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ACORDO SOBRE RESIDÊNCIA 1

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Academic year: 2021

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A CIRCULAÇÃO LABORAL DOS IMIGRANTES MERCOSULINOS: ANÁLISE DO ACORDO SOBRE RESIDÊNCIA

Autor(es): GRUPPELLI, Jaqueline Lisbôa; SALDANHA, Jânia Maria Lopes Apresentador: JAQUELINE LISBÔA GRUPPELLI

Orientador: JÂNIA MARIA LOPES SALDANHA Revisor 1: JORGE LUIZ DA CUNHA

Revisor 2: LUIZ ERNANI BONESSO DE ARAUJO

Instituição: UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

A CIRCULAÇÃO LABORAL DOS IMIGRANTES MERCOSULINOS: ANÁLISE DO ACORDO SOBRE RESIDÊNCIA1

GRUPPELLI, Jaqueline Lisbôa2; SALDANHA, Jânia Maria Lopes3

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Resultado parcial da pesquisa intitulada “O Sistema Autônomo de Solução de Controvérsias do Mercosul e as Cortes Supremas de Justiça dos seus Países-membros: Direitos Humanos e perspectivas para a consolidação da cidadania”, desenvolvida com apoio do CNPq Brasil, sob a

Coordenação da Profª. Drª. Jânia Maria Lopes Saldanha.

2Mestranda em Integração Latino-Americana na Universidade Federal de Santa Maria/RS (MILA/UFSM). Bolsista da CAPES. E-mail: [email protected]

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Orientadora. Doutora em Direito Público da Unisinos. Coordenadora e Professora do Mestrado em Integração Latino-Americana na Universidade Federal de Santa Maria/RS (MILA/UFSM). E-mail:

[email protected]

1. INTRODUÇÃO

O ser humano desloca-se pelo mundo pelas mais diversas razões, seja em função de guerras, perseguições religiosas ou xenofobismo, situações que vão de encontro aos direitos humanos mais fundamentais.

Contudo, a necessidade de prover o próprio sustento e de sua família talvez seja a mais nobre das razões pela qual o homem necessita movimentar-se. Esta movimentação acentua-se à medida que os processos crescentes da economia e ampliação dos mercados internacionalizam-se, o que tende a propiciar o estímulo aos movimentos migratórios em escala internacional (Zamberlam, 2004).

O fato de um país vizinho oferecer melhores opções e condições de trabalho estimula o aumento das migrações, as quais muitas vezes são realizadas não como uma preferência, mas como uma decisão forçada do imigrante de deslocar-se na busca por uma vida melhor. Ao atravessar uma fronteira, o estrangeiro carrega consigo direitos inalienáveis a qualquer pessoa, os quais não devem ser violados e, tampouco, ignorados (Piovesan, 2002).

Em se tratando das migrações na América Latina, especificamente no âmbito do Mercosul – bloco de integração regional formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, denominados Estados Partes, cuja instituição se deu no ano de 1991 –, a

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comunicação direta entre direitos humanos e economia torna-se imprescindível (Delmas-Marty, 2003).

Não obstante, mesmo em meio à natureza comercial do Mercosul (Seitenfus, 2004), há que se perceber que os direitos dos cidadãos que o integram, em especial os imigrantes laborais, não devem ficar à margem desse processo de integração. Ainda que os indivíduos não sejam o foco inicial para que uma integração regional se perfectibilize, é inevitável reconhecer que muitos desses trabalhadores contribuíram e contribuem para que o desenvolvimento de certas regiões tome proporções maiores. Onde o tráfego humano é mais intenso percebem-se as mais dinâmicas civilizações (Cavarzere, 2001).

Assim, dentre a normativa social do Mercosul, destaca-se o Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Partes do Mercosul, subscrito por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai em 06 de dezembro de 2002. O objetivo primordial deste Acordo é conferir aos imigrantes nacionais o status de residente, a fim de que estes tenham os mesmos direitos civis e sociais atribuídos ao indivíduo do país de recepção, em especial o direito de trabalhar em um dos Estados Partes.

Desta forma, o teor do Acordo sobre Residência prima pela implementação de uma política de livre circulação de pessoas; regularização da situação migratória dos imigrantes nacionais dos Estados Partes na região; e pela necessidade de combater o tráfico de pessoas para fins de exploração de mão-de-obra.

Nesse diapasão, o presente trabalho objetivou investigar a eficácia do Acordo sobre Residência em relação ao exercício do direito social ao trabalho dos imigrantes nacionais desses Estados.

2. METODOLOGIA

O estudo assume uma abordagem histórica-comparativa, por sua relevante importância para a compreensão da atualidade; estudos atuais, pelo seu alcance temporal e críticos pelo seu caráter. Paralelo a isto, a metodologia baseia-se em pesquisas bibliográficas as quais abrangem a legislação nacional e internacional dos Estados Partes do Mercosul, bem como a normativa de cunho social mercosulina, ou seja, instrumentos de análise baseados no direito da integração, direitos humanos, direito constitucional e processual; direito comparado e direito comunitário; além disso, a doutrina pertinente acerca do assunto.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Com pouco mais de 15 anos de história, o Mercosul tem apresentado incipientes avanços na integração social regional. Alguns documentos subscritos pelos Estados Partes que fomentam o fortalecimento da integração, a partir da proteção dos direitos humanos, carecem de vigência e eficácia na esfera Mercosul, justamente em função da inexistência de aplicabilidade direta das normas mercosulinas e da ausência de primazia destas sobre as nacionais (Ventura, 2003).

O Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Partes do Mercosul é reflexo do embrionário avanço das relações sociais na região. Este ato multilateral recentemente assinado estabelece os princípios da igualdade e da não discriminação, atribuindo direitos e liberdades aos imigrantes do Mercosul.

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Com efeito, a partir do momento em que o nacional de um dos Estados Partes deseja residir legalmente no território de outro Estado Parte, mediante comprovação dos documentos previstos no Acordo, este cidadão obtém o status de residente. Esta aquisição lhe confere os mesmos direitos e liberdades civis e sociais atribuídos aos nacionais do país de recepção, em especial o direito ao trabalho.

Uma vez concedida a residência temporária ao imigrante, este terá livre direito à entrada, saída, circulação e permanência no território do país de recepção, bastando o prévio cumprimento das formalidades previstas no Acordo. Além disto, poderá trabalhar, investir e residir no país que lhe conceder o status de residente.

No tocante ao direito social ao trabalho, o inciso 3 do artigo 9º preconiza a igualdade de tratamento entre os imigrantes residentes e os nacionais do país de recepção em relação à aplicação da legislação trabalhista, especialmente em matéria de remuneração, condições de trabalho e seguro social.

A partir da autorização de residência, este Acordo prevê soluções para problemas há muito discutidos no Mercosul, os quais estão previstos no próprio teor do documento, quais sejam: implementar uma política de livre circulação de pessoas; solucionar a situação migratória dos povos mercosulinos e combater o tráfico de pessoas. Problemas que, sem dúvida nenhuma, obstaculizam o fortalecimento da integração regional.

Diante do exposto, tem-se que o Acordo sobre Residência é um documento de grande relevância social, sobretudo no que diz respeito à circulação laboral dos imigrantes mercosulinos, tanto os que desejam residir e trabalhar no solo vizinho de forma legal, quanto aqueles que já residem e trabalham de forma ilegal.

E aqui consta o diferencial desta normativa, pois concede aos imigrantes mercosulinos ilegais a possibilidade de solicitarem a regularização, independentemente da condição em que os mesmos ingressaram no território vizinho, o que permite obter residência legal e assim beneficiar-se de todos os direitos e liberdades previstos neste documento.

Por outro lado, tal normativa reflete um entrave jurisdicional previsto no Mercosul. Subscrito em 06 de dezembro de 2002 por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, este Acordo ainda não se encontra vigente no Mercosul. Para que isto ocorra, os quatro Estados devem comunicar ao Paraguai – o qual é depositário deste instrumento –, o cumprimento das formalidades internas necessárias para a vigência do mesmo.

A Argentina depositou a ratificação no dia 19 de julho de 2004; o Brasil, no dia 23 de agosto de 2004, através do Decreto Legislativo nº 210, de 20 de maio de 2004; e, o Uruguai, no dia 08 de março de 2006, através da Lei nº 17.927. Já o Paraguai encontra-se em condição pendente, ou seja, pela inércia deste país, o Acordo sobre Residência ainda não está surtindo efeitos no dia-a-dia dos povos dos quatro países não sendo, portanto, considerado norma Mercosul entre os Estados signatários.

Tal lacuna está fundamentada no Protocolo de Ouro Preto (POP), sobre a estrutura institucional do Mercosul, de 17 de dezembro de 1994, cujo teor não prevê aplicabilidade direta das normas e, tampouco, primazia sobre as nacionais. Para a efetiva e simultânea entrada em vigor de determinado documento, uma vez aprovada a norma Mercosul, os quatro Estados Partes deverão adotar as medidas necessárias para ratificá-la e incorporá-la.

Ressalte-se que o POP não prevê prazo para tais procedimentos e, tampouco, algum tipo de sanção ao Estado que demorar a efetuar a ratificação e incorporação; ou, que nunca efetivamente o faça.

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Em contrapartida, as normas mercosulinas não prevêem oposição quanto à ratificação e vigência de algum documento no âmbito bilateral entre os países envolvidos, porém, não se tratará de uma fonte jurídica do Mercosul. No próprio teor do Acordo analisado inexiste uma cláusula que preveja a possibilidade ou não da entrada em vigência parcial desta normativa entre alguns dos Estados Partes.

Diante desta faculdade, o conteúdo do Acordo sobre Residência encontra-se produzindo impactos humanitários de forma bilateral nos territórios de Brasil e Argentina e Brasil e Uruguai, desde agosto/06 e outubro/06, respectivamente, desencadeando, portanto, benefícios a estas populações de forma à parte ao bloco. Estas atitudes vão de encontro aos auspícios de fortalecimento da integração regional pretendida, outrora firmados pelos países do Mercosul.

A resistência dos Estados Partes às cláusulas sociais é altamente perceptível, refletindo na estagnação do processo de integração social regional (Ventura; Rolim, 2002). Mesmo possuindo diversos documentos, cujos teores fomentam a integração e inserção dos trabalhadores imigrantes mercosulinos, os mesmos não transcendem seus conteúdos para a efetiva prática no dia-a-dia destes cidadãos.

4. CONCLUSÕES

O Acordo sobre Residência representa um marco social da integração mercosulina, diretamente relacionado ao impacto humanitário das migrações laborais. Contudo, diante da resistência do Mercosul à efetividade uniforme das cláusulas sociais, percebida pelo vácuo legislativo que o envolve, dificilmente a integração se sustentará sem o devido comprometimento dos Estados para com os direitos humanos dos indivíduos que a unificam.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Acordo sobre Residência para Nacionais dos Estados Partes do Mercosul. Disponível em: <http://www2.mre.gov.br/dai/m_12_2002.htm> Acesso em: 24 jul. 2007

CAVARZERE, T. T. Direito internacional da pessoa humana: a circulação internacional de pessoas. 2.ed. ver. e atual. Rio de Janeiro: Renovar, 2001.

DELMAS-MARTY, M. Três Desafios para um Direito Mundial. Rio de Janeiro: Editora Lumen Juris, 2003.

PARAGUAY. Ministerio de Relaciones Exteriores. Estado de ratificaciones y vigencias de tratados y protocolos del Mercosur y Estados asociados.

Disponível em:

<http://www.mre.gov.py/dependencias/tratados/mercosur/registro%20mercosur/merc osurprincipal.htm> Acesso em: 21 jul. 2007

PIOVESAN, F. Direitos humanos, globalização econômica e integração regional: desafios do direito constitucional internacional. São Paulo: Max Limonad, 2002.

MERCOSUL. Secretaría del Mercosur. Protocolo de Ouro Preto. Disponível em: <http://www.mercosur.int/msweb/principal/contenido.asp> Acesso em: 13 jul. 2006. SEITENFUS, R. Relações Internacionais. São Paulo: Manole, 2004.

VENTURA, D. As assimetrias entre o Mercosul e a União Européia: os desafios de uma associação inter-regional. São Paulo: Manole, 2003.

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______; ROLIM, M. Os Direitos Humanos e o Mercosul: uma agenda (urgente) para além do mercado. 2002. Disponível em: <http://www.rolim.com.br/2002/_pdfs/dhmercosul.pdf> Acesso em: 03 jul. 2007. ZAMBERLAM, J. O processo migratório no Brasil e os desafios da mobilidade humana na globalização. Porto Alegre: Pallotti, 2004.

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