Processo de Insolvência
Noção: a insolvência traduz-se na situação daquele que é incapaz de cumprir as suas obrigações por ausência necessária de liquidez. Ou seja, o insolvente não tem ativo (suficiente) que cubra o passivo.
O Direito da Insolvência corresponde ao complexo de normas jurídicas que tutelam a situação do devedor insolvente ou pré-insolvente1 e a satisfação dos direitos dos seus credores. Assenta sobretudo numa reposanbilidade patrimonial, tendo também uma forte vertente processual – é exigida a intervenção do tribunal – art.º 1º CIRE.
A declaração de insolvência visa a satisfação do direito do credor sobre o património do devedor.
O processo de declaração de insolência apresenta-se como (art.º 1º CIRE):
• Um processo executivo – a sua finalidade é a obtenção da realização coativa de uma obrigação;
• Um processo de execução coletiva/concursal – o seu fim é a satisfação de todos os credores de um devedor; todos os credores são chamados ao
processo;
✓ Medida de igualdade: segundo um critério de proporcionalidade. Credores são satisfeitos na medida dos seus créditos.
• Um processo de execução universal – abrange todo o património do devedor.
➔ A insolvência é ainda uma forma de execução para pagamento de quantia certa – o rateio do património do devedor não é realizado em espécie,
envolvendo antes um processo de liquidação (venda) que converte os bens do devedor em dinheiro.
Pressupostos da insolvência – artigos 2º, 3º; 18º CIRE:
• Legitimidade passiva – quem pode ser objeto – art.º 2º CIRE
• Situação material da insolvência – art.º 3º CIRE
• Legitimidade ativa – art.º 18º CIRE
Efeitos da declaração – art.º 81º e ss. CIRE
Resolução em benefício da massa insolvente – art.º 120º CIRE
Qualificação créditos – art.º 47º e 173º e ss. CIRE
Pagamento dos créditos – art.º 172º e ss.
1 Neste caso dá-nos medidas de recuperação do devedor.
A situação de insolvência
A incapacidade do devedor insolvente em cumprir as suas obrigações tem de ser certificada – através da declaração de insolvência (art.º 36º CIRE).
• Critério do fluxo de caixa (cash flow) – o devedor é insolvente assim que se torna incapaz de pagar as suas dívidas no momento em que estas se vencem, por falta de liquidez.
✓ Posso não ter caixa, mas ter recurso ao crédito. Neste caso não estamos numa situação de insolvência.
✓ Posso não ter liquidez, mas ter ativos superiores aos passivos – ainda assim estou em insolvência face a este critério. Ex.: não tenho dinheiro para pagar a um comerciante. Mas tenho o imóvel que vale 10 milhões – ainda assim estou insolvente para este critério.
O Direito Nacional estabelece este critério – (art.º 3º/1 CIRE)
ML – este artigo 3º/1 CIRE deve ser interpretado no sentido de se ter a insolvência como a impossibilidade de cumprir pontualmente as
respetivas obrigações por carência de meios próprios e por falta de crédito.
• Critério do balanco ou do ativo patrimonial – a insolvência resulta do facto de os bens do devedor serem insuficientes para o cumprimento integral das suas obrigações.
Apesar de não ser o critério admitido por lei, esta chega a adotá-lo – a insuficiência patrimonial funciona como critério acessório da definição de insolvência, aplicável às PC´S e aos patrimónios autónomos (art.º 3º/2 CIRE).
Funciona em alternativa ao critério do fluxo da caixa, de modo a facilitar o pedido de insolvência por parte dos credores destas entidades.
✓ Aborda-se a empresa e verifica-se se tem potencialidade do ativo estar superior ao passivo daqui a uns meses. Só depois desse tempo é que se verifica se o critério esta preenchido.
Esta disposição é, contudo, limitada pelo art.º 3º/3 CIRE (vide).
Não se aplica às PS.
➔ A insolvência atual, para efeitos da lei, é equiparada à insolvência
iminente, caso o devedor se apresente à insolvência (art.º 3º/4 CIRE).
Isto faz com que o devedor possa declarar-se insolvente ainda antes do vencimento das dívidas, através de um juízo de prognose do qual resulta a suposição de que, nessa altura, se verificará uma impossibilidade de
cumprimento.
✓ Só serve para o devedor declarar a sua insolvência. Os credores não podem invocar esta.
Sujeitos passivos da declaração de insolvência – art.º 2º CIRE
Podem ser objeto de processo de insolvência:
1. Quaisquer pessoas singulares ou coletivas;
• As PS podem sempre ser declaradas insolventes;
• Se a PS for empresária não haverá distinção entre o seu património e o da empresa – todo ele responderá por dívidas empresariais;
• As PC´S englobam: associações, fundações, sociedades comerciais, sociedades civis sob forma comercial e as cooperativas. Regra geral, a declaração de insolvência de uma PC acarreta a sua dissolução.
2. A herança jacente;
• É aquela que já foi aberta, mas ainda não foi aceite ou declarada vaga para o Estado;
• Esta declaração de insolvência não será, em principio, de interesse para os herdeiros, pois que estes podem ainda repudiar;
• Poderá ser requerida por qualquer credor da herança, de modo a que esta seja liquidada;
• O que acontece em caso de aceitação da herança insolvente?
✓ A aceitação da herança não extingue a autonomia patrimonial da mesma, prolongando-se essa até à conclusão do processo. Até lá é indivisa.
3. As associações sem personalidade jurídica e as comissões especiais;
• As PS que as compõem respondem ilimitadamente pelas dívidas que estas contraírem.
• No entanto, sendo essa reposanbilidade subsidiária, a declaração de insolvência abrange antes diretamente essas entidades.
4. As sociedades civis;
5. As sociedades comerciais e as sociedades civis sob a forma comercial até à data do registo definitivo do contrato pelo qual se constituem;
6. As cooperativas, antes do registo da sua constituição;
7. O estabelecimento individual de responsabilidade limitada;
• A insolvência deste não afeta automaticamente o seu titular, se não se verificar em relação a ele o requisito da impossibilidade de cumprimento das suas obrigações vencidas.
8. Quaisquer outros patrimónios autónomos.
O art.º 2º/2 CIRE vem excetuar:
1) As pessoas coletivas públicas e as entidades públicas empresariais;
• PCP: integram-se as de base territorial, associações publicas e institutos públicos;
• EPE: incluem-se as pessoas coletivas de direito publico com natureza empresarial criadas pelo Estado (DL 133/2013, de 3 de outubro) – incluem-se as presentes no nº 2, infra (art.º2/2-b) CIRE).
2) As empresas de seguros, as instituições de crédito, as sociedades financeiras, as empresas de investimento (…) na medida em que a sujeição a processo de insolvência seja incompatível com os regimes especiais previstos para tais entidades.
Massa insolvente – art.º 46º CIRE
Noção: património autónomo composto por todos os bens e direitos que integram o património do devedor à data da declaração de insolvência, como pelos bens e
direitos que este adquira na pendência do processo de insolvência.
Finalidade: A massa insolvente destina-se a ser liquidada (vendida) para que o respetivo produto possa ser afeto ao pagamento aos credores do processo de
insolvência (satisfação dos créditos dos credores da insolvência), depois de pagar as suas próprias dívidas – da massa insolvente.
Dívidas da massa insolvente – art.º 51º CIRE:
• custas do processo de insolvência;
• remunerações do administrador da insolvência;
• despesas com a apreensão dos bens;
• (…)
As dívidas da massa insolvente vão ser satisfeitos em primeiro lugar – art.º 46º/1 e 172º CIRE.
➔ Devem considerados integrados na massa insolvente os bens dos responsáveis legais das dívidas do insolvente - pessoas que, nos termos da lei, respondam pessoal e ilimitadamente pela generalidade das dívidas do insolvente, ainda que a título subsidiário – art.º 6º/2 CIRE.
➔ Se o insolvente for casado em regime de comunhão geral de bens ou de comunhão de adquiridos, a massa insolvente também engloba a meação dos bens comuns. Se o outro cônjuge não for parte no processo de insolvência, este ganha o direito de separar os seus bens da massa insolvente e a sua meação nos bens comuns (art.º 141º/1-b)).
Classificação dos créditos
Quais as obrigações que integram o passivo – que o ativo pode ser chamado a satisfazer?
• Passivo: conjunto de créditos que podem ser exercidos contra o insolvente;
✓ Primeiro satisfazer-se-ão as dívidas da massa insolvente (art.º 51º CIRE), e só depois os créditos sobre a insolvência – art.º 46º/1 CIRE.
A) Dívidas da massa insolvente
São aquelas que resultam da própria insolvência – art.º 51º CIRE.
Como vimos supra, o art.º 51º CIRE procede a uma enumeração das mesmas, às quais se poderão juntar outras assim classificadas ao longo do CIRE:
• Alimentos ao insolvente e aos trabalhadores – art.º 84º;
• Dívidas relativas a custas judiciais do autor e exequente – art.º 140º/3;
• Crédito resultante da perda da posse de um bem a restituir pela massa – art.º 142º/2.
As dívidas da massa insolvente são sujeitas a um regime mais favorável ao seu
pagamento, uma vez que são satisfeitas antes da satisfação dos créditos sobre a insolvência – art.º 46º/1 CIRE.
Os seus credores podem exigir diretamente o seu pagamento ao administrador da insolvência. Se a massa insolvente não chegar, o administrador será
presumivelmente responsável por essas dívidas. A sua reposanbilidade é, no entanto, ilidível, através da demonstração de que a insuficiência da massa insolvente era
imprevisível (art.º 59º/2 CIRE).
B) Créditos Sobre a Insolvência – art.º 47º e 173º e ss. CIRE
Corresponde àqueles que, cujo fundamento seja anterior à declaração de insolvência ou surjam no decurso do processo, o devedor insolvente tem de satisfazer, tendo estes natureza patrimonial.
Nos termos do art.º 47º/4 CIRE, verifica-se uma graduação de créditos:
• Créditos garantidos:2 créditos que beneficiam de uma garantia real ou de privilégios especiais – consignação de rendimentos, penhor, hipoteca ou direito de retenção. O seu pagamento é feito depois de serem pagas as dívidas da massa insolvente – 174º CIRE.
• Créditos privilegiados: créditos que beneficiam de privilégios creditórios gerais. Não constituem garantias reais por não incidirem sobre coisas
determinadas. O seu pagamento é feito depois de serem pagos os créditos garantidos – 175º CIRE.
Exemplo: dívidas de doença.
• Créditos comuns: créditos que não beneficiam da garantiam real, nem de privilégio geral, e não são objeto de subordinação. O seu pagamento surge depois da satisfação dos créditos privilegiados – art.º 176º CIRE.
2 A penhora, apesar de ser uma garantia real das obrigações, não faz parte dos crédito garantidos para efeitos do processo de insolvência. O mesmo se passa com a hipoteca judicial.
Estas dívidas não têm de ser reclamadas – art.º 128º CIRE
[Cite a sua fonte aqui.]
• Créditos subordinados: correspondem ao conjunto de créditos que são satisfeitos depois dos restantes créditos sobre a insolvência. Serão pagos se ainda restar saldo. São os últimos a serem satisfeitos, portanto. Art.º 48º CIRE e 177º CIRE.
Não conferem direito de voto na assembleia de credores – art.º 73º/3 CIRE;
Não conferem ao titular assento na comissão de credores.
Os créditos subordinados dividem-se em várias categorias: vide art.º 48º CIRE.
Entre os quais:
• “créditos detidos por pessoas especialmente relacionadas com o devedor” – 48º/1, remetendo para o 49º:
✓ Cônjuge;
✓ Ascendentes
✓ Sócios
✓ (…)
Os créditos sobre a insolvência são satisfeitos de acordo com o art.º 47º/4 CIRE:
1º - créditos garantidos 2º - créditos privilegiados
3º - créditos comuns – art.º 47º/b) e 448º CIRE 4º - créditos subordinados
Pode-se observar a extinção de privilégios creditórios e garantias reais – art.º 97º CIRE. Passam a comuns.
Os créditos serão assegurados pelos bens da massa, e para que sejam considerados terão de ser constituídos antes da declaração de
insolvência, ou surjam no decurso do processo.
O pedido de declaração de insolvência/Legitimidade ativa – art.º 18º O processo de insolvência tem início com o pedido de declaração de insolvência – art.º 18º e ss. CIRE.
A legitimidade para apresentar este pedido é:
a. Em primeira linha, do próprio devedor – 18º/1 CIRE – que é um dever - o que implica o reconhecimento por este da sua insolvência – art.º 28º CIRE.
b. Se este for incapaz, terá legitimidade o seu representante legal.
c. Se o devedor não for uma pessoa singular, a legitimidade recairá sobre o órgão social incumbido da sua administração ou sobre a entidade incumbida da administração ou liquidação do património – art.º 19º CIRE.
d. Para além do devedor, tem legitimidade para apresentar o pedido de declaração de insolvência qualquer credor, independentemente da natureza do crédito e
do vencimento do mesmo, bem como o Ministério Público – art.º 20º CIRE - mas não é um dever.
✓ Há um prémio para terceiros que requeiram a declaração de insolvência do devedor – art.º 98º CIRE – passa a adquirir a posição de privilegiado.
É, ainda assim, necessário que se tenha interesse na respetiva declaração. Da petição inicial terá de constar, no caso do credor, a natureza e o montante do crédito, tendo este de fazer prova do mesmo através de qualquer meio – art.º 25º CIRE.
A) Apresentação da insolvência pelo devedor
Excetuando-se as pessoas singulares que não sejam titulares de uma empresa na data em que incorram em situação de insolvência (art.º 18º/2 CIRE), impende sobre o devedor o dever de requerer a declaração da sua insolvência dentro dos 30 dias seguintes à data do conhecimento, ou do dever de conhecer, da situação de insolvência (nº1).
Se houver incumprimento deste dever de requerer a declaração, a insolvência será declarada culposa (art.º 186º/3 CIRE). Para além disso, o devedor incorre em responsabilidade aquiliana (483º CC), por violação de disposição legal destinada a proteger interesses alheios.
Os insolventes e os seus administradores incorrem solidariamente na obrigação de indemnizar os danos sofridos pelos credores, em consequência do atraso na
apresentação à insolvência:
• Créditos já constituídos no momento em que a apresentação deveria ter sido feita – dano consiste na maior frustração dos créditos.
• Créditos que apenas se constituíram após essa data – serão indemnizados pelos danos sofridos em resultado da celebração dos contratos. Abrange-se apenas o interesse contratual negativo. Poderá haver ainda responsabilidade
criminal.
Sabe-se já que a insolvência iminente é equiparada à insolvência atual, do que resulta que o devedor pode declarar insolvência ainda antes do vencimento das obrigações. Resta saber se a insolvência iminente determina, então, o início da contagem do prazo para efeitos do art.º 18º/1 CIRE.
MENEZES LEITÃO defende que o prazo apenasse conta a partir do momento em que ocorre a insolvência atual (“o art.º 18º/1 remete apenas para o art.º 3º/1 e não para o nº 4, aliado ao facto de ser extremamente insegura a determinação do momento em que se verifica a insolvência iminente”).
No caso das pessoas singulares que não sejam titulares de uma empresa, a estes não cabe o dever de apresentar declaração de insolvência.
B) Requerimento da insolvência por outros legitimados
• pelos responsáveis legais das dívidas;
• pelo credor ou;
• pelo Ministério Público.
✓ Há, como se disse, um prémio para terceiros que requeiram a declaração de insolvência do devedor – art.º 98º CIRE – passa a adquirir a posição de privilegiado
Estes têm legitimidade, mas não é um dever. O dever apenas pende sobre o devedor insolvente.
A estes caberá produzir prova relativa à sua condição de interessados na
declaração, exigindo-se a verificação de uma das circunstâncias do art.º 20º CIRE3. a) não realização generalizada dos pagamentos no momento do vencimento =
moratória generalizada;
b) incumprimento de apenas uma ou várias obrigações, do qual se possa inferir a impossibilidade de o devedor satisfazer a generalidade dos seus créditos;
c) Fuga do titular da empresa ou dos administradores, ou abandono do lugar em que a empresa tem sede ou exerce a sua atividade principal. Exige a lei que essa fuga se relacione com a falta de solvabilidade do devedor, o que é redundante aos olhos de MENEZES LEITÃO. A ausência terá de ser
injustificada, sendo essencial que não haja designação de substituto idóneo;
d) Realização de atos de onde resulta o empobrecimento voluntário do devedor, na intenção de prejudicar os seus credores = esbanjamento do património;
e) Insuficiência de bens do devedor para satisfação do crédito do exequente;
f) Incumprimento das obrigações incluídas no plano de insolvência (192º e ss.) ou no plano do pagamento – 251º e ss.;
g) Trata do incumprimento generalizado, nos seis meses anteriores, de obrigações de natureza específica.
✓ “Quando o devedor seja titular de uma empresa, presume-se de forma inilidível o conhecimento da situação de insolvência decorridos pelo menos três meses sobre o incumprimento generalizado de obrigações de algum dos tipos referidos na alínea g) do n.º 1 do artigo 20.º” – 18º/3 CIRE.
➢ Exemplo: prestações de contrato de trabalho.
➢ Atualmente não se aplica este dever. Não pode ser responsabilizado. Está suspenso (leis pós Covid-19).
h) Destina-se às pessoas coletivas e patrimónios autónomos, traduzindo a
manifesta superioridade do passivo em relação ao ativo, ou o atraso superior a nove meses na aprovação e depósito das contas legalmente obrigatórias.
A petição inicial deverá obedecer ao disposto no art.º 23º CIRE, exigindo-se em conjunto os documentos estabelecidos no art.º 24º do mesmo diploma.
• Escrita;
• Exposição dos factos.
Se o requerimento for feito por outro legitimado, rege a situação o art.º 25º CIRE.
3 É através do art.º 20º/1 CIRE – factos ilícitos – que os credores conseguem arvorar se estamos perante o critério do balanco ou da liquidez – artigo 3º. Têm de ser demonstrados pelos credores.
O requerente da declaração de insolvência pode desistir do pedido ou da instância até ser proferida sentença, nos termos do art.º 21º CIRE – a desistência apenas é
permitida em relação aos outros legitimados referidos no art.º 20º.
O próprio devedor não o poderá, naturalmente, fazer, pois que a apresentação do pedido implica o reconhecimento da declaração de insolvência – art.º 28º CIRE.
A desistência deixa de ser permitida se a sentença for proferida, mesmo que não tenha ainda transitado em julgado – proferida a sentença, passa a estar em causa um interesse geral, não podendo ser afastado por mera iniciativa do requerente.
Do art.º 22º resulta a aplicação do regime da responsabilidade civil, em caso de dolo, quando estiver em causa um pedido infundado de declaração da insolvência.
MENEZES CORDEIRO critica este preceito, dizendo ser inaceitável que a lei apenas consagre responsabilidade civil em situações de dolo, fugindo à regra geral, na qual se inclui também a negligência. Também a nível processual esta é atendida, no regime geral da litigância de má fé. Assim sendo, não se justifica um regime mais liberal neste âmbito. O preceito deve assim ser alvo de interpretação integrada e incluir negligência grosseira.
C) A sentença de declaração de insolvência e seus efeitos
• A sentença de declaração de insolvência deve obedecer ao disposto no art.º 36º CIRE.
• A declaração de insolvência e a nomeação do administrador da insolvência são registadas oficiosamente, nos termos do art.º 38º CIRE.
• Se o juiz concluir que o património do devedor não é presumivelmente suficiente para satisfazer as custas do processo, o que ocorre sempre que o património seja inferior a 5000€ (art.º 39º/9 CIRE), e essa satisfação não seja garantida por outra via, poder-se-á dar o fim do processo assim que a sentença transite em julgado.
• Art.º 39º/2 - Ainda assim, qualquer interessado pode requerer que a sentença seja complementada com os restantes elementos precisados no art.º 36º.Não sendo requerido o complemento da sentença, ocorre o disposto no art.º
39º/7.
➔ Efeitos da sentença de declaração de insolvência sobre o insolvente – art.º 81º CIRE
transferência dos poderes de administração e disposição dos bens da massa insolvente para o administrador da insolvência. A declaração de insolvência implica a privação do devedor dos seus poderes de
administração e disposição do património - art.º 81º CIRE .Perde-se, assim, a posse material e as faculdades de administração e disposição, quer dos bens que possui aquando da declaração, mas também dos bens e rendimentos futuros (realidade que deriva do próprio conceito de massa insolvente – art.º 46º CIRE).
✓ Excluídos do âmbito desta privação estão:
▪ Os bens excluídos da massa insolvente (bens impenhoráveis) ou abrangidos por uma separação de patrimónios.
▪ Os negócios obrigacionais – o devedor pode contrair dívidas, mas estas não responsabilizarão a massa insolvente.
▪ Os administradores (representantes legais e mandatários no caso das pessoas singulares; encarregados da administração e liquidação do património ou titulares de órgãos sociais no caso de pessoas coletivas).
apreensão dos bens – art.º 36º/1-g) CIRE. A apreensão abrange todos os bens suscetíveis de penhora, mesmo que já penhorados, arrestados ou por qualquer forma apreendidos ou detidos noutro processo.
✓ Apenas serão excluídos os bens insuscetíveis de penhora (art.º 822º e ss. CPC). Vigora ainda um regime especial para o caso de apreensão da casa de morada de família: se arrendada, o
arrendamento não pode ser apreendido. Se for habitação própria, pode o insolvente requerer o diferimento da desocupação com fundamento em razões sociais imperiosas.
✓ Se os bens já tiverem sido vendidos, a apreensão terá por objeto o produto da venda (art.º 149º/2 CIRE). A entrega dos bens é feita de acordo com o previsto no art.º 150º.
➔ Efeitos da sentença de declaração de insolvência sobre as ações judiciais – art.º 85º CIRE
o facto de serem restringidas as faculdades de administração e disposição do insolvente faz com que este deixe de poder instaurar ou prosseguir ações em que estejam em causa bens compreendidos na massa
insolvente – art.º 85º/1 CIRE.
leva à suspensão de quaisquer diligências executivas que atinjam os bens integrantes da massa insolvente – o processo de insolvência gera assim a proibição de instauração ou prosseguimento de ações executivas,
qualquer penhora ou arresto sobre os bens.
➔ Efeitos da sentença de declaração de insolvência sobre os créditos – Art.º 90º CIRE
Durante a pendência do processo os credores apenas poderão exercer os seus direitos no âmbito do mesmo (art.º 90º), pelo que não podem instaurar ações independentes ou continuar a prosseguir outros processos à margem deste.
a declaração de insolvência gera o vencimento imediato de todas as obrigaçõesdo insolvente (art.º 91º/1), com exceção dos créditos tratados no art.º 50º. Esta antecipação do vencimento prende-se com a falta de confiança dos credores na solvabilidade do devedor. Assim sendo,
as obrigações passarão a vencer juros legais a partir do momento da declaração.
gera a suspensão de todos os prazos de prescrição e caducidade oponíveis pelo devedor, durante o processo – art.º 100º CIRE.
Dá-se também a extinção de certas garantias – art.º 97º CIRE.
Existem também consequências para o regime da compensação.
✓ A declaração de insolvência não afeta o direito do credor da
insolvência à compensação, se esta for permitida pela lei aplicável ao contra-crédito do devedor – art.º 286º CIRE.
✓ A partir do momento da sentença, os credores apenas podem compensar os seus créditos com dívidas da massa se se verificar uma das situações previstas no art.º 99º CIRE. A compensação não é admissível nos termos do nº 4.
✓ Admitida a compensação, esta faz extinguir tanto o crédito do declarante como o do insolvente. Assim, o declarante vê o seu crédito satisfeito por inteiro, pelo que deixa de ser necessário que reclame o seu crédito. Terá de o fazer, somente, se o valor do seu crédito ultrapassar o montante do crédito do insolvente (caso em que reclamará o remanescente).
➔ Efeitos sobre os negócios em curso – art.º 102º e ss. CIRE
A regra geral é a de garantir ao administrador da insolvência a
possibilidade de optar pela execução do negócio ou, antes, pela recusa do seu cumprimento – art.º 102º. Assim sendo, procede-se à suspensão dos contratos, até que o administrador da insolvência comunique a sua opção. A outra parte reserva para si a possibilidade de fixar um prazo, findo o qual a não comunicação se tem como recusa ao cumprimento – art. 102º/2. Este regime é justificado pela necessidade de adotar medidas de proteção dos credores, pois que forçar o devedor a cumprir com todos os seus negócios faria com que este tivesse de optar por cumprir uns negócios em detrimento de outros.
✓ a opção pela recusa por parte do administrador da insolvência não prejudica o direito à indemnização pelos danos causados à outra parte pelo incumprimento, ainda que essa seja fortemente
restringida.
✓ a opção pelo cumprimento do contrato garante-lhe o direito a exigir as prestações contratualmente acordadas, tendo a outra parte igualmente o direito de exigir esse cumprimento, o qual constituirá uma dívida da massa, nos termos do art.º 51º/1º f).
✓ Art.º 103º e ss. – regras específicas quanto a incidência da declaração de insolvência nos negócios em curso.
D) Resolução em benefício da massa insolvente – art.º 120º
O processo de insolvência tem como objetivo a satisfação igualitária dos direitos dos credores. Assim sendo, não é admissível a concessão de vantagens
especiais a qualquer um deles, a partir do momento em que a situação de insolvência do devedor é conhecida.
A lei permite que o administrador da insolvência determine a resolução de atos e omissões em benefício da massa insolvente, nos casos em que o devedor tenha concedido alguma vantagem desse tipo no período suspeito anterior à declaração – 2 anos. Tal decorre dos art.º 120º e ss. – 123º.
Porque é que a resolução em benefício da massa é tao perigosa?
Estamos a destruir negócios que já foram praticados e já produziram efeitos. ex.:
financiamento bancário (121º/e) – banco empresta dinheiro à empresa. Ira exigir hipoteca, por ex. Importante porque passa a ser um credor garantido. Não tem de concorrer com os credores comuns. Passado um mês entra em insolvência (por causa dos 2 anos). É resolvida em beneficio da passa. Perde a garantia e passa a credor comum.
A resolução em benefício da massa insolvente obedece a vários requisitos.
Requisitos gerais – art.º 120º CIRE:
• Realização pelo devedor de determinado ato num período suspeito (a logica é fortalecer a massa insolvente);
• Ato prejudicial em relação à massa insolvente – exige-se que os atos do devedor frustrem, diminuam, ponham em perigo ou retardem a satisfação dos credores da insolvência. Do art.º 120º/3 decorre ainda uma presunção iuris et de iure: certos atos, presumem-se prejudiciais à massa. Remissão art.º 121º.
• Existência de má fé do terceiro (art.º 120º/5 CIRE) – conhecimento:
✓ De que o devedor se encontrava em situação de insolvência;
✓ Do carácter prejudicial do ato e de que o devedor se encontrava à data em situação de insolvência iminente;
✓ Do início do processo de insolvência.
➔ Verificados os pressupostos o ato é destruído – pelo administrador da insolvência – art.º 123º.
Requisitos da resolução incondicional – art.º 121º CIRE
• Opera de forma automática, no sentido de não depender de prova (do carater prejudicial, da má fé do terceiro).
• Num caso pratico olha-se primeiro para o art.º 121º.
✓ Se está previsto no art.º 121º, mas fora do prazo, podemos ir ainda ao art.º 120º.
Há atos em relação aos quais a lei exclui a possibilidade de resolução em benefício da massa. Desde logo, os que estão previstos nos art.º 120º/6 e 122º.
Legitimidade para o exercício deste direito:
• Legitimidade ativa – art.º 123º: legitimidade exclusiva do administrador da insolvência – nos 6 meses seguintes ao conhecimento do ato e nunca depois de dois anos sobre a data de declaração de insolvência;
• Legitimidade passiva – a mesma deve ser dirigida contra ambas as partes no ato que se pretende resolver.
Quanto à forma de exercício da resolução, a mesma pode ser feita por simples declaração à outra parte (regime geral do art.º 436º/1 CC). Esta terá de conter os respetivos fundamentos, sob pena de nulidade.
• Carta registada com aviso de receção – art.º 123º/1 CIRE.
Como articular com a ação de impugnação pauliana? – podem os credores intentar uma ação de impugnação?
• Não há compatibilização. Nos termos do art.º 127º/1 CIRE, “É vedada aos credores da insolvência a instauração de novas ações de impugnação pauliana de atos praticados pelo devedor cuja resolução haja sido declarada pelo
administrador da insolvência”.
✓ Não obstante, “(as ações de impugnação pauliana” só prosseguirão os seus termos se tal resolução vier a ser declarada ineficaz por decisão definitiva” - Art.º 127º/2 – nestes casos a ação de impugnação pauliana é permitida.
➔ Reclamação e verificação de créditos:
Após a sentença declaratória de insolvência tem lugar a fase de verificação do
passivo. Nesta influem-se as fases de reclamação de créditos, saneamento, instrução, discussão e julgamento da causa e sentença.
SALVADOR DA COSTA defende que assumem parte principal do lado ativo os
credores, estando do lado passivo o insolvente, representado pelo administrador da insolvência.
Relembre-se que, neste processo, não vale o princípio do inquisitório, pelo que a decisão do juiz apenas se pode basear em factos alegados pelas partes.
• Reclamação de créditos – feita por requerimento endereçado ao
administrador. Os credores da insolvência apresentam a reclamação dos
respetivos créditos, como previsto no art.º 128º CIRE. Apenas são reclamáveis os créditos sobre a insolvência relativos a prestações patrimoniais. Ainda assim, a reclamação não é essencial para o reconhecimento do crédito, pois que o administrador da insolvência tem o dever de reconhecer todos os créditos que constem dos elementos da contabilidade do devedor (art.º 129º/1, parte final).
Requerimento acompanhado de documentos probatórios.
• Saneamento do processo – art.º 136º CIRE
• Instrução do processo – art.º 137º CIRE
• Discussão e julgamento da causa – art.º 138º CIRE
• Sentença – art.º 140º CIRE
➔ Restituição e separação de bens – art.º 141º e ss. CIRE:
Isto sucede porque o insolvente não tem plena e exclusiva propriedade.
É um meio específico de oposição para os casos em que o terceiro tem uma pretensão de natureza real, a separar da massa de bens de que o insolvente não é o dono
efetivo.
➔ Verificação ulterior:
Tanto os créditos sobre a insolvência como o direito à separação ou restituição de bens podem ser exercidos em momento posterior – art.º 146º/1.
• Reclamação de créditos – a verificação ulterior está limitada pelo nº 2 do art.º 146º.
• Restituição e separação de bens – este direito pode ser exercido a todo o tempo, com base no art.º 146º/2, primeira parte.
➔ Assembleia de credores de apreciação do relatório – art.º 156º CIRE:
A assembleia de apreciação do relatório é um momento importante do processo de insolvência, podendo verificar-se ainda antes da liquidação. A mesma não é já obrigatória, pelo que pode o juiz prescindir da mesma em declaração fundamentada, como disposto no art.º 36º/1 n).
Se o juiz prescindir da assembleia, qualquer interessado pode, no prazo da reclamação de créditos, requerer ao tribunal a sua convocação – art.º 36º/3.
Na assembleia de apreciação do relatório, deve ser dada ao devedor, à
comissão de credores, à comissão de trabalhadores ou aos representantes respetivos a oportunidade de se pronunciarem sobre o mesmo – art.º 156º/1.
Finalidade: Serve esta assembleia para que se aprecie o relatório do
administrador da insolvência (dever seu decorrente do art.º 155º/1). Desse relatório terá de constar o inventário e a lista provisória de credores (nº 2).
• Inventário – indica os bens e direitos que integram a massa insolvente;
• Lista provisória de credores – enumera por ordem alfabética os
credores que constam da contabilidade do devedor, que hajam reclamado os seus créditos ou que estes sejam por outra via conhecidos.
➔ Liquidação da massa insolvente:
Venda de bens. Destina-se a satisfazer os créditos sobre a insolvência.
Através da liquidação, o património do devedor é convertido em dinheiro, para que esse possa ser repartido pelos credores. Vigora, neste âmbito, o presente nos art.º 156º e ss. CIRE.
A liquidação não é obrigatória – a mesma pode ser dispensada, suspensa ou interrompida:
Dispensa – caso em que a mesma nem sequer tem início, pelo que a satisfação dos créditos dos credores é feita por outra via. A possibilidade está prevista no art.º 171º/1, podendo ser dispensada pelo juiz, no todo ou em parte, sempre que o devedor seja uma pessoa singular e na massa insolvente não esteja empreendida uma empresa. Para esse efeito, o devedor tem de entregar ao administrador da massa insolvente uma quantia em dinheiro que não seja inferior ao valor que resultaria da liquidação. A dispensa tem de ser solicitada pelo administrador, com acordo prévio do devedor, ficando a decisão sem efeito se a quantia referida não for entregue no prazo de 8 dias – art.º 171º/2 CIRE;
Suspensão – a liquidação tem início, mas o seu decurso é temporariamente paralisado:
✓ Conferido ao administrador o encargo de elaborar um plano de insolvência – art.º 156º/3.
✓ A requerimento do proponente do plano de insolvência, se tal for necessário para não pôr em risco a execução desse plano – art.º 206º/1.
✓ Atribuída ao devedor a administração da massa insolvente, pois que o art.º 255º determina que, nesse caso, a liquidação só tem lugar depois de retirada ao devedor essa administração.
Interrupção – também aqui a liquidação tem início, mas a verificação de determinada situação provoca o encerramento do processo, sem a
conclusão da mesma.
✓ Administrador verifica que a massa insolvente não é suficiente para satisfazer as custas do processo e as restantes dívidas – art.º 232º/4. Este regime decorre do presente no art.º 39º. O
administrador da insolvência dará conhecimento desse facto ao juiz, podendo este conhecer igualmente oficiosamente da situação – art.º 231º/1 CIRE.
A liquidação pode também ser objeto de regime especial, se for aprovado um plano de insolvência – art.º 192º/1.
Antes da fase de liquidação propriamente dita, o administrador da insolvência pode já encerrar os estabelecimentos do devedor, desde que obtenha parecer favorável para tal da comissão de credores. Se esta tiver sido dispensada, tal poderá acontecer se o
devedor não se opuser ou, independentemente disso, se o juiz o autorizar – art.º 157º.
Transitada em julgado que esteja a sentença declaratória da insolvência, pode o administrador proceder à alienação dos bens apreendidos para a massa insolvente.
Em caso de contitularidade, indivisão ou litígio sobre a titularidade, isto que só podem responder pelas dívidas do insolvente os seus próprios bens, torna-se necessário acautelar direitos de terceiros.
A liquidação dos bens é sempre limitada pelo direito que o devedor tem sobre esses bens – art.º 159º.
Também específico é o regime tocante à alienação de empresa compreendida na massa insolvente – a mesma deve ser realizada como um todo, a não ser que não haja proposta satisfatória ou se reconheça vantagem na liquidação ou alienação separada de certas partes – art.º 161º/1. A violação destas disposições não prejudica a eficácia dos atos que se pratiquem. Ainda assim, o administrador responderá pelos danos causados ao devedor e aos credores da insolvência e da massa insolvente – art.º 59º/1. Pode ainda dar-se a sua destituição com justa causa.
A alienação dos bens é livremente escolhida pelo administrador da insolvência, pois que este pode optar por qualquer das formas admitidas em processo executivo (art.º 164º/1). Se estiverem em causa créditos que gozem de garantia real, os respetivos titulares terão de ser ouvidos sobre a modalidade de alienação – art.º 164º/2. Em caso de atraso na alienação do bem sujeito a garantia real, o credor deve ser
compensado pelo retardamento da alienação – art.º 166º/1.
Para além disso, a lei proíbe ao administrador da insolvência a aquisição de bens ou direitos compreendidos na massa insolvente – art.º 168º/1. O incumprimento dessa disposição gera a obrigatoriedade de o administrador restituir à massa o bem ou direito ilicitamente adquirido, sem direito a reaver a prestação efetuada.
O produto das vendas deve ser depositado em conta à ordem da administração da massa – art.º 167º.
A liquidação deve ser concluída no prazo de um ano, contado da data da assembleia de apreciação do relatório, o qual pode ser estendido por seis meses. O
incumprimento deste prazo resulta em justa causa de destituição do administrador da insolvência – art.º 169º CIRE.
➔ Pagamento:
O pagamento dos créditos é regulado pelo art.º 172º e ss. Ainda está, desde logo, prevista a liquidação prévia das dívidas da massa insolvente, apenas se procedendo ao pagamento dos créditos sobre a insolvência depois dessa liquidação.
A hierarquização dos créditos sobre a insolvência implica que comecem por ser liquidados os créditos garantidos – art.º 174º – e depois os privilegiados – art.º 175º. Seguem-se os créditos comuns – art.º 176º – apenas podendo haver satisfação dos créditos subordinados depois disso – art.º 177º.
Primeiramente, as dívidas em causa devem ser imputadas nos rendimentos da massa. Não sendo possível a sua satisfação com esses rendimentos, a imputação é efetuada na devida proporção ao produto da venda de cada bem móvel ou imóvel.
Créditos garantidos, privilegiados, comuns e subordinados
Liquidadas que estejam as dívidas da massa insolvente, poderá dar-se início ao pagamento dos créditos que beneficiem de garantias reais, o que inclui também os privilégios creditórios especiais – art.º 47º/4 a).
O pagamento é realizado com base no produto da alienação dos bens objetos de garantia, abatidas que sejam as correspondentes despesas e o valor de 10%
destinado à liquidação das dívidas da massa insolvente (art.º 174º/1).
Já no que toca aos créditos privilegiados, estes são aqueles que beneficiam de um privilégio creditório especial:
(i) Privilégio mobiliário geral dos trabalhadores – art. 333º CT.
(ii) Privilégios mobiliários gerais do Estado e das autarquias locais, para garantia dos créditos de impostos – art. 736º CC.
(iii) Privilégios mobiliários e imobiliários gerais das instituições de segurança social, referidos nos art.º 244º e 245º CRCSS.
(iv) Privilégios por despesas de funeral, doença ou obrigações de alimentos, nos termos do art. 737º CC.
(v) Privilégio mobiliário geral, a graduar em último lugar, relativamente aos direitos de crédito não subordinados de que seja titular o credor
requerente da declaração de insolvência, até ao limite de 500 unidades de conta – art.º 98º/1.
Segue-se o pagamento dos créditos comuns, previstos no art. 47º/4 c) CIRE.
O pagamento é feito através do rateio na proporção do valor normal dos respetivos créditos, se se verificar que a massa é insuficiente para a respetiva liquidação integral (art. 176º). Também aqui se pode aplicar o disposto no art. 178º.
Pagos os créditos comuns, torna-se possível o pagamento dos créditos
subordinados, referidos no art. 48º. Este é feito pela ordem disposta nesse artigo,
salvo no caso de subordinação convencional (art. 177º/2). A partir do momento em que a massa insolvente se torna insuficiente para cobrir os créditos subordinados de uma das alíneas, é efetuado o rateio (proporcionalidade) entre os respetivos titulares, deixando de ser pagos os credores abrangidos pelas alíneas seguintes – pagamento serve a ordem do artigo – vale como uma hierarquia interna.
A tutela específica de certos créditos:
• Credores de obrigações solidárias dos devedores – obedece ao disposto no art.
179º.
• Créditos sob condição suspensiva – vigora o art. 181º, conjugado com o art.
182º, que trata do rateio final.
• Créditos emergentes do contrato de trabalho
• Os créditos do trabalhador emergentes de contrato de trabalho
✓ Privilégio mobiliário geral;
✓ Privilégio imobiliário especial sobre bem imóvel do empregador no qual o trabalhador presta a sua atividade.
• Créditos do Estado e das autarquias locais – estas entidades beneficiam de privilégios especiais (art. 744º CC) e gerais - art. 97º CIRE.
• Créditos das instituições de segurança social – vale também o disposto na alínea b) do art. 97º CIRE.
Incidente de qualificação da insolvência art.º 185º e ss. CIRE:
Quais as razões que conduziram à situação de insolvência?
• Há que determinar se a insolvência deve ser qualificada como fortuita ou como dolosa – art.º 189º/1. Essa qualificação depende, assim, do grau de culpa do devedor.
✓ A insolvência culposa corresponde à situação do art.º 186º.
✓ Sempre que essa não se verifique, a insolvência é qualificada como fortuita – natureza residual/supletiva.
➢ O nº 2 do art. 186º estabelece uma presunção, pelo que a verificação de uma das respetivas alíneas é suficiente para qualificar a insolvência como culposa. A lei permite ainda presumir culpa grave, nos termos do nº 3. Estas presunções podem, com as devidas adaptações, ser aplicadas à atuação de pessoas
singulares insolventes.
➢ Qualificada como culposa, são várias as consequências:
✓ Inibição das pessoas afetadas pela qualificação para
administrarem patrimónios de terceiros por um período de 2 a 10 anos;
✓ Inibição das mesmas pessoas para o exercício do comércio durante um período de 2 a 10 anos, bem como para a ocupação de qualquer cargo de titular de órgão de sociedade comercial ou civil, associação ou
fundação privada de atividade económica, empresa pública ou cooperativa
– estamos perante uma incompatibilidade resultante do estado de insolvência culposa.
✓ Perda de créditos sobre a insolvência ou sobre a massa insolvente detidos pelas pessoas afetadas pela qualificação e a sua condenação na
restituição dos bens ou direitos já recebidos no pagamento desses créditos.
✓ Indemnização aos credores do devedor insolvente no montante dos créditos não satisfeitos até às forças dos respetivos patrimónios, sendo solidária tal responsabilidade entre todos os afetados.
O plano de insolvência art.º 192º e ss. CIRE:
A satisfação dos credores deve ocorrer, preferencialmente, através da aprovação de um plano de insolvência - plano de pagamento dos créditos.
A aplicação do plano de insolvência será em princípio universal, pelo que pode ocorrer em todos os processos de insolvência que abrangem qualquer dos sujeitos passivos referidos no art. 2º/1. Ainda assim, estes não podem ser aplicados a pessoas singulares que não sejam empresários ou titulares de pequenas empresas (pois que para esses vigora o plano de pagamentos, presente no art.º 251º e ss.).
Quanto à legitimidade para apresentar a proposta de plano de insolvência, esta abarca o devedor, o administrador da insolvência, qualquer pessoa que responda legalmente pelas dívidas da massa insolvente e qualquer credor ou grupo de credores cujos créditos representam pelo menos um quinto dos créditos não subordinados reconhecidos (art.º 193º/1).
O conteúdo do plano de insolvência é estabelecido pelo art. 195º. Ainda assim, este é limitado pelo disposto no art. 192º/2. Este plano obedece ao princípio da igualdade dos credores da insolvência, apesar de ainda assim se admitirem
diferenciações, se justificadas por razões objetivas. Na falta de estipulação em contrário, o plano de insolvência não afeta as garantias reais e os privilégios creditórios, os créditos subordinados consideram-se objeto de perdão total e o
cumprimento do plano exonera o devedor e os responsáveis legais da totalidade das dívidas da insolvência remanescente – art. 197º.
O plano de insolvência determina o encerramento do processo, com o trânsito em julgado da decisão que o homologa, se a isto não se opuser o conteúdo dele – art.º 230º.
O encerramento do processo dá-se nos termos do art.º 230º e ss.
Órgãos da insolvência
1) Tribunal – art.º 7º CIRE
• Competentes para julgar em processos de insolvência e de revitalização;
• São competentes as secções de comércio dos tribunais de instância central 2) Administrador da insolvência – art.º 52º CIRE e Lei 22/2013, de 26 de
fevereiro
• É um administrador, autónomo do devedor, a quem é atribuída acompetência para administrar a massa insolvente; os poderes de administração são
excluídos da esfera do devedor – art.º 81º/1 CIRE.
✓ Exceção: art.º 223º e ss. CIRE – em determinados casos, a administração pode ser feita pelo próprio insolvente, com fiscalização do administrador da insolvência.
• Escolha:
A sua nomeação é feita pelo juiz – art.º 52º CIRE – de forma aleatória (informática) de entre os administradores inscritos na lista oficial.
Se assim se justificar, ou se requerido por algum interessado, pode o juiz nomear mais que um administrador. Nesses casos, cabe ao interessado propor pessoa a nomear, pagando este a sua remuneração, se a massa insolvente não chegar. A escolha pode ser feita por assembleia de
credores – art.º 53º CIRE.
O administrador pode a todo o tempo ser substituído pelo juiz, se houver para isso justa causa – art.º 56º CIRE.
✓ Como conceito vago e abstrato que é, abrangerá naturalmente quaisquer situações de violação grave dos deveres do
administrador.
✓ Em caso de substituição, a assembleia de credores pode indicar substituto, tendo este de ser aceite pelo juiz se não se verificar nenhuma das situações previstas no artigo 53º/3 (art.º 56º/2 CIRE)
▪ Falta de idoneidade ou aptidão para o exercício do cargo, que é manifestamente excessiva a retribuição aprovada pelos credores ou, quando se trate de pessoa não inscrita na lista oficial, que não se verifica nenhuma das circunstâncias
previstas no número anterior (casos devidamente justificados pela especial dimensão da empresa compreendida na massa insolvente, pela especificidade do ramo de atividade da mesma ou pela complexidade do processo).
▪ Os credores só poderão recusar o administrador se houver uma razão justificada.
• Funções – art.º 55º CIRE:
Venda dos bens no âmbito da liquidação;
Pagar as dívidas da massa e os créditos sobre a insolvência;
Apresentar proposta de um plano de insolvência;
Frutificar a massa insolvente.
➔ A função de administrador é remunerada – art.º 60º CIRE.
✓ Corresponde a uma dívida da massa – art.º 51º/1-b) CIRE e artigos 22º e ss. da Lei 22/2013, de 26 de fevereiro.
➔ A sua atividade será fiscalizada – artigo 58º CIRE.
➔ Deverá prestar contas do exercício do cargo, devendo essa prestação ocorrer no termo de funções – art.º 62º/1 CIRE.
✓ Contudo, podem o juiz e a comissão de credores solicitar essa prestação a qualquer momento. Assim como pode o administrador prestar de livre e espontânea vontade a qualquer momento.
✓ A falta da prestação de contas, quando requerida, permite ao juiz tomas as diligencias que considerar adequadas – podendo encarregar pessoa idónea da apresentação das contas (art.º 63º CIRE).
➔ Deve ainda prestar todas as informações necessárias à comissão de credores – art.º 55º CIRE.
➔ Em caso de infração dos seus deveres, este poderá ser responsabilizado por via disciplinar e contraordenacional. Mais, a lei estabelece ainda a responsabilidade civil do administrador da insolvência – art.º 59º CIRE + Lei 22/2013.
Exoneração do passivo restante – terminado o processo de o devedor pode, passados 5 anos, voltar à sua vida normal, sem que aquelas dívidas pairem sobre ele a vida inteira. A obrigação converte-se em natural: sendo cumprida, não pode ser repetida. Art.º 235º e ss. CIRE.
Como pode o administrador da insolvência cessar funções?
(1) O encerramento do processo;
(2) A renúncia ao cargo;
(3) A destituição pelo Juiz.
3) Comissão de credores – art.º 66º CIRE
A comissão de credores não é um órgão obrigatório, dado que o juiz pode determinar a sua inexistência (art.º 66º/1 CIRE). Ainda assim, este é o órgão essencialmente destinado a representar as diversas classes de credores da insolvência, permitindo a fiscalização pelos credores da atividade do administrador da insolvência e prestando- lhe a sua colaboração.
O presidente será o maior credor. O Estado e as instituições da segurança social, mesmo que sejam o maior credor, não podem presidir a comissão de credores (art.º 66º/5 CIRE).
Os trabalhadores terão de ser obrigatoriamente representados, com base no art.º 66º/3 CIRE.
• Funções – art.º 68º CIRE:
fiscalização da atividade do administrador da insolvência;
✓ acompanhamento da atuação do administrado;
✓ situações em que se exige o consentimento da comissão para a prática de certos atos por parte do administrador da insolvência
colaboração com o administrador no exercício da sua função;
funções consultivas em relação a decisões do tribunal.
➔ Relativamente à assembleia de credores, pode a comissão solicitar ao juiz a sua convocação (art.º 75º/1 CIRE). A comissão de credores reúne sempre que convocada – art.º 69º/1 CIRE. A sua atividade não é remunerada, apenas tendo direito ao reembolso das despesas estritamente necessárias. Podem ser responsabilizados nos termos do art.º 70º CIRE (aplicável o art.º 59º/4 CIRE).
A cessação das suas funções pode ocorrer por:
a. Encerramento do processo de insolvência (art.º 233º/1-b) CIRE));
b. Em qualquer momento anterior – dar-se-á em momento anterior se a assembleia de credores prescindir da sua existência.
c. Se for aprovado um plano de insolvência, a cessação das funções da comissão pode dar-se depois do encerramento do processo.
d. Os membros da comissão podem ser individualmente destituídos pela assembleia de credores, independentemente da existência ou não de justa causa – art.º 67º/1 CIRE, in fine.
4) Assembleia de credores
A assembleia de credores é o local onde se reúnem todos os credores da massa insolvente. Daí decorre a necessidade de coordenação das pretensões dos vários credores, que exercem aqui o seu direito de voto de acordo com o montante dos seus créditos – art.º 73º CIRE.
• Funções:
prescindir da existência da comissão de credores;
alterar a todo o momento a composição da mesma;
revogar quaisquer deliberações da comissão;
aprovar o plano de insolvência apresentado.
➔ A convocação da assembleia é feita de acordo com o previsto no art.º 75º CIRE, sendo a mesma presidida pelo juiz.