ESTRATAGEMAS E OPERAÇÕES ESPECIAIS DA ANTIGUIDADE A 1939
O guerreiro hebreu Gideão foi o inventor das primeiras unidades especiais. O Livro dos Juízes revela como, em 1245 a. C., ele iludiu e venceu os adversários midianitas. Primeiro, Gideão escolheu, entre os milhares de soldados de que dispunha, 300 combatentes de elite. Em seguida, preparou ‑se para a ação no mais absoluto sigilo, usando o efeito ‑surpresa. Tinha como objetivo desorientar os adversários, em número superior, com três ações simultâneas:
despertá ‑los em sobressalto, sob luz ofuscante e com barulho ensurdecedor. Sigilosamente, distribuiu trombetas, cântaros e tochas aos 300 guerreiros selecionados. Orientou os homens a ocultarem a chama das tochas com os cântaros, de modo a con‑
seguir brandi ‑las em simultâneo, no momento certo, altura em que deveriam também fazer soar as trombetas. Ao cair da noite, aproveitando ‑se da escuridão e no mais profundo silêncio, os soldados hebreus cercaram as posições midianitas. Ao sinal com‑
binado, partiram os cântaros e investiram contra o inimigo, tocando as trombetas. Os midianitas, despertados em sobressalto pela algazarra e ofuscados pelos numerosos clarões, convence‑
ram ‑se de que uma força numerosa se precipitava sobre eles.
Então, empunharam imediatamente as armas e lançaram ‑se ao combate, e, na escuridão e na confusão geral, massacraram‑
‑se uns aos outros. Gideão e os seus homens despedaçaram os sobreviventes.
Em todas as épocas, a História oferece exemplos de unidades às quais foram confiadas missões audaciosas, com o objetivo de resolver uma situação ou corrigir o curso de uma batalha que começou mal.
A Ilíada e A Odisseia constituem uma verdadeira mina de exem‑
plos de ações que hoje qualificaríamos como de «forças especiais», sobretudo nos atos de Ulisses. Alternadamente comerciante, pirata e guerrilheiro, o herói de Homero conhece todas as artima‑
nhas. Entre os seus qualificativos, destacam ‑se: «personagem dos mil truques», «engenhoso», «astuto», etc. De Ulisses, pouca ou nenhuma façanha bélica é exaltada; já conluios, emboscadas, estratagemas à cretense, sim. Na época de Homero, a forma de combate dos cretenses não se parecia com a dos outros exércitos gregos. Os compatriotas de Ulisses fizeram da trapaça uma arte sublime. Eles espreitavam à noite, das montanhas, ludibriavam e montavam armadilhas aos adversários. Praticavam a pirataria, saqueando navios estrangeiros, fazendo razias e raptando.
Os exércitos regulares não podiam contra esses combatentes que surgiam como sombras, atacavam, voltavam para o mar e desa‑
pareciam. A Ilíada e A Odisseia estão repletas de façanhas desse tipo, mais próximas do banditismo que do ato heroico, mas terri‑
velmente eficazes.
O episódio do cavalo de Troia é a melhor ilustração dessas prá‑
ticas não convencionais. A deusa Atena, para precipitar o fim de uma guerra que se eternizava, ensinou a Ulisses o estratagema do cavalo de madeira. O embuste consistia em oferecer aos troianos uma enorme escultura equestre, marcando o fim das hostilidades.
Então, os gregos fingiram levantar o acampamento que haviam instalado diante de Troia e em seguida os navios partiram. Na realidade, eles ocultaram ‑se atrás de uma ilha vizinha. E o imenso cavalo, na verdade sem nenhum guerreiro dentro, serviu para pro‑
vocar o alargamento da porta e a queda de parte das muralhas.
Quando a cidade adormeceu, um espião a serviço de Ulisses ateou um fogo que a frota grega podia avistar do mar. As forças gregas desembarcaram imediatamente e conquistaram a cidade.
Essa forma de guerra irregular também existiu na China antiga:
A Arte da Guerra, de Sun Tzu, e o célebre tratado Os 36 Estratagemas concedem um lugar primordial à guerrilha na condução da guerra.
Eles preconizam a ação pela retaguarda do inimigo, a fim de desorganizá ‑lo, formulando verdadeiros princípios de guerrilha.
Outro grande conquistador também foi mestre na arte dos sub‑
terfúgios e das operações especiais: Aníbal. Em 217 a. C., durante
a campanha na Itália, o general cartaginês viu ‑se obrigado a aban‑
donar uma posição na qual não podia passar o inverno. Nessa retirada tinham de passar por um desfiladeiro onde ele sabia que seriam atacados pelos romanos. Mas Aníbal usou um estrata‑
gema para enganar os adversários: reuniu uma manada de dois mil bois e, no meio da noite, mandou que os soldados atassem tochas aos chifres dos animais. Depois ordenou a alguns homens que os conduzissem para um vale vizinho, onde deveriam com‑
bater os romanos que aparecessem. As tochas convenceram o inimigo de que o exército cartaginês estava em vias de tomar, na escuridão, o caminho do vale. Foi apenas com as luzes da alvo‑
rada que os romanos se deram conta da artimanha. Enquanto isso, Aníbal e o seu exército atravessaram, com tranquilidade, o famoso desfiladeiro.
Esse estratagema atravessou os tempos. Muitos séculos mais tarde, durante a guerra de independência da Macedónia, um punhado de guerrilheiros macedónios conseguiu tomar meia dúzia de tanques sérvios empregando uma estratégia similar: apa‑
nharam 500 tartarugas, numerosas na região, colaram uma vela acesa no casco de cada uma, e, em seguida, fizeram ‑nas avançar na direção dos tanques sérvios. Acreditando que um sem ‑número de inimigos os assaltava, os sérvios contra ‑atacaram com vigor, mas vendo que os tiros que disparavam não surtiam efeito, renderam ‑se...
Os romanos, apesar do reconhecido génio militar, só tiveram paixão pela guerra convencional. Para enfrentar as guerrilhas que os confrontaram, desenvolveram diversas táticas. Uma das raras ações especiais romanas conhecidas por nós aconteceu em 213 antes da nossa era. Fábio Máximo encontrou a cidade de Arpi, na Apúlia, ocupada por uma guarnição de Aníbal. Com o objetivo de tomar a cidade, enviou 600 soldados, numa noite escura, para atravessar a muralha utilizando escadas num ponto particular‑
mente fortificado, logo, menos bem guardado. Graças à intensa chuva que abafava os ruídos da tropa a avançar, esses homens cumpriram a missão e os romanos de Fábio Máximo invadiram Arpi.
Em comparação, esse desdém pelas operações especiais e estra‑
tagemas não existiu no Império Romano do Oriente, depois
Império Bizantino. Situado na confluência do Ocidente latino, do mundo eslavo, do Oriente asiático e do Islão, Bizâncio teve de guerrear incessantemente, ao longo de toda a sua história, em diversas frentes: contra uzes, pechenegues, magiares e búlgaros, na Europa Oriental; contra persas, árabes e turcos seljúcidas, na Ásia; contra normandos e cruzados, no Mediterrâneo e no Levante.
Essa situação naturalmente predispunha o império a apelar a todos os recursos da ação secreta. E esses permitiram que preser‑
vasse o seu território durante mais de mil anos.
Na primeira campanha da Itália, de 535 a 540, o general Belisário lançou mão de um estratagema para conquistar Nápoles.
Quando o cerco à cidade durava há muitos meses, ele deu ‑se conta de que era possível penetrar no coração da cidade utilizando o aqueduto que a abastecia. Depois de cortar a água, o general bizantino enviou um grupo de 400 soldados pelo aqueduto, enquanto o resto do exército atacava as muralhas. Os napolitanos, atacados pela retaguarda, e não vendo socorro no horizonte, submeteram ‑se então a Belisário. Assim se afirma um princípio inerente às operações especiais: a importância da dimensão psi‑
cológica. Vencer por meio de operações especiais não é apenas destruir os meios de combate do inimigo, mas também suprimir qualquer vontade de combater dos soldados.
Nesta época, também os povos do Norte da Europa desenvol‑
veram técnicas de combate não ortodoxas. Os viquingues dispu‑
nham de sólida tradição na realização de ações especiais, principalmente no domínio marítimo: a destruição da frota adver‑
sária aportada – na maior parte das vezes, incendiando ‑a – era sempre um dos objetivos desses beligerantes. Essa prática das operações especiais advinha em particular do facto de a tripulação dos dracars vikings ou snekkars (serpentes – referência às figuras de proa desses barcos) ser sempre menos numerosa que a dos adver‑
sários. Qualquer técnica que permitisse preservar a vida dos homens era, portanto, preferível a um confronto. Quando se ins‑
talaram nas margens do Baixo Sena, no século ix, os viquingues tinham longa prática no reconhecimento dos sítios a invadir, nas incursões propriamente ditas e em operações noturnas. Planea‑
vam exímios ataques ‑surpresa e realizavam ‑nos para obter o máximo efeito. Escolhiam os domingos, feriados ou a hora da
missa para agir. Essa forma de guerrear garantiu o seu sucesso, permitindo ‑lhes estabelecerem ‑se por algum tempo em França.
Os normandos herdaram essa cultura de guerrilha dos viquin‑
gues, a qual souberam adaptar em benefício próprio, para garantir a segurança e estender os seus domínios. Desde a fundação do ducado, no início do século x, existiu nas regiões fronteiriças da Normandia um sistema de guerrilha cuja origem eram as organi‑
zações de autodefesa dos primeiros colonos escandinavos. Esse sistema permitia a formação praticamente imediata de grupos de camponeses treinados e armados, comandados pelos senhores locais. Durante as invasões estrangeiras, eram capazes de observar o inimigo sem serem vistos, reunir ‑se rapidamente para preparar emboscadas, montar armadilhas na retaguarda e até atacar em coordenação com as forças regulares. Esse sistema demonstrou ser eficaz por diversas vezes: em 1029, contra os bretões; em 1054, diante de um poderoso exército francês; e em 1136, contra o conde D’Anjou.
Como os bizantinos e os viquingues, os normandos sempre procuraram evitar os grandes confrontos ou batalhas, recorrendo à desestabilização do inimigo pela ação psicológica e pelas ope‑
rações especiais. Tentavam surpreender os adversários através da dissimulação do seu contingente, e dos movimentos, da realização de emboscadas sistemáticas e de operações noturnas, para as quais eram treinados. Há múltiplos exemplos do êxito de opera‑
ções desse tipo na Normandia, no Mediterrâneo, nas lutas contra Bizâncio e no Oriente, durante as cruzadas.
As cruzadas, aliás, colocaram em evidência o talento dos povos do Médio Oriente em matéria de estratagemas e operações espe‑
ciais. No cerco de São João de Acre, em junho de 1191, a frota cruzada intercetou e afundou um navio muçulmano carregado de animais peçonhentos. Esses bichos seriam soltos no campo dos cruzados ou nos seus navios, pois os cavaleiros alemães, austría‑
cos e flamengos tinham um medo terrível de tais animais.
Essa «pequena guerra», como a chamavam então, foi larga‑
mente praticada em toda a Idade Média. Durante a Guerra dos Cem Anos realizaram ‑se numerosas operações audaciosas, como os ataques ‑surpresa. O cavaleiro bretão Bertrand du Guesclin – futuro condestável de França – foi um dos mais criativos na
especialidade. Jovem guerreiro, Du Guesclin estabeleceu domicí‑
lio na floresta de Paimpont, de onde atacava os guerrilheiros de Montfort na rota de Rennes, que ele controlava. Du Guesclin e os seus homens podiam surgir em qualquer lugar da rota e a todo o momento – a sua armadilha nunca dava oportunidade de fuga aos adversários e eles desapareciam assim que terminavam.
A assombrosa mobilidade do grupo devia ‑se ao seu conhecimento detalhado da região.
Em julho de 1350, Du Guesclin decidiu tomar a Fortaleza de Fougeray, situada a meio caminho entre Rennes e Nantes, e defen‑
dida pelo capitão inglês Bemborough. Escondido nos limites da floresta com 60 homens, o bretão aguardou o momento oportuno.
Aproveitou ‑se de uma saída do adversário, que partia com urgência para defender Auray, e colocou o plano em ação. Quinze homens, disfarçados de açougueiros e camponeses, com as armas escondi‑
das nos feixes de lenha, apresentaram ‑se no portão. Apesar da legítima desconfiança dos guardas, a ponte levadiça foi baixada e os bretões tomaram a fortaleza.
Foi também durante a Idade Média que se desenvolveram os ninjas, no Japão. Essa arte teria sido importada da China, onde guerreiros similares existiam há séculos. No reinado do imperador Shotoku (573 ‑622), há registos da presença de guerreiros da som‑
bra, cuja função era espreitar as manobras de todo o clã que se opunha ao poder. Mas a verdadeira fase de desenvolvimento dos ninjas deu ‑se no período Kamakura (1192 ‑1333). Organizavam ‑se em três classes: os jonin, que planeavam e dirigiam os ataques; os chunin, quadros intermediários, que organizavam os ataques; e os genin, agentes encarregados da execução. O ninja não obedece a um código de ética, como os samurais dependem do bushido. São hinin, marginais. No sentido nobre do termo, o ninja era um espe‑
cialista: combatente perito num certo número de armas e também bom batedor, rastreador, acrobata e ilusionista. Mas a eficácia assentava principalmente em observações perspicazes, extraordi‑
nário sentido de oportunidade e na arte da encenação. Táticas não convencionais, espionagem, embuste, ardil… usavam tudo.
As famílias e as escolas ninjas foram numerosas no Japão até serem consideradas um perigo por Tokugawa, que as fez desapa‑
recer no início do século xvii.
Essa cultura da guerra pouco ortodoxa não foi monopólio da China e do Japão. Na Índia, em 1637, Dadoji Konddeo, adminis‑
trador do reino de Puna, compreendeu bem o valor da informação e da ação. Não acreditava no combate frontal, ainda que este satis‑
fizesse o ego dos senhores de então. Esse confronto só trazia resul‑
tados quando apoiado por manobras «por trás da cena». Dadoji Konddeo desenvolveu um verdadeiro serviço de informação e ação e nele iniciou o seu soberano, o rei Shivaji. Esse serviço com‑
preendia quatro atividades:
– A primeira chamava ‑se «de orelha à escuta»: os agentes deviam ouvir tudo – discursos, proclamações, súplicas, mur‑
múrios, etc., e reportar.
– A segunda nomeava ‑se «olhos à espreita» e era responsável pela observação direta: avaliação das tropas, o seu equipa‑
mento, fortificações, estradas, pontes, etc.
– A terceira, denominada «bisbilhotice», coletava todos os rumores que circulavam nos bazares, mercados e caminhos, a fim de poder determinar a disposição do povo.
– A quarta era o departamento dos «solucionadores», agentes que ficavam acantonados num quartel isolado do Forte de Raigarh. Esses homens não tinham nome, ninguém os conhe‑
cia, nem se sabia o que faziam. Durante 20 anos, eles iriam preparar e executar todos os golpes de Shivaji.
O Império Otomano também teve à disposição a cavalaria ligeira dos akinji, cuja missão era penetrar profundamente no ter‑
ritório inimigo a fim de desorganizar as linhas de comunicação e os preparativos de defesa.
Na Europa, no final do século xvii, apareceram as tropas ligei‑
ras e os destacamentos de batedores. Essas novas formações davam resposta à preocupação tática de conhecer a situação, cobrir as comunicações e desgastar o inimigo. Uma das primeiras utilizações deu ‑se em França, em 1702 e 1703, durante a revolta dos protestantes do Languedoc e de Cevenas – chamados camisards.
O poder real, após meses de fracasso, concentrou então 12 mil homens sob as ordens do marechal de Montrevel, para dominar dois mil guerrilheiros. Os camisards fundiam ‑se na paisagem e
desapareciam. Para lutar com eles, Montrevel constituiu, então, companhias de irregulares chamados migueletes. Eram combaten‑
tes que calçavam alpargatas e usavam uma boina pontiaguda.
Com a adaga na cintura e a carabina nas costas, corriam como os camisards nas montanhas, chegando antes dos dragões reais.
Depois, progressivamente, as unidades com vocação para comba‑
ter de maneira irregular foram normalizadas e especializaram‑
‑se. Eram as companhias francas, saídas do caldeirão das tropas ligeiras.
Sucederam ‑se outras guerras de guerrilha ao longo do século xvii, tanto na Europa como na América do Norte. No Novo Mundo, os confrontos pela supremacia entre França e Grã‑
‑Bretanha multiplicaram as ações de guerrilha e as alianças com tribos indígenas – tudo para vencer o opositor. No século xviii, nas guerras em que se opuseram no Canadá, franceses e ingleses apoiaram ‑se em companhias francas, capazes de combater nas florestas da América do Norte. Para desgastar as tropas adversá‑
rias, as nações europeias utilizaram voluntários, verdadeiros
«batedores dos bosques» que recrutavam os guerreiros indígenas das tribos aliadas. Caçadores habituados ao combate na floresta forneciam informações aos britânicos e efetuavam ataques‑
‑surpresa. Os mais célebres foram os Rogers Rangers, que partici‑
param da expedição de Montreal contra os franceses.
A Guerra de Independência norte ‑americana também propi‑
ciou a realização de numerosas ações irregulares (emboscadas, ataques ‑surpresa). Apesar dos esforços de Howe, as formações de infantaria, que constituíam o exército inglês no início do conflito, nada podiam contra o desgaste contínuo promovido pelos com‑
batentes norte ‑americanos que praticavam a guerra à indígena.
Embora cada regimento britânico tivesse uma companhia de tro‑
pas ligeiras instruída especificamente para a «guerra na floresta», elas mostraram ‑se ineficientes. A partir de 1777, foram, então, criadas tropas ligeiras de um novo género: rangers e sharpshooters (atiradores de elite).
A Revolução Francesa e a passagem para as guerras de massa parecem ter relegado ao esquecimento esses modos de ação.
Os efetivos alistados nos campos de batalha europeus a partir do fim do século xviii quase não deixaram espaço para essas operações.
É verdade que alguns dos êxitos fulgurantes de Bonaparte se deveram à leveza das tropas, que viviam nas regiões para as quais levavam a mensagem revolucionária. Foi na sua época, no entanto, que os exércitos se tornaram novamente vulneráveis à luta de guerrilha, devido ao seu crescimento e à logística necessária.
Mesmo assim, o império não foi mesquinho em ações irregu‑
lares. No dia 20 de outubro de 1804, sob as ordens de Bonaparte, uma centena de soldados franceses desembarcou na costa prus‑
siana. A sua missão era raptar sir Rumbold, embaixador britânico em Hamburgo, responsável por numerosas operações de espio‑
nagem e subversão em França, o que aconteceu na noite de 24 para 25 de outubro. Essa operação permitiu desmantelar a organização de espionagem inglesa no Norte da Europa.
Durante a expansão colonial do século xix, os exércitos euro‑
peus de além ‑mar tiveram de adaptar as táticas para derrotar adversários que lhes eram frequentemente inferiores em número e, sempre, em material bélico. Descobriram assim as operações de contraguerrilha, primeiro contra a população local, mas também contra os próprios colonos ocidentais – foi o caso dos britânicos durante a Guerra dos Bóeres, na África do Sul.
A comunidade bóer, descendente dos primeiros colonos holan‑
deses, recusou ‑se a aceitar a dominação inglesa, desencadeando então uma rebelião contra a Coroa. Para o povo bóer, tratava ‑se da sobrevivência da comunidade. Por isso escolheram a guerra irregular. As suas tropas não empreendiam batalhas clássicas, pri‑
vilegiavam as ações localizadas, cansando os ingleses. Os britâni‑
cos levaram meses para admitir que enfrentavam um novo tipo de conflito. A situação tornou ‑se incontrolável, pois um inimigo intangível ameaçava ‑os por toda a parte e a procura dessa força adversária consumia ‑os.
A unidade de combate bóer era o kommando. A definição bóer para este termo era bem diferente da que os exércitos europeus modernos atribuem à palavra. Entre os bóeres, o kommando era a unidade militar do distrito eleitoral no qual estavam inscritos todos os cidadãos masculinos do local em idade de se alistarem.
Esses homens recebiam treino convencional. No terreno, os kommandos fundiam ‑se com a imensidão sul ‑africana. Eram
rápidos, conheciam muito bem o terreno, eram excelentes atira‑
dores, cavaleiros notáveis, resistentes e sóbrios, e fizeram as uni‑
dades britânicas, pesadas e de pouca mobilidade, passar por dificuldades. Para se abastecerem e se armarem, os kommandos bóeres atacavam comboios, mantinham as guarnições isoladas e sabotavam as vias férreas. Não hesitavam em usar uniformes bri‑
tânicos, que lhes permitiam escapar ou surpreender as patrulhas.
Mas a tática da terra arrasada, seguida do genocídio de mulheres e crianças bóeres nos campos de concentração, fez os combatentes recuarem.
Foi necessário esperar o início da Primeira Guerra Mundial e o impasse da situação na frente francesa para que os estados‑
‑maiores europeus voltassem a considerar a realização de opera‑
ções especiais. O mais belo exemplo de guerra não convencional, porém, não aconteceu no Velho Continente, mas no Médio Oriente.
Foi obra do capitão T. E. Lawrence, que imobilizou e desafiou um expressivo contingente de forças turcas na Península Arábica e na Síria. Comandando tropas árabes, organizou incursões audacio‑
sas, atacando sempre os adversários quando estes menos espera‑
vam, obrigando ‑os assim a dispersar as forças e abrindo uma nova frente na retaguarda turca no Médio Oriente. Lawrence relatou a sua ação na célebre obra Os Sete Pilares da Sabedoria. Nela, resumiu maravilhosamente o carácter intangível dos destacamentos de guerrilha, que atacam e desaparecem, frustrando as fileiras dos exércitos convencionais: «Nós funcionamos de maneira indefi‑
nida, como uma influência, uma ideia, uma coisa invulnerável, intangível, sem frente nem costas, evanescente como um gás.
Os exércitos regulares são como as árvores, imóveis, profunda‑
mente enraizados, nutridos até ao topo graças às suas longas raí‑
zes. Nós podemos ser como um sopro, que vai aonde bem lhe apetece. [...] Assim como nada de material nos é indispensável para viver, é possível não usarmos nada de concreto para matar.»
O Império Otomano, ao qual Lawrence da Arábia se opôs, tam‑
bém passou a contar, a partir de agosto de 1914, com uma temível organização especial, a Techkilat Mahsusa, criada por Enver Pacha. Voltada para as atividades de propaganda, espionagem e sabotagem, tratava ‑se de uma espécie de quinta ‑coluna, cuja mis‑
são principal era propagar como palavra de ordem, através do
mundo muçulmano, a guerra santa lançada pela Sublime Porta.
Ao longo da guerra, os milhares de agentes dessa organização efetuaram várias tarefas, desde a simples organização de grupos políticos até expedições armadas contra inimigos internos e exter‑
nos do regime, tanto em território otomano quanto em regiões longínquas como o Afeganistão, a Índia ou a Etiópia.
Mal acabada de nascer, a aviação foi utilizada para operações especiais já no princípio da Primeira Guerra Mundial. Em novem‑
bro de 1914, as trincheiras apareceram e a guerra atolou. A infil‑
tração a pé pelas linhas inimigas tornou ‑se impossível. O grande quartel ‑general francês decidiu então confiar ao serviço de aero‑
náutica a missão de colocar em território inimigo, por avião, os espiões encarregados de recolher informações ou executar sabotagens.
Ao longo desse conflito, os alemães também foram criativos em matéria de operações especiais. Em 1916, o espião Von Rintelen e a sua rede de ação, integrada por mergulhadores, operaram no porto de Nova Iorque. Eles ocultavam explosivos Thermit nos navios americanos que levavam suprimentos e munições para a Europa, ou fixavam bombas no casco das embarcações ancoradas.
Assim destruíram ou causaram danos a muitas dezenas de navios.
Depois, em 1918, foram criados os Freikorsp alemães, que comba‑
tiam mas nunca ocupavam as posições conquistadas, assim como algumas unidades britânicas que operavam no Médio Oriente.
Com exceção das operações de assalto, essas unidades não se envolviam nos combates.
Quando chegou à Palestina, no outono de 1936, com 33 anos, Orde Wingate já era veterano em operações especiais. Aprendeu‑
‑as, entre 1928 e 1933, ao lado do pai, oficial que, no Sudão, per‑
seguiu contrabandistas e traficantes de marfim. No outono de 1937, obteve permissão dos superiores para estudar o modus ope- randi dos bandos árabes que aterrorizavam a região. Em junho de 1938, enviou ao comando um relatório intitulado «Como permitir que as forças de Sua Majestade operem à noite para pôr fim ao terror no Norte da Palestina». Wingate sugeria agir à noite, insistia na necessidade de recolher previamente informação, conhecer bem a região, os costumes e a língua dos nativos. O adversário devia ser atacado de surpresa, valendo ‑se de marchas de aproximação
longas e da realização de operações de diversão. Os ataques deviam ser empreendidos de forma breve, serem rápidos e contar com todo o poder de fogo disponível.
Quarenta soldados de infantaria e alguns camiões foram colo‑
cados à disposição de Wingate, que recebeu autorização para recrutar voluntários judeus. Organizou a unidade sob o nome de Special Night Squads (SNS). Após um curto período de treino, os SNS começaram a operar em julho de 1938, realizando ataques‑
‑surpresa a aldeias árabes suspeitas de abrigar terroristas. No pri‑
meiro mês de operações, mataram 60 suspeitos. A extrema violência caracterizava essa unidade – o método utilizado por Wingate para obter informações dos prisioneiros, por exemplo, consistia em alinhá ‑los e executar 1 a cada 10, «estimulando» os que sobrevi‑
viam a falar. Os SNS continuaram a operar até maio de 1939, mas os laços que Wingate estabeleceu com os líderes da comunidade judia – sobretudo Ben ‑Gurion – e o seu sionismo cada vez mais ostensivo exasperaram os superiores, que o transferiram para um posto fora da Palestina.
Assim, da Antiguidade até às vésperas da Segunda Guerra Mundial, as operações especiais foram numerosas, embora o seu carácter secreto as tenha frequentemente ocultado dos historiado‑
res. A partir da Segunda Guerra Mundial, elas assumem um carác‑
ter institucional dentro das forças armadas. Daí em diante, a atuação desses grupos especiais intensificou ‑se, o seu papel e os seus efetivos cresceram rapidamente e tornaram ‑se mais impor‑
tantes do que nunca.