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Eleições 2015: Olhares Cruzados

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Eleições 2015: Olhares Cruzados

O TERRITÓRIO E AS SUAS POLÍTICAS

Natalino Martins

– Setembro de 2015

As assimetrias territoriais são uma realidade bastante rígida em Portugal. Nas últimas décadas as condições de vida e de exercício de atividades económicas melhoraram substancialmente em todo o país, incluindo no Interior, mas as disparidades relativas mantiveram-se bastante acentuadas. Basta dizer que, com algumas excepções, na generalidade do Interior o PIB per capita situa-se nos 60 a 75% da média nacional. Salienta-se ainda que mesmo nos casos em que o PIB per capita aparece mais próximo da média nacional isso não reflete uma realidade extensiva regional mas apenas o peso de alguns pólos intensivos de atividade produtiva em regiões de baixa densidade populacional, como sucede no Alentejo.

Acresce que a atividade produtiva no Interior está muito associada ao setor público o que torna essas regiões muito dependentes das vicissitudes do mesmo. É sabido que nas últimas décadas a situação do Interior melhorou em termos de condições de acessibilidade a diversos tipos de serviços, mas as políticas seguidas mais recentemente, em especial nesta legislatura, em termos das redes de serviços de saúde, educação e justiça, entre outras, significaram um recuo substancial nessa acessibilidade.

Com a retração no sector público as capacidades de retenção e de renovação de população por essas regiões tornam-se ainda mais críticas, pois a atração e endogeneização de investimento privado têm sido estruturalmente incapazes de superar os défices da atividade pública, pese embora os bons exemplos.

É certo que as soluções para o Interior não são fáceis, tal é a força dos desníveis e as perdas de escala acumuladas, e o problema não tem, pelo menos no curto prazo, a premência de outros problemas que afetam o país uma vez que não tem prazos para

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2 o pagamento de juros e amortizações de dívida. Todavia, estruturalmente, os

problemas do Interior são prementes e refletem-se no desperdício de recursos e no despovoamento de partes substanciais do território, o que o torna mais permeável a fenómenos como os incêndios florestais. O desequilíbrio da rede urbana, com escassez de centros urbanos de dimensão apropriada no Interior, tem-se também agravado em benefício dos centros do litoral, tornando mais prementes os respectivos problemas de congestionamento.

As políticas orientadas para o Interior têm consistido na implentação de equipamentos terciários de responsabilidade central e local, na implementação de iniciativas locais de desenvolvimento com forte incidência no turismo e na atração de algum investimento produtivo, usando fundos comunitários. Para além disso houve também as redes de acessibilidade que, numa lógica de articulação nacional e de acesso a Espanha, acabaram por tornar o Interior mais acessível, embora não se deva esquecer que, se é um facto que essas vias permitiram aumentar as áreas de mercado do Interior, também facilitaram a penetração de actividades do Litoral e de Espanha no Interior e a extracção de recursos deste.

Interessa assim nesta época de eleições lançar um olhar sobre aquilo que os partidos propõem para a resolução do problema de desenvolvimento territorial e para os problemas que afetam o Interior, sendo certo que o problema do desenvolvimento territorial não se resume à dicotomia Interior / Litoral, pois neste último são também graves os muitos problemas que se colocam.

O desenvolvimento territorial constitui matéria intrinsecamente horizontal, pelo que nele influem não apenas as políticas expressamente orientadas para o desenvolvimento das regiões mais problemáticas, mas também todas as políticas setoriais que nele podem ter efeitos de sinal contrário. Circunscrevemo-nos neste comentário essencialmente às políticas de base territorial e especialmente às orientadas para as regiões com menores níveis de desenvolvimento e populacionalmente mais depauperadas.

O programa do PS é o único que apresenta uma estratégia de base territorial ao preconizar a valorização do “nosso território”. O programa da coligação Portugal à

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3 Frente (PAF), sob o objectivo “Garantir a sustentabilidade, valorizar os recursos e o

território”, apresenta sobretudo um conjunto de políticas ambientais, pese embora os objectivos relativos ao “Ordenamento do Território, Cidades Sustentáveis e Territórios de Baixa Densidade”, sendo este último o único que pode consubstanciar alguma estratégia de base territorial.

Nos programas do PCP e Bloco de Esquerda, as questões territoriais não são objecto de propostas de políticas integrais, ficando-se na formulação de alguns objectivos com destaque para a regionalização e a extinção das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR). No caso do Livre Tempo de Avançar há uma aposta no alargamento das áreas de intervenção das CCDR como forma de melhorar a coordenação das várias políticas a nível regional. Propõe -se recuperar o PNPOT (Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território), no âmbito de uma forte aposta numa política de cidades orientada para a requalificação dos centros urbanos e a reabilitação da habitação, e ainda para a “organização metropolitana ou intermunicipal da mobilidade”, revertendo as tendências privatizadoras em curso. Em termos de economia, salienta-se a reconstituição das economias regionais (apoio à pequena e média inciativa substituidora de importações) e fomento das redes de produção e consumo local, nomeadamente restringindo a expansão das grandes superfícies.

A estratégia de valorização do território apresentada pelo PS assenta em quatro grandes objectivos: “Mar: uma aposta no futuro”, “Afirmar o “Interior” como centralidade no mercado ibérico”, “Promover a coesão e a sustentabilidade ambiental” e “Valorizar a atividade agrícola e florestal e o espaço rural”.

Partindo do princípio de que o território é o único activo estratégico em que temos “disponibilidade plena”, o programa recusa a ideia do “litoral pujante e do inte rior que vem por arrasto” encarando o território em duas “fachadas – a atlântica e a peninsular”, para as quais preconiza políticas de desenvolvimento baseadas no aproveitamento dos recursos endógenos, conjugando atividades tradicionais e avanços na ciência e na técnica e respeitando a sustentabilidade ambiental.

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4 Ainda no que se refere à fachada atlântica é colocada a tónica nas possibilidades, em

termos de economia do mar, abertas pela extensão potencial da plataforma continental, enquanto no caso da fachada peninsular se coloca a tónica na centralidade da raia portuguesa em relação às regiões raianas espanholas que configuram um mercado de cerca de 14 milhões de habitantes (incluindo a Andaluzia). Um “correto ordenamento do território que permita estratégi as de desenvolvimento inteligentes, mobilizadoras e sustentáveis” constitui a sede de articulação das intervenções a nível dos vários espaços – “ilhas, litoral, interior, cidades e espaço rural”.

No caso da fachada atlântica destacam-se as propostas de “melhor ordenamento do mar, de criação de um “Fundo Azul para o desenvolvimento da economia do mar, o lançamento de um “Programa dinamizador das ciências e tecnologias do mar”, bem como a criação de um “Cluster tecnológico Deep Sea Oil and Mining Portugal”.

Na perspetiva do aproveitamento da centralidade ibérica do Interior, entre outras medidas, o PS propõe: a criação de uma “Unidade de missão para a valorização do Interior” na dependência directa do primeiro ministro; o lançamento de um “pacote de incentivos à partilha de espaços de trabalho e incubação de empresas no Interior”; incentivar “o intercâmbio de conhecimento aplicado entre os centros de I&DT e as comunidades rurais”; promover “parcerias urbano-rurais” que visam a “conceção e implementação de estratégias de desenvolvimento territorial, com base num modelo de governança específico, que defina claramente as responsabilidades e competências de cada um dos atores intervenientes, para um horizonte plurianual mínimo de 3 anos”; implentar um “pacote de medidas que favoreçam a atração e fixação de jovens no Interior”; bem como, a negociação com os espanhóis de um conjunto de medidas visando a intensificação da cooperação transfronteiriça.

Apenas no item “Territórios de Baixa Densidade” a coligação PAF preconiza “Lançar uma nova geração de políticas públicas de base territorial, assente num quadro político-institucional que favoreça a articulação e a integração, territorial e setorial, dos vários instrumentos de política pública e que assegure uma maior coordenação das intervenções da administração central, regional e local”. Para isso a coligação propõe-se definir o “Estatuto dos Territórios de Baixa Densidade e de Muito Baixa

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5 Densidade” bem como elaborar e implementar um “Programa Nacional para a

Coesão Territorial”. Manifesta-se assim uma preocupação de índole institucional, que se exprime também na valorização das Comunidades Intermunicipais e das CCDR.

Para “estabelecer um maior compromisso da economia com os territórios e das territórios com a economia” a coligação defende a modernização do tecido produtivo com tónica na “inovação e empreendedorismo social, o artesanato, tradições e saberes endógenos”, bem como, a intervenção sobre as atividades tradicionais e novas competências e atividades visando a produção de transacionáves com potencial de exportação.

Para aumentar a competitividade dos territórios de Baixa Densidade e Muito Baixa Densidade, a coligação propõe-se minimizar os “custos de contexto”, “promover o espírito empresarial, e apoiar o lançamento de novos projetos adequados a valorizar recursos e a transformar oportunidades em negócios rentáveis e sustentáveis”, bem como “Aprofundar os incentivos à cooperação das instituições de ensino superior com o tecido empresarial e os agentes territoriais”.

A coligação propõe-se ainda, no âmbito dos territórios de baixa densidade, “Promover a igualdade de oportunidades no acesso a serviços públicos, garantindo os princípios da equidade social e territorial e, simultaneamente, a racionalidade e sustentabilidade das redes públicas de provisão de bens e serviços”. Importaria aqui saber de que racionalidade se trata.

O território pode ser diferenciado não apenas nos problemas, mas também nas potencialidades. As políticas territorialmente cegas não têm em conta este facto, pelo que perdem eficácia no ataque aos problemas que visam, ao mesmo tempo que não exploram as complementaridades que sobre cada parte do território se estabelecem. As políticas seguidas em Portugal têm, em larga medida, sido indiferentes à diferenciação do território, com isso perdendo cada região e o país como um todo. Infelizmente não é expectável que das próximas eleições resulte uma prática diferente, pelo que o território continuará ainda a ser visto, principalmente, como algo que vem por acréscimo.

Referências

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