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LUANNE NOVAIS SEVERIANO DOS SANTOS FEMINICÍDIO: A EFETIVIDADE NA DEFESA DA MULHER EM FACE DA VIOLÊNCIA

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Academic year: 2021

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LUANNE NOVAIS SEVERIANO DOS SANTOS

FEMINICÍDIO: A EFETIVIDADE NA DEFESA DA MULHER EM FACE

DA VIOLÊNCIA

CENTRO UNIVERSITÁRIO TOLEDO ARAÇATUBA

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LUANNE NOVAIS SEVERIANO DOS SANTOS

FEMINICÍDIO: A EFETIVIDADE NA DEFESA DA MULHER EM FACE

DA VIOLÊNCIA

Trabalho de conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito à Banca Examinadora do Centro Universitário Toledo, sob orientação do Mestre e Prof. Jefferson Jorge.

CENTRO UNIVERSITÁRIO TOLEDO ARAÇATUBA

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Luanne Novais Severiano dos Santos

FEMENICÍDIO: A EFETIVIDADE NA DEFESA DA MULHER

EM FACE DA VIOLÊNCIA

Trabalho de conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito à Banca Examinadora do Centro Universitário Toledo, sob orientação do Mestre e Prof. Jefferson Jorge.

Aprovado em ____de ______________de ______

BANCA EXAMINADORA

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A todas as mulheres que perderam o brilho no olhar e o sorriso sincero. Dedico este trabalho a todas mulheres vítimas de violência.

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Primordialmente, agradeço à Deus pelo dom da vida, por toda sabedoria, discernimento, fé e perseverança na realização deste trabalho. Agradeço a Nossa Senhora Aparecida por passar à frente de tudo, sempre me acolhendo nos momentos de desespero.

Aos meus pais, em especial à minha mãe Sonia, por ser a minha inspiração, o meu porto segu-ro, por ser guerreira, batalhadora e não ter medido esforços durante minha formação acadêmi-ca, por desde sempre ter salientado o valor de um aprendizado, por ter tido muita paciência em meus momentos dominados pelo o estresse, por ter me incentivado nos momentos de fra-queza, por ter me dado colo e amor imensurável. Sem o seu apoio e dedicação, isso não seria possível. A ela toda minha gratidão.

Grata ao meu irmão Diego, minha cunhada Viviane e especialmente meus sobrinhos João Pedro e Murilo, sem terem ideia do caos que vivenciei foram o meu combustível nos momen-tos tristes e desanimadores, meus meninos, potenciaram meus sonhos e minha vontade de evolução.

Ao meu namorado Victor, por ser meu grande amor, por ter me dado suporte quando pensei em fraquejar, por ter sido paciente e encorajador (principalmente nessa etapa), por acreditar e me fazer acreditar no meu potencial. Obrigada pela as conversas, conselhos e todo carinho, você foi essencial para tudo isso.

À minha sogra, amiga e segunda mãe Giovana, pela as conversas e conselhos que me transmi-tem a paz e tranquilidade. Às minhas primas Daniela e Fernanda, por todo conselho e aos momentos descontraídos e felizes.

À minha amiga, prima, irmã, Emanuelle, por sempre estar disposta a me ouvir e me aconse-lhar com tamanha sabedoria e luz. Grata pelo apoio, perspectiva e racionalidade que me pro-porcionou. Obrigada por ter sido tão presente nessa fase e por me entender tão bem.

À minha amiga, irmã Gabriela, pela lealdade, cumplicidade e desabafos. Às minhas amigas e parceiras de faculdade: Angela, Gabriela, Giullyane e Mariana as quais vivenciaram esse caos junto comigo. Aos meus amigos e irmãos de coração José Vitor e André.

Por fim, e não menos importante, agradeço o meu orientador e amigo Jefferson Jorge, por todo capricho em desenvolver o tema comigo, por ter me aconselhado, me orientado de forma primorosa, ter me acalmado e transmitido desmesurado conhecimento. A ele, toda minha gra-tidão e admiração.

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RESUMO

O índice de violência contra a mulher, atualmente, só vem aumentando, seja em locais públi-cos, seja em suas próprias residências, as mulheres são vítimas de agressões, violência física, verbal, sexual, entre outras. O Feminicídio, foi um avanço, porém diverge opiniões referentes a sua eficácia e sua aplicabilidade, assim como a lei 11.340/06, Lei Maria da Penha.

Neste presente trabalho, será analisado a fundo a lei do Feminicídio, como um avanço na le-gislação ou como consequência da eficácia da Lei Maria da Penha.

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ABSTRACT

The rate of violence against women is only increasing, whether in public places or in their own homes, women are victims of aggression, physical, verbal and sexual violence, among others. Feminicide was a breakthrough, but diverges opinions regarding its effectiveness and its applicability, as well as Law 11.340 / 06, “Lei Maria da Penha”.

In this paper, the feminicide law will be analyzed in depth, as an advance in legislation or as a consequence of the effectiveness of the Maria da Penha Law.

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LISTA DE FIGURAS

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 9

I TEORIA GERAL DO CRIME ... 10

1.1 Conceito de crime ... 10

1.2 Teoria clássica ... 12

1.3 Teoria finalista ... 13

1.4Teoria social da ação ... 14

II DA LEI MARIA DA PENHA ... 16

2.1 Parte histórica ... 16

2.2 Da violência contra a mulher ... 18

2.3 A lei maria da penha e seus avanços ... 23

2.4 Da (in) eficácia da lei maria da penha ... 25

III O FEMINICÍDIO ... 27

3.1 Origem e conceito ... 27

3.2 Crimes de feminicídio ... 31

3.3 Da qualificadora ... 35

3.4 Feminicídio e o direito simbólico ... 45

3.5 Impactos importantes com a tipificação penal ... 49

3.6 O feminicídio e a lei maria da penha ... 50

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 53

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INTRODUÇÃO

A presente monografia pretende analisar o Feminicídio como uma lei eficaz ou como uma consequência da ineficácia da Lei Maria da Penha. Além disso, será analisado a Lei Ma-ria da Penha, sua (IN) Eficácia.

A violência contra a mulher é um problema que atinge o mundo todo, que vem cada vez mais aumentando, diante disso cabe a legislação coibi-la. Desta forma, há legislação es-pecial, porém, os doutrinadores, juristas e até mesmo a sociedade convertem opiniões em re-lação a sua aplicabilidade e sua eficácia.

No primeiro capítulo, é feito uma introdução à teoria Geral do Crime, especificando crime e as teorias que o compõe, para que seja criado um liame ao assunto principal. Trata-se de um capitulo dinâmico e superficial com a principal ideia de proporcionar uma base ao lei-tor. Ele é composto pelo conceito de crime, teoria clássica, finalista e social da ação.

Ao passo que no segundo capítulo discorre-se sobre a Lei Maria da Penha, capítulo ex-tremamente importante para conclusão da ideia tratado neste presente trabalho. Composto com introdução, parte histórica até chegar nas modalidades de violência e conclusão da (in) eficácia da lei, apontado de forma minuciosa.

O terceiro capítulo trata-se do estudo aprofundado do Feminicídio, conceituando de todas as formas, bem como, apresentando todas as modalidades do crime e identificando todas discussões doutrinárias a respeito. Discussões doutrinárias a respeito da natureza da qualifica-dora do Feminicídio, todas as posições de ordem Objetiva e Subjetiva.

Outro debate presente no terceiro capítulo é sobre a relação da lei do Feminicídio com o simbolismo penal, se sua criação foi devida apenas pelo clamor social ou se a lei foi precisa e essencial. Ainda nesse capítulo é tratado dos avanços com a tipificação penal- Lei 13.104/06 e da correlação com a Lei Maria da Penha.

Por fim, adentrando ao objeto de discussão central, é analisado e identificado se o Fe-minicídio é uma consequência da eficácia ou ineficácia da Lei Maria da Penha, e se, o Femi-nicídio atende as expectativas de seu texto no ordenamento jurídico.

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I - TEORIA GERAL DO CRIME

1.1 Conceito de crime

O Código Penal Brasileiro é omisso ao conceito de crime, cabendo apenas aos doutri-nadores conceituar e discutir o que de fato é. Para melhor entendimento é apresentado três conceitos: formal, material e analítico.

Tratando-se do conceito formal, este preocupa-se com o aspecto externo, se há previ-são legal para a conduta. O material relaciona a conduta com a ofensa do bem tutelado, o ana-lítico, por sua vez, seria a melhor definição de acordo com discussões doutrinárias.

De acordo com Julio Fabbrini Mirabete,

Em um conceito formal, crime é toda conduta proibida por lei sob ameaça de pena. No aspecto material, o ilícito penal pode ser conceituado como a conduta definida pelo legislador como contrária a uma norma de cultura reconhecida pelo Estado e le-siva de bens juridicamente protegidos. No aspecto analítico, a doutrina finalista mo-derna tem considerado o crime como a conduta típica, antijurídica e culpável. (MI-RABETE, 2001, p. 132).

Na visão de Rogério Greco,

Sob o aspecto formal, crime seria toda conduta que atentasse, que colidisse frontal-mente contra a lei penal editada pelo Estado. Considerando-se o seu aspecto materi-al, conceituamos o crime como aquela conduta que viola os bens jurídicos mais im-portantes. (GRECCO, 2015, p. 194)

Além disso, é importante analisar a diferença de crime e contravenção penal, uma vez que os conceitos podem ser confundidos. É sabido dizer, que contravenção e crime são espé-cies distintas de infração penal (gênero). Na infração penal, a conduta é tipicamente ilícita, dolosa ou culposa.

O crime e a contravenção são aplicados de acordo com a gravidade, ou seja, o crime é considerado infração penal mais gravosa, por sua vez, já a contravenção penal refere-se à in-fração penal de maneira leve. No crime, há a forma tentada enquanto na contravenção penal não existe. Outra distinção importante é em relação a pena aplicada a essas duas infrações. Na contravenção, por ser uma infração mais leve, é aplicada pena de prisão simples e multa,

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en-quanto o crime, por ser mais grave, a lei prevê a pena de reclusão ou detenção, de acordo com a gravidade do crime.

Conforme a Lei de Contravenções Penais- 3.688/41:

Art. 2º A lei brasileira só é aplicável a contravenção praticada no território nacional. Art. 3º Para a existência da contravenção, basta a ação ou omissão voluntária. Deve-se, todavia, ter em conta o dolo ou a culpa, se a lei faz depender, de um ou de outra, qualquer efeito jurídico.

Art. 4º Não é punível a tentativa de contravenção. Art. 5º As penas principais são:

I – prisão simples.

II – multa (BRASIL, 1941).

Dentre os conceitos doutrinários, é importante destacar o conceito analítico de crime, para a construção do raciocínio e para o melhor entendimento. No conceito analítico, é anali-sado de forma sucinta tudo que envolve a infração penal, desde as características até os ele-mentos, e desde que não seja feita uma divisão, afinal o crime não pode ser fragmentado, ele é indivisível. No analítico, há uma análise se há a infração pena. Portanto, o conceito de crime na forma analítica se dá como fato típico, ilícito e culpável.

O Fato típico, compreende se na conduta, podendo ser dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva; no resultado; nexo de causalidade, podendo ser material ou normativo e na tipi-cidade (formal e conglobante).

A Ilicitude ou antijuridicidade, diz respeito ao antagonismo entre a conduta do agente ao ordenamento jurídico, a lei. A conduta é antijurídica, quando o agente não age em estado de necessidade, legitima defesa, estrito cumprimento do dever legal e exercício regular do direito. Ou então, quando não existir o consentimento do ofendido, de forma supralegal.

A culpabilidade, por sua vez, é a reprova sobre a conduta ilícita praticada pelo agente. Está relacionada com a valoração. Estando presente a imputabilidade, a exigibilidade de con-duta diversa e a consciência sobre a ilicitude.

A conceituação mais precisa de acordo Grecco:

Delito é uma conduta humana individualizada mediante um dispositivo legal (tipo) que revela sua proibição (típica), que por não estar permitida por nenhum preceito jurídico (causa de justificação) é contrária ao ordenamento jurídico (antijurídica) e que, por ser exigível do autor que atuasse de outra maneira nessa circunstância, lhe é reprovável (culpável). (GRECCO, 2015, apud ZAFFARONI, 1996 p. 324)

Grecco ainda cita uma quarta característica, sendo a punibilidade, defendida por Mu-ñoz Conde. “Para o renomado professor espanhol, a infração penal é, portanto, definida

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anali-ticamente como uma ação ou omissão, típica, antijurídica, culpável e punivel” (GRECCO, 2015, apud BITTENCOURT; CONDE, 1996 p. 5).

Desse modo, fica evidente que o conceito de crime é meramente doutrinário e não previsto em lei. Os conceito preestabelecidos não traduzem com esmero o que é crime, porém permite uma noção para que conclui-se o estudo do referido assunto.

1.2 Teoria clássica

A teoria clássica do crime, originou sede Von Liszt e Beling, a qual destaca a ação, o resultado e o nexo de causalidade. Nesta teoria, o agente pratica uma ação e desta ação há um resultado, ou seja, cria um nexo entre o agente da ação e a consequência, o resultado.

De acordo com Welzel (1997 apud Tratado de Liszt, 1884) a estrutura dessa teoria se subdividia em duas partes, sendo o aspecto objetivo, equivalido pela tipicidade e antijuridici-dade e o aspecto subjetivo, equivalido pela culpabiliantijuridici-dade, havendo uma separação entre os dois critérios, o objetivo e subjetivo.

Nas doutrinas penais, há a abordagem da divisão dos elementos estruturais que carac-terizam a teoria clássica, sendo Ação Tipicidade, Antijuridicidade e a Culpabilidade.

Para Bittencourt (1997, p. 27) “Ação- era um conceito puramente descritivo, naturalis-ta e causal, valorativamente neutro. Era um conceito essencialmente objetivo, embora se sus-tentasse que tinha origem na vontade, não e preocupava com o conteúdo desta”. A ação, mesmo sendo caracterizada como um critério objetivo, estava relacionada aos externos, ao resultado. Ação deriva da vontade.

A tipicidade, por sua vez, possuía um caráter mais externo, “compreendendo somente os aspectos objetivos do fato descrito em lei” (BITTENCOURT, 1997, p. 28).

De acordo com Miguel Reale Jr.:

A tipicidade diferencia e especifica as condutas criminais em seu aspecto objetivo. O tipo constitui apenas e tão somente a descrição objetiva, não encerrando elementos subjetivos, nem possuindo conteúdo valoritivo. A tipicidade é um elemento estanque e autônomo na estrutura do crime. (REALE JUNIOR, 2000, p. 42)

Tratando-se da antijuridicidade, esta caracteriza-se como critério objetivo. O que deve ser destacado nesse elemento, é a valoração, o caráter valorativo. A antijuridicidade seria

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no-civa a sociedade, algo negativo, “sendo a antijuridicidade a tendência danosa de uma conduta” (JR REALE, 2000, p. 43).

Bittencourt (1997, p. 28) defende que, “a antijuridicidade é um juízo valorativo pura-mente formal: basta a comprovação de que a conduta é típica e de que não concorre nenhuma causa de justificação”.

Na antijuridicidade, há uma relação de contrariedade entre o fato típico e o ordena-mento jurídico, como descreve o autor Dámasio de Jesus:

Antijuridicidade é a relação de contrariedade entre o fato típico e o ordenamento ju-rídico. A conduta descrita em norma penal incriminadora será ilícita ou antijurídica quando não for expressamente declarada lícita. Assim, o conceito de ilicitude de um fato típico é encontrado por exclusão: é antijurídico quando não declarado lícito por causas de exclusão da antijuridicidade (DAMASIO, 2011, p. 197).

Por fim, tem-se o elemento culpabilidade, sendo aspecto subjetivo do crime. Deriva-se da culpa do agente, neste pressuposto que surge o dolo e a culpa.

É primordial destacar a relação com a tipicidade e ilicitude, uma vez que é inexistente a culpabilidade sem esses dois elementos. Nela há um nexo, entre o agente, o fato típico e antijurídico.

Dámasio (2011, p. 197) diz que “culpabilidade é a reprovação da ordem jurídica em face de estar ligado o homem a um fato típico e antijurídico”.

1.3 Teoria finalista

Nesta teoria, o dolo e a culpa que encontravam-se na culpabilidade, migram para a conduta, no fato típico. Além disso, a culpabilidade antes um requisito, torna-se um pressu-posto do crime.

Desse modo, quando ausentes a culpa ou dolo, torna-se uma conduta atípica. Bittencourt abordou a migração do dolo e culpa, da seguinte forma:

Concentrou na culpabilidade somente aquelas circunstâncias que condicionam a re-provabilidade da conduta contrária ao direito, e o objeto da reprovação situa-se no injusto. Essa nova estrutura sustentada pelo finalismo trouxe inúmeras consequên-cias, dentre as quais pode-se destacar: a distinção entre tipos dolosos e culposos, do-lo e culpa não mais como elemento ou formas de culpabilidade, mas como integran-tes da ação e do injusto pessoal, além da criação de uma culpabilidade puramente normativa. (BITTENCOURT, 1997, P. 31).

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Welzel dá uma nova classificação nesta teoria, no fato típico está a subsunção formal, sendo o crime previsto em lei e o dolo e culpa, que migraram da culpabilidade. O fato típico é antijurídico, estando as causas excludentes. Na teoria clássica, a culpabilidade possuía o dolo, dolo de forma normativa, dolo que tinha comum dos seus elementos a consciência da ilicitu-de; porém na teoria finalista a culpabilidade possui a imputabilidade e a consciência da ilici-tude e a exigibilidade de conduta diversa.

Outra questão importante é destacar algumas consequências transcendentais, de acordo com Bittencourt e Conde:

Essa concepção welziana de ação traz consigo algumas consequências transcenden-tais, dentre as quais destacamos: a) a inclusão do dolo (sem a consciência da ilicitu-de) e da culpa nos tipos de injustos (doloso e culposo); b) o conceito pessoal de in-justo que nos leva em consideração os elementos pessoais (relativos ao autor): o desvalor pessoal da ação do agente, que se manifesta pelo dolo de tipo (desvalor do-loso; tipo de injusto doloso) ou pela culpa (desvalor culposo; tipo injusto culposo). E ao desvalor da ação correspondente um desvalor do resultado, consistente na lesão ou perigo de lesão do bem jurídico tutelado; c) a culpabilidade puramente normativa. (BITTENCOURT; CONDE 2000 apud PRADO; BITTENOURT, 1995 p. 71-2).

1.4 Teoria Social da Ação

A Teoria social da ação originou-se em 1932 por Eberhard. Schmidt, havendo várias vertentes. Fica evidente, que esta teoria manifestou-se como uma via intermediária, afirmando que a direção da ação não termina na causalidade ou na determinação individual, portanto, o questionamento da direção da ação deve ser objetivamente genérica (BITTENCOURT, CONDE, 2000, p.40). Além de suas vertentes fazer uma crítica as outras teorias, ela não ex-clui os conceitos causar e final da ação. “Essa teoria tem a pretensão de apresentar uma solu-ção conciliadora entre a pura considerasolu-ção ontológica e a normativa” (BITTENCOURT, CONDE, 2000, p. 40).

É importante frisar a relação da conduta do agente com a relevância social, sendo a principal característica da referida teoria. Tratando-se da teoria social da ação, a ação é justa-mente o comportamento social que possui relevância. “Na verdade, inicialjusta-mente Eb. Schmidt definiu ação como uma conduta arbitrária para o mundo social externo” (BITTENCOURT, CONDE, 2000 apud MAURACH 1962, p. 267).

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Após esse conceito, houve uma grande controvérsia doutrinária, pois, a teoria se asse-melhava a teoria causalista, mas após Maihofer conceituar ação, é que ocorreu o distancia-mento das duas teorias. Ele alegava que a ação controlada pelo homem dirigia-se a uma con-sequência social previsível. Bittencourt e Conde entendem da seguinte forma:

A teoria causal da ação não considera a essência da ação humana, mas a possibilida-de possibilida-de atribuir possibilida-determinado resultado a dita ação. As teorias final e social ao contrá-rio, valorizam a essência da ação humana em si, embora sob pontos de vista distin-tos: a teoria final da ação em relação ao fenômeno humano interno e a teoria social enquanto acontecimento na vida social comum. (BITTENCOURT, CONDE, 2000 apud MAURACH 1996, p. 267).

Na dita teoria, o fato típico é formado pela subsunção formal, a descrição prevista na lei; o dolo natural, não o normativo e a culpa, e por fim, a relevância social, o impacto da so-ciedade. Se o fato não produzir um dano socialmente relativo ele é atípico. Pelo fato de cos-tume não revogar a lei, esta teoria não prosperou.

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II DA LEI MARIA DA PENHA

2.1 Parte histórica

Cada vez mais as mulheres estão ocupando seu espaço no mundo, vítimas de precon-ceitos e violência, elas lutam para buscar seu respeito e mudar a ideologia imposta. Os dados nacionais e internacionais comprovam que o índice de violência contra as mulheres dentro de suas próprias casas, é alto. Todo dia uma notícia impactante de violência contra a mulher é publicada. Não foi diferente com a Maria da Penha, mulher a qual recebeu seu nome na lei 11.340 de 2006 como forma de reparação simbólica.

Em 1983, Maria da Penha Maia Fernandes, biofarmaucêtica, natural do Ceará, levou um tiro de seu marido enquanto dormia, tornando-se paraplégica. Como se não bastasse, seu marido tentou novamente, desta vez com afogamento e eletrochoque, enquanto ela tomava banho. Além disso, sofria inúmeras violências tanto físicas como psicológicas. Porém, só após as duas tentativas de homicídio que Maria da Penha o denunciou as autoridades competentes.

Seu marido foi condenado, a dupla tentativa de homicídio, mas conseguiu ficar em li-berdade. O caso foi resolvido em meados 2001, 2002, quando o Estado brasileiro foi conde-nado pela Comissão Interamericana De Direitos Humanos de Organização dos Estados Ame-ricanos (OEA) por negligência, omissão e tolerância a violência domésticas contra as mulhe-res, sendo exigido a revisão da política pública vigentes no âmbito da violência doméstica contra a mulher.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos listou recomendações a serem exe-cutadas pelo Estado brasileiro, tais como:

Como recomendações ao país, a Comissão elencou, dentre outras medidas, o encer-ramento célere e efetivo do processamento penal do agressor da vítima Maria da Pe-nha e investigação para determinar o responsável pelas irregularidades e demora no andamento da correspondente ação penal. Anotou também que caberia o Estado Brasileiro “prosseguir e intensificar o processo de reforma que evite a tolerância es-tatal e o tratamento discricionatório com respeito à violência doméstica contra as mulheres no Brasil” (LAVIGNE, 2011 apud RELATORIO ANUAL, 2000)

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Em 2006, a lei 11.340 foi aprovada, recebendo o nome de Maria da Penha em home-nagem a Maria da Penha Maia Fernandes. Desta forma, novos mecanismos foram criados para coibir e proibir a violência doméstica contra as mulheres.

Lei nº 11.340 de 07 de agosto de 2006:

Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Elimina-ção de Todas as Formas de DiscriminaElimina-ção contra as Mulheres e da ConvenElimina-ção Inte-ramericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe so-bre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal ; e dá outras providências.

Art. 1º Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e fami-liar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar con-tra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar (BRASIL, 2006).

É importante destacar que anteriormente a vigência da Lei Maria da Penha- 11.343/06 para os casos de violência doméstica contra as mulheres era aplicada a lei 9.099 de 1995, refe-rente aos juizados criminais e cíveis, mas, deve ser frisado que a referida legislação julga me-nor potencial ofensivo ou seja, a pena era de apenas até dois anos. Com isso, as mulheres luta-ram para alcançar o objetivo pleiteado, alcançar solução diversa e eficaz para aquela situação, sendo assim, lutaram para uma legislação especial, que coibia e prevenia a violência que ocor-ria no interior das famílias, no interior de seus lares.

Com essa situação, as mulheres reivindicaram no Poder Executivo para alcançarem a legislação especial tão almejada, porém, os juizados resistiram para julgar as causas, alega-vam que pequenas alterações iriam suprir a ineficácia e proporcionaria a satisfação das mulhe-res em relação a legislação especial. Eles queriam contribuir na legislação para que ela se adaptasse ao protótipo anunciado.

Desta forma, houve o fracasso, uma vez que manter a competência da violência contra as mulheres aos juízes dos juizados iria ferir os direitos humanos. As demandas da violência aumentavam a ponto de criar dados e provas referentes ao ato, contribuindo para que houves-se a criação de uma legislação especial, que acertashouves-se e desprezashouves-se a mediocrização da vio-lência doméstica contra as mulheres. Mesmo com a a demanda das ações e das reivindicações das mulheres, o judiciário permanecia tratar a violência contra a mulher de forma banal. Desta vez, passaram a aplicar pena restritiva de direito e o pagamento de cesta básica a entidade ou

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multa. Além das diversas reivindicações que estavam ocorrendo devido a triviliação ao caso, várias pesquisas destinadas a opinião social eram realizadas, demonstrando cada vez mais que o tratamento a violência contra a mulher era assunto irrelevante ao judiciário, fazendo com que despertasse a preocupação no meio social.

Com isso, houve o enfraquecimento da lei 9.099 de 1995 aos casos de violência contra a mulheres levando os juízes dos juizados serem estratégicos para não perderem a competên-cia sobre a matéria, para isso minucompetên-ciaram várias ações, chegando ao ponto de pedir apoio po-lítico. Mas não foi suficiente e em 2006 as mulheres obtiveram a legislação especial, que tanto almejavam. Fica evidente que houve uma grande resistência por parte dos juízes a aplicação da Lei Maria da Penha, mais uma vez as mulheres foram alvo de preconceito. Os juízes dis-cordavam da lei ferir a Constituição Federal

Um último ponto a ser destacado relacionado a historicidade da Lei 11.343 é justa-mente referente a sua aplicação. O dispositivo legal não prevê os crimes previajusta-mente dito, os crimes que são cometidos são aqueles que já estão previstos no Código Penal Brasileiro como por exemplo o homicídio (artigo 121 do Código Penal Brasileiro), lesão corporal (artigo 129 do Código Penal Brasileiro) ou estupro (artigo 213 do Código Penal Brasileiro), por exemplo.

Dispõe os artigos 2º, 3º §1º, §2º e 4º da lei 11.340/06:

Art. 2º Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades pa-ra viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.

Art. 3º Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo dos di-reitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dig-nidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

§1º O poder público desenvolverá políticas que visem garantir os direitos humanos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares no sentido de resguar-dá-las de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

§ 2º Cabe à família, à sociedade e ao poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados no caput.

Art. 4º Na interpretação desta Lei, serão considerados os fins sociais a que ela se destina e, especialmente, as condições peculiares das mulheres em situação de vio-lência doméstica e familiar.

2.2 Da violência contra a mulher

A priori, é importante frisar alguns conceitos básicos relacionados com a lei para me-lhor entendimento da violência contra a mulher. O conceito legal de violência doméstica e

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familiar diz respeito a ação e omissão estabelecida pelo gênero que provoque morte, lesão, sofrimento (físicos, sexuais ou psicológicos) e o dano moral ou patrimonial (NUCCI, 2015, p. 780).

Em seguida, deve ser analisado o conceito de unidade doméstica, sendo o local onde há a coabitação imutável de pessoas, como uma família, porém é inexistente a necessidade do vínculo familiar, tanto civil como natural. Nucci dispõe que a mulher agredida no âmbito da unidade doméstica deve fazer parte dessa relação doméstica” (NUCCI, 2015, p. 780), no en-tanto, o mesmo cita a jurisprudência do TJRS que diz:

Como decidiu esta Corte em situação fática similar a dos autos (...) Para configurar a incidência da Lei Maria da Penha, não é necessário que agressor e agredida tenham vinculo sanguíneo ou relação afetiva, bastando para tanto, que este se valha do am-biente doméstico para efetivar a agressão. No caso, a partir dos dados até então coli-gidos, tem-se que se trata de vítima mulher, com ofensor do sexo masculino, que in-tegravam o mesmo ambiente familiar (eram cunhados e vizinhos), razão por que há a incidência da Lei Maria da Penha. Competência da Vara Criminal (...) DECISÃO: Conflito negativo de competência improcedente. Unânime” (NUCCI, 2015 apud NETO, 2014, p. 781)

Além disso, deve ser conceituado família, o âmbito da família. De acordo com a lei 11.340/06 família é “comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparenta-dos, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa” (NUCCI, 2015, p. 781). Porém, é, evidente que o direito não reconhece qualquer relação, ou seja, o simples fato de considerar-se aparentados não significa que possuem laço familiar. Desse modo, a afinida-de está abaixo do laço familiar. Por exemplo, um neto que não possui convivência com sua avó continua tendo um laço familiar, mesmo que a afinidade não exista.

É inteligente destacarmos o conceito de relação íntima de afeto, aquela estabelecida entre duas pessoas, seja ela amigos, namorados, entre outros. A lei 11.340/06 é bem especifica em relação a esse conceito. A lei defende aquelas que sofreram qualquer tipo de agressão por um homem que viveram algum tipo de relação intima de afeto, independente se moravam juntos ou não. No entanto, é considerável analisar o caso concreto para aplicabilidade da lei, afinal não necessariamente um homem responderá pela lei 11.340/06 por ter agredido uma mulher. Desta forma o que deve ser frisado neste conceito é que a lei Maria da Penha reco-nhece a violência praticada por aquele que manteve uma relação íntima de afeto com a vítima, sendo desconsiderado o fato de que havia coabitação ente ambos, como por exemplo, no caso de um ex namorado agredir sua ex namorada. “A violência doméstica contra a mulher não se limita, portanto, ao âmbito das unidades doméstica ou familiar, envolve também qualquer

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relação de vínculo afetivo da vítima com o agressor, seja ele atual ou do passado” (CORTÊS; MATOS; 2009, p. 24)

Como último conceito a ser destacado, tem-se a sexualidade, de forma mais precisa, a orientação sexual. A lei afasta qualquer tipo de discriminação, desse modo ela impede a dis-criminação de acordo com a orientação sexual seguida. Por isso, decisões de Tribunais tem aplicado a legislação para mulheres transexuais.

A lei 11.340/06 em seu §2º é bem especifica em relação a orientação sexual:

Art. 2o Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades pa-ra viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social (BRASIL, 2006).

Esses conceitos estabelecidos são primordiais para o entendimento e construção da aplicabilidade da lei Maria da Penha. De acordo com o artigo 5º da lei 11.340/06:

Art. 5o Para os efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, so-frimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial:

I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio per-manente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convi-vido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orien-tação sexual (BRASIL, 2006).

Concernindo com a aplicabilidade da lei, há o amparo direcionado aquelas que sofrem violência tanto doméstica quanto familiar, sendo o agente ativo não necessariamente o cônju-ge, podendo enquadrar-se o namorado (a), ex namorado (a), irmão, irmã, mãe, filho (a) e até mesmo o empregador da trabalhadora doméstica.

A violência, para ser considerada doméstica, não necessita da distinção de sexos entre o sujeito ativo, ou seja, o agressor, e passivo (vitima), podendo ser homem ou até mesmo uma outra mulher, como estabelece em uniões homoafetivas, sendo necessário a relação caracteri-zada como doméstica familiar ou de afetividade. O legislador se preocupou apenas com me-canismos para impedir e precaver a violência doméstica contra a mulher, desconsiderando o gênero do sujeito ativo. Nas relações de parentesco é possível reconhecer a violência, quando

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há o estimulo de gênero e o agressor corresponde ao mesmo ambiente familiar (DIAS, 2015, p. 64/65).

Atualmente, a violência tornou-se global, atingindo a sociedade como um fenômeno, há aqueles que acreditam que a violência doméstica contra a mulher está relacionada apenas com a agressão física, porém atualmente ela possui diversas formas, formadas por diversifica-dos comportamentos e atitudes.

“De acordo com a Convenção de Belém do Pará (1994), define-se como “violência contra a mulher” qualquer conduta de ação ou omissão, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, no âmbito público ou privado”. (JESUS, 2015 apud SANTOS, 2001, p. 8)

Dessa forma, é notório que a violência contra a mulher vai muito além de lesões físi-cas, muitas vezes essas mulheres vítimas levam consigo feridas na alma que tempo algum apagará. Por isso é eficaz a análise do caso concreto.

Dispõe o artigo 7º da lei 11.340/06:

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras: I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno de-senvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, cren-ças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, iso-lamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridiculari-zarão, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presen-ciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qual-quer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualqual-quer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coa-ção, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure reten-ção, subtrareten-ção, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, di-famação ou injúria (BRASIL, 2006).

Ainda que a os ramos dos direitos se preocupam com o princípio da taxatividade, vi-sando as formas de violência, fica claro que não trata-se de um rol taxativo, podendo ser elen-cadas outra ações que configuram a violência. Seja por comportamento, pela ação, pela atitu-de e hábito.

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Violência Física: Tapas, empurrões, puxões de cabelo, entre outros. É aquela que re-sulta em lesão corporal, que possui o contato físico com a vítima, mesmo que não seja detec-tadas as marcas. Nucci diz que para esta violência, há o tipo penal incriminador próprio, sen-do o artigo 129, §§9º e 10º sen-do Código Penal Brasileiro razão pela qual não seria possível a aplicação da agravante, pois resultaria em bis in idem, no caso da violência resultar na morte da vítima, ele diz que já existem as agravantes, igualmente previstas em crime de ascendentes descendentes, irmão ou cônjuge, crime com abuso de autoridade, ou prevalecendo das rela-ções domésticas de coabitação, sendo exceção apenas o crime cometido contra mulher em qualquer relação intima de afeto, independente da coabitação. (NUCCI, 2015, p. 786). Ade-mais, deve ser destacado que apenas as condutas dolosas configuram essa violência. Além da integridade física, Maria Berenice cita sobre a saúde corporal:

Não só a integridade física, mas também a saúde corporal é protegida juridicamente pela lei penal (CP, art. 129). O estresse crônico gerado em razão da violência tam-bém pode desencadear sintomas físicos, como dores de cabeça, fadiga crônica, dores nas costas e até distúrbios do sono. É o que se chama de transtorno de estresse pós-traumático, que é identificado pela ansiedade e depressão, a ponto de baixar ou re-duzir a capacidade de a vítima suportar os efeitos de um trauma severo. Como estes sintomas podem perdurar no tempo, independente da natureza da lesão corporal pra-ticada, ocorrendo incapacidade para as ocupações habituais por mais de 30 dias ou incapacidade permanente para o trabalho, possível tipificar o delito como lesão gra-ve ou gravíssima, pela perpetuação da ofensa a saúde (CP, art 129 §1º, I e §2º, I). (DIAS, 2015 apud ROVINSKI, p. 71/72)

Violência psicológica: esta violência enquadrou-se na legislação, na Convenção de Belém do Pará. Trata-se aquela violência que não deixa marca física e sim na sua autoestima e até mesmo a sua identidade, afetando sua saúde psicológica. As marcas ficam na alma, é uma agressão psicológica que resulta em um dano emocional. Muitas vezes consiste em xingamen-tos, ameaças, humilhações, discriminações a vítima. Existem atitudes de agressores que não são reconhecidas, porém não deixam de condizer com a violência em questão, como no caso do sujeito ativo querer determinar as vestes ou a maneira como a vítima pensa, fale, expresse; ou então no caso de criticar de forma ofensiva o corpo da vítima e considerar uma simples “brincadeira”.

Há uma discussão doutrinária a respeito da violência psicológica, a doutrina critica a expressão em si, que poderia ser aplicada a qualquer outro crime contra a mulher. Maria Be-renice faz uma análise a respeito:

No dizer de Marcelo Yukio Misaka todo crime gera dano emocional à vitima e, apli-car um tratamento diferenciado apenas pelo fato da vitima ser mulher, seria

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discri-minação injustificada de gêneros. Ora, quem assim pensa olvida-se que a violência contra a mulher tem raízes culturais e históricas, merecendo ser tratada de forma di-ferenciada. Os valores patriarcais muito contribuíram para a exclusão da mulher da categoria de sujeito de direito (DIAS, 2015 apud MISAKA, PINHEIRO, p. 73).

Violência sexual: Muitas vezes o agressor vê a vítima como propriedade, tendo a pos-se por estar casado ou em uma união estável. Mas a legislação defende a mulher contra essa prática, a mulher NÃO é obrigada ter relação sexual com seu cônjuge ou seu parceiro. Rela-ção sexual SEM o consentimento é uma violência sexual. A lei neste quesito, ampara a vítima de forma ampla, enquadrando-se desde o constrangimento físico até a indução ao comércio da sexualidade.

Violência patrimonial: Está relacionada aos bens, quando há a destruição de objetos, documentos e pertences da mulher (sujeito passivo). “Reconhecida como violência patrimoni-al o ato de subtrair objeto da mulher, tpatrimoni-al nada mais é do que furtar (...) O mesmo se diga com relação à apropriação indébita e ao delito de dano”. (DIAS, 2015, p. 77).

Violência moral: diz respeito a violação da honra e imagem da mulher nas formas de difamação, calúnia e injúria.

O que de fato, Maria Berenice define:

Na calúnia, o fato atribuído pelo ofensor à vítima é definido como crime. Na injuria não há imputação de fato determinado, mas na difamação há atribuição de fato ofen-sivo a reputação da vítima. A calúnia e a difamação atingem a honra objetiva; a injú-ria atinge a honra subjetiva. A calúnia e a difamação consumam-se quando terceiros tomam conhecimento da afirmativa; a injúria consuma-se quando o próprio ofendido toma conhecimento da imputação. (DIAS, 2015 apud, CAPEZ p. 78).

2.3 A lei maria da penha e seus avanços

Os diversos ramos do direito assim como as legislações estão sempre em constante mudanças, promovendo alterações para se encaixarem ao mundo atual. Não foi diferente com a lei 11.340/2006, a Lei Maria da Penha. Esta promoveu mudanças pela necessidade, não fo-ram mudanças extremas, porém não deixou de ser um avanço.

Houve mudança referente a forma de lesão corporal qualificada, antigamente a pena nos casos de violência doméstica, como forma qualificada nos crimes de lesões corporais era de seis meses até um ano. Atualmente a pena aumentou de três meses podendo chegar até três anos. Outra mudança admitida pelas decisões atuais, refere-se à aplicação da Lei Maria da Penha aos homens, ao sexo masculino. “Cabe uma alerta. Ainda que a Lei tenha vindo em

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benefício da mulher, o delito de lesão corporal qualificado pela violência doméstica tipifica-se independentemente do sexo do ofendido” (DIAS, 2015, p. 81). Desta forma, tanto homem quanto a mulher poderá ser vítima da violência doméstica. Maria Berenice ainda diz que quando a vítima é homem, comprovada a violência, independente se o sujeito ativo for ho-mem ou mulher, este agressor não fará jus a nenhum benefício da Lei dos Juizados Especiais, em razão da pena máxima imputada ao crime. (DIAS, 2015, P. 82).

Outra questão foi relacionada a prisão. A Lei Maria da Penha permite a prisão preven-tiva, seja no caso da violência em si, para assegurar o processo, como no caso para garantia da execução da medida protetiva de urgência. A prisão poderá ser decretada em qualquer fase do inquérito policial ou da instrução. Poderá haver a decretação ou revogação do juiz a qualquer momento. Esta inovação fez com que os doutrinadores festejassem, sendo consagrada pelo Supremo Tribunal Federal que ratificou o cabimento da prisão provisória nos casos de violên-cia doméstica contra a mulher, como autorizou a correção da prisão, quando houverem os requisitos da prisão preventiva (DIAS, 2015, p. 85).

Diante da alteração legal, algumas dúvidas apareceram sobre a possibilidade de as medidas cautelares serem empregues no âmbito da violência doméstica. A jurisprudência fir-mou-se no sentido de determinar a prisão quando há o descumprimento da medida protetiva aplicada. Assim, a prisão ocorre quando houver a insolvência de uma medida protetiva, logo, em sede de violência doméstica, não é compreensível a conversão da prisão preventiva em alguma medida cautelar semelhável a que não foi cumprida. Resumindo, o sujeito ativo é pre-so em flagrante porque descumpriu a medida aplicada. (DIAS, 2015, p. 87).

Uma outra mudança edificante, foi a introdução de programas de recuperações e ree-ducação destinado ao agressor. O juiz poderá determinar a pena de restritiva de direitos, desta forma o acusado/ agressor deverá frequentar esse tipo de programa. Há uma certa controvérsia em relação a essa pena imposta, pois impor a pena restritiva de direito, iria substituir a pena privativa de liberdade e automaticamente estaria menosprezando a Lei 11.340/06. Contudo, a Lei Maria da Penha foi definitivamente explicita e abriu uma exceção a essa discussão penal, desse modo, independente da pena aplicada, o juiz deve obrigar o acusado de comparecer a esses programas estabelecidos.

Ao pagamento da cesta básica também enquadra-se como mudança, uma vez que há vedação as penas de natureza pecuniária. Portanto, atualmente é vedado o pagamento de cesta básica em violência contra a mulher, deixando claro que qualquer conduta dolosa que coloque em risco a integridade, saúde mental e corporal não devem ser suprida por qualquer tipo de moeda.

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Um outro avanço interessante a se destacar, é a proibição à aplicação dos sursis- que consiste na suspensão do cumprimento da pensa de prisão- nos casos de violência contra as mulheres. Antes dessa inovação, houve muita discussão doutrinária a respeito, porém foi deci-são do Supremo de que não haveria o sursis nos delitos contra a mulher.

2.4. Da (IN) eficácia da lei maria da penha

A eficácia ou ineficácia da Lei 11.340/06 é um assunto extremamente polêmico, tanto os doutrinadores como a sociedade analisam e julgam a aplicabilidade da lei, concluindo mui-tas vezes, que esta é ineficaz.

Para obter um posicionamento, é interessante a análise dos indicadores de violência contra a mulher, de forma geral e até mesmo especifica (municípios e estados). Porém, é sabi-do dizer que a Lei Maria da Penha, com tosabi-do os avanços e competência, de certa forma é efi-caz, pois possui propostas e sanções extremas, talvez o que a torna ineficaz é justamente a aplicabilidade dela, o descaso acarretado pelo poder Executivo, Judiciário e pelo Ministério Público.

É nítido que há uma imensa resistência, principalmente pela magistratura, muitas ve-zes por tratar a violência com determinada banalidade, por muitas veve-zes acreditar naquilo que a sociedade impôs, naquele tabu de que “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Por outro lado, deve ser destacado que o Estado (Administração Pública) também co-labora para tornar a lei ineficaz, uma vez que não cria os mecanismos para coibir essa violên-cia, como acontece quando não há albergues, sendo necessário o magistrado aplicar a prisão domiciliar.

De acordo com o site da Secretaria Nacional de Políticas para Mulheres- Ministério dos Direitos Humanos, cerca de 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Em 2016, 503 mu-lheres foram vítimas de agressão física a cada hora; 66% dos brasileiros, já presenciaram uma mulher sofrendo violência física ou verbal na rua; 73% da população acredita que a violência contra as mulheres, aumentaram nos últimos 10 anos.

Damásio em sua obra “Violência contra a mulher” traz dados da violência doméstica no Brasil. Em um estudo, feito em Campinas, aponta que em torno de 1.800 mulheres entre 15 e 49 anos entrevistadas, 62% afirmaram ter submetido relação sexual contra a vontade, 7%afirmaram ter submetidas a violência física, 23% em alguma forma de repressão, e 32%

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alegaram ter considerado que era obrigação aceitar a exigência do cônjuge, noivo ou compa-nheiro. (JESUS, 2015, apud ANDALAFT, FAÚNDES, 2001, p. 23).

Logo, conclui-se que a violência contra a mulher nunca cessou, ela está sempre cres-cendo e independe da modernidade, das leis atuais, ela é um problema social. Isso, muitas vezes pela educação dos homens, pela possessão, por acharem que a mulher é um objeto que deve haver posse. Obviamente, a Lei 11.340/06 trouxe avanços e muito desses avanços deram as mulheres a coragem necessária para denunciar a violência ou então lutar pelos seus direi-tos.

Desta forma, a Lei Maria da Penha de forma geral torna-se ineficaz, não pelo fato de não ter mecanismos que coíbem a violência, ou pela as sanções serem meramente banais, mas sim por não ter uma eficácia no conjunto todo, tanto no quesito aplicabilidade, quanto a impo-sição da Administração Pública.

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III O FEMINICÍDIO

3.1. Origem e Conceito

Atualmente, com os inúmeros casos de violência contra mulher e com o avanço da tecnologia, consequentemente da mídia, são poucos os que nunca ouviram o termo “Femini-cídio”, porém há uma grande diferença entre ouvir e conhecer de fato.

A priori, é importante salientar o significado da palavra em si, para então desdobra-la. De acordo com o site Dicio, a palavra Feminicídio significa “Assassinato proposital de mu-lheres somente por serem mumu-lheres” ou então “Crime de ódio contra indivíduos do sexo femi-nino, definido também por agressões verbais, físicas e psicológicas” (Dicionário online de Português). Analisando o sentido literal da palavra, fica evidente a prática de um crime contra mulheres, havendo de forma implícita o sentimento de ódio relacionado ao sexo feminino. Entretanto, é preciso intensificar esse conceito, levando em considerações outros fatores.

De acordo com o site do Ministério dos Direitos Humanos nos meses de Janeiro a Ju-lho no ano de 2018, foram registrados 27 feminicídios, 547 tentativas de feminicídio, 51 ho-micidios e 118 tentativas de homicidio através do Ligue 180. Quantidade essa absurda nos dias atuais. Além da quantidade ser impactante, outro motivo que leva a perplexidade é a prá-tica do crime, a forma pela qual é executada, as formas brutas e desumanas, causadas muitas vezes por mero machismo e desigualdade de gênero.

A desigualdade de gênero é outro conceito importante para o desdobramento do con-ceito final. Infelizmente, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade no Brasil, mesmo as mulheres ocupando mais do que 50% da população nacional. Além da violência e assédio, a desigualdade está presente entre vários cenários, como por exemplo no mercado de trabalho, na política, saúde ou até mesmo em relação a maternidade.

Desse modo, é sabido que o Feminicídio trata-se de um crime de ódio, de violência ex-trema, cuja intenção do autor é especifica à Mulher, ao gênero, as características particulares do sexo feminino. É o crime que poderia ser evitável e inexistente, se não houvesse a desi-gualdade de gênero ou a banalidade à vida feminina.

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Para a conclusão do conceito, além de desdobrar a palavra é preciso um estudo históri-co para o entendimento atual da históri-condição das mulheres perante a violência. De ahistóri-cordo históri-com o artigo SEPA, a mulher nem sempre foi alvo da desigualdade de gênero:

A mulher, no seu percurso histórico, ocupou, por um longo período, um lugar de destaque nas sociedades primitivas matrilineares. Como líder no clã em que vivia, teve acesso à propriedade, aos direitos políticos e até acompanhava os homens, lado a lado, nas situações de paz ou guerra, em defesa das terras. No entanto, com o sur-gimento da cultura patriarcal, ela teve que se posicionar no lugar de resignada e de-vota ao marido, enquanto outras mulheres, como as cortesãs, gozavam de um poder sobre seus amantes que as esposas não possuíam. (SANTIAGO, 2008)

Após o novo posicionamento cuja as mulheres tiveram que tomar, é nítido o início da desigualdade, onde elas passam a se assemelhar a objeto de alto valor.

No Brasil Colonial, entre 1500 a 1822 as mulheres definitivamente eram vistas como objetos, submetidas a casamentos forçados, sendo propriedade dos chefes de família (FAHS, Politize- Movimentos Feministas, 2016)

Mary Del Priori (2011), historiadora, afirmava que durante esse período as mulheres eram submissas aos maridos, a ponto de assemelhar a relação senhor e escravo, caso não obe-decessem sofriam punições muito pesadas.

De acordo com o artigo do site Geledés (2013) o homicídio era permitido no caso de adultério por parte das mulheres, sendo aplicado um código legal – Ordenações Filipinas que asseguravam esse ato aos maridos. Até mesmo em 1916 com o Código Civil, as mulheres eram inferiores, uma vez que possuíam status de “incapazes”, podendo trabalhar fora ou assi-nar contratos apenas com a permissão de seus cônjuges.

Somente na década de 80 que as mulheres ao se unirem obtiveram uma melhoria dian-te toda desigualdade e violência. Através de movimentos e após o posto do Brasil de tornar-se Estado- Membro signatário de tratados e convenções internacionais voltadas aos Direitos Humanos, utilizando o princípio da Isonomia e tonando-se igualitário, as mulheres consegui-ram o reconhecimento de que a violência contra as mulheres tratava-se de violação aos Direi-tos Humanos. Pressionando, assim, o Estado de tomar medidas eficazes. ( FADIGAS, 2006, p. 3).

Mesmo com a pressão feita ao Estado, as mulheres só obtiveram uma garantia contra a violência com a lei 11.340/06- Lei Maria da Penha. Porém, observando o gráfico relacionado à homicídios de mulheres desde a criação da lei, o índice oscilou nos anos de 2006 até 2015, havendo uma queda apenas em 2015.

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(Fonte: Senado- Indicadores BR- 2018)

Analisando a tabela, verifica-se que os índices de homicídios contra as mulheres não cessaram e permaneceram alto até 2015, pressionando o Estado, mais uma vez, a tomar uma atitude perante os índices de violência.

Foi através da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (Relatório Final, CPMI- VCM, 2013) sobre a Violência Contra a Mulher, que resultou na Formação da Lei do Femini-cídio:

O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mu-lher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfigura-ção de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante (BRASIL, 1940).

Levando em consideração essas diretrizes, a lei 11.304 entrou em vigor apenas no ano de 2015, percorrendo um grande caminho,” O processo durou de março de 2012 a julho de 2013, quando foram percebidas as relações diretas entre crime de gênero e feminicídio” (MERELES, 2018).

Destarte, o Feminicidio pode ser considerado um novo tipo penal, ou seja, o que está fixado na lei como uma qualificadora do crime de homicídio (GALVÃO, instituto apud DI-NIZ, 2017, p. 11).

De acordo com a Lei 13.104/15:

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§ 2o-A Considera-se que há razões de condição de sexo feminino quando o crime envolve:

I - violência doméstica e familiar;

II - menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Aumento de pena:

§ 7o A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado:

I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;

II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência;

III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima (BRASIL, 2015).

A lei é clara quando destaca o gênero feminino, ou seja, ela pune crimes contra mu-lheres, como homicídio qualificado, porém, é necessário fazer uma interpretação, “O legisla-dor não trouxe uma qualificalegisla-dora para a morte de mulheres. Se fosse assim, bastaria ter dito: “Se o crime é cometido contra a mulher”, sem utilizar a expressão “por razões do sexo femi-nino” (GOMES, BIANCHINI, 2015).

O que de fato significa que:

Uma vez esclarecido que a qualificadora não se refere a uma questão de sexo (cate-goria que pertence à biologia), mas a uma questão de gênero (atinente à sociologia, padrões sociais do papel que cada sexo desempenha) convém trazer algumas consi-derações sobre o assunto. (GOMES, BIANCHINI, 2015)

Para Maria Amélia Teles e Mônica de Melo:

A violência de gênero representa “uma relação de poder de dominação do homem e de submissão da mulher. Demonstra que os papéis impostos às mulheres e aos ho-mens, consolidados ao longo da história e reforçados pelo patriarcado e sua ideolo-gia, induzem relações violentas entre os sexos. (GOMES, BIANCHINI apud TE-LES, MELO, 2015)

Portanto, Flavio Gomes e Alice Bianchini, destacam que:

Para configurar feminicídio, como já assinalamos, não basta que a vítima seja mulher. A morte tem que ocorrer por “razões da condição de sexo feminino”. Elas foram elen-cadas no § 2º-A do art. 121 do Código Penal como sendo as seguintes: violência do-méstica e familiar contra a mulher, menosprezo à condição de mulher e discriminação à condição de mulher. (2015).

Após todo desdobramento e análise, conclui-se que o Feminicídio é um crime de ódio cometidos contra mulheres por questão do gênero, violência que possui como motivação a opressão ao sexo feminino. Atualmente, as mulheres são asseguradas pela lei 13.104/15,

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sen-do uma qualificasen-dora sen-do crime de homicídio, além disso a Lei faz parte sen-do rol de crimes hedi-ondos. O Livro Feminicído #InvisibilidadeMata conceitua:

O assassinato de mulheres em contextos marcados pela desigualdade de gênero re-cebeu uma designação própria: feminicídio. No Brasil, é também um crime hedion-do desde 2015. Nomear e definir o problema é um passo importante, mas para coibir os assassinatos femininos é fundamental conhecer suas características e, assim, im-plementar ações efetivas de prevenção. (GALVÃO, 2017)

3.2. Crimes de Feminicídio

Como dito anteriormente, houve um grande avanço da tecnologia (consequentemente da mídia) fazendo com que os casos de Feminicídio viessem ao conhecimento em massa. Nos últimos anos, foram inúmeros casos de violência contra as mulheres que viraram manchete nacional, desde agressões até homicídios com práticas desumanas.

Inquirindo as estatísticas referente a violência contra as mulheres no site de Segurança Pública do Estado de São Paulo, é averiguado que no mês de dezembro de 2018 o número de homicídios dolosos contra mulheres, totalizaram em 11, enquanto as tentativas de homicídios totalizaram em 33 casos.

Por sua vez, o Mapa da Violência ministrado por Julio Jacobo Waiselfisz, apontou uma média de 13 homicídios diários, no período de 2013:

O Mapa da Violência 2015 (Cebela/Flacso) é uma referência sobre o tema e revelou que, entre 1980 e 2013, 106.093 brasileiras foram vítimas de assassinato. Somente em 2013, foram 4.762 assassinatos de mulheres registrados no Brasil – ou seja, aproximadamente 13 homicídios femininos diários. (GALVÃO)

Portanto, é notável minuciar as modalidades que são enquadradas como Feminicídio, uma vez que é possível destacar razões de gênero nos delitos contra mulheres:

1- Infantil: é a modalidade cujo autor do crime possui uma relação de poder/ responsa-bilidade sobre a mulher. Neste caso, deve ser destacado a idade da mulher, sendo ela menor de idade, menor de 14 anos.

Em sua redação, o §7º, inciso II do artigo 121 do Código Penal Brasileiro discorre so-bre a causa de aumento nos casos de feminicídio contra menores de 14 anos, sendo um grande avanço da lei:

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§ 7º A pena do feminicídio é aumentada de 1/3 (um terço) até a metade se o crime for praticado:

I - durante a gestação ou nos 3 (três) meses posteriores ao parto;

II - contra pessoa menor de 14 (catorze) anos, maior de 60 (sessenta) anos ou com deficiência;

III - na presença de descendente ou de ascendente da vítima (BRASIL, 1940).

2- Familiar: é aquele cujo autor possui um vínculo de familiaridade com a vítima, sen-do esse vínculo de afinidade, asen-doção ou consanguinidade.

Se observarmos os dados disponíveis sobre os homicídios de mulheres, como o Ma-pa da Violência e o Dossiê Mulher do Rio de Janeiro, vamos ver que os crimes em família têm uma característica feminina. O número de mortes de mulheres por pes-soas que não são da sua intimidade é bastante inferior ao dos homicídios praticados no espaço doméstico. Da mesma forma, a grande maioria das vítimas de estupro são mulheres e o peso da violência sexual contra as mulheres e meninas é mais alto no espaço familiar.”, Leila Linhares Barsted, advogada, diretora da ONG CEPIA – Ci-dadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação e representante do Brasil no ME-SECVI – Mecanismo de Acompanhamento da Convenção de Belém do Pará da Or-ganização dos Estados Americanos. (GALVÃO, 2017).

3- Íntimo: Sendo uma das mais conhecidas, essa modalidade refere-se ao homicídio cuja vítima é a mulher e o autor seu cônjuge, companheiro, ex- cônjuge, namorado, ex- namo-rado e até mesmo amante. Nesta modalidade a principal característica é a relação íntima do autor e da vítima. No livro O Feminicídio #InvisibilidadeMata, a autora acrescenta sobre a relação de amizade “Inclui-se a hipótese do amigo que assassina uma mulher – amiga ou co-nhecida- que se negou a ter uma relação íntima com ele seja sexual ou sentimental” (GAL-VÃO, 2017).

O feminicídio íntimo é um contínuo de violência. Antes de ser assassinada a mulher já passou por todo o ciclo de violência, na maior parte das vezes, e já vinha sofrendo muito tempo antes. A maioria dos crimes ocorre quando a mulher quer deixar o rela-cionamento e o homem não aceita a sua não subserviência. Este é um problema mui-to sério. Adriana Ramos de Mello, juíza titular do 1º Juizado de Violência Domésti-ca contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (GALVÃO, 2017).

4- Não Íntimo: trata-se da modalidade cujo autor não possui nenhuma relação com a vítima, simplesmente o autor refere-se a um desconhecido. O termo desconhecido pode refe-rir-se a um vizinho que não possui intimidade, por exemplo.

O feminicídio é denominado como íntimo, quando o homicídio é cometido por quem àmulher tem ou teve uma relação íntima, familiar ou de convivência; não-íntimo, quando inexistem tais relações; por conexões, nos casos de aberratio ictus, por estarem na linha de fogo de uma pessoa com a intenção de matar outra mulher e por ocupações estigmatizadas, quando são assassinadas devido a misoginia, ou,

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aversão ao sexo feminino (DORATEU, ANDRADE, 2015 apud VÁSQUEZ, JE-SUS, 2014).

5- Por conexão:

Morte de uma mulher que está „na linha de fogo‟, no mesmo local onde um homem mata ou tenta matar outra mulher. Pode se tratar de uma amiga ou parente da vítima, ou também de uma mulher estranha que se encontrava no mesmo local onde o agres-sor atacou a vítima. (GALVÃO, 2017 apud ONU, 2016, p.21).

6- Racista: Modalidade cujo autor possui ódio referente a origem étnica da mulher.

O Mapa da Violência 2015 também mostra que a taxa de assassinatos de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Chama atenção também que no mesmo período o número de homicídios de mulheres brancas tenha diminuído 9,8%, caindo de 1.747, em 2003, para 1.576, em 2013. (GALVÃO, 2017).

7- Lesbofóbico: Modalidade cujo autor possui ódio referente a orientação sexual da mulher.

8- Por Tráfico de Pessoas:

Morte de mulheres produzida em situação de tráfico de pessoas. Por „tráfico‟, enten-de-se o recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pes-soas, valendo-se de ameaças ou uso da força ou outras formas de coação, quer seja rapto, fraude, engano, abuso de poder, ou concessão ou recepção de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento da(s) pessoa(s), com fins de exploração. Esta exploração inclui, no mínimo, a prostituição alheia ou outras formas de exploração sexual, os trabalhos ou serviços forçados, a escravidão ou práticas análogas à escra-vidão, a servidão ou a extração de órgãos. (GALVÃO, 2017 apud ONU, 2016, p.21).

9- Por Contrabando de Pessoas:

Morte de mulheres produzida em situação de contrabando de migrantes. Por „con-trabando‟, entende-se a facilitação da entrada ilegal de uma pessoa em um Estado do qual a mesma não seja cidadã ou residente permanente, no intuito de obter, direta ou indiretamente, um benefício financeiro ou outro benefício de ordem material. (GALVÃO, 2017 apud ONU, 2016, p.21).

10- Por mutilação Genital Feminina: Ato pelo qual decorre a morte da mulher em de-corrência da mutilação feminina cometida pelo autor.

Diante dessas modalidades, é evidente que o crime de Feminicídio é muito amplo, tendo um rol com várias interpretações. Entretanto, deve ser destacado que no Brasil, a

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moda-lidade mais exercida é aquela cuja vítima e o autor possuem algum vínculo de afeto, ou seja, o Feminicídio íntimo.

Assim, diferentemente de outros países da América Latina, em que o homicídio asso-ciado à violência sexual por gangues ou desconhecidos é o mais preocupante, no Bra-sil, uma parcela significativa desses homicídios é praticada por alguém que manteve ou mantém uma relação de afeto com a vítima. (GALVÃO, 2017)

Desse modo, é vultoso distinguir sobre Feminicídio e o Crime Passional, ou seja, o Ho-micídio Privilegiado, previsto no Artigo 121 §1º do Código Penal Brasileiro:

Art. 121. Matar alguém:

§ 1º Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou mo-ral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da ví-tima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço (BRASIL, 1940).

Greco (2011) particulariza o domínio, necessariamente devendo o autor estar comple-tamente dominado pelo contexto, não configurando o caso do autor agir por mera influência.

O Homicídio Privilegiado é popularmente conhecido como Crime Passional, crime de amor, aquele cometido em razão de ciúmes, do sentimento de posse sobre a pessoa ou pela relação de afeto. É aquele criado para “perdoar” o autor devido as condições extremas que este presenciou.

Crimes passionais são aqueles que resultam de um relacionamento em que a paixão humana se sobrepõe ao amor verdadeiro. Pode ser de relações heterossexuais ou ho-moafetivas, desde que haja, como elemento básico, o sentimento de paixão pelo outro. Quando se fala em crime passional, temos que levar em consideração que estamos fa-lando de tudo que se refere a sentimentos e ciúmes nos relacionamentos. Na lição freu-diana, pode ter origem nas neuroses e psicoses que decorrem da sexualidade humana. Talvez por isso, é muito raro registro de reincidência nos crimes passionais.( ANJOS, 2016).

A redução em questão só é válida com o reconhecimento do Tribunal do júri, João Ha-roldo dos Anjos discorre sobre o tratamento da lei penal perante o crime passional:

A paixão surge no Código Penal de 1940 como uma espécie de redução de pena. Quando se fala em paixão, o Direito trata de uma forma e a Psicologia de outra, por-que pode ser um caso de delinquência mental do agente assassino. Mas do ponto de vista jurídico e filosófico, a paixão seria apenas uma forma de reduzir a responsabi-lidade penal, visto que não exclui totalmente a prática do crime de homicídio. Essa redução de pena só pode ocorrer quando for reconhecido pelo Tribunal do Júri que o crime foi cometido sob o domínio de uma violenta emoção, logo após uma injusta provocação da vítima (ANJOS, 2016).

Referências

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