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Carlos frederico Marés ele Souza Filho**:
1 - A cidadania do~ índios
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conceito de cidadania, corno todo cbi1ceita jurídico, tem que ser entendido dentro de urna· sociedade dE_
terminada e·de uma época detérminada: I: impossível entender o
que é ser cidadão sem entender o .que é o Estado mo de r namen t e- co n .
cebido·. -
i
cidadania é a ligação política e· juríc{i'ê::.a das pessoas .com o Estado ( L}. Ne s s a ligaçZio há um eLçnc'ó dê d i r e i t o s e deve-:
. . 1
res que obrigam individue e Estado e ~~dividuo entre si. Destes;
. assume uma importincia defi~itiva º:~~ver de iespeitar e ver rc~
peitadas as regras do Di~eito Privido, isto é, as regras de.rela
cionarnento ~ntre as pessoas. Os cidadãos se obrigam entre si a
respeitar as normas e conceitos inerentes ao regime de propried!
'de, de familia, de sucessão e de contrato e ainda as normas de
cornpqrtamento exigível pelo Direito Penal.
Na tentativa de confeituar o termo ci~
dadania , jã nos dcpàramos ~om quase intransponiveis problemas
para aplic5-io ~o Índio. O conceito de cidadania se vi11cula ao
conceito de Estado, e mais.do Estado concebido a partir do s6cu-
lo XVIII. ·A· sociedade indígena, em contrapartida,
6
umi socieda-de tribal, onde o conceito de Estado moderno não tem cncaiie,não
te~ sentido. Por outro la<lo, as regras e concejtos de pr6prieda-
de, de família, . sucessão e contratos,
.
assim como o sistema depena~ e sua aplicação, são radicalm6nte diferentes numa socicdJ-
de indígena qualquer e numa s~ciedade capitalista como a nossa.O
fato de qualificar um í11di6 de cidadão brasileiro, igual aos d~-
mais, nâo modific~ os conceitos.de sua sociedade, nem altera sua
forma de ~iver e de se relacionar com o mundo, com o seu mu~do.
t6rica, adota no texto
solis. Basta n~scer em
O Bra~il, seguindo j5 uma trãdição hi~
constitucion~l vigente o critério do i..l!.~
teriit6rio brasileiro para ser cidadão
brasileiro; o nascimento no Brasil~ razão suficicrite. para .a
aquisiç~o <la cidadania brasileira, exceção feita 5s pessoas nas-
.cidas de pais estrangeiro a serviço de seu país no Brasil. A~ci~
dadania, ou. nacionalidade, como chama o texto constitucional, 6
adquirida tamb6m por aqueles nascidos forn do Brasil,· cujos pais
sejam brasileiros
a
serviço <lo pais no estrangeiro ou, não.est~11. .
-
1.: .
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2.
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do os pais a serviço <lo pnís, sejam registrados cm rcpartiç~es
brasileiras no exterior ou, ainda, venham a residir no_ Brasil a~
tes di c~mpletar a maioridade. Pode-se ainda adquirir a-cidada
nia brasileira pelo pricesso· chamado naturalização .
. O índio, portinto, pelo simples fato
de ter nascido no Brasil, ~ cidadão bra~ilciro, nio
s6
perante ulei, mas perante a comunidade internacional que reconhece a defi
nição estabelecida na lei brasileira.
-
Poder-se-ia argumentar que·a situaçãodos Índios~ id~ntica i de-qual~uer pessoa nascida no Brasil,, de
pais estrangeiros, cujo país de-origem adota como crit~rio bãsi-
co de determinação de nacionalidade o jus sangui11is. Estaríamos
perante uma situação de dupla nacionalidade. A diferença esti em
que essa pessoa optari por uma ou outra nacionalidade ao atingir
"-".
a maioridade, e sua opção serã reconhecida pelos dois pafses e
pela comunidade internacional. O que não €ocaso dos índios
Para a existência jurídica desse conflito de nacionalidade, e
mister que a lei reconheça a existência de uma e outra nacionali
dade. O Estado brasileiro, a Lei brasileira e a comunidade inter
nacional não consideram as nações in~ígenas como nações, p6rque,
alim de sobreposição territorial, esti ausente nelas a sua forma
mo dc r n a de organização: o Ils t a do . Por isso, nà o há c on I'I i t o , ou
melhor, não se admite juridicamente a ex í s t êric í a desse conflito.
Esse desconhecimento da lei brasileira pelo conflito esti exprc~
sono artigo 19, parigrafo Ünico, da Lei 6.001/73 - Estatuto do
fndio - , que, ao se referir
a
aplicação da lei brasiteira em relação aos índios, diz que ela se aplica nos mesmos termos que aos "demais nacionais". (2)
-
Embora cada indio seja juridicamente
um cidadão brasileiro, o seu modo de pensar, de relacionar-se
.
.
com o mundo, de entender-se consigo mesmo e com os outros homens,
em suma, o seu modo de viver, não 6 determinado pelo conceito j~
rídico que dele faz~ Estado brasileiro, mas por sua inserção nu
ma comunidade que tem seus pr6prios valores, cristaliz~dos e re-
produzidos por sua ação. Portanto, i ·sua condição de c~dadão br~
sileiro, se agrega outra, fruto de sua realidade·social, muito
mais profunda e importante para sua sobrcviv~ncia hist6rica: a
de ser membro de uma nação indígena.
.
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Por ser considerado um cidadão como os
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3.
"demais brasileiros", o índio adquire "to<los os direitos e gara~
tias legais'', mas a pr6pria lei brasileira (aliis, o ·pr6prio ter
mo "demais brasileiros") reconhece uma diferença entre o comum
dos cidadãos e os índios.
Essa definição da lei, essa tentativa
de igualar os . Índios ao "d ema is _bras i 1 ei ros ,; , não deve ser en t en
<lida como mero gesto altruísta do Estado na busca da integração
d0 "povo brasileiro", mas trata-se de não reconhecer as nações
indígenas~ seIBterrit6rios e, e~ consequ;ncia, impedir que as
nações se autodeterminem e imponhem o ritmo e os m~dos de desen-
'
volvimento dentro de seus territ6rios. Trata-se\ em veT<lade, n~o
de reconhecer o Índio como ~idadão brasileiro, mas suas terras
como territ6rio brasileiro e, via de consequência, pela aplica -
ção do dispositivo constitucional antes citado, a negação Ja
existência de naç6es indígenas capaze~ de atribuir cidadania a
's e u s nacionais.
II - Os fndios·e o Direito Nacional
O Direito Internacional, ou melbor, a
comunidade internacional dos Estados modernos, por sua pr6pria
esirutura colonialista, não admite a existência de um territ6rio
sem o correspondente controle de um Esta~o organizando minimamen
te segundo·os p~dr6es internacionais. Mesmo as regi6es desabita-
das da Ant5rtica estão sendo objeto de divisão· entre os países
organizados. Por isso, não~ recohhecida a id&ia de um territ6
rio ~ais ou menos definido (ou definido com outros crit~rios)
envolvido por uma país sobera1~. mas que não tlceite essa sobera-
nia. As raras, miniisculas e economicamente insignificantes exce-
çoes apena~ confirmam a regra: alguns territ6rios indígenas nor-
te-americanos, pequenos condatos europeu, colinas transformadas
em repiiblicas etc., que não s6 niio aparecem cm Atlas escolares ,
como não t~m assento nas reuniões internacionais, sendo seus in-
teresses representados pelqs países ·envolventes.
Todas essas exceç6es, por~rn, guardam
uma distiincia enorme com os territ6rios indígenas localizados no
Brasil: assumem dimensões avantajadas, maiores do que países í n-
t e i r o s , m a s , 111 a i s i m P o r t a n t e q u e ,1 <l i m e n s ii o , a · g r a n <l e. , d e f i n i t i -
va diferença cst5 no potencial econõmico. Os índios, no Brasil
•
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4 .
vivem cm terras f~rteis, cobertas de valiosas madeiras, cujo so~
solo, rios e encostas cobrem as maiores reserv2s minerais brasi-
leiras, al~m do cnorQe potencial hi<lrel~trico de suas quedas
d'f
gua. Num mundo onde o homem; capaz da mais ign6bil vi~l6ncia
co~tra outro homem para apossar-se de.um simples adorno de ouro,
passa a ser at6 justificãvel a atroz viol~ncia contra povos in -
teiros e indefesos para se apossar de jazidas, madeiras e terras
férteis.
A Convenção 107 da OIT (Organização
Internacional do Trabalho). (3) estabelece conceitos claros que
1
fixam a proposta colonista de njo permitir a autodeterminação
das popu Laç ó e s indígenas e tribais (como são ch ama da s no d o cumc n
to). Ironicamente, garante is populações indígenas e tribais a
conservação de seus costumes e instituições, d e sde que "não se -
jam Ln c cmp a t i ve i.s com o sistema jurídico nacional .ou os o b j e t i
'vo s dos p r o g r ama s de integração". (4) Isto significa, na prática,
reduzir as nações indígenas a povos conquistados, cujos direitos,
riquesas e culttira devem estar submetidos aos interesses dos con
quistadores.
E
de tal forma claro o caráter colonialista da con-venção 107 da OIT, que ela se compatibiliza com a Lei-Brase · n9
16, da fase áurea do c o Lo n i a ti smo português, que dá competência
aos gpvernado~es das col6nias para dirigirem as relações com os
· chefes inJigcnas para conseguir,. por meios pacíficos, a sua sub-
missão, como se a submissão em si não fo~se uma ~iolência. (5)
Na constituição de.um Estado está a
dcfiniç5o de seu territ6rio, que eventualmente se conflita com o
vizinho, também Estado. Esse conflito, como o conflito de cidada
nia, s6 ~ reconhecido internacionalmente se se der entre dois Es
tados reconhecidos na comunidade internacional:fora disso, o con
flito n5o existe. Assim, os conflitos dos territ6rios das na
ç6es indigenas com o territ6rio brasileiro não existe~ para a
comunidade internacional nem para a lei brasileira, são proble -
mas de terras, cuja ·discussão internacional pode ser consideráda
intromissio em assuntos internos.
1~
Essa ~ituação exclui, portanto, qual -
quer possibilidade de haver tcrrit6rio indígena aut6nomo e in<le-
penden te , s cm que í me d í a t arne n te· houve s s,e a in s ti tu iç ão d e um Es.:..
tadi ou que outro país o tomasse como protetorado. A ''rccompcnsj'
que as nações indígenas recebem cm troca de sua submissão é a
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proteção interna e externa. Internamente, seus·membros passam a
figurar na categoria de cidadãos brasileiros, senhores· de direi-
tos e deveres; dentre os direitos, a tutela estabecida·no C6digo Civil e reguJamentada no Estatuto do !ndio. Externamente, sendo cidadãos brasileiros e vivendo em terras brasileiras, ~stão pio-
tegidos c?ntra invasões e~trangeiras por mar, terra e ar, salvo,
evidentemente, se se tratar de um rendoso investimento que inte-
resse ao Estado, Nação ou governo brasileiro.
Essa situação traz consequijncias jurí-
dica~ muitas vezes anômalas,. co~10 é a tutela indígena, acima re-
ferida, e a posse indígena: dois institutos que , se inserin\io
nos conceitos gerais da tutela~ da posse civis, ~eles se distan
~iam por tão especialíssimas características que chegam a contra
dizê-los. ;~ :~
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~ ~ li.,! ~ o 6J.IJ. Os Índjos e n Tutela
O í us li tu to e i vi 1 da t u t c La , orf ano Log í.c a , gc r-a L, vb.li-
do para todos os cidad3cs brasileiros, tem como principal caract~
ristica a proteção,
ª.
defeso. daqueles que a lei c on s í.do r-am ma í.sfracos1 vulncrivcis. Par~ o cxrccÍcio dessa proteç5o cria a fi~u-
ra do tutor, que por sua vez~ cont~olado pelo Estado para que a-
~ a sempre er.i de f'e s a do t.u t e Lado , Ib tutela indigcna, p o r-em , o tL:.-
-1 , ,
tor e o proprio Es t a do , que e s t a ob r í.g aco a a6ir s crap r-e cm dc f e s a
do 11bem C0r.1Uffi111 QUC nno raras vezes
é
contrário é:1.0S interesses do~Índios tutelados. Esta tutela nern s cmp r c pede ser exerci da n a Llc-·
fesa do interesse do tutelado, portanto. Vamos .un~li~nr ~ai~ de
perto a quc s t ao do interesse. Er;1 g c r-a L o que s·c CS,.)Cl'2.. elo tutor
é
que p r-o t e j a , man t o ndo ou auucn t ando , o patrü.Ô::l0 C:o tutc:l.éh.:.0 •"'OS '~GVO" l0'1'''~c·1~.,., 11'.:;ú;., O uui.re n t o '1<.-, n,,,.,,;,.,,,_
•...•.. .t"' o.J .1. 1...1..6 l <...o..J c., •..•. u .. t:;;i.~ 1,.. '-" rt...'-'• ...1. •• ,v
n í.o que garante a boa t u t c La . Os povos incligcno.::;. tc;;1 ou t r-o., '1L;.l0-
r-e s , dc sccnnc cn a propriedade p r-Lv a d a CD. ac ur.u Lc.ç ao de b c n c , C
seu patri~~nio n~o se Dede cm valores ~onct;rios ou financeiros,
,'(e c u Lt ur-a G.-. l · ' ex.a ,. •.. ~ '.- t ame n C-41, l t V e p o r ' ,._ 1· ~ s t _. o a t t 1.., u t l, e l ~ C.... a
•
zendo, o sistema ju~ídico Cc ~rote~io aos 1.11\.-1.~ ,, .
.
GS- ~C\i~ .tado para a defesa dos valores ~tnicos do~ pcv0u tutc:l~~cs. ~~r-
tanto a t u t t e La ou iJrotc,;ó.o ~.,e reveste de ou t r au t.;U.:.tlidLH.:.t.!:::.; ,.:'..:i ·_,::i_
diferentes 0.:::.s elo. tutelo. civil, r.ia s e s t a d í f e r c nç a r.unc a !:-:..,i ci.tc:n
e, por isto, tê::1 cx e r-c í do urna tutela :'u:1csta1 c o.; rari.c e: L:i~:.i:i-
c an e.." t e s .. ..:) CXCC,.._;::::,,,r .• '";f....,t;:aJ• .• 1~ p.-, ve r-duc;c ~ C;•..••.• ~.... 0t··,, t u t c La ~ t -·· er.i r.:i ...., __ 11() U"''"' 1·,,•-,-,1 ·, !.,e.;.-~\...._. -Ór- -'· , ··-
Çu<.1nc:o, e!~, lSlG, o CÓdit;o C:i.vil J~fi:1iu os ir:·..:ios CO!::o
r-c La t Lvamc n t.c i1:c:~;.>:_tz(;:..; p.:.,r~: a ~or5.Li C<-L de c c r t o s o t o c GU ; 1;1.:..t:,·..:i-
r a de e x e r-c c= Lo s , ei.: seu ar-t í.j;c G º, o fez e O u.t ,.. 1· " "' · , :. \' .1--,t,<.Ã. e 1 l-, L.. o ,, e... i , ' ,.. -... • \.. e ,..., - • •
ção tendo c:-.1 v í s t a o. p r-o t eç ao elo inci vi duo ir~:.:io. Aj..,cnc:.s e:-:1 1~·72,
c oi.. a cdiçno c2c :=stn.tuto Jo Íi1C.i.u =Le í C.001/73-
b
q uc o r-:Ji.:;it.:ctutelar e e e n t e nde u
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c omun í d a d e a indi[;Cll<:15. ( G).t.o c s t c nd c r 6. t u t.c Lu às
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e oc.un.í (la.(l e s i r:C. j.:_;c11~s, o. ::. e j
ac eri t u a a c.lÂ..:' e r·<..:r~; ~~ ,~ ;·: j ;:, t c11 ~t~ e:r: t r~ <..i µ r-o t:~ ç ;e,, ! ie e e e Sü. r- i .st ~e s ~ r'.:2_
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oportuno rcn~in~ar que n Uni;o cnqu~nto talnão~uficientc .í ndcpc n .. ctênci,+Jm·a. ag í r- e.Ce t Lvamen t e e orno tutora
no sentido que a lei civil o c~tiµula; asua estrutra ju~Ídica,
sua o r-g anã z aç ao h Le r-qu í z ad a , s ua aubn í s sjic ~ lei e no Ln t c r-e s s c
pÚblico dificul ta:.1 a a s s í stência tutelar. A e xpc r-Lcnc í o. 'destes
lOn[;OS ano s d e tutele. têr.1 d e: rcn s t r-ado que: c e t e í nc t ; tuto civil d'.'.::
proteç;o, ~uando exercido µelo estado ac~ba sendo artigo de o~re~
,sn.o, o spc c La Lacn t e quando a tutela pé..!.::;::;(, u. c e r cxc rc í do s ob r-c co-
letividades ou pessoas jurl~icas, cora mais r az ao
-
air:c.& quando se~rata deu~ povo o tutelado.
Entretanto, temos. que distinguir duc s c o i s a s que a Lc l
1
J _ , ,
G.001/73 veio confundir,~ i~ca~acidade relativa ~i~dividuo in~io
e a tutila sobre os povos il1c:igcmo.s. O i.:: r-o f'un do ale é.!.11ce e. e ;.:, r e:, t; ~ -
v í.L n::::O p .• CÃ. od e dc u V í .r~C.... x ar- r'c-. c x í s t í.r- ,,.,,~ 'i)el~'"'S :,-,-,. 'l .. ,,.,.,,..,.,.c"".c-· .·,'•;º·~
1-lt.\.. ~lrr,, ~l,- J ,,,e;;..;.:, c..l~ j.(...., J;-"'C.l.i ~ e.:=.> '-1 ~ ~l.,' ...:, '-'.!. ---.J
e que d í.g ai.; r-e spc í t o C! r-c a Lí z aç ao d8 ncgoci<?s Lr.d í v í du a í s e, t.dn-
da •... s s í rr , a tutela ne c c c e a r í.a se deve fo.:ccr c oi.io c;u:..:.:'..c;·..:cr· üu~r::.
ocorrência e e f nc ap ac í dac c , por tutor ;;crson;_tli..:.:.tc.:o su j e í to 2..0
c on t •... r o I.c tu r ~'-.,; J -~\...o..1\...-'J!.~ í e c í c í o» .. - • 1 .~.J.tl· \ •- u.._\.. ,, .. , > r---V i1'·1~qL1:- .- i,-,.~,, ,.11...1...:>-c.., ~ ,, v,_,,~···- ,·,·J,-;- ..
--7'.r
~ - r-'-·..1..- ...., __ ._ .. ·,,-,,i'·1···- ,L: !'.:: i e,;·::~ l< :~ e so:.i re t oüo s
está ligada
à
concepção de provisoriedade dos povos indígenas, quedeixam de ser tutelados na medida em que forem sendo integrados a '
comunhão nacional, isto
é,
na medida mesma em que deixem de ser lndios. Esta
é
a Única leitura póssivel do artigo 72 e seus parágra-fos, da Lei 6.001/73.
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1w' (> 8gide da nova Constituição é inaceitável ••
A incapacidade relativa dos individuos Índios. porém. es
t~ perfeitrunente recepcionada pela nova ordem jurídica. O redonhe-
cimento desta relativa incapacidade individual
é
perfeitamente co~patível com as diferenças de identidade cultural expressas no tex-
to constitucional. Aliás,
·é
bom que assim o seja, porque a tutela,neste caso,
é
uma garantia -aos Índios enquanto pessoa fisica- dereciprocidade negocial por disporem de uma assistência para escla-
rer o alcance dos·negÓcios propostos e consumados. É apenas uma ga
rantia contra o logro de não-Índios inescrupulosos que desejam se
locupletar com sua ingenuidade. Êste
é
o instituto civil da tutela,1
perfeitamente compatível com a Constituição federal. O que não
é
•
compatível, e nunra o foi,
é
a utilização deste instituto pela aut~ridade brasileira no sentido de limitar a liberdade individual dos
Índios, ou mascarar a sua diferença cultural. A FUNAI quando res-
tringe a circulaçio, o exercicio de profissão, irnp~e nomes, difi-
culta a expedição de documentos pessoais, na qualidade de tutor 1~
gal1está claramente cometendo abuso de poder e assim
já
tem enten-dido os Tribunais brasileiros, que n~o tem deixado de dar guarida•
aos reclamos até ali chegados (ocas~ Juruna é exemplar) .
Outra coisa completamente diferente
é
a tutela a povos .E'sta não está recepcionada pela nova Constituição nem era acei-
ta pelas anteriores. A Corrs t ít.u í.ç ao de 1988 é, porém ,merididanar.ie~
te clara ao não aceitar este confusionismo colonialista. E isto
porque sem qualquer meias palavr~s, reconhece a organização social,
os costumes·, 1Írguas7crenças ·e tr~diç;es indígenas, além dos di-
. , ( 7.) -
reitos originarias sobre_ suas terras,·artigo 231 . Mas nao ape-
nas neste artigo, a Constituiçio brasil~ira, seguindo a tradição
constitucional 0acional se baseia nos principias da autoderminação
-
-
.
-
dos povos, da nao intervençao e da e da integraçao dos povos. e es-
tes principias são incompatíveis com a idéia de tutelar povos, que
se,undat~oncepção colonialista do mandato e do protetorado, eufemis
mos da submissão .
.Por Último, tenh~ ouvido mais do lido, embora esteja es-
crito no livro de Wolgrau Junqueira Ferreira (O) a id~ia de que a
- (<a) , ,
Constituiçao em seu artigo 232 revogou a tutela instituída no Codi
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.V ~ () 9des. Parece-me absurda e sem fundamento a posição. Est;,ãô. aquele co-
mentarista e os int~rprete~que me tem dito da não recep~ão da tute
la pela nova Constituição confundindo capacidade civil com legitim!
dade processual. Até mesmo os absolutamente incapazes têm legitim!
dade processual, mas, ao contrário, aquele que não demonstre inte-
resse no resultado de uma ~emanda não te~ legitimidade, ainda que
sua capacidade civilseja incontestada. o.que a Constitução neste
artige garante
é
a legitimidade processual aos Índios para agiremem seus nomes, como qualquer cidadã~, e em nome dos direitos cole
tivas indígenas; garante também a legitimidade proces~ual às comu
nidad~s indígenas ainda que.não estejam registradas segundo os
preceitos da legislação civil como pessoa jurídica de direito
privado; são legitimas como parte para postular em juizo, ainda,
as organizações· indigenas (UNI, as organizações r-e g í oria.í.s , _etc,)
para a defesa dos direitos e interesses indígenas. Desta forma
não tem a nada a ver o artigo 232 da Constituição com a tutela ins
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! "-' 1 ._... ' 1 r..., 1 ~· 1.. . o 10 NOTAS(1) Haroldo Valad5o, ''Vinculo político, apropriado ao nacion~l
no gozo dos direitos políticos''; em ~nciclopfdia de Direito Sa
raiva, v. 14, p. 338.
.
(2) A íntegra do artigo 19, parigrafo Gnico do Estatuto do fn- ·
d1.o: "Aos· Índios e às comunidades indígenas se estende a pr~
teção das leis do País, nos mesmos termos em que se aplicam
aos demais brasileiros, resguardados os usos, costumes e tradi
ç6es indígenas, bem como as condições pecu~iares reconhecidas
nesta Lei".
(3) O Decreto n9 58.824, de 14 de julho de 1966, pron1ulgou a
Convenção 107 da IOT sobre as populações indígenas e tribais.
{4) A íntegra do artigo 79 da Convenção 107:
"l. _Ao serem definidos os direi tos e obrigações das popuJ ações
interessadas, será preciso levar-se em conta seu direito costu
me iro.
2. Tais populaç6es poderão conservar seus costumes e institui-
ções que não sejam incompatíveis com o sistema jurídico nacio-
nal ou os objetivos dos programas de integração.
·3. A aplicaçüo dos par5grifos precedentes do presente artigo
não dever5 impedir que os membros daquelas populações se bene-
•
diciem, ·conforme sua capacidade individual, dos direitos reco-
nhecidos a todos os cidadãos do país e de assufuir as obriga
çoes c or r e spon den tes".
(5) Diz.a íntegra da Lei~Base n9 16:.
''Compete aos governadores
.
das colônias dirigirem as relações .políticas ~om os chefes indígenas e agrupamentos sub sua depe~
d~ncia, de modo a poder consegui~ por meios pacíficos a sua
submissão e integração na vida geral <las colônias''.
(6) D~z a integra do artigo 72 da Lei 6.001/73:
110s ~ndios e as comunidades indigenas ainda nio integrados
~ co~unh;o nacional ficam sujeitos ao regime tutelar esta-
belecido nesta Lei.
§ 12 A~·rceimc tutelar estabelecido nesta Lei aplicam-se no
que couber os princípios e as normas da tutela de direito
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legal, bem· como da pres.
-
tação de cauçio real ou fidejuss~ria.
§ ~2 Incube a tutela
à
União, que a exercer~ atrav~s do comp~tente Órgão federal de assistência aos silv:i.colas.11
(8) - FERREIRA, Wolgran J~nqueira. Comentários
à
constituição de·1988. 3 vol.
são
Paulo, Julex ,. 1989.(9) Diz a Íntegra do artigo 232 da Constituição Federal de 1988:-
110s
:r.ndios, suas comunidades, e organizações são partes legi-
t_;i.mas para ingressar em. j'uizo em defesa de seus direi tos e
interesses, intervindo o Min~sterio P~blico em todos os atos
do processo."
* o presente texto é a versão atualizada e amplia~a do ensaio
11A Cidadania e os 1ndios
111 publica no livro O 1ndio e A Ci-
dadania, em 1983, .Brasiliense, São Paulo.
** Procurador do Estado do Paraná
Mestre ern Direito Público pela UFPr
Diretor Técnico do Núcleo de Direitos Indígenas (Brasília)