• Nenhum resultado encontrado

Diversidade e filogenia de Tripanossomas de anuros

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Diversidade e filogenia de Tripanossomas de anuros"

Copied!
127
0
0

Texto

(1)

Robson Cavalcanti Ferreira

DIVERSIDADE E FILOGENIA DE

TRIPANOSSOMAS DE ANUROS

Tese apresentada ao Instituto de

Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do Título de Doutor em Ciências.

(2)

Robson Cavalcanti Ferreira

DIVERSIDADE E FILOGENIA DE

TRIPANOSSOMAS DE ANUROS

Tese apresentada ao Instituto de

Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do Título de Doutor em Ciências.

Área de concentração:

Biologia da Relação Patógeno-Hospedeiro

Orientadora:

Prof. Dra. Marta Maria Geraldes Teixeira

(3)

INSTITUTO DE CIÊNCIAS BIOMÉDICAS

Candidato: Robson Cavalcanti Ferreira.

Tese: Diversidade e Filogenia de Tripanossomas de Anuros.

Orientadora: Marta Maria Geraldes Teixeira.

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, em sessão pública realizada a .../.../..., considerou

( ) Aprovado ( ) Reprovado

Examinador (a) Assinatura ... Nome ... Instituição ...

Examinador (a) Assinatura ... Nome ... Instituição ...

Examinador (a) Assinatura ... Nome ... Instituição ...

Examinador (a) Assinatura ... Nome ... Instituição ...

(4)

À Profa. Dra. Marta Maria Geraldes Teixeira, por confiar este trabalho a mim, pela orientação, ensinamentos e exemplos de profissionalismo.

Ao Prof. Dr Erney Camargo pelas valiosas contribuições a este trabalho.

À Profa. Dra. Gentilda Takeda, pelos ensinamentos e pela colaboração nos estudos morfológicos deste trabalho.

À Marta Campaner, pelo trabalho indispensável no isolamento e manutenção dos parasitas utilizados neste estudo e pelos valorosos ensinamentos.

À Carmen Takata, pelos ensinamentos, dedicação e colaboração em todos os trabalhos.

Ao Prof. Dr. Miguel Trefaut Rodrigues, pela colaboração na identificação dos anuros.

À Profa. Dra. Sandra Favorito, pela colaboração na coleta dos anuros.

Ao Prof. Dr. Fernando Paiva (UFMS), pela colaboração nas coletas do Pantanal.

Ao Prof. Dr. Carlos Jared, pela inestimável contribuição em disponibilizar seu laboratório e sua coleção de anuros para este trabalho.

Ao Laerte Viola, pelos isolados do Guaporé, pela colaboração nas coletas e pelo companheirismo durante todos esses anos no laboratório.

Ao Arlei Marcili, pela colaboração nas coletas e pelo companheirismo durante todos esses anos no laboratório.

Ao Prof. Dr. Toby Barrett e ao Prof. Dr. Jeffrey Shaw, pela colaboração com culturas de tripanossomas de flebotomíneos.

Ao Prof. Dr. Luis da Neves, pela contribuição em disponibilizar amostras de anuros Africanos.

Ao pessoal do laboratório, Manzélio, Márcia, Adriana Fuzato, Adriana Martins, Flávia, Heracles, Luciana e Paola pelo companheirismo durante todos esses anos no laboratório.

(5)

“Mande um barco que transporte a

mim, a meus filhos e a meus

livros.” Hergedef, filho de Queóps

II – 4ª dinastia (2613 a.C. a 2494

(6)
(7)

Ferreira, R. C. Diversidade e filogenia de tripanossomas de anuros (Tese). São Paulo: Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo; 2007.

Anfíbios da ordem Anura há muito tempo são conhecidos, em todo o mundo, como portadores

de tripanossomas transmitidos por sanguessugas e insetos (mosquitos e flebotomíneos). Esses

tripanossomas têm sido classificados de acordo com a morfologia das formas sanguíneas, hospedeiro

de origem, origem geográfica e experimentos de infecções cruzadas. Contudo, esses parâmetros

tradicionais são insuficientes para a classificação dos tripanossomas de anuros e não há consenso

sobre quais espécies são válidas. Até esse trabalho, os estudos desses tripanossomas se restringiam a

apenas seis espécies, nenhuma da América do Sul. Assim, as relações parasita-hospedeiro e o

relacionamento filogenético entre tripanossomas de anuros são pouco compreendidos, com

controvérsias quanto à monofilia desse grupo, e ausência de parâmetros taxonômicos eficientes. Novos

estudos precisam ser realizados comparando uma grande coleção de isolados de anuros, de espécies

e origens geográficas distintas, assim como isolados de vetores, que vivem em diferentes ecótopos e

nichos. A fim de avaliar a diversidade de tripanossomas de anuros e entender melhor sua filogenia,

assim como rever e definir parâmetros taxonômicos, capturamos anuros de várias espécies dos

seguintes biomas brasileiros: Amazônia, Floresta Atlântica e Pantanal. Avaliamos a prevalência geral

de infecções por tripanossomas nos anuros desses biomas, isolamos e cultivamos tripanossomas,

comparamos suas características morfologias e moleculares e inferimos relacionamentos filogenéticos

entre os isolados. A prevalência de tripanossomas no sangue dos anuros foi alta (45%). As famílias

Leptodactylidae, Hylidae, Leiuperidae e Bufonidae tiveram índices de infecção decrescentes, variando

de 81% a 28%. Os anuros brasileiros apresentaram uma grande variedade de tripanossomas no

sangue, com pelo menos 11 morfotipos e significativo pleomorfismo das formas de cultura. Análises

moleculares revelaram que a mesma espécie de anuro pode ser infectada por tripanossomas distintos,

e que uma mesma espécie de tripanossoma pode infectar espécies mais de uma espécie de anuro,

confirmando que a taxonomia tradicional não é suficiente para avaliar a diversidade e classificar os

tripanossomas de anuros. Os resultados mostraram uma grande diversidade molecular entre os 82

isolados brasileiros avaliados por polimorfismo de ITS rDNA, revelando 11 grupos principais (A-K), que

compreendem 29 genótipos. A análise de 7 novos isolados de anuros africanos também revelou

significativo polimorfismo e quatro genótipos.

Os relacionamentos filogenéticos entre tripanossomas de anuros do Brasil, África, Europa e

(8)

tripanossomas de anuros próximos de tripanossomas de peixes, formando o clado Aquático. Apesar da

monofilia, o clado formado por tripanossomas de anuros é bastante complexo, com várias linhagens

filogenéticas. Os padrões de ramificação das árvores filogenéticas revelaram 5 clados principais

(linhagens) de isolados (An01-An05) que podem ser associados com padrões biogeográficos e

filogeográficos dos hospedeiros. Os isolados brasileiros foram distribuídos em 4 clados (An01, 02, 03,

05) enquanto os de anuros exóticos constituíram o clado AN04. A única exceção foi o clado An05,

composto por isolados do Brasil e E.U.A. Os clados An01 e An02 compreendem exclusivamente

isolados brasileiros, aparentemente, associados com hilídeos e bufonídeos, respectivamente. O clado

An03 representou uma linhagem contendo isolados de anuros e de flebotomíneos, indicando

flebotomíneos como hospedeiros e potenciais vetores de tripanossomas de anuros terrestres.

Os resultados desse estudo revelaram considerável grau de concordância entre filogenia,

biogeografia e filogeografia dos anuros com as linhagens de tripanossomas, sugerindo uma longa e

contínua associação desses parasitas com seus hospdeiros vertebrados e um padrão de codivergência

parasita-hospedeiro. Contudo, incongruências demonstraram que os anuros e seus tripanossomas

compartilham com seus vetores uma história evolutiva complexa, com uma estrutura geral

biogeográfica e ecológica. As análises sugerem várias trocas de hospedeiro (host-switching),

provavelmente mediadas por vetores, e com eventos de adaptação biológica (host fiiting) de alguns

tripanossomas a diferentes espécies de anuros, proximamente relacionados. Todos esses processos

evolutivos parecem ter desempenhado um papel importante na evolução dos tripanossomas de anuros.

(9)

Ferreira, R. C. Diversity and phylogeny of anuran trypanosomes (Thesis). São Paulo: Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade de São Paulo; 2007.

Amphibians belonging to the orders Anura (frogs and toads) have long been known to be

infected with trypanosomes worldwide, infecting frogs and toads and transmitted by leeches and insects

(mosquitoes and sand flies. Anuran trypanosomes have been classified according to the morphology of

blood trypanosomes, host and geographical origin, and cross-infection experiments. However, this

traditional approach is insufficient for identification and classification of anuran trypanosomes and no

consensus currently exists as to which species are valid. However, so far studies of anuran

trypanosomes have included only six species. No surveys were carried out in South America and

isolates from this region were never characterized. Thus, host-parasite and phylogenetic relationships of

anuran trypanosomes remain far from understood, and a reliable taxonomy of these organisms is still

badly needed. Dealing properly with these questions requires comparative analysis of a large number of

trypanosomes from anuran of distinct species and geographical origins.

Aiming to assess the diversity of anuran trypanosomes and better understand their phylogeny

as well as to evaluate their current taxonomy, we captured anuran of various frog and toad species from

distinct Brazilian biomes (Amazonia, Atlantic Forest and Pantanal). We evaluated overall prevalence of

anuran trypanosome infection in these biomes, isolated trypanosomes in cultures, compared their

morphological and molecular characteristics and inferred their phylogenetic relationships. The

prevalence of blood trypanosomes in anurans was high (45%). The families Leptodactylidae, Hylidae,

Leuperidae and Bufonidae had decreasing infection indices ranging from 81% to 28%. Brazilian anurans

showed a large variety of bloodstream trypanosomes showing at least 11 distinct morphotypes, and

significant pleomorphism of cultured flagellates. Molecular analysis revealed that the same anuran

species could be infected by distinct trypanosomes and that the same species could infect distinct

anuran species, confirming that the traditional taxonomy is not sufficient to properly address the genetic

diversity of anuran trypanosomes. Results showed high molecular diversity among the 82 Brazilian

isolates evaluated by polymorphisms of ITS rDNA, disclosing 11 major groups (A-K) comprising 29

genotypes. Analysis of 7 new isolates from African anurans also disclosed marked polymorphism and 4

genotypes.

Phylogenetic relationships among anuran trypanosomes, from Brazil, Africa, Europe and North

America, inferred in this study based on separated or combined analysis of sequences from SSUrDNA,

(10)

clade formed by anuran trypanosomes is undoubtedly a complex taxon comprising distinct phylogenetic

lineages. Overall, the branching pattern of phylogenetic trees disclosed 5 major clades (lineages) of

anuran isolates (An01-An05) separated each other by significant genetic distances, which appear to be

associated with host phylogeny, biogeographic and phylogeographic patterns. Brazilian trypanosomes

were distributed in 4 clades (An-01, 02, 03, 05) whereas trypanosomes from exotic anurans composed

the clade An04. Exception was clade An05, which comprises isolates from Brazil and one isolate from

USA. Clades An01 and An02 were constituted exclusively by Brazilian isolates and could be primarily

associated to hylids or bufonids, respectively. Clade An03 represented a lineage containing anuran and

sand fly isolates, pointing to phlebotomines as hosts and potential vectors of trypanosomes among

terrestrial toads and frogs.

Overall, data from this study revealed a considerable degree of concordance between the

phylogeny, biogeography and phylogeography of anurans and lineages of trypanosomes, suggesting

long and continuous association of these parasites and some patterns of host-parasite codivergence.

However, closer examination disclosed incongruences between lineages of parasites and anuran

phylogenies, demonstrating that anuran and their trypanosomes share with their vectors a complex

evolutionary history, with several events of host-switching, probably mediated by vectors, and biological

adaptation of some trypanosome lineages to closely related hosts (host fitting) within an overall

biogeographic and ecologic framework. All these evolutionary processes appear to have played

important role in the evolution of the anuran trypanosomes.

(11)

BAB Blood Agar Base

DNA Ácido desoxiribonucleico

dTTP Desoxitimidina-trifosfato

EDTA Ácido etileno diamino tetracético

Kb Quilobase

LIT Liver Infusion Tryptose

MH Microhematócrito

HE Hemocultura

ml mililitros

mM milimolar

Nº Número

PBS Salina em tampão fosfato

SFB Soro fetal bovino

UV Luz ultravioleta

(12)

1 INTRODUÇÃO...17

1.1 O gênero Trypanosoma...18

1.2 Taxonomia dos tripanossomas ...20

1.3 Evolução e filogenia dos tripanossomatídeos ...22

1.4 Tripanossomas de anuros...26

1.4.1 Morfologia ...27

1.4.2 Hospedeiros vertebrados e distribuição geográfica ...31

1.4.3 Ciclo Biológico ...32

1.4.3.1 Desenvolvimento no hospedeiro vertebrado...32

1.4.3.1.1 Patogenia...34

1.4.3.2 Hospedeiros invertebrados ...34

1.4.3.2.1 Sanguessugas ...34

1.4.3.2.2 Insetos hematófagos...36

1.4.4 Filogenia dos tripanossomas de anuros...39

1.5 Parâmetros taxonômicos e métodos utilizados na classificação e caracterização de tripanossomas de anuros...41

1.5.1 Morfologia ...41

1.5.2 Hospedeiro e origem geográfica ...42

1.5.3 Características biológicas ...42

1.5.4 Zimodemas (padrões de isoenzimas) ...43

1.5.5 Métodos baseados em análises de ácidos nucléicos...43

1.5.5.1 Seqüências do gene ribossômico ...43

1.5.5.2 Seqüências do gene “spliced leader” ...44

1.5.5.3 Padrões de RAPD, seqüências polimórficas de DNA amplificadas aleatóriamente (Random Amplification of Polymorphic DNA) ...46

1.5.5.4 DNA do cinetoplasto – kDNA ...46

1.5.5.5 Caracterização cromossômica – Cariotipagem...48

2. JUSTIFICATIVAS E OBJETIVOS ...49

3. MATERIAIS E MÉTODOS ...52

3.1 Áreas de captura dos anuros ...53

3.2 Captura e identificação dos anuros...53

3.3 Isolamento de tripanossomas ...53

3.3.1 Isolamento de tripanossomas de anuros ...53

3.3.2 Obtenção de tripanossomas de flebotomíneos...54

3.4 Condições de cultivo e manutenção dos tripanossomas ...54

3.5 Caracterização morfológica ...56

3.6 Extração de DNA dos parasitas ...56

3.7 Reações de amplificação - PCR ...56

3.8 Digestão de DNA com enzimas de restrição e eletroforese em gel de agarose (RFLP)...56

3.9 Purificação, clonagem e seqüenciamento dos fragmentos amplificados por PCR ...57

3.10 Alinhamento das seqüências obtidas e inferências filogenéticas...57

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ...58

4.1 Relacionamento filogenético, diversidade morfológica e molecular de tripanossomas de anuros dos biomas brasileiros, Amazônia, Floresta Atlântica e Pantanal...59

4.2 Uma nova linhagem monofilética de tripanossomas de anuros (Bufonidae e Leptodactylidae) e flebotomíneos (Díptera: Psychodidae: Phlebotominae) da Amazônia brasileira...60

4.3 Filogenia de tripanossomas de anuros sul americanos e africanos baseada na análise de três loci gênicos. ...61

4.3.1 Introdução ...61

(13)

4.3.2.1 Locais de coleta e isolamento de tripanossomas de anuros...64

4.3.2.2 Amplificação, por PCR, dos genes ITS1/5.8S/ITS2 rDNA, SSUrDNA, gGAPDH e Alfa Tubulina ...64

4.3.2.3 Seqüenciamento e inferências filogenéticas ...64

4.3.3 Resultados e Discussão...66

4.3.3.1 Diversidade genética de tripanossomas de anuros Africanos avaliada por polimorfismo de tamanho de ITSrDNA...66

4.3.3.2 Análises filogenéticas de tripanossomas de anuros baseadas em seqüências dos genes SSUrDNA (V7-U4-V8), gGAPDH e Alfa Tubulina ...67

4.3.3.2.1 Análises filogenéticas de tripanossomas de anuros com seqüências combinadas dos genes SSUrDNA, gGAPDH e Alfa Tubulina ...67

4.3.3.2.2 Análises filogenéticas de tripanossomas de anuros com seqüências isoladas dos genes SSUrDNA, gGAPDH e Alfa Tubulina ...69

4.3.3.3 Relacionamento filogenético entre tripanossomas de bufonídeos sul americanos (brasileiros) e africanos (Moçambique e Congo). ...71

4.3.3.4 Relacionamento filogenético entre tripanossomas de leptodactilídeos e leiuperídeos...73

4.3.3.5 Relacionamento filogenético entre tripanossomas de hilídeos da América do Sul. ...73

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...75

(14)
(15)

1.1 O gênero Trypanosoma

O gênero Trypanosoma foi originalmente proposto por Gruby (1843) para classificar um

hemoflagelado de rã que foi denominado Trypanosoma sanguinis (Figura 1). Como o organismo

observado por Gruby (1843) apresentava uma estrutura similar a de um parasita descrito alguns meses

antes com o nome de Amoeba rotatoria (Mayer, 1843), essa espécie passou a ser classificada como

Trypanosoma rotatorium.

Figura 1. Trypanosomasanguinis, sinonímia de T. rotatorium (Gruby, 1843).

Os protozoários do gênero Trypanosoma são flagelados do Filo Euglenozoa classificados

tradicionalmente na ordem Kinetoplastida (Honigberg, 1963) que pertence ao reino Protozoa

(Cavalier-Smith, 1981; 1998; 2004). De acordo com os parâmetros taxonômicos tradicionais (características

morfológicas e ciclos de vida), os cinetoplastídeos foram classificados em duas subordens: Bodonina e

Trypanosomatina. As espécies da subordem Bodonina apresentam 2 flagelos localizados em lados

opostos, sendo habitantes de ambientes aquáticos de água doce ou salgada (vida livre), ectoparasitas

ou endoparasitas de animais aquáticos. A Subordem Trypanosomatina compreende protozoários

uniflagelados, endoparasitas obrigatórios e classificados em apenas uma família, Trypanosomatidae.

Os membros dessa família apresentam uma grande diversidade de hospedeiros, infectando plantas e

animais invertebrados e vertebrados de praticamente todas as ordens, com ampla distribuição nos

diferentes continentes (Vickerman, 1976; Dolezel et al., 2000; Moreira et al., 2004; Simpson et al.,

(16)

Com o aumento do número de espécies descritas e o advento de novos parâmetros

taxonômicos, características morfológicas, biológicas e moleculares têm alterado o posicionamento

taxonômico dos membros do filo Euglenozoa. Cavalier-Smith (1981) posicionou os euglenídeos e

cinetoplastídeos no filo Euglenozoa, que mais tarde passou a incluir os diplonemídeos (Preisfeld et al.,

2001; Moreira et al., 2001; Busse e Preisfeld, 2002; 2003; Cavalier-Smith, 1988; 2004). Os organismos

do filo Euglenozoa foram reclassificados com base em estudos filogenéticos moleculares em três

classes: Kinetoplastea, composta por parasitas e comensais de plantas e animais; Euglenoidea, que

compreende apenas organismos de vida livre e Diplonemea, que compreende organismos de vida livre

e ocasionalmente parasitas facultativos. A classe Kinetoplastea compreende duas subordens,

Tripanosomatina e Bodonina (Dolezel et al., 2000; Preisfeld et al., 2001; Moreira et al., 2001; Busse e

Preisfeld, 2002; 2003; Simpson e Roger, 2004; Von der Heyden et al., 2004; Roy et al., 2007; Breglia et

al., 2007).

Os organismos da classe Kinetoplastea se caracterizam pela presença do cinetoplasto, que é

uma região especializada da única mitocôndria destes organismos, constituída por moléculas de DNA

circular concatenadas, localizada na base flagelar e que contém o DNA mitocondrial (Vickerman, 1976).

Um estudo recente baseado em filogenia molecular dividiu a classe Kinetoplastea em duas subclasses:

a) Prokinetoplastina, contendo as espécies basais Ichtyobodo necator e Perkinsiella amoebae; b)

Metakinetoplastina, compreendendo a ordem Tripanosomatida e três novas ordens, Eubodonida,

Parabodonida e Neobodonida (Figura 2). De acordo com esta classificação a ordem Trypanosomatida

passou a abrigar 11 gêneros da família Trypanosomatidae: a) Phytomonas, Endotrypanum,

Leishmania, Sauroleishmania e Trypanosoma, que possuem um ciclo de vida heteroxênico; b) Crithidia,

Blastocrithidia, Wallaceina, Leptomonas, Herpetomonas e Rynchoidomonas, que são monoxênicos

(Moreira et al., 2004). Entretanto, estudos bastante abrangentes, de um conjunto de características

biológicas, celulares, bioqumícas e moleculares, de um maior número de flagelados do filo Euglenoza,

estão sendo realizados a fim de validar, ou não, as novas proposta de classificação dos

cinetoplastídeos, inclusive de alguns gêneros de tripanossomatídeos ainda bastante controversos.

Embora a infecção pela maioria dos tripanossomatídeos não cause danos aparentes aos seus

hospedeiros, algumas espécies dos gêneros Trypanosoma e Leishmania são responsáveis por

patologias de grande importância médica humana e veterinária e algumas espécies de Phytomonas

(17)

AT4-96 AT4-103

Perkinsiella amoeba-like

AT4-56

Ichthyobodo necator

Ichthyobodosp AAN2003

Trypanosoma brucei Trypanosoma pestanai Trypanosoma cruzi Trypanosoma cyclops Trypanosoma varani Crithidia oncopelti

Leptomonassp

Leishmania major

Bodosp

Bodo saltans

Bodo saltansSt. Petersburg

Bodoc.f.uncinatus

Bodo edax

Cryptobia salmositica Trypanoplasma borreli Cryptobia catostomi Cryptobia bullocki

AT1-3

Procryptobia sorokini Cryptobia helicis Bodo caldatus Parabodo nitrophilus

Rhynchobodosp ATCC50359

Rhynchomonas nasuta Dimastigella mimosa Dimastigella trypaniformis

AT5-25 AT5-48

Cruzella marina

Bodonid clone LFS2 Bodonid clone LKM101

Bodo designis

AT5-9

Bodo saliens Euglenoidea Diplonemidea

Neobodonida Trypanosomatida

Eubodonida

Parabodonida

Prokinetoplastina

Kinetoplastea

Metakinetoplastina

Figura 2. Relacionamento filogenético entre organismos da classe Kinetoplastea. Modificado de Moreira et al. (2004).

1.2 Taxonomia dos tripanossomas

A diversidade de hospedeiros de espécies do gênero Trypanosoma é imensa, com centenas de

espécies descritas em um grande número de hospedeiros vertebrados, abrangendo répteis, anfíbios,

peixes, aves e todas as ordens de mamíferos (Stevens et al., 2001; Simpson et al., 2006). As espécies

do gênero Trypanosoma são parasitas obrigatórias que apresentam ciclos de vida com alternância

entre vertebrados e invertebrados hematófagos. A maioria das espécies se desenvolve em artrópodes

hematófagos, que podem pertencer a diversas ordens e famílias, exceto algumas espécies parasitas de

(18)

espécies de tripanossomas africanos são apenas mecanicamente veiculadas porque não apresentam

mitocôndria funcional (Gardiner e Mahmoud, 1992).

Diferentes espécies deste gênero podem apresentar os estágios amastigota, epimastigota,

promastigota e tripomastigota, presentes em diferentes combinações, no sangue e/ou tecidos, nos

hospedeiros vertebrados e invertebrados. Antes da utilização de marcadores moleculares, a

classificação de tripanossomas de mamíferos era baseada na combinação dos seguintes critérios:

Hospedeiro(s) vertebrado(s) e invertebrado(s) de origem; distribuição geográfica; morfologia; ciclo de

vida; patologia; características bioquímicas e fisiológicas.

De acordo com o desenvolvimento no vetor, Hoare (1972) classificou os tripanossomas de

mamíferos em duas Secções: Stercoraria e Salivaria. Os tripanossomas da Secção Salivaria

(tripanossomas africanos) são todos transmitidos pela mosca tsétsé por inoculação de formas

metacíclicas junto com a saliva do vetor (exceto T. equiperdum e T. evansi cuja transmissão ocorre

apenas mecanicamente; T. vivax, na África é transmitido pela mosca tsetsé, contudo, também pode ser

transferido de um hospedeiro a outro mecanicamente). A multiplicação dos tripanossomas dessa

Secção no hospedeiro vertebrado se dá sob a forma tripomastigota.

A Secção Stercoraria engloba parasitas cujo estágio final no hospedeiro invertebrado ocorre no

intestino posterior, sendo que as formas metacíclicas eliminadas com as fezes contaminam o

hospedeiro vertebrado por meio de solução de continuidade na pele (transmissão contaminativa). Nos

vertebrados, dependendo da espécie, a multiplicação dos flagelados ocorre sob as formas amastigota,

epimastigota, promastigota ou tripomastigota.

Ao contrário dos tripanossomas de mamíferos, não existem parâmetros taxonômicos

claramente definidos e utilizados pela comunidade científica para a classificação de tripanossomas de

anfíbios, répteis, aves e peixes. Estes tripanossomas têm sido classificados arbitrariamente, como

novas ou antigas espécies, adotando o hospedeiro de origem e/ou a origem geográfica como critério

taxonômico. Esta conduta gerou dezenas de espécies de anuros descritas sem critérios confiáveis e

sem estudos comparativos. Uma das primeiras tentativas de classificar os tripanossomas de anfíbios foi

proposta por Doflein (1901) que dividiu o gênero Trypanosoma em três subgêneros: Trypanomona,

Herpetosoma e Trypanosoma, sendo que o último continha o flagelado de anuro T. rotatorium. Porém,

na última revisão do gênero Trypanosoma esta classificação foi abandonada e foi proposta uma

classificação restrita aos tripanossomas de mamíferos (a espécie-tipo do gênero não foi incluída), que

foram agrupados em 8 subgêneros, um deles, o subgênero Megatrypanum, apresentando afinidades

(19)

1.3 Evolução e filogenia dos tripanossomatídeos

Os tripanossomatídeos apresentam uma grande diversidade de hospedeiros, infectando

animais invertebrados e vertebrados de praticamente todas as ordens. Estes organismos, depois dos

nematóides, são os eucariotos que apresentam a maior variedade de hospedeiros e distribuição

geográfica (Vickerman, 1976; 1994; Stevens et al., 2001; Simpson et al., 2006). Estudos de inferências

filogenéticas baseados em seqüências dos genes de DNA ribossômico (rDNA) e dados biogeográficos

dos hospedeiros revelaram que os kinetoplastidas estão entre os eucariontes mais antigos que

divergiram, provavelmente, muito antes do aparecimento dos animais, plantas e até mesmo dos fungos

(Fernandes et al., 1993).

Os tripanossomatídeos apresentam inúmeras diferenças em sua biologia e em diversos

aspectos estruturais e funcionais. Algumas espécies de tripanossomatídeos possuem endossimbiontes

bacterianos e virais, com alguns isolados podendo, desta forma, junto com os genomas nuclear e

mitocondrial, apresentar até quatro genomas distintos. O aparato nuclear destes flagelados apresenta

uma série de peculiaridades, incluindo a ausência de condensação da cromatina durante a mitose, a

persistência da membrana nuclear durante a divisão celular e a presença de unidades de transcrição

policistrônicas. O genoma dos tripanossomatídeos está organizado em diversos cromossomos, cujo

número e tamanhos variam de acordo com espécies, isolados, etc. Esses organismos apresentam

ainda como principais características: o cinetoplasto; a composição do citoesqueleto; os glicossomas;

proteínas de membrana ancorada por GPI; a endocitose e exocitose de macromoléculas via bolso

flagelar, o nucleotídeo denominado base J em seu DNA nuclear; variação antigênica; etc. Algumas

destas características são compartilhadas com os diplonemídeos e euglenídeos (Vickerman, 1994;

Dooijes et al., 2000; Gull, 2001; Simpson et al, 2003; Campbel et al., 2003; Uliel et al., 2004; von der

Heyden et al., 2004; Lukes et al., 2005; Michel et al., 2006; Roy et al., 2007; Simpson et al., 2006).

Os tripanossomatídeos, principalmente os de ciclo heteroxênico, vivem em diferentes

hospedeiros e ambientes durante seu desenvolvimento. Esse comportamento exige rápidas

adaptações frente a profundas alterações de temperatura, nutrientes disponíveis, componentes do

hospedeiro e da célula hospedeira, resposta imune do hospedeiro, etc. A rápida adaptação e

diferenciação destes organismos depende de uma grande reprogramação de sua expressão gênica,

gerando repertórios diferentes de genes expressos durante seus ciclos de vida. Os mecanismos de

ativação e regulação da expressão gênica dos tripanossomatídeos ainda são pouco conhecidos.

Dentre os fenômenos funcionais, os mecanismos mais interessantes e estudados do ponto de vista

evolutivo são os mecanismos de variação antigênica (Taylor e Rudenko, 2006) e de processamento de

mRNAs por "trans-splicing" e edição. Os transcritos nos tripanossomatídeos são policistrônicos e os

mRNAs unitários são gerados por "trans-splicing". Além dos cinetoplastídeos, os euglenídeos e

(20)

processado por trans-splicing, porém, o processamento por "cis-splicing" tem sido identificado em

alguns genes (Simpson e Maslov, 1999; Mair et al., 2000; Lukes et al., 2002; Simpson et al., 2003; Uliel

et al., 2004; Siegel et al., 2005; Jager et al., 2007).

Os membros da ordem Kinetoplastida apresentam uma única mitocôndria que contém uma

região rica em DNA (kDNA) denominada cinetoplasto, constituída por moléculas dupla-fita circulares,

minicírculos e maxicírculos, concatenadas em uma única rede. Aparentemente, estes organismos

divergiram dos demais eucariotos logo que o ancestral desta linhagem incorporou bactérias aeróbicas

simbiontes que deram origem às mitocôndrias. Os cinetoplastídeos modificaram sua única mitocôndria,

alterando o conteúdo de DNA e sua organização, gerando o cinetoplasto. As reconstruções

filogenéticas sugerem que a origem evolutiva da rede concatenada de kDNA ocorreu no ancestral da

família Trypanosomatidae (Simpson e Maslov, 1999; Simpson et al, 2002; Lukes et al., 2002; 2005; Roy

et al., 2007). Os maxicírculos correspondem ao DNA mitocondrial dos eucariotos, codificando as

proteínas para a atividade mitocondrial, porém, a expressão gênica é bastante complexa e depende de

processamento por edição de RNA, que gera mRNAs mitocondriais com códons de iniciação e de

terminação corretos e com fases abertas de leitura. Neste processo, os minicírculos de kDNA são

transcritos em pequenas moléculas de RNA, denominadas RNA guias (gRNA), que dirigem inserções e

deleções de uridinas nas moléculas transcritas de maxicírculo para a edição de mRNA. (Hadkuk e

Sabatini, 1996; Simpson et al., 2002; Lukes et al., 2002; Worthey et al, 2003; Roy et al., 2007).

Diversos estudos têm demonstrado que recombinações genéticas (reprodução sexuada) são

eventos raros entre os tripanossomatídeos que, em geral, se propagam na natureza como populações

clonais. Porém, a formação de híbridos foi demonstrada para T. brucei durante seu desenvolvimento

em moscas tsetsé (Gibson e Stevens, 1999) e já foi sugerida em T. cruzi (Gaunt e Miles, 2000).

Entretanto, em geral, os estudos de diversidade genética demonstram que a estrutura populacional dos

tripanossomatídeos é basicamente clonal e que, se existentes na natureza, recombinações são muitos

esporádicas para interromper um padrão prevalente de propagação clonal (Tibayrenc, 1995).

O fato dos tripanossomatídeos terem, provavelmente, evoluído dos bodonídeos de vida livre, e

não de bodonídeos parasitas de peixes transmitidos por sanguessugas como Trypanoplasma (Simpson

et al., 2002; Simpson e Roger, 2004; Moreira et al., 2004), levou a hipótese de um bodonideo aquático

ter sido ingerido por insetos, se adaptado ao parasitismo no intestino, dando origem aos

tripanossomatídeos de insetos que foram transmitidos para vertebrados e se adaptaram ao

parasitismo, passando a circular entre insetos e vertebrados terrestres, sendo a origem dos

tripanossomas de peixes, anfíbios e sanguessugas um evento secundário (Hoare, 1972; Hamilton et

al., 2004; 2007). As relações filogenéticas entre os tripanossomatídeos inferidas em diferentes estudos

(21)

longo da evolução (Vickerman, 1994; Maslov e Simpson, 1995; Haag et al., 1998; Wrigth et al., 1999;

Stevens et al., 2001; Hamilton et al., 2004; 2007).

Em um dos primeiros estudos filogenéticos utilizando seqüências dos genes de SSUrDNA,

Sogin et al. (1986) posicionaram T. brucei em relação a diversos organismos representantes dos reinos

Protista, Fungi, Plantae e Animalia. Este estudo posicionou T. brucei próximo de Euglena gracilis, que é

um euglenóide. Várias teorias tentam explicar a diversidade e a origem do parasitismo na família

Trypanosomatidae, isto é, se os organismos mais ancestrais eram parasitas de invertebrados que, com

o surgimento do comportamento hematófago, tornaram-se parasitas de vertebrados, ou se estes

organismos eram originalmente parasitas de vertebrados que passaram a infectar insetos hematófagos

(Baker, 1963; 1994; Wallace, 1966; Hoare, 1972; Vickerman, 1994; Maslov e Simpson, 1995; Stevens

et al., 2001; Hamilton et al., 2004; 2007). Contudo, todos os estudos sugerem que, provavelmente,

espécies heteroxênicas divergiram, independentemente, várias vezes ao longo da evolução deste

grupo.

As análises filogenéticas iniciais baseadas em seqüências da SSUrDNA (subunidade menor da

versão nuclear dos genes ribossômicos) sugeriram uma origem parafilética dos tripanossomas,

separando T. brucei dos demais (Gomez et al., 1991; Fernandes et al., 1993; Landweber e Gilbert,

1994; Maslov et al., 1994; 1996, Maslov e Simpson, 1995). Entretanto, com a inclusão de taxa

adicionais, a origem monofilética do gênero Trypanosoma tornou-se a hipótese mais apoiada: Análises

posteriores baseadas em seqüências da SSUrDNA (Stevens et al., 1998; 1999; 2001; Briones et al.,

1999; Haag et al., 1998, Wright et al., 1999) e da LSUrDNA (subunidade maior da versão nuclear dos

genes ribossômica) (Lukes et al., 1997), sugeriram a monofilia do gênero Trypanosoma.

O estudo de Merzlyak et al. (2001), sugere que os tripanossomas sejam o grupo irmão dos

demais tripanossomatídeos. Nesses trabalhos o grupo irmão de Trypanosoma pode ser dividido em

dois grupos: Um contendo as espécies que albergam endossimbiontes bacterianos dos gêneros

Crithidia, Blastocrithidia e Herpetomonas e um grande grupo composto por Phytomonas,

Herpetomonas, Leishmania, Endotrypanum, Leptomonas, Crithidia e Blastocrithidia. Portanto, esses

estudos sugerem que os tripanossomas sejam um grupo monofilético que se originou dos bodonídeos

de vida livre e cujo grupo basal seja constituído por tripanossomas da secção Salivaria (Haag et al.,

1998; Wright et al., 1999; Martin et al., 2002) ou, como posteriormente proposto, os tripanossomas de

peixes e anfíbios (Stevens et al., 1999; 2001). Estes dados contrariam a hipótese inicial de que as

espécies heteroxênicas se originaram das monoxênicas e que essas últimas deveriam ser as mais

relacionadas com os kinetoplastidas de vida livre (Lake et al., 1988).

A questão da monofilia do gênero Trypanosoma foi novamente colocada sob disputa com a

publicação de dois outros trabalhos (Hughes e Piontkivska, 2003a, b). Esses autores questionaram as

(22)

relacionados aos demais tripanossomas. Para esses autores, a monofilia do gênero Trypanosoma

obtida nos trabalhos anteriores seria um artefato devido à utilização de grupos externos inadequados.

Hamilton et al. (2004), a fim de refutar os resultados de Hughes e Piontkivska (2003a, b), analisaram

dois loci gênicos (SSUrDNA e gGAPDH) para inferências filogenéticas de um grande número de

tripanossomatídeos. Esse trabalho corrobora estudos anteriores (Stevens et al., 1999; 2001; Stevens e

Gibson, 1999a, b) que suportavam a monofilia do gênero Trypanosoma. A análise do gene de gGAPDH

sugere ainda, diferentemente dos trabalhos anteriores, que os parasitas do gênero Trypanosoma

tenham surgido a partir de ancestrais monoxênicos parasitas de insetos hematófagos (Blastocrithidia),

pois, o clado de tripanossomas aparece como grupo apical dentro do grupo de tripanossomatídeos

predominantemente parasita de insetos. Análises realizadas com seqüências de HSP90 (Lukes et al.,

2002; Simpson et al, 2003) geraram filogenias congruentes com as obtidas com seqüências de

SSUrRNA e gGAPDH, indicando a monofilia de Trypanosoma.

Diversas análises de inferências filogenéticas definiram vários clados no gênero Trypanosoma

(Figura 3):

Clado T. brucei, formado pelos tripanossomas de mamíferos da Secção Salivaria, cuja

distância filogenética dos demais tripanossomas sugere uma história evolutiva distinta, confinada à

África e associada com a mosca tsetsé. Tripanossomas isolados de répteis (T. grayi e T. varani) e de

anfíbios (T. mega) africanos foram posicionados em grupos muito distantes do clado T. brucei. Estes

dados junto com evidências paleogeográficas sugerem que a divergência do clado T. brucei dos outros

tripanossomas data do período médio-Cretáceo, há cerca de 100 milhões de anos, quando a África se

isolou dos outros continentes (Stevens et al., 1999; 2001).

Clado T. cruzi, constituído por tripanossomas de mamíferos americanos transmitidos por

triatomíneos (T. cruzi e T. rangeli), por tripanossomas exclusivos de morcegos do Novo e Velho Mundo

e por um isolado de canguru, indicando que este grupo se originou antes da separação da América do

Sul e Austrália, após a separação da África (Stevens et al., 2001).

Clado Aquático, formado predominantemente por tripanossomas isolados de anuros e peixes

(esse grupo será discutido com maiores detalhes no ítem 4.4).

Clado T. lewisi compreende tripanossomas que parasitam as ordens Rodentia, Lagomorpha e

Insetivora. Os organismos desse grupo são transmitidos por pulgas e apresentam especificidade pelo

hospedeiro vertebrado (Hamilton et al., 2005b).

Clado T. theileri agrupa tripanossomas isolados de mamíferos da ordem Artiodactyla e que

apresentam significativa especificidade pelo hospedeiro vertebrado. Esse grupo está distribuído por

todo o mundo e acredita-se que tabanídeos sejam os principais vetores (Rodrigues et al. 2006).

Clado T. cyclops, composto por um isolado de macaco da Malásia (T. cyclops), um de Wallabia

(23)

Haemadipsidae. A presença de isolados de sanguessugas nesse grupo sugere que estes sejam seus

principais vetores (Hamilton et al., 2005a)

Clados T. avium e T. corvi (Votýpka et al. 2004), formados por tripanossomas de aves e

artrópodes de vários grupos, aparentemente, sem restrição a espécie de aves (Sehgal et al., 2001).

Phytomonassp Herpetomonas samuelpessoai Herpetomonas muscarum Herpetomonas megaseliae Leishmania tarentolae Leishmania major Crithidia fasciculata Blastocrithidia gerricola Leptomonas lactosovorans Wallaceina brevicula Leptomonas peterhoffi T. rotatorium T. mega T. fallisi T. binneyi T. boissoni T.sp K&A

T.sp CLAR

T. granulosum T. varani

T.sp Gecko

T. grayi T.sp AAT

T. avium T. avium T. vivax T. evansi T. brucei T. brucei

T. congolensesavannah

T. congolensekilifi

T. congolenseforest

T. simiae T. simiaetsavo

T. godfreyi T.sp D30

T. theileri T. cyclops

T.sp TL.AQ.22

T.sp wallaby ABF

T. lewisi T. microti

T. nabiasi T.sp F4

T. pestanai T.sp wombat AAP

T.sp H25

T. dionisii T. cruzi marinkellei

T. cruzi T. cruzi T. conorhini T. vespertilionis T. rangeli T. minasense Outros tripanossomatídeos Clado “Aquático”

CladoT. avium

CladoT. corvi

CladoT. brucei

CladoT. theileri

CladoT. cyclops

CladoT. lewisi

CladoT. cruzi

Clado Lagarto

Figura 3. Relacionamento filogenético entre organismos da ordem Trypanosomatida. Modificado de Hamilton et al. (2007).

1.4 Tripanossomas de anuros

Cerca de sessenta espécies de tripanossomas de anuros já foram relatadas no mundo inteiro

até 1974, data da última revisão deste grupo de tripanossomas (Bardsley e Harmsen, 1973). Destas 60

espécies, Diamond (1965) em uma detalhada revisão reconheceu apenas 26 (Tabela 1, Figura 4). Esta

confusão se deve ao fato de que estas espécies foram identificadas com base em descrições

morfológicas de formas do sangue. Ainda hoje, estudos sobre a diversidade destes tripanossomas têm

se baseado neste parâmetro (Desser, 2001; Zickus, 2002).

Poucos estudos foram realizados com tripanossomas cultivados, sendo a maioria do Canadá e

(24)

haviam sido cultivados, 5 isolados do América do Norte, um isolado da África e um da Europa e

nenhum isolado da América Latina havia sido isolado e mantido em cultura (Clark et al., 1995, Tabela

1). Cinco espécies de tripanossomas de anuros foram descritas no Brasil: quatro em Leptodactylus

ocellatus (T. ocellati, T. leptodactyli, T. celestinoi e T. rotatorium) e uma em Scinax ruber (T. borrelli)

(Bardsley e Harmsen, 1973). Contudo, além de terem sido identificadas apenas por critérios

morfológicos, não foram cultivadas ou criopreservadas.

Atualmente, das mais de sessenta espécies de tripanossomas descritas nesses hospedeiros

(Bardsley e Harmsen, 1973), apenas 7 podem ser consideradas espécies válidas (Tabela 1) baseado

em estudos de isoenzimas (Martin et al., 1992a,b), riboprinting (Clark et al., 1995), filogenias baseadas

no gene ribossômico (Haag et al., 1998; Stevens et al., 2001; Hamilton et al., 2004; Gibson et al., 2005;

Martin et al., 2002) e caracterização dos genes de mini-exon (Gibson et al., 2000). As demais espécies

descritas não foram isoladas em cultura, ou estas foram perdidas, o que impossibilita a validação das

mesmas.

1.4.1 Morfologia

A análise morfológica de tripanossomas de anuros por microscopia de luz revelou uma grande

diversidade de formas dos tripanossomas de anuros. Muitos trabalhos publicados sobre esses

tripanossomas se restringem a extensas descrições morfológicas das formas presentes no sangue dos

anuros. A descrição de novas espécies tradicionalmente está baseada no reconhecimento de tipos

morfológicos, muitas vezes definidos com base em diferenças extremamente sutis. Não sabemos se os

tipos morfológicos (morfotipos) correspondem a diferentes espécies ou a diferentes estágios de uma

mesma espécie.

Anuros infectados por tripanossomas, tanto experimental quanto naturalmente, normalmente

podem apresentar mais de um morfotipo. Desser (2001), em um estudo de diversidade de parasitas em

anuros da Costa Rica, encontrou, em um único indivíduo de Rana vaillanti, cinco espécies de

tripanossomas. É interessante notar que Barta e Desser (1984) e Desser (2001) observaram que

espécies de anuros com hábitos mais aquáticos são mais suscetíveis a infecções por tripanossomas,

talvez pelo contato com vetores aquáticos como sanguessugas, e apresentam uma maior diversidade

de formas no sangue. Vários trabalhos sobre a diversidade de tripanossomas sugerem que esses

parasitas sejam inespecíficos com relação à espécie ou mesmo à família do hospedeiro vertebrado

(Werner e Walewski, 1976; Werner, 1993; Woo e Bogart, 1984; Barta e Desser, 1984). Esses autores

interpretam a variedade de formas encontradas no sangue de anuros como infecções mistas por várias

espécies, sugerindo que tripanossomas de anuros podem normalmente romper a barreira de espécie

do hospedeiro vertebrado. Essa questão levou Scorza e Boyer (1958) a estudar o papel do hospedeiro

(25)

Leptodactylus bolivianus) em Hyla crepitans deu origem a infecções por parasitas similares a T. borrelli,

porém, quando esse parasita foi inoculado em L. bolivianus, as formas observadas eram semelhantes a

T. costatum e T. leptodactyli e em Phyllomedusa bicolor, os flagelados no sangue eram similares a T.

arcei. Trypanosoma rotatorium, em ranídeos, é considerado uma espécie polimórfica e foram

agrupados no complexo T. rotatorium, que pode albergar diferentes morfotipos (Bardsley e Harmsen,

1969). De fato, existem muitas dúvidas se esse polimorfismo representa a expressão fenotípica de um

mesmo genoma, infecções por várias linhagens de tripanossomas ou se ambos os fenômenos podem

ocorrer.

Os tripanossomas de anuros apresentam desenvolvimento extremamente pleomórfico

(Bardsley e Harmsen, 1973). Martin e Desser (1991a) observaram que a morfologia dos flagelados em

B. americanus experimentalmente infectado com um clone de T. fallisi varia em função da estação do

ano, com duas fases de infecção. No final da primavera e durante todo o verão são observadas formas

tripomastigotas largas, provavelmente um indício de início de infecção. Formas mais curtas e finas são

observadas em todas as épocas do ano. Esses experimentos mostram uma alteração da forma

tripomastigota curta para larga após períodos de frio, sugerindo que esses flagelados sofram alterações

morfológicas sazonais dependentes da temperatura ou da redução da resposta imunológica do

hospedeiro devido ao abaixamento da temperatura. Reilly e Woo (1982b) também observaram

variações morfológicas relacionadas com tempo de infecção e temperatura em outros dois

tripanossomas.

Poucos são os trabalhos sobre ultra-estrutura de tripanossomas de anuros. Com exceção do

tamanho do cinetoplasto, as demais estruturas celulares nesses organismos parecem não diferir

significantemente das descritas em tripanossomas de mamíferos (Reilly e Woo, 1982c; Martin e

Desser, 1990). Steinert e Novikoff (1960) observaram uma depressão na superfície da membrana

plasmática, próxima da base flagelar de formas de cultura de T. mega, que forma um canal levando ao

interior da célula. Essa estrutura também foi caracterizada em T. fallisi, formas de cultura e formas

encontradas no vetor, a sanguessuga Desserobdella picta (Martin e Desser, 1991a). Essa estrutura é

análoga ao citóstoma dos ciliados e está presente em tripanossomas de peixes e em algumas espécies

de tripanossomas de mamíferos. T. fallisi apresenta microorganismos intracelulares semelhantes aos

observados no tripanossoma de peixe T. cobitis (Martin e Desser, 1990; 1991a).

Diamond (1965) em sua extensa revisão taxonômica de tripanossomas de anuros reconheceu

26 espécies com ampla distribuição e definiu os morfotipos presentes no sangue desses hospedeiros

(26)

Tabela 1. Espécies de tripanossomas de anuros depois de Diamond (1965).

Tripanossoma Hospedeiros Origem Geográfica Referência

T. ampanense Rana blythi Malásia Miyata e Yong, 1994

T. andersoni Hyla versicolor América do Norte Reilly e Woo, 1982a

T. arcei * Leptodactylus ocellatus Argentina e Brasil Mazza et al., 1927

T. belli * Rana temporaria China Nabarro, 1907

T. bocagei * Bufo gargarizans, B. melanostictus, B. regularis África e Ásia França, 1911

T. borrelli * Scinax ruber Brasil Marchoux e Salimbeni, 1907

T. boyli Rana boyli boyli América do Norte Lehmann, 1959

T. bufophlebotomi Bufo boreas halophilus América do Norte Ayala, 1970

T. bulat Rana blythi Malásia Miyata e Yong, 1994

T. canadensis Rana pipiens América do Norte Woo, 1969a

T. chalconotae Rana chalconota ? Miyata et al., 1994

T. chattoni * ¶ Bufo arenarum, B. melanostictus, Ceratophrys ornata, Hyla arborea,

H. raddiana, Leptodactylus ocellatus, Phyllomedusa salvagii, Rana catesbiana, R. clamitans, R. pipiens, R. sphenocephala

África, América do Norte, América do Sul (Argentina), Ásia e Europa

Mathis e Léger, 1911

T. clamatae * Rana clamitans América do Norte Stebbins, 1907

T. clelandi * Limnodinastes ornatus, L. tasmaniensis Austrália Johnston, 1916

T. diamondi Rana pipiens América do Norte Pérez-Reyes, 1969a

T. fallisi ¶ Bufo americanus América do Norte Martin e Desser, 1991

T. galba Rana montezumae, R. pustulosa, R. palmipes América do Norte Pérez-Reyes, 1968

T. gaumontis * Bufo americanus América do Norte Fantham et al., 1942

T. grandis Rana pipiens América do Norte Pérez-Reyes, 1969a

T. grylli * Acris gryllus América do Norte Nigrelli, 1945

T. hosei Rana hosei Malásia Miyata e Young, 1990

T. inopinatum * Rana esculenta, R. hexadactyl, R. temporaria, R. tigrina América do Norte, Ásia e Europa

Sergent e Sergent, 1904

T. ishigakiense Rana limnocharis limnocharis Japão Miyata, 1978

T. karyozeukton * B. regularis, R. mascarensis, R. occipitalis, R. oxirhynchus África Dutton e Todd, 1903

T. kuhlii Rana kuhlii ? Miyata et al., 1995

T. lavalia * Bufo americanus América do Norte Fantham et al., 1942

T. leptobrachii Leptobrachium hendricksoni ? Miyata et al., 1995

T. leptodactyli * Ceratophrys ornata, Hyla raddiana, Leptodactylus bufonius, L. ocellatus

Argentina e Brasil Carini, 1910

T. loricatum * Rana esculenta, R. guntheri, R. limnocharis, R. nigromaculata, R. plancyi, R.tigrina

Ásia e Europa (Mayer, 1843) França e Athias,

1906

T. maleisiense Rana blythi Malásia Miyata e Yong, 1994

T. mega * ¶ B. regularis e R. oxirhynchus África Dutton e Todd, 1903

T. melanosticti Bufo melanostictus ? Miyata et al., 1995

T. midaii Rana blythi Malásia Miyata e Yong, 1994

T. miyagii Rana namiyei, Rana narina, Rana holsti, Rana ishikawae, Rana subaspera

Japão Miyata, 1978

T. montezumae Rana montezumae, R. pustulosa, R. palmipes América do Norte Pérez-Reyes et al., 1960

T. montrealis * Bufo americanus América do Norte Fantham et al., 1942

T. nagasakiense Hyla arborea japonica Japão Miyata, 1978

T. nelspruitense * Rana angolensis África Laveran, 1904

T. neveulemairei* ¶ Rana esculenta Córsega Brumpt, 1928

T. oitaense ? Oeste asiático Miyata et al., 1994

T. panjang Polypedates leucomystax Oeste asiático Miyata et al., 1994

T. parroti * Discoglossus pictus Argélia Brumpt, 1923

T. parvum * Rana clamitans América do Norte Kudo, 1922

T. pipientis * Rana pipiens, R. sylvatica América do Norte Diamond, 1950

T. prominani Rhacophorus prominanus Oeste asiático Miyata et al., 1994

T. pseudomiyagii Rana ridibunda Iraque Miyata et al., 1989

T. pseudopodium Bufo americanus América do Norte Werner e Walewski, 1976

T. raksasa Rana erythraea ? ?

T. ranarum * ¶ Rana clamitans, R. esculenta, R. mugiens, R. pipiens América do Norte, Ásia e

Europa

(Lankester, 1871) Danilewsky, 1885

T. rotatorium * ¶ Bufo arenarum, B. regularis, Ceratophrys ornata, Hyla arborea, H.

raddiana, Lepidobatrachus asper, Leptodactylus bufonius, L. ocellatus, Phyllomedusa sauvagii, Rana esculenta, R. guntheri, R. limnocharis, R. mascarensis, R. nigromaculata, R. occipitalis, R. plancyl, R. tigrina,

Ásia, África, Europa e América do Sul (Argentina e Brasil)

(Mayer, 1843) Laveran e Mesnil, 1901

T. rugosae girino de Rana rugosa Japão Miyata, 1978

T. schimidti * ¶ Rana pipiens, R. sphenocephala América do Norte Diamond, 1965

T. sembeli ? Oeste asiático Miyata et al., 1994

T. sergenti * Discoglossus pictus Argélia Brumpt, 1923

T. terbesar Bufo asper Malásia Miyata e Poon, 1992

T. tsukamotoi Rana namiyei Japão Miyata, 1978

T. tsunezomiyatai Rana rugosa, Rana limnocharis limnocharis Japão Miyata, 1978

T. tumida * Rana nutti África Averintsev, 1916

T. wallacei ? Oeste asiático Miyata et al., 1994

T. yongi Bufo asper Malásia Miyata e Poon, 1992

*espécies consideradas válidas por Diamond, (1965).

(27)

Grupo A

Grupo B

Grupo C

Grupo D1

Grupo E

Grupo F

Grupo D2

T. rotatorium T. borreli

T. bocagei T. loricatum

T. karyozenkton T. mega T. neveulemairei

T. grylli T. chattoni

T. nelspruitense

T. gaumontis T. montrealis

T. parroti T. leptodactyli

T. parvum T. inopinatum

T. sergenti

T. lavalia

10µm

(28)

1.4.2 Hospedeiros vertebrados e distribuição geográfica

A classe Amphibia é constituída por descendentes dos mais antigos vertebrados terrestres,

sendo o primeiro grupo de cordados a viver fora da água. Os grupos atuais dessa classe pertencem a

subdivisão Lissamphibia (Triássico recente) e estão distribuídos em três ordens: Anura (sapos, rãs e

pererecas), Gymnophiona (cobras-cegas) e Caudata (salamandras). Por ser um grupo basal nos

tetrápodes, grupo que engloba o último ancestral comum dos amniotas, anfíbios e seus descendentes,

a ordem Anura tem grande importância nos estudos evolutivos dos tetrápodas (Laurin et al., 2000) e de

outros vertebrados (Graybeal, 1997; Bossuyt e Milinkovith, 2001).

Anfíbios vivem principalmente na água e em ambientes úmidos, mas nunca no mar. A

diversidade de espécies de anfíbios excede a reconhecida para mamíferos (Glaw e Köhler, 1998) e

mais da metade dessa diversidade está concentrada na região neotropical (cerca de 68% das

espécies). A ordem Anura é constituída por 45 famílias, com cerca de 5362 espécies (que corresponde

a cerca de 88% da diversidade de anfíbios) dispersas por todos os continentes, com exceção da

Antártica, sendo mais comuns em regiões temperadas úmidas, embora algumas habitem o círculo polar

ártico e outras vivam em desertos (Frost, 2006; Pough et al., 1996). Duellman (1988) observou que a

região neotropical abriga a maior diversidade de anuros, aproximadamente 44% do número das

espécies reconhecidas até então. O Brasil concentra a maior riqueza de espécies de anuros do

planeta, representada por 747 espécies (SBH 2005) com uma taxa de endemismo de 64% (IUCN

2004).

Até o começo deste século o relacionamento filogenético entre os anuros era muito controverso

ou pouco resolvido (Ford e Cannatella, 1993). Haas (2003) apresentou o primeiro trabalho de filogenia

de anuros baseado em um grande número de espécies de anuros (81) e diversos marcadores (136

caracteres larvais, 6 de biologia reprodutiva e 14 de morfologia dos animais adultos).

Faivovich et al. (2005), em um trabalho muito mais detalhado com 276 espécies (~5100pb de

nove genes mais 37 marcadores anatômicos) cujo enfoque principal era a família Hylidae, propôs a

revisão taxonômica da família Hylidae devido à merofilia de diversos gêneros desse grupo. Um

resultado interessante dessa revisão foi o desmembramento do gênero Hyla, cuja maior diversidade se

localizava na América do Sul e, após essa revisão, ficou restrito à América do Norte, em diversos

gêneros.

Embora os dois trabalhos citados acima tenham representado um grande avanço para o estudo

da sistemática e evolução de anuros, diversos pontos, como o relacionamento entre as três ordens de

anfíbios e a monofilia de diversas famílias e gêneros de anuros, ainda permaneciam controversos. Em

relação a esses pontos, uma grande contribuição foi dada por Frost et al. (2006) que analisaram

(29)

Lissamfibia. Os resultados desses autores sugerem que Lissanfibia é um grupo monofilético, tendo as

cecílias como grupo basal. Além disso, esse trabalho corrobora estudos anteriores no que se refere à

parafilia de determinados gêneros (por exemplo, Bufo, Graybeal, 1997) e famílias (como

Leptodactylidae, Haas, 2003). Uma nova classificação para Anura foi proposta com base nesse

extenso estudo (Frost, 2006).

Na revisão de Bardsley e Harmsen (1973) foram listadas 88 espécies de anuros encontradas

com tripanossomas. Essas espécies pertencem a nove famílias representativas da ordem Anura.

Contudo, o número de espécies de anuros em que foram observados tripanossomas é bastante

diferente para cada família. A família “Ranidae” representa 44% dos tripanossomas descritos (38

espécies do gênero “Rana” e uma espécies do gênero Ptychadena), seguida da família “Hylidae” (19

espécies, 22%) e Bufonidae (16 espécies do gênero “Bufo”, 18%).

Todos os estudos realizados até o momento sugerem que tripanossomas são parasitas

ubíquos em anuros e dada a diversidade de espécies, características ecológicas e de ambientes

observadas nesse grupo de vertebrados, é provável que a diversidade desses parasitas suplante a

observada para tripanossomas de mamíferos.

1.4.3 Ciclo Biológico

1.4.3.1 Desenvolvimento no hospedeiro vertebrado

O ciclo biológico melhor estudado de um tripanossoma de anuro foi o de T. fallisi, isolado de

Bufo americanus (Martin e Desser, 1990). Martin e Desser (1991a) analisaram o desenvolvimento dos

flagelados observados no sangue de B. americanus (criado em laboratório) experimentalmente

infectado com um clone de T. fallisi. A infecção experimental apresentou dois estágios, de 8 a 10 dias

após a infecção, as formas tripomastigotas metacíclicas dão origem aos tripomastigotas sangüícolas,

com o corpo largo e membrana ondulante bem desenvolvida, essas formas são gradualmente

substituídas por formas tripomastigotas curtas e finas. Esses autores observaram também que formas

tripomastigotas largas são observadas apenas no verão (Martim e Desser, 1991a).

Espécimes de Hyla versicolor, criadas em laboratório, inoculadas com T. andersoni e T. grylli e

aclimatadas a 10ºC, 22ºC e 30ºC por cinqüenta dias também apresentaram variações de acordo com

tempo de infecção e temperatura (Reilly e Woo, 1982b). Ambas as espécies apresentaram formas

epimastigotas, esferomastigotas e tripomastigotas, contudo o local de ocorrência dos tripanossomas

diferiu: Formas de T. andersoni foram encontradas principalmente no fígado enquanto que as de T.

grylli foram observadas na circulação geral. As três formas foram encontradas em divisões binárias ou

múltiplas em T. grylli, que apresentou aumento no número e tamanho dos parasitas nas três

(30)

de tamanho com o tempo e temperaturas testadas. T. andersoni não apresentou formas em divisão e

aumentou em número e tamanho a 22ºC (até 20 dias) e 30ºC (até 50 dias), mas pouco a 10ºC.

Bardsley e Harmsen (1969) testaram o efeito da temperatura sob a parasitemia periférica de T.

rotatorium em Rana catesbeiana, revelando forte correlação entre temperatura e parasitemia. Sob a

menor temperatura testada (10ºC) foi observada grande concentração de tripanossomas em órgãos

como fígado, rins e coração. Variações circadianas foram observadas a 26ºC, mas não a 10ºC. Esses

autores sugerem que as variações de temperatura não são as causas diretas da variação da

parasitemia. Em um estudo posterior (Bardsley e Harmsen, 1970) outros fatores como excitação e

adrenalina foram associados com a liberação para a circulação periférica de tripanosomas estocados

em órgãos como o fígado e os rins. Johnson et al. (1993) observaram variação circadiana na

parasitemia periférica de um tripanossoma de anuro em Hyla cinerea. A parasitemia nesse vertebrado,

que é baixa das 8h às 16h, sofre um incremento dramático até às 21h mantendo seu pico até às 1h.

Neste horário de pico de parasitemia também é observado um pico de ocorrência de Corethrella wirthi

(díptera) se alimentando em machos adultos de H. cinerea, que ao contrário das fêmeas, apresentam

infecção por tripanossoma (Ver item 4.3.2.2). McKeever e French (1991), demostraram que C. wirthi é

atraída pelo canto de machos de anuros. Esses machos interrompem seu canto ao entrarem em

contato físico com as fêmeas de forma que estas raramente entram em contato com o inseto, o que

explicaria a suposta ausência de tripanossomas nas mesmas.

Variações circadianas na parasitemia periferia de tripanossomas de anuros também foram

correlacionadas com a luminosidade (Southworth et al., 1968). Em tripanossomas do complexo T.

rotatorium em R. clamitans observou-se um incremento no número de tripanossomas no sangue em

períodos de luminosidade e retenção desses parasitas nos rins na ausência de luz, mesmo em

fotoperíodos invertidos. Os mesmos resultados foram observados para animais sem os olhos. Animais

mantidos na escuridão por 24h apresentaram tripanossomas apenas nos rins e com 24h de

luminosidade apresentaram o ciclo natural do tripanossoma.

O aparecimento e o aumento de infecções por tripanossomas em anuros aparentemente está

relacionado à idade do hospedeiro (Bardsley e Harmsen, 1973). Barta e Desser (1984), notaram que a

prevalência de T. ranarum em B. americanus aumenta exponencialmente em indivíduos acima de

50mm de comprimento (medida correlacionada à idade em que se alcança a maturidade sexual).

O local de multiplicação de tripanossomas de anuros no hospedeiro vertebrado não está

restrito à circulação sanguínea: T. inopinatum multiplica-se em células da medula óssea e do baço

(Buttner e Bourcart, 1955), T. karyozeukton, T. leptodactyli e T. sp em hemácias (Carini, 1910) e T.

(31)

1.4.3.1.1 Patogenia

Tripanossomas de anuros são comumente reportados como não patogênicos para seus

respectivos hospedeiros vertebrados (Bardsley e Harmsen, 1973). Contudo, esses tripanossomas

podem vir a ser patogênicos para girinos ou para anuros adultos quando a infecção atinge altos níveis

de parasitemia (Bardsley e Harmsen, 1973). Brumpt (1906) demonstrou que a linhagem algeriana de T.

inopinatum, que não é patogênico para R. esculenta da mesma região, é letal para anuros europeus da

mesma espécie. O comportamento diferencial de T. inopinatum em diferentes populações do

hospedeiro foi posteriormente investigado por Buttner e Bourcart (1955). Esses autores postularam que

a dieta da população algeriana de R. esculenta é o fator responsável pela sua resistência a T.

inopinatum e que a patogenia no anuro ocorre devido a incapacidade de destruir os tripanossomas nos

primeiros estágios de desenvolvimento. Diamond reportou que tripanossomas de R. sphenocephala do

Estado da Florida (E.U.A.) são letais para R. pipiens de Minnesota (Bardsley e Harmsen, 1973). Esses

dados sugerem a existência de imunidade dos anuros frente às espécies simpátricas de

tripanossomas, com as infecções por anuros mantidas em equilíbrio enzoótico apenas nos seus

habitats naturais.

1.4.3.2 Hospedeiros invertebrados

Os hospedeiros invertebrados e vetores de tripanossomas de anuros estão, aparentemente,

relacionados com o habitat destes animais. No ambiente aquático, os vetores são principalmente

sanguessugas. No ambiente terrestre, a transmissão pode ser realizada por diversos artrópodes

hematófagos.

1.4.3.2.1 Sanguessugas

Sanguessugas, classe Hirudinea, filo Anellida, são um dos ectoparasitas mais prevalentes de

anuros (Bardsley e Harmsen, 1973). Essa classe contém cerca de 500 espécies marinhas, terrestres e

de água doce (Ruppert e Barnes, 1994) divididas em três subclasses: Branchiobdellida,

Achantobdellida e Euhirudinea. Euhirudinea, que compreende a maioria das sanguessugas, possui

duas ordens: Rhynchobdellida e Arhynchobdellida. Dos grupos mencionados acima, apenas a ordem

Rhynchobdellida não é corroborada em inferências filogenéticas moleculares (Siddall e Burreson, 1998;

Siddall et al., 2001).

As sanguessugas terrestres e de água doce estão distribuídas em dez regiões e sub-regiões

zoogeográficas. Na América do Sul predominam espécies endêmicas da família Glossiphoniidae

(Rhynchobdellida) e da sub-ordem Hirudiniformes (Arhynchobdellida) (Sawyer, 1986). Muitas espécies

de sanguessugas são predadoras, porém, a maioria é ectoparasita sugadora de sangue de uma grande

(32)

usualmente parasitam apenas uma classe de vertebrados. Apenas as ordens Rhynchobdellida e

Arhynchobdellida possuem espécies que se alimentam em anuros. Algumas espécies da ordem

Rhynchobdellida são vetoras de tripanossomas de anuros. As espécies da ordem Arhynchobdellida

parasitas de anuros são onívoras sugadoras de sangue facultativas como, por exemplo, Helobdella

algira parasita de Rana spp (Sawyer, 1986). Outras espécies, por exemplo, Hirudo medicinalis, se

alimentam em anuros e mamíferos.

A transmissão de tripanossomas por sanguessugas é o mecanismo aceito para as espécies

que parasitam peixes (revisado em Molyneux, 1977). Anfíbios (Bardsley e Harmsen, 1973; Molyneux,

1977), répteis (Siddall e Desser, 1992; Molyneux, 1977) e mamíferos (Hoare, 1972) são parasitados por

tripanossomas transmitidos por sanguessugas ou artrópodes. Nesses modelos não observamos

apenas ciclos “aquáticos” já que determinadas espécies de sanguessugas implicadas na transmissão

de tripanossomas possuem hábitos terrestres: Haemadipsídeos dos gêneros Micobdella, Philaemon,

Haemadipsa e Leiobdella, por exemplo, foram implicados na transmissão de tripanossomas

australianos do grupo T. cyclops, que contêm isolados de “wallaby” e de anuros (Myxophyes fleayi)

(Hamilton et al., 2005a).

Sanguessugas das famílias Glossifoniidae, Piscicolidae e Hirudinidae foram incriminadas como

supostas vetoras de tripanossomas de anuros (Bardsley e Harmsen, 1973). Billet (1904) foi o primeiro a

avaliar o papel de sanguessugas na transmissão de tripanossomas de anuros, encontrando uma

diversidade de formas de T. inopinatum em Helobdella algira. Esse autor, tendo em vista que

sanguessugas são comuns em Rana esculenta postulou que elas seriam vetoras de T. inopinatum, o

que foi corroborado por Brumpt (1906), que mostrou a transmissão desse tripanossoma para R.

esculenta usando como vetor H. algira. Após esses estudos, várias espécies de sanguessugas foram

apontadas como hospedeiras de uma grande diversidade de tripanossomas de anuros (Bardsley e

Harmsen, 1973).

Porém, na maioria desses trabalhos foram utilizados anuros e ou sanguessugas naturalmente

infectados coletados na natureza. Animais coletados do campo podem apresentar resultados

contraditórios quando analisados por métodos tradicionais de detecção de tripanossomas como

esfregaços em lâmina, microhematócrito e hemocultura (Woo, 1983; Jones e Woo, 1989). A detecção

de tripanossomas baseada em esfregaço de sangue pode não revelar infecções crípticas (Buttner e

Boucart, 1955) invalidando, assim, resultados de infecções experimentais. Embora infecções por

tripanossomas tenham sido observadas em girinos (Bardsley e Harmsen, 1973) não encontramos

nenhum relato similar para ovos de anuros. O trabalho de Diamond (1965) foi o primeiro a utilizar

anuros criados em laboratório a partir de ovos, tendo sido seguido por outros (Pérez-Reyes, 1968;

Imagem

Figura 1. Trypanosoma sanguinis, sinonímia de T. rotatorium (Gruby, 1843).
Figura 2. Relacionamento filogenético entre organismos da classe Kinetoplastea. Modificado de Moreira et al
Figura 3. Relacionamento filogenético entre organismos da ordem Trypanosomatida. Modificado de Hamilton et al
Tabela 1. Espécies de tripanossomas de anuros depois de Diamond (1965).
+7

Referências

Documentos relacionados

Neste trabalho o objetivo central foi a ampliação e adequação do procedimento e programa computacional baseado no programa comercial MSC.PATRAN, para a geração automática de modelos

Ousasse apontar algumas hipóteses para a solução desse problema público a partir do exposto dos autores usados como base para fundamentação teórica, da análise dos dados

Alguns ensaios desse tipo de modelos têm sido tentados, tendo conduzido lentamente à compreensão das alterações mentais (ou psicológicas) experienciadas pelos doentes

This log must identify the roles of any sub-investigator and the person(s) who will be delegated other study- related tasks; such as CRF/EDC entry. Any changes to

i) A condutividade da matriz vítrea diminui com o aumento do tempo de tratamento térmico (Fig.. 241 pequena quantidade de cristais existentes na amostra já provoca um efeito

didático e resolva as ​listas de exercícios (disponíveis no ​Classroom​) referentes às obras de Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa, Machado de Assis,

Material e Método Foram entrevistadas 413 pessoas do Município de Santa Maria, Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, sobre o consumo de medicamentos no último mês.. Resultados

É uma ramificação da ginástica que possui infinitas possibilidades de movimentos corporais combinados aos elementos de balé e dança teatral, realizados fluentemente em