Contabilidade Criativa e Auditoria:
Relevância dos Indícios da Contabilidade Criativa
Sónia Marisa Gonçalves de Jesus
Orientador: Doutor José Manuel Pereira Coorientadora: Mestre Maria do Céu Ribeiro
Dissertação apresentada ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do grau de mestre em Auditoria
Maio, 2014
Mestrado Auditoria
Página 2
Mestrado Auditoria
Página 3
Contabilidade Criativa e Auditoria:
Relevância dos Indícios da Contabilidade Criativa
Sónia Marisa Gonçalves de Jesus
Orientador: Doutor José Manuel Pereira Coorientadora: Mestre Maria do Céu Ribeiro
Dissertação apresentada ao Instituto Politécnico do Cávado e do Ave para obtenção do grau de mestre em Auditoria
Maio, 2014
Mestrado Auditoria
Página 4
Agradecimentos
Os meus sinceros e verdadeiros agradecimentos à minha família, aos meus professores orientadores e a todas as pessoas que contribuíram para que este trabalho se realizasse.
Mestrado Auditoria
Página 5
Contabilidade Criativa e Auditoria: Relevância dos Indícios da Contabilidade Criativa
Resumo
A informação financeira proporcionada nas demonstrações financeiras deve ser relevante para o investidor em termos de utilidade para a sua tomada de decisão. A permissividade das opções normativas e subjetividade das estimativas proporciona ao gestor /diretor a possibilidade de escolher as mais favoráveis, ou ser mais ou menos prudente, de forma a puder ir ao encontro das expectativas dos diversos utilizadores. A contabilidade criativa resulta assim em parte da arbitrariedade, complexidade e subjetividade dos normativos contabilísticos existentes, não sendo de todo uma tarefa fácil a sua deteção pelo seu caráter subjetivo.
No sentido de identificar eventuais impactos em termos de utilidade da informação financeira, o presente estudo identifica indícios de contabilidade criativa nas demonstrações financeiras de uma amostra de empresas não financeiras cotadas na bolsa de valores portuguesa e determina se tais indícios levam a alterações na relevância das variáveis contabilísticas, Capital Próprio e Resultado do Período, e, em particular, quando tais indícios estejam associados a menções nos relatórios de auditoria. Os indícios de contabilidade criativa definidos no âmbito deste estudo foram definidos como sendo as alterações de políticas e estimativas contabilísticas materialmente relevantes, desde que não impostas por nenhuma norma. O presente estudo não pretende demonstrar a existência ou não de tais práticas, sendo antes um contributo para a avaliação dos impactos das mesmas, independentemente de serem ou não comprovadas, em termos de relevância para o investidor. A evidência empírica obtida evidencia que a utilidade da informação financeira vem afetada favoravelmente relativamente ao resultado do período mas não quanto ao património líquido. Conclui-se, por outro lado, que a menção nos relatórios de auditoria não tem qualquer relevância em termos de poder valorativo das variáveis acima referidas.
Palavras-chaves: contabilidade criativa, auditoria, relevância.
Mestrado Auditoria
Página 6
Abstract
Financial reporting through financial statements should be relevant for the investor in terms of usefulness to assess the value of the company. The accounting options and subjectivity of the estimates allow management/directors to choose the more favorable, or to be more or less aggressive, in order to follow the expectations of all stakeholders.
As such, earning management is partly the result of arbitrary, complexity and subjectivity of existing accounting standards and is not an easily detectable activity due to its subjectivity.
In order to measure the impact in terms of value relevance of the financial reporting, using a sample of Portuguese listed non-financial companies, this study identifies some earnings management evidences in financial statements and determines if such practices have any impact on the relevance of the figures, Equity and Profit/Loss for the period, and, in particular, when such evidences are associated with qualified audit reports.
Evidence of earning management defined for the purpose of this study is related to the issue of accounting policies changes and relevant estimates, if not required by the accounting standards. The aim of this study is not to demonstrate any such practices, but only a contribution for the impact on the value relevance of those evidences,
independently of being proved or not. This study finds a positive impact on the value relevance of the result for the period, but not in respect of the net assets. It also finds that the mention in the audit report does not have any impact in terms of the usefulness of the above mentioned figures measured by their value relevance.
Keywords: creative accounting, auditing, value relevance.
Mestrado Auditoria
Página 7
Índice de Siglas
ACFE – Association of Certified Fraud Examiners
ACIFR - Advisory Committee on Improvements to Financial Reporting AFT – Ativos fixos tangíveis
AID – Ativos por impostos diferidos CLC – Certificação Legal de Contas CEE – Comunidade Económica Europeia
CMVM – Comissão do Mercados de Valores Mobiliários CP – Capital Próprio
DF´s – Demonstrações Financeiras D.L – Decreto-lei
EC – Estrutura Conceptual
EOROC – Estatuto da ordem dos Revisores Oficiais de Contas FIFO- First in first Out
IAASB - International Auditing and Assurance Standards Board IAS - International Accounting Standard
IASB - International Accounting Standards Board IFAC - International Federation of Automatic Control IFRS – International Financial Reporting Standards
IMT – Imposto Municipal sobre as Transmissões onerosas de imóveis IRC – Imposto Sobre o Rendimento de Pessoas Coletivas
Mestrado Auditoria
Página 8
JV – Justo Valor
NCRF – Norma contabilística e de relato financeiro NIC – Normas Internacionais de Contabilidade
PCAOB – Public Company Accounting Oversight Board PID – Passivo por impostos diferidos
PME´S – Pequenas e médias empresas RLE – Resultado líquido do exercício ROC – Revisor Oficial de Contas
SEC – Securities and Exchange Commission SNC – Sistema de Normalização Contabilística TOC – Técnico Oficial de Contas
VRL – Valor Realizável Liquido
Mestrado Auditoria
Página 9
Índice Geral
ÍNDICE GERAL 9
INTRODUÇÃO 14
CAPÍTULO I 21
1 - REVISÃO DA LITERATURA 21
1.1 - Contabilidade criativa no âmbito do relato financeiro 21
1.2 - Conceito e Evolução 22
1.3 - Forma como se manifesta a contabilidade criativa 25
1.4 - Incentivos/Motivações na utilização da contabilidade criativa 26
1.5- Modos de manifestação da contabilidade criativa 30
1.6 - Formas de evitar o fenómeno da contabilidade criativa 33
1.7 - Medidas adotadas para reduzir práticas de contabilidade criativa 34
CAPITULO II 38
2 - O PAPEL DA AUDITORIA NA DETEÇÃO DE PRÁTICAS DE CONTABILIDADE
CRIATIVA 38
2.1 - Ética e da responsabilidade social 38
2.2 – O papel da auditoria 39
2.3 - Contabilidade criativa Subjacente nos princípios 40
2.4 - Demonstrações financeiras: Subjetividade associada a determinadas rubricas do Balanço e da
Demonstração de resultados 43
2.5 - Síntese 48
Mestrado Auditoria
Página 10
CAPÍTULO III 51
3.1 - Introdução 51
3.2 - Questão de investigação/Definição de hipóteses 51
3.3- Modelo de Análise 53
CAPITULO IV 59
4.1 - Seleção da Amostra em Estudo 59
4.1.1 - A contabilidade criativa e o mercado de Capitais em Portugal 59
4.1.2 - Recolha da Amostra da investigação 60
4.2 - Características Gerais da Amostra 61
4.2.1 - Variáveis não categóricas – Outras estatísticas descritivas 63
CAPITULO V 68
5.1 - Resultados dos testes 68
5.1.1 - Teste de relevância dos Indícios de contabilidade criativa 69 5.1.2 – Teste de relevância dos Indícios de contabilidade criativa com impacto no relatório de
Auditoria. 72
5.2 - Testes de Robustez 75
CAPITULO VI 77
6.1 – Conclusões 77
6.2 - Limitações ao estudo sobre a contabilidade criativa 79
6.3 - contributos 79
6.4 – Sugestões de investigação futura 80
Mestrado Auditoria
Página 11
Índice de Tabelas:
Tabela 1 - Estatísticas descritivas - variáveis não categóricas ... 62
Tabela 2 - Estatística descritiva variáveis não categóricas 2006 a 2010 ... 63
Tabela 3 - Estatística descritiva da Amostra ... 63
Tabela 4 - Estatística descritiva das variáveis Dummies... 64
Tabela 5 - Resumo dos Indícios relevados ... 66
Tabela 6 - Resultados do Modelo 1 ... 69
Tabela 7 - Resultados do Modelo 2 ... 72
Mestrado Auditoria
Página 12
Índice de Anexos:
Anexo I - Amostra em estudo 89
Anexo II - Indícios de contabilidade criativa 91
Anexo III - Indícios de contabilidade criativa com impato na certificação. 112 Anexo V – Outros casos de impato na certificação legal das contas sem ser considerado
como indicio de contabilidade criativa 123
Mestrado Auditoria
Página 13
Introdução
Mestrado Auditoria
Página 14
Introdução
Introdução
O presente estudo procura investigar impactos de eventuais indícios de contabilidade criativa na relevância das variáveis contabilísticas, Capital Próprio e Resultado Líquido para o investidor. Não se pretende, contudo, determinar se houve ou não práticas de contabilidade criativa, mas tão só como determinados indícios são percecionados pelo investidor na realidade portuguesa em termos da utilidade das referidas variáveis.
A atual conjuntura económica, social e financeira que as empresas atravessam, cria a necessidade nos diversos utilizadores (investidores, financiadores, colaboradores, fornecedores, clientes, entidades públicas e público em geral), de inteirar-se atempadamente de informação financeira, que lhe permite tomar decisões de forma positiva. Para tal, é fundamental que a informação financeira se baseie nos princípios de contabilidade geralmente aceites, e essencialmente que cumpra com os requisitos de relevância, fiabilidade, comparabilidade, materialidade e compreensibilidade1.
A informação financeira deve ser preparada objetivamente de forma verdadeira e credível de forma a permitir aos utilizadores um comportamento confiante e isento de incertezas na relação com a entidade.
É neste contexto, da relação utilizador/preparador que se questiona a fidedignidade da informação financeira tendo em conta a flexibilidade, volatilidade e discricionariedade
1 O parágrafo 24 da EC, “As características qualitativas são os atributos que tornam a informação proporcionada nas demonstrações financeiras útil aos utentes. As quatro principais características qualitativas são a compreensibilidade, a relevância, a fiabilidade e a comparabilidade.”
Mestrado Auditoria
Página 15
presente no normativo contabilístico que serve de base à geração desta informação, mais especificamente na aplicação das regras e princípios contabilísticos geralmente aceites, que por sua vez permite escolher entre a utilização de diferentes critérios e/ou diferentes estimativas na valorização de um mesmo item, podendo daí gerar alguma insegurança e inquietação por parte do utilizador da informação financeira.
A permissividade das opções normativas e subjetividade das estimativas proporciona ao gestor /diretor a possibilidade de escolher as mais favoráveis, ou ser mais ou menos prudente, de forma a puder ir ao encontro das expectativas dos diversos utilizadores.
Toda esta flexibilidade e discricionariedade são em parte responsáveis por comportamentos que estão na origem da expressão atualmente designada por “earnings management”, na nomenclatura anglo-saxónica e de uso corrente designada de como a contabilidade criativa.
Não existe uma única definição objetiva do termo, enquanto uns a definem como “uma forma de maquiagem da realidade patrimonial de uma entidade realizada por meio da manipulação intencional das informações” contabilísticas “com o objetivo de apresentar uma imagem desejada pelos gestores” segundo Consenza e Grateron (2003). Para outros como Cardoso (2004), a contabilidade criativa não se restringe “apenas ao julgamento discricionário, mas à escolha de práticas” contabilísticas, “que implica a escolha do momento do reconhecimento de receitas e despesas e dos critérios de mensuração patrimonial, envolvendo a avaliação de stocks avaliação de investimentos (...). Dito de outra forma, os termos não são nem consensuais nem homogéneos na sua definição e âmbito. Contudo, não consubstancia nenhum desvio à aplicabilidade das normas, pelo que não é inequívoco que tais práticas tenham impacto na opinião emitida pelos auditores sobre as demonstrações financeiras de uma determinada entidade, ainda que sejam detetadas. Com efeito, possível é difícil identificar práticas de contabilidade criativa de simples alterações ou escolhas de políticas ou estimativas contabilísticas, em particular pelo investidor na avaliação da empresa.
A eficiência dos mercados de capitais depende de inúmeras variáveis, incluindo a racionalidade e expectativas dos investidores, as quais assentam, pelo menos em parte, nas variáveis contabilísticas relatadas. É assim expectável que o mercado reaja
Mestrado Auditoria
Página 16
favorável ou desfavoravelmente à informação contida nas demonstrações financeiras publicadas, sendo estas relevantes para a tomada de decisão.
Pretende-se com este estudo identificar eventuais indícios de contabilidade criativa nas demonstrações financeiras das empresas não financeiras cotadas na bolsa de valores portuguesa e determinar se tais indícios levam a alterações na relevância das variáveis contabilísticas, Capital Próprio e Resultado do Período, e, em particular, quando tais indícios estejam associados a menções nos relatórios de auditoria.
A primeira questão de investigação pretende, deste modo, responder à questão se existe ou não alteração de relevâncias dessas variáveis perante determinados indícios da contabilidade criativa. A segunda hipótese de investigação pretende testar se a utilidade da informação financeira vem alterada nos casos em que tais práticas levam a opiniões qualificadas ou com ênfases nos relatórios de auditoria.
Para tal, numa primeira abordagem, procurou-se enquadrar o conceito e definição de contabilidade criativa, cingindo-a para efeitos destes estudos à “criatividade” em redor das alterações de políticas contabilísticas e estimativas contabilísticas. No sentido de proceder à identificação desses indícios de contabilidade criativa, inteirei-me posteriormente de um conhecimento aprofundado sobre as regras e princípios que regem as IAS (International Accounting Standard) /IFRS (International Financial Reporting Standards), para apresentação das demonstrações financeiras.
Apresentam-se de seguida detalhadamente as formas como se pode manifestar a contabilidade criativa, assentes nomeadamente em alterações de políticas contabilísticas e estimativas. Estas serão a base dos indícios de contabilidade criativa considerados para efeitos deste estudo, o qual assenta numa análise de conteúdos da informação financeira disponibilizada por empresas não financeiras cotadas na bolsa de valores portuguesa no período de 2006 a 2010.
A responsabilidade pela aprovação das demonstrações financeiras é da gestão, estando no âmbito dos auditores exprimir uma opinião sobre as mesmas Ibracom (1988). Torna- se assim impertinente analisar o papel da auditoria na deteção de tais práticas e qual a
Mestrado Auditoria
Página 17
sua responsabilidade em termos de menção na sua opinião. Conclui-se que, tais práticas cometidas dentro da legalidade do aproveitamento das opções contabilísticas nem sempre são identificáveis como tal, para além do grau de dificuldade para os auditores em ajuizar acerca do grau de prudência das estimativas efetuadas pela gestão. Ainda assim, testa-se a relevância de eventuais menções nas situações identificadas como indícios de contabilidade criativa para efeitos deste estudo nas variáveis contabilísticas anteriormente descritas.
O tema do estudo é assim de extrema importância e atualmente assume um papel de relevo na ótica do utilizador, na ótica dos académicos, dos economistas, e dos investidores, daí ser fundamental realizar estudos sobre a relevância dessas variáveis em situações que indiciem contabilidade criativa, uma vez que esta questão pode causar insegurança nos utilizadores da informação financeira e consequentemente instabilidade nos mercados. O fato de existirem alternativas e a possibilidade de se apresentar a informação financeira com base em estimativas pode representar uma variabilidade na utilidade da informação financeira para os diversos utilizadores dessa informação financeira e consequentemente no valor da empresa.
O presente estudo desdobra-se em cinco capítulos essenciais e uma conclusão.
Num primeiro capítulo é efetuada a revisão da literatura no âmbito da contabilidade criativa, examinando o seu conceito, evolução e estudos realizados sobre esta temática.
Numa segunda fase, o estudo foca-se na sua existência, ou seja, na forma como se manifesta e quais os incentivos que lhe estão subjacentes assim como quais as rubricas do balanço e demonstração de resultados mais exposta à subjetividade e flexibilidade permitida pelos normativos contabilísticos, bem como aquelas que são mais vulneráveis a flutuações consequentes das estimativas e opções que devem ser feitas na elaboração das demonstrações financeiras.
No segundo capitulo o papel que o auditor desempenha na deteção de eventuais práticas e as suas responsabilidades na sua deteção.
Mestrado Auditoria
Página 18
O terceiro capítulo desenvolve a metodologia utilizada para o teste à relevância em situações com indícios de contabilidade criativa, e nas situações que esses indícios têm impacto nos relatórios de auditoria.
Num terceiro quarto capítulo é efetuada uma descrição da amostra que serviu de instrumento para a recolha de dados que resultou da consulta de relatórios das empresas não financeiras cotadas na Bolsa de Valores nos períodos de 2006 a 2010.
No capítulo cinco fez-se a análise e a discussão dos resultados, bem como as respetivas conclusões.
Apresenta-se finalmente no capítulo seis os contributos da investigação, limitações e motivações para outros estudos e conclusões.
Mestrado Auditoria
Página 19
Parte I
Revisão da Literatura
Mestrado Auditoria
Página 20
Capitulo I
Enquadramento e
contextualização da
contabilidade criativa
Mestrado Auditoria
Página 21
CAPÍTULO I
1 - REVISÃO DA LITERATURA
1.1 - Contabilidade criativa no âmbito do relato financeiro
Com a divulgação de diversos escândalos financeiros em diversos países tornou-se evidente que muitas das vezes a informação financeira poderia estar longe de traduzir a realidade patrimonial e desempenho das empresas. Tal facto colocou em causa a confiança dos investidores na informação financeira divulgada pelas empresas e, por consequência, nos mercados financeiros (Jain et al., 2003, Jain e Rezaee, 2003).
Face a esta realidade, as autoridades norte-americanas estabeleceram novas regras de Corporate Governance, através de medidas adequadas a um correto controlo interno, que obriga as empresas a um maior rigor, transparência e fiabilidade na transmissão de informação financeira.
A presente conjuntura económica, social e financeira que as empresas atravessam, leva algumas empresas e responsáveis pela elaboração das demonstrações financeiras a procurar soluções para melhorar a sua posição patrimonial e financeira em termos de performance via resultado líquido e rácios financeiros e económicos, tendo por base o cumprimento dos normativos legais, (no espaço europeu, desde 2005, as IAS/IFRS aprovadas pelo International Accounting Standards Board (IASB)). A adoção deste normativo tem como principal objetivo harmonizar os diplomas legislativos e garantir transparência e consistência da informação prestada aos diversos utilizadores, nomeadamente através de um incremento de divulgações.
Mestrado Auditoria
Página 22
No entanto, a complexidade de algumas operações contabilísticas está sujeita pelo respetivo enquadramento teórico contabilístico a um elevado grau de subjetividade na medida em que a normalização não permite abarcar todas as situações a tratar, obrigando o responsável pela elaboração das demonstrações financeiras a ter que efetuar opções em termos de políticas contabilísticas tal como permitido pelas normas. O normativo obriga ainda a que a gestão efetue julgamentos e estimativas que afetam os montantes de rendimentos, gastos, ativos e passivos e divulgações à data das demonstrações financeiras, ou seja, enquadrando numa perspetiva de contabilidade criativa, a gestão pode usar estimativas com um elevado grau de discricionariedade.
Este tema suscita uma questão importante, que é a de a possibilidade de uma realidade ser contabilizada de diferentes formas, consoante as opções e políticas tomadas. Neste âmbito, convém antes de mais definir a contabilidade criativa e, em particular, diferenciar este conceito do da fraude, sendo, por vezes, estas diferenças ténues e limiares.
Assim, apresenta-se de seguida o conceito de contabilidade criativa, sendo nas secções seguintes discutidas quais as formas e incentivos para as práticas de contabilidade criativa e, por fim, como evitá-las e quais os esforços desenvolvidos para esse propósito.
1.2 - Conceito e Evolução
A contabilidade criativa sugere em todo o seu conteúdo apresentar a imagem da empresa de um modo mais ou menos favorável por forma a corresponder aos interesses da mesma ou dos interesses dos seus gestores/diretores.
A contabilidade criativa “Earnings management” é vista como um conjunto de técnicas e práticas realizadas pelo responsável pela elaboração das demonstrações financeiras com a finalidade de obter um determinado resultado, desde que disponha de transparência perante terceiros e cumpra o permitido pelo normativo contabilístico vigente. Para melhor perceber o significado da palavra em português é importante
Mestrado Auditoria
Página 23
perceber a sua decomposição. Assim este termo desdobra-se da seguinte forma:
“earnings” significa resultado, “management” o ato de gerir.
A contabilidade pode assumir dimensões diferentes de acordo com aqueles que a analisam. Assim se para uns a prática de contabilidade criativa se baseia na opção de escolhas e alternativas, na elaboração de estimativas, e na decisão de opções de registos permissíveis dentro da flexibilidade do normativo contabilístico, para outros, tal como Consenza e Grateron (2003)2, a “contabilidade criativa é uma forma de maquiagem da realidade patrimonial da entidade, realizada por meio de manipulação intencional das informações com o objetivo de apresentar uma imagem desejada pelos gestores”.
Ao contrário, a fraude contabilística é formada por práticas que violam os princípios contabilísticos com a intenção deliberada de enganar. A título de exemplo, referem-se o registo de vendas fictícias, a antecipação da data de realização das vendas, a alteração do registo de inventários e o registo de ativos fictícios entre outros. No contexto das normas internacionais de auditoria, fraude é definida como “o ato intencional praticado por um ou mais indivíduos, de entre a gestão, os encarregados da governação, empregados ou terceiros, envolvendo o uso de enganar para obter uma vantagem injusta ou ilegal” tal como define o glossário de termos International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB)3.
Quanto à expressão, contabilidade criativa não existe uma definição estanque, objetiva, concreta e unânime do termo, a maioria dos estudos elaborados explicam-na como o tratamento dos resultados, que se pode manifestar pela escolha de alternativas para os diversos registos contabilísticos, onde os gestores fazem uso das flexibilidades e
2 Consenza, et al. (2003) utilizam o termo earnings management “como forma de maquiagem da realidade patrimonial de uma entidade, realizada por meio de manipulação intencional das informações contábeis, com o objetivo de apresentar uma imagem desejada pelos gestores.”
3 Nas normas internacionais de auditoria Internacional Federation of Automatic Control (IFAC, tema 240, p.53) fraude é definida como “ um ato intencional por parte de um ou mais indivíduos dentre dos membros administrativos, empregados ou terceiros, que resulta em declarações falsas das demonstrações contáveis”
Mestrado Auditoria
Página 24
omissões existentes nas normas contabilísticas, e assumem critérios no processo da elaboração das demonstrações financeiras, modificando significativamente a situação patrimonial das demonstrações financeiras da entidade.
Segundo Healy e Whalen (1999), “a manipulação de resultados (“ earnings management”) ocorre quando os gestores utilizam um juízo subjetivo nos relatórios financeiros e na estruturação de transações para alterar o conteúdo desses relatórios com vista a iludir alguns dos Stakeholders quanto à performance da empresa, ou influenciar alguns resultados contratuais dependentes dos números contabilísticos publicados”.
Do ponto de vista da contabilidade, Jameson (1988: 7-8) afirma que” O processo contábil consiste em tratar com diferentes tipos de opinião e resolver conflitos entre aproximações diferentes para a apresentação dos resultados dos fatos e transações financeiras”. “…”Esta flexibilidade facilita a manipulação o engano e a distorção.
Estas atividades praticadas pelos elementos menos escrupulosos da profissão contábil começam a ser conhecidas como a “contabilidade criativa”
Do ponto de vista empírico, Naser, (1993: 2) define a contabilidade criativa como “a transformação das figuras de contabilidade financeira do que são atualmente ao que se deseja que sejam aproveitando as normas existentes e/ou ignorando algumas delas”.
Já para Kraemer (2005: 43) “é utilizada para descobrir o processo mediante o qual os contadores utilizam o seu conhecimento sobre as normas contáveis para manipular as cifras da empresa, sem deixar de cumprir os princípios da contabilidade”. No contexto ético o mesmo autor refere que “Este fenómeno envolve aspetos controversos relacionados com a ética, com o conceito de imagem fiel, e o paradigma da utilidade da informação e dos relatórios contabilísticos e a fraude, os quais ainda são difíceis de ser avaliados de forma efetiva no quotidiano empresarial”, Kraemer (2004: 3).
Para Oriol Amat e Blake (1999) “A contabilidade criativa é o processo mediante o qual os gestores utilizam seus conhecimentos sobre as normas contabilísticas para manipular os valores incluídos nas demonstrações financeiras que divulgam”.
Mestrado Auditoria
Página 25
Em termos internacionais são vários os termos utilizados para definir contabilidade criativa “Creative accounting” um deles é “Earnings management”, que se entende como a gestão dos resultados num determinado período, e este é o termo mais utilizado pelos europeus (países anglo-saxónicos), outro termo é “income smoothing” numa conceção de variação de resultados, que se relaciona com o objetivo de se obter um crescimento sustentável, “Cookie Jar” numa perspetiva de diferir resultados positivos para anos com resultados negativos, por forma a cobrir prejuízos dos exercícios, e, por fim,” Big Bath Accounting” numa perspetiva contrária, tendente a reduzir os resultados do período e reportá-los para períodos seguintes.
Analisada a conceptualização da contabilidade criativa e discutida a diferença face à fraude, importante para o estudo, focamo-nos no parágrafo seguinte sobre qual a forma como aquela se manifesta.
1.3 - Forma como se manifesta a contabilidade criativa
Consenza (2003), define a contabilidade criativa tendo por base os diversos incentivos que a estimulam, e a forma como esta se manifesta. Assim, o autor defende que esta prática pode ser analisada pelo seu comportamento e define esse comportamento como agressivo, conservador e ainda como prática de alisamento de resultados.
“Agressiva – quando atua sobre os resultados de forma a melhorar a imagem da empresa pela estabilização da posição financeira”.
“Conservadora – quando pretende divulgar uma imagem de resultados menores do que aqueles que efetivamente são, ou de”,
“Alisamento dos resultados – quando pretende transmitir uma imagem de estabilidade da empresa ao longo dos anos, com resultados menos voláteis” Consenza (2003: 42-61)”
Mestrado Auditoria
Página 26
A contabilidade criativa surge como consequência aos diferentes estímulos a que os gestores estão expostos. Este tipo de gestão pode ser considerada, positiva ou negativa, segundo, Moreira (2008:116).
“Positiva – quando dela se espera benefício, seja ele pessoal ou coletivo”.
“Negativa – se a expectativa é a de que se diminuem custos”.
Contudo, é importante referir que os gestores apenas recorrem à contabilidade criativa se os benefícios que esperam obter sejam superiores aos custos para, uma vez que não pretendem colocar em risco a reputação e credibilidade da entidade Oliveira (2008: 14).
É necessário ter em atenção a medida custo/benefício, “uma vez que os custos não recaem sobre aqueles que têm o benefício” e “constitui por isso um processo de ajuizamento” por parte daqueles que são responsáveis pela apresentação das demonstrações financeiras, Estrutura Conceptual (EC) do normativo internacional da IASB.
A contabilidade criativa tem diversos objetivos, aos quais estão subjacentes diversas motivações. Cabe ao gestor e preparador da informação financeira efetuar diversas opções e diversas estimativas na preparação das demonstrações financeiras de acordo com os normativos e princípios contabilísticos existentes, tornando-se assim pertinente refletir sobre quais os incentivos e motivações subjacentes à contabilidade criativa.
1.4 - Incentivos/Motivações na utilização da contabilidade criativa
São inúmeros os objetivos, as razões e os incentivos apontados para a prática da contabilidade criativa: apresentar resultados que correspondam aos objetivos definidos, quer pelos analistas, pelos bancos ou pelos próprios gestores, podendo ser mais ou menos favoráveis mas indo ao encontro dos resultados orçamentados; o pagamento de menos impostos, imagem de estabilidade financeira, atingir determinadas remunerações
Mestrado Auditoria
Página 27
para os gerentes/diretores, elevar as cotações de mercado, obter uma imagem de credibilidade perante utilizadores/investidores, e stakeholders, entre outras, respeitando sempre critérios definidos nas leis e normas vigentes.
Apresentam-se de seguida alguns desses critérios, tais como a escolha de métodos contabilísticos, as estimativas contabilísticas e a ausência de normativo:
“Permissividade de escolha entre diferentes métodos contabilísticos proporcionada pelo normativo contabilístico”.
As opções e escolhas contabilísticas derivam em parte das alternativas que cada normativo permite, por exemplo, no que respeita à possibilidade de escolha de diferentes métodos contabilísticos.
Exemplificando, no caso dos inventários – IAS 2, o normativo internacional permite a utilização de dois métodos para valorização das saídas, o método do custo ponderando e o método do FIFO. Da escolha de um dos métodos, resultam efeitos diferenciadores tanto no resultado do período como no valor do inventário.
Outra permissividade na escolha dos métodos assenta na possibilidade de se optar pelo método da revalorização de Ativos Fixos Tangíveis, como previsto na IAS 16 (Ativos fixos tangíveis). A revalorização pode ser entendida como um ajustamento dos ativos ao seu justo valor em cada período de relato. No entanto, pode ser usado para reforçar os capitais próprios e com este “subterfúgio” contabilístico, por exemplo, aumentar o grau de autonomia financeira exigida por uma instituição financeira.
Outra escolha possível relaciona-se com os bens sujeitos a depreciações. Neste caso, o gestor pode valer-se de dois métodos de depreciação o método das Quotas Constantes ou Método das Unidades Produzidas, em situações economicamente justificadas. A literatura aponta a escolha entre métodos de quotas constantes ou métodos mais acelerados, sendo que o resultado do primeiro método é o de aumentar os resultados e o segundo, uma diminuição dos resultados Bowen et al. (1999) e Astami e Tower (2006).
Em ambos os estudos, os autores concluem que o método mais usado é o das quotas constantes.
Mestrado Auditoria
Página 28
Ainda dentro das depreciações/amortizações dos itens, o normativo abarca ainda outras situações possíveis de flexibilidade e subjetividade, no tocante à determinação da vida útil ou do valor residual dos bens (Mendes e Rodrigues, 2007). Da mesma forma, um ou outro método tem impacto no resultado do período e no ativo líquido, podendo ser alterado o método de depreciação, não por critérios económicos, mas por questões de manipulação dos efeitos nos resultados reportados.
Um segundo fator igualmente associado à contabilidade criativa diz respeito às estimativas contabilísticas e aos respetivos julgamentos.
“Existência de registos contabilísticos que implicam estimativas, julgamentos e previsões”.
Em determinadas situações é necessário por parte do responsável pela elaboração das demonstrações financeiras efetuar estimativas, e julgamentos de valores, desta forma e tendo em conta que essas situações exigem estimativas deve se ter em conta que essas estimativas são efetuadas com base em pressupostos de evolução dos mercados e de indicadores macroeconómicos que levanta a questão do uso da contabilidade criativa, pois exige previsões com margens de flexibilidade, consubstanciando volatilidade das referidas estimativas.
Por outro lado, quando o responsável pela elaboração das demonstrações financeiras tem de efetuar um ajuizamento de valores, levanta-se a questão da imparcialidade, independência a aplicação da contabilidade criativa.
Ser mais ou menos prudente no apuramento das referidas estimativas, tem impacto nas mesmas e na performance da empresa. Ser mais ou menos agressivo em determinado período face ao outro, tem também impacto na referida performance e nos indicadores financeiros da empresa. Para além do grau de prudência, outro fator que pode ter impacto no desempenho relatado nos diversos anos é a alteração de políticas contabilísticas de um período para o outro, quando existem opções de política contabilística, como veremos na subsecção seguinte.
Mestrado Auditoria
Página 29
“Alteração dos critérios contabilísticos de um ano para o outro”.
Não se trata apenas da existência de uma pluralidade de políticas contabilísticas, anteriormente apresentada, mas de uma alteração entre períodos comprometendo a comparabilidade dos mesmos. As normas permitem alterar os critérios contabilísticos, situações que surgem por vezes da alteração da própria norma ou quando a referida alteração consubstancie uma melhor representação da posição financeira da entidade.
Tal situação põe, no entanto, em causa dois princípios contabilísticos: o principio da consistência, em que a informação deixa de ser consistente ao longo de um período ou de vários o que pode dificultar a interpretação de resultados para o utilizador da informação financeira, assim como a comparabilidade, na medida em que a informação deixa de ser comparável. Neste último caso, a reexpressão das contas permite colmatar esse entrave (IAS 8).
Por fim, dois fatores adicionais podem consubstanciar indícios de contabilidade criativa, ainda que menos evidentes, os vazios normativos e a estabilização dos resultados. A complexidade das operações hoje em dia é de tal forma que o normativo pode não conseguir captar todas as situações a relevar.
“Vazios normativos”.
Os normativos contabilísticos assentam em estrutura concetuais, em princípios-base e ou regras, podendo ainda assim existir algum “vazio”. O normativo poderá não abarcar todos os acontecimentos possíveis de registo contabilístico, podendo nestes casos serem usados pelos gestores os princípios que se adequem mais aos objetivos a atingir, aplicando-os de forma subjetiva e alternativa e por isso criativa. Ainda que tais políticas sejam divulgadas nas demonstrações financeiras, o motivo da escolha das mesmas geralmente não o é.
“Estabilização de resultados”.
As empresas pretendem dar a conhecer resultados estáveis e pouco inconstantes quanto ao seu crescimento e posição no mercado. Os gestores podem assim recorrer a estimativas, adoção de métodos e critérios que elevem ou reduzam resultados de forma
Mestrado Auditoria
Página 30
a estabilizar o seu desempenho em função dos objetivos pretendidos. Para esta estabilização contribuem essencialmente os três primeiros fatores apresentados.
A contabilidade criativa surge assim nomeadamente nas demonstrações financeiras quando o gestor tem ao seu alcance a faculdade de optar por determinada política em detrimento de outra. Contudo, existem rubricas das demonstrações financeiras onde a liberdade de escolha e subjetividade são mais salientes, nomeadamente através de estimativas possibilitando uma maior propensão à criatividade.
Apresentados os principais fatores motivadores da contabilidade criativa, discute-se de seguida em que rubricas das peças das demonstrações financeiras haverá maiores indícios de tais práticas, tendo sempre por base o referido nos parágrafos anteriores.
1.5- Modos de manifestação da contabilidade criativa
A informação contabilística é de extrema importância, como referido anteriormente, para os que se relacionam com a entidade quer sejam investidores, analistas, empregados, credores ou demais stakeholders, pelo que os gestores podem ser motivados a gerir esse relato com o objetivo de influenciar as expectativas dos referidos stakeholders, para, nomeadamente, aumentar as cotações das ações e/ou os custos de capital, aparentar um imagem de progressão e boa performance, ou seja, que vá ao encontro das expetativas dos diversos utilizadores.
Apresenta-se de seguida variadíssimas situações onde se pode evidenciar indícios de contabilidade criativa, situações essas que passamos a enumerar.
Aumento ou redução de gastos via amortizações/depreciações (alterações da percentagem de amortização, revisão das vidas úteis.
Como oportunamente referido, uma das rubricas propícia à contabilidade criativa está relacionada com a flexibilidade e elasticidade de algumas normas que permitem optar por métodos que levam ao aumento ou redução dos gastos.
Mestrado Auditoria
Página 31
No caso das amortizações/depreciações do ativo fixo intangível/tangível, as normas permitem escolher a vida útil do referido item, permitindo assim um grau de flexibilidade e elasticidade quanto ao prazo de amortizações/depreciações do ativo e nas depreciações de bens, que pode variar substancialmente de setor para setor e de empresa para empresa, consoante a vida útil economicamente definida pelo gestor. Dadas as alterações tecnológicas, as vidas úteis devem ser revistas periodicamente, desde que tal se justifique, no entanto, essa revisão pode ter por trás outros intuitos que não o de adaptar a amortização/depreciação ao desgaste do item. Estas alterações de amortizações/depreciações têm, não só como consequência, alterações nos gastos do período, como também ao nível do IRC, art.30º do CIRC.
Aumento ou redução de rendimentos através com base em estimativas de receitas ou perdas futuras.
Os gestores que efetuam estimativas com base em pressupostos tendem a estimar valores com tendência estável do crescimento da faturação e consequentemente de evolução da empresa nos mercados e tendem a não apresentar resultados com oscilações, que poderia ser interpretado como um risco pelo mercado e pelos investidores o que levaria a uma constante insegurança e hesitações em todos os intervenientes.
Assim a contabilidade criativa também pode ser utilizada para manter em alta a cotação das ações, pode também ser utilizada para evidenciar uma imagem de reduzido endividamento e dependência de financiamento externo aumentando as receitas e os resultados, situação essa que pode alavancar a empresa a conseguir potenciais investidores.
Aumento ou redução de ativos via maior ou menor quantificação de amortizações/depreciações e provisões.
Para além do desgaste dos ativos fixos através das amortizações e depreciações, existe ainda um grau de flexibilidade e subjetividade associado às provisões quanto à sua quantificação, levando assim a uma eventual sobreavaliação das quantias escrituradas dos ativos correspondentes ou subavaliação do passivo (provisões).
Mestrado Auditoria
Página 32
Nas demonstrações financeiras em estudo são algumas empresas que apresentam situações de aumento ou redução de amortizações via elasticidade da percentagem de amortização tal como foi evidenciado anteriormente, mas também situações de registo de provisões, que no nosso estudo foi interpretado como sendo um indício à contabilidade criativa.
Aumento ou redução dos capitais próprios
Os capitais próprios das empresas podem ser refletidos aquando é efetuada alterações no gastos/rendimentos da entidade, pelo aumento de custos ou de proveitos, que por sua vez alteram os capitais próprios através do registo posterior que podem fazer na conta reservas, que em alguns casos se pode traduzir numa avaliação errónea do património líquido da empresa e os capitais alheios da entidade. Indícios de contabilidade criativa nas alterações ao capital próprio podem simplesmente assentar nos diversos fatores associados aos resultados, rendimentos e gastos, como referido atrás, ou diretamente nas contas do capital próprio, como por exemplo os casos de revalorização de ativos ou justo valor de instrumentos financeiros a registar em capital próprio ou resultado, podendo influenciar a performance da empresa
Aumento ou redução de dívidas
O aumento e redução de dívidas poderão acontecer por diversas situações num enquadramento da contabilidade criativa. Há evidência que os gestores praticam, temporariamente, descontos no preço das vendas para aumentarem o volume de negócios e reduzem as despesas discricionárias para aumentarem as margens divulgadas, segundo Roychowdhury, (2006).
Reclassificação de ativos e passivos, imposta ou não, por alterações de políticas contabilísticas.
Se por vezes existe uma imposição das normas para determinado critério de mensuração ser alterado e as contas serem reclassificadas, outras vezes estas alterações resultam da
Mestrado Auditoria
Página 33
permissividade e opção de escolha por um determinado critério de mensuração em detrimento de outro caso daí resulte uma informação mais apropriada.
A contabilidade criativa pode ser utilizada apenas de forma temporal na medida em que as divulgações definitivas da informação financeira chegue atrasada aos mercados financeiros privilegiando todos os intervenientes com acesso reservado de tais informações. Algumas razões desse atraso na disponibilidade de informação depreende- se com as remunerações em ações aos próprios dos diretores/gestores das empresas, de forma a usufruir de privilégios perante outros investidores.
Apresentadas as áreas propícias às práticas de contabilidade criativa, debate-se nos parágrafos muito sucintamente quais as motivações bem como algumas formas de evitar este fenómeno.
1.6 - Formas de evitar o fenómeno da contabilidade criativa
Amat e Blake (2002: 16) salientam algumas formas de evitar este fenómeno entre as quais passo a destacar:
“Quanto à permissividade de escolha entre diferentes métodos contabilísticos”:
A legislação deve uniformizar os métodos permitidos e especificar a utilização de cada um deles, bem como definir com clareza em que condições se pode adotar diferentes métodos e definir a obrigatoriedade de divulgar sempre. A informação relatada deve respeitar o princípio da comparabilidade assim como da consistência ao longo dos tempos e não apenas nos períodos em que lhe proporciona uma imagem mais apropriada tendo em conta os objetivos traçados. Assim, deve ser restrita ou abolida a possibilidade dos preparadores escolherem métodos de contabilização.
“Quanto à possibilidade de utilização abusiva das estimativas efetuadas pelos gestores”.
Mestrado Auditoria
Página 34
Existe como oportunamente referido, um elevado grau de discricionariedade e flexibilidade no apuramento das estimativas aquando da elaboração das contas, trata-se de estimativas com base em indícios de desenvolvimento, tal como é efetuado na avaliação atuariais.
Quanto às transações extraordinárias
Os ganhos e/ou perdas devem ser registados obrigatoriamente nas contas respetivas e nos períodos a que dizem respeito e não apenas no ano em que é mais influente por parte dos interesses de quem prepara as contas, o que para efeitos do presente estudo é considerado como um indício de contabilidade criativa. Uma forma de influenciar a opinião dos utilizadores da informação financeira é relatar um facto que ocorreu como extraordinário, ou seja, não recorrente, como forma de fazer passar a mensagem de que não deverá acontecer no futuro. É neste caso também considerado como indício de contabilidade criativa, ainda que com o atual normativo internacional, esta classificação seja proibida.
A prepósito desta temática complexa foram já efetuadas algumas medidas com o objetivo de reduzir tal faculdade de subjetividade, de forma a e eliminar o grau de incerteza que causa nos utilizadores da informação financeira.
1.7 - Medidas adotadas para reduzir práticas de contabilidade criativa
Tendo em vista atenuar as consequências da contabilidade criativa, razão pela qual abriu portas para alguns dos escândalos financeiros, que tudo indica que se iniciaram tendo por base algumas práticas criativas, e que desmedidamente avançaram para grandes fraudes à escala mundial casos como Enron (Não registava participações em empresas pequenas escondendo biliões de dívidas que tinha e ao mesmo tempo sobreavaliava os seus resultados, vendia os seus ativos a essas mesmas empresas por valores supervalorizados), Worldcom (manipulava os resultados na medida em que usou 3.8 milhões na rubrica de investimentos quando na verdade eram na totalidade custos) e a Parmalat (a empresa utilizado dezenas de empresas do exterior para comunicar ativos
Mestrado Auditoria
Página 35
não existentes com o intuito de compensar cerca de US$ 11 biliões em passivos), estes comportamentos transformaram a designada contabilidade criatividade a flexibilidade e a subjetividade que é permitida legalmente num uso abusivo e fraudulento desta permissividade.
Dentro deste contexto surgem algumas medidas e nova tentativa de legislação, principalmente a nível internacional como forma de atenuar este fenómeno, das quais se destacam ao nível da auditoria, um dos temas que iremos abordar no capítulo seguinte, a Lei Sarbanes Oxley:
Lei Sarbanes-Oxley
Não sendo propósito deste estudo a análise desta lei, convém sucintamente apresentar o seu principal contributo. Esta lei tem origem nos EUA em Julho de 2002, tendo como objetivos a reforma de prestação de contas e a auditoria das empresas, através da criação de um organismo de supervisão de auditoria contabilística financeira (Public Company Accounting Oversight Board) bem como a aplicação de sanções disciplinares aos infratores.
Outra tentativa de minimizar a flexibilidade e a discricionariedade tendo em vista uma maior transparência e fiabilidade da informação financeira, apresentada em 1984 pela entidade reguladora SEC (Securities and Exchange Commission), tinha em vista adotar procedimentos com o intuito de afastar a manipulação de critérios utilizados de forma subjetiva.
Sublinhe-se também que o relatório de auditoria está a ser objeto de estudo no International Auditing and Assurance Standards Board (IAASB) da International Federation of Accountants (IFAC), visando a harmonização do relato de auditoria na União Europeia. Assim, a solução da IFAC aponta no sentido de o relatório de auditoria ser dividido em duas partes: a primeira que trata das demonstrações financeiras e deve, essencialmente, ser a mesma para todas as auditorias segundo as IAS (International Auditing Standards); a segunda, que se destina a quaisquer matérias adicionais que podem ser exigidos por regulamentos nacionais.
Mestrado Auditoria
Página 36
Alguns estudos já elaborados mencionam medidas como, o reforço no papel dos auditores, implementação de comités de auditoria, incorporação de auditores externos, exibição de fraquezas que podem afetar a situação da empresa, limite à flexibilidade dos normativos existentes e também limite à forma de atuação dos gestores.
No que respeita às opções contabilísticas, estimativas e julgamentos, principais veículos da manipulação de resultados, a fiscalização por parte das entidades reguladoras e dos auditores não tem resolvido a questão de alguma permissividade das normas, como acabámos de debater. É difícil concluir sobre o grau de rigidez e flexibilidade dos normativos, pelo que muito se tem debatido e atuado no sentido do reforço das regras de conduto e ética dos respetivos profissionais.
No capitulo seguinte abordamos brevemente porque eticamente falando apenas se poderá minimizar a questão da contabilidade criativa e qual a atuação e responsabilidade dos auditores perante situações indiciadoras de contabilidade criativa.
Mestrado Auditoria
Página 37
Capitulo II
Papel da Auditoria na deteção de práticas de
contabilidade criativa
Mestrado Auditoria
Página 38
Capitulo II
2 - O papel da auditoria na deteção de práticas de contabilidade criativa
O objetivo de uma auditoria das demonstrações financeiras é habilitar o auditor a expressar uma opinião sobre as demonstrações financeiras que foram preparadas em todos os seus aspetos relevantes de acordo com uma estrutura conceptual (EC) identificada para relatórios contáveis”. Segundo Ibracon (1988: 23). Ao mesmo tempo, a qualidade dos resultados para projeção futura do desempenho da empresa vem alterada com a prática de contabilidade criativa. A legalidade do aproveitamento de uma opção normativa enquadra-se nos princípios de ética profissional do auditor?
2.1 - Ética e da responsabilidade social
Para além da lei, regras, e princípios contabilísticos existe sempre subjacente a obrigação social e moral do profissional e gestor responsável por elaborar e apresentar as demonstrações financeiras aos diversos stakeholders de modo a que a informação apresente com razoabilidade a situação financeira da entidade.
Convém realçar que a responsabilidade da informação financeira é da gestão, e que os registos contabilísticos devem ser efetuados em conformidade com os princípios contabilísticos geralmente aceites, princípios esses de continuidade, prudência, consistência, substancia sobre a forma, materialidade, compreensibilidade e relevância, e quanto à responsabilidade do auditor ter presente como foi enumerado logo na introdução que este é responsável por exprimir uma opinião com razoabilidade acerca das demonstrações financeiras.
Mestrado Auditoria
Página 39
Tanto na preparação como na revisão deve-se ter em conta que o indivíduo é acima de tudo um ser humano que tem para além de tudo característico, princípios e motivações próprias, para além de regras estabelecidas em códigos de conduta diferentes consoantes a ordem que integra. Os códigos de conduta possuem um conjunto de normas e procedimentos e/ou recomendações que procuram assegurarem um comportamento ético por parte de quem elabora a informação financeira de forma a promover e assegurar a imagem verdadeira e apropriada da realidade da empresa. Segundo Mulford e Comiskey (2002) para se afirmar que houve espaço para praticar a contabilidade criativa com intenção de manipular a informação, é necessário que se comprove que houve intenção pré-determinada em distorcer a imagem verdadeira da empresa, para afastar a possibilidade de erros contabilísticos.
A legalidade do aproveitamento de uma opção normativa, de uma política contabilística ou estimativas mais ou menos agressivas não se enquadra nos princípios de ética profissional por ser contrária às obrigações morais geralmente admitidas na sociedade.
A auditoria é percecionada como um conforto adicional sobre o conteúdo das demonstrações financeiros, no entanto, dada a subjetividade implícita, o ajuizar da exatidão das estimativas é difícil para esses profissionais.
Discute-se nas secções seguintes o papel da auditoria na deteção das práticas de contabilidade criativa e quais as áreas mais sensíveis.
2.2 – O papel da auditoria
Como forma de dar credibilidade às demonstrações financeiras é comum e ou obrigatório as empresas recorrerem aos serviços prestados por entidades externas (auditorias), que expressem uma opinião profissional e independente, baseada no exame que efetuaram à informação financeira (Costa e Alves, 2008).
De acordo com Gonçalves (2005: 45) “a revisão/auditoria às contas é uma das medidas que limita a contabilidade criativa, (...) pedindo-se a estes profissionais competência e independência, dois requisitos fundamentais à profissão, que se quer isenta e que dê credibilidade aos documentos examinados”.
Mestrado Auditoria
Página 40
Neste contexto a ética é o princípio base, pois exige do auditor muito mais do que conhecimentos técnicos e legais, mas sim uma decisão quanto à expressão com respeito pelos seus valores e valores das ordens que integram, e que acima de tudo represente com fiabilidade a situação da posição financeira da empresa para dar credibilidade à informação prestada aos utilizadores através do relatório de auditoria, com referência a um determinado normativo contabilístico, que ele próprio permite determinadas opções e tem subjetividades implícitas. Deixa assim dúvidas quanto à responsabilidade do auditor em percecionar e reportar tais práticas, as quais são permitidas pelas normas.
Por vezes a contabilidade criativa surge de forma a responder às diversas situações dos registos contabilísticos e como veremos a seguir permitida pelos princípios contabilísticos geralmente aceites.
2.3 - Contabilidade criativa Subjacente nos princípios
São vários os princípios contabilísticos subjacentes à apresentação das demonstrações financeiras e cada um deles contribui muitas das vezes para a prática de contabilidade criativa, da seguinte forma:
Quanto ao princípio de custo histórico (registo pelo valor de aquisição ou pelo justo valor, sendo este ultimo o mais suscetível de proporcionar a contabilidade criativa, bem como via revalorizações).
Principio do custo histórico, segundo os critérios de mensuração das demonstrações financeiras, presente na E.C, do normativo internacional “os ativos são registados pela quantia de caixa, ou equivalentes de caixa paga pelo seu justo valor da retribuição dada para adquiri-los no momento da sua aquisição” o desrespeito pelo princípio do custo histórico acontece por varias razões entre as quais se destaca valorização/desvalorização de inventários, registo do goodwill, classificar encargos financeiros como ativos.
O custo histórico pode para determinados ativos ser substituído pelo justo valor ou alterado através da revalorização dos ativos, o que influencia significativamente o aumento de indícios de contabilidade criativa nomeadamente pela subjetividade associada à sua determinação.
Mestrado Auditoria
Página 41
Quanto ao princípio da prudência:
Podemos apontar possíveis consequências da contabilidade criativa no que diz respeito ao princípio da prudência o excesso ou falta de contabilização de provisões para riscos e gastos com depreciações, a reavaliação voluntária de ativos fixos tangíveis e intangiveis bem como o excesso de capitalização de gastos com pesquisas e desenvolvimento.
Mensuração dos elementos das Demonstrações Financeiras E.C do normativo internacional.
São utilizadas diferentes bases de mensuração em graus diferentes e em variadas combinações nas demonstrações financeiras. Elas incluem as seguintes:
a) “Custo histórico – Quando os ativos são registados pela quantia de caixa, ou equivalentes de caixa paga ou ainda pelo justo valor da retribuição dada para adquiri-los no momento da sua aquisição.
b) Custo corrente - Os ativos são registados pela quantia de caixa ou de equivalentes de caixa que teria de ser paga se o mesmo ou então um ativo equivalente fosse correntemente adquirido.
c) Valor realizável - Os ativos são registados pela quantia de caixa, ou equivalentes de caixa, que possa ser correntemente obtida ao vender o ativo numa alienação ordenada.
d) Valor presente – Os ativos são escriturados pelo valor presente descontado dos futuros influxos líquidos de caixa que se espera que o item gere no decurso normal dos negócios, e finalmente pelo,
e) Justo valor – Que significa a quantia pela qual um ativo poderia ser trocado ou um passivo liquidado, entre partes conhecedoras e dispostas a isso, numa transação em que não exista relacionamento entre elas”.
Neste domínio optando pela mensuração do justo valor é visível o grau de subjetividade e flexibilidade, pela forma de determinação de cada um dos valores.
Mestrado Auditoria
Página 42
A questão é que quando não existe um mercado regulador a mensuração dos ativos e passivos pressupõem estimativas através de modelos e rácios financeiros bem como formulação de pressupostos.
A prudência é a inclusão de um grau de precaução no exercício dos juízos necessários ao fazer estimativas necessárias em condições de incertezas para que os ativos e rendimentos não sejam sobreavaliados e os passivos ou gastos não sejam subavaliados, E.C do Normativo internacional.
Contudo, trata-se de uma questão sensível na medida em que o que para uns pode ser considerado como um risco importante que necessita de ser acautelado, para outros pode ser um risco menor, e por isso sendo menos agressivos, ao qual não se aplica este princípio. Esta flexibilidade poderá originar situações em que a aplicação deste princípio dependa dos interesses dos próprios gestores e da entidade. Os ajustamentos e as provisões têm um caráter de incerteza o que favorece o uso de práticas de contabilidade criativa.
O princípio da prudência está assim fortemente relacionado com as estimativas que os gestores têm que fazer, sendo uma área propícia para alguma discricionariedade. Para avaliar a aplicabilidade deste princípio, o conhecimento do negócio e do enquadramento setorial são muito importantes para o auditor, sendo esta área das estimativas a mais difícil em julgar do lado do auditor, e por isso mesmo, em detetar práticas de manipulação de resultados por esta via.
Quanto ao princípio consistência (Relaciona-se com as alterações de registos contabilísticos alterações de métodos de contabilização de ativos e passivos, bem como insuficiência na definição concreta quanto ao momento de registo de resultados diferidos).
O princípio da consistência refere-se às alterações contabilísticas com efeitos materialmente relevantes, tais politicas e respetivas alterações devem ser divulgadas para informação do utilizador, o que não reduz a possibilidade de flexibilidade por parte do gestor.
Mestrado Auditoria
Página 43
Neste contexto, podemos apontar como práticas comuns referente às alterações de políticas contabilísticas as mudanças voluntárias e injustificadas de métodos tais como métodos de valorimetria, métodos de registo de depreciações, políticas de contabilização arbitrária e por fim, mas não menos significante a omissão de informação obrigatória nas notas explicativas sobre essas alterações.
Por estas razões mais uma vez abordamos factos que favorecem as práticas da contabilidade criativa.
Neste campo, o auditor deve averiguar a correta divulgação das alterações de politicas contabilísticas, de forma a que, o destinatário da informação consiga ter informação sobre os respetivos impactos, sem necessidade, caso esteja divulgado, em lhe fazer referência na opinião de auditoria.
Quanto ao princípio da especialização:
O princípio de especialização dos exercícios está diretamente relacionado com o registo dos acontecimentos na data em que ocorrem. Entende-se indício a prática de contabilidade criativa o não reconhecimento de custos/proveitos no exercício diferente daquele a que respeitam.
Abordamos de seguida as situações mais vulneráveis e sujeitas à contabilidade criativa agora por rubrica.
2.4 - Demonstrações financeiras: Subjetividade associada a determinadas rubricas do Balanço e da Demonstração de resultados
Algumas contas podem ser mais ou menos afetadas pela contabilidade criativa, ora vejamos algumas situações apontadas que nos mostra evidência clara de o gestor poder usufruir de grande subjetividade quer na aplicação do normativo internacional e em que requer mais julgamento e conhecimento técnico específico por parte do auditor.