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Tradução: o albergue do longínquo

Autor(es): Furlan, Mauri; Althoff, Gustavo

Publicado por: Universidade Federal de Santa Catarina URL

persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/26122 Accessed : 22-Apr-2021 14:37:35

digitalis.uc.pt impactum.uc.pt

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Scientia Traductionis, n.13, 2013

http://dx.doi.org/10.5007/1980-4237.2013n13p1

Tradução: o albergue do longínquo

Translation: a shelter for the far-away

O famoso seminário proferido pelo teórico da tradução francês Antoine Berman (1942-1991), em Paris, em 1984, recebeu como título

La traduction et la lettre ou l’auberge du lointain [A tradução e

a letra ou o albergue do longínquo] (1985/1999[2012]), em que seu au-tor alude a uma expressão (alberc

de lonh) do trovador occitano

Jau-fré Rudel (1113-1170) – que canta-va um amor distante e impossível, e de quem conta a lenda que, depois de uma vida de solidão e sofrimen-to, conseguiu morrer no aconchego dos braços da amada. O título de Berman sumariza sua concepção de tradução como acolhida da ‘letra’ estrangeira na língua materna, tra-dução como albergue, como lugar de abrigo ao forasteiro, que o faz sentir-se em casa sendo estrangeiro, lugar ao mesmo tempo próximo e distante. A tradução da ‘letra’ con-sidera importante o buscar-e-encon-trar também o não-normatizado da língua de chegada para introduzir aí a língua estrangeira e seu dizer, porque aí, paradoxalmente, é onde ela aceita o Outro, pois, na sua ma-ternalidade, se permite ser o “alber-gue do longínquo”.

In the title of the famous seminar given by French translation theorist Antoine Berman (1942-1991) in Paris, in 1984, La

traduc-tion et la lettre ou l’auberge du lointain (1985), he alludes to the

expression “alberc de lonh” coined by Occitan troubadour Jaufré Rudel (1113-1170) – who sang of a dis-tant and impossible love; and who, as fable has it, after a lifetime of loneliness and sorrow, was finally able to pass away cradled in the arms of his beloved. The title of Berman’s seminar summarizes his conception of translation as the ac-ceptance of the foreign ‘letter’ in one’s native tongue, translation as shelter, as a refuge for the stranger, a place that makes one feel at home even though he or she is a for-eigner, a place near and far-away at the same time. In translating the ‘letter’, it is important to seek and find what is not normalized in the target language so that the foreign language and its expression are therein introduced. It is there, para-doxically, where the mother tongue accepts the Other, since it is in its motherliness that it can be “a

shel-ter for the far-away”.

A referência à expressão tro-vadoresca hoje, nesta edição de n. 13 de Scientia Traductionis, home-nageia tanto Rudel e Berman, como todos os autores presentes neste número misto, que se afiguram pe-regrinos de distintos cantos, tempos e visões, do Brasil à China, de Pla-tão a Agamben, de concepções e práticas variadas ou mesmo opos-tas.

The reference to the trouba-dour expression in this 13th issue of

Scientia Traductionis pays homage

to both Rudel and Berman, as well as to all the authors published herein, pilgrims from different cor-ners, times, and with different points of view, from Brazil to China, from Plato to Agamben, ad-vocates of different or even oppo-site conceptions and practices.

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Editorial

Scientia Traductionis, n.13, 2013

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Na seção textos traduzidos, temos o prazer de apresentar, em formato sinótico, a primeira tradu-ção ao português brasileiro, acom-panhada de correspondentes ao in-glês e francês, do já clássico texto de José Ortega y Gasset, Miseria y

esplendor de la traducción (1937).

O pensador espanhol, que preferia as “feias fieis” às “belas infiéis”, é seguido por Règles de la traduction

françoise (1650), de Antoine le

Maistre, um dos representantes das

belles infidèles, e por um artigo do

romeno Basil Munteano, quem buscou elucidar a concepção de tradução de Le Maistre e dos inte-lectuais de Port-Royal. Completan-do o cenário, esta seção oferece a-inda um texto de Inês Oseki-Dépré,

Théories et pratiques de la traduc-tion littéraire en France, um

pano-rama histórico do pensamento que guiou a tradução literária na França do século XVI até o século XX.

In the translated texts sec-tion, we are pleased to provide our readers with the first translation into Brazilian Portuguese of the now classic essay by José Ortega y Gasset, Miseria y esplendor de la

traducción (1937), presented in

synoptic form alongside transla-tions of it into English and French. The essay by the Spanish thinker who preferred the “ugly faithful” to the “beautiful unfaithful” is fol-lowed by Règles de la traduction

françoise (1650) by Antoine le

Ma-istre, one of the advocates of the

belles infidèles, and by an article

written by Romanian author Basil Munteano, who has attempted to clarify Le Maistre’s conceptualiza-tion of translaconceptualiza-tion as well as that of the intellectuals of Port-Royal. An article by Inês Oseki-Dépré,

Théories et pratiques de la traduc-tion littéraire en France, rounds off

this section by providing a histori-cal panorama of the thoughts that guided literary translation in France from the 16th to the 20th century. A seção de artigos traz um

estudo de Pilar Ordóñez López so-bre a recepção da concepção orte-guiana da tradução no mundo his-pânico, contribuindo aqui para a a-presentação do texto de Ortega y Gasset no Brasil. Também conta-mos com dois textos que expõem visões algo distintas sobre a tradu-ção em Jorge Luis Borges; tradutradu-ção e autoria em Barthes, Foucault e Agamben; e a tradução de variantes orais do inglês ao português do Brasil.

In the articles section, there is a study by Pilar Ordóñez López on the reception of Ortega y Gas-set’s conception of translation in the Hispanic world, which shall contribute to the introduction of Gasset’s essay to the Brazilian pub-lic. This section also features two essays that provide somewhat dif-ferent perspectives on translation in Jorge Luis Borges’ thought; transla-tion and authorship in Barthes, Foucault and Agamben; and a study of the translation of English vari-ants in oral discourse into Brazilian Portuguese.

Dois dossiês também com-põem esta edição de Scientia

Tra-ductionis. O primeiro, A quadratu-ra do círculo: tquadratu-radução da (e paquadratu-ra a) poesia chinesa, organizado por

Two dossiers also make up this issue of Scientia Traductionis. The first one, A quadratura do

cír-culo: tradução da (e para a) poesia chinesa [The quadrature of the

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Cir-Editorial

Scientia Traductionis, n.13, 2013

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Raquel Abi-Sâmara, aborda um te-ma ainda pouco debatido no Brasil. São cinco textos instigantes, com variedade de opiniões e posições sobre a tradução de poesia entre línguas ocidentais, com destaque para o português, e o chinês. O se-gundo dossiê, Em torno da

(re)tradução dos clássicos,

organi-zado por Mauri Furlan, reúne arti-gos que trazem reflexões sobre: um novo paradigma para a tradução; formas artísticas para a tradução de textos clássicos; interpretação e tra-dução; e problemas concernentes à publicação dos clássicos.

cle: translating poetry from (and into) Chinese], guest-edited by Raquel Abi-Sâmara, addresses a topic which is still not very much discussed in Brazil. The first dos-sier offers five provocative texts diverse in their opinions and posi-tions on the translation of poetry between Chinese and the Western languages, most particularly Portu-guese. The second dossier, Em

torno da (re)tradução dos clássicos

[On the (re)translation of the clas-sics], edited by Mauri Furlan, fea-tures articles on: a new paradigm for the translation of the classics; artistic forms in the translation of such texts; interpretation and trans-lation; and issues related to the pub-lication of classical texts.

Por fim, na seção outros tex-tos, uma entrevista com o tradutor literário Marcus Tulius Franco Mo-rais, em que se desvela seu “projeto editorial de tradução” de obras de autores emudecidos pelo Nacional-Socialismo alemão na década de 1930. A entrevista é acompanhada de sua tradução do conto “Mov”, de Hans Henny Jahnn; segue-a uma tradução comentada do próprio Mo-rais de um poema de Gertrud Kol-mar.

Finally, in the other texts section, there is an interview with literary translator Marcus Tulius Franco Morais. Here his “editorial translation project” which focuses on authors silenced by German Na-tional Socialism in the 1930s is laid bare. The interview comes with his translation of the short-story ‘Mov’ by Hans Henny Jahnn and is fol-lowed by his own translation with commentaries of a poem by Ger-trud Kolmar. Boas leituras! Mauri Furlan Gustavo Althoff Florianópolis/SC, jul 2013 Happy Reading! Mauri Furlan Gustavo Althoff Florianópolis/SC, July 2013

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Editorial

Scientia Traductionis, n.13, 2013

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Be.m parra joys quan li querrai, per amor Dieu, l'alberc de lonh; e s'a lieys platz, albergarai pres de lieys, si be.m de lonh: adoncs parra.l parlamen fis, quan drutz lonhdas er tan vezis qu'ab bels digz jauzira solatz.

Jaufré Rudel

Lanqan li jorn son long en mai1

1 Uma tradução do sentido: Grande me será a alegria quando eu lhe pedir / que, por amor a Deus, albergue o longínquo; / e se lhe aprouver, albergarei / perto dela, mesmo sendo eu do longínquo: / então será nosso colóquio íntimo, / quando o amante distante estiver tão perto / que se deleitará com belas palavras. In: Quando os dias são longos em maio.

Referências

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