v.15, n.1, p.73-94, jan.-mar. 2008 5 7 1
Caros leitores,
Em ago st o p ró xim o p assad o , a Fu n d ação O swald o Cru z sed io u u m sim p ó sio co m e-m orativo d os trin ta an os d e errad icação a n ível e-m u n d ial d a varíola, feito see-m p reced en tes an u n ciad o em 8 d e m aio d e 1979, n a Assem bléia Mu n d ial d a Saú d e. O sim p ósio reu n iu d iversos p rotagon istas d o Program a d e Errad icação d a Varíola p ara d ebater su as exp eriên cias e as lições q u e d ela se p od em extrair p ara o com bate a ou tras d oen ças. A p resen te ed ição d e História, Ciências, Saúde – Manguinhos traz en trevista exclu siva con ced id a a Gilberto Hoch m an e Steven Palm er p elo d ou tor Don ald A. Hen d erson , d iretor d a cam p an h a d a Organ ização Mu n d ial d a Saú d e d e 1966 a 1977, assim com o trech os d o d iário d e viagem ao Brasil, em abril d e 1967, d e ou tro p articip an te d ela, o can ad en se Robert J. W ilson . A an álise d essa fon te p or Palm er, Hoch m an e Arbex p ossibilita in teressan tes reflexões sobre a cam p an h a em n osso p aís, as vacin as aí u tilizad as e o p ap el d as com u n id ad es d e esp ecialistas n aq u ele em p reen d im en t o in t ern acio n al.
A seção An álise d est e n ú m ero ab re co m in t eressan t e art igo d e An d ré Lu is d e Lim a Carvalh o e Ricard o Waizbort, sobre u m a p erson agem p ou co con h ecid a en tre n ós, Fran ces Power Cobbe, q u e se d estacou n a In glaterra vitorian a p or su a m ilitân cia em p rol d e cau sas sociais. A p reocu p ação com a legitim id ad e ética d e certas form as d e exp loração d os an im ais teve resson ân cia esp ecialm en te forte n aq u ele p aís, on d e já em 1822 fora ap rovad a legislação estabelecen do p en alidad es con tra os m au s tratos p erp etrad os con tra eles. O artigo de An d ré e Ricard o trata sobretu d o d os em bates en tre Cobbe e Ch arles Darwin a resp eito d e an im ais u sad os em exp erim en tos cien tíficos. No âm ago d esse artigo está a q u estão d as relações en t re h u m an o s e n ão h u m an o s, en t re ciên cia e n at u reza, o q u e n o s t ran sp o rt a a d o is ou tros artigos q u e abord am a n atu reza d e ân gu los d iversos. Nu m d eles, d ois geógrafos d a Un icam p tecem con siderações sobre os con ceitos a esse resp eito em Alexan der von Hu m boldt e su a relação co m a gên ese d a geo grafia física m o d ern a. Um filó so fo e u m h íbrid o d e a grô n o m o , so ció lo go e a n t ro p ó lo go t ra t a m d a s “a n t in o m ia s p ó s-m o d ern a s so b re a n atu reza”. Para An ton io Carlos Vitte e Roberison W ittgen stein Dias d a Silveira, Hu m bold t d esen vo lveu u m a n o va in t erp ret ação d a n at u reza n a su p erfície d a Terra, em q u e eram fu n d am en tais os con ceitos d e esp acialid ad e e p aisagem geográfica e q u e traziam im p lícito u m co m p lexo cru zam en t o d e in flu ên cias est ét icas e in st ru m en t ais. A geo grafia física m od ern a teria se estru tu rad o a p artir, p rin cip alm en te, d as reflexões d e Hu m bold t con tid as em Quadros da natureza e Cosm os. Para os au tores, esta ú ltim a obra oferece ao saber geográfico atu al u m a resp osta cien tífica e filosófica p ara a d u alid ad e geografia física/ geografia h u m an a, in d o ao en con tro d a n ecessid ad e con tem p orân ea d e tran scen d er os lim ites restritos d as d iscip lin as form ais.
José Marcos Froeh lich e Celso Ren i Braid a, p or su a vez, an alisam as n oções d e n atu reza su bjacen tes à elaboração atu al d e ciên cia. Dep ois d e cu rto in ven tário d as id eias sobre esse con ceito p olissêm ico em diferen tes ép ocas h istóricas, ressaltam as in con gru ên cias p resen tes n as im agen s p ós-m od ern as d e n atu reza, fazen d o u so sobretu d o d as reflexões d e Fred ric Jam eso n , u m d o s p o u co s m arxist as a em p regar, n o s an o s 1990, a lin gu agem d o p ó s-m od ern iss-m o associad a a u s-m a an álise s-m aterialista d e su a lógica cu ltu ral.
Em “As an tin om ias d a p ós-m od ern id ad e”, p rim eira p arte d e As sem entes do tem po (São Pau lo, Ática, 1997), Jam eson forn ece u m m ap a cogn itivo d aq u ele fim d e sécu lo, m ap ean d o ten d ên cias n a sem iótica, n o p ós-estru tu ralism o e n os estu d os cu ltu rais. Argu m en ta q u e u m d o s elem en t o s p rin cip ais d a so cied ad e p ó s-m o d ern a é o ‘fim d a n at u reza’, su a artificialização. Para Jam eson , o d esap arecim en to d a n atu reza d esgasta seu ou tro term o: a
CARTA DO EDITOR
5 7 2 História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro co n cep ção clássica d e cid ad e e d o u rb an o p erd e sign ificação e d eixa d e d esign ar u m a realid ad e esp ecífica, d iferen ciad a. O u rban o se torn a o social em geral e am bos se p erd em n u m global d e n ovo tip o. Parad oxalm en te, o d esap arecim en to d a n atu reza em su a form a t rad icio n al est im u la o ret o rn o d e o u t ro ‘t ip o ’ d e n at u reza, co m o at est am o s d iverso s fen ôm en os ligad os ao ecologism o. Tal revivescên cia con stitu i u m a an tin om ia fu n d am en tal d a p ós-m od ern id ad e. Os au tores d o artigo ora p u blicad o d efen d em q u e h á con trad ições m ais p rofu n das do q u e a con trap osição en tre social e n atu ral ou cu ltu ra e n atu reza. Prop õem en tão q u e avan cem os ru m o a u m a con cep ção d e n atu reza e ciên cia q u e n ão im p liq u e fazer d os seres h u m an os estran h os n o m u n d o em q u e h abitam e q u e bu scam con h ecer.
Nesta edição de História, Ciências, Saúde – Manguinhos os leitores tam bém en con trarão t rês co n t ribu içõ es d e au t o res argen t in o s. Diego P. Ro ld án , d a Un iversid ad Nacio n al d e Rosario, an alisa d iscu rsos p rod u zid os sobre o corp o, a m áq u in a, a en ergia e a fad iga n a virad a d os sécu los XIX e XX, m ostran d o com o con tribu íram p ara a con stru ção d e u m saber bio p o lít ico q u e co lo co u o co rp o em relação co m a p ro d u ção cap it alist a e co m o Estad o. Lu cía Rom ero an alisa a m od ern ização acad êm ica d a Un iversid ad d e Bu en os Aires e d e su a Facu ld ad e d e Med icin a em m ead os d os an os 1950, d an d o ên fase às id eias sobre p esq u isa clín ica, d ocên cia e aten ção m éd ica d efen d id as p or Alfred o Lan ari n o Prim eiro Con gresso d e Ed u cação Méd ica d a Associação Méd ica Argen tin a (1957). A fu n d ação d o Observatório d e La Plata (1882-1890) é tem a d e Marin a Riezn ik, d a Un iversid ad d e Bu en os Aires, que estuda o even to n o con texto das disputas suscitadas por m issões in tern acion ais para a observação da passagem de Vên us dian te do Sol, que en volveram prin cipalm en te o diretor do Observatório de Córdoba, o govern ador da provín cia de Buen os Aires e m em bros do Bureau des Lon gitudes da Fran ça.
Lean dro Belin aso Gu im arães, da Un iversidade Federal de San ta Catarin a, an alisa com o se con solidaram , n o Brasil da Prim eira Repú blica, processos discu rsivos, sociais e políticos que n acion alizaram a Am azôn ia. Utilizan do textos de Euclides da Cun h a, m ostra que estava em op eração u m m od o d e ver e n arrar a floresta d istin to d o en con trad o em relatos d e viagem escritos por n aturalistas ao lon go do século XIX. Valéria Zan etti e colaboradoras, da Un iversid ad e d o Vale d o Paraíba e d o Nú cleo d e Pesq u isa Pró-Mem ória d e São José d os Cam pos, escrevem sobre a tran sform ação dessa cidade, n os an os 1930, em Estân cia Clim atérica para o tratam en to da tuberculose pulm on ar. Recorrem prin cipalm en te ao periódico editado pelos tisiologistas locais, Boletim Médico, além de fon tes correlatas e m ostram que a con dição de Estân cia era, sim ultan eam en te, am eaça à população da cidade e força m otriz da econ om ia local, baseada, até a década de 1950, quase que exclusivam en te n a exploração da doen ça.
Flavio Coelh o Ed ler, d a Casa d e Oswald o Cru z, assin a “Pesq u isa clín ica e exp erim en tal n o Brasil oitocen tista: circu lação e con trole do con h ecim en to em h elm in tologia m édica”. Mostra q u e as con tribu ições de m édicos brasileiros ao con h ecim en to sobre doen ças cau sadas p or verm es p arasitas, du ran te a segu n da m etade do sécu lo XIX, p rodu ziu efeitos distin tos em três com u n id ad es ep istêm icas: a an atom oclín ica brasileira; a geografia m éd ica fran cesa; e a em ergen te p arasitologia m édica. Adm itin do a h eterogen eidade dos regim es de legitim ação d os fatos cien tíficos e das p ráticas ep istem ológicas observad as p or cad a u m a dessas trad ições, d escreve u m a cartografia d o con h ecim en to m éd ico d a ép oca e revela as lin h as d e força d os três cam p os discip lin ares.
Os lim ites d e u m a carta d e ed itor m e im p ed em d e falar sobre ou tros m ateriais im p ortan tes q u e o leitor en con trará n as p ágin as a segu ir. Asp irem fu n d o, caros leitores, o ar am en o d a p rim avera q u e ora se in icia: estam os em vésp eras d e eleições e, ap esar d a cam p an h a p ífia, esp erem os q u e refloresçam os id eais d e tran sform ação n a alm a coletiva e n o p eito d e cad a u m d e n ós.
Jaim e L. Benchim ol