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T H E B E S T O F A M Á L I A R O D R I G U E S

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Academic year: 2021

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T H E B E S T O F

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1. FOI DEUS

Seria possível fazer uma escolha

do "melhor de Amália" sem incluir

este fado de Alberto Janes que se

tornou num dos seus ex-libris?

"Não sei, não sabe ninguém porque

canto o Fado neste tom magoado de

dor e de pranto… Foi Deus… deu-me

esta voz a mim.

"

Letra e música: ALBERTO JANES RAUL NERY, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Gravado a 23 de Março de 1952 nos estúdios Abbey Road, em Londres

Edição original: Setembro de 1953 — 78 RPM Columbia DL 142

Não sei, não sabe ninguém Por que canto o fado Neste tom magoado De dor e de pranto E neste tormento Todo o sofrimento Eu sinto que a alma Cá dentro se acalma Nos versos que canto Foi Deus

Que deu luz aos olhos Perfumou as rosas Deu oiro ao sol E prata ao luar Foi Deus Que me pôs no peito Um rosário de penas Que vou desfiando E choro a cantar E pôs as estrelas no céu E fez o espaço sem fim Deu o luto às andorinhas Ai, e deu-me esta voz a mim Se canto

Não sei o que canto Misto de ventura Saudade, ternura E talvez amor Mas sei que cantando Sinto o mesmo quando Se tem um desgosto E o pranto no rosto Nos deixa melhor Foi Deus

Que deu voz ao vento Luz ao firmamento E deu o azul às ondas do mar Foi Deus

Que me pôs no peito Um rosário de penas Que vou desfiando E choro a cantar Fez poeta o rouxinol Pôs no campo o alecrim Deu as flores à primavera Ai, e deu-me esta voz a mim.

2. OS MEUS OLHOS SÃO DOIS CÍRIOS (FADO MENOR)

Inicialmente conhecida como "Fado Menor", só em reedições

posteriores esta faixa assumiu o título "Os Meus Olhos São Dois

Círios" para distingui-la das dezenas de letras com que já se

gravou o Fado Menor (a própria Amália o cantou com outras

letras diferentes). A versão que aqui escutamos foi registada nas

lendárias sessões de gravação nos estúdios de Abbey Road,

em Londres, que iniciaram em 1952 a ligação da Artista à Casa

Valentim de Carvalho -- Amália tinha então 32 anos, 13 de

carreira e gravara com pouca frequência desde meados

dos anos 40.

Letra: LINHARES BARBOSA

Música: FADO MENOR arr. SANTOS MOREIRA RAUL NERY, guitarra portuguesa

SANTOS MOREIRA, viola

Gravado a 23 de Março de 1952 nos estúdios Abbey Road, em Londres Edição original: Junho de 1953 — 78 RPM Columbia DL 139

Os meus olhos são dois círios Dando luz triste ao meu rosto Marcado pelos martírios Da saudade e do desgosto Quando oiço bater Trindades E a tarde já vai no fim Eu peço às tuas saudades Um Padre Nosso por mim Mas não sabes fazer preces Não tens saudade nem pranto Por que é que tu me aborreces Por que é que eu te quero tanto És para meu desespero Como as nuvens que andam altas Todos os dias te espero Todos os dias me faltas

CD

1

3. MALMEQUER PEQUENINO

Outra das gravações de Abbey Road que,

realizadas em Março de 1952, seriam

publicadas em discos de 78 RPM ao longo

dos 18 meses seguintes. Trata-se de um dos

clássicos de sabor popular que Amália criou

na primeira fase da sua carreira.

Letra e música: RICARDO BORGES DE SOUSA RAUL NERY, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Gravado a 23 de Março de 1952 nos estúdios Abbey Road, em Londres Edição original: 1952 — 78 RPM Columbia DL 137

O malmequer pequenino Disse um dia à linda rosa Por te chamarem rainha Não sejas tão orgulhosa Papoilas que o vento agita Não me canso de vos ver Há lá coisa mais bonita Que ser simples sem saber Por te amar perdi a Deus Por teu amor me perdi Agora vejo-me só Sem Deus sem amor sem ti Aquela mulher pecou Por amor se fez fadista Tão longe o fado a levou Que Deus a perdeu de vista

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5. NÃO É DESGRAÇA SER POBRE

Outro dos grandes clássicos criados por Amália,

atribuído àquele que foi o seu violista privativo

durante muitos anos, Santos Moreira. A versão

que aqui escutamos é uma das mais notáveis de

entre as várias que realizou e data igualmente das

sessões de gravação nos estúdios de Abbey Road.

Letra: NORBERTO DE ARAÚJO

Música: FADO MENOR DO PORTO, arr. SANTOS MOREIRA RAUL NERY, guitarra portuguesa

SANTOS MOREIRA, viola

Gravado a 23 de Março de 1952 nos estúdios Abbey Road, em Londres Edição original: Setembro de 1953 — 78 RPM Columbia DL 142

Não é desgraça ser pobre Não é desgraça ser louca Desgraça é trazer o fado No coração e na boca Nesta vida desvairada Ser feliz é coisa pouca Se as loucas não sentem nada Não é desgraça ser louca Ao nascer trouxe uma estrela Nela o destino traçado Não foi desgraça trazê-la Desgraça é trazer o fado Desgraça é andar a gente De tanto cantar já rouca E o fado teimosamente No coração e na boca

4. HÁ FESTA NA MOURARIA

Amália rende homenagem ao grande

Alfredo Marceneiro. "Há Festa na

Mouraria" descreve a tradicional

procissão da Senhora da Saúde por

um dos bairros sinónimos do Fado e

foi por quatro vezes cantada em

estúdio por Amália. Aqui

encontramo-la numa raríssima

gravação da década de 50.

Letra : GABRIEL DE OLIVEIRA Música: ALFREDO DUARTE (MARCENEIRO) RAUL NERY, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Edição original: Julho de 1985 — LP Columbia 2606923 "O Melhor de Amália: Estranha Forma de Vida”

Há festa na Mouraria É dia da procissão Da Senhora da Saúde Até a Rosa Maria Da Rua do Capelão Parece que tem virtude Naquele bairro fadista Calaram-se as guitarradas Não se canta nesse dia Velha tradição bairrista Vibram no ar badaladas Há festa na Mouraria Colchas ricas nas janelas Pétalas soltas no chão Almas crentes, povo rude Anda a fé pelas vielas É dia da procissão Da Senhora da Saúde Após um curto rumor Profundo silêncio pesa Por sobre o Largo da Guia Passa a Virgem no andor Tudo se ajoelha e reza Até a Rosa Maria Como que petrificada Em fervorosa oração É tal a sua atitude Que a Rosa já desfolhada Da Rua do Capelão Parece que tem virtude.

6. DÁ-ME O BRAÇO ANDA DAÍ

Uma das raridades da carreira de

Amália -- um dos poucos temas que a Artista

nunca voltou a publicar, e que desapareceria

do seu reportório. De tal modo que esta é a

única gravação de estúdio conhecida do

tema, que, mesmo em discos ao vivo, apenas

surge no registo de "Amália no Café Luso",

realizado em 1955 (dois anos depois

desta gravação).

Letra: LINHARES BARBOSA Música: JOSÉ BLANC JAIME SANTOS, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola Gravado em Fevereiro de 1953 em Lisboa

Edição original: Novembro de 1953 — 78 RPM Columbia DL 146

Dá-me o braço anda daí Vem porque eu quero cantar Cantar encostada a ti Sentir cair raios de luar Cantar encostada a ti Até a noite acabar Vê que esta rosa encarnada Me faz mais apetitosa Somos três da vida airada Ao pé de ti sinto-me vaidosa Somos três da vida airada Eu, tu e mais esta rosa Quero sentir o prazer De passarmos lado a lado Ao lado dessa mulher

Que tens agora e não canta o fado Ao lado dessa mulher

Com quem me tens enganado Depois bate-se p'ras hortas Adoro esta vida airada Beijar-te fora de portas E alta noite à hora calada Beijar-te fora de portas E amar-te à porta fechada

7. FADO DO CIÚME

Um dos clássicos que Frederico Valério,

o primeiro compositor a reconhecer em

Amália muito mais do que apenas uma

fadista, escreveu propositadamente para

a sua voz; no caso para a opereta

"Rosa Cantadeira", grande sucesso de

público em 1944. O tema tornou-se

rapidamente num êxito, embora a Artista

nunca tenha gostado da letra de Amadeu

do Vale… Esta é a terceira gravação de

estúdio do tema por Amália, mas a

primeira realizada para a Valentim de

Carvalho, em 1966, com acompanhamento

orquestral conforme à versão original.

Letra: AMADEU DO VALE Música: FREDERICO VALÉRIO Orquestra sob a direcção de JOAQUIM LUÍS GOMES

RAUL NERY, guitarra portuguesa Gravado em Abril de 1966 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Outubro de 1966 — EP Columbia SLEM 2242 “Fado do Ciúme”

Se não esqueceste O amor que me dedicaste O que escreveste Nas cartas que me mandaste Esquece o passado E volta para meu lado Porque já estás perdoado De tudo o que me chamaste Volta meu querido Mas volta como disseste Arrependido De tudo o que me fizeste Haja o que houver Já basta p'ra teu castigo Essa mulher

Que andava agora contigo Se é contrafeito Não voltes toma cautela Porque eu aceito Que vivas antes com ela Pois podes crer Que antes prefiro morrer Do que contigo viver Sabendo que gostas dela Só o que eu peço É uma recordação Se é que mereço Um pouco de compaixão Deixa ficar

O teu retrato comigo P'ra eu pensar Que ainda vivo contigo.

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8. BARCO NEGRO (MÃE PRETA)

"Barco Negro" ajudou muito à popularização

internacional de Amália. Trata-se não de um fado,

mas de uma versão de um tema brasileiro

("Mãe Preta") com um novo poema feito para a

voz de Amália, que criou "Barco Negro" no

filme "Os Amantes do Tejo", rodado parcialmente

em Lisboa em 1954. Nele a Artista tinha um

papel secundário, interpretando a "Canção do Mar"

de Ferrer Trindade (com uma letra nova e sob o

título "Solidão") e este "Barco Negro" que correu

mundo. A gravação editada em disco

simultaneamente com a estreia do filme é a única

que Amália fez em estúdio do tema, se exceptuarmos

uma versão em italiano -- "Ay Che Negra" -- gravada

em 1969.

Autoria original: CACO VELHO / PIRATINI Letra: DAVID MOURÃO-FERREIRA JAIME SANTOS, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Gravado em Setembro e Outubro de 1954 em Paris Edição original: Janeiro de 1955 — EP Columbia SLEG 5005 “Os Amantes do Tejo”

De manhã, que medo Que me achasses feia! Acordei, tremendo, Deitada na areia... Mas logo os teus olhos Disseram que não; E o sol penetrou No meu coração.

Vi depois numa rocha uma cruz; E o teu barco negro

Dançava na luz... Vi teu braço acenando, Entre as velas já soltas...

Dizem as velhas da praia que não voltas. São loucas!

São loucas! Eu sei meu amor: Nem chegaste a partir. Tudo, em meu redor, Me diz que 'stás sempre comigo. No vento que lança

Areia nos vidros; Na água que canta; No fogo mortiço; No calor do leito; Nos bancos vazios; No meu próprio peito — 'stás sempre comigo!

9. LIBERTAÇÃO

Uma gravação marcante para a carreira

de Amália; foi este o primeiro poema

propositadamente escrito por David

Mourão-Ferreira para uma música

original destinada à sua voz. "Em tudo

vejo fronteiras, fronteiras ao nosso amor…

Nem as esperanças do céu me conseguem

demover, este amor é teu e meu, só na Terra

o queremos ter."

Letra: DAVID MOURÃO-FERREIRA Música: SANTOS MOREIRA DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola Gravado em Agosto de 1955 em Lisboa por Hugo Ribeiro

Edição original: Setembro de 1955 — LP Columbia (Inglaterra) 33 CS 3“Amália Encores”

Fui à praia, e vi nos limos A nossa vida enredada, Ó meu amor, se fugirmos Ninguém saberá de nada! Na esquina de cada rua, Uma sombra nos espreita. E nos olhares se insinua, De repente, uma suspeita. Fui ao campo, e vi os ramos Decepados e torcidos! Ó meu amor, se ficamos, Pobres dos nossos sentidos! Hão-de transformar o mar Deste amor numa lagoa; E de lodo hão-de a cercar, Porque o mundo não perdoa. Em tudo vejo fronteiras, Fronteiras ao nosso amor! Longe daqui, onde queiras! A vida será maior! Nem as esperanças do céu Me conseguem demover. Este amor é teu e meu: Só na terra o queremos ter.

10. CANSAÇO

Muitos consideram este tema

um dos zénites absolutos da

arte de Amália, e uma das mais

perfeitas definições do conceito

de Fado. Amália criou-o em 1945,

durante uma das muitas digressões

que realizou pelo Brasil. "Tudo o

que faço ou não faço, outros

fizeram assim; daí este meu

cansaço de sentir que quanto faço

não é feito só por mim."

Letra: LUÍS DE MACEDO Música: JOAQUIM CAMPOS DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola Gravado em Abril de 1964 nos estúdios Valentim de Carvalho, Costa do Castelo, Lisboa, por Hugo Ribeiro Edição original: Junho de 1964 - EP Columbia SLEM 2160 “Ai Mouraria”

Por trás do espelho quem está De olhos fixados nos meus Alguém que passou por cá E seguiu ao Deus dará Deixando os olhos nos meus. Quem dorme na minha cama, E tenta cegar meus sonhos Alguém morreu nesta cama E lá de longe me chama Misturada nos meus sonhos. Tudo o que faço ou não faço Outros fizeram assim Daí este meu cansaço De sentir que quanto faço Não é feito só por mim.

11. FADO MALHOA

Uma outra criação de Frederico Valério,

compositor que marcou de tal modo a

carreira da Artista que, em 1982, já perto

da sua retirada dos estúdios, ela lhe

dedicou um álbum inteiro, "Fado", onde

recriou muitas das mais belas canções que

ele lhe compusera. Este tema que evoca o

célebre pintor Malhoa surge aqui numa

raríssima gravação (previamente inédita)

do início dos anos 50.

Letra: JOSÉ GALHARDO Música: FREDERICO VALÉRIO DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Edição original: Julho de 1985 — LP Columbia 2606923 "O Melhor de Amália: Estranha Forma de Vida"

Alguém que Deus já lá tem Pintor consagrado Que foi bem grande E nos fez já ser do passado Pintou numa tela Com arte e com vida A trova mais bela Da terra mais querida Subiu a um quarto que viu À luz do petróleo E fez o mais português Dos quadros a óleo Um Zé de samarra Com a amante a seu lado Com os dedos agarra Percorre a guitarra E ali vê-se o fado Dali vos digo que ouvi A voz que se esmera Dançando o Faia banal Cantando a Severa Aquilo é bairrista Aquilo é Lisboa Boémia e fadista Aquilo é de artista E aquilo é Malhoa.

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12. AMÁLIA

Outro dos ex-libris incontornáveis de Amália,

o "Fado Amália", como também é conhecido,

surge aqui numa das múltiplas gravações

realizadas por Amália em palco -- no caso,

um registo realizado em 1957 no Olympia

de Paris. França era por esta altura o

segundo grande mercado comercial de Amália,

como o comprovavam as constantes viagens a

Paris e as temporadas em salas tão

prestigiadas como o Olympia ou o Bobino.

Letra: JOSÉ GALHARDO Música: FREDERICO VALÉRIO DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa SANTOS MOREIRA, viola

Gravado em Abril e Maio de 1956 no palco do Olympia de Paris Edição original: Janeiro de 1957 — LP

Columbia (França) 33 FSX 123 "Amália à l'Olympia"

Amália

Quis Deus que fosse o meu nome Amália

Acho-lhe um jeito engraçado Bem nosso e popular Quando oiço alguém gritar Amália

Canta-me o fado Amália

Esta palavra ensinou-me Amália

Tu tens na vida que amar São ordens do Senhor Amália sem amor Não liga, tens de gostar E como até morrer Amar é padecer Amália, chora a cantar! Amália

Disse-me alguém com ternura Amália

Da mais bonita maneira E eu toda coração Julguei ouvir então Amália p'la vez primeira Amália

Andas agora à procura Amália

Daquele amor mas sem fé Alguém já mo tirou Alguém o encontrou Na rua com a outra ao pé E a quem lhe fala em mim Já só responde assim Amália? Não sei quem é!

13. UMA CASA PORTUGUESA

Um dos seus temas mais queridos pelo público,

"Uma Casa Portuguesa" foi uma das canções

que Amália gravou mais vezes em menos tempo.

De facto, esta é a primeira de três gravações

realizadas no espaço de dois anos, todas a

pedido de afiliadas do grupo EMI para edição

em países diferentes. Esta versão foi publicada

em Portugal e alguns países europeus em 1953.

Letra: REINALDO FERREIRA

Música: GUSTAVO MATOS SEQUEIRA e ARTUR FONSECA JAIME SANTOS, guitarra portuguesa

SANTOS MOREIRA, viola

Gravado em Fevereiro ou Março de 1953 em Lisboa Edição original: Novembro de 1953 — 78 RPM Columbia DL 144

Numa casa portuguesa Fica bem

Pão e vinho sobre a mesa Quando à porta humildemente Bate alguém

Senta-se à mesa com a gente Fica bem essa franqueza Fica bem

Que o povo nunca desmente A alegria da pobreza Está nesta grande riqueza De dar e ficar contente. Quatro paredes caiadas Um cheirinho a alecrim Um cacho de uvas doiradas Duas rosas num jardim Um São José de azulejo Sob um sol de Primavera Uma promessa de beijos Dois braços à minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É com certeza, uma casa portuguesa! No conforto pobrezinho

Do meu lar Há fartura de carinho A cortina da janela E o luar

Mais o sol que gosta dela... Basta pouco, poucochinho para alegrar Uma existência singela

É é só amor pão e vinho E um caldo verde, verdinho A fumegar na tigela.

14. ESTRANHA FORMA DE VIDA

O encontro feliz de uma melodia do grande

fadista Alfredo Marceneiro com uma letra da

própria Amália, imortalizada num dos seus

álbuns essenciais, "Amália Rodrigues",

também conhecido como "Busto" ou ainda

"Asas Fechadas". Publicado em 1962, este

disco foi supervisionado (hoje dir-se-ia

"produzido") por Alain Oulman, compositor

francês radicado em Portugal e responsável

por uma verdadeira revolução na carreira de

Amália. Tratou-se do primeiro longa-duração

da Artista pensado para ser ouvido como um

todo, com material que Amália nunca havia

mostrado em palco.

Letra: AMÁLIA RODRIGUES

Música: ALFREDO DUARTE (MARCENEIRO) JOSÉ NUNES, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

Gravado nos estúdios Valentim de Carvalho, Costa do Castelo, por Hugo Ribeiro Edição original: Agosto de 1962 — LP Columbia (Inglaterra) 33 SX 1440 “Amália Rodrigues” (“Busto”)

Foi por vontade de Deus Que eu vivo nesta ansiedade, Que todos os ais são meus, Que é toda a minha saudade, Foi por vontade de Deus. Que estranha forma de vida Tem este meu coração, Vivo de vida perdida, Quem lhe daria o condão? Que estranha forma de vida. Coração independente, Coração que não comando, Vives perdido entre a gente, Teimosamente sangrando, Coração independente. Eu não te acompanho mais Pára, deixa de bater Se não sabes aonde vais Porque teimas em correr. Eu não te acompanho mais.

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1. AI MOURARIA

Criado por Amália na opereta

"Rosa Cantadeira", este tema de

Frederico Valério é a canção mais

vezes gravada por Amália:

conhecem-se-lhe pelo menos

catorze versões diferentes, entre

registos de estúdio e de palco!

As sessões de gravação de Amália

duravam noites a fio durante as

quais ela alternava temas novos

com clássicos para descontrair o

ambiente. A versão que aqui

encontramos é, cronologicamente,

a quarta de estúdio, gravada em 1964,

durante um período particularmente

fértil que deu igualmente origem

ao LP "Fado Português".

Letra: AMADEU DO VALE Música: FREDERICO VALÉRIO DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

Gravado em Abril de 1964 nos estúdios Valentim de Carvalho, por Hugo Ribeiro

Edição original: Junho de 1964 - EP Columbia SLEM 2160 “Ai Mouraria”

Ai, Mouraria Da velha rua da Palma, Onde eu um dia Deixei presa a minha alma, Por ter passado Mesmo ao meu lado Certo fadista, De cor morena, Boca pequena, E olhar trocista. Ai, Mouraria

Do homem do meu encanto Que me mentia Mas que eu adorava tanto. Amor que o vento como um lamento Levou consigo

Mas que ainda agora A toda a hora Trago comigo. Ai, Mouraria Dos rouxinóis nos beirais Dos vestidos cor-de-rosa Dos pregões tradicionais, Ai, Mouraria Das procissões a passar Da Severa em voz saudosa Da guitarra a soluçar.

2. FADO PORTUGUÊS

"Fado Português" foi o segundo LP de

Amália pensado como um todo, depois

do lendário "Busto". Tal como aquele,

"Fado Português" foi gravado sob a

orientação do compositor de origem

francesa Alain Oulman, que para ele

musicou de forma magistral este poema

de José Régio.

Poema: JOSÉ RÉGIO Música: ALAIN OULMAN

DOMINGOS CAMARINHA, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

Gravado em Abril de 1964 e Janeiro de 1965 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: 1965 — LP

Columbia 33 JSX 70 (França) “Fado Português”

O fado nasceu um dia Quando o vento mal bulia E o céu o mar prolongava Na amurada de um veleiro No peito de um marinheiro Que estando triste cantava Que estando triste cantava. Ai, que lindeza tamanha, Meu chão, meu monte, meu vale, De folhas, flores, frutas de oiro, Vê se vês terras de Espanha, Areias de Portugal, Olhar ceguinho de choro. Na boca de um marinheiro Do frágil barco veleiro Morrendo a canção magoada, Diz o pungir dos desejos Do lábio a queimar de beijos Que beija o ar e mais nada Que beija o ar e mais nada. Mãe, adeus, adeus, Maria Guarda bem no teu sentido Que aqui te faço uma jura, Que ou te levo à sacristia Ou foi Deus que foi servido Dar-me no mar sepultura. Ora, eis que embora outro dia Quando o vento nem bulia E o céu o mar prolongava, À proa de outro veleiro Velava outro marinheiro Que estando triste cantava Que estando triste cantava.

CD

2

3. Ó CARECA

Este tema popular da Revista à Portuguesa

dos anos 40 foi recriado por Amália com

grande graça e muito sucesso em 1971,

numa altura em que a sua popularidade lhe

permitia já transcender de modo inequívoco

quaisquer catalogações e interpretar lado a

lado fados tradicionais e canções populares.

Letra e música: GUILHERME PEREIRA DA ROSA, RAUL DA CÂMARA e JOAQUIM BERNARDO NASCIMENTO FONTES ROCHA e CARLOS GONÇALVES, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

JOEL PINA, viola baixo

Gravado em 1967 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Fevereiro de 1971 — EP Columbia 8E016-40113 “Ó Careca”

Eu faço um vistão Com a careca ao léu Acho um piadão Andar sem chapéu Mas se a moda pega Tenho que aturar Esta cegarrega Que é de arreliar Ó careca Ó careca Tira a bóina

Que é moda andar em cabelo Com a breca

Tira a tampa da careca Que a careca não tem pêlo Eu visto a preceito Ando assim liró Corpinho bem feito No meu paletó Com esta farpela Que é protocolar De cabeça à vela Só oiço gritar Ó careca...

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4. VALENTIM

Amália sempre teve um carinho especial pelo

folclore português, que muito fez para divulgar

internacionalmente, nomeadamente com os

célebres concertos que deu nos EUA com

orquestra dirigida pelo maestro André

Kostelanetz. Esses concertos viriam a originar

o LP "Amália Canta Portugal", cuja

popularidade levaria à publicação de um

"segundo volume" com orquestra e a um

terceiro disco com acompanhamento de

guitarra e viola. O resultado foi "Amália

Canta Portugal III", também conhecido

por "Folclore à Guitarra e à Viola", do qual

este tema é um dos melhores momentos.

Letra e música populares

FONTES ROCHA e CARLOS GONÇALVES, guitarra portuguesa

PEDRO LEAL, viola JOEL PINA, viola baixa

Gravado em Agosto de 1971 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Dezembro de 1972 — LP Columbia 8E062-40255 “Amália Canta Portugal III — Folclore à Guitarra e à Viola”

Adeus casa de meu pai Adeus Largo do Quinteiro Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Adeus mocidade nova Adeus vida de solteiro Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem No tempo das desfolhadas Lá na aldeia era um regalo Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Era o tempo em que eu chegava A casa ao cantar do galo Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Adeus casa de meu pai Adeus quarto da palhada Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Era a cama onde eu dormia Ao chegar de madrugada Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Adeus pau de marmeleiro Se ele falasse dizia Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem As pancadas que me deu Quando eu chegava ao ser dia Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Adeus também ao meu pai Adeus vida de solteiro Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem Agora é que eu reconheço O valor do marmeleiro Quero o Valentim olaró laró Quero o Valentim olaró meu bem

5. MARIA LISBOA

Se muitos há que consideram o álbum

do "Busto" um dos cumes da arte de

Amália, quase todos serão unânimes

em escolher "Com Que Voz" como o

Disco Definitivo da Artista.

Orientado - pela última vez antes de

ele ser forçado a regressar a

França - por Alain Oulman, "Com

Que Voz" era um "disco conceptual":

"Amália canta poetas portugueses na

música de Alain Oulman". "Com Que

Voz" incluia novas criações a par de

temas já conhecidos como esta "Maria

Lisboa", letra de David Mourão-Ferreira

criada uma década antes mas

reinterpretada aqui com um outro vigor

e uma outra entrega.

Letra: DAVID MOURÃO-FERREIRA Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

É varina, usa chinela, Tem movimentos de gata; Na canastra, a caravela, No coração, a fragata... Em vez de corvos no xaile Gaivotas vêm pousar... Quando o vento a leva ao baile Baila no baile com o mar... É de conchas o vestido, Tem algas na cabeleira, E nas velas o latido, Do motor de uma traineira... Vende sonho e maresia, Tempestades apregoa, Seu nome próprio: Maria... Seu apelido: Lisboa...

6. TROVA DO VENTO QUE PASSA

O poema de Manuel Alegre fora já popularizado

por Adriano Correia de Oliveira, tornando-se

num hino estudantil da contestação ao regime de

Salazar. A versão que Amália criaria para

"Com Que Voz" apresentava uma nova música de

Alain Oulman escrita para a sua voz,

desvendando novas nuances e subtilezas do poema.

Poema: MANUEL ALEGRE Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Pergunto ao vento que passa Notícias do meu país E o vento cala a desgraça O vento nada me diz? Pergunto aos rios que levam Tanto sonho à flor das águas E os rios não me sossegam Levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas Ai rios do meu país Minha pátria à flor das águas Para onde vais? Ninguém diz. Se o verde trevo desfolhas Pede notícias e diz Ao trevo de quatro folhas Que eu morro por meu país. Pergunto à gente que passa Por que vai de olhos no chão. Silêncio — é tudo o que tem Quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos Direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos Vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada Ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada Nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem Dos rios que vão p'ró mar Como quem ama a viagem Mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir

(Minha pátria à flor das águas) Vi minha pátria florir (Verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada e fale pátria em teu nome. Eu vi-te crucificada Nos braços negros da fome. E o vento não me diz nada Só o silêncio persiste. Vi minha pátria parada À beira dum rio triste. Ninguém diz nada de novo Se notícias vou pedindo Nas mãos vazias do povo Vi minha pátria florindo. Também nascem flores no esterco (Diz quem ganha em te perder). Eu é por ti que me perco Perder-me assim é viver. E a noite cresce por dentro Dos homens do meu país. Peço notícias ao vento E o vento nada me diz. Quatro folhas tem o trevo Liberdade quatro sílabas. Não sabem ler é verdade Aqueles para quem eu escrevo. Mas há sempre uma candeia Dentro da própria desgraça Há sempre alguém que semeia Canções no vento que passa. Mesmo na noite mais triste Em tempo de servidão Há sempre alguém que resiste Há sempre alguém que diz não.

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7. POVO QUE LAVAS NO RIO

Se fosse necessário escolher um

ex-libris de entre os vários que

Amália criou, muitos escolheriam

este tema que ficou indelevelmente

identificado com a Artista e que se

tornaria no ponto culminante das

suas apresentações ao vivo entre nós.

Criado originalmente no álbum do

"Busto", que marcou o seu regresso

definitivo à Casa Valentim de

Carvalho em 1962 após uma breve

passagem pela gravadora francesa

Ducretet-Thomson, "Povo que Lavas

no Rio" adquiriu instantaneamente

a sua forma final -- de tal modo que

nunca mais Amália voltou a regravar

o tema em estúdio.

Poema: PEDRO HOMEM DE MELLO Música: JOAQUIM CAMPOS JOSÉ NUNES, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

Gravado nos estúdios Valentim de Carvalho, Costa do Castelo, por Hugo Ribeiro

Edição original: Agosto de 1962 — LP Columbia (Inglaterra) 33 SX 1440 “Amália Rodrigues” (“Busto”)

Povo que lavas no rio, Que talhas com teu machado As tábuas de meu caixão, Pode haver quem te defenda, Quem compre o teu chão sagrado, Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda, Beber em malga que esconda O beijo de mão em mão; Era o vinho que me deste Água pura, fruto agreste, Mas a tua vida não. Aromas de urze e de lama, Dormi com eles na cama, Tive a mesma condição; Povo, povo, eu te pertenço, Deste-me alturas de incenso, Mas a tua vida não.

8. GAIVOTA

Este clássico de Amália foi por

três vezes registado em estúdio -- esta

versão, considerada por muitos a

definitiva, remonta ao álbum "Com

Que Voz", que valeria a Amália um

sem-número de prémios em Portugal

e por toda a Europa. Trata-se de uma

composição exemplar de Alain Oulman.

Letra: ALEXANDRE O'NEILL Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Se uma gaivota viesse Trazer-me o céu de Lisboa No desenho que fizesse, Nesse céu onde o olhar É uma asa que não voa Esmorece e cai no mar. Que perfeito coração No meu peito bateria Meu amor na tua mão Nessa mão onde cabia Perfeito meu coração. Se um português marinheiro Dos sete mares andarilho Fosse quem sabe o primeiro A contar-me o que inventasse Se um olhar de novo brilho Ao meu olhar se enlaçasse Que perfeito coração No meu peito bateria Meu amor na tua mão Nessa mão onde cabia Perfeito meu coração. Se ao dizer adeus à vida As aves todas do céu Me dessem na despedida O teu olhar derradeiro Esse olhar que era só teu Amor que foste o primeiro. Que perfeito coração No meu peito morreria Meu amor na tua mão Nessa mão onde perfeito Bateu o meu coração. Meu amor na tua mão Nessa mão onde perfeito Bateu o meu coração.

9. COM QUE VOZ

Tema-título do álbum e uma das criações

mais transcendentes de Amália, revelando

todos os poderes interpretativos da Artista

no ponto mais alto da sua carreira. As

gravações de "Com Que Voz" decorreram

em 1969, no final de uma década de ouro

para Amália: a sua voz nunca estivera

melhor, com a frescura da juventude a dar

lugar a uma voz quente e sedutora, com

uma extraordinária capacidade emocional

de interpretação, exigindo o reportório

progressivamente mais ousado que Alain

Oulman lhe compunha. Amália já não era

fadista, apenas Cantora.

Poema atribuído a LUÍS DE CAMÕES Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Com que voz, chorarei meu triste fado Que em tão dura paixão me sepultou Que mor não seja a dor que me deixou O tempo, de meu bem desenganado Mas chorar não estima neste estado Aonde suspirar nunca aproveitou Triste quero viver pois se mudou Em tristeza, a alegria do passado Assim a vida passo descontente Ao som nesta prisão do grilhão duro Que lastimo ao pé que a sofre e sente De tanto mal, a causa é amor puro Devido a quem de mim tenho ausente Por quem a vida e bens dele aventuro.

10. HAVEMOS DE IR A VIANA

Por quatro vezes gravou Amália este tema;

esta é a terceira (uma delas continua inédita

em disco) e foi registada apenas um ano

depois da segunda. Isto porque, nas gravações

de "Com Que Voz", se abandonou o tradicional

quarteto de guitarras que acompanhava Amália

para se regressar a uma forma mais simples

de guitarra e viola.

Letra: PEDRO HOMEM DE MELLO Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Entre sombras misteriosas Em rompendo ao longe estrelas Trocaremos nossas rosas Para depois esquecê-las Se o meu sangue não me engana Como engana a fantasia Havemos de ir a Viana Ó meu amor de algum dia Ó meu amor de algum dia Havemos de ir a Viana Se o meu sangue não me engana Havemos de ir a Viana Partamos de flor ao peito Que o amor é como o vento Quem pára perde-lhe o jeito E morre a todo o momento Se o meu sangue não me engana... Ciganos verdes ciganos Deixai-me com esta crença Os pecados têm vinte anos Os remorsos têm oitenta

(9)

11. FADINHO DA TI MARIA BENTA

O mais popular dos momentos de folclore registados

por Amália, incluído no terceiro dos álbuns que

dedicou à tradição portuguesa.

Letra e música populares

FONTES ROCHA e CARLOS GONÇALVES, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

JOEL PINA, viola baixa

Gravado em Agosto de 1971 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Dezembro de 1972 — LP Columbia 8E062-40255 “Amália Canta Portugal III — Folclore à Guitarra e à Viola”

Não olhes p'ra mim não olhes Que eu não sou o teu amor Eu não sou como a figueira Que dá fruto sem flor Ó comadre Maria Benta Seu garoto está melhor O mal não é tão forte Que o faça estar pior Ó olhos azuis claros Contrários ao meu viver Que gosto tens tu amor Em me ver a padecer Ó comadre Maria Benta Seu garoto está melhor O mal não é tão forte Que o faça estar pior Tenho dentro do meu peito Chegadinho ao coração Duas palavras que dizem Amar sim deixar-te não Ó comadre Maria Benta Seu garoto está melhor O mal não é tão forte Que o faça estar pior As ondas do teu cabelo São loiras e perfumadas São redes a que se prendem As almas apaixonadas Ó comadre Maria Benta Seu garoto está melhor O mal não é tão forte Que o faça estar pior

12. MEU AMOR, MEU AMOR

(MEU LIMÃO DE AMARGURA)

Para quem amava os poetas como Amália,

o encontro com José Carlos Ary dos Santos

acabaria por ter que acontecer. Aconteceu

em 1968, com este "Meu Amor, Meu Amor",

que marcou a primeira de muitas

colaborações entre Ary dos Santos e Alain

Oulman. Embora Amália nunca tenha voltado

a gravar o tema em estúdio, registou uma

versão em língua italiana, "Mio Amor Mio Amor".

Letra: JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Meu amor meu amor Meu corpo em movimento Minha voz à procura Do seu próprio lamento Meu limão de amargura Meu punhal a crescer: Nós parámos o tempo Não sabemos morrer E nascemos nascemos Do nosso entristecer. Meu amor meu amor Meu pássaro cinzento A gemer a lonjura Do nosso afastamento Meu amor meu amor Meu nó de sofrimento Minha mó de ternura Minha nau de tormento: Este céu não tem cura Este mar não tem ar Nós parámos o vento Não sabemos nadar E morremos morremos Devagar devagar.

13. MADRUGADA DE ALFAMA

Outra das grandes criações de Amália, que a

registou por duas vezes. A primeira

gravação - ainda sob o título de "Madrugada",

simplesmente - data do álbum do "Busto", em 1962.

Esta segunda, registada para "Com Que Voz" já

como "Madrugada de Alfama", é para muitos a

interpretação definitiva do tema.

Letra: DAVID MOURÃO-FERREIRA Música: ALAIN OULMAN FONTES ROCHA, guitarra portuguesa PEDRO LEAL, viola

Gravado em Janeiro de 1969 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro Edição original: Março de 1970 — LP Columbia SPMX 5012 “Com Que Voz”

Mora num beco de Alfama E chamam-lhe a Madrugada Mas ela de tão estouvada Nem sabe como se chama. Mora numa água-furtada Que é a mais alta de Alfama E que o sol primeiro inflama Quando acorda a madrugada Mora numa água-furtada Que é a mais alta de Alfama. Nem mesmo na Madragoa Ninguém compete com ela Que do alto da janela Tão cedo beija Lisboa E a sua colcha amarela Faz inveja à Madragoa; Madragoa não perdoa Que madruguem mais do que ela. E a sua colcha amarela Faz inveja à Madragoa. Mora num beco de Alfama E chamam-lhe a Madrugada São mastros de luz doirada Os ferros de sua cama. E a sua colcha amarela A brilhar sobre Lisboa É como estátua de proa Que anuncia a caravela A sua colcha amarela A brilhar sobre Lisboa.

14. VOU DAR DE BEBER À DOR

Inegavelmente o maior êxito comercial de Amália,

batendo recordes de vendas e criando um

autêntico fenómeno de popularidade no nosso

país em 1968. Jocosamente construído por Alberto

Janes (perito neste tipo de composições

enganadoramente leves) como uma "sequela" da

criação de Alfredo Marceneiro "A Casa da

Mariquinhas" (e pouco recordado pelo seu verdadeiro

título), este tema tornou-se também popular no

Estrangeiro. Amália registou-o em três línguas

diferentes: em França, chamou-se "La Maison sur le

Port", em Itália "La Casa in Via del Campo" e em

Espanha "Dar de Beber al Dolor".

Letra e música: ALBERTO JANES CONJUNTO DE GUITARRAS DE RAUL NERY Gravado em Abril e Maio de 1968 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Junho de 1968 — EP Columbia SLEM 2315 “Vou Dar de Beber à Dor”

Foi no Domingo passado que passei À casa onde vivia a Mariquinhas Mas está tudo tão mudado Que não vi em nenhum lado As tais janelas que tinham tabuinhas Do rés-do-chão ao telhado Não vi nada, nada, nada

Que pudesse recordar-me a Mariquinhas E há um vidro pregado e azulado Onde havia as tabuinhas. Entrei e onde era a sala agora está À secretária um sujeito que é lingrinhas Mas não vi colchas com barra Nem viola, nem guitarra

Nem espreitadelas furtivas das vizinhas O tempo cravou a garra

Na alma daquela casa

Onde às vezes petiscávamos sardinhas Quando em noites de guitarra e de farra Estava alegre a Mariquinhas As janelas tão garridas que ficavam Com cortinados de chita às pintinhas Perderam de todo a graça Porque é hoje uma vidraça Com cercadura de lata às voltinhas E lá p'ra dentro quem passa Hoje é p'ra ir aos penhores Entregar ao usurário umas coisinhas Pois chega a esta desgraça Toda a graça da casa da Mariquinhas P'ra terem feito da casa o que fizeram Melhor fora que a mandassem p'rás alminhas Pois ser casa de penhores

O que foi viveiro de amores É ideia que não cabe cá nas minhas Recordações do calor

E das saudades o gosto Que eu vou procurar esquecer Numas ginjinhas

Pois dar de beber à dor é o melhor Já dizia a Mariquinhas.

(10)

CD

3

2. MALDIÇÃO

Uma das grandes criações trágicas de Amália,

que recuperou assim, depois de "Estranha

Forma de Vida", um tema do grande

Marceneiro. Por três vezes gravou a Artista

este fado; esta é a segunda versão, publicada

no álbum de 1967 "Fados 67", composto por

regravações de alguns dos seus temas preferidos.

E de tal maneira esta gravação de "Maldição"

ficou marcante que, em reedições posteriores do

álbum, o título "Fados 67" seria esquecido,

substituído por "Maldição"…

Letra: ARMANDO VIEIRA PINTO Música: ALFREDO DUARTE "MARCENEIRO" RAUL NERY e FONTES ROCHA, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

JOEL PINA, viola baixo

Gravado em 1966 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Maio de 1967 — LP Columbia SPMX 5006 "Fados 67"

Que destino, ou maldição? Manda em nós, meu coração? Um do outro assim perdido, Somos dois gritos calados, Dois fados desencontrados, Dois amantes desunidos. Por ti sofro e vou morrendo, Não te encontro, nem te entendo, A mim o digo sem razão: Coração... quando te cansas Das nossas mortas esperanças, Quando páras, coração? Nesta luta, esta agonia, Canto e choro de alegria, Sou feliz e desgraçada. Que sina a tua, meu peito Que nunca estás satisfeito, Que dás tudo... e não tens nada. Na gelada solidão,

Que tu me dás coração, Não é vida nem é morte: É lucidez, desatino, De ler no próprio destino Sem poder mudar-lhe a sorte...

1. EU QUERIA CANTAR-TE UM FADO

Este clássico do fado foi registado pela Artista três

vezes, sendo esta a última versão. Gravada ao tempo

do célebre álbum do "Busto", esta extraordinária

interpretação ficaria quase um ano em arquivo à

espera de edição, surgindo apenas "escondida" num

EP de 1963 e, posteriormente, no álbum inglês

“Amália For Your Delight".

Letra: ANTÓNIO DE SOUSA FREITAS Música: FRANKLIN GODINHO JOSÉ NUNES, guitarra portuguesa CASTRO MOTA, viola

Gravado em 1962 nos estúdios Valentim de Carvalho, Costa do Castelo, por Hugo Ribeiro

Edição original: Fevereiro de 1963 — EP SLEM 2143 "Madrugada de Alfama"

Eu queria cantar-te um fado Que toda a gente, ao ouvi-lo, Visse que o fado era teu. Fado estranho e magoado Mas que pudesses senti-lo Tão na alma como eu. E seria tão diferente Que ao ouvi-lo toda a gente Dissesse quem o cantava; Quem o escreveu não importa Que eu andei de porta em porta Para ver se te encontrava. Eu hei-de pôr nalguns versos o fado que há nos teus olhos, o fado da tua voz. Nossos fados são diversos, tu tens um fado, eu tenho outro, triste fado temos nós.

3. MEIA-NOITE E UMA GUITARRA

Um tema "clássico" que muitos fadistas retomam,

embora não seja na realidade um fado tradicional.

«Meia-Noite e uma Guitarra», do talentoso Álvaro

Duarte Simões, é um caso pontual na carreira de

Amália -- fazia parte do seu reportório regular de

palco mas só por uma vez o gravou em estúdio.

De facto, conhecem-se quatro gravações ao vivo

deste tema, mas apenas esta de estúdio, que começou

por ser lançada no lado B de "Vou Dar de Beber à Dor".

Letra e música: ÁLVARO DUARTE SIMÕES CONJUNTO DE GUITARRAS DE RAUL NERY

Gravado em Abril e Maio de 1968 nos estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Hugo Ribeiro

Edição original: Junho de 1968 — EP Columbia SLEM 2315 “Vou Dar de Beber à Dor”

Meia-noite e uma guitarra, meia vida por viver. E a saudade que se agarra ao cantar de uma mulher. Meia-noite e uma guitarra, meia vida por viver... Pelas ruas mais sombrias passa o tempo que passou. Serenatas de outros dias que a voz do tempo cantou. Pelas ruas mais sombrias passa o tempo que passou... É loucura sem sentido caminhar por onde vou Viver é estar-se perdido, morrer é estar onde estou. É loucura sem sentido caminhar por onde vou... Meia-noite e uma guitarra, meia vida por viver. Guitarra triste esquecida que ninguém sabe entender. Meia-noite a meio da vida sem ninguém pra me entender!

Referências

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