CAMPUS DE ERECHIM
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS CURSO DE DIREITO
RONY DE ASSIS GABRIEL
LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS: IMPACTOS JURÍDICOS E SOCIAIS
ERECHIM/RS
2019
LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS: IMPACTOS JURÍDICOS E SOCIAIS
Trabalho de conclusão do Curso, apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas Curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Erechim - RS.
Orientador: Prof. Me Luciano Alves dos Santos
ERECHIM
2018
LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS: IMPACTOS JURÍDICOS E SOCIAIS
Trabalho de conclusão do Curso, apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas Curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Erechim - RS.
Erechim/RS, ___de _______de 2019.
BANCA EXAMINADORA
______________________
Prof. Orientador Me Luciano Alves dos Santos
Universidade Regional e Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Erechim
_____________________
Prof. Avaliador
Universidade Regional e Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Erechim
_____________________
Prof. Avaliador
Universidade Regional e Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus
Erechim
Dedico esta monografia para minha
família, pelo apoio, amor, dedicação e
compreensão recebido durante o meu
período acadêmico.
Agradeço ao Departamento de Ciências Sociais e Aplicadas do Curso de Direito, da Universidade Regional e Integrada do Alto Uruguai e das Missões - Campus Erechim pela disponibilização dos meios para a realização desta Monografia.
Agradeço, particularmente a prestatividade, auxílio e as orientações recebidas do meu Orientador Mestre Professor Luciano Alves dos Santos, que em todas as etapas ajudou na elaboração desta Monografia.
Agradeço todos (as) os professores (as) do curso de Direito cujos conhecimentos transmitidos ajudaram na jornada acadêmica, contribuindo com a formação de qualidade para o futuro profissional.
Agradeço os colegas pela convivência amistosa nos cinco anos do curso, compartilhadas com conhecimentos, e relações de coleguismo.
Agradeço meus pais e familiares, pelo auxílio, afeto e as palavras de apoio e
motivação.
Não preciso me drogar para ser um gênio.
Não preciso ser um gênio para ser humano, mas preciso do seu sorriso para ser feliz.
Charles Chaplin
O estudo apresentado na monografia tem como tema a legalização das drogas e os seus impactos jurídicos e sociais. A drogatização é um fato histórico, sendo que as drogas estiveram presentes desde o início das civilizações, utilizadas principalmente para rituais religiosos, e com a mudança dos modelos econômicos, passou a ser comercializada, na maioria das Nações tal comércio é ilegal, em decorrência dos danos para a saúde pública, e a desestruturação que causa nas relações sociais.
Assim as drogas ilícitas, na contemporaneidade geram efeitos danosos na sociedade, com o tráfico das mesmas. No Brasil, vigora o proibicionismo, percorrendo várias etapas relacionadas as adequações da lei sobre as drogas licitas e ilícitas, até chegar a Lei nº 11.343/2006. Todavia, existem controvérsias em relação a necessidade de legalização das drogas no Brasil, assim parte da sociedade assume o posicionamento a favor e outra contra a legalização. O objetivo geral do estudo foi analisar os impactos jurídicos e sociais da legalização das drogas no Brasil. Os objetivos específicos foram de conceituar e contextualizar as drogas no Brasil, averiguar o consumo de drogas e os problemas gerados para a saúde pública, comentar sobre os impactos da legalização, analisar a possibilidade de comércio regulamentado, examinar os aspectos sobre o desencarceramento de traficantes, relatar os principais impactos jurídicos na pós-legalização. Para a realização do estudo utilizou-se a metodologia bibliográfica, pesquisa documental jurisprudencial, o método foi indutivo, analítico- descritivo.
Palavras-chave: Drogas. Legalização. Impactos.
The study presented in the monograph has as its theme the legalization of drugs and their legal and social impacts. Drug making is a historical fact, since drugs have been present since the beginning of civilizations, mainly used for religious rituals, and with the change of economic models, started to be commercialized, in most of the Nations such commerce is illegal, due to the damage to public health, and the disruption it causes in social relations. Thus illicit drugs, in the contemporary world, have harmful effects on society, with trafficking in them. In Brazil, prohibitionist is in force, covering several stages related to the adequacy of the law on legal and illegal drugs, until Law 11,343 / 2006 is reached. However, there are controversies regarding the need to legalize drugs in Brazil, so part of the society assumes the position in favor and another against legalization. The general objective of the study was to analyze the legal and social impacts of drug legalization in Brazil. The specific objectives were to conceptualize and contextualize drugs in Brazil, to investigate the use of drugs and the problems generated for public health, to comment on the impacts of legalization, to analyze the possibility of regulated commerce, to examine the aspects about the disqualification of traffickers, to report the main legal impacts on post-legalization. For the accomplishment of the study it was used the bibliographical methodology, documentary jurisprudential research, the method was inductive, analytical- descriptive.
Keywords: Drugs. Legalization. Impacts.
1 INTRODUÇÃO ... 10
2 CONTEXTULIZAÇÃO E APONTAMENTOS SOBRE AS DROGAS ... 12
2.1 O consumo de drogas na história ... 12
2.2 As drogas ilícitas no Brasil e a sua proibição ... 14
3 AS DROGAS LÍCITAS E ILÍCITAS, A SAÚDE PÚBLICA E OS IMPACTOS DA LEGALIZAÇÃO DO CONSUMO E A REGULAMENTAÇÃO DO COMÉRCIO DE DROGAS... 19
3.1 O consumo de drogas lícitas e ou ilícitas e a saúde pública ... 19
3.2 Os impactos da legalização em relação a vulnerabilidade social ... 22
3.3 O possível comércio de drogas regulamentado ... 24
3.4 Análise acerca do aumento e ou diminuição do consumo e da criminalidade pós legalização ... 29
4 OS IMPACTOS JURÍDICOS PENAIS PÓS LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS – O DESENCARCERAMENTO DE TRAFICANTES – DO TRÁFICO PARA O CONTRABANDO DE DROGAS ... 33
4.1 Os impactos jurídicos penais pós legalização ... 33
4.2 O desencarceramento de traficantes... 36
4.3 Do tráfico para o contrabando de drogas ... 37
5 CONCLUSÃO ... 42
REFERÊNCIAS ... 45
1 INTRODUÇÃO
O trabalho de pesquisa tem como tema a legalização das drogas e os impactos jurídicos e sociais, sendo um assunto de divergências na sociedade e no meio jurídico, dessa maneira a opinião encontra-se dividida, entre a favor e contra legalização. As opiniões contrárias a legalização entendem ser uma maneira de aumentar o consumo das drogas, ser um estímulo inclusive para os jovens, que terão oportunidades facilitadas para adquirir e consumir, além de que a uso banalizado de drogas gera graves problemas para a saúde, o que aumentaria os problemas na área da saúde pública. As teses a favor dizem ser uma forma de coibir o tráfico, diminuir a violência e a criminalidade decorrentes, além de ser uma medida que poderá com o desencarceramento dos traficantes, desafogar o sistema prisional, após revistos os delitos praticados pelos meliantes por ocasião de suas prisões, por tráfico. Nesse sentido, o estudo busca demonstrar que a legalização das drogas no Brasil, causará impactos jurídicos e sociais.
No Brasil em relação às drogas historicamente adotou-se uma política de proibição de algumas drogas tendo como um dos principais argumentos a proteção da saúde pública. Outra questão importante é que, no Brasil, os gastos são enormes com o sistema penitenciário, constatando-se que o encarceramento traz mais prejuízos, ao poder público, que resultados. Ainda, outro aspecto é que com a legalização, o Estado pode com o comércio de drogas, poderá tributar e com os impostos arrecadados, realizar políticas públicas que possam a atender as demandas sociais.
O objetivo geral dessa pesquisa é de analisar os impactos jurídicos e sociais da legalização das drogas no Brasil. Os objetivos específicos são de conceituar e contextualizar as drogas no Brasil, averiguar o consumo de drogas e os problemas gerados para a saúde pública, comentar sobre os impactos da legalização, analisar a possibilidade de comércio regulamentado, examinar os aspectos sobre o desencarceramento de traficantes, relatar os principais impactos jurídicos na pós- legalização.
O estudo justifica-se na necessidade de demonstrar que a legalização das
drogas no Brasil acarretará impactos jurídicos e sociais, que além da adequação da
Lei, a adaptação da sociedade frente à realidade de conviver livremente com o direito
de consumo das hoje drogas ilícitas, e para tal, os cidadãos deverão estar conscientes
dos males que as mesmas podem causar a saúde, como já existe em relação as drogas lícitas.
O relatório compõe-se de três capítulos, o primeiro apresentando a conceituação, um pouco da história do consumo de drogas, e a trajetória proibitiva da legislação brasileira.
No segundo capítulo aborda-se sobre o consumo de drogas lícitas e ilícitas e os seus reflexos na saúde pública, e os impactos da possível legalização frente a vulnerabilidade social e como seria a regulamentação do comércio das drogas.
E no terceiro capítulo analisam-se os impactos jurídicos penais da legalização, com o desencarceramento dos traficantes, e o desmantelamento do segmento de tráfico de drogas.
A metodologia utilizada foi bibliográfica, a partir da análise de obras de
doutrinadores, documental, de artigos online relacionados ao tema, que após lidos,
procedeu-se o fichamento e a análise dos mesmos, para comporem o estudo. A
abordagem da pesquisa utiliza o método indutivo e analítico descritivo.
2 CONTEXTUALIZAÇÃO E APONTAMENTOS SOBRE AS DROGAS
Neste primeiro capítulo apresenta-se o conceito de drogas, os fatos históricos de sua utilização na história da humanidade, a maneira proibitiva que é tratada pela legislação brasileira, e considerações da Lei nº 11.343, de 23 de junho de 2006.
2.1 O consumo de drogas na história
A origem da palavra droga, segundo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP, 2019) vem da palavra droog (holandês antigo) que significa folha seca, tendo em vista que que na antiguidade, a maioria dos medicamentos era à base de vegetais, sem o processamento em laboratórios farmacológicos, como é hoje. Portanto, droga é qualquer substância que é capaz de alterar a função dos organismos vivos, resultando em modificações fisiológicas ou de comportamento. As drogas fazem parte da história da humanidade. Durante milhares de anos, algumas plantas vêm sendo utilizadas para auxiliar tanto o corpo, como a mente e o espírito das pessoas.
O uso de drogas é uma prática com diversos significados sociais como os de cura, lazer, enfermidade, crime, etc. (TRAD, 2009).
Segundo Martins (2007), em seu artigo sobre “História Internacional da Droga”
a história das drogas ilícitas, está integralmente ligada a história da medicina, das cresças religiosas e da formação cultural de cada povo:
Cada povo e cada cultura vai tendo as suas. Umas vezes, o homem procurou nelas a nutrição física, outras, andou à cata de remédio para as suas doenças, outras ainda, para alimentar sonhos ou alcançar o transcendente, influenciar o humor, buscar a paz ou a excitação, enfim, simplesmente para abstrair do mundo que o cerca e o perturba em dado momento da sua existência (MARTINS, 2007).
A história demonstra em diversos momentos, exemplos da utilização de
substâncias principalmente alucinógenas, sejam religiosos, laborativas, bélicos ou
festivos. Vale destacar que o consumo, seja ele coletivo ou individual, gozava de uma
função social (BESSA, 2010).
Para MacRae (2019) desde a pré-história, várias substâncias psicoativas vêm sendo usadas para diferentes finalidades, como por exemplo, em estados de êxtase místico e ou religioso, prazeroso, lúdico e até os curativos.
Os vestígios e evidências mais antigos encontradas, explica Ferreira (2015) vem da Índia, nos livros sagrados do hinduísmo com escritos de 1500 a.C., os quais relatavam a cannabis como sendo o alimento preferencial do Deus Shiva. Para os indianos, tomar drogas significava entrar em comunhão com Deus. Diz a lenda, que o próprio Buda durante sua procura pela iluminação, alimentou-se dos grãos da erva.
Afirma Santos Ebo (2008, p. 48) que: “Na tradição indiana, a planta era um presente dos deuses aos homens, capaz de provê-los de prazer, coragem e atender seus desejos sexuais”. Revelando a utilização religiosa oriental.
Com o passar do tempo, com o advento do capitalismo, é que as substâncias usadas de maneira coletiva e cumprindo um papel simbólico foram reduzidas a mercadorias com alto preço, quase sempre para uso individual e sem uma função social. A industrialização do tabaco e das bebidas alcoólicas possibilita a ampliação astronômica de suas produções e o consumo individual em larga escala (BESSA, 2010).
Ressalta Bessa (2010), a partir de uma visão histórico cultural em relação as diferentes épocas e momentos onde as drogas eram consumidas, cada qual com um objetivo diferente, destaca-se:
A grande questão é como cada sociedade organiza, ritualiza e legitima o uso das drogas em cada momento histórico e como isso repercute na vida de cada indivíduo e da própria sociedade. Sim, sabemos, por exemplo, que os índios brasileiros consumiam uma bebida alcoólica derivada da fermentação da mandioca - o cauim. Esse uso era coletivo, em rituais nos quais todos participavam e bebiam como forma de congraçamento da tribo. Não havia o consumo individual e nem cotidiano. Outro exemplo, a cocaína entre os povos andinos, era consumida ou mascando-se a folha ou bebendo o chá dessa planta, mas com o intuito adaptativo a uma condição geográfica, a altitude excessiva, e mais como suporte ao trabalho do que como forma recreativa.
Os kamikazes japoneses consumiam anfetaminas antes de se sacrificarem, explodindo-se com seus aviões em alvos inimigos, durante a II Guerra Mundial (BESSA, 2010).
Segundo Bessa (2010) é com o passar dos anos, que as drogas perdem o seu
intuito principalmente cultural, e passam a exercer um papel comercial, e sem função
social, assim destaca Bessa em seu artigo sobre, contribuição à discussão sobre a
legalização de drogas:
É mais tarde, com o advento do capitalismo, que as substâncias utilizadas de forma coletiva e cumprindo um papel simbólico foram reduzidas a mercadorias com alto preço, quase sempre para uso individual e sem uma função social. A industrialização do tabaco e das bebidas alcoólicas permite a ampliação astronômica de suas produções e o consumo individual em larga escala. (BESSA, 2010).
Na década de 1960, após a epidemia da Síndrome da Imune Deficiência Humana Adquirida (AIDS) e de outras doenças transmissíveis é que iniciou-se um novo olhar sobre o contexto sociocultural como também do contexto biopsicossocial dos usuários de drogas (MACRAE, 2019).
As drogas, atualmente, são individualmente consumidas principalmente como meio de fuga da realidade, procurando-se deleite máximo na curta e intensa sensação, como em um curto-circuito para aliviar o sofrimento psíquico (GRANER- ARAÚJO, 2009, p. 24).
Ainda, em referência à elevadíssima lucratividade desse ramo, sua ocorrência se deve à própria ilegalidade do ramo e da corrupção necessária para sua desenvoltura, tendo em vista que “[...] com tanto lucro, [...] e, como não há lei para proteger os negócios desse setor da economia, quaisquer conflitos e disputas são resolvidos pela violência” (ZALUAR apud GRANER-ARAÚJO, 2009, p. 26).
Constata-se a partir dos autores mencionados acima que o consumo de drogas acompanha a humanidade, que na atualidade ocorreu um aumento, sendo a ilegalidade um negócio lucrativo.
2.2 As drogas ilícitas no Brasil e sua proibição
Segundo Carvalho (2013), no Brasil as primeiras interpretações proibitivas em
referência às drogas aconteceram com as Ordenações Filipinas, no título LXXXIX do
Livro V, que ressaltava a proibição para qualquer pessoa da posse e comércio de
qualquer substância venenosa. A ideia de que as drogas seriam tanto um problema
de saúde quanto de segurança pública, elaborada pelos tratados internacionais em
decorrência da influência americana da primeira metade do século passado, foi
gradativamente introduzida na legislação nacional. E, em 1940, o Código Penal
reafirmou a decisão do Brasil de não criminalizar o consumo.
Para Pedrinha (2019) ficou estabelecido uma “[...] concepção sanitária do controle das drogas”, considerando-se a dependência uma doença e, ao contrário dos traficantes, os usuários não eram criminalizados, porém permaneciam submetidos a rigoroso tratamento, com internação obrigatória.
O proibicionismo no Brasil, atravessou diversas fazes em relação as adequações da lei sobre as drogas licitas e ilícitas. As primeiras legislações que regiam o Brasil, já traziam aspectos em relação ao consumo de drogas. No Brasil colonial, as Ordenações Filipinas, compilação jurídica de 1595 na qual se baseou o direito luso até o século XIX, determinavam que o indivíduo que guardasse em casa substâncias como o ópio poderia perder a fazenda e ser enviado à África. O objetivo das Ordenações Filipinas era de teor comercial, não tendo relação aos malefícios do uso ou transporte de substancias psicoativas, visto que na época havia concorrência em relação da comercialização de alguns produtos como o ópio citado a cima. Essa legislação foi sucedida pelo Código Penal de 1890, consolidação das leis penais de 1932, Decreto 780 e promulgação do Código Penal de 1940 15, que suprimiram a pena de desterro, mas mantiveram a condenação por posse (PEREIRA et al., 2018).
Na segunda metade do século XIX, apesar do começo do reconhecimento do seu caráter hedonístico, também foi reconhecido seu valor medicinal. E, na década de 1930, a maconha ainda era mencionada em literaturas médicas e era prevista entre os produtos farmacêuticos (RODRIGUES, 2013).
No ano de 1938 o Brasil torna-se signatário do Modelo Internacional de Controle às drogas, a “política proibicionista sistematizada” que amparava as substâncias entorpecentes surgiu efetivamente na década de 1940, com o Decreto Lei nº 891/38 (CARVALHO, 2013, p. 12).
Explica Silva (2012) que o tema voltou a ser de novo estudado pelo Código Penal de 1940 quando criado o Decreto Lei nº 2.848/1940 previa no seu artigo 281:
Art. 281 - importar ou exportar, vender ou expor a venda, fornecer, ainda a título gratuito, transportar, trazer consigo, ter em depósito, guardar, ministrar ou, de qualquer maneira, entregar a consumo substância entorpecente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar (SILVA, 2012, p. 34).
É instituído em 1976 a Lei nº 6.368/76, em pleno regime militar de governo, o
teor desta lei se fundamenta particularmente na redução da comercialização das
drogas, isto é, foi utilizado políticas no sentido de fiscalizar e atuar de uma maneira repreensiva à comercialização de drogas, os que eram surpreendidos nesse comércio, tanto os que compravam quanto os que vendia eram submetidos à prisão (CARVALHO, 2013).
A regulamentação e a proibição do uso de algumas substâncias psicoativas no Brasil, levando-se em consideração a história recente, haja vista que teve propulsão no século XX, na esteira de políticas proibicionistas norte-americanas. Com isso, a imprensa nacional inicia a difusão de ideias de combate ao "risco" do uso recreativo e descontrolado de drogas. Surgindo leis proibindo sua utilização e comércio, e políticas públicas proibicionistas com o amparo de estudos psiquiátricos e de direito criminal (ROSA, 2014).
Conforme Silva (2012) o amparo que a Constituição de 1988 e a Lei dos Crimes Hediondos deu às drogas:
A entrada em vigor da Constituição de 1988 manteve o tratamento repressivo ao traficante, haja vista que a Carta Magna determina essa conduta como crime inafiançável e insuscetível de graça ou indulto. Com a edição da Lei dos Crimes Hediondos – Lei nº. 8.072 de 1990, foi vedada a concessão de liberdade provisória aos acusados por tráfico de drogas. A mesma lei determinou que a pena privativa de liberdade fosse cumprida em sua integralidade sob o regime fechado e que o livramento condicional só pudesse ser requerido pelo condenado que já tivesse cumprido mais de dois terços da pena (SILVA, 2012, p. 36).
A produção científica brasileira acerca das substâncias psicoativas legais e ilegais começa a aumentar significativamente a partir da década de 1980. Apesar do incremento notável de estudos ancorados na perspectiva sociocultural, as pesquisas epidemiológicas e de cunho positivista ainda ocupam posição dominante na produção sobre o tema (PEREIRA, 2019).
A partir de então, cresceu progressivamente a economia das drogas ilícitas, chegando a estabilidade do mercado no início da década de 90 (PEREIRA et al, 2013).
Explica Carvalho (2013, p. 36) que em 2002 entrava em vigor a Lei nº 10.409, a qual regulamentava de maneira mais eficiente aspectos sobre a prevenção, o tratamento, a fiscalização, e o comércio de drogas.
No ano de 2006, através da Lei 11.343 instituiu-se o Sistema Nacional de
Políticas Públicas sobre Drogas (SINAD) que preconizou medidas para prevenção,
repressão e reabilitação do dependente químico na sociedade (FREITAS, 2019).
Na Constituição de 1988 definiu-se o tráfico de drogas como crime inafiançável, propondo-se o confisco de bens dos traficantes e a autorização para a expropriação de terras empregadas no plantio ilícito, mas também se torna obrigação do Estado manter programas de prevenção e assistência a usuários de drogas, mesmo que, historicamente, os investimentos estarem destinados à repressão, em detrimento das ações de prevenção (PEREIRA et al, 2018).
Resume Pereira et al (2018) de maneira incisiva as responsabilidades das políticas antidrogas adotado no Brasil, com a legislação de 2006, destaca-se:
A legislação interna facultava ao Estado o poder para deter pessoas compulsoriamente, visando garantir a saúde pública e, por razões de segurança, preservar os direitos individuais das pessoas reclusas para tratamento ou reabilitação. Em consonância com esse movimento internacional foi promulgada no Brasil, no ano de 2006, a Lei 11.343, que trouxe importantes modificações, extinguindo a pena de prisão para o usuário/dependente e distinguindo o usuário do dependente de drogas com a finalidade de dar o direcionamento mais adequado para cada caso concreto: advertência sobre os efeitos das drogas, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo (PEREIRA et al, 2018).
Assim, de acordo com essa lei, a plantação em pequena quantidade e o porte de drogas para consumo pessoal deixa de ser crime. Destaca-se que pela palavra drogas deve-se compreender como vegetais e substratos dos quais essas possam ser extraídas ou produzidas. Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal o juiz considerará a natureza e a quantidade da substância apreendida, o local e as condições em que se desenvolveu a ação, as circunstâncias sociais e pessoais, bem como a conduta e os antecedentes do agente. O uso pessoal passa a ser crime quando praticado de maneira ostensiva e em locais de concentração de crianças e adolescentes, como em escolas, por exemplo. Igualmente, o tráfico, mesmo de quantidade pequena, continua sendo considerado crime (PEREIRA et al, 2018).
Esclarece Fiore (2018) que o que vem desafiando os governos e pesquisadores é encontrar o equilíbrio entre exercer certo controle para a proteção da saúde pública e evitar as consequências negativas do controle excessivamente repressivo.
Cabe ressaltar a posição em uma convenção realizada sobre o uso de
substâncias ilícitas, da Organização das Nações Unidas:
Com a legitimidade conferida pela primeira premissa, o Estado deve agir em duas frentes: impedir a produção e o comércio dessas substâncias e reprimir seus consumidores. Com esse objetivo, a Convenção da ONU obriga os Estados a aplicar duras sanções penais aos produtores e vendedores dessas drogas, classificados, então, como traficantes. Para seus consumidores, as Convenções pregaram, inicialmente, a dissuasão via legislação penal. Nas últimas décadas, no entanto, a possibilidade de tratamento passou a ser considerada uma alternativa, desde que se inserisse num conjunto de sanções que deixasse clara a proibição da prática (FIORE, 2018, p. 07).
Portanto, como comenta Fiore (2018) o combate ao consumo de drogas vislumbra-se desafiador aos governos, verificando-se a necessidade de que as medidas tomadas para coibir e punir, não venham ser realizadas com sanções que possam ter resultados ainda mais nefastos, decorrentes de excesso de vigia e controle.
Nesse primeiro capítulo analisou-se brevemente os aspectos da história das
drogas, e a proibição do comércio e o uso de drogas no Brasil. A seguir, no capítulo
dois é analisado o consumo de drogas lícitas e ilícitas e os seus reflexos na saúde
pública, e os impactos da possível legalização frente a vulnerabilidade social e como
seria a regulamentação do comércio das drogas.
3 AS DROGAS LÍCITAS E ILÍCITAS, A SAÚDE PÚBLICA E OS IMPACTOS DA LEGALIZAÇÃO DO CONSUMO E A REGULAMENTAÇÃO DO COMÉRCIO DE DROGAS
Nessa segunda sessão aborda-se a questão do consumo tanto de drogas lícitas, quanto das ilícitas e a saúde pública, os impactos sociais da legalização frente a vulnerabilidade social e a regulação do comércio no caso de efetiva legalização das drogas.
3.1 O consumo de drogas lícitas e ou ilícitas e a saúde pública
A saúde pública do Brasil é notoriamente deficiente, não há estrutura suficiente para atender todas as demandas da sociedade. O álcool e o tabaco, drogas lícitas, são os principais causadores de doenças, que consequentemente criam uma demanda, inevitável para o sistema público de saúde. Quem trabalha na ponta do atendimento à saúde da população sabe que o tratamento oferecido aos dependentes é insuficiente e precário e que o grande problema que está relacionado ao consumo de tabaco e especialmente de álcool, que provoca acidentes de trânsito e de trabalho, relaciona-se a todo tipo de violência, em particular a doméstica, e abre as portas para o consumo das drogas ilícitas (BESSA, 2010).
Para Bessa, não é possível falar em legalização, ou descriminalização das drogas, sem antes falar em desenvolvimento da saúde pública:
Ao invés de se lutar por melhores condições de financiamento público para o SUS e para o tratamento dos pacientes dependentes químicos e de implementar efetivas políticas de prevenção ao consumo de todas as drogas, desvia-se o foco para um abrandamento das leis, como se hoje a maconha no Brasil não tivesse uma forma de consumo quase naturalizada em diversos ambientes como prisões ou praias, ruas, festas e outros ambientes jovens e, por incrível que pareça, em colégios e universidades (BESSA, 2010).
Ressalta Fiore (20018) que o consumo de drogas é danoso à saúde do usuário.
A ingestão de qualquer uma das drogas proscritas é fisiológica e mentalmente danosa.
Os danos fisiológicos podem acontecer em curto ou médio prazo. Em caso de
continuidade, o consumo dessas drogas desencadeia graves consequências, podendo levar, à morte, seja por deterioração da saúde geral, seja por intoxicação acidental (overdose). Não há padrão, quantidade ou nível seguro para o consumo dessas drogas, de acordo com o pensamento do autor:
Essas drogas provocam dependência. Por ser inicialmente prazeroso, seu consumo tem grande chance de levar seus consumidores à repetição ou à substituição por uma substância mais potente, numa escalada que culmina com a perda do autocontrole e da capacidade de livre escolha. A dependência dessas drogas, ainda que possa variar para cada indivíduo, é uma patologia associada aos seus efeitos neuroquímicos, o que acarreta uma perda gradual de outros interesses, uma busca incessante por novas doses e uma dolorosa síndrome de abstinência - grande sofrimento psíquico e/ou fisiológico pela suspensão do consumo. Além da dependência, elas potencializam outros transtornos mentais graves, como depressão, psicose e esquizofrenia.
Crianças e adolescentes são mais vulneráveis ao consumo dessas drogas, o que é especialmente grave na incompletude de sua formação intelectual (FIORE, 2018, 13).
As drogas psicoativas possuem elevado potencial de dano, que pode ser fisiológico ou mental, ou ambos. Também, uma parte significativa delas é altamente tóxica, ocasionando grande número de mortes acidentais todos os anos. Ainda, é importante destacar que às pessoas podem consumi-las de forma abusiva, esporadicamente, ou frequentemente, que pode levar a comportamentos perigosos e ainda a quadros graves de dependência. Dessa maneira, tanto as drogas psicoativas livremente adquiridas, bem como as controladas ou totalmente ilegais são perigosas (FIORE, 2018).
Nesse sentido, o governo e a sociedade brasileira passaram a preocupar-se em promover ações abrangentes e em elaborar propostas de prevenção e tratamento adequados, com ênfase na saúde pública (PEREIRA et al., 2018).
Diante do cenário de danos e considerando que o consumo dessas drogas é totalmente prescindível, tendo em vista que elas não têm aplicação médica, cabe ao Estado proibi-las. Para tanto, ele goza de legitimidade para perseguir e punir quem as produz, vende ou consome (FIORE, 2018).
Segundo Pereira (2008), as tentativas de exercer controle sobre o uso de drogas têm sua origem no desejo de proteger o bem-estar dos seres humanos. Nesse sentido, Pereira (2008) ressalta que:
Organismos internacionais, preocupados com o impacto das drogas sobre a saúde pública, recomendam a proibição do uso de algumas substâncias,
definindo medidas para eliminar sua produção, distribuição e consumo. O texto inicial do primeiro tratado de controle de drogas da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1961, demonstra a moralidade do discurso da época ao mencionar a preocupação com a saúde física e moral da humanidade (PEREIRA et al, 2018).
Segundo Marlatt (1999) nas áreas da saúde, assistência social, segurança e justiça três modelos ou abordagens podem ser referenciados aos usuários de drogas:
1º - Modelo moral e ou criminal no qual a utilização de algumas drogas é definido como ilícito, sendo passível de punição. Remete a políticas proibicionistas e redução da oferta, na ideia moral do prazer interligado ao pecado e a pessoa não sendo capaz de diferenciar o certo do errado, podendo ser submetida a medidas de suspensão de direitos individuais. Assim, têm-se a associação entre Justiça e Saúde, através de práticas como a Justiça Terapêutica e internações compulsórias determinadas por juízes, mas que estão previstas em Lei da Saúde, na lei 10.216 (BRASIL, 2001). Para tal modelo a única meta é a abstinência total.
2º - O modelo de doença, conforme Marlatt (1999), que apregoa ser a dependência de drogas como uma doença biológica que necessita tratamento e reabilitação. O foco está na pessoa e remete a uma abordagem de redução da demanda; seus dispositivos incluiriam as experiências de Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos e Modelo Minnesotta. Essa abordagem não se preocupam com um mundo livre de drogas, pois partem do princípio de que apenas algumas pessoas desenvolvem a dependência.
Mas, pode-se incorrer no risco de associação ao modelo moral, quando se refere ao sujeito da doença a ideia de incapacidade da razão em detrimento do prazer. A única meta aceitável a partir de tal concepção é a abstinência total, inclusive como condição para o tratamento, pois a pessoa necessita aceitar que tem uma doença incurável, progressiva e fatal e por isso não pode estar em contato com a substância à qual seria alérgico (BRASIL, 2019).
3º - O modelo da Redução de Danos compreendido como uma estratégia norteadora
do cuidado, um paradigma ético, clínico e político (BRASIL, 2019). Segundo Marlatt
(1999), a Redução de Danos parte de pressupostos filosóficos do Pragmatismo e dos
Direitos Humanos; rompe com a ideia de uso abusivo de drogas, afirma que o mesmo
pode ou não ser prejudicial. Torna-se uma estratégia também para indivíduos que não
desejam ou não conseguem diminuir e ou cessar o uso de drogas, bem como para os
demais usuários com dificuldade para acessar serviços de saúde ou aderir ao cuidado
integral à saúde. Tem como princípio o respeito à autonomia dos sujeitos na
perspectiva de um cuidado ampliado de saúde que se contrapõe às práticas de recolhimento dos usuários em abrigos ou para a internação compulsória. Marlatt (1999) aponta a Redução de Danos como uma alternativa da saúde pública aos modelos moral e ou criminal e de doença, que se sustentam em princípios e pressupostos diferenciados da Redução de Danos.
A ampliação e a reorientação de políticas públicas que priorizem acesso e tratamento no âmbito de uma rede de cuidado humanizada e intersetorial, com práticas orientadas por valores e princípios de participação, de intersetorialidade e de equidade, fundamentos do Sistema de Saúde Brasileiro e do movimento internacional da promoção da saúde (ALBUQUERQUE, 2016) mostram-se promissoras e vêm conquistando espaços no campo das drogas no Brasil.
Em relação ao impacto de uma possível legalização das drogas no Brasil sobre os gastos com saúde, pode-se dizer que tal impacto dependerá, fundamentalmente, do comportamento do consumo e do controle da qualidade do produto. Dessa maneira, caso haja um aumento de consumo, é provável o aumento das internações e, em decorrência, dos gastos com o tratamento dos dependentes de drogas. Por outro lado, alguns estudiosos defendem que o “efeito fruto-proibido”, que atrai pessoas a experimentarem drogas ilícitas, desaparece com a legalização, fator que pode reduzir o consumo. Com a legalização, a facilitação do acesso e a retirada do estigma de droga ilegal devem estimular o consumo de drogas, particularmente entre os jovens (TEIXEIRA, 2016).
3.2 Os impactos da legalização em relação a vulnerabilidade social
Para Bessa (2010), um argumento que é usado pelos defensores da legalização das drogas é o de que essas acompanham os homens desde os seus primórdios e que todas as sociedades sempre produzem algum tipo de substância para promover a alteração do estado de consciência da pessoa. Daí, concluem ser impensável uma sociedade sem drogas:
Esse é um bom argumento histórico. No entanto, é um argumento parcial. A questão a ser discutida não é a da existência de drogas em todas as sociedades, como se isso fosse suficiente para legitimá-las. Todas as sociedades também convivem com homicídios, estupros, violências, prostituição, pornografia, etc., nem por isso defende-se sua pura extinção por
decreto ou sua aceitação moral ou jurídica. Todos esses comportamentos sofrem algum tipo de ponderação, de controle e de punição (BESSA, 2010).
O consumo de drogas ocasiona, graves consequências sociais, entre elas o comportamento descontrolado e a deterioração dos laços sociais. Na medida em que seus efeitos suspendem o julgamento normal dos usuários, essas drogas levam a ações inconsequentes e, algumas vezes, violentas, agravadas pela incapacidade que muitos dependentes enfrentam para bancar a compra de novas doses (FIORE, 2018).
O mercado ilegal coloca o usuário, “consumidor”, em relação de desprestígio frente ao traficante, “comerciante”, visto que o primeiro não têm direitos iguais no que se refere à qualidade dos “produtos”. Outra dificuldade é que muitos dependentes ficam reféns de traficantes, uma vez que as dívidas das drogas, geralmente, são pagas com a própria vida (PEREIRA et al, 2018).
Destaca Bessa (2010), que os defensores confundem e o que se reveste de caráter humanístico e de suposto teor crítico é que, ao se legalizar o comércio das drogas, a população jovem e pobre não será mais vítima da guerra do tráfico. O que esse argumento esconde é que a simples legalização das drogas não modificará em nada as situações que fazem com que esses jovens tenham no tráfico, por vezes, a única opção de trabalho e de renda. Sem uma forte presença do Estado, investindo em saúde, educação, cultura. Destaca-se o pensamento de Bessa:
O que esse argumento esconde é que a simples legalização das drogas não alterará em nada as condições que fazem com que esses jovens tenham, no tráfico, muitas vezes, a única alternativa de trabalho e de renda. Sem uma forte presença do Estado, investindo em saúde, educação, cultura e ampliando um mercado de trabalho que ofereça boa remuneração e reais possibilidades de acesso aos bens materiais e simbólicos que a publicidade impõe como necessários à felicidade e à realização pessoal, esses jovens continuarão deserdados e buscando alternativas marginais de sobrevivência ou de ascensão social. Outras formas de criminalidade serão utilizadas para alcançar tais objetivos (BESSA, 2010, 77).
A legalização das drogas poderia auxiliar para o aumento da demanda de
dependentes nos serviços de saúde, visto que não mais se sentiriam marginalizados
e teriam a possibilidade de desfrutar de políticas públicas de atendimento. O maior
controle diante dos recursos provenientes da comercialização das drogas poderia ser
alcançado pelas autoridades governamentais, permitindo investi-los em medidas de
prevenção e tratamento. Porém, é ilusório pensar essa dinâmica em um país que tem
sistema de saúde precário, já que é difícil conceber que os recursos provenientes de impostos arrecadados com a legalização das drogas pudessem ser direcionados para a saúde, e mais ainda para tratar dependentes químicos, que a sociedade cria e ao mesmo tempo discrimina (PEREIRA et al, 2018).
Outra preocupação é que a legalização das drogas pode mascarar problemas sociais já existentes no Brasil, como as situações que fazem com que os jovens tenham, no tráfico, a única opção de trabalho e de renda. Não se pode comparar a realidade brasileira com a de países desenvolvidos, que adotam posturas consideradas mais liberais, já que nestes contextos a realidade social é diferenciada e os cidadãos contam com níveis de instrução mais elevados, condições de trabalho diferenciadas, entre outras garantias sociais. Sendo assim, mesmo diante da crise de desemprego nos países europeus, as condições de moradia, alimentação, transporte e oportunidade de lazer são mais amplas que o Brasil (PEREIRA et al, 2018).
3.3 O possível comércio de drogas regulamentado
No âmbito macroeconômico, o mercado de drogas pode atingir diferenciadas proporções para cada país, podendo impactar no Produto Interno Bruto (PIB) ou na taxa de câmbio, dadas as dimensões do tráfico internacional (SALAMA, 2000).
Ainda, de maneira semelhante, algumas especificidades microeconômicas podem ser indicadas no comércio de drogas, respondendo a muitos questionamentos sobre a inovação dessa indústria, a estrutura do mercado, as maneiras de comercialização, a formação de preço, o comportamento do consumidor, entre tantas outras (ZALUAR, 2004; SOUZA, 2011).
É a partir dos insumos ilícitos, que acontece a produção das drogas ilegais, que
são destinadas aos narcotraficantes internacionais ou aos locais de venda por atacado
e, na sequência, ao varejo. Nessas fases, a mercadoria é na grande maioria das vezes
adulterada, inclusive, por substâncias que podem ser mais tóxicas que a própria
droga. Ainda, por se tratar de um mercado ilegal, nenhum produto é padronizado ou
fiscalizado, nenhum imposto é recolhido e quase nenhum trabalhador é formalizado
(excetuando-se aqueles contratados por empresas de “fachada”). Em vários casos,
há envolvimento de crianças no negócio, já que esta é uma mão de obra barata e
estratégica. No Brasil, por exemplo, muitas crianças são contratadas por traficantes
para transportar drogas na favela. São conhecidos como “vaporzinhos”, esses jovens ingressam prematuramente na criminalidade (ZALUAR, 2004; SOUZA, 2011).
Ainda, para a realização da cadeia produtiva das drogas ilegais, em todas as fases encontram-se gastos e ganhos com corrupção. O pagamento de propinas e de subornos é uma prática comum no mercado negro, já que a atuação do Estado, por meio de agentes que objetivam a repressão do narcotráfico, é corrompida com pagamentos aos agentes estatais, de modo que Estado e crime organizado agem por cooperação mútua (OLIVEIRA, 2008).
E por fim, a lavagem de dinheiro é uma prática usada para formalizar os ganhos do negócio ilegal. Em outras palavras, “limpa-se” um dinheiro “sujo” associando-o com outros negócios formais. Dessa maneira, o investimento em boates, bares e outros estabelecimentos comerciais caracterizam lavagens de dinheiro “rudimentares”;
enquanto empresas de consultoria e aplicações financeiras resultam em lavagem de dinheiro mais especializada, já que nessas atividades é mais difícil de constatar a origem ilegal dos rendimentos (SOUZA, 2011).
Em artigo, Laranjeira (2010) questiona um ponto bastante relevante, que é a ausência de uma proposta ou indicação de quem produziria e comercializaria as drogas, caso elas fossem legalizadas. O Estado? A importação seria permitida ou a produção nacional, incentivada? A publicidade seria regulamentada ou seria liberada da forma selvagem como é hoje a propaganda de cerveja? Elas poderiam ser consumidas em qualquer ambiente ou haveria a criação de ambientes exclusivos e seguros? As crianças e os jovens teriam acesso ou seriam proibidos de consumi-las?
O Estado tem meios de fazer essa fiscalização e esse controle (o exemplo do tabaco e da cerveja hoje mostra que não)?
Ressalta-se que os custos, tanto sociais quanto econômicos e emocionais, das
drogas só aumentam, de maneira que existe a tendência de procurar soluções como
a legalização. Mesmo que se acredite que retirando o lucro dos traficantes a
quantidade de crimes associados a utilização de drogas diminua, e que, tornando as
drogas disponíveis legalmente haja benefícios para a saúde pública – como, por
exemplo, a prevenção de doenças, a partir da disponibilidade de droga de maior
qualidade e de seringas e agulhas estéreis –, ainda não está claro como seria a
operacionalização desse processo, dificultando o entendimento sobre o assunto
(PEREIRA et al, 2018).
Em diversos países, a exemplo da Espanha, Portugal, Itália, Argentina, México e Colômbia, a legalização das drogas já é realidade, apresentando resultados positivos em praticamente todas as nações que a adotaram. Defender a legalização da produção e comercialização não significa fazer apologia ao uso de drogas. Ao contrário, pode funcionar como prática de combate e conscientização, vez que, desta forma, todo o dinheiro investido para manter a proibição poderia ser revertido no financiamento de campanhas educativas (PEREIRA et al, 2018).
A transformação das drogas em mercadorias - produto com valor de uso com elevado valor de troca - inicia-se no período mercantilista; por exemplo, o vinho e outras bebidas, ou o tabaco comercializado nas colônias americanas para a Europa, ou por outras metrópoles com suas respectivas colônias (BESSA, 2010).
Ademais, se identifica contradição na proposição de legalizar o uso de drogas e criminalizar a venda, pois se o uso for descriminalizado deve-se liberar e, principalmente, controlar o mercado de produção e venda. E, se o Estado brasileiro se tornar um vendedor, como proposto pelo Uruguai, também seria contraditório, pois estaria comercializando um produto considerado ilegal. A ausência de clareza sobre quem vai produzir e comercializar as drogas, caso fossem legalizadas, soma-se à incerteza sobre o interesse do crime organizado tornar-se empresa com responsabilidades legais (PEREIRA et al, 2018).
Explicam Valois e Almeida (2019) que do ponto de vista teórico, não se tem dúvidas de que o modelo alternativo mais humano, racional, ponderado e adequado é o da legalização controlada, tendo como base fórmula apresentada por Francis Cabalero e Yann Bisiou (2000), mesmo com a possível existência de eventuais dificuldades práticas de implementação de uma proposta como essa.
Segundo Valois e Almeida (2019), considera-se que a legalização controlada, como sustentada por Francis Caballero e defendida em termos gerais por Nils Christie (2019) não é uma utopia, e que tem sim condições de ser pensada como uma política a ser aplicada a longo prazo, por várias razões, mas particularmente pela sua visão pragmática, humana e coerente com uma perspectiva garantista, que limita o direito penal a uma intervenção mínima.
Acreditam Valois e Almeida (2019) que distante de ser uma ilusão, há que se
pensar em modelos que possam ser concretamente aplicados, tendo em vista que a
superação do modelo proibicionista dependerá da aplicabilidade de possíveis
alternativas. Em primeiro lugar, compreende-se que talvez o próprio funcionamento
do sistema capitalista atual consiga auxiliar para essa modificação pela característica especial da mercadoria a droga – e seu valor econômico. Na verdade, já existe uma grande movimentação mundial em favor da legalização de drogas, principalmente da cannabis, encabeçadas por ONG’s que defendem o fim da guerra às drogas. Algumas dessas organizações são financiadas por grandes empresas, que já notaram o potencial dos lucros de um mercado lícito de drogas. Caso isso ocorra, é fundamental a realização de projeto de um modelo de legalização controlada capaz de proteger o consumidor, que permita garantir o necessário investimento em saúde pública e prevenção.
Para Valois e Almeida (2019), o aumento da importância estratégica da Europa na política internacional, com o alargamento de suas fronteiras, um aspecto a ser considerado. Tendo em vista que, a política europeia moderada tem como carro-chefe o sucesso das políticas de redução de danos, que em breve, almeja-se, que conseguirão ultrapassar as barreiras proibicionistas. Ainda, verifica-se que a posição dos Estados Unidos contrária à redução de danos tem chances de se tornar minoritária, com tendência a ficar no isolamento, como acontece desde 1998, quando foi sentida a pressão dos órgãos de saúde pública da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos países europeus. Ao mesmo tempo, percebe-se o fortalecimento de novas lideranças na América Latina - não alinhadas com Washington -, e com forte apoio popular para resistir às pressões norte-americanas. Reconhece-se, por outro lado, que não há a menor condição de um país conseguir individualmente alterar o sistema proibicionista em vigor, nem se deve subestimar a força moralista norte- americana. Ainda, uma eventual alteração de rumos e decisões das Nações Unidas, e o reconhecimento oficial, mesmo que parcial, do fracasso do modelo atual, pode levar a uma flexibilização que libere os países para refletirem sobre uma política de drogas mais adequada à sua realidade.
Afirmam Valois e Almeida (2019) que são conjunturas ainda distantes, meras
especulações. E que é fundamental reconhecer a situação atual do Brasil como
insustentável, que aponta para o agravamento dos efeitos perversos do modelo
proibicionista nos países em desenvolvimento. O impacto do proibicionismo sobre o
sistema penal e a sociedade foi avaliado pelo confronto da realidade social com a
atuação do controle penal em relação aos fins declarados, que fundamentam a
proibição – a proteção à saúde pública – e às metas propostas – ideal de abstinência
–, bem como aos meios utilizados para alcançar esse fim, que é o direito penal. Apesar
de as investigações no campo da droga ainda estarem longe de serem conclusivas quanto aos riscos e benefícios das substâncias hoje proibidas, se constatou o fracasso absoluto desse modelo de controle penal. Sob o ponto de vista dos países desenvolvidos como a Holanda e Portugal, o saldo de quase cem anos de proibicionismo pode ser resumido nos aspectos de que a oferta de drogas não foi reduzida, o consumo aumentou, a situação da saúde pública agravou-se, o sistema prisional está superlotado e próximo à falência, aumentou a corrupção, e os grandes traficantes continuam soltos; os lucros nunca foram tão altos, e a circulação de dinheiro sujo não diminuiu; novas drogas estão disponíveis nos mercados, as drogas naturais foram geneticamente modificadas e estão cada vez mais potentes.
No Brasil, a espiral de crescimento da violência está relacionada com o aumento da repressão ao tráfico de drogas, e à alta lucratividade do comércio ilícito.
Nos países em desenvolvimento, onde o mercado ilícito é marcado pela violência e pela exclusão social em níveis alarmantes, os efeitos perversos são ainda mais visíveis, como as prisões estão cheias de dependentes de drogas que se transformam em criminosos para sustentar seu vício, e a violência na resolução dos conflitos ligados ao tráfico é generalizada. A conclusão a que se chegou é no sentido de que o proibicionismo acarreta maiores danos à sociedade e à saúde pública do que protege esses mesmos fins, razão pela qual defende-se deva ser substituído por um modelo alternativo mais tolerante e humanitário (VALOIS, ALMEIDA, 2019).
Destacam Valois e Almeida (2019) que a proposta de legalização controlada se fundamenta no ideal de moderação como meta e tem por objetivo controlar o abuso das drogas, ao propor a legalização do comércio e da venda de parte das substâncias hoje ilícitas mediante o controle sanitário pelo Estado, servindo os tributos decorrentes da venda dos produtos para financiar a prevenção e a informação aos usuários, e os custos das estratégias de redução de danos como forma de reduzir os riscos do abuso de drogas. Mesmo que a proposta de legalização controlada deva ser discutida, aperfeiçoada e trabalhada quanto à maneira concreta de sua aplicação, e das dificuldades de qualquer mudança, pelas sensíveis questões que o tema abrange, não há dúvidas de que esta pode ser a melhor das opções, ainda que necessite ser adaptada à realidade socioeconômica local.
O assunto da superação do modelo proibicionista continuará a despertar
controvérsias a nível internacional, tendo em vista que pressupõe a mudança das
convenções internacionais, e sempre encontrará a oposição dos Estados Unidos,
tornando essa tarefa árdua. Apesar de tudo espera-se que o fortalecimento da União Europeia na esfera internacional permita ao menos uma atenuação do modelo atual, a médio prazo e sua superação no longo prazo. Muito embora nenhum sistema de controle de drogas esteja imune a críticas, o mais adequado deverá adotar o respeito a princípios e garantias individuais como base, e ter a melhoria do bem-estar das pessoas como meta, assim como sustentar um enfoque preventivo preponderante. A legalização controlada parece ter as melhores condições de sucesso, na superação da perspectiva proibicionista-militarista vigente (VALOIS e ALMEIDA, 2019).
3.4 Análise acerca do aumento e ou diminuição do consumo e da criminalidade pós legalização
Conforme Pelli (2019), que os indivíduos sempre irão utilizar substâncias psicoativas, independentemente de serem liberadas ou não. Dessa maneira, a sua opinião é que em vez de proibir, deve-se tentar “reduzir riscos”. Exemplifica com o álcool, que é uma droga e seu uso abusivo faz mal, mas, hoje, há uma regulação e são raros os comerciantes que vendem bebidas para crianças e adolescentes, principalmente para serem consumidos em seus estabelecimentos. Porém, qualquer criança ou adolescente pode comprar droga com um traficante, tendo em vista, que a sua venda não é regulada, argumentando, mas, é fato a ser analisado de que a descriminalização do uso pode acarretar o acesso de um número maior de pessoas a determinadas drogas, é preciso que haja uma política integrada para diminuir a demanda.
Segundo Carneiro (2019) além da legalização de todas as drogas, ele apoia o controle estatal da produção e do comércio. O conjunto das drogas legalizadas acabaria com os efeitos nefastos do chamado narcotráfico, encerraria a guerra contra as drogas, libertaria os prisioneiros dessa guerra, por volta de metade da população carcerária tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Reduzir-se-iam os danos sociais dos usos problemáticos de drogas.
Entretanto, os argumentos a favor da legalização – que consideram os
benefícios à saúde pública – têm apelo superficial, pois quando analisados
detalhadamente não se sustentam, tendo em vista que a ação direta das substâncias
psicoativas, sobretudo àquelas de maior potencial para causar dependência, a
exemplo do crack, por acionar circuitos neurais reforçadores, aumenta a probabilidade de serem novamente utilizadas (PEREIRA et al, 2018).
Quando se pensa em legalizar o uso de drogas, as três principais razões que o justificam são: os direitos humanos, porque a pessoa tem o direito e deve ser capaz de tomar decisões referentes à sua própria vida; a violência, que se acredita que diminuiria, assim como ocorreu com a Holanda e Portugal; e a restrição do acesso às drogas por parte dos jovens, pois o comércio seria regulamentado pelo governo, que vetaria sua venda para menores de 18 anos 20, a exemplo do álcool e do tabaco (PEREIRA et al, 2018).
O modelo alternativo mais humano, racional, ponderado e apropriado é o da legalização controlada, que vem sendo experimentado em países desenvolvidos, por exemplo, Holanda, Suíça, Canadá, Portugal e o recente Uruguai, na América Latina.
O que leva a afirmar que, deve-se pensar, fundamentalmente, em investimentos na educação de cidadãos conscientes do seu papel na sociedade, implementados por meio de medidas educativas integradas nas diversas áreas do saber, possibilitando a formação de jovens capazes de compreenderem as consequências do uso indiscriminado de drogas (PEREIRA et al, 2018).
Para Laranjeira (2019) é provável que com a legalização das drogas, por um lado, haveria a redução do número de crimes mais violentos, mas por outro lado a população mais jovem enfrentaria mais complicações na escola. Além disso, talvez houvesse um aumento do número de pequenos delitos destinados à obtenção de dinheiro para o consumo da droga.
Ressalta Laranjeira (2019) que a grande dificuldade para responder o quanto
as leis impossibilitam o consumo de drogas é que não existem muitos dados sobre as
drogas que sempre foram ilegais. Explica Laranjeira (2019) que em um estudo recente
(Drugs and the Law: A Psychological Analysis of Drug Prohibition), de Robert
MacCoun, que analisou a escassa literatura existente, buscou mapear o efeito das leis
sobre comportamentos antissociais. No estudo foi evidenciado que as leis e os
controles sociais informais conteriam o consumo de drogas através de diversos
mecanismos (disponibilidade da droga, estigmatização do uso, medo de atividades
ilegais, o efeito “fruto proibido” e um efeito simbólico geral da proibição). A abolição
das leis proibindo o consumo teria um efeito dramático em diversos aspectos
(estigmatização do uso, medo de atividades ilegais, o efeito “fruto proibido”, e efeito
simbólico geral da proibição), diminuindo uma série de impedimentos para o consumo.
O fundamental no estudo é que as evidências mostram que a abolição das leis teria um efeito maior nos indivíduos que comumente não consomem drogas, potencialmente levando um maior número de indivíduos a experimentar e a se tornar usuário, regular ou esporádico. Ainda, os estudos mostraram que quanto maior o envolvimento com drogas, menor seria o impacto das leis em deter o consumo. No entanto, a lei serve para impedir um número substancial de indivíduos de fazer uso de drogas. Também, esclarece o estudo que qualquer efeito drástico no status legal de uma droga é desaconselhável, tendo em vista, que as consequências são literalmente imprevisíveis, com uma nítida tendência a um aumento do consumo devido à falta de controles sociais assegurados pela legislação.
O desafio do debate das drogas no Brasil não é a questão se deve-se afrouxar as leis que regulam a produção e o consumo da maconha, mas como promover um debate fundamentado em informações e dados e produzir uma política de drogas racional e balanceada, que possa ser avaliada constantemente. A implementação dessa política não acontece espontaneamente, mas com uma ação determinada de governo (LARANJEIRA, 2019).
Segundo Laranjeira (2019) a tese argumentativa de que a proibição total causaria mais danos do que a legalização total da droga, é falha, esse tipo de argumento é não leva em consideração que a legalização de uma droga produz um aumento da oferta e, assim sendo, exporia um número maior de pessoas ao consumo e às suas complicações. Destaca-se nesse aspecto, o comportamento individual do uso de drogas e não se leva em consideração o nível agregado de danos. Por exemplo, caso fosse legalizado a comercialização das drogas, uma das consequências seria o aumento do seu consumo global e, também a elevação do consumo se concentraria na população mais jovem, tal qual acontece com as drogas lícitas, como o álcool e o cigarro.
Afirma Laranjeira (2019) que a argumentação sobre à diminuição dos crimes
não é sustentável, para os defensores da legalização, mesmo quando são
apresentados os eventuais benefícios decorrentes do aumento da arrecadação do
governo com os impostos sobre a venda das drogas, que poderiam ser revertidos para
a sociedade na forma de tratamento ou prevenção. Essa análise de custo e benefício
ignora pelo menos dois fatores. Primeiro, subestima o custo da dependência para as
pessoas e suas famílias, que além do fator financeiro, deve levar em consideração o
incomensurável sofrimento a que o usuário e diversos indivíduos ao seu redor são
submetidos. Em segundo lugar, a teoria de que a legalização diminuiria o crime não foi discutida com o necessário cuidado. A menos que as drogas fossem fornecidas de graça, os usuários teriam pagar por ela. Como a grande parte dos dependentes de drogas não tem emprego fixo e estável, há razão para acreditar que muitos deles continuariam roubando para sustentar o consumo. Ainda, muitos criminosos iniciaram a sua carreira no crime muito antes de utilizarem qualquer droga. É muito improvável que uma suposta fonte legal de suprimento, eventualmente coordenada pelo governo, mude os determinantes comportamentais e sociais dos indivíduos envolvidas no crime. Dessa maneira, qualquer análise de custo e benefício é complexa, tendo em vista, que os custos são de difícil dimensionamento e os benefícios muito discutíveis.
Mesmo que o custo e benefício pudesse ser demonstrado, ainda haveria uma última barreira, que é de que ninguém até hoje apresentou um plano operacional de legalização das drogas. Os que defendem a legalização não apresentaram esse plano.
Neste capítulo analisou-se o consumo de drogas lícitas, e ilícitas e a relação estabelecida com a saúde pública, sendo destacado que a criminalização não tem apresentado resultados eficazes, porém a legalização deve ser amplamente discutida, para evitar que torne-se o uso das drogas, mais um problema para o Estado, do que tem causado a proibição. Abordou-se também os impactos sociais da legalização frente a vulnerabilidade social, que vislumbra-se um grande risco, e no caso de legalização deve haver um plano de educação para que os usuários tenham plena consciência dos males que causam a saúde física, e mental, e por fim aspectos de uma possível regulação do comércio, constatando-se que as regras devem ser legisladas pelo Estado. Também, demonstrou-se que caso as drogas fossem legalizadas não há um indicativo palpável que houvesse a diminuição do consumo, acredita-se que a exemplo do tabaco e do álcool, a tendência seria de controle, em relação a criminalidade pode ser que diminuísse os crimes mais gravosos, que hoje envolvem o tráfico e a corrupção de quem atua nesse ilícito.
No capítulo três a seguir apresenta-se considerações sobre os impactos
jurídicos penais da legalização, com o desencarceramento dos traficantes, e o
desmantelamento do segmento de tráfico de drogas.
4 OS IMPACTOS JURÍDICOS PENAIS PÓS LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS- O DESENCARCERAMENTO DE TRAFICANTES - DO TRÁFICO PARA O CONTRABANDO DE DROGAS
Nesse terceiro capítulo são apresentadas as considerações sobre os impactos jurídicos que podem ocorrer, em caso de legalização das drogas. Nesse sentido, analisa-se o desencarceramento de traficantes, bem como a possibilidade de que em substituição ao tráfico, possa haver o contrabando de drogas.
4.1 Os impactos jurídicos penais pós legalização
Refletindo sobre a legalização de drogas no Brasil, é ingênuo polarizar o debate entre legalizar ou proibir, tendo em vista que o país apresenta desigualdades sociais, com grande diversidade cultural, o que requer abordagem contextualizada e assimétrica, para se pensar políticas públicas justas e equânimes (PEREIRA et al, 2018).
As deficiências do Estado auxiliam, para facilitar a produção e o comércio dessas substâncias, quando não os estimulam, pois há pouco controle sobre a lavagem de dinheiro, aos produtos usados no refino da cocaína e sobre a origem do dinheiro que movimenta o mercado financeiro. Essa ausência ou deficiência de medidas de controle afeta de maneira negativa a saúde pública, sendo que é incerto o repasse das sanções legais das drogas à saúde pública, caso sejam legalizadas (PEREIRA et al, 2018).
Nesse sentido, não se pode desconsiderar a relação direta entre drogas ilícitas e aumento de crimes e violência, tendo em vista que os cartéis do narcotráfico enfraquecem atividades de combate dos governos e corrompem ações empresariais legais. Em alguns países, mais da metade dos roubos são cometidos por dependentes químicos para sustentar seus hábitos, sendo que os recursos que as vendas de drogas ilícitas geram financiam conflitos armados (PEREIRA et al, 2018).
Para Teixeira (2016), acredita-se que a legalização das drogas, no curto e
médio prazos, não deve produzir impacto sobre os gastos com processos criminais
de tráfico e posse de drogas. Grande parte de todos os gastos do Judiciário encontra- se vinculada com as despesas com pessoal e, dessa maneira, não varia em razão do número de processos. Tais gastos são praticamente fixos, tendo em vista que quase 70% da força de trabalho do Poder Judiciário é composta de magistrados e servidores efetivos, que de acordo com o art. 41 da Constituição Federal, não podem ser demitidos sem processo administrativo ou judicial. No ano de 2014, as despesas com pessoal do Poder Judiciário representaram R$ 61 bilhões ou 89,5% do total de despesa do Poder Judiciário, conforme o Relatório Justiça em Números 2015.
Ainda, salienta-se que o impacto da legalização das drogas sobre as demais movimentações processuais do Poder Judiciário, devem ser levadas em consideração. No ano de 2014, a taxa de congestionamento da Justiça - indicador que compara o número de processos que não foram baixados com o número que tramitou durante o ano-base (soma dos casos novos e dos casos pendentes iniciais) – foi, na Justiça Estadual, de 76%, no 1º Grau, e de 47%, no segundo Grau, ao passo que, na Justiça Federal, foi de 71% e 68%, respectivamente. Assim, a redução do número de processos criminais, como resultado da legalização das drogas, poderá reduzir essas taxas e, em decorrência, aumentar a eficiência da Justiça. Dessa maneira há possibilidade de priorizar temas de maior relevância processual criminal (TEIXEIRA, 2016).
Segundo Pereira (2019) os primeiros reflexos na sociedade e em nosso ordenamento jurídico dessa liberação da utilização, seriam na área penal, a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, no título “Dos Direitos E Garantias Fundamentais” no capítulo “Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos” afirma em seu inciso XL que: “[...] a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu"(BRASIL, 2019).
Explica Pereira (2019) que o ordenamento jurídico brasileiro defende o princípio conhecido como in dúbio pro reo. O Código Penal brasileiro trata deste assunto em seu artigo 2º, Redação dada pela Lei nº 7.209:
Lei penal no tempo
Artigo 2º - Ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória.
Parágrafo único - A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos interiores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado (BRASIL, 2019).