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O adolescente contemporâneo e sua relação com a lei

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO

CURSO DE PSICOLOGIA

VITÓRIA QUEVEDO PIMENTEL

O ADOLESCENTE CONTEMPORÂNEO E SUA RELAÇÃO COM A LEI

Trabalho de Conclusão de Curso

Ijuí – RS 2019

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VITÓRIA QUEVEDO PIMENTEL

O ADOLESCENTE CONTEMPORÂNEO E SUA RELAÇÃO COM A LEI

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – UNIJUÍ, como requisito parcial à obtenção do título de Psicólogo.

Orientadora Acadêmica: Sonia Aparecida da Costa Fengler

Ijuí – RS 2019

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente agradeço a Deus por tudo que conquistei até o presente momento, a família a qual tenho o orgulho em fazer parte por não medir esforços para que minha formação fosse concluída tanto no emocional quanto no financeiro, acreditando, sonhando, estando constantemente ao meu lado e respeitando os momentos os quais não pude me fazer presente, esse trabalho e minha eterna gratidão dedico a vocês. Ao meu namorado por entender minha ausência nesse momento e incansavelmente me apoiar na escolha profissional que fiz.

Aos meus sogros, minha segunda família, por me acolherem como filha em sua casa, não medindo esforços para auxiliarem nesta graduação.

Sou grata a minha orientadora por apostar junto comigo nesse projeto, desde os primeiros pensares se fazendo presente, auxiliando na direção da pesquisa e me manter motivada durante esse processo acadêmico. Seus ensinamentos foram de suma importância para o êxito dessa pesquisa.

Agradeço as minhas amigas por sempre se fazem presentes em meu percurso acadêmico, compartilhando anseios, conhecimentos e acima de tudo, por compartilharem das experiências da profissão de ser um psicólogo comigo.

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RESUMO

O presente escrito visa contemplar a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), de ordem bibliográfica. Tem como objetivo de pesquisa compreender a influência do declínio do Nome-do-Pai para os adolescentes que venham a burlar as normas socialmente estabelecidas trabalhando o processo de desenvolvimento do sujeito, traçando seu percurso pelo Complexo de Édipo e Estádio do Espelho, da infância ao reaparecimento no processo adolescente. Aponta questões referentes à formação de grupos, como o desligamento das figuras parentais considerando respectivamente a forma como o adolescente transita pela lei. O trabalho articula a lei em dois vieses, como estatuto, inicialmente, e simbólica (Lei do Pai). Para isso, utiliza como embasamento teórico as contribuições da psicanálise a partir dos autores: Backes, Calligaris, Corso, Freud, Guyomard, Lacan, Melman, Rassial, Rilho, Roudinesco e Sena.

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ABSTRACT

This writing aims to contemplate the course conclusion course (TCC), of bibliographic order. The research aims to understand the influence of the decline of the Name-of-the-Father for adolescents who will circumvent the socially established norms working the process of development of the subject, tracing their journey through the Oedipus Complex and Mirror Stadium, from childhood to reappearance in the adolescent process. It points to questions related to the formation of groups, such as the detachment of parental figures considering respectively how the adolescent transits through the law. The work articulates the law in two biases, as statute, initially, and symbolic (Law of the Father). For this, it uses as theoretical basis the contributions of psychoanalysis from the authors: Backes, Calligaris, Corso, Freud, Guyomard, Lacan, Melman, Rassial, Rilho, Roudinesco and Sena.

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“Os dois grandes problemas da adolescência são: encontrar um lugar na sociedade e, ao mesmo tempo, encontrar-se.”

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 7

1.ADOLESCÊNCIA E SUA CONSTITUIÇÃO NA PSICANÁLISE ... 9

2. ADOLESCÊNCIA E A LEI ... 18

2.1. A Lei enquanto Escrita e a Lei Simbólica ... 25

2.2. A Lei do Pai ... 27

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 34

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INTRODUÇÃO

Ao tratar da adolescência, inicialmente vem em questão todo um conflito, um drama propriamente dito, o qual não é da ignorância, mas o de um saber em excesso. A origem, como aborda Rassial (1997, p.18), é de um “[...] mal recalcado, e de seu retorno brutal, após alguns inúteis anos a elaborar seu esquecimento, que agitam esse jovem e perturbam o seu meio [...]”. E, se este saber, vem se aparentar a partir de algo catastrófico e ameaçador, justamente pelo fato de que o adolescente quer descobrir sobre os limites e a incoerência da promessa edípica, do inoportuno dos questionamentos sobre o seu ser. Trata-se de uma incompletude de um saber ideal, equívocos dos discursos socialmente apresentados ao jovem. Rassial (1997) relata que com o efeito após a passagem edípica, o processo de adolescer é o segundo encontro verdadeiro com os limites de uma onipotência, e esse é mantido da infância à fase de latência e em continuidade com o processo de adolescência. O adolescente frente a essas questões, acaba por confrontar a si mesmo e aos outros em relação a sua impotência, interdição e ao impossível, de forma que “[...] à impotência imaginária que afeta um corpo construído na infância, à interdição simbólica que constitui o eixo da língua em que se prometia mentirosamente o gozo, ao impossível real de um ato sexual que funda a relação ao Outro [...]” (1997, p. 19).

Frente a essas questões, nota-se que o adolescente encontra-se em um lugar indefinido, pois tudo o que lhe fora desenhado enquanto criança de autoridade e autonomia se perde nesse processo, o que, por vezes, o direciona a responder de forma agressiva, infligindo à lei e os espaços os quais lhe possibilitem algum status.

Sabe-se que o sujeito existe através do simbólico, o qual é transmitido pela linguagem na fase inicial de seu desenvolvimento pela família. A partir de tais prerrogativas o presente escrito visa esclarecer o adolescente contemporâneo e sua relação com a lei, buscando na literatura cientifica respaldo para tratar sobre todo o processo de adolescer em psicanálise, interligando as fases pelas quais o adolescente já passou em sua infância e que irá reviver em seu processo de desenvolvimento.

A questão a qual norteou esta pesquisa fora a experiência de estágio em ênfase educacional, que possibilitou o contato diretamente com adolescentes, podendo assim pensar sobre influência que o declínio do Nome-do-Pai tem para os adolescentes sedentos por limites.

O presente escrito se divide em dois capítulos. O primeiro visa traçar todo o percurso pelo qual o jovem passa até seu processo de adolescência, apontando principalmente, marcos

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como o Complexo de Édipo, Estádio do Espelho e as formas como o sujeito transita novamente por essas passagens, ainda se deparando com uma posição de não ser mais uma criança e tão pouco um adulto, estando justamente a procura de um reconhecimento enquanto indivíduo.

O segundo capítulo aborda a formação de grupos apontando o desligamento da família e a forma como o adolescente vai transitar sobre a lei, a fim de pensar o que o leva a infligir às normas? E o que esse ato tem como objetivo?

Inicialmente articula a entrada da lei como estatuto e aquilo que ela preza. Posteriormente trabalha-se a lei do pai e como esse lugar foi ficando indefinido no passar dos tempos, apontando a entrada da mulher no contexto contemporâneo como alguém que poda a onipotência da função paterna. Busca-se, desta forma, compreender o porquê do adolescente buscar no real o estatuto e o reconhecimento, e principalmente, o pedido de algo que direcione seu fazer e possibilite um novo espaço para a sua subjetividade.

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1. ADOLESCÊNCIA E SUA CONSTITUIÇÃO NA PSICANÁLISE

A Contemporaneidade vem se configurando por um declínio de um pai simbólico, algo permanece em falta para assegurar a permanência do desejo, consequentemente a inscrição simbólica psíquica não se depara com o que “não é possível”. A sociedade encontra-se em uma fluidez, que vai à contramão do que encontra-se compreendia como uma sociedade tradicional, e a partir desse declínio do Nome do Pai no simbólico, os indivíduos se encontram em um constante pedido de um pai no real, onipotente, que instaure a lei e seja o mediador desse gozo sem fim. E mediante a todo esse caos, se encontra ainda o processo de adolescer, onde o sujeito busca no outro algo que norteie seu fazer, ou ao menos que de a possibilidade pare este se posicionar frente ao outro (CALLIGARIS, 1989).

Assim para compreender o processo de adolescer, torna-se necessário entender como este se presencia diante a constituição psíquica da criança. Lacan (1957-58) descreve o Complexo de Édipo situando-o em três períodos. Em um primeiro momento a mãe põe o filho no lugar do que falta, na medida em que imagina o filho como falo. A mãe desenvolve uma relação “fusional” com a criança, cuidando e satisfazendo suas necessidades orgânicas e psíquicas. Nesta relação o falo é representado como corpo, sendo que o desejo materno é o da criança, permanecendo velada a vontade paterna.

Já em um segundo momento do Édipo, o pai entra para tirar o filho do lugar de falo. Para o filho, coloca-se a questão de ser ou não ser o falo, sendo que a mãe já não deseja apenas ele. Nesse período o pai começa a se revelar como anunciador da lei, uma vez pelo valor que tem a palavra desse pai para a mãe, sendo esta eficaz com a criança. Neste tempo do Édipo a criança se frustra ao descobrir não ser o falo da mãe, entrando a rivalidade da criança com o pai.

No terceiro momento a criança passa a notar que não preencherá falta na mãe, que não é o falo e o pai também não o é. Não existe mais hostilidade, “rivalização” com o pai. O pai instaura a lei, simbolizada pela criança. A possibilidade de a criança desejar fora da relação dual com a mãe é o que possibilita a entrada do sujeito na neurose, sendo que o pai possui papel essencial. Essa passagem deixa marcas na criança e a mesma vai revê-las na passagem pela adolescência.

O autor ressalta que nesse processo o sujeito ainda busca no sexo oposto as semelhanças familiares, nesse sentindo a menina busca no parceiro algo que se assemelhe no pai, e o menino algo que lhe faça lembrar-se da mãe, de forma que deixe para trás subjetivamente todos seus desejos incestuosos pela figura parental.

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O processo de adolescência como já citado se dá como um reencontro com o período edípico, contemplando também as mudanças do corpo real, agora reconhecido pelo social como mecanismo de prazer. Quanto à parte subjetiva o adolescente passa por uma série de conflitos onde deseja suprir os sonhos e idealizações parentais, ou ser o oposto do seu convívio familiar. Assim Corso (2004, p.132) coloca:

Aliás, na adolescência é de inversão mesmo que se trata, pois se a infância realiza o trabalho de transformar amor em identificação, podemos dizer que o trabalho da adolescência é o seu contrário. A juventude é a imposição do exercício (imaginário e ou factual) do amor, onde a consistência até então adquirida é posta à prova e mostra suas arestas, dando ocasião para que as histórias amorosas infantis, que pareciam dormir se traduzam numa fantasia, num idílio, numa obsessão.

Na adolescência o indivíduo se depara com as questões de ser adolescente e esta prerrogativa aparece por ser uma posição em que o sujeito já não é mais visto como criança, mas também não se encontra capacitado para a vida adulta, sendo esta uma condição de não lugar no olhar dos adultos, não há um investimento como semelhante. Assim pode-se compreender que o adolescente não reconhece um lugar de desejo no olhar do outro parental. Desta forma, Corso (2004, p. 132) complementa, “[...] é quando vamos tentar ver o que valemos fora de casa, assumir o quanto desejamos e, acima de tudo, o quanto ainda precisamos ser desejados [...]”.

A autora ainda contribui que a adolescência tanto do sexo feminino quanto masculino, através de uma separação difícil dos pais, quanto tortuosa, lança o sujeito para uma condição sexuada e desejante. No entanto para isso se tornar possível o sujeito tende a se deparar com a necessidade de se fazer desejar por alguém. Desta forma, ele se torna independente do laço familiar, mas ao mesmo tempo escravo do amor, visto que um sujeito pra continuar a trilhar seu percurso como um bom neurótico depende do investimento libidinal de outro semelhante.

Vale destacar que a adolescência conta também com o encontro a puberdade e esta da conta do que é físico, sendo responsável pelas mudanças visíveis, sendo assim a marca que permite calcular o começo da adolescência. Todavia a adolescência como termo seria todo o conjunto de transformações vividas pelo sujeito, de forma que considere as mudanças corporais juntamente com o que condiz o psíquico do sujeito.

Calligaris (2000) em “A Adolescência” traz que aos doze anos aproximadamente a criança já precisa estar em uma posição desejável e invejável, permitindo assim os corpos amar, copular e gozar, levando o sujeito na posição de invejáveis sucessos sociais. Entretanto

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o jovem ainda não estará em sua total maturação, este segundo o autor, terá de passar por algumas etapas, tais como assimilação dos valores tanto banais como compartilhados com a sociedade, adquirindo assim a capacidade de competir de igual para igual com o mundo.

Backes (2004) ao referenciar Rassial (1997), coloca que os adultos costumam fazer diversas promessas para as crianças, principalmente no momento da circulação edípica, no sentindo da criança ainda ser pequena para determinadas coisas, causando nesta um anseio por crescer, prometendo um mundo maravilhoso e idealizado. O intuito desta atitude familiar é justamente que a criança desista da disputa edípica. “[...] Se ela desiste, se aceita o duplo interdito do incesto e do assassinato, é porque ela acredita na promessa, na palavra abdicando a “mãe e aceita que o pai faça função, que o pai lhe dê um nome e o inscreva na filiação [...]” (2004, p.39)”. Esta renúncia vem da ordem da palavra, da promessa que faz a alteridade, a qual permite de forma delicada fazer o corte, deixando a adolescência como um lugar glorioso para a criança, prometendo um futuro promissor, possibilitando uma total realização para o sujeito. O que segundo a autora faz da adolescência um “momento lógico”, e não uma “fase do desenvolvimento”.

Assim Calligaris (2000) coloca que existe um sujeito capaz e instruído, seja pela escola, pais ou mídia. Contudo este ainda não é reconhecido como um adulto, pois precisa de um tempo de suspensão entre a chegada da maturação até autorização a realização destes ditos valores impostos pela sociedade. Essa autorização acaba por ser postergada e o tempo determinado por suspensão seria denominado de adolescência.

A adolescência se encontra em uma notável contradição entre o ideal de autonomia e a continua dependência imposta pelo espaço que ocupa em sua moratória, sendo esta idealizada pela cultura, como algo basicamente impossível, pois conforme Calligaris (2000) seria um tempo particularmente feliz. No entanto este seria um momento de extrema irritação para o sujeito, pois o modelo por ele idealizado iria à contramão do que o social tem como possibilidade, no qual o adolescente apropria-se dessa etapa como uma zombaria do seu ser.

Inicialmente compreendeu-se essa irritação como resposta da puberdade, porque esta fica em encontro com as mudanças hormonais, o que na verdade seria relevante, porém trata-se de deslocamento social em busca de ceder a trata-seus detrata-sejos mais primitivos, a fim de conhecer os desejos sexuais. Lembrando que estes desejos já nascem com o sujeito, sendo que é na adolescência que serão reconhecidos.

O adolescente segundo o autor ao deparar-se com essa transformação, olha-se no espelho e percebe perder a graça infantil, a garantia do amor incondicional parental, se deparando com um corpo estranho e fragmentado sem qualquer garantia de completude frente

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ao outro, consequentemente não se encontra como uma criança amada, tão menos quanto um adulto reconhecido.

Backes (2004) retoma a teoria lacaniana do estádio do espelho, e este seria justamente o momento em que o sujeito é tomado por aquilo que vê, sendo durante as três fases do espelho que ele consegue se identificar e localizar no outro. Os tempos do espelho se subdividem em primeiro momento quando a criança não percebe a imagem do seu corpo, toma-a como se pertencesse a outro ser real. No segundo, o outro do espelho não é real, mas uma imagem, e por fim no terceiro a imagem do espelho é sua, esse corpo é seu. A autora relata que se trata da fundação do eu pela imagem especular, assim criando dois elementos o eu e o Outro, o modelo de imagem, sujeito e objeto e o que é original ou cópia.

Segundo a autora, a criança ao perceber-se frente ao espelho, se reconhece, no entanto algo se apresenta como uma imagem ideal, como tanto além quanto aquém dela, nesse momento já demonstrando sua fragilidade narcísica, uma vulnerabilidade prematura, como alguém imaturo e insuficiente para dar conta dessa imagem, por isso esse ser se apoia no outro primordial, havendo nesse momento um investimento e a possibilidade de se desenvolver sem essa fragilização. Tratando-se assim de uma experiência narcísica tanto quanto importante, a qual segundo o autor:

Pois é necessário ao sujeito, ou tolerar o outro como uma imagem insuportável, porque passível de ser desenhada, contornada, articulada, ou quebrá-lo (matá-lo) imediatamente diante insuportabilidade de sua própria existência inadequada, revelada pela comparação com a imagem do outro do espelho. Mas essa imagem a ser destruída é ele próprio também; por isso a morte, nesse contexto narcísico, é sempre presente, embora enquanto morte imaginária (BACKES, 2004, p.32).

Esse narcisismo frente ao espelho é justamente marcado pela falta de um indivíduo ideal que necessita ser conquistado por uma identificação simbólica. O sujeito nada mais é do que uma coisa estranha a ele mesmo sendo em seu interior chamado de Eu, necessitando assim de uma sustentação física e metafórica. No entanto, na passagem adolescente o sujeito interroga o outro parental quanto aquele ser capaz de fazê-lo passar por essa prerrogativa narcísica.

A ideia do espelho para o sujeito seria para determinar as funções de imagem a fim de estabelecer a relação entre o organismo e sua realidade, as relações internas com as circundantes, e quem faz essa ponte no processo de desenvolvimento do bebê é a mãe, o Outro primordial, pois a criança acredita que ela possui todo o saber sobre a relação com o

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mundo, sem em momento algum colocar em questão essa detentora do falo. Nesse momento a criança ainda não se deparou com a castração da mãe (BACKES 2004).

O espelho para o adolescente causa tanto a tentação quanto à frustração. Ele está em um determinado desenvolvimento psíquico o que ele mais deseja ver frente a aquele espelho é justamente o olhar do outro. O objeto em questão assim se torna algo vazio, ou até mesmo com um duplo resultado para este, onde por vezes encontra o que acredita que o outro deseja dele, proporcionando desta forma uma fragilidade de imagem. Esse olhar vem acompanhando do processo de maturação, onde as espinhas o incomodam, os seios crescendo, pelos, o desenvolver do corpo sem o romantizar infantil, lhe faltando o olhar amoroso da infância, assim a insegurança se torna traço da própria adolescência tanto como a dificuldade de se relacionar (CALLIGARIS, 2000).

Na realidade esse tempo do espelho é também um tempo de reconstrução, reestruturação do eu, pois as fantasias infantis são abdicadas, sem um tempo lógico de recriação do olhar adolescente. Ele nesse tempo não se desvinculou do Outro primordial, e nem encontrou outro suficientemente bom para reintroduzir a identificação desse novo organismo, sendo esse imperfeito, e como todo bom neurótico de um longo processo de assimilação. Pode-se dizer que o jovem ainda nem deu conta do Édipo, volta à cena ocular, necessita a criação de laços, e esse processo é árduo junto com as vicissitudes que a mudança do corpo carrega.

Rassial (1997) coloca que a adolescência de partida mostra a promessa edípica como algo enganador, que nada do que antes foi prometido pelo outro parental viera a se cumprir nesse processo. A puberdade veio a fazer do corpo da criança antes traçado pela mãe um corpo semelhante de um adulto qualquer, sem quaisquer fantasias e olhar direcionado apenas ao Eu narcísico do adolescente. Este se sente enganado, pois se trata de um luto para o corpo infantil e a apreensão de um corpo adulto, como se este precisasse ser novamente contido e reescrito por outro significante.

Na adolescência, a interrogação sobre o ser retorna: a base identitária fornecida pela relação ao especular vacila, a identidade se perde. A adolescência cabe à tarefa de validar ou invalidar aquilo que o espelho ofereceu. Se o estádio do espelho oferecia a sustentação pela voz e olhar o outro primordial e o Édipo inclui o pai enquanto terceiro, a adolescência incluirá o outro de outro sexo, que jogará papel fundamental nas novas identificações. (BACKES, 2004, p.40).

A questão do adolescente “tornar-se grande”, em um tamanho maior que o de seus pais, indica ter que deixar seu corpo infantil, exigindo assim uma reconstrução do deste, e este

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não seria apenas o qual a puberdade modificou, e sim um corpo que perdeu certo valor. O adolescente deverá apropriar-se desse novo corpo sem que a mãe faça novamente recortes, deve apoderar-se do olhar, voz, sustentando por alguém do sexo oposto a sua existência e buscando novo investimento. Nesse sentindo Rassial (1997) compreende a adolescência ser uma posteriori do estádio do espelho.

Segundo Freud (1906- 1908) o sujeito ao crescer, se liberta da autoridade dos pais, o que constituiu o percurso mais necessário e árduo resultado do desenvolvimento. Essa libertação é algo essencial no percurso adolescente, se está não for feita entraríamos em uma estrutura psicótica. Nesse sentindo espera-se que o sujeito enquanto neurótico deva ter se libertado ao menos em parte, desse lugar de ser autorizado pelos pais, desvinculando essa fazer para outros estatutos, seja a educação, o Estado, as leis que o indivíduo vai vir a ser barrado em seu percurso do desenvolvimento.

Sendo assim é necessário retornar o olhar para com o infantil e a sua relação com a autoridade parental, para assim poder compreender o percurso da lei simbólica a qual o adolescente necessita transitar para dar conta do seu processo de desenvolvimento. É de extrema importância que essas fases sejam cruzadas nessa transformação de infantis para adolescente e enfim chegar à posição adulta e desejada pelo jovem, para que se faça possível o percurso dentro das bordas do social.

Ainda em Freud (1906-1908) os pais compõem para os filhos uma pequena porção de autoridade, uma fonte única dos conhecimentos ao todo. O desejo mais importante e intenso nos primeiros anos de desenvolvimento é se igualar aos pais, isso vale para o par parental do mesmo sexo, podendo esta ser tão “grande” como seus pais. No entanto ao longo do seu desenvolvimento a criança percebe que essa autoridade dos pais está em domínio de apenas algumas categorias. A criança nesse período passa a relacionar-se com outros da mesma idade, iniciando as saídas de casa, posar no coleguinha, vivenciando desta forma “novos pais”, conhecendo novas maneiras e normas, vendo que estas são constituídas de uma família a outra.

Estas novas experiências segundo o autor, dão uma autoria para a criança a começar com as críticas quanto às normas de sua casa. Nesse período chamado de latência, vem à fantasia de novos pais, a constituição de novos grupos, havendo aqui uma abertura para o social, os conhecimentos vem do mundo, período demarcado também pelo recalcamento do sexo, no qual a criança se relaciona com outras do mesmo sexo. Nesse tempo a criança busca fora do núcleo familiar, recalcando assim a questão do incesto, e nessa fase em especifico os

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meninos cortam a entrada das meninas nas relações sociais, nos grupos, pois estas de alguma forma fazem com que se lembrem da mãe, e percebam o interdito.

Nessa vivência ocorrem os impulsos sexuais mais intensos no que condiz com a rivalidade. Existe aqui um sentimento de estar sendo negligenciado, esse sentimento justificaria tais atitudes no sujeito, existindo sim diversas situações nas quais a criança esta sendo negligenciada pelos pais, ao menos assim ela se sente. Pode haver também um sentimento que não está sendo amado o suficiente pelas figuras parentais, lamentando nessa fase principalmente ter dividido o pouco de amor que recebeu com seus irmãos.

A criança sente como se todo o amor investido nos pais não esteja sendo retribuído, e encontra o sustento de tal ideia retomando em sua infância inicial, a qual traz questões do ‘tipo’ de ter sido adotada, por isso não recebe todo o afeto que deseja. O que na realidade vem em encontro com a criança em um primeiro momento ser colocada como uma majestade, onde em primeira etapa da vida é quem dita às ordens, e no decorrer deste percurso perde esse lugar de detentor do falo frente à mãe, e inconscientemente criando diversas fantasias a respeito dos pais. Por vezes a mãe ocupa lugar de madrasta, e o pai de padrasto, correspondendo na ideia infantil à falta de afeição e investimento por este desejado (FREUD, 1906-1908).

Nesse aspecto o autor ainda ressalta que alguns indivíduos que não se constituíram como neuróticos lembram com mais frequência dessas ocasiões em que na maioria das vezes em consequência de alguma leitura acabaram por interpretar e responder de forma hostil aos pais. No entanto já se evidência a influência do sexo, o que resultaria no menino ter relação hostil com o pai, buscando se libertar dele, já a menina tende a rebelar-se “mais fraca”. Ele ainda coloca que a técnica utilizada no desenvolvimento de tais fases, o que nesse período seriam da ordem consciente dependeria da capacidade de inventar da criança. E este “estádio” é alcançado em uma época na qual a criança ainda ignora os determinantes sexuais da procriação.

Quando finalmente a criança vem a conhecer a diferença entre os papéis desempenhados pelos pais e pelas mães em suas relações sexuais, empreende que 'pater semper incertus est', enquanto a mãe é certíssima o romance familiar sofre uma curiosa restrição: contenta-se em exaltar o pai da criança, deixando de lançar dúvidas sobre sua origem materna, que é encarada como fato indiscutível. Esse segundo estádio (sesxual) do romances familiar sofre o influxo de um outro motivo que está ausente do primeiro estádio (assexual). A criança que já conhece os processos sexuais tende a se imaginar em relações e situações eróticas, cuja força motivadora é o desejo de colocar a mãe (objeto da mais intensa curiosidade sexual) em situações de secreta infidelidade e em secretos casos amorosos. Dessa forma, as

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fantasias da criança, que inicialmente eram assexuais, elevam-se ao nível do seu conhecimento posterior (FREUD, 1906-1908, p. 220-1).

Freud (1906-1908) se alguém estiver pendendo a fugir de forma horrorizada perante essa atitude do coração da criança, deveria prestar atenção que nenhum desses relatos estaria ligado com algo da ficção, pois a aparente hostilidade da criança não possui uma intenção na realidade má, e sim ainda conversam, sob um leve disfarce, a primitiva afeição dela por seus pais. A “infidelidade” e a “ingratidão” são apenas aparentes, pois se for feita a análise detalhada o que aparece de comum nesse romance imaginativo é justamente a substituição dos pais por pessoas em uma situação melhorada, porque esta atribui a estes novos pais as características dos seus, mas de forma que estes só recebam as qualidades vistas pela criança. Então a criança não está se desfazendo dos pais, mas os enaltecendo. Na realidade todo esse percurso feito pela criança para a substituição dos pais “melhorados” nada mais é do que a saudade que a criança tem dos dias felizes de seu passado. Nesse tempo o pai assemelhava-se a um ser ilustre e de todos os homens o mais forte, a mãe, no entanto a mais linda e bondosa das mulheres.

O que Freud (1096-1908) traz em seu texto “Romances Familiares” é justamente o quanto é dolorida a passagem da adolescência, e que para esta é essencial o desligamento das figuras parentais, e fazer todo esse percurso fantasioso. Somente os que conseguem fazer essa passagem que poderão seguir seu processo de constituição, pois existe uma necessidade de confronto com ideal feito enquanto criança e a realidade quanto ao se tornar um adolescente, possibilitando o sujeito a criar novos conhecimentos, buscar novos modelos independentes das crenças de seus pais. Para o autor as aquisições futuras do jovem só se tornaram viáveis após esse processo de desligamento dos pais, e este depois de findada essa etapa encontrará novas possibilidades de posições diante da vida, havendo assim uma retificação da vida real, possibilitando novas fantasias e ambições.

Neste tempo é comum ainda que as brincadeiras entre os meninos e as meninas se diferenciem. Na fase pré puberal, aumenta nas meninas o desejo de intimidade com outras do mesmo sexo, com as quais se possibilitem discutir assuntos como a menstruação, sexo, paixões. Por vezes expressão que a mãe é sua melhor amiga. Os meninos, no entanto usam de brincadeiras mais competitivas, e no final deste período tendem a se tornar maiores, verdadeiros bandos. Nessa idade, as crianças apresentam padrões éticos rígidos, os grupos criam protótipos do que seriam bons ou maus amigos, por vezes não levando em conta às razões as quais podem ter levado o amigo a infringir os padrões, a se comportar desta ou

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daquela maneira. O importante para o grupo é a lealdade, saber guardar segredo, não ser um delator.

A adolescência é um período de confusões, discursos destorcidos, pois na infância se alimenta a ideia de que a juventude irá proporcionar a aquisição do falo, a possibilidade do mais gozar, e nada de frustrar-se. Ainda mais se pensarmos o contemporâneo e seu peso no fazer dos novos adolescentes. Vende-se uma felicidade invejável, deixando a tristeza e a frustração na impossibilidade.

O jovem se encontra em um corpo que não supre todos os desejos prometidos pela mãe na infância, recebe o não do social, não tem estatuto frente ao seu ser, pois tudo que acontece a palavra é direcionada aos genitores e não a ele. Como ser adolescente? A nova configuração familiar não prepara a juventude para esse processo. O discurso dos pais é tomado pela simplicidade de desejo “quero que sejam felizes”. Como se fosse possível à felicidade plena. O adolescente sofre, pois quer saber mais do que é ser feliz, e se não for totalmente o que acontece? O adolescente por não possuir um lugar, uma identidade, busca no adulto o respaldo da infância, a sabedoria dos mais velhos.

Desta forma, a pesquisa encaminha-se para um segundo momento em que irá tratar sobre a adolescência e sua relação com a lei, trazendo marcos importantes como a construção de grupos, as diferenças da lei enquanto legislativa e simbólica, e a maneira como o adolescente vai transitar no seu processo de maturidade, enfatizando também qual o papel da mulher nessa nova relação do adolescente no contemporâneo e sua relação com a lei.

Sendo assim, torna-se necessária a busca na literatura psicanalítica, as contribuições acerca dessa nova configuração adolescente, visando compreender as transgressões, e procurando, ainda, desvincular os atos adolescentes da marginalidade, pois na maioria das vezes se compreende a violência do jovem, a busca por um limite como se este estivesse vivenciando uma vida em prol da criminalidade. Acaba por se tornar corriqueiro no discurso social ver o adolescente como um criminoso pelos seus atos dessa passagem. O que por vezes é incongruente, pois nesta prática se visa um reconhecimento. A ordem dele é o que deve ser investigado.

Frente a isso, o segundo capítulo desta pesquisa faz recortes das configurações da criação de laço e como este se encontra fragilizado em relação ao pai, buscando na escrita freudiana configurações que sustentem esta afirmação e que permitam a reflexão que se manifesta como questionamento: a adolescência, atualmente, se reconfigurou ou algo se perdeu na constituição desse processo?

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2. ADOLESCÊNCIA E A LEI

Um dos principais registros da passagem adolescente seria deparar-se com a distância entre não ser mais uma criança e tão pouco um adulto, e isso possibilitaria toda a problemática vivenciada pelo adolescente que não consegue distinguir-se e reconhecer-se nessa separação, e esta permitiria o adolescente a viver “fora da lei”, de ”[...] um ponto de vista jurídico, a adolescência é o período de ambigüidade entre minoridade e maioridade, irresponsabilidade e responsabilidade, pervertendo, pela força das coisas e dos princípios, o texto de uma lei que não funciona senão por limites [...]” (RASSIAL, 2005, p. 57, erro do autor).

Nessa busca por algo que limite, determine seu lugar e sua posição frente aos outros, o adolescente passa por crises, sejam elas de identidade, lugar entre outras, embora possam ocorrer, na maior parte das vezes, por ter que dar conta das bordas que o social impõe. Essas crises podem ser causadoras de rebeldia, pois o adolescente busca o corte do cordão umbilical, entretanto, encontra-se barrado por normas sociais para pertencer ao grupo, para ter a possibilidade de fazer laços e ter uma parte de sua independência.

Isael de Jesus Sena e Maria de Lourdes Soares Ornellas Farias em “Função paterna e adolescência em suas relações com a violência escolar” trazem a contribuição de Melman sobre a adolescência, destacando que esta se caracterizaria por uma “crise psíquica”:

Propõe-se a analisar a adolescência sob o termo de “crise psíquica”, considerando o fato de que o sujeito, nesse tempo, é convocado a ocupar um novo papel, mudando o seu estatuto social, tendo que se assumir como “responsável” por seus atos, pela própria mudança subjetiva e pelo seu lugar no mundo dos adultos. O adolescente ocupa outra posição. Posição que exige rupturas, mas, ao mesmo tempo, tem a possibilidade de manifestar a sua singularidade, na medida em que faz laço social com um grupo, novas identificações que têm sempre um caráter sexual e fálico. Dúvidas e incertezas frente a essas mudanças são tentativas de responder ao Outro, uma vez que o adolescente não compreende o que o Outro quer para si. Como não entende, vai tentar adivinhar uma forma de agradar esse Outro (2010, p.119). Os autores ainda dizem que “[...] o biológico e a linguagem, o público e o privado vão se reencontrar durante essa “crise”. Assim a adolescência seria um cruzamento entre o íntimo e o social: um lugar de passagens, encontros, possibilidades, aberturas e fechamentos [...]” (2010, p.120). Frente a essa crise, por vezes, os adolescentes passam ao ato, feito este que pode levá-los à delinquência. Visto que o termo conforme Melman (1992, p. 53) “[...] a

palavra delinqüência faz referência à palavra delinquo, a qual significa “faltar com seus deveres”,

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forma, a tendência é que ele responsabilize os mecanismos sociais por tal falta. A delinquência na adolescência pode perpassar por um viés de teste das bordas, até onde o jovem é capaz de ir para sustentar seu gozo.

Rassial também fazia referencia a essa “crise”, no entanto nomeia esta como uma “crise formal”, relata que este é “[...] um limite entre dois estatutos, um regendo a criança que brinca e aprende outro o adulto que trabalha e participa da reprodução da espécie; [...]” (2005, p.58) destacando também este momento como indeciso quanto à subjetividade e carregando uma incerteza social, no qual tanto a família quanto as instituições determinam sua posição, e que neste período o adolescente se diga ou uma criança ou um adulto.

A idade dos 18 anos não proporciona ao adolescente o ápice de seu desenvolvimento, pois não lhe da à autoria por ele almejada, pois nesta idade recebe o direito ao voto, no entanto não é permitido assumir cargos eleitorais, de alguma forma acaba privando o jovem de sua completude. Nesse sentido compreende-se que o adolescente estaria determinado a um inacabamento autoritário. ”[...] Assim, nos dois casos, é evitado o alcance do apelo de um adolescente a quem aceite ouvi-lo, pois o que está então em jogo é o irredutível da relação entre ser e vir a ser [...]” (2005, p.58).

Rassial ao trabalhar as diferenças da criança e do adolescente aborda sobre o dinheiro. Relata que a criança se submete ao cofrinho como uma economia que originará em um presente, já o adulto conta com os rendimentos e o adolescente com uma mesada, que segundo ele “[...] tem por sentido a perda do presente, o “esbanjamento”, sem outra troca senão a possibilidade de gozos muito parciais [...]” (2005, p. 58). Para o autor, o dinheiro garante muito mais o funcionamento do social do que uma liberdade para o sujeito, pois sendo simbólico, trata-se de confrontar ao desejo de um Outro, que se tornou anônimo e somente identificável pelo que se supõe vir a resultar dele: um sinal ou um objeto. Desta forma a reivindicação de dinheiro do adolescente é uma demanda ao Outro de reconhecimento do seu lugar de sujeito não se tratando apenas de um valor financeiro.

O dinheiro tem por finalidade demarcar a saída da família para o encontro com o social, em direção ao que é coletivo, cinemas, shoppings, restaurantes; sendo o que marca o corte entre merecer dos pais e ter direto de estar nesse meio com outros iguais. Assim “[...] o adolescente consegue compreender que, se o dinheiro circula, é para que o sujeito permaneça [...] (2005, p.59). Nesse sentindo subverte-se as semelhanças sociais de fabricação e repartição “[...] aqueles que “pegam a estrada” ou “vivem à margem” denunciam paradoxalmente o jogo da circulação. Tentam circular “realmente” no lugar simbólico do dinheiro [...]” (2005, p.59).

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O sujeito segundo o autor existe através do simbólico, e este lhe é transmitido pela linguagem e pela família. O sujeito, no entanto busca nesse período uma ruptura com tudo que lhe foi dado nesse lugar, para poder buscar um novo lugar no social, além deste posto pelos pais, busca então “[...] uma existência social e uma aventura solitária; um local onde se reconciliariam o Imaginário do corpo, o Real da puberdade e o Simbólico da lei” (RASSIAL 2005, p. 60). Visto que o adolescente para o autor não tem um lugar simbolizado, oque por vezes levaria o adolescente a responder na formação de bandos, como algo ligado à própria marginalidade, em direção à delinquência. Existe nesse momento um real de corpo para o jovem, um jogo. Este se encontrando entre duas culturas, duas leis, duas possibilidades de respostas. O adolescente no processo de maturação é constantemente barrado pelo discurso social, no qual sempre responde de um lugar de “não totalmente”. Isso segundo Rassial (1997) gera mal estar, e este carrega consigo um pouco de história, um resto de verdades, um dejeto do discurso do mestre, da oratória do poder.

Rassial diz que por volta dos 15 anos existe a implicação de três formas de responsabilidades apontando-as como “o consentimento sexual, a impossibilidade de plena adoção, a prisão possível” (1997, p.14). Estando estas fora do regulamento da família e instituições, “[...] o adolescente pode fundar, no jogo legal de sua exclusão, no que ele deixa de simbolização impossível, a razão de outra lei, aquela do "bando" ou da "seita", então entre o limite e o período, duplo aspecto da adolescência” (1997, p.14). O que levaria o jovem ao ato, ato este que funcionaria como uma tentativa de inventar um novo espaço, novas regras, um novo meio de jogar fora da lei. “[...] o ato delinquente deve ser concebido como sintoma, em sua positividade: é ainda um apelo, até mesmo uma interpelação à sociedade [...]” (RASSIAL, 2005, p.63). O grupo por si só possibilita o jovem essa nova jogada, essas novas normas de pertencimento.

Freud em seu escrito Psicologia de grupo e a análise do ego, já trazia a importância da constituição de grupos para o sujeito, sendo o grupo aquele que possibilita o sujeito o desligamento do laço familiar e a possibilidade de laço social com seu semelhante. Em seu texto coloca o grupo como algo de origem psicológica, também como um sujeito provisório, sendo assim constituído de forma heterogênea e que em algum momento se combinam, trazendo como exemplo as células do corpo humano, nesse sentido cria-se um novo ser que oferece atributos diferentes daquele composto celular inicial, deixando assim de ser isolado para ocupar um lugar coletivo. (Freud 1921).

Freud irá apontar dois pontos importantes sobre a formação de grupos. O primeiro deles é que o sujeito ao pertencer a um grupo adquire sentimento de ser invencível, isto

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porque faz parte de uma composição numérica que o permite sentir essa grandeza, rendendo-se assim aos rendendo-seus instintos antes oprimidos por rendendo-sentir-rendendo-se só, não poderiam sê-los de outro sujeito senão dele mesmo. Assim ao pertencer a um grupo esse desejo torna-se desejo do grupo, o sujeito deste modo não precisa ser responsável por este sentimento e sim corresponder de um lugar anônimo de agrado ao grupo pertencente, o autor coloca que “[...] por conseqüência, irresponsável, o sentimento de responsabilidade que sempre controla os indivíduos, desaparece inteiramente [...]” (1921, p. 85, erro do autor).

Já o segundo ponto, se refere a não se atribuir tanta importância ao aparecimento dessas novas características:

Para nós, seria bastante dizer que, num grupo, o indivíduo é colocado sob condições que lhe permitem arrojar de si as repressões de seus impulsos instintuais inconscientes. As características aparentemente novas que então apresenta são na realidade as manifestações desse inconsciente, no qual tudo o que é mau na mente humana está contido como uma predisposição. Não há dificuldade alguma em compreender o desaparecimento da consciência ou do senso de responsabilidade, nessas circunstâncias. Há muito tempo é asserção nossa que a ‘ansiedade social’ constitui a essência do que é chamado de consciência (FREUD, 1921, p.85).

O autor ainda coloca que “[...] pelo simples fato de fazer parte de um grupo organizado, um homem desce vários degraus na escada da civilização. Isolado, pode ser um indivíduo culto; numa multidão, é um bárbaro, ou seja, uma criatura que age pelo instinto [...]” (1921, p.87) assim remetendo ao seu ser primitivo, sem culpa, sem identidade unitária, e sim identificação grupal, movido pelo entusiasmo e a violência, vive em total ferocidade. O grupo ainda em Freud é visto com palavras do autor como “impulsivo”, “mutável” e “irritável”, tomado exclusivamente pelo seu inconsciente. “[...] Os impulsos a que um grupo obedece, podem, de acordo com as circunstâncias, ser generosos ou cruéis, heróicos ou covardes, mas são sempre tão imperiosos, que nenhum interesse pessoal, nem mesmo o da autopreservação, pode fazer-se sentir [...]” (1921, p.88, erro do autor).

No entanto ao falar de grupo se supõem que nada nele é planejado, por mais que deseje de forma incondicional, o ato deste não vai vingar por longo tempo, pois nesta união não se mantém a persistência, já que é feito de imediatismo, seu desejo é gozar na hora, se isto não ocorre o ato não possui mais valor, e assim dá-se início a um investimento em uma nova idealização. “[...] Não pode tolerar qualquer demora entre seu desejo e a realização do que deseja. Tem um sentimento de onipotência: para o indivíduo num grupo a noção de impossibilidade desaparece [...]” (1921, p.88). Desta forma:

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Um grupo é extremamente crédulo e aberto à influência; não possui faculdade crítica e o improvável não existe para ele. Pensa por imagens, que se chamam umas às outras por associação (tal como surgem nos indivíduos em estados de imaginação livre), e cuja concordância com a realidade jamais é conferida por qualquer órgão razoável. Os sentimentos de um grupo são sempre muito simples e muito exagerados, de maneira que não conhece a dúvida nem a incerteza (FREUD, 1921, p.88).

Freud continua seu pensamento acerca do grupo, explicitando o que este significa no seu contexto social, trazendo os princípios que regem os mesmos, e o que buscam ,sendo que este tem por finalidade:

Fazer um juízo correto dos princípios éticos do grupo, há que levar em consideração o fato de que, quando indivíduos se reúnem num grupo, todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos, que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre (FREUD 1921, p.89).

Desta forma, tem-se a ideia do autor quanto à formação do grupo e a importância desta para a constituição do sujeito fora do lar parental, e na troca das identificações com o outro semelhante “[...] um grupo é um rebanho obediente, que nunca poderia viver sem um senhor. Possui tal anseio de obediência, que se submete instintivamente a qualquer um que se indique a si próprio como chefe [...]” (1921, p.91). O grupo em determinados momentos inflige as leis justamente na busca de tal pedido de obediência, o deseja de uma lei simbólica que acaba por operar no real, possibilitando a transição dos marcos mnêmicos do sujeito, as marcas de sua memória em seu percurso neurótico.

Nesse momento da pesquisa faz-se necessário refletir sobre as relações do adolescente com a lei, e para essa discussão autores como a Doutora em Ciências da Educação e atuante na área de Psicologia Jurídica Sônia Altoé e o filósofo e psicanalista Patrick Guymard serão interlocutores de grande valia.O autor inicialmente traz:

[...], por exemplo, no âmbito jurídico, na diferença entre o que se chama habitualmente de direito natural e direito positivo, mas que se manifesta também em todos os campos das ciências humanas, de uma maneira ou de outra. Isso quer dizer que, através dessas questões da Lei, mantém-se aberta a questão dos fundamentos das leis: a problemática da Lei é uma dimensão - penso que isso está claro para todos - que evita o que se poderia chamar de legalismo, ou seja obediência, o respeito à lei pelo respeito à lei, todas as formas administrativas de obediência, de assujeitamento, o que evacua completamente a responsabilidade individual de cada um, como se bastasse obedecer à lei para estar em regra com qualquer questão de

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responsabilidade. Portanto, invocar a Lei sempre, de uma certa maneira, invocar o direito de desobedecer, o direito de se fazer outra coisa diferente daquilo que as leis impõem, seja por julgar essas leis injustas, seja por se pensar que elas são mal feitas, ou por se pensar que as leis, no plural, estão a serviço de interesses- interesses políticos, econômicos ou outros - e que nesse momento se invoca a Lei, no singular, como um interesse superior, que apela para uma dimensão ética, que pode ser religiosa, moral, filosófica ou humana. (2007, p.4-5).

O autor ainda coloca “[...] Uma das questões da lei é também saber se é preciso fazer uma lei, pois, quando se faz uma lei, ao mesmo tempo em que se universaliza, corre-se o risco de prestar-se a certas utilizações perversas da lei e, portanto, sob alguns aspectos, de se responsabilizar [...]” (2007, p. 5). Assim só se existe lei porque existe o desejo de algo “absurdo” frente ao social.

Desta forma, Guyomard coloca que para a psicanálise desde Freud a diferença entre a lei e as leis é o centro de sua preocupação se sustentar que a psicanálise não é normativa, então que esta não está a serviço do poder nem das instituições nem das famílias, ela relativiza as leis, não oferecendo assim a cura como norma de adaptação às leis sociais. “[...] Pelo contrário, podemos dizer que, se uma ciência mostrou que a adaptação às leis de uma sociedade era um sinal de doença, que, sob certos aspectos, isso custava muito caro, essa ciência foi a psicanálise [...]” (2007, p.5).

A lei, no entanto não rege como estatuto sem se levar em consideração o movimento de seu desenvolvimento, pois existe uma a qual Freud denominou como a lei fundamental, deixando o sujeito ser apto a estar dentro de uma sociedade. Esta não visa dividir o ser social do individual, a psicanálise por si própria aumenta a separação destes, a lei que existe desde os primórdios dos estudos de Freud é a chamada lei do complexo de Édipo. Única lei tomada como universal, seja as sociedades, culturas que já se passaram que estão nesse processo e as que ainda estão por vir.

[...] É, como vocês sabem, a questão do complexo de Édipo. Freud, por exemplo, escreve que cada nova criança que chega ao mundo dos humanos está diante do dever de ter que dar conta do complexo de Édipo. Isso faz com que o complexo de Édipo, com a questão da barreira contra o incesto, se torne, de uma maneira simples mas na verdade muito complexa, o que a psicanálise chama de Lei. Lei, portanto, que proíbe o incesto e que proíbe o parricídio, ou seja, o assassinato do pai (GUYOMARD, 2007, p.6).

Segundo o autor se for feito o retorno em Totem e tabu, escrito por Freud aparece também algo ligado ao pai, mais claramente a tentativa de um assassinato do pai, estando este

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aqui mais uma vez aparecendo como lei. Se no Édipo é ele quem interdita a relação amorosa com a mãe, aqui ele é aquele que funda o saber sobre o mais gozar.

[...] Isso porque, penso que vocês se lembram da história, os filhos matam o pai, pode-se dizer, por ciúme e, portanto, para interromper seus excessos, para interromper seu gozo mas, ao mesmo tempo, para fazer como ele. O que quer dizer que eles matam o pai para serem livres, e é simplesmente depois de tê-lo morto que percebem que não podem ser livres e são obrigados a se entenderem entre si. (GUYOMARD, 2007, p.7).

Assim o autor traz que na verdade a lei do pai é na realidade a lei dos filhos, pois para ele são os filhos que instauram uma lei, pois se em Totem e Tabu matam o pai para serem livres, após o ato o que os leva a ainda respeitarem a lei? É justamente o desejo de ser a lei que o pai representava.

A lei do pai é a lei do gozo, que não tem somente a lei do pai, enquanto exterior aos filhos, mas é a lei que os próprios filhos teriam o desejo de seguir. O que quer dizer que os próprios filhos ficam divididos entre a maneira pela qual concordam entre si e essa outra coisa que é a presença, neles do pai que mataram. Se a lei do pai que foi morto é a lei da arbitrariedade e da violência, o desejo e a força dessa arbitrariedade e dessa violência habitam os filhos de todo ser humano (2007, p. 8).

Isso para o autor quer dizer então que a lei por si só é sempre eterna, e que de alguma forma ela está ali sempre sendo imposta, gerando constrangimento. Se o sujeito a suporta é justamente pelo fato desta vir do exterior, vir de um grande Outro, mas esta mesma lei é recebida pelo sujeito de forma interna, pois mesmo não possuindo mais um ditador como em Totem e Tabu esta já estaria internalizada.

Quando se trata do valor da Lei e das leis o autor coloca que “[...] em um polo, temos as leis, toda a complexidade, errância e carência que podemos constatar e, em outro, temos o que chamamos de Lei, e o que Lacan chama de lei da linguagem, lei simbólica [...]”(2007, p.20). Assim compreende-se que existem vários modos de se pensar e falar sobre leis, pois estas tem como origem inicial a lei da família, a posterior a lei do social, “[...] a Lei, nos seus múltiplos aspectos, coloca-se como lei da filiação, ou seja, está ali para assegurar a questão da identidade [...]” (2007, p.20). A lei está ali para justificar as atrocidades do sujeito enquanto seu posicionamento mais primitivo de desejos.

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Existindo assim a Lei em maiúsculo que é a primordial, a lei do pai, e a lei com minúsculo que é o que no decorrer do processo de desenvolvimento social o sujeito vai se deparando.

Portanto, se quisermos tirar algo como uma moral ou uma ética desse conjunto de considerações, seria preciso dizer que a responsabilidade de alguém se coloca às vezes muito mais sobre sua descendência do que sobre si mesmo. E reencontramos aí um problema que já tínhamos aprendido ontem, a propósito da Lei: é muito diferente se o sujeito se pensa a si mesmo numa relação genealógica, ou seja, se ele se situa numa ascendência ou descendência, ou se situa a si próprio - quer ele possa ou não sustentar essa posição, que é naturalmente uma posição imaginária - sem uma relação que ele assuma de uma maneira responsável, com respeito à sua própria descendência (GUYOMARD, 2007, p. 21-2).

Portanto compreende-se que a autoria de quem pratica a lei pode ser “aberrante” ou perversa”, os pais em sua posição não se incomodam de fazer determinadas coisas que pedem ao seus filhos, pois eles quem ditaram as regras. E essa é uma das dificuldades das leis posta pelo autor, pois a criança ainda nem chegou ao mundo e já vem com um série de regras impostas pelas gerações de seus pais, e isso vai dizer de sua identidade e a maneira que vai se apropriar do que o social tem a oferecer como “certo” e “errado”.

[...] na dupla referência entre a Lei e as leis, mantém-se a questão da origem de uma criança, na medida em que essa origem impõe que ela nasça de pais de sexos diferentes. E, desse ponto de vista, pouco importa que ele seja unicamente filho de um pai ou de uma mãe. A questão do pai vai ser recolocada num outro nível, ou seja, a questão do nome do pai e do pai simbólico: trata-se de saber se a sexualidade existe e se mantém, e se uma criança nasceu de um homem e de uma mulher (GUYOMARD, 2007, p.23).

Ainda em Guyomard observa-se que o tribunal é falho ao se tratar de simbólico, no que se refere aos interditos, pois estes podem ser infringidos, provando que o impossível se modifica, obrigando o sujeito em determinados momentos pensar de outra forma, e não no registro que a lei enquanto secundária impõe ao sujeito.

2.1. A Lei enquanto Escrita e a Lei Simbólica

Para compreender o lugar do adolescente em meio a toda essa inscrição de leis, é preciso ter conhecimento do que se pode determinar enquanto lei seja no campo psicológico quanto da ordem legislativa. A lei para Guyomard é algo relacionado à ordem da obrigação,

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então o sujeito a vive como uma violência contra seu ser. Assim não existe somente a diferença entre a aquisição do sujeito quanto à internalização da lei tanto psíquica quanto legislatória, havendo assim diferentes formas de conflitos entre o sujeito e as leis.

[...] se a lei existe porque a linguagem existe, já que nós falamos, estamos todos sob o domínio da lei, submetidos à lei. Entretanto, é bem evidente que o fato de falarmos e de nos situarmos na linguagem não corresponde exatamente ao fato de sermos submetidos à lei, num outro sentido. Pode-se dizer que a psicanálise, com Freud, sem ir até Lacan, mostrou um conteúdo inconsciente na própria definição de inconsciente, a existência, a insistência, a permanência de desejos, de reivindicações e pulsões, presentes de modos diversos: recalque, clivagem, fantasia inconsciente, falso self. Portanto, mostrou a existência de todo um lado do sujeito que manifesta a violência da lei contra ele e, ao mesmo tempo, sua oposição, ou mesmo sua recusa à lei (Guyomard 2007, p.28).

Um exemplo claro disso segundo o autor é o que Freud traz em Homem dos lobos, o paciente não queria saber nada da castração. “[...] Isso explica, da conta e desenvolve, de uma maneira ou de outra, a força e a insistência dos conflitos entre as leis e entre o sujeito e as leis [...]”. (2007, p.28-9). Assim permitindo pensar que “[...] a lei não se opõe ao desejo, mas o que se chama de Lei, com L maiúsculo, no sentido simbólico do termo, e o que se chama de desejo são as duas faces de uma mesma operação [...]” (2007, p. 29). A lei em seu sentido mais complexo evoca algo do desejo do sujeito, algo como anteriormente falado da ordem do inconsciente.

A lei, no sentido da linguagem, institui o desejo, institui o que a psicanálise chama de desejo, o que Lacan chama, em primeiro lugar, de desejo. Se fizermos do desejo não um elemento biológico ou pulsional, mas o efeito da linguagem sobre o sujeito e, num outro sentido, a inscrição do sujeito na linguagem, o desejo nasce da linguagem e com a linguagem. Isso quer dizer que se trata de algo que está ligado à Lei e às leis (Guyomard 2007, p.29).

Nesse aspecto, a “[...] identidade está vinculada à linguagem e aos outros, assim que nasce a dimensão do desejo, e que tem lugar em alguns números de interditos que fundam a comunidade humana [...]” (2007, p.29). Além disso, sabe-se que o sujeito aprende pelo discurso, “[...] é que a partir do momento em que o sujeito fala, ele já está marcado pela lei, já está na lei da linguagem [...]” (2007, p.29). De algum modo está inscrito na lei simbólica, pois o sujeito em seus primeiros anos de vida já se depara com a castração, permitindo o sujeito à compreensão do que ele deseja, do que deve e principalmente do que faz. “[...] a questão da

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castração é a questão da diferença entre o que se imagina e o que se diz, o que se sonha e aquilo que se faz [...]” (2007, p.29). Ao tratar-se de castração:

[...] é preciso abordar com muita delicadeza, e não de uma maneira muito sumaria e simplista, é importante colocar a questão da castração sob diferentes aspectos. De um lado, é preciso considerar a integração numa comunidade humana, que nunca é tão acolhedora e fácil quanto se imagina; muitas vezes se insiste na Lei, e a Lei com letra maiúscula, como o preço a pagar para se inserir numa comunidade humana, é o sentido que se dá à castração, às trocas, à divida, e podemos ir muito longe nessa direção. (GUYOMARD, 2007, p.30).

Nesse sentido pode-se pensar a lei como a fragilidade do sujeito, pois é nesse contexto que ela interdita, corrobora para uma deterioração do sujeito enquanto desejante, pois ele precisa da autorização seja da família inicialmente ou a posteriori do social para ser visto como um sujeito digno frente à sociedade. No caso do adolescente a falta da lei, implica por vezes em atos fatais, pois quer ser reconhecido a todo o momento.

Politicamente, quando o tecido simbólico, que é muito mais frágil do que se imagina, foi rasgado, foi atingido, em geral é preciso tempo e muitas palavras e muitos atos para que a confiança – porque é disso que se trata – seja possível, para que a interiorização da lei, que supõe um mínimo de confiança e um mínimo de respeito das regras, seja possível, para que haja um mínimo de credibilidade (GUYOMARD, 2007, p.43).

O funcionamento da lei se constrói dentro do indivíduo, o que acaba sendo um grande problema para a população, principalmente para os educadores os quais trabalham diretamente com os jovens, pois no contemporâneo vive-se em um contexto de crise enquanto lei simbólica forma o que se necessita redefinir, os limites do que é interior e do que é exterior do sujeito. O adolescente quer um regime para burlar, ou seguir, quer um pai fálico, delimitador para mostrar a ele o mais gozar; “[...] todo ser humano, quando comete um ato, mesmo quando obedece, comete um ato de julgamento, faz uma escolha, e por causa mesmo desse julgamento que ele faz, pode ser julgado e pode ser julgado responsável [...]” (2007, p.45).

2.2. A Lei do Pai

Muito antes de o sujeito ser inserido na sociedade, existem marcos essenciais para seu percurso enquanto um sujeito racional , deve-se ir aos primórdios da existência humana para compreender a sua entrada no contexto atual do declínio do Nome do Pai. Sabe-se que Freud

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em seus escritos sempre trouxe a importância das funções para a criança, pois a partir de cada função que se permite a entrada da criança na linguagem, em especial do pai como aquele que instaura a lei no sujeito. Em seus escritos Freud já referenciava a importância do pai, exemplo disso, como já citado anteriormente seria em “Totem e Tabu” enunciava-se o Pai da horda, o pai como fundador da lei, e, em “Moisés e o monoteísmo”, o pai como transmissor da lei.

Freud em seus escritos referenciava a um pai idealizado, o Pai primevo de Totem e Tabu, trazendo a ambivalência dos filhos pelo progenitor. No mito, os filhos embebedados pelo ciúme do pai todo poderoso e detentor das mulheres da tribo, o assassinam e o reverenciam como totem. O ódio e amor que eram expressados pelo ritual do banquete totêmico, este “[...] correspondia à duplicação da figura parental produzida pelo ato: é o pai totêmico (pai morto) que possibilita a construção freudiana do Pai mítico da origem, o Pai da horda, figuração do amo enquanto este ao-menos-um não castrado que teria o gozo absoluto[...]” (RILHO, 2004, p.198).

Neste mesmo escrito, Freud pontua o surgimento das duas leis mais primitivas da sociedade, a lei contra o incesto e, posteriormente, o “não matarás”. Rilho (2004, p. p.198) relata que o parricídio “[...] instaura o pai totêmico como representante do lugar paterno (pai morto), organizador necessário da referência à lei da filiação, enquanto pertença a um coletivo concernido por uma lei em comum [...]”. A autora pontua ainda que a função do pai fundada pelo pai morto condensa dois fatores: “[...] um lugar vazio, não ocupado pelo Pai, já que este foi morto; e o ato (ou desejo) de assassinato do Pai, o que nos levaria a pensar que a paternidade dependeria, não do desejo, mas de um ato de desejo do filho [...]” (2004, p. 199).

É no desejo do filho de ser a figura do pai que se possibilita o lugar de detentor do falo, não mais o falo do complexo de Édipo, mas o falo que Lacan trazia em seus escritos, como aquele que possibilita a virilidade e que seja exuberante, a possibilidade de ser aquele que todo sujeito em sã consciência desejaria ser um dia. Nesse sentindo, para o pai enquanto lei existir necessita de certo patriotismo assim, a autora pontua que:

Segundo Freud (1912-1913), nos primórdios da civilização, a culpa pelo assassinato do Pai da horda é compartilhada com o grupo de irmãos através dos rituais totêmicos, que, como sabemos, consistiam na repetição simbólica do ato. Na sociedade tradicional, são as versões ficcionais do Pai que passam a ser partilhadas pela comunidade cultural através dos mitos coletivos. No entanto, Freud (1921), em Psicologia das massas e análise do eu, adverte que o mito, e especialmente o mito do herói, é o passo com o qual o indivíduo sai da psicologia de massa. O poeta épico foi o primeiro indivíduo a destacar-se da fratria e assumir o lugar do pai, mas o fez em sua fantasia através do herói. E é esta fantasia (o mito) que, proporcionando a identificação ao herói, estabelece a base da mesma referência ao Pai primordial compartilhada com os demais. [...] Porém, o mito individual não preexiste ao sujeito

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tal quais as grandes figuras do Outro da História, ele tem que ser construído subjetivamente por cada um. Isto ainda não significa, per si, que a função do pai tenha perdido sua vigência. (RILHO, 2004, p. 206)

Não quer dizer que aquele pai da horda tenha perdido seu valor enquanto posição de desejo, mas já não é mais somente dele que vem o saber supremo daquele que dita e tem lugar de ordenador, este passa a ser compartilhado com demais figuras de onipotência. Assim sendo, a morte do pai totêmico dá lugar para o imaginário de um novo ser superior a todas as coisas.

A existência da lei é fundamental para a vida em sociedade, a qual realiza o controle dos gozos subjetivos estabelecendo uma “ordem comum”. Ao longo do tempo, na medida em que as culturas foram se modificando, o totem passou a ter outros representantes não carnais ou visíveis a olho nu, como o Deus do catolicismo, por exemplo. Rilho pontua que a crença em um Deus único e universal é uma forma de substituição do ato de assassinato do Pai da horda, “[...] e é o que sustenta a origem divina da humanidade e do mundo, e como a religião reza que todo ato de fé é um ato de amor, é o amor ao Pai, efeito de uma filiação, que constrói uma versão de Deus-Pai que ama seus filhos [...]” (2004, p.199).

Em Moisés e o monoteísmo, Deus vem para sustentar o lugar antes ocupado pelo pai da horda, como este lugar estava posto em questão necessitou de outro meio de manter a organização social, podendo assim pensar que o declínio do Nome-do-Pai se iniciou nesse momento, em que se necessitou de uma força maior do que a do pai encarnado. A religião, assim, vem para dar conta do pai que estava nesse momento sendo destituído de sua onipotência. Posterior a isso, o pai operava no imaginário, no entanto, a cultura contemporânea que é tomada pelo imediatismo que necessita de um pai no real para dar conta da carência do pai simbólico.

Frente essa destituição podemos pensar na contribuição da mulher para tal declínio, historicamente sabemos que a mulher vem conquistando espaço, espaços estes antes compostos apenas pela figura masculina, vista por vezes como uma ameaça a virilidade do homem. Nesse sentido pensa-se a conquista da mulher desde a entrada do amor romântico, como um espaço de autorização do seu ser e de seus desejos.

Segundo Roudinesco (2003) no final do século XIX, Freud traz a ideia de que “o pai gera o filho que será seu assassino” ele reconhece algo da feminilização, o pai assim deixa de ser o único que rege a família, não sendo o único transmissor psíquico e carnal. Assim a autora ressalta o que Auguste Comte, sobre a teoria medieval das semelhanças: "[...] Os filhos

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