• Nenhum resultado encontrado

Mana vol.3 número1

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Mana vol.3 número1"

Copied!
14
0
0

Texto

(1)

BOURDIEU, Pierre. 1979. La Dist inct ion. Crit ique Sociale du Judgement . Paris: M inuit . 670 pp.

BOURDIEU, Pierre. 1996 [1992]. As Regras da Art e. Gênese e Est rut ura do Campo Lit erário. São Paulo: Companhia das Let ras. 431 pp.

GELL, Alf red. 1992. “The Technology of Enchant ment and t he Enchant -ment of Technology”. In: J. Coot e e A. Shelt on (eds.), Ant hropology, Art & Æst het ics. Oxf ord: Clarendon Press. pp. 40-63

INGOLD, Tim (ed.). 1996. “Æst het ics Is a Cross-Cult ural Cat egory”. In: Key Debat es in Ant hropology. London: Rout ledge. pp 249-293.

“ Tod a a rte q u e r re p re se n ta r se u m u n d o”

A loïs Rie g l

Pa rte su b sta n tiva d a ob ra d e Pie rre Bou rd ie u e stá volta d a p a ra a d iscu sã o d a a rte e d a e sté tica . Pre te n d o a q u i a p re se n ta r u m a le itu ra “ in te re s-sa d a ” d os d ois livros e m q u e e ss-sa d iscu ssã o é d e se n volvid a d e form a m a is siste m á tica , a d e sp e ito d o in te rva lo d e u m a d é ca d a q u e os se p a ra . Pa u ta -d a e m u m p a ra le lo ora e xp lícito ora im p lícito com a te oria -d a m ag ia -d e M a rce l M a u ss, q u a lifico e ssa le itu ra d e in te re ssa d a p orq u e se u p rin cip a l ob je tivo é a p on ta r a p rod u tivid a d e te órica d e a lg u m a s d a s form u la çõe s d e Bou rd ie u p a ra a via b iliza çã o d e u m a re fle xã o p rop ria m e n te a n trop o-lóg ica sob re e sse te m a , e m u m a p e rsp e ctiva com p a ra tiva q u e e sca p a , e m ce rta m e d id a , a o a u tor. Pa ra o d e se n volvim e n to d e ssa p e rsp e ctiva , u sa re i com o p a râ m e tros u m e n sa io d e Alfre d G e ll e u m d e b a te e d ita d o p or Tim In g old , d e d ica d os a d iscu tir o a lca n ce com p a ra tivo d a s ca te g oria s d e a rte e d e e sté tica , te xtos e ste s e m q u e a s id é ia s d e Bou rd ie u ocu p a m — sin to-m a tica to-m e n te , a to-m e u ve r — lu g a r ce n tra l.

Em u m a rtig o d e 1964, Lé viStra u ss fa z u m con tra p on to e n tre ciê n -cia s “ so-cia is” e “ h u m a n a s” , su g e rin d o q u e , m e sm o q u a n d o a m b a s p os-su e m o m e sm o ob je to, d ife re m ra d ica lm e n te d o p on to d e vista d o m é to-d o, já q u e : “ p roib in to-d o-se q u a lq u e r com p la cê n cia , m e sm o to-d e orto-d e m e p

is-EN SAIO BIBLIO G RÁFIC O

DISTIN ÇÃO E TRAN SCEN DÊN CIA: A ESTÉTICA

SÓCIO-LÓGICA DE PIERRE BOURDIEU

(2)

te m ológ ica , p a ra com se u ob je to, a s ciê n cia s h u m a n a s a d ota m o p on to d e vista d a im a n ê n cia ; e n q u a n to a s ciê n cia s socia is, p rivile g ia n d o a socie d a-d e a-d o ob se rva a-d or, a trib u e m a e sta u m va lor tra n sce n a-d e n ta l” (Lé vi-Stra u ss 1976:313).

E con clu i q u e , ob via m e n te , a tra n sce n d ê n cia à q u a l a s ciê n cia s socia is se re fe re m n ã o é d e ord e m sob re n a tu ra l, m a s “ su p e rcu ltu ra l” : “ isola u m a cu ltu ra p a rticu la r, coloca -a a cim a d a s ou tra s, tra ta -a com o u m u n ive rso se p a ra d o q u e con té m su a p róp ria le g itim a çã o” (Lé vi-Stra u ss 1976:313).

A p a rtir d e ssa form u la çã o, o p rim e iro p on to q u e e u g osta ria d e le va n ta r é q u e , p or se r sim u lta n e a m e n te im a n e n te e tra n sce n d e n te — socia l e h u m a n a —, a sociolog ia e tn ológ ica d e Bou rd ie u re ve la se e stra -té g ica p a ra u m a a va lia çã o crítica d o d e b a te con te m p orâ n e o a r e sp e ito d a s con d içõe s d e (im )p ossib ilid a d e te órica e in stitu cion a l d e u m a a n tr o-p olog ia d a a rte e / ou d a e sté tica .

A con trib u içã o d e Bou rd ie u p a ra e sse d e b a te con siste fu n d a m e n ta l-m e n te e l-m su p e ra r a su p osta in col-m p a tib ilid a d e e n tre o u n ive rsa lisl-m o d a s ca te g oria s d e a rte e e sté tica — coloca d a s n a e sca la d a h u m a n id a d e e tid a s com o e tn ocê n trica s p or d e fin içã o, já q u e p rod u tos te óricos d e u m a e xp e -riê n cia h istórico-socia l p a rticu la r — e u m re la tivism o cu ltu ra l q u e se q u e r im p a rcia l, e a s con sid e ra ca te g oria s h istórica e socia lm e n te e sp e cífica s.

A p a rtir d e u m a p e rsp e ctiva tática, o re lativ ism o sociológ ico d e Bou r-d ie u tom a “ cu ltu ra ” e “ h u m a n ir-d a r-d e ” com o ca te g oria s “ n a tiva s” , e n ã o com o ca te g oria s a n a lítica s e straté g icas. Isso p e rm ite su p e ra r e ssa in com -p a tib ilid a d e e n tre u n ive rsa lism o e re la tivism o, tra d u zíve l e m te rm os te óricos com o u m a e sp é cie d e m e ta e tn oce n trism o, q u e , a o a firm a r a irre d u -tib ilid a d e ú ltim a d e ssa s ca te g oria s e e xp e riê n cia s a o u n ive rso cu ltu ra l ocid e n ta l, a s tra n sform a e m sig n os — u n ive rsa is — d e d istin ção.

Bou rd ie u p rop õe u m a se p a ra çã o d o “ a rtístico” e d o “ e sté tico” , q u e lh e p e rm ite a firm a r a u n ive rsa lid a d e p ote n cia l d a a rte , p lu ra liza n d o-a com o ca m p o e sp e cífico d e a tivid a d e s e m fu n çã o d e su a a p lica b ilid a d e in te rcu ltu ra l. Le m b re m os, a e sse re sp e ito, a m á xim a d e M a u ss (1967:89) d e q u e “ u m ob je to a rtístico, p or d e fin içã o, é u m ob je to re con h e cid o com o ta l p or u m d e te rm in a d o g ru p o” . Em con tra p a rtid a , e le a d m ite a sin g u la -rid a d e in tra -socia l — e , a í sim , a irre d u tib ilid a d e — d a e sté tica , com o ju í-zo se cre ta d o p or u m a m od a lid a d e e sp e cífica d e a rte .

(3)

e xp e riê n cia e d e u m p on to d e vista “ tra n sce n d e n te ” e m re la çã o à e sté ti-ca e n q u a n to ti-ca te g oria . Essa s sã o p e rsp e ctiva s in d issociá ve is, q u e , sin to-m a tica to-m e n te , n oto-m e ia to-m su a s d u a s ob ra s fu n d a to-m e n ta is sob re o te to-m a . Eto-m te rm os m e tod ológ icos, e ssa d é m arch e te órica tra d u z-se e m u m “ filistin ism o” (Bou rd ie u 1979:9) e ism re la çã o à a rte , q u e e xclu i ju lg a ism e n tos va lora -tivos d e vid o à d ive rsid a d e h istórico-socia l d o fe n ôm e n o1. Le va d o à s ú

lti-m a s con se q ü ê n cia s, p oré lti-m , e sse “ filistin islti-m o” te lti-m colti-m o con tra p a rtid a u m a e sp é cie d e “ cu m p licid a d e ” com a e sté tica (cf. Lé vi-Stra u ss 1976:313), ta l com o e vid e n cia d o p e lo lu g a r ce n tra l ocu p a d o p e la e sté tica p u ra n a crítica socia l d o ju ízo d e Bou rd ie u .

O q u e e stá e m jog o n e sse cru za m e n to con tin g e n te é com o u m a ca te g oria e strita m e n te id e ológ ica com o a e sté tica , q u e d e se m p e n h a p or-ta n to u m a or-ta re fa d e le g itim ação (cf. C oote 1996:269), p od e se r u tiliza d a com o in stru m e n to con ce itu a l p a ra u m a re fle xã o an alítica q u e p rob le m a -tiza o e sta tu to m e sm o d e ssa ca te g oria2. Ta lve z se ja p ossíve l re solve r e ssa

q u e stã o u tiliza n d o o p a râ m e tro p rop osto p e lo p róp rio a u tor e m su a a n á li-se d a g ê n e li-se h istórica e sociológ ica d a e sté tica p u ra : “ os e scritos te óricos q u e a filosofia ocid e n ta l tra ta com o u m a con trib u içã o a o con h e cim e n

-to socia l d o ob je -to sã o ta m b é m , e sob re tu d o, con trib u içõe s à con stru ção

socia l d a p róp ria re a lid a d e d e sse ob je to, p orta n to, d a s con d içõe s te órica s e p rá tica s d e su a e xistê n cia ” (Bou rd ie u 1996:328, ê n fa se s n o orig in a l).

De fa to, com o le m b ra M ice li (1974:XXVII), Bou rd ie u p a re ce te r e n con tra d o a sa íd a p a ra o d ile m a p osto p e la d icotom ia e n tr e “ ob je to d e con h e cim e n to” e “ ob je to re a l” , a o a d m itir q u e os fu n d a m e n tos sociológ i-cos d a s d istin çõe s e ca te g oria s q u e u tiliza d e riva ria m d a p róp ria d ivisã o d o tra b a lh o p re se n te e m u m a form a çã o socia l p a rticu la r. Acre d ito, a ssim , q u e a re le vâ n cia d a a n á lise con ju n ta d a e sté tica p u ra e d e su a crítica com o p rod u tos q u e , com o a a rte ocid e n ta l m od e rn a à q u a l se re p orta m , sã o d ota d os d a m e sm a h istoricid ad e sócio-lóg ica re sid e , ju sta m e n te , n o fa to d e q u e é n a re fle xã o sob re e sse s te m a s q u e a sociolog ia e tn ológ ica d e Bou rd ie u le va a o á p ice a p rod u tivid a d e te órica d e sse tra b a lh o d e ob je -tiva çã o n o q u e e le “ te m d e g e n é rico e ta m b é m d e p a rticu la r” (Bou rd ie u 1980:30).

De lin e ia -se , a ssim , u m a crítica à “ re la çã o ob je tivista e m re la çã o a o ob je to” , im p lícita n o p on to d e vista “ im a n e n te ” , com o a d m ite o p róp rio Lé vi-Stra u ss, e ca ra cte rística d o re la tivism o cu ltu ra l com o e stra té g ia d e

d istin ção m e tod ológ ica, ou se ja , com o “ re cu sa d e se tom a r p or ob je to, d e

(4)

a form a d e “ u m a ve rd a d e ira a p rop ria çã o d e si p e la ob je tiva çã o d a ob je ti-vid a d e ” , con stitu tiva d a s ca te g oria s socia is d e p e n sa m e n to, p e rce p çã o e a p re cia çã o “ q u e sã o o p rin cíp io im p e n sa d o d e tod a re p re se n ta çã o d o m u n d o d ito ob je tivo” (Bou rd ie u 1980:40).

Em su a m oçã o con tra a e sté tica com o ca te g oria in te rcu ltu ra l, Pe te r G ow (1996:271-275) e voca A Distin ção, d e Bou rd ie u , com o u m re la to “ te r-ríve l” d a e sté tica e n q u a n to fatalid ad e h istórica e socia l ocid e n ta l. Ela e sta b e le ce o “ g osto” com o d iscrim in a çã o ta n to e m re la çã o à p rod u çã o — o q u e n ã o re p re se n ta p rop ria m e n te u m a n ovid a d e e tn ológ ica —, com o ta m b é m e fu n d a m e n ta lm e n te e m re la çã o à re ce p çã o, in sta u ra n d o u m m e ca n ism o se le tiv o e e x clu d e n te re sp on sá ve l p e lo e sta b e le cim e n to d e d istin çõe s socia is ra d ica is. C om o e ssa d im e n sã o d o g osto n ã o e stá in scri-ta e m u m a su p osscri-ta “ n a tu re za ” h u m a n a ou cu ltu ra l, n ã o se ria p ossíve l fa la r d e u m a a n trop olog ia d a e sté tica , e n q u a n to a n á lise su b stan tiv a d o g osto e m te rm os com p a ra tivos, p ois à d ife re n ça d e ste , e la e xclu iria o ju í-zo. A ú n ica a lte rn a tiva te órica p a ra via b iliza r o g osto com o ob je to d e re fle xã o se ria fa ze r u m a a n trop olog ia a p artir d a e sté tica — n os m old e s d o q u e fa z Lé vi-Stra u ss — a ssu m in d o-a d e cid id a m e n te com o p roje to te órico d a socie d a d e ocid e n ta l. Tra ta se , p orta n to, d e u m a p e rsp e ctiv a a n a -lítica e xte rn a , ca p a z, e n tre ta n to, d e e xp licita r se u s ju ízos d iscrim in a tórios e torn a r in te lig íve l o p roje to e sté tico q u e os con d icion a .

Se , com o a d m ite o p róp rio Bou rd ie u , a e sté tica p u ra fu n cion a com o u m a m e tan arrativ a q u e a ssin a la ju sta m e n te “ a d e scon te x tu aliz ação d a a rte ocid e n ta l e m re la çã o à vid a socia l, su a se p a ra çã o e d e sta q u e d os d om ín ios ord in á rios d a e xp e riê n cia h u m a n a ” , p a ra u tiliza r u m a form u la -çã o d e J oa n n a O ve rin g (In g old 1996:288), só u m a a n á lise d a s p rá tica s e re p re se n ta çõe s im p lícita s n o d iscu rso e sté tico ocid e n ta l — u m a

sociolo-g ia e sté tica d a e sté tica — p od e ria d e sm a sca ra r se u e tn oce n trism o e su a

in se rçã o h istórica e socia l. Em te rm os com p a ra tivos, é p ossíve l fa la r e m

arte s se m e sté tica , m a s n ã o n a e sté tica se m a m od a lid a d e e sp e cífica d a

e xp e riê n cia a rtística q u e a con d icion a . N o lim ite , p od e r-se -ia d ize r q u e só e xiste u m a “ e sté tica ” e m Bou rd ie u n a m e d id a e m q u e e sta é “ a n tik a n -tia n a ” : tra ta -se d e u m a e sté tica d a socie d a d e , in stâ n cia q u e in corp ora o fu n d a m e n to tra n sce n d e n te — n ova m e n te , a q u i, e sse tra n sce n d e n te m e tod ológ ico d e q u e fa la Lé vi-Stra u ss —, d e p ois d e re tirá -lo d a a rte3.

(5)

d o ca m p o a rtístico ocid e n ta l, e tra d u z, p or ou tro, u m a e sp é cie d e irre d u

-tib ilid ad e le va d a a e fe ito sob re e ssa a u ton om iza çã o. Esta se ca ra cte riza

p or u m a n a tu re za fu n d a m e n ta lm e n te an acrôn ica q u e p rom ove u m a d u p la d e s-h istoriciza çã o, d a p rod u çã o (in ve n çã o) e d a re p rod u çã o (d ifu sã o e a ssim ila çã o), o q u e te rm in a p or ab solu tiz ar u m m od o d e p rod u çã o e se u m od o d e re ce p çã o corre la to, a m b os p rod u tos d e u m tip o p a rticu la r d e con d içõe s h istórica s. O ob je tivo d e Bou rd ie u é ju sta m e n te h istoriciza r e sse a b solu to n os vá rios p la n os e m q u e se coloca , n ã o a p e n a s p a ra re la ti-vizá -lo, m a s visa n d o re stitu ir a n e ce ssid a d e sócio-lóg ica re ve la d a p or se u e sta tu to a rb itrá rio (Bou rd ie u 1974:271).

N e sse se n tid o, a a rte p od e ria se r tom a d a com o u m a e sp é cie d e m ate

rializ ação d o p rog ra m a m e tod ológ ico d o d u rk h e im ia n ism o. N e la , a ob je

-tifica çã o d a d istin ção — “ a s h ie ra rq u ia s fe ita s coisa s” (Bou rd ie u 1979: 256), “ a ord e m socia l fe ita corp o” (Bou rd ie u 1979:553) —, e m su a d u p la fa ce d e a tivid a d e e e xp e riê n cia , a tu a com o p rin cíp io a tivo d a sociog ê n e -se . A p a rtir d e u m trip lo a sp e cto re lacion al, p osicion al e d ife re n cial, e s-se p rin cíp io e stru tu ra a s ta xon om ia s a rtístico-e sté tica s e p rom ove a cla ssifi-ca çã o e ord e n a çã o d a s ob ra s q u e , a ssim , só e xiste m “ n a e p e la re la çã o,

n a e p e la d ife re n ça ” (Bou rd ie u 1979:250). A q u e stã o ce n tra l d e Bou rd ie u

se rá , e n tã o, n ã o a n a lisa r a coisa e m si — sin tom a tica m e n te su a a n á lise n ã o visa o ob je to a rtístico —, m a s in ve stig a r o q u e o e sta tu to d a coisa re ve -la sob re o socia l q u e e -la m a te ria liza .

A lóg ica e sp e cífica d a a rte con siste n a p rod u çã o q u alitativ a d e sig -n os d ife re -n cia is e d isti-n tivos d e “ cla sse ” , o q u e fa z com q u e os p rod u tos d e se u fu n cion a m e n to e ste ja m p re d isp ostos a fu n cion a r com o in stru m e n -tos d e d istin ção. Essa lóg ica re ve la , a ssim , a con stru çã o d o e sp a ço socia l com o e sp a ço ob je tivo, isto é , com o e stru tu ra d e re la çõe s d ota d a s d o m e s-m o e sta tu to d e ob je tivid a d e “ q u e d e te rs-m in a s-m a fors-m a q u e d e ve s-m tos-m a r a s re p re se n ta çõe s q u e p od e m d e le te r a q u e le s q u e a í se e n con tra m e n g a -ja d os” (Bou rd ie u 1979:272). N ã o se tra ta , p orta n to, d e u m a ord e m e stá ti-ca q u e re ifiti-ca a s p osiçõe s socia is, m a s d e u m a in stâ n cia d in â m iti-ca q u e q u e stion a os p róp rios lim ite s e n tre os g ru p os e se u s d e sd ob ra m e n tos e stra té g icos n e sse ca m p o d e lu ta s.

(6)

re la çõe s ob je tiva s e n tre a s p ote n cia lid a d e s in scrita s n os a g e n te s e a e s-t r u s-t u r a d a s s is-t u a ç õ e s n a s q u a is e le s a g e m . Le m b r e m o s q u e , p a r a M a u ss (1950:100), a “ p ote n cia lid a d e m á g ica ” n ã o d issocia a “ força ” e o “ a m b ie n te ” .

Do p on to d e vista d a via b iliza çã o te órica d e u m a a n trop olog ia d a a rte e / ou d a e sté tica , é fu n d a m e n ta l p e rce b e r a con trib u içã o orig in a l d e s-sa sociolog ia d a s ob ra s e d os g ostos. Tom a n d o-os com o siste m a s sim b ólicos fu n d a m e n ta lm e n te d iacrítiólicos, e ssa sociolog ia d e lim ita u m a con ce p -çã o a u m só te m p o in te rn a e e xte rn a , lú d ica e ag on ística d e sig n ifica -çã o, com u n ica çã o e p od e r. Se e n tre tod os os u n ive rsos p ossíve is n ã o e xiste n e n h u m q u e , com o o u n ive rso d os b e n s cu ltu ra is, p a re ça tã o p re d isp osto a e xp rim ir d ife re n ça s socia is, é sin a l d e q u e a re la çã o d e d istin çã o a í se e n con tra ob je tiv am e n te in scrita, a tu a liza n d o-se a tra vé s d e a p rop ria çõe s sig n ifica tiva s d ife re n cia d a s.

Trib u tá rio d a “ a u ton om ia re la tiva d o sim b ólico” , o crité rio sócio-lóg

i-co ce n tra l n o ca m p o a rtístii-co-e sté tii-co é e xclu d e n te e d iscrim in a tório e m

si m e sm o. A le g itim id ad e — e n ã o a orig in a lid a d e e m se n tid o corre n te — in scre ve a ob je tivid a d e se m â n tico-se n síve l d a s ob ra s (cf. M orp h y 1996: 259) n o â m b ito d a lu ta p or d istin çã o e a p rop ria çã o, lu ta q u e con stitu i e m si m e sm a o jog o socia l. A a rte , “ fe tich e e n tre os fe tich e s” (Bou rd ie u 1979:279-280), e n g e n d ra , a ssim , o m on op ólio socia l d a com p e tê n cia a rtística , g e ra n d o d isp osiçõe s p re d isp osta s a m a rca r sim b olica m e n te a s d ife re n ça s e n tre a s cla sse s e , com isso, le g itim á la s, “ m a sca ra n d o o fu n d a -m e n to n ã o-si-m b ólico d e sta s d ife re n ça s si-m b ólica s” (Bou rd ie u 1974:283). Tra ta -se d e u m p roce sso d e d om in a çã o le va d o a e fe ito a tra vé s d a tra n m u ta çã o d e d istin çõe s ob je tiva s e m d istin çõe s e le tiv as, re a liza d a con s-cie n te e in con ss-cie n te m e n te , e cu jo se g re d o con stitu i u m d os e le m e n tos fu n d a m e n ta is d a su a m a g ia (cf. M a u ss 1950:90).

(7)

e xe rcício d e su a sociolog ia g e n é tica n o p róp rio ca m p o d e n e g ação d o

social, e , se g u n d o, d e in ve stig a çã o d a m a n e ira com o se con stitu i e sse se n

so d e p ossib ilid a d e s e d e im p ossib ilid a d e s, d e p roxim id a d e s e d e d istâ n cia s (Bou rd ie u 1979:545) q u e con stitu e m o jog o socia l e m su a p ositivid a -d e h istórica .

N e sse s te rm os, o “p rin cip iu m d iv ision is” m a n ip u la d o p e la a rte , con d içã o d e p ossib ilid a d e p a ra a e xp e riê n cia e sté tica , só p od e se r con sid e ra -d o u m a ca te g oria a p riori -d e a p re e n sã o e a p re cia çã o, “ n a m e -d i-d a e m q u e a s con d içõe s h istórica s e socia is d a p rod u çã o e d a re p rod u çã o d a d isp osi-çã o p rop ria m e n te e sté tica — p rod u to h istórico q u e d e ve se r re p rod u zid o p e la e d u ca çã o — im p lica m o e sq u e cim e n to d e sta s con d içõe s h istórica s e socia is” (Bou rd ie u 1974:271-272).

Re ve la -se , a ssim , o m e ca n ism o q u e g e ra e ssa re la çã o im e d iata (“ d ou ta ig n orâ n cia ” ), ce g a p a ra si m e sm a , q u e d e fin e , p a ra os a g e n te s, su a re la çã o p rática com o m u n d o. De fa to, p a ra Bou rd ie u , é ju sta m e n te ta l d iscrim in a çã o q u e a ilu sã o d o a p riori — ou tro n om e p a ra a in con s-ciê n cia h istórica — te n d e a tra n sfig u ra r com o u m a d istin çã o n a tu ra l (Bou rd ie u 1974:282).

Exp e riê n cia sóciológ ica d o m u n d o, sim u lta n e a m e n te se n síve l e in te lig íve l, a e sté tica p rom ove a in te rp e n e tra çã o re cíp roca d e u m corp o socia -liza d o e u m ob je to q u e p a re ce fe ito p a ra sa tisfa ze r tod os os se n tid os

socialm e n te in stitu íd os. Assim com o a m a g ia , e la “ p õe força s e id é ia s

cole tiva s a se rviço d a im a g in a çã o in d ivid u a l” (M a u ss 1950:134). Só n e sse p la n o a sociog ê n e se d a e sté tica p od e ria con trib u ir p a ra a in ve stig a çã o d o p rin cíp io in va ria n te , tra n sh istórico e tra n socia l, d e sa tisfa çã o p rop ria m e n -te a rtística , “ e ssa re a liza çã o im a g in á ria d o e n con tro u n iv e rsalm e n -te fe liz e n tre u m h a b itu s h istórico e o m u n d o h istórico q u e o p ovoa , e q u e e le h a b ita ” (Bou rd ie u 1996:356).

(8)

cria çã o e , e m se u trip lo ca rá te r d e “ q u a lid a d e , su b stâ n cia e a tivid a d e ” (M a u ss 1950:102), tra ze m in scrita s e m si a su a p róp ria n e ce ssid a d e .

Essa d im e n sã o ortod ox a d a a rte re ve la -se n o fa to d e q u e su a s tra n s-g re ssõe s sim b ólica s se fa ze m a p a rtir d a s p róp ria s re s-g ra s re con h e cid a s n o ca m p o. N e sse se n tid o, o com p on e n te h e ré tico su b ja ce n te a e ssa ortod oxia a p e n a s re ve la o virtu osism o q u e con siste e m m ob iliza r e sse e sq u e m a g e ra d or, p rin cíp io d e e stru tu ra çã o d a s le is d o ca m p o, p a ra o e n g e n -d ra m e n to con tín u o -d e e stra té g ia s -d e -d istin çã o, -d e fin i-d o p e lo jog o -d e ca n o-n iza çã o/ se cu la riza çã o d a s ob ra s d e a rte e d os p rio-n cíp ios e sté ticos. Assim , a e sté tica e vid e n cia q u e a s ca te g oria s d e p e rce p çã o d a ord e m socia l, se n d o o p rod u to d e ssa ord e m , im p õe m se u re con h e cim e n to e , p orta n to, a su b -m issã o a e la , já q u e o g osto con siste ju sta -m e n te e -m u -m e sq u e -m a d e e s-q u e m a s g e ra d ore s e cla ssifica tórios, s-q u e fu n cion a m n os m a is d ive rsos ca m p os d a p rá tica e e stã o “ n o p rin cíp io d os v alore s ú ltim os, in d iscu tíve is e in e fá ve is, q u e e xa la m d os ritu a is socia is e , e m p a r ticu la r, d o cu lto d a ob ra d e a rte ” (Bou rd ie u 1980:39).

A con se q ü ê n cia d e sse e fe ito p e rform ativ o, d o q u a l d e riva a p otê n cia d a re p re se n ta çã o a rtística , é re ve la r q u e o p rin cíp io d e p e rm a n ê n cia d a ord e m socia l re sid e e m u m p roce sso d e “ n a tu ra liza çã o” , ou m e lh or, d e “ tra d icion a liza çã o” . O u se ja , e la im p õe e sq u e m a s d e cla ssifica çã o q u e p rod u ze m o se u re con h e cim e n to a tra vé s d o d e scon h e cim e n to d o a rb itrá -rio d e se u s fu n d a m e n tos: a corre sp on d ê n cia e n tre a s d ivisõe s tid a s com o ob je tiva s e os e sq u e m a s cla ssifica tórios e stá ju sta m e n te n e ssa e sp é cie d e

ad e são orig in al à ord e m e sta b e le cid a (Bou rd ie u 1982:150). C on sid e ra r a

p e rce p çã o e sté tica com o sim p le s fru içã o, e a cria çã o a rtística com o ca p a -cid a d e in d ivid u a l, a m b a s in scrita s n a “ n a tu r e za h u m a n a ” , e m u m a p e rs-p e ctiva e q u ivoca d a m e n te ob je tivista e in d ivid u a lista , sig n ifica n ã o d a r con ta d o fu n d a m e n to on tológ ico d e sse con h e cim e n to p rático com o e fe ito d e im p osição. O g osto d e fin e se , a ssim , com o “ re la çã o socia l in corp ora -d a , torn a -d a n a tu re za ” (Bou r-d ie u 1979:585).

(9)

-la r, e ssa ca u sa lid a d e é d ota d a d e u m e sta tu to m á g ico, q u a l se ja , p rod u tivo e q u a lita titivo, a tra vé s d o q u a l é p roce ssa d a a tria n g u la çã o e n tre a g e n -te s, p rá tica s e r e p r e se n ta çõe s e n volvid a s n e sse p r oce sso (cf. M a u ss 1950:5).

A a rte “ re p re se n ta ” , d e sse m od o, o p rin cíp io d a e stru tu ra socia l e d a e ficá cia e stru tu ra n te — p e rform a tiva — q u e e la e xe rce a tra vé s d e u m p roce sso d e e xclu sã o e in clu sã o, in stitu içã o e d e stitu içã o, e sta b e le ce n d o h ie ra rq u ia s e cla ssifica çõe s in scrita s n os ob je tos e n a s in stitu içõe s. Atra -vé s d e la , “ a s d ivisõe s socia is torn a m -se p rin cíp ios d a d ivisã o q u e org a n iza a visã o d o m u n d o socia l. O s lim ite s torn a m se se n so d os lim ite s, a n te -cip a çã o p rá tica d os lim ite s ob je tivos” (Bou rd ie u 1979:549). Ela se torn a , a ssim , ob je to p rivile g ia d o d a re fle xã o sociológ ica ju sta m e n te p or tom a r com o fim e sse jog o, d e fin id or d o socia l, on d e se d isp u ta o p od e r d e re g e r a s fr on te ira s sa g ra d a s e e sta b e le ce r os lim ite s d o p ossíve l (Bou r d ie u 1982:148).

Re cu sa r e ssa d im e n sã o e sté tica d o socia l im p lica , cre io, re d u zir a

d istin ção a u m p la n o sociológ ico su p e rficia l, fe ch a n d o u m a via d e a ce sso

p rivile g ia d a p a ra o a sp e cto q u alitativ o d a e xp e riê n cia h u m a n a a tra vé s d a q u a l os a g e n te s re a g e m a o m u n d o socia l e n a tu ra l (cf. M orp h y 1996: 255). N o lim ite , ta lve z fosse p ossíve l d ize r q u e a a rte sim b oliz a a d istin -çã o, ícon e d a d ife re n ça q u e é , e m si m e sm a , con d i-çã o d e p ossib ilid a d e e p rod u to d o se u p roce ssa m e n to socia l e sp e cífico.

(10)

-to (M a u ss 1950:53). Ap rofu n d a n d o a p osiçã o d e M a u ss, ta lve z se ja p ossí-ve l, a in d a , id e n tifica r o q u e é e sp e cífico d os ob je tos a rtísticos n o fa to d e q u e e le s tra ze m e ssa ag e n cy d ia crítica e m si m e sm os, a tra vé s d o e xe rcí-cio d e u m p od e r té cn ico in trín se co, n ã o d e re fle tir o socia l, m a s d e p ro-d u zi-lo.

Pod e -se in fe rir, p orta n to, q u e o fu n d a m e n to d e ssa re la çã o icôn ica re sid e n a h om olog ia e n tre o a sp e cto té cn ico d a p rod u çã o a rtística e a p ro-d u çã o ro-d e re la çõe s socia is p rop ria m e n te ro-d ita s, g a ra n tia ro-d a p roro-d u çã o e ro-d a re p rod u çã o socia is. Em ou tros te rm os, o m e ca n ism o sim b ólico q u e su s-te n ta e ssa re la çã o icôn ica con siss-te e m u m a e sp é cie d e h om olog ia e n tr e os p roce ssos té cn icos e n volvid os n a cria çã o d a ob ra d e a rte e os p roce s-sos té cn icos e m g e ra l. Tra ta -se , p ois, d a p róp ria p rod u çã o d e re la çõe s socia is atrav é s d a a rte (G e ll 1992:53).

Em ú ltim a in stâ n cia , p od e -se a firm a r q u e a q u i e stá o fu n d a m e n to d o “ m a te ria lism o g e n e ra liza d o” (Bou rd ie u 1980:34) q u e p e rm e ia a p e rsp e c-tiva re la cion a l e d isp osicion a l q u e Bou rd ie u a d ota e m re la çã o à a rte e à e sté tica , re ve la n d o, ta lve z, su a m a ior orig in a lid a d e . C om e fe ito, o q u e p e rm ite tra ta r a s p rá tica s a rtístico-e sté tica s com o e con ôm icas — ou se ja , com o p rá tica s orie n ta d a s p a ra a m a xim iza çã o d o lu cro m a te ria l e / ou sim -b ólico (M ice li 1974:XXXIX) — e , con se q ü e n te m e n te , e sta -b e le ce r a d is-tin çã o te órica e n tre m e rca d os, d e riva d a p róp ria d ivisã o d o tra b a lh o socia l in sta u ra d a p or u m m od o e sp e cífico d e p rod u ção m ate rial, q u e , p or su a ve z, in stitu i e sfe ra s e xclu d e n te s d e troca s m a te ria is e sim b ólica s4.

N e ssa d ire çã o, e u in voca ria m a is u m a ve z M a rce l M a u ss, tom a n d o com o p a râ m e tro a a p roxim a çã o e n tre a rte , té cn ica e m a g ia re ce n te m e n te e xp lora d a p or G e ll (1992) a fim d e situ a r a a rte com o p a rte d e u m a “ te c-n olog ia d o e c-n ca c-n ta m e c-n to” , isto é , com o u m siste m a té cc-n ico re sp oc-n sá ve l n ã o só p e la p rod u çã o, m a s p e la re p rod u çã o d a re a lid a d e socia l e m su a d im e n sã o a u m só te m p o m a te ria l e sim b ólica . De a cord o com M a u ss, m a g ia e té cn ica a p roxim a m -se p or se u d u p lo ca rá te r tra d icion a l e cria ti-vo, se p a ra n d o-se con tu d o e m fu n çã o d a n a tu re za ritu al d a p rim e ira e

m e cân ica d a se g u n d a5. Pois b e m : Bou rd ie u su ste n ta q u e a e sp e cificid a d e

d a a rte ocid e n ta l re sid e ju sta m e n te n e sse cru za m e n to e n tre té cn ica e m a g ia e n a in corp ora çã o p e la p rim e ira d a d im e n sã o ritu a l d a se g u n d a . É o v irtu osism o té cn ico, d e fa to, q u e fa z a e ficácia in trín se ca d a s ob ra s d e a rte n os se u s vá rios con te xtos socia is, te n d e n d o a cria r a ssim e tria s n a s re la çõe s socia is a tra vé s d o e sta b e le cim e n to d e a ssim e tria s e n tre a s coi-sa s.

(11)

socia l q u e os u ltra p a ssa , torn a n d o-a ta n g íve l a tra vé s d a e xp e riê n cia d os ob je tos m a te ria is. Isso p orq u e , com o u m siste m a té cn ico, a a rte é orie n ta -d a p a ra a s con se q ü ê n cia s socia is r e su lta n te s -d a p ro-d u çã o -d e sse s ob je tos. O p od e r d os ob je tos a rtísticos p rové m d os p roce ssos té cn icos q u e e le s corp orifica m ob je tiv am e n te : “ a te cn olog ia d o e n can tam e n to e stá fu n d a d a n o e n can tam e n to d a te cn olog ia” (G e ll 1992:44). O q u e fa z o e n ca n ta -m e n to — situ a d o, a liá s, n a p róp ria b a se d a “ id ola tria ” (Bou rd ie u 1979:58) — d a te cn olog ia é a m a g ia d e p re p a ra r coisa s, ou se ja , o p od e r q u e os p roce ssos té cn icos tê m d e la n ça r u m a m a g ia sob re os a g e n te s p a ra q u e e ste s p ossa m “ e xp e rim e n ta r a ‘re a lid a d e ’ sob u m a form a e n ca n ta d a ” . A a rte , com o m od a lid a d e se p a ra d a d e a tivid a d e , sim p le sm e n te le va m a is lon g e , a tra vé s d e u m tip o d e in volu çã o, “ o e n ca n ta m e n to q u e é im a n e n -te a tod os os tip os d e a tivid a d e té cn ica ” (G e ll 1992:44).

N e sse se n tid o, com o m ostra G e ll (1992:46-51), a e ficá cia d os ob je tos a rtísticos, e m su a q u a lid a d e d e com p on e n te s d a “ te cn olog ia d o e n ca n ta -m e n to” , é e -m si -m e s-m a re su lta d o d o “ e n ca n ta -m e n to d a te cn olog ia ” , d o fa to d e q u e os p roce ssos té cn icos p ossu e m u m p ote n cial m ág ico e m se n -tid o a m p lo — m e sm o q u a n d o n ã o sã o p rop ria m e n te m á g icos. N e sse s te rm os, é o virtu osisrm o té cn ico, ou se ja , o rm od o corm o os ob je tos sã o con s -tru íd os (se m e sq u e ce r os va lore s q u e p e rm ite m tra n sp orta r) q u e con stitu i a fon te d a su a e ficá cia — th e ir b e com in g rath e r th an th e ir b e in g . M ila g re té cn ico d a tra n su b sta n cia çã o q u e a p roxim a a rte e m a g ia com o p od e re s “ ta n to n o m u n d o q u a n to alé m d e le ” .

Re ce b id o e m 6 d e ja n e iro d e 1997

Re a p re se n ta d o e m 31 d e ja n e iro d e 1997

Ap rova d o e m 17 d e fe ve re iro d e 1997

(12)

Not as

1 De a cord o com G e ll, o fim ú ltim o d e u m a a n trop olog ia d a a rte d e ve se r a

d issolu çã o d e sta e n q u a n to ca te g oria d e sta ca d a . Isso e xig e u m a e sp é cie d e “ filisti-n ism o” m e tod ológ ico, se m e lh a filisti-n te a o “ a te ísm o” q u e p e rm itiu q u e a sociolog ia d a re lig iã o a va n ça sse a o e xclu ir a re fle xã o a re sp e ito d a a u te n ticid a d e d e sse fe n ô-m e n o. De sse p on to d e vista , a e sté tica e stá p a ra a a rte , a ssiô-m coô-m o a te olog ia e stá p a ra a re lig iã o, o q u e sig n ifica q u e “ a e sté tica é u m tip o d e d iscu rso m oral q u e d e p e n d e d a a ce ita çã o d e a rtig os in icia is d e fé […] e o e stu d o d os ob je tos va loriza -d os e ste tica m e n te con stitu i u m ca m in h o p a ra a tra n sce n -d ê n cia ” (G e ll 1992:41).

2 N o d e b a te e d ita d o p or Tim In g old (1996:279) sob re a via b ilid a d e te órica

d a e sté tica e m u m a p e rsp e ctiva com p a ra tiva , G e ll le va n ta ju sta m e n te a q u e stã o d e com o u tiliza r u m a ca te g oria filosófica vin cu la d a a u m a e xp e riê n cia socia l p a r-ticu la r — m a s q u e , a o m e sm o te m p o, tra z o e sta tu to d o u n ive rsa l, d o d istin tivo e d o tra n sce n d e n te — p a ra d e sig n a r d om ín ios d a re a lid a d e e m p írica e m ou tra s for-m a s d e e xp e riê n cia . A e sse re sp e ito, ve r ta for-m b é for-m O ve rin g (1996:260-264).

3 Se g u n d o m e p a re ce , e ssa form u la çã o a ssocia d u a s le itu ra s a p a re n te m e n te

in com p a tíve is d e La Distin ction . Por u m la d o, com o u m a con trib u içã o p ositiv a p a ra u m a a n trop olog ia d a e sté tica e , p or ou tro, com o a a firm a çã o d a im p ossib ili-d aili-d e ili-d e u tiliza çã o a n trop ológ ica ili-d e ssa ca te g oria . É in te re ssa n te n ota r q u e , n o d e b a te e d ita d o p or In g old , a te se d e cisiva con tra a e sté tica (We in e r 1996:253) u ti-liza La Distin ction com o a rg u m e n to p rin cip a l (G ow 1996:271-275).

4 “ Bou rd ie u n os m ostra q u e n ossos se n tim e n tos p e ssoa is m a is p rofu n d os a

re sp e ito d o b e lo, n osso re fú g io cu id a d osa m e n te p re se rva d o con tra tod os os h orro-re s d iscrim in a tórios d a socie d a d e ca p ita lista m od e rn a é a form a p rim ária d e d is-crim in ação — é o p róp rio h orror d e ssa socie d a d e ” (G ow 1996:271).

5 Se g u n d o G e ll, n ã o n os d a m os con ta d a a m p litu d e d o d om ín io té cn ico, e m

(13)

Ref erências bibliográf icas

BO URDIEU, Pie rre . 1974. “ M od os d e Pro-d u çã o e M oPro-d os Pro-d e Pe rce p çã o Ar-tísticos” . In : A Econ om ia d as Trocas S im b ólicas. Sã o Pa u lo: Pe rsp e ctiva . p p . 269-294.

___ . 1977. “ La Prod u ction d e la C roy-a n ce : C on trib u tion à u n e Écon om ie d e s Bie n s Sym b oliq u e s” . A cte s d e la Re ch e rch e e n S cie n ce s S ociale s, 13:3-44.

___ . 1980. Le S e n s Pratiq u e . Pa ris: M i-n u it.

___ . 1982. Ce q u e Parle r Ve u t Dire . L’É-con om ie De s Éch an g e s Lin g u is-tiq u e s. Pa ris: Fa ya rd .

C O O TE, J e re m y. 1996. “ Æ sth e tics Is a C ross-C u ltu ra l C a th e g ory — For th e M otion (2)” . In : T. In g old (e d .), Ke y De b ate s in A n th rop olog y . Lon d on : Rou tle d g e . p p . 271-275.

G O W, Pe te r. 1996. “ Æ sth e tics Is a C ross-C u ltu ra l ross-C a th e g ory — Ag a in st th e M otion (2)” . In : T. In g old (e d .), Ke y De b ate s in A n th rop olog y . Lon d on : Rou tle d g e . p p . 271-275.

IN G O LD, Tim (e d .). 1996. “ Æ sth e tics Is a C ross-C u ltu ra l C a th e g ory — Th e De b a te ” . In : Ke y De b ate s in A n th ro-p olog y . Lon d on : Rou tle d g e . ro-p ro-p . 276-291.

LÉVI-STRAUSS, C la u d e . 1976. “ C rité rios C ie n tíficos n a s Discip lin a s Socia is e H u m a n a s” . In : A n trop olog ia Estru -tu ral Dois. Rio d e J a n e iro: Te m p o Bra sile iro. p p . 294-316.

M AUSS, M a rce l. 1950. “ Esq u isse d ’u n e Th é orie G é n é ra le d e la M a g ie ” . In : S ociolog ie e t A n th rop olog ie . Pa ris: Pre sse s Un ive rsita ire s d e Fra n ce . p p . 1-141.

___ . 1967. “ Esth é tiq u e ” . In : M an u e l d ’Eth n og rap h ie . Pa ris: Pe tit Bib lio-tè q u e Pa yot. p p . 85-122.

M IC ELI, Se rg io. 1974. “ In trod u çã o: A Força d o Se n tid o” . In : P. Bou rd ie u , A Econ om ia d as Trocas S im b ólicas. Sã o Pa u lo: Pe rsp e ctiva . p p . VII-LXI.

M O RPH Y, H ow a rd . 1996. “ Æ sth e tics Is a C ross-C u ltu ra l C a th e g ory — For th e M otion (1)” . In : T. In g old (e d .), Ke y De b ate s in A n th rop olog y . Lon -d on : Rou tle -d g e . p p . 255-260.

M UN N, N a n cy. 1992. Th e Fam e of G aw a. A S y m b olic S tu d y of Valu e Tran sform ation in a M assim (Pap u a N e w G u in e a) S ocie ty . Du rh a m / Lon -d on : Du k e Un ive rsity Pre ss.

O VERIN G, J oa n n a . 1996. “ Æ sth e tics Is a C ross-C u ltu ra l C a th e g ory — Ag a in st th e M otion (1)” . In : T. In g old (e d .), Ke y De b ate s in A n th rop olog y . Lon -d on : Rou tle -d g e . p p . 260-266.

(14)

Resumo

O ob je tivo d e ste e n sa io é a p on ta r a p ro-d u tiviro-d a ro-d e ro-d e a lg u m a s ro-d a s form u la çõe s d e Pie rre Bou rd ie u a re sp e ito d a a rte e d a e sté tica p a ra a via b iliza çã o d e u m a re fle xã o p rop ria m e n te a n trop ológ ica sob re e sse te m a , situ a n d o-o n o â m b ito d e d iscu ssõe s con te m p orâ n e a s q u e e x-p lora m su a d im e n sã o com x-p a ra tiva . A p a rtir d e u m p a ra le lo com a te oria d a m a g ia d e M a rce l M a u ss, o e n sa io e stru -tu ra -se e m torn o d e trê s e ixos: id e n ti-fica r a p e rsp e ctiva q u e fu n d a m e n ta o e sforço te órico d e Bou rd ie u ; m a p e a r a lg u n s d e se u s p rin cip a is d e sd ob ra m e n -tos; ve rifica r su a a m p litu d e te órica . Essa a b ord a g e m p e rm ite re ve la r o e sta tu -to m e -tod ológ ico d a “ d istin çã o” e m su a con e xã o com o re la tivism o sociológ ico d e Bou rd ie u , b e m com o p rom ove r u m a a va lia çã o crítica d o d e b a te con te m -p orâ n e o a re s-p e ito d a s con d içõe s d e p ossib ilid a d e d e u m a a n trop olog ia d a a rte e / ou d a e sté tica n os te rm os d e u m con tra p on to e n tre p a rticu la rism o e u n i-ve rsa lism o.

Abst ract

Referências

Documentos relacionados

Concomitantemente ao desenvolvimento do método analítico, as concentrações dos elementos menores e maiores em amostras dos bivalves coletados ao longo da Baía de Todos

Assim, o Hospital, através dessa homenagem que circulou na mídia, e foi publicada num caderno especial – Eduardo 50 anos – do Diário de Pernambuco, corrobora a construção

Planejamento da Expansão: Etapa na qual procura-se analisar as diferentes estratégias da expansão do sistema elétrico em relação à geração e transmissão, estabelecendo-se

Muitos autores que defendem a tese de que o país passa por um processo de desindustrialização definem a moeda nacional valorizada como fator preponderante para a ocorrência do

Em resumo, podemos dizer que, a partir da influência do filósofo e geômetra francês Blaise Pascal, assim como de outros moralistes fran- ceses, como La Rochefoucauld (1613-1680),

Dessa forma, nesse estudo serão discutidos os fatores que contribuem para a transmissão da doença e será analisada a prevalência da esquistossomose mansônica do ano de 2005 ao ano

A strong but not significant negative correlation was observed between the Root Mean Square Successive Difference and the Symmetry Rate values?. Conclusion: A characteristic pattern

Este estudo teve como objetivo identificar o perfil funcional de pessoas com deficiência visual a partir da perspectiva biopsicossocial baseada na Classificação Internacional de