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Políticas públicas: a construção das noções de

pobreza no Programa Bolsa Família

Vanessa Oliveira Mesquita

Lenise Santana Borges

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

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Políticas Públicas: a construção das noções de

pobreza no Programa Bolsa Família

Vanessa Oliveira Mesquita

Pontifícia Universidade Católica de Goiás

Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, como exigência para obtenção de título de Mestra em Psicologia, sob a orientação da profª. Drª. Lenise Santana Borges.

Banca Examinadora

________________________________________ Drª Lenise Santana Borges (PUC/GO) Presidente da Banca e Professora Supervisora ________________________________________ Drª Sônia Margarida Gomes Sousa (PUC/GO) Membro Interno ________________________________________ Drª Jacy Correa Curado (FCH/MS e UFGD/MS) Membro Externo ________________________________________ Drº Pedro Humberto Faria Campos (PUC/GO) Membro Suplente

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AGRADECIMENTOS

A Deus, que me oportunizou chegar até aqui com saúde.

Aos meus pais, Luciene e Idelton, que sempre me guiaram na busca do aprendizado constante.

À professora Dr.ª Lenise, que me acolheu tão bem e não mediu esforços para me ensinar. À professora Dr.ª Sônia Margarida, que fez grandes colaborações durante a qualificação desta pesquisa, e por aceitar participar da banca examinadora.

À professora Dr.ª Jacy Correa Curado, sempre tão solícita, fez grandes contribuições para a melhoria deste estudo.

Aos colegas do Grupo Construção de Fatos Sociais: juntos, conhecemos um novo mundo de possibilidades.

Ao meu noivo, Paulo Henrique, que esteve comigo nesta jornada me dando muito apoio. Às calorosas amigas das horas de angústia e colegas de pesquisa, Ednalva e Lucinéia. À minha amiga/cunhada, Ellen, que sempre me ensinou como é importante pesquisar e me acompanhou durante todo o mestrado.

À Secretaria Municipal de Assistência Social, por ter aberto as portas possibilitado a realização da pesquisa.

À equipe do CRAS, sempre tão aberta a dividir.

Aos participantes da pesquisa, que prontamente se dispuseram a participar e a contribuir. Aos colegas de trabalho, Liomar e Neyton, que me auxiliaram na formatação do trabalho. À Programa de Pós-graduação e Pesquisa Stricto Sensu em Psicologia– PSSP, na pessoa do professor Dr. Cristiano Coelho.

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iii Mesquita, V. O. (2014). Políticas Públicas: a construção das noções de pobreza no

Programa Bolsa Família. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social). Pontifícia

Universidade Católica de Goiás: Goiânia, 2015.

RESUMO

A pobreza é percebida como um desafio para as Nações Unidas e, por isso, são formuladas políticas públicas que combatem a pobreza em âmbito mundial. No Brasil, a criação de políticas públicas assistenciais também têm se apresentado como um desafio. Diferentes áreas de estudos dão atenção a esse fenômeno e a grande maioria deles tem enfoque interventivo na busca por sua superação. Esta pesquisa estuda a pobreza, com enfoque nas políticas públicas, sob o olhar da Psicologia Social Crítica e a partir do movimento do Construcionismo Social, da Teoria Ator Rede e da governamentalidade. Objetiva-se a compreensão dos sentidos nas noções de pobreza existentes na Política de Assistência Social, mais especificamente do Programa Bolsa Família. A pesquisa foi realizada no município de Rio Verde-GO e teve como fontes de informação: documentos de domínio público que envolvem a temática, observações e entrevistas. Foram analisados os sentidos atribuídos à pobreza pelos/as profissionais e beneficiários/as que trabalham diretamente com o benefício de transferência de renda. A análise ocorreu a partir da metodologia das Práticas Discursivas, com o uso de Mapas Dialógicos, Linha Narrativa e Árvores. Em análise, pôde-se observar que as questões de gênero estão muito presentes no Programa e que nem sempre as profissionais que estão à frente da política têm essa percepção tão clara. Diferentemente de outras pesquisas, nesta não se observou o efeito de empoderamento das beneficiárias que recebem o dinheiro. Nos sentidos apreendidos pelas beneficiárias, o dinheiro recebido se caracterizou como um recurso gerador de autonomia. Observou-se, também, no discurso das beneficiárias e das profissionais, uma dialogia existente entre estudo e mercado de trabalho, que coloca a educação como um aspecto de superação da situação atual. Emergiu, no estudo, um descrédito por parte das beneficiárias com relação ao Programa Bolsa Família, em virtude da não compreensão sobre o funcionamento da política. A noção de pobreza para as profissionais entrevistadas perpassa a questão da vulnerabilidade biopsicossocial. Tanto as profissionais, como as beneficiárias, respondem aos efeitos produzidos pelos documentos de domínio público de maneira semelhante. Nos documentos, a noção de pobreza é percebida como um problema da sociedade atual e que, portanto, deve ser combatido. Os dados estatísticos e indicadores encontrados promovem uma naturalização da pobreza.

Palavras-chave: Psicologia Social; Construcionismo Social; Práticas Discursivas;

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iv Mesquita, V.O. (2014). Public Policies: The formation of Poverty Notion over the Bolsa

Familia Program. Dissertation. (Social Psychology Master´s Degree) Pontifícia

Universidade Católica de Goiás: Goiânia, 2015.

ABSTRACT

Poverty is an object of attention and a battle for several nations. In this context, public policies are created in order to eradicate poverty around the world. In Brazil, those policies have been presented as a challenge. Different fields of study focus on the phenomenon, most of them with intervention approaches in search of overcoming poverty. The aim of this research was to study the phenomenon by approaching the public policies under the Critic Social Psychology from the Social Constructionism movement, Actor-Network Theory and governmentality. It aims to seek the understanding of the existing poverty in the Politics of Brazilian Social Assistance, specifically of the Bolsa Familia Program. The research was held in Rio Verde–GO and information about the theme was obtained from public documents, observation and interviews. The poverty meaning was analyzed by the professionals and by the beneficiaries who work directly with the income transferring benefit. The analyses were performed through the method of discursive practices, by using Dialogic Method Map, Narrative Research and Research Tree. Through analyses it could be observed that gender issues are very common in the Program and those who are ahead of the politics don´t have this perception quite clear. Unlikely other researches, this one did not observe the effect of empowerment of beneficiaries who receive the benefit. In the feelings comprehended by the beneficiaries the money received was characterized as a generator of autonomy resource. It was also noted in the speech of the beneficiaries and professionals an existing dialogy between study and the labor market, putting the education as a function to overcome the current situation. It emerged between the effects of the professional's procedures, a discredit toward the Bolsa Família Program because of the lack of the program's information. And the notion of poverty for these professionals permeates the issue of biopsychosocial vulnerability. Both, professionals and the beneficiaries, respond to the effects provided by the public domain documents in a similar manner. In the documents, the notion of poverty is perceived as a problem in today's society and that it must be fought. Statistical data and indicators promote a nationalization of poverty.

Key words: Social Psychology, Social Constructionism, Discursive Practices, Public

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1. Rede de assuntos tecidos na entrevista com as profissionais Figura 2. Rede de assuntos tecidos na entrevista com as beneficiárias Figura 3. Árvore da formação profissional com o sentido do trabalho hoje Figura 4. Árvore da dialogia existente entre estudo e trabalho

Figura 5. Árvore da dialogia existente entre informações escassas sobre o funcionamento do Programa e descrédito na política.

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Caracterização socioeconômica das beneficiárias Tabela 2 - Caracterização socioeconômica das profissionais

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SUMÁRIO

ENCONTRO COM O TEMA... 1

01 - MOVIMENTOS DA PSICOLOGIA E SEUS EFEITOS EM RELAÇÃO À CONSTRUÇÃO DAS NOÇÕES DE POBREZA ... 10

Percurso metodológico ... 16

Documentos de Domínio Público ... 19

Observações no cotidiano ... 21

Entrevistas ... 25

02 - A POBREZA SOB O OLHAR CONSTRUCIONISTA ... 38

Por que Construcionismo? ... 38

O fenômeno da pobreza ... 40

Ator rede, repertórios, vozes e dialogia ... 42

Garimpando os vários sentidos sobre a pobreza na história ... 44

03 - A POBREZA COMO POLÍTICA PÚBLICA... E O NASCIMENTO DO PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA ... 48

Governamentalidade ... 48

Caminho a ser seguido pelas políticas públicas socioassistenciais contemporâneas .. 52

A dita pobreza calculada ... 54

De onde partimos? ... 57

O surgimento do Programa Bolsa Família ... 58

O Programa Bolsa Família e seus efeitos ... 60

04 - A DESCONSTRUÇÃO: Limites e possibilidades do Programa ... 65

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 70

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APÊNDICE – Banco de dados Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações 79

ANEXOS ... 81

ANEXO I - Quadro de Documentos de Domínio Público ... 82

ANEXO II - Linha Narrativa - Relatório da Observação da Reunião do Programa Bolsa Família – 25/03/2014. ... 90

ANEXO III - Roteiro entrevista – beneficiárias ... 94

ANEXO IV - Roteiro entrevista – profissionais ... 95

ANEXO V - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para as Beneficiárias ... 96

ANEXO VI - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para as Profissionais .... 99

ANEXO VII - Questionário socioeconômico ... 102

ANEXO VIII - Mapa Dialógico – Noções de Pobreza sob o enfoque do Programa Bolsa Família para as beneficiárias... 103

ANEXO IX – Mapa Dialógico – Noções de Pobreza sob o enfoque do Programa Bolsa Família para as profissionais... 113

ANEXO X – Parecer Comitê de Ética e Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Goiás... 133

ANEXO XI – CD-ROM com as transcrições na íntegra das entrevistas e com as transcrições sequenciais. ... 136

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ENCONTRO COM O TEMA

Esta pesquisa surge no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Processos Psicossociológicos do Programa de Mestrado da Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Como proposta, este estudo alinha-se a estudos voltados à promoção da equidade das relações entre riqueza e pobreza, partindo do pressuposto de que o fenômeno da desigualdade social é fruto de construções sociais.

Entende-se por construções sociais as visões de mundo, ou seja, situações criadas em sociedade que são naturalizadas e, por consequência, acabam assumindo um caráter de verdade, de modo que são percebidas como a única forma possível de existir para aqueles/as que nela acreditam. A construção social é utilizada, geralmente, para designar um fato que expresse uma ação. Sendo assim, quando uma construção social é retratada, pensa-se em algo que é gerador e/ou mantenedor de uma dada situação.

Na presente pesquisa, questiona-se o fenômeno da pobreza, partindo-se da crença de que este é um fator construído socialmente. Hoje, a pobreza tomou proporções em nível mundial, de maneira que muitos esforços se voltam para o combate desse fenômeno. Um fator demonstrativo desta situação é a atenção que as Nações Unidas dispensam ao fenômeno da pobreza.

As Nações Unidas compreendem e apresentam a pobreza como um desafio. Tanto que este órgão promove a inclusão de programas voltados às políticas públicas que combatem a pobreza em âmbito mundial. No Brasil, a criação de políticas públicas assistenciais também têm se apresentado como um desafio para os nossos governantes.

Enquanto profissional atuante na política socioassistencial brasileira, voltada à Psicologia Social, percebo o quanto essas políticas em fase de desenvolvimento são

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2 carentes de pesquisas e estudos. Por isso, posiciono-me como orientadora e psicóloga social, na busca de uma melhor compreensão sobre o fenômeno estudado.

Como orientadora social, atuei durante um ano no CRAS. Neste período, adquiri experiência com a atuação em programas, projetos, serviços e/ou benefícios socioassistenciais. Conheci a Política Nacional de Assistência Social, atuei na recepção e oferta de informações às famílias usuárias do CRAS e na Mediação dos processos grupais, próprios dos serviços de convivência e de fortalecimento de vínculos ofertados no CRAS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2009).

Na posição de psicóloga social comprometida com a população em vulnerabilidade social, composta por crianças, adolescentes, mulheres e idosos/as, atuo na compreensão da dimensão subjetiva dos fenômenos sociais e coletivos, envolvendo proposições de políticas e ações relacionadas à comunidade em geral (Conselho Regional de Psicologia 09, 2012).

Assim sendo, utilizo-me da postura socioconstrucionista, vinculada à Psicologia Social Crítica, como recorte teórico-metodológico para o presente trabalho, pois avalio ser este o mais adequado como posicionamento temático/político para o desenvolvimento desta pesquisa. Para isso, tomo como orientação dois aportes teóricos que se complementam para justificar a realização deste estudo: o Construcionismo Social e a Teoria Ator Rede.

O aporte construcionista é percebido como um olhar crítico em Psicologia Social, pois visa a compreender os processos que foram naturalizados pela sociedade através da institucionalização das questões tidas como verdade. O construcionismo é considerado um Movimento, pois autores que endossaram o início da corrente, como Ibáñez (2001), relatam que o Construcionismo Social não tem nenhuma pretensão de se tornar mais uma teoria, nem objetiva criar uma verdade inquestionável. Ao contrário, para os defensores

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3 desse aporte, devem-se questionar as verdades estabelecidas pelas Teorias que são previamente construídas.

O aporte da Teoria Ator Rede vem ao encontro do Movimento do Construcionismo Social, pois essa Teoria entende os fatos como sendo construídos por meio e ações de uma rede, o que torna esses fatos uma realidade inevitável e inquestionável. Assim, verifica-se que as ações existentes são compreendidas a partir de um emaranhado de elementos que não podem ser analisados de modo instantâneo ou mesmo superficial. Assim, é necessário adotar uma postura para entender as redes como algo que vai sendo tecido, de modo a interligá-las, observando os elementos nelas envolvidos. De acordo com essa corrente, a rede é construída por elementos humanos e não humanos (Latour, 2012).

Desta forma, este estudo é norteado por uma constante problematização de ideias e de conceitos, provindos do Movimento Construcionista e da Teoria Ator Rede. De acordo com Spink (2004), esse movimento provém da junção de outros três movimentos: Filosofia, Política e Sociologia do Conhecimento. Esses três movimentos vão configurar o movimento como um todo. A Filosofia se apresenta como uma reação ao representacionismo, ou seja, uma reação à possibilidade de a ciência espelhar a realidade. A Política, assim como a Filosofia, busca a descentralização de poderes de grupos socialmente marginalizados. A contribuição da Sociologia parte da ideia de desconstrução da retórica sobre a verdade, ou seja, da reflexão sobre os discursos construídos e repetidos de maneira naturalizada.

A desconstrução é vista pelo Construcionismo como um movimento de desenraizamento das crenças construídas por nossa cultura. Assim como sugere Spink (2004), neste trabalho, utiliza-se o termo desfamiliarização junto às reflexões produzidas por esta pesquisa. Compreende-se que, dificilmente, um trabalho acadêmico ou uma pesquisa em si, conseguem descontruir realidades pré-construídas.

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4 O que as reflexões propostas permitem é desfamiliarizar construções conceituais e criar espaços para novas construções. O lugar dessa pesquisa visa a possibilitar a convivência de conceitos novos e antigos, permitindo sempre uma ressignificação de verdades naturalizadas. A pesquisa buscou desfamiliarizar conceitos ligados à pobreza e as políticas públicas atuais.

Um dos pioneiros do Movimento Construcionista, Keneth Gergen (1985), assinala que o conhecimento não é produto de indução ou de construção de hipóteses e, dessa forma, abandona a crença no conhecimento pela informação. Para o autor, a postura construcionista volta-se ao desenvolvimento de dúvidas e contrastes existentes nas convenções linguísticas. Para ele, ao se estudar a linguagem, incluindo sua natureza e função, deve-se atentar aos problemas nela existentes. E esses problemas devem ser entendidos e analisados como elementos distintos que se sobrepõem.

No presente estudo, problematizam-se a natureza e as funções existentes nas noções de pobreza sob o olhar do Construcionismo Social. Entende-se, aqui, o termo pobreza como um artefato social, construído historicamente, situado entre as pessoas e que, ao ser subdividido em elementos, poderá clarificar as construções sociais existentes no artefato social1.

Keneteh Gergen (1985), no texto “O Movimento do Construcionismo Social na Psicologia Moderna”, define artefato social da seguinte maneira: “Os termos em que o mundo é conhecido são artefatos sociais, produtos de intercâmbios historicamente situados entre pessoas” (Gergen, 1985, p.267).

Entende-se o artefato social como uma construção humana que dá indícios sobre a constituição do elemento analisado, tal como o contexto no qual o elemento está inserido e

1 Utiliza-se o termo “sentidos” no plural, pois quando construído um sentido, o seu discurso traz consigo

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5 as relações humanas ligadas a ele. Por exemplo, os modos como as questões se apresentam e são reconhecidas são considerados artefatos sociais (Spink, 2004).

Neste processo de compreensão dos elementos que envolvem as noções de pobreza, o estudo permite tecer redes de interligações que consolidam e reafirmam as noções de pobreza existentes a partir da Teoria Ator Rede, proposta por Bruno Latour. A teoria de Latour (2012) propõe uma simetria entre atores humanos e não humanos. Esses atores não humanos são compreendidos por Latour (2012) como agentes que produzem efeitos no mundo e modificam nossas ações. Entende-se por não humanos as materialidades que performam a realidade, ou seja, são elementos atuantes no contexto onde estão inseridos. Na rede sociotécnica de uma dada concepção, em nosso caso, investigamos que na rede sociotécnica da pobreza, há um conjunto de artefatos sociais como: Leis, Decretos, artigos que compõem a estrutura e mobiliza a manutenção da desigualdade social (Latour, 2012).

As Leis são artefatos sociais que compõem o conjunto de elementos não humanos. Ou seja, é uma materialidade que influencia e performa realidades. Ao mesmo tempo, a Lei é considerada um artefato, pois ela é criada pela população ou por representantes dessa população e, como tais, eles representam os interesses da comunidade que os projetam.

A pesquisa desvincula-se da crença de que a desigualdade social é inerente às sociedades modernas e de que a pobreza é um fenômeno natural. De acordo com Iñiguez (2003), as verdades existentes, tidas como prontas e inacabadas, devem ser questionadas. O estudo das populações pobres, analisando-se apenas as pessoas de baixa renda, recai na individualização do problema. Ou seja, coloca-se a causa do problema nessas pessoas e, ainda, caracteriza-se a situação como algo inalterável. Nesta pesquisa, compreende-se que a desigualdade social foi construída e não é um fenômeno que deve sempre existir.

A produção de sentidos das diferenças sociais retrata o próprio processo de nomeação, configurado a partir das interações sociais coletivas. Quando um sentido é

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6 repetido por vários anos ele se “naturaliza” e passa a ser parte de uma estrutura hegemônica, ou seja, torna-se uma noção. Por sua vez, a noção pertencente às instituições se configura como uma matriz (Melo, 2008).

Ian Hacking (2001) discorre sobre o conceito de matriz e pontua sobre a realidade a ser socialmente construída. Para o autor, as ideias fazem parte de um local, de uma matriz de pensamento que deve ser questionada para ser compreendida. Os questionamentos de um estudo, para Hacking (2001), devem se voltar, primeiramente, para o seu significado de existência: saber o objetivo das verdades mantidas nas experiências que construímos socialmente. Deve-se, portanto, compreender o objeto de estudo pertencente a um mundo de ideias que não nascem no vazio e que formam as matrizes do pensamento.

A matriz das noções de pobreza será direcionada a partir dos questionamentos de Ian Hacking (2001) que podem ser assumidas a partir da seguinte premissa: para que um fenômeno social qualquer (X) exista, ele não precisaria ter existido anteriormente, ou ser exatamente como é no momento presente; o fenômeno social não está determinado pela natureza das coisas e não é inevitável. Hacking, ao formular essas teses, problematiza a forma de olhar o mundo, pondo todos os tópicos abertos à desconstrução.

Nessa pesquisa, reescrevem-se as teses formuladas por Hacking (2001) e reproduzidas na sociedade brasileira a partir de diferentes instituições, tais como o governo, a escola, a família, a igreja. Essas teses se apresentam como: não seria necessário que a noção de pobreza existisse, ou não é necessário que ela seja como é. A noção de pobreza, tal como é no momento atual, não está determinada pela natureza das coisas, não é inevitável; a noção de pobreza é bastante ruim, tal como é; seria muito melhor se a noção de pobreza fosse eliminada ou que, pelo menos, fosse radicalmente transformada. Na atual situação, supondo a noção de pobreza, ela parece ser inevitável.

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7 A pobreza é um fenômeno real fruto das relações desiguais em um nível macrossocial. O nível de discussão dessa pesquisa está no nível da linguagem. Todos esses questionamentos e teses são compreendidos a partir do ponto de vista de que a linguagem é fruto de produções cotidianas. Tendo por foco a linguagem empregada para a construção das noções sobre pobreza, justifica-se a escolha das Práticas Discursivas como método de estudo nesta pesquisa.

Segundo Spink (2004), nesse tipo de abordagem, o cotidiano assume posição de destaque, pois o interesse recai sobre a linguagem em uso, ou seja, refere-se às práticas sociais que circulam no dia-a-dia da conversação. Nesse tipo de análise, o foco se dirige para a dinâmica, as formas, os conteúdos e os repertórios linguísticos que as pessoas constroem nas relações sociais cotidianas (Spink, 2000).

As produções discursivas cotidianas implicam em ações, seleções, escolhas, linguagens, contextos, enfim, em uma variedade de produções sociais que são repetidas diariamente e que promovem a manutenção do fenômeno da pobreza. Os autores e teorias citados anteriormente se mantêm atentos às noções existentes e proporcionam um debate conceitual e prático, analisando, crítica e historicamente, a realidade política, econômica, social e cultural.

A partir desse breve panorama teórico, o objetivo central desta pesquisa é compreender os sentidos atribuídos às noções de pobreza na Política Pública de Assistência Social. São objetivos específicos: mapear os rumos da Política de Assistência no Brasil, especificamente no Município de Rio Verde-GO; analisar os discursos sobre o Programa de Transferência de Renda; compreender os sentidos atribuídos ao Programa Bolsa Família por parte dos beneficiários e dos profissionais 2.

2 Sob o referencial de Spink (2004,) utiliza-se o termo “noções” no plural, uma vez que o presente trabalho

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8 Para tais buscas, a presente pesquisa teve como fontes de informação os documentos de domínio público que envolvem a temática, além de observações e entrevistas. O percurso metodológico deste trabalho envolveu, em um primeiro momento, a pesquisa e a leitura dos documentos de domínio público, entendidos a partir da conceitualização de Peter Spink (2000). Documentos de domínio público, segundo o autor, são produtos sociais tornados públicos que assumem formas diversas: diários oficiais, registros, relatórios, etc. O segundo momento deu-se pela busca das vozes – documentos oficiais, técnicos/as, beneficiários/as – presentes nos processos de produção de sentidos envolvidos na produção de noções sobre a pobreza (Spink, 2004).

A temática da pesquisa foi delimitada no âmbito da Assistência Social brasileira, mais especificamente a partir do Programa Bolsa Família, um programa de transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza em todo o país. No contexto governamental, a definição de pobreza refere-se “ao estado da falta daquilo considerado necessário à vida; é, portanto, a privação ao bem estar biopsicossocial” (MDS, 2013).

A partir da problematização dessa concepção de pobreza, propus-me a investigar a temática por distintos ângulos, tomando como caminho três diferentes procedimentos: revisão bibliográfica, observação e entrevistas. Interessada em compreender a rede conceitual que envolve o debate sobre a pobreza, objetivei, no primeiro capítulo desta dissertação, “Movimentos da Psicologia e seus efeitos em relação à pobreza”, apresentar um levantamento da produção acadêmica sobre essa temática e os efeitos dessas produções. Também apresento os procedimentos de coleta e análise de dados baseados no método das Práticas Discursivas, com o uso de Mapas Dialógicos, Linha Narrativa e Árvore.

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9 O segundo capítulo segue com a apresentação do “Olhar construcionista sobre a temática da pobreza”. Esse espaço destaca os repertórios que surgiram nos documentos de domínio público e, também, durante as entrevistas. Neste capítulo, são ressaltadas as vozes de beneficiárias e profissionais que se fizeram ouvidas e a dialogia existente entre o fenômeno e as noções de pobreza que emergiram durante o estudo.

Após uma busca da compreensão do fenômeno pobreza, o terceiro capítulo apresenta “A pobreza como política pública e o nascimento do Programa Bolsa Família”. Neste espaço, visa-se a compreender como os conceitos de governamentalidade e de biopoder, estabelecidos por Foucault, se entrelaçam com o histórico do programa. A partir dessa compreensão, o trabalho visa a captar os efeitos produzidos pelo Programa Bolsa Família destacando, então, os efeitos existentes nas noções de pobreza e nas questões de gênero.

Na tentativa de questionar a realidade existente, a pesquisa tece o quarto capítulo, “A desconstrução”, no qual se consideram as noções de Pobreza levantadas na Política de Assistência Social e no cotidiano das pessoas, além da forma como essas noções constroem e mantém a realidade existente hoje, demonstrando os Limites e Possibilidades do Programa.

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01 - MOVIMENTOS DA PSICOLOGIA E SEUS EFEITOS EM RELAÇÃO À CONSTRUÇÃO DAS NOÇÕES DE POBREZA

Com o intuito de conhecer melhor a produção acadêmica brasileira voltada à temática da pobreza, foi feito um levantamento de artigos publicados na base de dados do

Scielo. O levantamento foi realizado com os seguintes descritores: psicologia, pobreza,

políticas públicas, Construcionismo Social, Práticas Discursivas, Teoria Ator Rede, Bolsa Família. Todos os descritores foram combinados entre si e, ao todo, foram encontrados 178 artigos.

Os descritores relacionados com a quantidade de artigos foram: pobreza e políticas públicas (78), psicologia e políticas públicas (39), pobreza e bolsa família (25), psicologia e Construcionismo Social (14), Construcionismo Social e Práticas Discursivas (07), pobreza e psicologia (6), psicologia e Teoria Ator Rede (5), psicologia e Práticas Discursivas (2), pobreza e Construcionismo Social (1), pobreza e Práticas Discursivas (1).

Os estudos encontrados com a temática da pobreza e políticas públicas (78), em sua maioria, são da área da economia (14), seguidos de estudos com mais de uma área de atuação (11). Os restantes são específicos de áreas diversas do conhecimento (53). Entre esses 53 artigos de áreas específicas, quatro são da psicologia. Diante desse levantamento, pode-se notar que a produção científica de enfoque psicológico relacionado à temática da pobreza e às políticas públicas ainda é muito reduzida.

Silvia Lane, filósofa dedicada a estudos e pesquisas no campo da Psicologia Social, com revisão crítica e aperfeiçoamento metodológico permanente, apresenta o percurso histórico dessa área da psicologia. Lane (2006) discorre que a ação da Psicologia Social no Brasil se restringe geralmente a três campos específicos: a universidade, atuando em

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11 pesquisas; a indústria, direcionada às relações humanas; o mercado de manipulação da opinião pública, a serviço de minorias dominantes.

Apresenta-se um breve histórico da conjuntura do contexto atual na tentativa de compreender os motivos que moveram a produção da psicologia brasileira em sentido oposto às práticas sociais. Rodrigues (2013), ao narrar a história da Psicologia no Brasil, revela que para compreender a constituição da Psicologia hoje deve-se remeter ao período pré-institucional, que vai desde a colonização, no século XV, até o surgimento das faculdades de ensino superior, no início do século XIX.

Já no período colonial, o Brasil apresentou trabalhos voltados a métodos de ensino, controle de emoções, causas da loucura, diferenças de comportamentos entre sexos e raças, questões influenciadas pelo pensamento europeu. Assim, o período pré-institucional foi reconhecido pela temática que visava à promoção do bem-estar do corpo e do espírito (Rodrigues, 2013).

O período subsequente na Psicologia brasileira foi nos séculos XIX e XX, no qual a Psicologia foi reconhecida como científica. No Brasil, um dos marcos desse período foi a criação das faculdades de Medicina, na Bahia e no Rio de Janeiro. A partir de então, ramificaram-se a outros campos como filosofia, direito, pedagogia e moral. A psicologia brasileira começa, assim, a definir sua autonomia, principalmente, com pressupostos positivistas já direcionando os rumos da psicologia (Rodrigues, 2013).

Rodrigues (2013) reforça que o desenvolvimento da psicologia no Brasil se direcionou também pelo movimento socioeconômico do país. Então, fatores externos à própria ciência e ao país, como o desenvolvimento industrial e tecnológico, guiaram o crescimento da psicologia. Lane (2006), ao compartilhar de influências externas, reforça a importância do período das Grandes Guerras Mundiais sobre a Psicologia Social.

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12 Lane (2006) revela que, nos Estados Unidos, surge uma força voltada para o ajustamento e adequação de comportamentos individuais ao contexto social. Esse clima norte-americano influenciou os países da América Latina, incluindo o Brasil. A autora ressalta que, em 1950, o caráter apresentado pela psicologia era individualizante e elitista. Desta forma, a Psicologia Social era apresentada como aquela que resolveria todos os problemas sociais.

No período destacado acima, o Brasil incorporou a postura individualista e continuou a reproduzir o modelo norte-americano de Psicologia Social. Pode-se perceber tal influência na psicologia a partir do levantamento bibliográfico. Evidencia-se, aqui, uma postura tímida da psicologia frente à temática da pobreza e das políticas públicas (Rodrigues, 2013; Lane, 2006).

Na busca da visualização do panorama da atuação da Psicologia hoje, diante de questões relacionadas com políticas públicas, fez-se o levantamento na base de dados

Scielo. A pesquisa foi realizada a partir dos descritores psicologia e políticas públicas. No

total, foram encontrados 39 artigos publicados. Grande parte da produção é da psicologia da saúde (16), seguida da psicologia social (14), psicologia escolar (4), interdisciplinar (3), psicologia ambiental (1) e psicologia do trânsito (1). Na produção da Psicologia Social, verifica-se que alguns dos artigos encontrados situam-se no contexto da discussão sobre inclusão e exclusão social, porém, nenhum deles traz a perspectiva das práticas de intervenção nas situações de pobreza.

Entre os demais artigos encontrados no levantamento na base do Scielo, destaco o artigo dos autores Dantas, Oliveira e Yamamoto (2010). Eles apresentam uma revisão de literatura sobre a produção de conhecimento e a atuação do psicólogo enfocando a pobreza no Brasil. O artigo retrata as publicações atuais sobre a psicologia e a pobreza. A análise trazida pelo artigo propõe que a psicologia estuda, essencialmente, o atendimento a

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13 populações pobres, com o intuito de descrever o modo de vida e as formas de intervenção da população.

As pessoas de baixa renda apresentam-se como um estrato populacional e uma questão naturalizada por grande parte da produção da psicologia brasileira. Ou seja, tal representação reforça que as pessoas de baixa renda são uma parcela da população e os apresenta como um grupo vulnerável. É essa concepção que essa pesquisa busca dessencializar. Além disso, as publicações levantadas por Dantas, Oliveira e Yamamoto (2010) direcionam técnicas de aplicação e pesquisa com temáticas específicas. Muitos deles não descrevem os limites de atuação não prescritos, como as questões burocráticas e entraves políticos. Assim, tornam-se necessárias pesquisas que compreendam os limites estruturais de atuação (Dantas, Oliveira e Yamamoto, 2010).

A produção publicada na base de dados Scielo, relativa aos descritores pobreza e Bolsa Família, totaliza 25 artigos; oito deles com enfoque de multiáreas. Isso sinaliza que os estudos estão cada vez mais multidisciplinares. Estes são seguidos da produção de pesquisa da área da Economia (5), Saúde Pública (4), Ciências Sociais (2), Nutrição (2) e Política (2), Serviço Social (1) e Sociologia (1).

Ao observar as áreas de pesquisas que envolvem diretamente pobreza e Bolsa Família, verifica-se uma fragilidade do campo disciplinar, uma vez que não foi evidenciado nenhum estudo da área da psicologia. Essa análise do banco de dados Scielo demonstra uma ausência de estudos que discutem a temática da pobreza na psicologia brasileira. A fragilidade também se estende quando se trata, especificamente, do programa Bolsa Família. Isto porque, apesar de se apresentar como o maior programa de combate à pobreza no país, verifica-se a ausência de publicações da psicologia, no banco analisado, com foco direto no programa.

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14 Para contextualizar, resumidamente, o panorama de pesquisas brasileiras sobre a temática de interesse da presente pesquisa, foi feito um levantamento bibliográfico no banco de dados da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. O levantamento foi realizado a partir dos seguintes descritores: psicologia, pobreza e políticas públicas. A tabela está presente no Apêndice deste estudo e apresenta as produções encontradas nos últimos 12 anos.

Com essa busca, objetivou-se visualizar melhor as pesquisas nos Programas de Pós-graduação Stricto-sensu das Instituições de Ensino Superior. Ressalta-se que o objetivo não era fazer um censo, mas apresentar, em linhas gerais, aspectos dessa produção, tais como título, autor, instituição vinculada, ano e assunto abordado.

A diversidade de áreas que emergiu desse levantamento denota os diferentes enfoques e olhares dentro da Psicologia. Áreas ligadas à Psicologia Social, Psicologia da Saúde, Psicologia Educacional e Psicologia Sócio Histórica foram desenvolvidas com temáticas diversas, sendo elas: família, SUS, inclusão social, formação de profissionais, diferentes formas de violência, compromisso social e Assistência Social.

Ainda, ao se tratar de psicologia e Bolsa Família, a pesquisa de doutorado da psicóloga social, Jacy Curado, merece destaque, pois além de compartilhar o interesse pela temática, a pesquisa teve como referencial teórico e metodológico a abordagem socioconstrucionista. Curado (2012b) aponta dois enfoques sobre a pobreza na Psicologia Social brasileira: o enfoque dos processos de inclusão e exclusão social e o enfoque das práticas de intervenção que permeiam a prevenção e a promoção da saúde e da cidadania.

Entende-se que toda essa produção levantada “cria” realidades, portanto, deve ser entendida como elementos não humanos mantenedores das noções de pobreza existentes hoje. A produção psicológica brasileira apresentada, em meios abertos de circulação de dados, como a base de dados do Scielo, é ainda ínfima quando se trata do tema pobreza.

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15 A maior parte das pesquisas produzidas parte do pressuposto de que elementos humanos são fundamentais e, por isso, elas optam por focar apenas neles durante as produções. Entre as pesquisas que valorizam apenas os elementos humanos, observa-se um caráter naturalizante da pobreza. De tal forma que, em muitos estudos, o olhar sobre a temática coloca o fenômeno da pobreza como parte essencial da existência das sociedades atuais.

Nas produções pesquisadas, nota-se um caráter de combate, utilizando o elemento humano como primordial e necessário ao enfrentamento da situação de pobreza. A metodologia destas pesquisas é, em geral, de caráter qualitativo (Botarelli, 2002, Ferreira, 2013; Paiva, 2008, Da Silva, 2007; Storoli, 2007; Urnau, 2013). Apesar de sutil, surgem pesquisas envolvendo a temática da pobreza com um olhar mais crítico e inovador quanto à metodologia utilizada (Carvalho, 2007; Curado, 2012ª; Melo, 2008; Nogueira, 2013; Silva, 2007).

Ainda com caráter essencializador, alguns estudos reforçam a ideia de tomada de consciência e a ação/inação da população na manutenção da pobreza (Urnau, 2013). Já outros estudos apontam o caráter humano, porém, apresentam também a devida relevância dos elementos não humanos, tais como prontuários, decretos e leis (Carvalho, 2007; Melo, 2008; Nogueira, 2013).

Ao longo da construção desta pesquisa, as temáticas do trabalho e de gênero tomaram força e espaço no estudo. Ao tecer as redes de elementos humanos e não humanos, em várias conexões, observávamos as temáticas ligadas às noções de pobreza. Por isso, além do levantamento do Banco de Teses e Dissertações, a presente pesquisa atentou-se para os seguintes estudos que vão diretamente ao encontro desta temática.

O texto “Gênero e os sentidos do Trabalho Social” (Curado, 2007) apresenta a relação construída nesta pesquisa que conjuga trabalho social e as relações de gênero. Ao

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16 investigar o modo pelo qual o gênero se articula com o tema das políticas públicas, destaca-se o livro “Gênero e Políticas Públicas: a construção de uma experiência de formação”, o qual enfatiza as questões relativas ao empoderamento das mulheres por conta da titularidade recebida nas políticas nacionais (Curado & Auad, 2008).

Também em contribuição ao olhar desta pesquisa sobre o empoderamento de mulheres, há a dissertação intitulada “Os significados do Programa Bolsa Família na vida das mulheres: um estudo na comunidade Morro da Vitória” (Peixoto, 2010). Este estudo retrata a centralidade da família como lugar prioritário de cuidado, relacionando à questão de gênero. A pesquisa conclui os significados do Programa Bolsa Família na vida das mulheres pesquisadas, atribuindo um caráter de autonomia às mulheres no interior da família, porém, ao mesmo tempo, fortalecendo a ideia naturalizada da divisão sexual do trabalho entre homens e mulheres.

Percurso metodológico

A partir dos estudos anteriormente apresentados, o projeto desta pesquisa foi construído trilhando o caminho de dois encontros: a vivência prévia e a teorização apreendida. O percurso metodológico nesta abordagem ressalta as influências do próprio interesse da pesquisadora e também de sua vivência cotidiana sobre a temática. Na sequência, apresenta-se o retrato escolhido a ser percorrido por esta pesquisa.

O campo-tema deste estudo se vincula a mim a partir de um interesse próprio e de uma aproximação com a psicologia social. Desde o período de graduação, volto o olhar para a minha atuação dentro das políticas públicas. Ao ingressar como servidora pública, ainda em 2011, iniciei atuação como auxiliar administrativo no CRAS – Centro de Referência de Assistência Social. Neste primeiro momento, me deparei com uma

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17 burocracia bastante rígida e engessada quanto à forma de atuação do profissional no órgão. Em muitos momentos, surgiram questões conflitivas devido ao fato de que a realidade descrita na legislação é, muitas vezes, bastante distante da realidade vivenciada na prática.

Enquanto acadêmica, em estágios realizados ainda na graduação em psicologia, realizei atividades de grupos com famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, aproximando-me, ainda mais, do público estudado nesta pesquisa. Ao graduar, em 2012, iniciei-me na função de orientadora social na política de assistência social, cargo voltado ao desenvolvimento de atividades coletivas gerais com famílias de baixa renda. Neste momento, as questões levantadas previamente, sobre o acompanhamento familiar e a geração de autonomia, surgiram conjuntamente à aproximação da linha de pesquisa da Psicologia Social Crítica.

Mais uma vez o engessamento dos decretos, leis e normativas afetavam minha atuação, neste momento, já como técnica de nível superior na área da psicologia. Muitas estratégias projetadas, mesmo sendo viáveis e necessárias ao trabalho, eram inviabilizadas por não estarem prescritas de determinada forma nos decretos. As propostas da Política Nacional apresentavam um caráter generalista, ou seja, as orientações/cartilhas eram as mesmas para todos os CRAS do Brasil. Não havia pontos temáticos de intervenção específicos para cada realidade; a população atendida era sempre caracterizada como uma população vulnerável. Em 2014, atuando como psicóloga, a visão que já perdurava dentro da política era a de combate constante da pobreza. Todos esses questionamentos, enquanto profissional, adquiriram força durante a pesquisa de mestrado, que uniu o meu interesse por políticas públicas e pelas noções de pobreza apresentadas por elas.

A partir da prática cotidiana, percebi que um modelo possível para articular as diferentes noções de pobreza na política de assistência deveria ser menos rígido do que os modelos positivistas. O Construcionismo Social demonstrou ser um lugar que possibilitaria

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18 a maior liberdade metodológica. Deste modo, essa pesquisa se embasou em alguns modelos já apresentados previamente e também em construtos propostos por autores que já desenvolveram pesquisas na área do Construcionismo Social (De Luiz, 2011; Souza, 2006 & Spink e cols., 2014).

Nesse contexto, a pesquisa delineou-se rumo a preocupações com temáticas cotidianas, tais como os atores sociais e as suas vivências. Além de propor ênfase aos elementos humanos, a pesquisa buscou creditar também os elementos não humanos, de modo que a atenção voltou-se à proximidade social, isto é, a todos os lugares e momentos em que a relação social é enfatizada e até mesmo a elementos muitas vezes desconsiderados (Cardona, Cordeiro & Brasilino, 2014; Cordeiro, Curado e Pedrosa, 2014).

Assim, optou-se pelo seguinte modelo. Na coleta de dados foi feito o levantamento dos documentos de domínio público. O próximo passo deu-se com visitas institucionais de observações das reuniões de acompanhamento dos/as beneficiários/as do Programa Bolsa Família. Por fim, foram realizadas entrevistas com as beneficiárias e com as profissionais.

A utilização de recursos de análise, também visa à superação do modelo positivista. Desta forma, busca-se ir além da análise de tabelas. A pesquisa organizou-se também em torno de montagem dos Mapas Dialógicos, Árvore e Linha Narrativa. Essas diferentes técnicas tiveram seus momentos de complementação da pesquisa.

Esta pesquisa atendeu às orientações do Conselho Federal de Psicologia, segundo os critérios da Resolução nº 016, de 20 de dezembro de 2000, que dispõe sobre a pesquisa em psicologia com seres humanos (Brasil, 2000). Atendeu também à Resolução nº 466, de 12 de dezembro de 2012, do Conselho Nacional de Saúde, que aprova diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos (Brasil, 2012), conforme o

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19 parecer nº 558.549, consubstanciado do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Católica de Goiás (ANEXO XI).

Documentos de Domínio Público

Os autores Spink, Ribeiro, Conejo e Souza (2014) trazem uma definição clara do que são os documentos de domínio público. Para eles, documento é algo físico, produzido para leitura direcionada a um público em geral. Eles exemplificam esses documentos como formulários, portais, jornais, páginas da internet, livros. Os autores caracterizam os documentos materiais de livre acesso e possíveis de serem registrados pelos leitores, uma vez que um documento para ser público, necessariamente, deve permitir o acesso, a leitura, além da interpretação.

Em contraposição à ideia de abertura ao público, o documento de domínio público pode facilmente ter seu acesso “escondido” ou, ao menos, ter o acesso dificultado. Ao adotar uma postura de “tornar um documento mais público”, o/a pesquisador/a toma para si uma forma mais ativa para agir. Para Spink e cols. (2014), talvez essa seja uma das maiores dificuldades dos/as psicólogos/as sociais: adotar uma postura mais ativa e pós-construtiva.

Peter Spink (2000) escreve sobre os documentos de domínio público caracterizando-os pela vinculação de duas Práticas Discursivas: as práticas de gênero de circulação e as práticas de conteúdo. Ao retratar as práticas de circulação, o autor refere-se ao fato de os documentos de domínio público serem artefatos e, assim, eles se tornam públicos a partir da interação entre duas ou mais pessoas. Ao referir-se às práticas de conteúdo, Spink (2000) denota aquilo que está impresso e documentado e permite a livre compreensão daquele que tem acesso.

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20 Para atingir o objetivo da presente pesquisa, foram tomados por referência estudos acadêmicos que propiciam teorias e ferramentas de análise para a compreensão da problemática levantada. Tais referenciais foram considerados, pois servem à apreensão das noções de pobreza existentes, referenciais esses compreendidos como documentos de domínio público.

O documento, quando vinculado a uma prática de conteúdo, possui uma linguagem onipresente, em imagens e palavras, em relação ao conteúdo que expressa. Além disso, os documentos são produtos de um determinado tempo histórico e apresentam componentes significativos quanto ao cotidiano que expressam. Pelo caráter de interação, diz-se que os registros têm um caráter de ação social significativo e coletivo (Spink, P., 2000).

A partir do referencial de Peter Spink (2000), esta pesquisa compreende a ação social como uma das práticas mantenedoras de questões tradicionalmente naturalizadas, como a questão da pobreza no Brasil e no mundo. Por isso, a presente pesquisa se desenvolveu através da análise de documentos de domínio público, que se configura como uma das formas de compreensão da ação social. Entre os documentos levantados, obtiveram-se artigos científicos, textos de revistas, cartilhas de orientações, documentos oficiais como Leis, Decretos, Instruções Operacionais.

A perspectiva construcionista inova ao atentar-se, também, para os elementos não humanos. Um elemento não humano que faz parte dos documentos de domínio público são as leis. Dentro da perspectiva construcionista, a lei pode ser compreendida como um elemento não humano. As leis são criadas com o objetivo de regular as ações humanas, mostrando o que é legal ou ilegal, ou seja, a forma como uma pessoa deveria proceder diante de um código legislador. A lei, enquanto documento de domínio público, é um documento passível de análises.

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21 Ao se pensar na análise de um documento, deve-se buscar a compreensão dos elementos constituintes do documento de domínio Público (Spink & cols., 2014). E ao se analisar as leis, assim como outros documentos oficiais, observam-se três partes básicas: preliminar; normativa e final. A parte preliminar da lei traz informações tais como data, conteúdos expostos, o fundamento e a autoridade responsável. A parte seguinte é composta pela normativa, o texto propriamente dito, que discorre sobre a ordem jurídica. A parte final, por sua vez, tece comentários sobre as medidas necessárias para implantação das normas prescritas no conteúdo (Spink e cols., 2014).

A busca pela compreensão das leis e de outros documentos foi feita com o intuito de trazer à pesquisa o caráter mais ativista e disseminador possível. As Leis e os demais documentos oficiais foram coletados em sites oficiais. Esses documentos de domínio público foram organizados, neste estudo, em um quadro para facilitar sua visualização. Esse quadro foi pensado a partir das três partes que devem compor um texto oficial (ANEXO I) e foi organizado em colunas classificadas por: nome; ano; assunto; autor; fonte.

Observações no Cotidiano

Com o intuito de aumentar essa conexão de elementos envolvendo o fenômeno da pobreza, o trabalho constituiu-se, além dos documentos de domínio público, de observações e entrevistas. Neste estudo, considerou-se a importância dos atores sociais envolvidos e o sistema de cadastros, segundo Curado (2012a), ambos atores centrais na gestão das políticas socais contemporâneas. Por exemplo, o Cadastro Único é o sistema de cadastro responsável por coletar e processar dados e por definir as famílias em situação de vulnerabilidade social e aquelas que receberão os benefícios de transferência de renda.

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22 Simultaneamente ao levantamento dos documentos de domínio público, foram feitas visitas à instituição pesquisada. A instituição colaboradora foi o CRAS – Centro de Referência de Assistência Social “Dom Miguel”, no município de Rio Verde-Goiás. O processo de coleta de dados ocorreu durante os meses de março e abril de 2014. As visitas institucionais tiveram como objetivo: reconhecimento da instituição; acolhida com os profissionais; convite à participação da pesquisa por parte dos/as profissionais e beneficiários/as; as observações das reuniões do Bolsa Família e as entrevistas. Nos momentos das visitas institucionais foram feitos diários de campo, a fim de que os fatos observados não se perdessem. Além dos diários, foram feitos registros de observações de duas reuniões do Bolsa Família.

De acordo com Cardona, Cordeiro e Brasilino (2014), a observação na postura construcionista se dá através de um envolvimento, seja esse envolvimento por conflito, tensão ou até mesmo por colaboração entre pesquisador/a e participantes. O método da observação no cotidiano tem por foco a observação de detalhes dentro dos fenômenos sociais. Por isso, tem como premissa a observação inserida no cotidiano do observador.

Para esclarecer melhor esse cotidiano, Cardona e cols. (2014) descrevem o conceito de microlugares. Ao se utilizar esse termo, remete-se à ideia de acaso diário, ou seja, o local onde o trabalho social é desenvolvido no cotidiano. São nesses microlugares que os encontros diários com as pessoas e as materialidades acontecem, dando sustentação às práticas sociais.

A observação se dá, inicialmente, por meio dos contatos institucionais e interpessoais, através de negociações e de aceitação institucional. Nesse enfoque construcionista, a observação jamais é neutra. As próprias escolhas e caminhos para obter acesso às pessoas já é delineado pelo enfoque do/a observador/a. O delineamento

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23 construído pelo/a pesquisador/a é importante. Situar os/as leitores/as sobre como as decisões foram tomadas é relevante (Cardona & cols, 2014).

A postura adotada nesta pesquisa foi a construcionista, que permite uma perspectiva mais questionadora e menos rígida de observação. Ibáñez (2001) ressalta que, nessa postura, admite-se uma realidade dependente. Pressupondo que o observador deve questionar aquilo que tem como natural, o que nos é natural, na verdade, são produtos de uma internalização daquilo que vivenciamos, incluindo nossas características, convenções e práticas

O observador deve ater-se à postura que adotará durante os seus relatos. Deve, para isso, evitar uma falsa neutralidade nos fatos que captou, ou seja, caracterizar os eventos encontrados como substanciadas às condições humanas. Os fenômenos psicológicos, por serem práticas, são inevitavelmente contingentes, sociais e históricos. Tais elementos devem ser considerados em uma observação (Ibáñez, 2001).

Na presente pesquisa, foram observadas duas reuniões que acontecem mensalmente para acompanhamento dos beneficiários/as do Programa Bolsa Família, no CRAS. O objetivo das reuniões é orientar os/as beneficiários/as quanto aos direitos e deveres deles enquanto cadastrados no Programa. São feitas orientações com uma temática específica. A cada mês, a instituição escolhe uma temática para ser ministrada em um momento de palestra. O tema é eleito pelos técnicos e pela gestão, a partir das necessidades percebidas, ou por sugestão dos próprios participantes e das parceiras instituição.

A partir da observação desses encontros, buscou-se responder elementos como: a descrição do meio físico, dos sujeitos, das atividades específicas, diálogos, além de elementos naturalizados e tidos como verdades (Ibáñez, 2001). As observações foram transcritas de forma sequencial. Posteriormente, uma delas foi selecionada por critério de interesse nas questões de gênero e organizada no formato de linha narrativa (ANEXO II).

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24 De acordo com Spink (2004), a Linha Narrativa é usada quando há uma linha narrativa em passagens observadas. É uma narrativa no sentido de dar visibilidade à ordenação temporal dos eventos transcorridos. Para a análise dos dados coletados durante a observação da reunião, foi escolhido o modelo de Linhas Narrativas, justamente pelo critério de uma intercorrência temporal.

Os relatos da observação foram reescritos em uma transposição para uma linha de tempo sequencial, de forma a permitir certa interpretação dos acontecimentos. A Linha Narrativa – Relatório da Observação da Reunião do Programa Bolsa Família – 25/03/2014, tal qual foi organizada, permitiu entender os objetivos, as estratégias e noções utilizadas por aqueles que proferiram a palestra.

Segundo Spink (2004), essa é uma das principais características das análises feitas a partir do modelo das Linhas Narrativas: a particularidade de fazer compreender as estratégias usadas para argumentar, explicar, justificar e solidificar a interpretação dos acontecimentos a partir de determinado ponto de vista.

A nomeação, outro indicador discorrido por Spink (2004), é um modo de categorizar determinado pensamento a partir de um ponto de vista próprio. Assim, quando a palestrante utiliza-se de exemplos pessoais e de outras situações, ela narra um contexto de ação que promove a manutenção da realidade descrita por ela, naturalizando tal realidade.

Enfim, a montagem da Linha Narrativa, além de organizar e ordenar, cronologicamente, os eventos, objetivou também dar visibilidade às características da construção discursiva presente durante a mensagem proferida na reunião. Com o intuito de aprofundar ainda mais nos discursos naturalizados das noções de pobreza, buscou-se, ainda, a escuta das vozes daqueles/as que estão diretamente ligados à política.

Outras fontes de análise neste estudo são as vozes dos/as que são assistidos pelas políticas existentes e dos/as profissionais que atuam na área. Essas narrativas foram

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25 analisadas visando a contribuir para o debate teórico e prático sobre as relações entre aquilo que é entendido como pobreza e o respectivo enfrentamento desse fenômeno.

Entrevistas

O método de coleta de dados das falas dos/as beneficiários/as e dos/as profissionais escolhido para esta pesquisa foi a entrevista. No total, foram realizadas oito entrevistas durante a construção da pesquisa. Sob o olhar da psicologia discursiva e da proposta de Pinheiro (2000), a entrevista, como uma prática discursiva, visa a focalizar o discurso dos/as participantes no processo, no movimento e nos sentidos, relacionando as práticas das pessoas sobre a temática da pobreza.

A entrevista é um instrumento de pesquisa único, pois é adaptável no que diz respeito ao formato e à função. O método da entrevista é utilizado na psicologia em diversos contextos, entre eles, o de pesquisa. A entrevista é parte essencial em muitas pesquisas da Psicologia Social, por isso, se apresenta com diferentes enfoques teóricos e metodológicos (Breakwell, 2010; Pinheiro, 2000).

Entre os modelos existentes de entrevista, a semiestruturada se apresenta como um dos principais meios de coleta de dados dentro da Psicologia Social. No presente referencial teórico, a entrevista é articulada como um material de troca, visto como um processo de negociação de sentidos atribuídos ao objeto. Isto porque esses sentidos são considerados pelo pesquisador/a e também pelo entrevistado/a (Aragaki, Lima, Pereira e Nascimento, 2014).

Com o olhar mais revolucionário, Aragaki e cols. (2014) pontuam que a entrevista deve ser produzida a partir de cinco elementos norteadores: os dados sociodemográficos; o local e o contexto em que se passa a entrevista; o objeto estudado, assim como os

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26 objetivos; as concepções prévias; e, ainda, as questões que norteiam o discurso, incluindo o empoderamento e as materialidades envolvidas.

Nessa metodologia, a dialogia recebe espaço transversal, no qual se privilegiam dois aspectos: a ideia ação e as Práticas Discursivas, como conhecimento social. Está em foco, portanto, o que a pessoa traz, os argumentos utilizados, o que ocorre em uma dada situação em uma sequência de atividades. Observam-se, também, como os discursos proferidos produzem sentidos e constroem versões da realidade.

Partindo do enfoque construcionista norteador desta pesquisa, a entrevista refere-se à ideia de ação da psicologia discursiva. Ou seja, a análise interessa-se pela compreensão de como as noções internalizadas de pobreza foram e são construídas e como são usadas. Durante as entrevistas, direcionou-se à produção das realidades psicológicas e sociais construídas (Pinheiro, 2000).

Ao optar por trazer alguns relatos dos/as beneficiários/as e profissionais, parte-se do pressuposto de que, em uma cena discursiva, ou seja, em um contexto de entrevista, muitas vozes são ouvidas, enunciadas e perguntadas. A voz ouvida durante uma entrevista traz consigo sentidos assumidos a partir de uma linguagem que é ferramenta para a construção de diversas realidades. O mundo em que esse entrevistado está inserido apresenta uma linguagem múltipla. As realidades presenciadas por eles são polissêmicas e discursivas. O sentido, então, é produzido na interação e aparece em função do contexto (Pinheiro, 2000).

Logo, pode-se afirmar que as realidades sociais são construídas linguisticamente. O estudo visa a uma compreensão, por meio da análise do discurso, dos processos sociais dentro da cultura e da história em que estão inseridos. A atenção volta-se para as funções sociais da fala e examina o modo como essas funções são desempenhadas. Busca-se, nos relatos particulares, descobrir como esses últimos são construídos, de tal modo que pareçam factuais e aparentemente desafiados. Em outras palavras, ao se buscar a

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27 construção da noção de pobreza para cada beneficiário/a ou profissional, direciona-se a busca para a função dos discursos, assim como a busca pela superação e compreensão do fenômeno (Coyles, 2010).

A noção de pobreza é compreendida, aqui, a partir do conceito de sentido, proposto por Spink (2004), que o entende como uma construção social, ou seja, como um empreendimento coletivo. O sentido é considerado um mecanismo pelo qual as pessoas constroem os fenômenos a sua volta. Por isso, a construção de um sentido é um processo interativo nas relações sociais e acontece o tempo todo no cotidiano.

Cada momento com o participante foi crucial na busca de se construir os discursos proferidos a partir de um roteiro pré-estabelecido (ANEXOS III e IV). Os autores Aragaki e cols. (2014) sugerem alguns pontos importantes durante a entrevista nessa pesquisa: apresentação, TCLE, roteiro de entrevista, gravação em áudio, feedback, respeitar o silêncio e dar espaço de opinião do/a entrevistado/a.

As entrevistas foram realizadas atendendo a todos os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. Os critérios de inclusão permeiam: os/as trabalhadores/as deveriam ser efetivos/as há pelo menos um ano, possuir escolaridade superior, nível de graduação; os/as beneficiários/as do Programa deverão estar cadastrados/as no município de Rio Verde há pelo menos três (3) meses.

Como critérios de exclusão, foram definidos: trabalhadores/as que atuarem com outras funções diferentes das de técnicos/as de referência na política de assistência, de acordo com a Norma Operacional Básica de Recursos Humanos do SUAS NOB-RH/SUAS (MDS, 2006); Beneficiários/as que estão com o benefício bloqueado há mais de um (1) mês.

As entrevistas tiveram como passo a passo: o momento inicial com a apresentação da pesquisa; em seguida, apresentação do tema e do objetivo da pesquisa. Caso o participante

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28 demonstrasse interesse, era realizada a explicação, leitura e a assinatura do TCLE (ANEXOS V e VI). Caso houvesse aceitação, eram colhidas as assinaturas, assim como era entregue um Questionário Socioeconômico (ANEXO VII). E, por fim, era realizada a entrevista propriamente dita.

Essa entrevista era direcionada a partir de um roteiro específico para cada grupo pesquisado: o dos/as beneficiários/as e o dos/as profissionais. O roteiro foi construído com o objetivo de satisfazer as práticas específicas de cada grupo. As Figuras 1 e 2 demonstram a rede de assuntos tecidos na entrevista.

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29 Figura 2. Rede de assuntos tecidos na entrevista com as beneficiárias.

As entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra. O passo seguinte foi a transcrição sequencial (ANEXO XI). Após a análise das transcrições sequenciais, captaram-se os temas que surgiram nas entrevistas e construíram-se os Mapas Dialógicos. O passo subsequente permeou a transposição dos trechos da entrevista (preservando toda a sequência da interação entre entrevistador e participantes) para o Mapa. O terceiro passo foi a construção das Árvores de Associação, para dar visibilidade ao encadeamento de repertórios nos trechos que foram mais ilustrativos dos fenômenos em estudo (Spink, 2004).

A escolha pelo uso de mapas dialógicos, de acordo com Nascimento, Tavanti e Pereira (2014), está relacionada à coprodução das Práticas Discursivas, de modo que o pesquisador direciona o olhar à produção a qual lhe interessa. Por exemplo, ele pode se voltar ao modo como as pessoas falam, com quais reportórios linguísticos descrevem a realidade, quais as outras vozes presentes no texto.

O mapa dá visibilidade aos pontos de interesse da pesquisa, tornando mais clara a dialogia presente nos discursos. Na presente pesquisa, o uso dos Mapas Dialógicos permitiu clarificar as categorias que emergiram nos discursos das beneficiárias e das profissionais, de modo a englobar os reportórios existentes na fala de cada uma delas.

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30 Um exemplo de utilização dos mapas, que facilitou a análise, foi a elaboração dos mapas das beneficiárias (ANEXO VIII). A partir da categoria “cidade de origem”, pôde-se observar que todas as entrevistas não são do município de Rio Verde e que elas percebiam a mudança para a cidade como uma possibilidade para novas ambições. Dessa forma, percebeu-se que o recurso utilizado ampliou a rede de conexões entre as vozes ouvidas.

O recurso metodológico das Árvores foi utilizado para auxiliar na construção dos sentidos das noções de pobreza em um contexto dialógico, facilitando a compreensão das dialogias encontradas em diferentes histórias. A Árvore se inicia a partir da pergunta do entrevistador, ramifica-se e forma a dialogia, existente dentro da história de cada um através de um fluxo.

Segundo Spink (2004), a Árvore é uma das estratégias utilizadas para analisar os mapas, pois facilita a visualização das argumentações nos discursos proferidos. Porém, existem dois pontos distintos em relação aos Mapas. As Árvores são utilizadas para descrever assuntos específicos e reproduz não apenas as falas, mas também outros sinalizadores

A seguir, na Figura. 3, tem-se o exemplo de uma árvore construída a partir do Mapa das Profissionais. Essas árvores têm o objetivo de facilitar a visualização de dois campos com temas específicos: a escolha da formação profissional e o sentido do trabalho, hoje. A árvore é um recurso de análise que possibilita fazer uma interconexão entre os elementos que surgiram durante as entrevistas, viabilizando, sobretudo, a formação das redes.

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31 Figura 3. Árvore da escolha profissional e o sentido da atuação, hoje.

Durante todo o processo de construção das entrevistas, a busca foi por um material voltado aos sentidos atribuídos ao objeto de pesquisa, ou seja, as noções de pobreza. Para Aragaki e cols. (2014), há elementos primordiais que permitem a construção dos sentidos buscados pela pesquisa. São eles: dialogia, reflexividade, relações de poder, interanimação dialógica, posicionamento, tempo curto (interação face a face), materialidades, repertórios linguísticos e gêneros de fala.

Ao tratar da dialogia, Aragaki e cols. (2014) partem da compreensão de que as produções discursivas emergentes durante a entrevista são falas de interlocutores.

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