A Herança
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_ A Herança
Romance Escrito em 1992 Rio de Janeiro - Brasil
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Homenagem
Ao Padre Léo Quero aqui deixar registrado meu tributo a este homem que não conheci pessoalmente. Entretanto, qualquer um com um pouco de sensibilidade, ao vê-lo, tinha a certeza de que era especial. Confesso que poucas foram as vezes que o vi e ouvi pregando na Canção Nova, mas indubitavelmente tinha o dom divino da oratória. Suas palestras realmente faziam com que o mais arredio dos seres fizesse uma reflexão sobre sua existência.
Espero que, de onde ele esteja, possa lhe ser permitido continuar iluminando o caminho de todos nós.
Fernando A. Pereira
Agradecimentos
Ao meu filho Otávio Emanuel por se dedicar pacientemente em revisar este texto.
Ao Dr. Pedro Henrique Alves, pelo carinho, paciência e suas informações elucidativas.
Que Deus ilumine sempre os seus caminhos.
PRIMEIRO CAPÍTULO O encontro de nobres.
Cidade do Rio de Janeiro.
Estação ferroviária D. Pedro II.
Trem de aço; destino: cidade de São Paulo.
Quarta-feira, treze de Agosto de 1975.
Manhã de céu inteiramente azul e ensolarada. Entretanto os efeitos do calor eram amenizados pelo vento frio que soprava do sudoeste e invadia a estação ferroviária naquele momento.
Há muito não era visto um dia tão agradável. Do lado de fora da plataforma alguns passageiros compravam revistas, na velha banca ali existente, para se distraírem durante a viagem.
Outros já começavam a consultar seus relógios, – dez horas e cinquenta minutos – ansiosos com o início da viagem. A partida estava prevista para as onze horas.
Acomodado na 1ª classe estava Pedro Henrique Tavares Alves Bernardes Pereira de Oliveira. Este homem de pele clara aguardava calmamente a saída do trem. Sempre que podia usava esse meio de transporte; detestava viajar de avião.
Embora não fosse visto pela maioria das pessoas como o descendente do Conde de Meringuava, era muito conhecido e respeitado como autor literário. Homem de fino trato, bom gosto e sempre primando pela elegância, vestia um terno cinza chumbo não muito escuro com riscas prateadas bem finas com um lenço de seda azul, no bolso superior. Uma
camisa social também na cor azul, só que um pouco mais claro. Prendia nesta, uma abotoadura de ouro 24 quilates.
onde podia ser visto estampado o antigo brasão da família.
Uma das suas tradicionais gravatas borboleta, meias na mesma tonalidade do lenço, um cinto e sapatos marrons- escuros – estes últimos de cromo alemão – completavam-lhe o traje. Todo o conjunto realçava o ar de nobreza.
De repente uma voz ecoou por todo o vagão.
“Dez minutos para a partida... Dez minutos para a partida...
Dez minutos para a partida...”
Um negro de quase dois metros de altura pesando por volta de cento e quarenta quilos fazia o anúncio com aquela voz de tenor. Era o fiscal da rede ferroviária passando pelo elegante vagão onde o Conde de Meringuava estava confortavelmente alojado. Pareceu uma ducha de água fria em seus pensamentos, pois como sempre, ao viajar, ele deixava sua imaginação falar mais forte. Muitos dos seus livros continham personagens retirados das conversas daqueles passageiros, da sua fértil imaginação e, logicamente, da capacidade de criação que possuía.
Aquele homem continuou fazendo seu anúncio até alcançar o final do vagão. Com a chegada do silêncio, Henrique deixou- se novamente levar por pensamentos que desta vez não eram imaginários, mas sim de experiências vividas por ele ao longo de suas viagens. Resolveu que os colocaria num livro, mas sem dar a entender de que tratavam de fatos verídicos, até porque poderiam comprometer alguns amigos e meia dúzia de pessoas que hoje se tornaram influentes na vida pública.
Conforme o anunciado, e dentro da conhecida pontualidade
britânica que a empresa procurava manter, partia com destino a São Paulo o tão famoso trem de aço.
Meia hora de viagem passara e o silêncio voltou a ser interrompido.
“Senhores, dentro de mais trinta minutos estará liberado o acesso ao vagão restaurante. Estejam à vontade; será um prazer atendê-los... Senhores, dentro de mais trinta minutos estará liberado o acesso ao vagão restaurante. Estejam à vontade; será um prazer atendê-los...”
Desta vez não era o fiscal tenor gritando aloucado, e sim um garçom de voz bem mais suave, porém também de alta tonalidade. Há cada duas poltronas, parava e repetia automaticamente aquela mesma frase, convidando educadamente os passageiros para se servirem.
Mais uma vez as ideias de Henrique eram interrompidas.
Pensou consigo mesmo se conseguiria terminar o seu novo livro naquela viagem. Enquanto a voz continuava a ecoar pelo vagão, Henrique passou a observar, pela ampla janela, que a cidade ficava para traz. Dali em diante a paisagem de casas, edifícios, ruas e veículos mudariam para a de nostálgicos pastos, fazendas de gado, cavalos, carroças e plantações – sem contar alguns trechos de matas fechadas.
Alternadamente, o trem cortaria uma pequena cidade e, em seguida, tornaria a cruzar grandes áreas rurais. Assim progrediria sucessivamente até chegar ao destino: a Estação da Luz.
Na verdade, sua viagem não terminaria no centro da metrópole. Desta vez seu destino era o interior do estado, rumo às festas dos peões de boiadeiros; precisamente na
cidade de Barretos. Henrique estaria autografando, durante as festividades, seu último livro, cujo título “Peão... Trabalho que virou Esporte” já fazia parte da lista dos mais vendidos.
“Será um prazer atendê-los...”
Escutou ao longe a última frase vinda do fundo do vagão e a dúvida lhe veio à mente: “Será que na volta o garçom continuará com esse convite? Espero que consiga logo alguns clientes, pois assim provavelmente terá de atendê-los”.
Henrique teria aproximadamente quatorze horas de viagem, tempo suficiente para elaborar todo o roteiro do livro caso não aparecessem novos contratempos que pudessem vir a desconcentrá-lo. Voltou novamente para a sua velha e conhecida técnica, tentando buscar na fisionomia das pessoas a inspiração e as recordações que elas pudessem lhe trazer.
Sempre que viajava, fazia questão de comprar uma passagem para aquele tipo de poltrona: próxima ao corredor, voltada para o interior do vagão e sempre junta de um grupo de quatro. Assim, tinha uma visão ampla de tudo e podia fazer suas análises sobre aqueles que passassem. Essa proximidade sempre funcionou como estratégia para iniciar uma conversa e daí obter recursos, mas em algumas vezes ela fornecia um resultado não muito favorável, como o da penúltima viagem em que sentou à sua frente um casal em lua de mel. Henrique quase não conversou e sua concentração ficou seriamente comprometida, já que faltou pouco para os amantes consumirem o ato sexual ali mesmo. Com certeza, se fosse um escritor pornográfico, teria tido material para pelo menos dois capítulos.
Nesse momento lhe intrigava o fato do trem já ter percorrido
um bom trajeto do percurso a ser realizado e ele não ter ainda sequer esboçado qualquer pensamento que pudesse desenvolver sua história. Quando começou sua viagem, não achou que seria tão difícil colocar no papel suas experiências, mas agora, pela primeira vez tinha dúvidas. “Como começar?” Era a grande interrogação. Acostumado a criar com relativa facilidade, neste momento Henrique via-se totalmente impossibilitado. Sua mente sempre fértil para novas ideias parecia estar bloqueada, esbarrando em escrúpulos, preconceitos e até mesmo em medos. Na verdade, ele estava mergulhado até o pescoço no novo livro, e o fato de não ter encontrado a pessoa ideal para o narrador o incomodava. Todas as ideias colocavam-no como personagem central, e de forma alguma ele queria isso.
Novamente voltou a olhar pela janela; o trem estava passando exatamente pela Baixada Fluminense, localidade famosa pela violência e por ser a terra onde vivia o alagoano Natalício Tenório Cavalcante de Albuquerque, conhecido popularmente como; o rei da baixada; o homem da capa preta; o deputado pistoleiro e várias outras alcunhas. Tenório Cavalcante possuía um estilo político agressivo, muitas vezes violento.
Isso rendeu a ele uma aura de mito e vários inimigos.
Como deputado estadual, o homem da capa preta providenciou diversas melhorias para a população local. Já como deputado federal, devido a uma desavença com Antônio Carlos Magalhães no Congresso, ocasião em que o ameaçou de morte, mais tarde, em 1964 teve seus direitos políticos caçados pelo governo militar com a interveniência direta do Antônio Carlos. Mesmo assim ainda era respeitado e
reconhecido naquela região como o dono do pedaço.
Henrique logo se lembrou de quando ainda era vendedor naquela área. Quantas foram às vezes que esteve por ali visitando distribuidores, grandes atacados, supermercados e farmácias. Em outras ocasiões almoçou com algum cliente importante e, frequentemente, junto com seu colega de vendas da mesma empresa na qual trabalhavam.
Também lhe veio à mente, o Doutor Manoel: “Por onde será que anda aquele médico?”, “Estará ainda vivo?”. Graças a ele conseguiu reverter um quadro clínico que mudara sua vida.
Quando tudo parecia perdido, a simples indicação de um colega de profissão resolvera seu problema.
“Mas o que está acontecendo comigo?” – Recriminava-se, e ao mesmo tempo tentava reorganizar as ideias.
Outra vez seus pensamentos teimavam em fugir do seu propósito, como em uma fuga estratégica para não entrar no contexto da nova história. A janela do trem demonstrava agora o primeiro indício de que a paisagem mudaria – já podia avistar ao longe uma casinha branca pequena; o gado pastava tranquilamente, as árvores demarcavam o início de uma mata. Também já apareciam espalhadas pela pradaria grandes casas de cupins contrastando com o verde. O trem já corria margeando as grandes fazendas existentes ao longo do trajeto e a vista do lugar tornava-se bucólica. Era sinal de que chegava a hora de montar em sua mente o que seria realmente o livro.
Percorrendo lentamente o olhar por dentro do vagão, pôde constatar que não havia um só lugar vago. “Será bom para mim e para o garçom”, imaginou. Nas poltronas ao lado
chamou-lhe a atenção o grupo ali distribuído – esses seus vizinhos eram bem interessantes. Notou que pouco se falavam, dando a entender de que não estavam viajando juntos, mas seus olhares tinham algo que despertou sua curiosidade, deixando-o meio preocupado. Poderiam estar escondendo algum segredo ou armando algo. Sua mente fervilhava e começava a dar sinal de vida. Precisava a partir daquele instante ficar atento aos mínimos detalhes; qualquer olhar mais significativo poderia ser um indício para suas suspeitas. Uma vez que não conseguia conciliar o pensamento no seu objetivo, escreveria o que a ocasião apresentasse para sua imaginação.
De repente, teve a certeza de que pelo menos dois dos viajantes a seu redor se conheciam e estavam ali com alguma intenção, já que os olhares que trocavam não deixaram dúvidas. Mas quem seriam eles? Estariam seguindo algum dos passageiros? E esse passageiro? Poderia ser ele?
Resolveu descobrir que mistério era aquele, e para tal, levantou e caminhou em direção ao restaurante móvel – era assim como chamavam aquela parte do trem. Já quase chegando ao local, pôde sentir que um passageiro fazia o mesmo trajeto que ele. Seria um deles? Procurou sentar-se à mesa no fundo do restaurante para que pudesse ver todos que ali estavam. Não havia ninguém do seu vagão além dele.
Pediu um aperitivo ao garçom falante e ficou fazendo hora; a pessoa que o seguira era de outro vagão e sentou-se logo na entrada. Seu olhar voltou a perder-se pelos campos, estava tão distraído que nem notou quando sentou à sua mesa justamente o passageiro da poltrona do corredor ao lado. Era
uma mulher jovem, aparentava ter uns vinte e oito anos e possuía uma beleza natural. Não estava usando muita maquiagem. Chamava a atenção pelo seu porte majestoso e estava elegantemente vestida, mesmo que esportivamente.
Sorriu amigavelmente. Achou que ela ter se sentado junto a ele devia-se ao fato de também já estarem próximos no vagão. Ela retribuiu-lhe o sorriso, transparecendo ainda mais a sua beleza, e disparou a pergunta:
- Desculpe, você é o Conde de Meringuava?
- Sim e não, por isso prefiro deixar o título de lado.
- Mas seu nome é Pedro Henrique.
- Exato. Meu nome é Pedro Henrique Tavares Alves Bernardes Pereira de Oliveira, ou melhor, Henrique para os amigos, mas por que deseja saber se sou um Conde?
- Por que para tratar do assunto que me traz até aqui é preciso que me confirme ser quem lhe perguntei.
- Sim, sou eu mesmo.
- Muito prazer, Isabel Maria Carvalho de Alcântara e Bragança, mais conhecida por “A Princesa Alegre”.
- O prazer é todo meu, mas a que devo a honra desta agradável companhia d’uma dama da nobreza? E sendo você uma princesa, a qual Casa pertence?
- Eu é que me sinto honrada em poder estar compartilhando o mesmo espaço com o senhor. Eu não pertenço a nenhuma casa o título é só um tratamento carinhoso em família.
Henrique estando realmente surpreso com o encontro, e não conseguindo esconder sua curiosidade, comentou:
- Isabel, somente duas pessoas sabem quem eu realmente sou.
- Não é possível. É mesmo verdade o que está me dizendo?
- Pode acreditar. Somente o bispo de Bauru e o meu querido padre Inácio, que me criou e protegeu. Se não for muita curiosidade da minha parte, como soube que eu era o descendente do Conde de Meringuava?
- Para mim não foi difícil descobri-lo. Quanto, a saber, sobre seu título é mais complicado e vai levar um pouco mais de tempo para explicar.
- Verdade? Acho tão fácil! Basta dizer “foi fulano que me disse antes de entrar no trem” ou “descobri nos registros”.
Pronto, matará a minha curiosidade.
- Eu sei. Só que não é bem assim. E por falar em matar, não é bem a sua curiosidade que estão querendo matar. Há muito mais coisas em jogo do que o senhor possa imaginar.
- Isabel, espera um momento. Eu é que sou o escritor. Deixa os mistérios e intrigas por minha conta, vá direto ao assunto;
vamos deixar as formalidades de lado e, por favor, trate-me de você.
- Fique calmo, Henrique. Por ora o que mais temos é tempo, afinal nossa viagem só termina em São Paulo e com certeza conseguirei colocá-lo a par de tudo que o envolve. Prepare-se, pois só estamos começando. Acredito que no final dará para você escrever um livro de época; se tudo correr bem, é claro.
- Mas afinal de contas, do que você está falando? Uma hora insinua que querem me matar e logo a seguir diz que poderei escrever um livro de época como se eu fosse viajar no tempo.
Cada instante ao seu lado, mais curioso fico. Quem poderia acabar comigo? Não faz o menor sentido!
- Dê-me licença um instante que vou ao toalete, mas não demoro. Prometo que quando voltar você vai tomar
conhecimento de tudo que sei.
Levantou-se sem esperar resposta e caminhou em direção ao fim do corredor, ocasião em que Henrique pôde observar que se tratava de uma mulher interessante e bem feita de corpo.
Inesperadamente, um desejo de conquistá-la tomou conta de seus pensamentos e o levaram a uma fantasia sexual que logo se interrompeu quando notou que ela, antes de entrar no toalete, discretamente fizera sinal para alguém no outro vagão. Quem seria?
Voltou aos seus pensamentos, sendo que agora permanecia atento ao que se passava à sua volta. Não demorou muito e Isabel vinha em sua direção, agora mais provocativa do que nunca. Notou que um pouco atrás vinha outra mulher que, em matéria de beleza, elegância e charme, não deixava nada a desejar frente à primeira. Aliás, observando atentamente depois, viu que aquela era ainda mais bonita.
- Conforme prometi, não demorei muito. Henrique, esta é minha prima, a Duquesa do Mato Alto.
- Muito prazer, Pedro Henrique Tavares... melhor, Henrique.
- O prazer é meu, Elizabeth Constança Sophia Valença de Aragon. Então é você o tão procurado Conde?
- Conde até posso ser com um pouco de boa vontade, mas procurado creio que não, pois não cometi nenhum crime.
- Sabemos que não é nenhum criminoso, mas muitos o procuram. Mencionei o título porque a maioria dos nobres, mesmo não podendo, fazem questão de serem tratados pelo mesmo e estranhei quando você não se apresentou com ele.
- Prefiro manter-me incógnito.
- Está explicado, por isso que ninguém o acha.
- Você também com essa conversa? Mas quem poderia estar me procurando?
- Bem, isso já é uma longa história que minha prima vai te contar.
- Não me diga que você esta viajando pelo o mesmo motivo da sua prima Isabel?
- Quanto à viagem, poderia dizer que sim e que não. Sim, porque precisamos lhe proteger, e não, porque na festa do peão de boiadeiro, em Barretos, vou concorrer à rainha da festa, e ela vai competir na prova dos três tambores.
“Jamais poderia imaginar duas lindas mulheres indo para o mesmo lugar que eu, participando dos festejos como eu e com a finalidade de me proteger”. – Pensou.
- Interessante, mas me digam: proteger-me do quê e de quem?
- Isabel, quem vai falar? Eu ou você? Resolve logo, pois com a ansiedade que o Henrique está vai acabar morrendo antes mesmo de saber alguma coisa. E aí de nada terá adiantado nossa presença ao lado dele.
- Bem, se você acha que chegou a hora então pode deixar que eu mesma conto, mas fica aqui, assim dará veracidade aos fatos que vou apresentá-lo.
- Não acredito que eu precise ficar, até porque posso atrapalhar algo que sinto estar começando a rolar entre vocês.
- Mas que conversa é essa de vocês duas? Nem eu, que sou escritor, consigo fazer tanto mistério num espaço tão curto de tempo. Vocês vão ou não dizer o que está acontecendo?
- Já que está insistindo tanto vamos lhe contar. Acredito que ele já esteja preparado. Você também não acha Elizabeth?
- Sem dúvida nenhuma, Isabel. Coloque-o logo a par, assim
ele também nos ajudará ficando alerta contra seus prováveis inimigos.
- Tudo bem. Vamos voltar ao vagão de passageiros. Lá tentamos trocar de lugar com um dos nossos vizinhos, assim não atrapalhamos o serviço do restaurante.
- É preciso?
- Sim. O que tenho para lhe contar é demorado.
- Está bom, então vamos.
Isabel conseguiu trocar de lugar com o senhor que ocupava a poltrona ao lado da de Henrique.
- Vou tentar ser bem clara, embora essa história seja um pouco complicada. Como é de seu conhecimento, o título que lhe pertence por fato, foi adquirido por seu ancestral, o senhor Antenor Bernardes de Oliveira, de um outro ancestral seu, o senhor Macedo Tavares, no ano de 1809, numa tentativa quase que desesperada de não ver mais a sua família discriminada pela sociedade daquela época.
- Espera um momento, não estou entendendo muito bem.
Você disse compra e venda entre os meus ancestrais?
- Vou lhe explicar. Alguns anos após a aquisição do título, o filho primogênito do senhor Antenor passou a ser o conde e casou-se com a primeira filha do senhor Macedo Tavares. Da união deste casal nasceu um menino, o primeiro Tavares Bernardes de Oliveira. Com isso o título voltou a pertencer novamente à família Macedo Tavares. E você, por conseguinte, é um descendente direto das duas famílias.
- Isabel, como você sabe disso? Nem eu que sou descendente deles tenho todo esse conhecimento.
- Isso é outra história que depois eu te explico, mas deixa-me
continuar se não acabo me perdendo.
- Nada disso, você agora me deixou curioso. Conte essa história e a outra também.
- Está bem. O Antenor não era filho do casal, o senhor Mariano e a senhora Nilda. Ele era filho de Mariano com sua amante, uma escrava alforriada de nome Isaltina. Deu para entender até aqui?
- Mais ou menos, mas continue.
- Pois bem, Antenor achava que por ser filho de uma escrava de nada adiantaria os seus filhos e netos terem um título e dinheiro, pois continuariam a serem discriminados. Por causa disso fez uma espécie de testamento beneficiando seu descendente da sexta geração, e esse descendente é você.
- Você deve estar brincando. Pelo que sei este senhor morreu em 1823. Como poderia ele me beneficiar com alguma coisa além de um título de Conde, que na verdade é só simbólico.
- Não estou brincando. Foi a partir daquela data que começou, meu amigo, a sua sorte e a ferrenha busca para roubá-lo ou então eliminá-lo agora, quando tiver tomado posse da sua herança.
Depois de fazerem muito mistério, aquelas mulheres lhe revelaram ser ele herdeiro de uma incalculável fortuna e que por isso tinha atraído desejos e ódios. Esta era a razão dele estar correndo risco até de morte.
- Como assim? Pode explicar melhor toda essa história?
- Posso, mas prepare-se que ela é longa.
- Não tem problema, temos a viagem toda pela frente.
Henrique, não negando ser escritor, ligou seu gravador para não perder nenhum registro.
- Presta atenção, mas é só um tira gosto da história, tudo começou por causa do senhor Mariano.
*
Mariano Bernardes de Oliveira era português. Nasceu em Lisboa no ano de 1711. Foi, na época, um dos contratadores de diamantes designados pelo Rei Dom João V. Viveu na região de Diamantina entre 1745 e 1789, vindo a falecer aos 80 anos, em 1791 na cidade onde nascera. O nome
“contratador” se deve ao fato de que, a partir de 1740, a mineração de diamantes passou a ser restrita a quem tivesse esse contrato com a coroa portuguesa. Os contratos sempre eram feitos com pessoas ricas e influentes daquela época, e quem os conseguia eram chamados de contratadores.
Mariano era casado com a senhora Nilda Arruda de Albuquerque e Neves, filha de uma tradicional e também poderosa família diamantinense. O contratador e sua esposa tiveram quatro filhas, e por mais que tentassem, não conseguiram ter um filho varão. Tornou-se famoso nem tanto pela riqueza que acumulou ao longo da vida, mas pela paixão por uma escrava, que comprou e alforriou, chamada Isaltina Lamego. Filha de uma negra e o seu pai era o monsenhor Jerônimo, um religioso português da cidade Lamego, localizada no distrito de Viseu em Portugal. Isaltina passou a ser conhecida em toda a região, mesmo sendo branca, como a escrava do contratador. Entretanto, naquela época, mesmo com toda sociedade exercendo extrema e constante discriminação contra os escravos, o senhor Mariano separou- se de sua esposa sem, no entanto abandoná-la à própria sorte,
e assumiu o romance com a sua tão querida amada.
Com Isaltina, Mariano só teve um filho, ao qual deu o nome de Antenor Bernardes de Oliveira.
Antenor, mesmo sendo o filho da amante e ex-escrava, era o preferido de Mariano por ser o único dos filhos nascido à semelhança do pai. Por essa razão, quando Antenor completou 21 anos, e como um gesto de reconhecimento público, o contratador destinou-lhe uma quantidade de diamantes equivalente a 50.000$ contos como herança, cerca de 30% dos seus bens totais. Na época, em 1774, além de representar uma fortuna exorbitante, seu gesto mexeu profundamente com os brios da família Arruda de Albuquerque e de toda população, fazendo com que a sua vida ficasse marcada para sempre. Em todos os lugares da cidade onde estivessem mais de duas pessoas reunidas, não havia dúvidas. O assunto era a doação que Antenor recebera do contratador. Até mesmo quando ia à igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Antenor mal podia assistir à missa, pois virava o alvo dos comentários, a ponto de várias vezes ser abordado por alguma de suas meias irmãs em pleno exercício da mesma e ali ser desacatado e ameaçado.
Essa atitude de querer beneficiar o filho bastardo acabou gerando discórdias entre as quatro herdeiras legais e seu filho com a escrava Isaltina. Mariano, sem querer, mas sabendo do que poderia ocorrer, deu subsídios para uma luta jurídica sem precedentes entre seus familiares, além de fomentar o ódio e acirrar o preconceito racial que suas filhas nutriam contra Antenor.
Passaram-se seis anos, e logo após a morte do contratador,
suas filhas Carminda, Eugenia, Sofia e Natália entraram com uma petição na justiça para que fosse apreciada a legitimidade daquela herança e que consequentemente anulasse tal decisão. Essas disputas jurídicas se arrastaram no tribunal da corte do Rio de Janeiro por quase trinta anos.
As ofensas a Antenor não tinham hora e nem lugar para serem feitas. Qualquer coisa ou assunto era motivo para fustigá-lo ou tentar diminuí-lo perante a sociedade. As agressões não eram menos discretas, só mais elaboradas, mas mesmo assim quando feitas eram de maneira acintosa. Certa vez, quando estava retornando de uma das minas de diamante, sua carruagem foi interceptada por dois homens que deixaram um recado ameaçador que visava um de seus filhos. Embora tenha passado a andar acompanhado de seu capataz fortemente armado e mais três ou quatro escravos para protegê-lo, as investidas contra ele não pararam. Essa última então, ameaçando claramente seu filho Valdecir, levou Antenor a mudar-se com sua família de Diamantina, em 1798.
Era do conhecimento de todas as pessoas que lá viviam o ódio que Natália, a filha mais nova de Mariano, nutria contra seu meio irmão. Como também sabiam, ser ela a mandante dos quatro atentados contra a vida de Antenor, realizados ao longo desses vinte anos, sendo que um desses atentados o deixou impossibilitado dos movimentos da perna esquerda, obrigando-o a usar muletas para se locomover.
Instalaram-se no Rio de Janeiro.
*
Isabel terminou sua narração acrescentando por alto à vontade de Antenor, mas sem muitos detalhes. Achava suficiente a informação dada.
- Esse é o início da sua história familiar que deu origem à herança do mesmo valor.
- Certo, mas quem garante que essa fortuna me pertence?
- Toda uma documentação guardada à sua espera para fazer valer a vontade do seu ancestral.
- Isabel, eu sou obrigado a confessar que você conseguiu me deixar curioso sobre essa história.
- Agora, se quiser saber detalhado tudo o que a cercou ao longo de todos esses anos, meu pai tem todos os registros.
- Com certeza falarei com ele.
- Acredita agora que você corre perigo?
- É, pode ser. Sendo tudo o que acaba de me contar verdadeiro, faz sentido toda essa sua preocupação.
Enfim, Henrique acabara de conhecer uma história na qual ainda não acreditava muito e que só poderia confirmar a sua veracidade quando voltasse ao Rio de Janeiro e tomasse conhecimento legal e posse da tal herança que elas afirmavam ser dele. Entretanto, mesmo não acreditando muito naquela história, Henrique achou melhor tomar todas as precauções possíveis como as duas mulheres tanto recomendavam afinal ele mesmo sem saber da existência da herança notara alguma coisa no ar.
Terminado o relato, voltaram a sentar em seus lugares de origem. Desde que saiu do vagão restaurante, Henrique percebeu que Elizabeth de vez em quando lhe dava uma olhada, sempre com a preocupação de não deixar Isabel
perceber. Já a sua prima não. Por várias vezes esta foi ao toalete no fim do vagão, mesmo sem ter nada para fazer, apenas para sentir o sedutor olhar dele sobre todo o seu corpo jovem. Além de tudo, ela era muito instigante e isso foi criando um clima de desejo cada vez maior entre os dois, que culminou numa parada que o trem foi obrigado a fazer na cidade de Cruzeiro devido a uma suspeita de sabotagem em uma das composições.
Após alguns momentos tumultuados com a saída dos passageiros, Henrique passou para uma poltrona vaga ao lado dela, que não estranhou e nem reclamou. Pareceu-lhe estar decidida, mas ele é que tomou a iniciativa de convidá-la para tomarem algo naquele lugar; teriam meia hora para caminhar.
Isabel não demorou em aceitar, logo levantou e foi em direção a saída que havia no final do vagão. Mal desceu as escadas, parou no meio da plataforma extremamente limpa e, depois de trocar um olhar profundo com ele, caminhou em sua direção e o abraçou. Ele ficou meio confuso, mas ainda assim se sentia mais envaidecido do que nunca. Começaram a andar na direção do bar que podia ser visto mais à frente, mas não entraram nele. Conversando, seguiram lentamente pela estação até que chegaram ao final da plataforma. Lá, frente a uma sala abandonada, não resistiram e entraram. Estava um pouco escuro, mas logo suas vistas se acostumaram.
Lentamente, sem dizer uma única palavra, entreolharam-se por algum tempo. O magnetismo dela o fez sentir-se nu.
Estava totalmente a sua mercê. Abraçaram-se. Essa aproximação aconchegante daquele corpo escultural aumentava não só seus desejos como também os dela. Parecia
que já se conheciam há uma eternidade, tal a intimidade mantida entre os dois durante os momentos que ali estiveram.
Fizeram amor sem nada ser dito ou prometido, porém estavam certos de que tinham se apaixonado para sempre.
De todas as meias horas que os dois já tinham vivido aquela com certeza seria lembrado pelo restante de suas vidas.
Vestiram-se às pressas e voltaram à realidade, pois o fiscal do trem, outra vez aos berros, anunciava a partida para dali a poucos instantes.
Depois de se acomodarem novamente em seus lugares e passados alguns minutos com o trem já em movimento, Henrique como sempre observador notara que Isabel trocara olhares com Elizabeth por várias vezes, e concluiu que sendo elas parentas deviam conhecer seus significados. Não demorou muito e Elizabeth os convidou para conversar, tomar um drinque e saborear algum tira-gosto no restaurante, argumentando que ajudaria a viagem a passar mais rapidamente.
O restante da viagem transcorreu sem muita novidade, conversaram a respeito tudo, até mesmo sobre uma possível volta à monarquia no Brasil, mas o assunto tomou logo outro rumo quando Henrique, demonstrando sua tendência, perguntou se o imperador sairia do Ramo de Petrópolis. Algo impossível, pois uma vez que renunciando em 1908 aos seus direitos ao trono imperial brasileiro, D. Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança permitiu que o Ramo de Vassouras passasse a deter o título de Chefe da Casa Imperial Brasileira.
Estavam tão entretidos na conversa que nem acreditaram quando chegaram à tão famosa e falada Estação da Luz em
São Paulo. A estação compunha um conjunto arquitetônico que não só era um referencial urbano como efetivamente fazia parte da vida cotidiana do município, constituindo aquilo que pode ser chamado de a “imagem da cidade”.
Devido ao atraso de trinta minutos que tiveram com aquela parada em Cruzeiro, foram obrigados a permanecer na cidade de São Paulo até o dia seguinte. Combinaram de se hospedar no Hilton Hotel, que ficava localizado na Avenida Ipiranga, por ser um bom lugar e ao mesmo tempo próximo ao terminal rodoviário, pois logo cedo estariam embarcando para a cidade de Barretos. Eram dezenove horas quando chegaram ao hotel e antes de se acomodarem para tomar uma ducha marcaram para se encontrar no saguão por volta das vinte horas.
Henrique as convidara para irem ali perto, na pizzaria D’Ella Roma, saborear a melhor pizza da cidade. Em sua opinião é claro, pois nem a casa divulgava como sendo a melhor.
Na manhã seguinte levantaram cedo e em pouco tempo lá estavam dentro de um ônibus indo para Barretos, a cidade dos rodeios. Henrique aproveitara para recordar o porquê de estar fazendo, mais uma vez, aquela viagem:
“Até 1955 Barretos foi uma pacata cidade, que tinha na pecuária a sua principal atividade econômica. Passagem obrigatória, conhecida como ‘corredores boiadeiros’, por onde os peões das comitivas reunidos para descansarem, acabavam criando varias maneiras de se divertirem. E como não podia deixar de ser, nestes encontros tentavam mostrar suas habilidades na lida com o gado. Em um sábado de 1947, na quermesse realizada pela prefeitura municipal de Barretos, na praça central da cidade, ocorreu o primeiro rodeio do país,
realizado dentro de um cercado com arquibancadas, e nos anos seguintes vários outros foram realizados. Somente em 1955, nasceu numa mesa de bar o lendário clube ‘Os Independentes’. Um grupo de rapazes solteiros e independentes, como era a regra, ligados à agropecuária local, teve a ideia de promover festas inspiradas na lida das fazendas, com o objetivo de arrecadar fundos para as entidades assistenciais da região. Um ano depois, em 1956, foi lançada a 1ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Sob a lona de um velho circo, surgiu o modelo do evento rural de grande sucesso do país. Já nas primeiras festas, a principal atração foi o rodeio e os mesmos peões que trabalhavam nas fazendas agora eram as estrelas do evento. Ao completar neste ano, 1975, seus 20 anos de história, a Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos destaca-se no cenário nacional como um dos mais alegres eventos de entretenimento, contando com uma história de crescimento, sucesso e projeção”.
Foi devido a esse rico folclore que Henrique resolveu escrever sobre aquele mundo, que para o resto do Brasil era praticamente desconhecido. Agora estava ali pela repercussão causada com o seu trabalho literário e também para ser homenageado. Acabara de lançar o livro e já havia vendido cinquenta mil exemplares, o que era bem merecido.
Para retratar tudo aquilo da forma como realmente era, e tentando ser o mais coerente possível, Henrique praticamente viveu no meio dos peões e das festas seis meses consecutivos, acompanhando o grande circo por todo o interior para não deixar escapar nenhum detalhe daquilo que se tornou um mega evento. Para se ter ideia, a festa de Barretos dura mais
ou menos dez dias, com apresentações da Catira, danças do folclore brasileiro, conjuntos de violeiros, queima do alho, desfile típico com carros de boi, pau de sebo, eleição para a rainha da Festa do Peão de Boiadeiro e logicamente o rodeio, principal atração da festa.
Henrique escolhera viajar por trem, pois a viagem era mais tranquila e poderia fazer o esboço de mais um livro. O que infelizmente não foi possível devido às duas protetoras que arranjou. Agora então o restante da viagem seria feita de ônibus e com as novas companheiras; o novo livro teria de esperar.
O compromisso com seu editor era de escrever dois livros por ano. Já estava atrasado. Até aquele dia ainda não tinha começado o segundo e agora provavelmente ficaria alguns dias preso com as festas na cidade, onde participaria de todo o evento como jurado nas provas de rodeio, no concurso das rainhas e também na prova de culinária, além do compromisso com o lançamento do seu livro, que lhe tomaria muito tempo com as noites de autógrafos.
Após quase oito horas sacolejando dentro daquele ônibus, estavam em Barretos. Eles chegaram um dia antes do começo das festas e foram direto para o Hotel Scala que fica na Rua Dezesseis nº 782, quase esquina com a Rua Dezessete. Antes de entrar, Henrique deu uma contemplada no prédio como que a investigar se este ainda estava da mesma forma de quando esteve ali. Confirmou, permanecia igual. Entrou na grande varanda que se estendia por toda frente do hotel.
Aquele piso esverdeado e brilhante era reconfortante.
Lembrou-se das vezes que esteve sentado naqueles sofás, ora
olhando o movimento na rua, ora observando a ornamentação interna. Foi ali que escreveu a maior parte do livro que agora iria autografar e divulgar durante as festas. Deu mais alguns passos e estava diante do balcão da recepção falando com o atendente.
- Boa tarde. Como vai, Amaury? Se não estou enganado, é esse o seu nome?
- Estou bem. É esse mesmo.
- Vejo que ainda continuo bom de memória.
- Também estou lembrando, o senhor já esteve aqui nas festas passadas.
- Isso mesmo. Por favor, veja se há uma reserva em meu nome: Pedro Henrique.
Amaury abriu o livro de reservas e confirmou.
- Vou precisar de mais um apartamento para as minhas amigas. Ainda tem algum disponível? Se não houver, não há problema. Nós fizemos reserva no Palace.
- Olhem, vocês estão com sorte. Acabei de desmarcar uma reserva.
- Se for possível coloque-as no apartamento ao lado do meu.
Os três ainda levaram algum tempo ali na recepção preenchendo as fichas de registro.
- Aqui estão as chaves. O apartamento 06 é o do senhor e consegui o nº 08, que fica logo em frente.
- Obrigado, Moacyr.
- Tenham uma boa estada.
Henrique resolveu descansar daquela exaustiva viagem. Sabia que o dia seguinte seria de muito trabalho e cheio de compromissos. Isabel e Elizabeth, ao contrário, foram dar
uma volta pela cidade, que nessa época fervilhava de tanta gente que para ali se dirigiam a fim de curtir a festa.
Henrique, já acomodado em seu apartamento no hotel, tomara um bom e demorado banho. Estava agora deitado descansando e não conseguia entender a origem daquela monstruosa herança e muito menos por que ela lhe pertencia.
Na verdade passava pela sua mente, como um filme, a história difícil de acreditar que as duas lhe contaram. Sempre soube que sua família fora muito rica num passado longínquo, mas não sabendo o porquê de terem perdido tudo na época da Guerra do Paraguai. No entanto, ele agora estava preste a receber uma descomunal herança deixada por um ancestral que morrera a cento e cinquenta anos. Era bom demais para ser verdade, tirando, é lógico, o risco de morte que elas teimavam em insistir que ele estava correndo.
Nesse meio tempo o telefone toca. Da recepção do hotel avisam-no que há uma ligação para ele. Henrique atende; era o seu editor. Como sempre os dois amigos quando se falavam, discutiam, e para não ser diferente das outras vezes, Valdir já começou lhe cobrando.
- Então, Henrique? Já tem algo para nos adiantar sobre o novo livro?
- Valdir, para falar a verdade eu...
- Não me venha com desculpa, merda. – seu interlocutor interrompeu furioso.
- Calma, não fique tão nervoso.
- Você me garantiu que bem antes do fim do ano eu estaria com o texto na mão.
- Eu sei disso, mas estão acontecendo coisas pelas quais eu
não esperava e...
- Assim você vai atrapalhar toda a estratégia montada para um novo lançamento da editora.
À medida que Valdir esbravejava, a mente de Henrique desligava-se de suas reclamações e justo nesse meio tempo surgiu-lhe a ideia:
“Meu Deus, por que é que não pensei nisso antes? Eu, a pouco reclamando por não ter conseguido elaborar o esboço de um livro, quando na verdade tenho todo o texto. Vou escrever a história dos meus antepassados até a minha geração. Está resolvido o problema. É claro que terei de usar um pouco da minha imaginação, mas o livro está praticamente pronto”.
- Acabou com o chilique? Então fica tranquilo, que o texto vai estar pronto como prometi. Escuta essa, o mais difícil já está pronto.
- Não me diga que você já encontrou o tema para o livro?
- Já encontrei e tem título. Vai ser “A maldição dos diamantes” aproveita e pesquisa se não tem nada igual e me avisa.
- Farei isso. Mas me diga, está animado com o lançamento ai na festa?
- Vai me dar mais trabalho que das outras vezes, mas acredito que valerá a pena. Agora me deixa descansar.
- Ta bom. Depois voltamos a nos falar. Tchau.
Como sempre fez, ele não perdeu tempo. Pegou seu gravador com o registro que escutara de Isabel e repassou para confirmar que não estava enganado com o que ouvira, mas a história estava ainda um pouco vaga. Depois quando chegasse
ao Rio talvez conseguisse mais algumas informações. Aí sim passaria para o papel, acrescentando seu toque de escritor.
Voltou a relaxar na enorme cama de casal. Aliás, essa era uma das suas exigências quando se hospedava; a cama tinha que ser de casal. Logo seu pensamento voltou às duas novas amigas. Na verdade Isabel não era uma simples amiga.
Henrique continuava com a impressão de que já a conhecia há muito tempo e aquela sensação fazia dele cada vez mais uma presa inofensiva daquele romance. Também desfilava em seus pensamentos; – Não deveria ter na festa, uma mulher tão bonita quanto a Elizabeth. Provavelmente sua estonteante beleza a faria rainha do rodeio.
Assim que chegaram elas passaram pelo apartamento do Henrique.
- Já descansou? – Perguntou Isabel.
- Estou pronto para qualquer coisa. O que vamos fazer?
- Descansa um pouco mais. Nós vamos tomar um banho e depois vamos jantar.
- Aqui mesmo no hotel?
- Nada disso. Descobrimos um restaurante próximo daqui que é uma graça. Vale a pena irmos até lá.
- Então vou me arrumar e as espero lá na varanda.
- Meia hora. Garanto que você não vai esperar mais do que isso. Um beijo.
- Outro.
Dizendo isso ele a segurou impedindo que saísse e beijou-a.
Riram. Estavam realmente apaixonados. Ela saiu e ele começou a se arrumar. Mais tarde se encontravam na varanda e saiam para jantar.
Ao chegar ao restaurante pode constatar a veracidade dos elogios que escutara sobre o mesmo. Seu interior era simples, com mesas e cadeiras rústicas e muito bem iluminado. Os garçons eram atenciosos e gentis. A comida então? Nem se fala, estava uma delícia. A muito não comia tão bem. Ainda ficaram no restaurante conversando um bom tempo, antes de retornar ao hotel.
O dia amanheceu. Os três encontraram-se no corredor e dirigiram-se ao restaurante do hotel. Tomaram café e despediram-se.
Tirando os dois compromissos elas estavam praticamente a passeio, mas Henrique não. Tinha que se apresentar aos organizadores do evento, avisando da sua presença e tomar seu lugar no corpo de jurados. Combinaram de se verem a noite depois que terminassem com os autógrafos. E assim fizeram praticamente todos os dias que estiveram nas festas.
Entretanto, Henrique notara que elas sempre estavam próximas a ele como que a protegê-lo. Pode observar também a presença discreta de quatro homens sempre por perto.
Sendo ela pertencente à nobreza mais a história dele estar correndo perigo calculou serem seus seguranças.
No concurso da rainha da festa, a vencedora foi Elizabeth, confirmando dessa forma os pensamentos de Henrique.
A Prova dos Três Tambores exige velocidade, sincronismo e precisão. Consiste em contornar três tambores dispostos de forma triangular, na arena, no menor tempo possível. Quando o juiz dá a largada, a amazona parte em direção ao primeiro tambor, dando uma volta completa nele. Depois repete a manobra no segundo e no terceiro tambores. Daí volta em
disparada até a linha de chegada. Ganha quem fizer o menor tempo. Cada tambor derrubado é penalizado com 5 segundos a mais na marca final da competidora. Atualmente, centenas de meninas participam dessa modalidade pelos rodeios do Brasil e se empenham ao máximo, despendendo horas e horas com treinamentos.
Isabel seria a quarta competidora a se apresentar de um total de trinta. A beleza de nada adiantava no julgamento, se bem que sempre era interessante quando uma linda mulher se apresentava. O número de torcedores entusiastas aumentava consideravelmente. Ainda mais quando a plateia estava lotada para ver aquela disputa.
Momento antes de começar a prova Henrique se mostrava preocupado e comentou com Isabel:
- Não é perigosa essa correria em cima de um cavalo?
- Égua, não é um cavalo. É uma égua que eu monto, meu querido.
- Como você pode saber. Ainda não viu o animal que vai montar? – Dizendo isso Henrique demonstrava desconhecer os bastidores da prova.
- A égua é minha. Treino diariamente com ela. Estamos mais do que acostumadas. Não se preocupe.
- Não estava, mas agora sabendo você lá, fiquei.
- Então não assista minha apresentação.
- Como posso não assistir? Eu sou um dos jurados.
- Verdade?
- Sou, mas não adianta nem tentar me corromper. Vai vencer a melhor.
- Que pena. Por um instante pensei contar com um aliado. –
Brincou, dirigindo-lhe um olhar maroto.
Logo estava sendo anunciado o inicio da prova e pelos alto- falantes eram convocadas às amazonas que iam concorrer para perfilarem e serem apresentadas ao público.
Quarenta minutos mais tarde tinha terminado as apresentações. Todas as moças encontravam-se perfiladas mais uma vez, agora esperando o resultado final.
Quem seria a vencedora?
Isabel ficou com a segunda colocação. Estava feliz com o resultado. Há oito anos participava da prova e essa foi a melhor colocação que conseguira até então.
Tiraram o resto do dia para passear entre as barracas instaladas e fazer compras. Quando retornaram a tarde ao hotel, Henrique recebeu um pequeno bilhete deixado na recepção, mas não deu muita importância.
- Não vai ler? – Elizabeth perguntou instintivamente.
Com a pergunta, e a cara de preocupação que as duas estavam fazendo, Henrique abriu o envelope e leu. Não disse nada, mas uma ponta de preocupação também tomou conta dele.
Teve a primeira surpresa ligada a tal herança.
- O que temos escrito aí? – Quis saber Isabel, já bastante aflita.
Sem falar nada Henrique passou o bilhete para que elas mesmas lessem. Lá estava a bomba.
“Henrique, sua herança deverá ser entregue a nós quando recebê-la ou morre a sua amiga Isabel. Voltaremos a nos comunicar dizendo os detalhes, de como, quando e aonde deverá nos encontrar”.
- Quem escreveu isso me conhece e está me seguindo.
- Começou de novo. – Elizabeth olhando para a prima deixou escapar o comentário.
- O que começou de novo, Isabel?
- As ameaças, Henrique. Meu pai estava com a razão.
- Começo agora a entender a sensação que senti quando ainda estava no trem para São Paulo. – Henrique comentou.
- Você acha mesmo que estão lhe seguindo desde lá?
- Lembra-se de quando nos conhecemos?
- Claro que me lembro. Você se dirigiu para o carro restaurante, eu fui atrás e me sentei a sua mesa.
- Pois o que me levou ao restaurante foi justamente à sensação que tive de estar sendo seguido.
- Como é isso?
- Vou lhe explica: – Sempre que viajo, eu tenho o habito de observar as pessoas que estão a minha volta para tirar inspiração para os meus escritos. Foi quando pude notar umas pessoas suspeitas. Na hora cheguei a ter essa impressão.
- Você seria capaz de identificar essas pessoas?
- Se as visse novamente, com certeza as reconheceria.
- O jeito então é ficar atento.
- Vou ficar, pode ter certeza. E você também. Quem quer que seja, também lhe conhece Isabel.
- Fica tranquilo Henrique, que nós não estamos aqui sozinhas.
- Eu ainda não vi ninguém por perto?
- Nós estamos acompanhadas por quatro seguranças. E você já viu sim. Um deles é aquele que estava sentado ao seu lado e trocou de lugar comigo quando pedi, Lembra?
- Lembro, mas não foi ele que me causou aquela sensação de que falei. Agora fico um pouco mais tranquilo por você, mas
vou continuar atento.
Aquela seria a última noite de autógrafos que Henrique teria que aguentar e para não atrasar o evento organizado por sua editora, foi mais cedo para a tenda cultural improvisada. Mal acabara de chegar e foi surpreendido com a visita do Valdir, seu editor.
- Henrique, o que está acontecendo?
- Seu mal educado. Não vai me cumprimentar primeiro?
- Boa noite. Agora responda a minha pergunta.
- Do que você está falando?
- Estou falando disso. – E entregou uma nota para ele ler.
- O que é isso?
- Leia que eu também quero saber, pois não estou entendendo nada.
“Senhor Valdir. Contamos com a sua influência sobre nosso amigo Henrique. Lembre-lhe de que nós não estamos brincando e que não mediremos esforços para conseguir nosso objetivo”.
Henrique leu a pequena nota e mostrou-se preocupado.
Deixando seu amigo também da mesma forma.
- É uma história longa e que nem mesmo eu ainda acredito.
- Mas o que é que está acontecendo. Fale. Quem sabe não podemos ajudá-lo?
- Parece que sou herdeiro de uma grande fortuna e estão me ameaçando.
- Já deu parte a polícia?
- Só posso fazer isso depois que eu confirmar essa tal herança. No momento só fui comunicado da sua existência por duas amigas que acabei de conhecer e, isso é muito
pouco. Preciso ver a documentação e confirmar sua veracidade. Só então poderei procurar a polícia, antes disso você bem sabe que não posso fazer nada. Encontro-me com os pés e as mãos atadas.
- Mas nada impede que você contrate alguém para fazer sua segurança.
- Não vejo necessidade. Se tudo for verdade, enquanto eu não tomar posse da herança eles não podem fazer nada.
- Isso é verdade, mas é bom não facilitar. Não posso me dar ao luxo de perder meu melhor escritor.
- Obrigado pela preocupação. Não pensei que eu fosse assim tão importante para vocês.
- Mas é. Por isso cuide-se. Agora vou deixá-lo com seus autógrafos. Não se esqueça do novo texto. Ah! Arruma outro título para o livro, assim teremos o que escolher.
- Esta bem. Farei isso. Agora por favor, me deixa trabalhar.
- Até parece que é verdade. – Disse isso rindo e saiu sem dar chance de Henrique respondê-lo.
O restante da noite transcorreu tranquila. Quando terminou seu compromisso encontrou-se com Isabel, mas resolveu não lhe mostrar o recado deixado com seu editor para não preocupá-la mais ainda. Jantaram e foram descansar.
Naquela manhã, Henrique se preparava para o último compromisso daquele mega evento, a “Queima do Alho”.
Comer e comer, essa era a responsabilidade dos jurados. Para os amantes da gastronomia a melhor parte da festa, pois agora se tratava de julgar a comida feita pelos homens do campo.
O nome Queima do Alho deve-se à tradição da culinária típica das comitivas e passou a ser uma das principais
atrações da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. O cardápio é composto de arroz carreteiro, feijão gordo, paçoca de carne e churrasco. A comida é feita no fogão improvisado próximo ao chão. O concurso culinário é realizado no espaço especialmente feito para isso, chamado Ponto de Pouso, e o vencedor da prova é o cozinheiro que prepara a melhor refeição à moda dos tropeiros, no menor espaço de tempo.
Este evento é realizado sempre no segundo sábado da festa, apenas para convidados especiais e a imprensa.
Henrique estava presente por imposição do seu trabalho – era um dos jurados – se pudesse já teria ido embora. Não via a hora de ver tudo acabado. Estava preocupado e ansioso para retornar ao Rio de Janeiro. Precisava tirar a limpo aquela historia. Não era ambicioso, mas sentia-se mexido a saber mais sobre a herança. Ainda mais agora, que estava vivendo sob ameaça. E por causa justamente de algo, que não sabe nem se realmente existe.
Participavam deste concurso oito cozinheiros, todos obrigatoriamente representante de uma fazenda. O cheiro de tempero no ar aumentava cada vez mais à vontade de comer dos convidados, que já começavam a reclamar com a demora dos jurados em encerrar o concurso. Após as devidas prova dos temperos saiu o resultado do concurso e todos puderam se deliciar.
A melhor comida coube a Juarez, da fazenda “Joia de Valença”. No final, quando os participantes daquele evento se retiravam do local, um bujão de gás explodiu. O pânico tomou conta do lugar. A correria foi geral. Varias pessoas que deixavam o local e passavam próximo, tiveram queimaduras
leves e uma delas era o Juarez. Quando o fogo foi dominado e extinto, conheceram o saldo do acidente: – duas vítimas fatais, uma com ferimentos graves e algumas levemente feridas.
Isabel imediatamente providenciou para que o Juarez fosse transferido dali, apesar de não ser muito grave o seu estado, sabia que em São Paulo ele seria atendido melhor.
À noite, tudo já serenado retornaram ao hotel, na recepção outro bilhete foi entregue a Henrique. Desta vez ele abriu rapidamente para ver o que dizia.
“Senhor Henrique. Gostou da nossa queima? O que aconteceu hoje é uma pequena amostra do que sabemos fazer. Não esqueça, terá de escolher: a herança ou a senhorita Isabel”.
- Estou começando a acreditar que a coisa é séria. – Reconheceu Henrique.
- Já avisei a papai sobre a ameaça que acabamos de sofrer e do acidente envolvendo o Juarez. Ele quis saber sobre o estado de saúde do nosso cozinheiro, mas logo ficou tranquilo quando soube que eu já tinha providenciado o atendimento dele.
- Ainda bem que tudo isso termina amanhã. – Desabafou Elizabeth.
Nessa mesma noite após todos se recolherem, Henrique recebeu a visita de dois homens armados que sob ameaça o convidaram a segui-los discretamente. Quando entraram no carro teve seus olhos vendados, não sabendo a onde estava sendo levado e muito menos com quem falou quando chegaram ao destino.
- Henrique, eu mandei trazê-lo até aqui para que não tivesse