, buscamos na pesquisa de Beatriz Ferreira Pires (2005) como o corpo se tornou um suporte para a arte. A autora aponta a seguinte abordagem sobre o nu:
O corpo que reproduz a si mesmo em fotos, que se coloca à mostra. Que precisa destacar-se dos demais para ter uma identidade, já que esta vem de fora, vem do outro – o sujeito não se reconhece por si mesmo, é o olhar do outro que lhe confere ou não identidade. O corpo que se mostra em todo o seu cotidiano pela internet através de câmeras de vídeo. O corpo que se expõe nu. A nudez, carregada de apelo
erótico, utilizada em grande escala por campanhas publicitárias, propagandas de televisão, filmes, ensaios fotográficos, sites da internet e desfiles de moda, não só reafirma os padrões estéticos vigentes, despertando no indivíduo o desejo de que seu corpo seja semelhante ao apresentado, como também tira do fato de estar despido o caráter de inusitado (PIRES, 2005, p. 92).
Artisticamente falando, o corpo em cena também expressa aquilo que a obra deseja representar. A obra Corpo Livre deseja representar por meio da nudez em cena um corpo que não carrega esses apelos eróticos. A bailarina, que deu origem a obra, poderia sim se apresentar nua e isso não deveria ser o motivo para tê-la exonerado do cargo de professora sobre o pretexto que seu corpo carrega e/ou estimula esses apelos. Essa nudez castigada e carregada de apelos eróticos construídos para o benefício da mídia termina equivocando a percepção da nudez artística tornando-a como ofensiva.
Os corpos nus da obra Corpo Livre não eram corpos vendáveis por um marketing ou mídia despertando no espectador um possível desejo de que seu corpo seja semelhante, pelo contrário, eles tentavam fazer com que as pessoas olhassem para si e questionassem sobre a liberdade do corpo em se expressar por meio da arte estando nu sem ser repreendido.
Os espectadores, acostumados com uma sociedade que banaliza o corpo ou o converte em espetáculo4, muitas vezes, não acham interessante quando os corpos
provocam questionamentos. O público quando se percebe perante espetáculos que provocam a ressignificação de ideias, muitas vezes, como agentes opressores daquilo que está sendo questionado não aceitam essas indagações. É como se a encenação fosse um grande espelho que mostrassem para eles fatos que, muitas vezes, eles incentivam ou fazem. Quando um corpo nu é visto em cena pode provocar um reflexo naquele indivíduo que assiste à apresentação, este irá ler a obra pelo seu histórico de vida e pode não aceitar aquilo que lhe é apresentado. Entende como ofensivo, como imoral, mas não se dispõe a entender qual é a razão da cena ou a questão que está sendo abordada.
A atriz Keila Campanelli comenta sobre o processo administrativo que a instauração sofreu e como isso repercutia nas pessoas. “As pessoas não queriam discutir, saber o motivo daquilo, o que ali estava em jogo. Não, o que havia ali era um pensamento raso, superficial, guiado por uma moral imposta, não havia pensamento
4 Refere-se a ideia que apontamos por Pires (2005) cujos corpos que vivem a narrar suas conquistas
físicas ou reproduzem a si mesmos realçando momentos realizadores e felizes por meio de aplicativos de relacionamento ou páginas na pela internet, como instagram e facebook. Corpos que vivem da aparência; que se concretizam por meio da exibição de uma realidade desejada por muitos.
crítico, havia uma repetição de opiniões generalizadas, sem espaço para o diálogo” (SILVA, 2017, p. 10).
Toda obra de arte busca algum tipo de diálogo com sua sociedade para com ela construir e rever significados sobre o assunto tratado, mas quando a sociedade não se abre para o diálogo resulta em um processo de opressão, no caso de Corpo Livre foi a instauração de um processo administrativo contra a criadora da obra.
O argumento usado foi que a nudez era desnecessária sendo ela classificada como um decoro do espaço e da ordem pública. A professora em pauta correu o risco de ser demitida da instituição e passou a sofrer intenso assédio moral e o grupo sofreu com os nichos conservadores da UFRN, mesmo depois de receber o resultado da comissão instaurada, sendo arquivado o processo; a saber:
A performance apresentada na data supra indicada (22 de março de 2013), em frente ao prédio do CCHLA, estava devidamente contextualizada como atividade artística, estando circunscrita a um espaço delimitado, sem prejudicar a livre circulação dos passantes; [...] A performance tinha o devido respaldo acadêmico, pois é resultado de longos anos de pesquisa de uma professora do quadro efetivo da UFRN, fazendo parte de um projeto de Ações Integradas iniciado em 2011 e contemplado em Edital de Extensão, [...] A proposta conceitual e metodológica do grupo coordenado pela Profa. Nara Graça Salles, devidamente embasada em correntes teóricas e movimentos artísticos reconhecidos, justifica plenamente a utilização da nudez na performance “Corpo Livre”, como forma de expressão contemporânea, fazendo particular referência a aspectos rituais, sagrados e míticos5.
Como podemos perceber no documento, o grupo trabalha com a percepção do nu com um caráter ritualístico, como anteriormente apontado, realçamos então que a nudez na obra estava contextualizada. Esse documento termina com uma declaração referente a nudez da obra. Observemos:
A presente Comissão considera, portanto, que não houve nenhuma irregularidade na apresentação da performance ora analisada, que foi concebida e realizada segundo critérios e com objetivos estritamente acadêmicos e artísticos, respeitando a ordem e o decoro em espaço público. Buscar outros significados para a nudez incluída nessa performance, seria descaracterizar sua proposta, fazendo intervir um juízo moral despropositado e, principalmente, incompatível com o espirito de liberdade criadora que a Universidade deve favorecer e
5 BRASIL. Decreto n. 23077.018551/2013-64, de 21 de maio de 2013. Dispõe sobre Processo de
estimular notadamente no âmbito das produções artísticas de seus professores e alunos6.
Algo que nos chamou bastante a atenção nesse documento foi a seguinte frase: “buscar outros significados para a nudez incluída nessa performance, seria descaracterizar sua proposta, fazendo intervir um juízo moral despropositado”. Essa associação da nudez para com outros significados que estão fora daquilo que a obra propõe é um dos maiores problemas que encontramos quando discutimos sobre o corpo nu na arte. Para ampliar a discussão sobre este tema iremos dedicar no segundo capítulo um subitem que intitulamos de a desconstextualização do nu, pelo qual, procuraremos aprofundar e analisar sobre como o nu é associado a outros significados retirando-o do contexto original da obra e como isso prejudica bastante os artistas e o meio artístico.
Todo o processo jurídico se deu origem no momento em que alguém entendeu os corpos nus em cena como um decoro da ordem e do espaço público. Todos os discursos de ódio perante a obra e os artistas dão origem na falta de entendimento daquilo que é apresentado em cena. Se pararmos um momento para pensarmos o quanto isso é frágil, o quanto podemos a qualquer momento sofrer com esses maus entendimentos ou o quanto podemos realizar isso perante outras pessoas ou obras. Cabe aos artistas, também, essa luta em evitar que suas obras ou demais tenham interpretações que repercutem em ofensas ou perseguições quanto a seu trabalho ou a sua pessoa.
Apesar de toda a perseguição contra o Cruor Arte Contemporânea, segundo Keila, houve um momento de solidariedade de outros grupos e pessoas ligadas a várias áreas que se solidarizaram com a situação. Assim,
Começou a surgir, vários grupos de teatro, dança, e outros setores, sensibilizados com a causa, começaram a enviar carta de apoio e foi surgindo um movimento bonito de apoio, de solidariedade, foi um momento que o grupo foi muito reprimido, algumas questões estavam sendo duras, e daí outras portas começaram a ser abertas, uma força começava a chegar com o apoio, a cada carta de apoio lida, o grupo mais se unia (SILVA, 2017, p. 10).
Essas pessoas entenderam qual a função da obra, qual o objetivo das cenas. O que ela queria levantar como proposta de diálogo. Esse apoio foi importante para que o grupo se mantivesse firme em suas convicções e na luta contra o processo administrativo.
O grupo entende e defende a ideia de que espaços públicos da universidade podem apresentar espetáculos com nudez com uma finalidade cultural de acordo com sua proposta de criação, isto faz com que o desnudamento apresentado não seja algo desnecessário ou algo criado para afrontar a ordem e moral pública.
O Cruor Arte Contemporânea ganhou o processo administrativo e o direito de realizar cenas com uma nudez poética dentro do ambiente acadêmico. A resolução do processo foi entendida que o corpo em cena não era erotizado e sim artístico e poético.
O documento permite ao grupo a realizar dentro da instituição qualquer trabalho com nudez artística, mas se outro aluno, mesmo do curso da graduação ou da pós-graduação em artes, realizar alguma apresentação com nudez e esta ser denunciada, o atuante em questão pode ser detido. Obvio que ninguém vai sair denunciando outro artista dentro das aulas, mas o processo permite o trabalho com a nudez para uns e ainda restringe para outros.
Não distante desse assunto, ainda gostaríamos de abordar o quanto a nudez artística é castigada em nossa sociedade e como isso muda a realidade do artista, para isso, faremos a seguir apontamentos da obra DNA de Dan. Entendemos que essa obra, além de pertencer aos recentes acontecimentos sobre o nu artístico no Brasil, teve acontecimentos diferentes desses que apontamos pelo Corpo Livre. Aqui abordamos sobre o nu ser repreendido dentro do próprio campo universitário. Com a obra o DNA
de Dan, abordaremos como a sociedade castiga quem realiza uma obra de nudez, pois o
artista desta obra chegou a ser preso e, em seu depoimento, aponta para o quanto as autoridades policiais estão despreparadas para entender a linguagem artística. Isso é um agravante quando vivemos em momentos tão conturbados politicamente que podem resultar na perseguição do nu artístico castigando-o ainda mais.
1.2 Nu castigado.
Como apontado, percebemos o quanto é frágil a relação em que o espectador pode entender de forma errônea uma obra artística com nudez resultando em um ‘castigo’ aquela corporeidade que se apresenta. Entendemos como nu castigado, esse que é associado a outros significados sendo motivo da criação de uma polêmica que visa apenas a proibição ou o discurso de ódio.
Os processos sociais de normatização têm como função disciplinar os sujeitos para a reprodução da ordem social. Para Foucault (1987) um corpo disciplinado pelo sistema social em que está inserido é um corpo dócil; este não só se apresenta dentro das normas e padrões sociais vigentes de sua sociedade, mas também educa outras corporeidades a obedecer uma norma social. Quanto mais disciplinado o corpo for mais obediente as normas sociais o indivíduo será e, portanto, mais dócil. Um corpo nu pode se apresentar como uma quebra dessa ordem social e, muitas vezes, termina sendo visto como algo indecente e/ou como uma afronta. Por isso, é tratado como algo ofensivo, punitivo e proibido inclusive por determinação de uma lei federal, o nu frontal público em qualquer situação está sujeito a punição, como previsto no art. 233, do Código Penal Brasileiro.
Nesse contexto, recentemente o dançarino e performer paranaense Maikon Kempinski, ao realizar uma apresentação da obra DNA de Dan na frente do Museu Nacional da República em Brasília, pelo SESC7 como parte da programação do evento
Palco Giratório; sofreu represália da polícia que classificou a apresentação como “ato obsceno” e, portanto, não pôde apresentar toda a obra e foi levado à delegacia de polícia. Em sua página social no facebook o artista declarou que
[..] a polícia militar mostrou-se despreparada e violenta para lidar com situações de arte pública, seja contendo nudez ou não. Por que eles insistem em resumir tudo a um ato obsceno? Eles não ouviram e não querem ouvir, eles só queriam nos submeter à sua lógica dura. E não cabe à polícia dizer o que é arte. Nem a mim, nem a ninguém. Mas cabe permitir que a manifestação aconteça. Caberia a eles terem esperado a explicação dos organizadores antes de se dirigirem à instalação e rasgarem a bolha para tentar me tirar à força lá de dentro8.
A lei é usada como forma de justificar que aquela nudez não deve estar exposta. Os agentes policiais não são educados a entenderem esse tipo acontecimento artístico, assim como a maior parte da população, mas a entenderem a cena como um ato impróprio e imoral. As associações são tão automatizadas que, em alguns casos, as pessoas não querem entender o que está acontecendo em cena. As pessoas passam na rua, veem de longe, alguns fotografam enquanto outros filma fragmentos da encenação,
7 Reportagem do site Correio Brasiliense sobre a prisão do artista durante a apresentação. Disponível em:
<https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/07/16/interna_cidadesdf,610075/artista-e-preso-durante-apresentacao-que-integra-o-palco-giratorio.shtml>. Acessado em: 18/07/2017.
8 Disponível na página pessoal do artista:
profanam suas palavras contra e vão embora. Entretanto, alguns outros denunciam aos agentes próximos e pedem providências. Esses agentes são alertados que tem um homem nu na rua, ou seja, a imagem fere com os princípios da moral social e com o código de leis vigentes, mas, também, eles não foram informados que se tratava de um acontecimento artístico. Dessa forma, eles partem para o local com uma urgência de resolver a situação, não de dialogar. Preferem não permitir que aconteça, justificando-se, com base na lei, e partem para uma opressão perante a obra e os artistas envolvidos. Em entrevista pelo site O Globo o artista complementa sobre a abordagem dos policiais:
Fiquei muito assustado. Já apresentava esse trabalho há três anos, e a questão da nudez nunca tinha sido um problema. Nunca tinha vivido isso e não esperava ser confrontado por policiais e preso. [...] Eu me senti violentado. Tive o cenário rasgado, um policial ameaçou me dar um soco no rosto e tive que gritar: “Não toca em mim!” Eles me deram uma chave de braço e me colocaram no camburão, sem meus pertences. Senti medo de apanhar, de ser preso. Na delegacia, fiquei uma hora virado para a parede, de pé, sem poder falar ou sentar. Fui tratado como criminoso, exposto e fiquei com medo de falar e de voltar a me apresentar (REIS, 2018, s/p).
Isso ocorreu no ano de 2017 que não possuía uma política tão opressora quanto essa que temos após as eleições de 2018. Pelo relato do artística fica claro que os agentes de segurança pública não estão preparados para lidarem com determinadas formas artísticas. A polícia por não compreender a arte ou não entender aquilo que está sendo feito artisticamente na cena termina reagindo de forma mais agressiva possível. Não dialogam com o artista e nem com os organizadores no momento da abordagem a obra. Apenas querem que aquilo acabe e se para isso for necessário usar a força assim o fazem.
É relevante acentuar que se instala um terror perante o acontecimento cênico, como não se incentiva buscar informações ou entender o ocorrido, a reação parte como uma defesa violenta. Como quem pensa “vamos proibir, vamos prender” e, dessa forma, o artista é tratado como bandido.
A nudez quando tratada como quebra da ordem pública, tanto na obra do
Corpo Livre quando em DNA de Dan, parece, pela nossa análise, que cria uma urgência
naquele local que o ato precisa ser retido pois as pessoas ali estariam sendo humilhadas. Não existe uma forma ou lei que garanta que aquela nudez em cena seja entendida como elemento artístico. Essa associação é subjetiva e de responsabilidade a todos aqueles