Resiliência e Estresse Ocupacional em Profissionais de
Enfermagem num Hospital Público da Bahia - Brasil:
Contributos para a Gestão em Serviços de Saúde
Dissertação de Mestrado em Gestão dos Serviços de Saúde
Leliany Taize de Assis Ladeia
Orientadores:
Professora Doutora Maria João Filomena dos Santos Pinto Monteiro Professora Doutora Maria da Conceição Alves Rainho Soares Pereira
Resiliência e Estresse Ocupacional em Profissionais de
Enfermagem num Hospital Público da Bahia - Brasil:
Contributos para a Gestão em Serviços de Saúde
Dissertação de Mestrado em Gestão dos Serviços de Saúde
Leliany Taize de Assis Ladeia
Orientadores:
Professora Doutora Maria João Filomena dos Santos Pinto Monteiro Professora Doutora Maria da Conceição Alves Rainho Soares Pereira
Este trabalho foi elaborado exclusivamente como dissertação para efeito de obtenção do grau de Mestre em Gestão dos Serviços de Saúde, apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
“Depois de escalar uma grande montanha, você apenas descobre que há muitas para escalar”.
Dedico este trabalho em especial ao meu pai Dadier pelo amor incondicional, carinho e pelos ensinamentos da resiliência, mesmo quando eu nem sabia o que era RESILIÊNCIA.
O meu abraço e meu beijo estão guardados para o nosso encontro na espiritualidade. Te amo!
A
GRADECIMENTOSAgradeço primeiramente a Deus e aos irmãos especiais que estiveram ao meu lado me fazendo acreditar que eu iria conseguir realizar meu sonho.
Ao meu filho Marco Antonio quero primeiro pedir perdão pela minha ausência, por tantos pedidos de silêncio e pela privação dos momentos de diversão, e segundo agradecer, por me fazer a pessoa mais feliz do mundo, você é a razão do meu viver!
Ao meu marido, pelo amor, pela compreensão nos momentos de ausência, apoio e incentivo incondicional, obrigada por tudo. Te amo!
Ao meu filho João, pela torcida e ajuda com os cuidados com o irmão nas minhas ausências. Você é especial na minha vida!
Aos meus irmãos, pelo amor e por acreditar em mim. Lerley, obrigada por se fazer presente mesmo à distância, por fazer das minhas preocupações e ansiedades as suas, o seu cuidado foi primordial para esta conquista. Laverty, o meu amor por ti é incondicional,você nem imagina o quanto é especial na minha vida. Meus queridos irmãos obrigada por existirem na minha vida.
À minha mãe, pelo amor e pelo incentivo, à minha Tia Dete, pelas orações especiais que me tranquilizavam nos momentos de angústia e desespero, à Cris, pelo carinho e incentivo e áspessoas especiais que me faz sentir amada e especial.
À amiga Monalisa Barros, por acreditar em mim, pela amizade, pela torcida e por despertar o desejo pelo mestrado.
À Professora Doutora Maria João Filomena dos Santos Pinto Monteiro, por orientar e compartilhar seus conhecimentos de forma tão competente.
À Professora Doutora Maria da Conceição Alves Rainho Soares Pereira, pelo acolhimento. Muito obrigada pelo carinho, apoio, extrema paciência e competência com que me orientou.
À Teresinha, pela disponibilidade e paciência. Meu muito obrigada.
Ao professor Doutor Odair Lacerda Lemos, pela disponibilidade na orientação do tratamento estatístico. O verdadeiro mestre é humilde nos seus ensinamentos.
Agradeço carinhosamente a todos os profissionais de enfermagem que participaram da pesquisa.
R
ESUMONuma instituição hospitalar, os profissionais de enfermagem representam a maior e mais complexa força de trabalho, tanto pelo seu contingente numérico como pela heterogeneidade de sua composição (auxiliares de enfermagem, técnicos de enfermagem e enfermeiros). O ambiente de trabalho da profissão de enfermagem integra elementos considerados estressores, o que pode comprometer a saúde e a qualidade de vida dos trabalhadores. No setor público, Stacciarini e Tróccoli (2001) afirmam que a enfermagem é classificada pela Health Education Authority como a quarta profissão mais estressante.
Considerando o estresse ocupacional uma adversidade para os profissionais de enfermagem, é plausível que desenvolvam defesas psicológicas, atualmente chamadas pelas ciências sociais de resiliência, como sendo a capacidade do indivíduo de superar e crescer, aprender com as adversidades, promovendo, dessa forma, a saúde e a qualidade de vida.
Assim, neste estudo pretendeu-se avaliar a resiliência e estresse ocupacional em profissionais de enfermagem de um hospital público da Bahia – Brasil e dar contributos para a gestão da instituição, que se concretiza nos seguintes objetivos: caracterizar os profissionais de enfermagem, nas suas variáveis sociodemográficas e laborais; determinar o escore de resiliência dos profissionais de enfermagem; determinar o escore de estresse dos profissionais de enfermagem; relacionar o escore de resiliência com as variáveis sociodemográficas e laborais dos profissionais de enfermagem; relacionar o escore de estresse com as variáveis sociodemográficas e laborais dos profissionais de enfermagem; correlacionar o escore de resiliência com o escore de estresse dos profissionais de enfermagem.
Metodologicamente, desenvolvemos um estudo de caráter descritivo, correlacional, de abordagem quantitativa e transversal. Os dados foram coletados por meio de um questionário que integra variáveis sociodemográficas, a Escala de Resiliência de Wagnild e Young e a Job Stress Scale.
De um total de 505 profissionais de enfermagem, 238 (47,13%) responderam ao instrumento de coleta de dados, sendo 214 (89,9%) do sexo feminino e 24 (10,1%) do sexo masculino, com idade média de 39,9 anos. A maior parte (52,1%) dos sujeitos encontra-se na situação de “casado/união estável”. Quanto à habilitação acadêmica, 57,6% são técnicos de enfermagem (nível médio) e 97,9% ocupa a função assistencial.
No que se refere às variáveis laborais, 38,2% exerce funções nas unidades de terapia intensiva (adulto e infantil), 8,4% na emergência, 15,5% na ginecologia/obstetrícia, 9,2% na clínica médica, 13,4% na clínica cirúrgica, 7,1% no centro cirúrgico e 8,0% na neonatologia. Os técnicos de enfermagem representam 57,1% da categoria profissional, com o tempo médio de 13,1 anos na profissão, sendo o mínimo de 1 ano e o máximo de 38 anos, e o tempo médio de trabalho nesta instituição era de
participantes. As ausências ao trabalho são pouco expressivas, sendo que apenas 2,9% faltou mais de 11 dias.
Relativamente à resiliência, cuja média foi de 136,63 (dp=19,66), não se verificaram diferenças no escore de resiliência em função do estado civil, da idade, do tempo de experiência, da presença versus ausência ao trabalho e do sexo, sendo, no entanto, superior para o sexo feminino. Constata-se, relações estatisticamente significativas em função de algumas variáveis: foram os técnicos de enfermagem os que apresentaram escore de resiliência acima da média (138,7); os enfermeiros com habilitação acadêmica de bacharel eram mais resilientes que os auxiliares de enfermagem; e foi a categoria profissional de enfermeiro que apresentou um escore de resiliência com valor superior em relação às outras categorias profissionais.
Quanto ao estresse, com a média do escore de 31,0 (dp=3,90), não se verificaram diferenças estatisticamente significativas em função do sexo, embora a média mais alta fosse para o sexo masculino, da idade, do estado civil, da categoria profissional, cuja média é inferior para os enfermeiros, do tempo de experiência na profissão e da habilitação acadêmica. Nas variáveis tipo de horário e presença versus ausência do trabalho, verificou-se uma relação estatisticamente significativa, sendo que os profissionais de enfermagem que trabalhavam no regime de plantão 24 horas foram os que apresentaram maior escore de estresse (34,28), bem como os profissionais que tiveram ausências ao trabalho (31,81).
Quanto à relação entre o escore de resiliência e o escore de estresse, fundamental para as políticas de gestão de recursos humanos e de modo particular para as instituições de saúde, verificou-se que quanto mais elevado era o escore de resiliência, menor era o escore de estresse.
Partindo destes resultados, é importante que os processos de gestão hospitalar possam contribuir para diminuir o estresse nos profissionais de enfermagem, considerando que a integração social entre os profissionais se dá tanto pela dimensão de subsistência como pela dimensão simbólica, na dinâmica do investimento afetivo, do apoio social, proporcionando saúde e bem-estar.
A
BSTRACTIn hospitals, nursing professionals represent the largest and most complex workforce, both by its numerical contingent as the heterogeneity of its composition (nursing assistants, technicians and nurses). The working environment of the nursing profession integrates elements considered stressors, which might jeopardize the health and quality of life of workers. In the public sector, Stacciarini and Tróccoli (2001) state that nursing is classified by the Health Education Authority as the fourth most stressful profession.
Considering the adversity occupational stress for nurses, it is plausible to develop psychological defenses, now called the social sciences resilience, as the capacity of the individual to overcome and grow, learn from adversity, promoting thereby the health and quality of life.
Thus, this study sought to assess the resilience and occupational stress in nurses in a public hospital of Bahia - Brazil and provide input to the management of the institution, which is realized in the following objectives: to characterize nursing professionals in their variables sociodemographic and labor; determine the score resilience of nursing professionals; determine the stress score of nursing professionals; score resilience relate to sociodemographic and labor variables of nursing professionals; relate the stress score and sociodemographic and labor variables of nursing professionals; score resilience correlate with stress score of nursing professionals.
Methodologically, we develop a study of descriptive, correlational nature of quantitative and transversal approach. Data were collected through a questionnaire that integrates sociodemographic variables, the Resilience Scale for Wagnild and Young and the Job Stress Scale.
A total of 505 nurses, 238 (47.13%) responded to the instrument of data collection, 214 (89.9%) females and 24 (10.1%) male, mean age 39.9 years. The majority (52.1%) of the subjects is in the situation of "married/common-law marriage". Regarding academic qualification, 57.6% are nursing technicians (medium level) and 97.9% occupies the welfare function.
With regard to the labor variables, 38.2% perform duties in intensive care units (adult and child), 8.4% emergence, 15.5% in obstetrics/gynecology, 9.2% in the medical clinic, 13 4% in the surgical clinic, surgical center at 7.1% and 8.0% in neonatology. Nursing staff represent 57.1% of the professional category, with the average time of 13.1 years in the profession, with a minimum of 1 year and maximum 38 years, and the average working time in this institution was approximately seven half years. The predominant type of schedule is the daytime (55.9%) comprising the morning and afternoon shifts, with the assistance function performed by 97.9% of participants. The absence from work is negligible, with only 2.9% missed more than 11 days.
work and sex being, however, higher for females. There has been, statistically significant relationships because of several variables were nursing technicians who showed resilience score above average (138.7); nurses with bachelor's academic qualification were more resilient than nursing assistants; and was the professional category of nurse who had a score of resilience with superior value compared to other professions.
As for stress, with the mean score of 31.0 (sd = 3.90), there were no statistically significant differences by gender, although the highest average was for males, age, marital status, the professional category, whose average is lower for nurses, the length of experience in the profession and academic qualification. In the kind of time and presence versus absence of labor variables, we found a statistically significant relationship, and nursing professionals working in night shifts 24 hours were those with the highest stress score (34.28) as well as professionals who have had absences from work (31,81).
Regarding the relationship between the score of resilience and stress score, crucial for the political management of human resources and institutions particularly for health so, it was found that the higher was the score resilience, the lower the score stress.
From these results, it is important that the processes of hospital management can help reduce stress in nurses, whereas the social integration among professionals occurs both by the size of subsistence as the symbolic dimension, the dynamics of affective investment, social support, providing health and wellness.
Í
NDICE PENSAMENTO ... v DEDICATÓRIA ... vii AGRADECIMENTOS ... ix RESUMO ... xi ABSTRACT ... xvLISTA DE FIGURAS ... xvii
LISTA DE TABELAS ... xix
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ... xxi
INTRODUÇÃO ... 1
PARTE I–ENQUADRAMENTO TEÓRICO ... 7
1.CONTEXTUALIZANDO A ENFERMAGEM NO BRASIL ... 9
1.1.Os contextos laborais dos profissionais de enfermagem e saúde ocupacional ... 12
2.RESILIÊNCIA ... 16
2.1. Conceituando a resiliência ... 16
2.2. Resiliência e saúde ... 20
2.3.Resiliência em profissionais de enfermagem ... 24
3.ESTRESSE OCUPACIONAL ... 31
3.1. Conceituando o estresse ... 31
3.2. Estresse ocupacional... 35
3.3. Estresse em profissionais de enfermagem... 40
PARTE II–ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO ... 45
1.METODOLOGIA ... 47 1.1. Justificativa do estudo ... 47 1.2. Tipo de estudo ... 48 1.3. Objetivos do estudo ... 49 1.4. Hipóteses do estudo ... 50 1.5. Amostra ... 51 1.6. Variáveis ... 52
1.7. Instrumento de coleta de dados ... 53
1.8. Procedimentos da coleta de dados ... 54
1.9. Tratamento dos dados ... 54
PARTE IV–CONCLUSÕES E SUGESTÕES ... 73
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 79
APÊNDICES ... 95
ApêndiceA-Categorização das variáveis sociodemográficas e laborais ... 97
ApêndiceB-Questionário ... 101
ApêndiceC- Formalização da solicitação e autorização para uso da Escala de Resiliência de Wagnild e Young e da Job Stress Scale... 107
Apêndice D - Formalização da autorização para realização da pesquisa junto a Direção de Ensino e Pesquisa da instituição ... 111
Apêndice E - Inscrição na Plataforma Brasil Ministério da Saúde - Conselho Nacional de Saúde - Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – CONEP ... 115
Apêndice F - Parecer de autorização do Comitê de Ética para realização da pesquisa ... 119
Apêndice G - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ... 123
L
ISTA DEF
IGURASL
ISTA DET
ABELASTabela 1. Recomendações da APA para melhorar a resiliência ... 23
Tabela 2. Eventos estressores na profissão de enfermagem ... 44
Tabela 3. Composição da amostra (n=238) ... 52
Tabela 4. Fatores, indicadores e itens da Escala de Resiliência de Wagnild e Young ... 53
Tabela 5. Fatores, indicadores e itens da Job Stress Scale ... 54
Tabela 6. Caracterização sociodemográfica e laboral dos profissionais de enfermagem ... 59
Tabela 7. Escore de resiliência e estresse dos profissionais de enfermagem... 63
Tabela 8. Escore de resiliência dos profissionais de enfermagem em função do sexo ... 63
Tabela 9. Escore de resiliência dos profissionais de enfermagem em função do estado civil ... 64
Tabela 10. Escore de resiliência dos profissionais de enfermagem em função da habilitação acadêmica ... 64
Tabela 11. Escore de resiliência dos profissionais de enfermagem em função da categoria profissional ... 65
Tabela 12. Relação entre resiliência e presença versus ausência do trabalho ... 66
Tabela 13. Escore de estresse dos profissionais de enfermagem em função do sexo ... 67
Tabela 14. Escore de estresse dos profissionais de enfermagem em função do estado civil ... 68
Tabela 15. Escore de estresse dos profissionais de enfermagem em função da categoria profissional ... 68
Tabela 16. Relação entre estresse e tipo de horário de trabalho ... 70
Tabela 17. Relação entre estresse e presença versus ausência do trabalho ... 70
Tabela 18. Correlação entre o escore de resiliência (Escala de Resiliência de Wagnild e Young) e o escore de estresse (Job Stress Scale) ... 71
L
ISTA DEA
BREVIATURAS ES
IGLASAPA - American Psychological Association Art. - Artigo
cit. - citado
cols. - colaboradores e.g. - por exemplo ex. - exemplo Jr. - Júnior
MDC - Método Demanda-Controle nº.- número
NR - Normas Regulamentares
OIT - Organização Internacional do Trabalho p. - página
As organizações de saúde passam por repentinas e profundas mudanças no contexto social, econômico e cultural, repercutindo na dinâmica de trabalho e exigindo dos profissionais de saúde atuação dinâmica e inovadora.
O trabalho do profissional de enfermagem tem merecido a atenção de muitos pesquisadores na área de saúde ocupacional, destacando-se prejuízos à saúde física e mental dos trabalhadores. Estudos mostram que as condições de trabalho e vida dos trabalhadores em muita das vezes são colocadas à mercê de riscos provenientes de condições precárias de trabalho, aos quais são responsáveis pelo aparecimento de doenças (Silva & Marziale, 2000). O trabalho representa um valor importante e, por esse motivo, exerce uma influência considerável sobre a motivação dos trabalhadores, sua satisfação e produtividade, e quando gerador de sofrimento pode ser visto como fator de risco na vida do indivíduo. Tal como refere Poetini (2010), é com as condições inadequadas, desde falta de material, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, sobrecarga de trabalho, dentre outras que o indivíduo precisa aprender a lidar e conviver, sendo necessário criar e desenvolver defesas físicas e psicológicas, hoje designadas como resiliência.
Nesse sentido,
A resiliência refere-se ao processo que atua na presença de riscos ao desenvolvimento e através do qual são produzidos resultados tão bons ou ainda melhores do que os obtidos na ausência das adversidades. Assim, a resiliência é revelada pela boa adaptação dos indivíduos ao seu contexto e à sua vida, mesmo diante de situações de risco. (Cowan, Cowan & Schulz,1996, cit. por Couto, Koller & Novo, 2006)
Para que o sujeito seja considerado resiliente, é necessário que exista um equilíbrio, ou uma combinação entre os fatores de risco e de proteção. Os fatores de proteção estão associados às condições do próprio indivíduo (autoestima positiva, temperamento fácil e maleável), às condições familiares (ambiente familiar onde predomine a coesão, estabilidade, flexibilidade, adaptabilidade, valores, crenças, etc.; e pais amorosos, competentes, interessados, com participação escolar na vida dos filhos, expectativa positiva em relação ao futuro dos filhos, etc.) e às condições ambientais (a comunicação aberta, limites definidos e realistas, tolerância aos conflitos, respeito, reconhecimento e aceitação, receptividades a novas ideias, etc.) (Belancieri, Beluci, Silva & Gasparelo, 2010).
Com relação ao polo oposto aos fatores de proteção, ou seja, os fatores de risco, estão a pobreza crônica, temperamento difícil (mau humor, baixa tolerância à frustração, passividade,
comportamento destrutivo, autoestima negativa, cinismo e hostilidade, habilidade de comunicação pobre, depressão, tentativa de suicídio e abuso de álcool e drogas), exposição a eventos estressantes ou traumáticos de vida e características ambientais (estruturas rigidamente organizadas ou muito desorganizadas) (Belancieri & Kahhale, 2010).
Pode-se dizer, então, que a resiliência é uma das competências requeridas pela dinâmica da modernidade do trabalho nas organizações, capaz de explicar a administração da própria subjetividade diante das inúmeras situações de tensão, pressão e ruptura presentes neste contexto (Barlach, Limongi-França & Malvezzi, 2008).
Dentre as possíveis propostas de enfrentamento que objetivem a mobilização de recursos protetores que permitem uma construção psíquica adequada a vida no trabalho, é possível apontar a resiliência como importante estratégia de enfrentamento frente às vivências de estresse do profissional de enfermagem no contexto de trabalho.
O estresse ocupacional no modo de vida atuante tornou-se uma importante fonte de preocupação e objeto de estudo de pesquisadores em todo o mundo e é reconhecido como um dos riscos mais sérios ao bem-estar psicossocial do indivíduo. O estresse relacionado ao trabalho coloca em risco a saúde dos membros da organização e tem como consequências o desempenho ruim, alta rotatividade, absenteísmo, violência no local de trabalho além de se constituir fator determinante dos transtornos depressivos e de outras doenças, tais como, síndrome metabólica, síndrome da fadiga crônica, distúrbios do sono, diabetes e a síndrome de burnout (Rossi, 2005). Os principais fatores geradores de estresse presentes no ambiente de trabalho envolvem aspectos da organização, administração e sistemas de trabalho e da qualidade das relações humanas (Costa, Lima & Almeida, 2003).
No processo de trabalho em saúde toda a instituição hospitalar deve buscar incremento no processo de gestão, visto que, se de um lado algumas características do trabalho podem dar lugar a desajustes, a sofrimento, a esgotamento e a doenças psiquiátricas, de outro, é possível promover o aprimoramento da resiliência nos profissionais para uma melhor qualidade de vida e saúde, uma vez que direta ou indiretamente está associada à produtividade da empresa e à realização pessoal dos seus trabalhadores.
Considerando que os profissionais de enfermagem têm sido objeto de estudo de várias pesquisas que apontam para uma prevalência considerável de estresse ocupacional e a necessidade de desenvolver a resiliência a partir dessa condição e da escassez de iniciativas
por parte das organizações para desenvolvimento de intervenções que diminua os níveis de estresse e promova a resiliência, ponderamos oportuno identificar os escores de resiliência e de estresse em profissionais de enfermagem de um Hospital Público da Bahia - Brasil, perspectivando a integração dos dados obtidos na pesquisa nas políticas de gestão da organização.
A presente pesquisa tem como finalidade contribuir para a elaboração de propostas de intervenção ao nível da gestão da organização para a promoção da resiliência e diminuição dos escores de estresse ocupacional nos profissionais de enfermagem de um Hospital Público da Bahia, garantindo a qualidade e segurança dos cuidados prestados por este grupo profissional, e que se concretiza nos seguintes objetivos: i) Caracterizar os profissionais de enfermagem nas suas variáveis sociodemográficas e laborais; ii) Determinar o escore de resiliência dos profissionais de enfermagem; iii) Determinar o escore de estresse dos profissionais de enfermagem; iv) Relacionar o escore de resiliência com as variáveis sociodemográficas e laborais dos profissionais de enfermagem; v) Relacionar o escore de estresse com as variáveis sociodemográficas e laborais dos profissionais de enfermagem; vi) Relacionar o escore de resiliência e estresse dos profissionais de enfermagem.
No presente trabalho para avaliação dos escores de resiliência foi utilizada a Escala de Resiliência de Wagnild e Young, que mede os níveis de adaptação psicossocial positiva em face de eventos importantes da vida (Pesce et al., 2005). Quanto ao estresse no trabalho, utilizou-se a Job Stress Scale, versão resumida, traduzida e validada para uso no Brasil por Pesce e cols. (2005).
De forma concisa este trabalho é constituído essencialmente por quatro partes. A primeira, refere-se à fundamentação teórica mais significativa para a compreensão da temática em estudo, centrado na contextualização da enfermagem no Brasil, conceituando a resiliência e a sua relação com a saúde e o estresse ocupacional, bem como o estresse em profissionais de enfermagem. A segunda, é referente ao enquadramento metodológico e, por isso, insere os aspectos essenciais à justificativa, objetivos, hipóteses da investigação, amostra, variáveis, instrumento de coleta de dados, procedimentos da coleta, tratamento dos dados, local de estudo e questões éticas. A terceira parte, compreende a apresentação e discussão dos resultados obtidos, confrontando-os com os estudos em domínios semelhantes e que suportam a confirmação ou rejeição das hipóteses do estudo e a formulação das principais conclusões. Por último, a quarta parte, sobressai os aspectos mais relevantes deste estudo, quanto a
resiliência e a estresse em profissionais de enfermagem num Hospital Público da Bahia - Brasil, conjecturando estratégias que, integradas numa política de gestão, visem a promoção da resiliência e a diminuição do estresse ocupacional, bem como a qualidade e segurança dos cuidados que este grupo profissional proporciona à comunidade servida por um centro hospitalar de natureza regional.
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RASILA enfermagem profissional no mundo foi erigida a partir das bases científicas propostas por Florence Nightingale, que foi influenciada diretamente pela sua passagem nos locais onde se executava o cuidado de enfermagem leigo e fundamentado nos conceitos religiosos de caridade, amor ao próximo, doação, humildade, e também pelos preceitos de valorização do ambiente adequado para o cuidado, divisão social do trabalho em enfermagem e autoridade sobre o cuidado a ser prestado. Florence Nightingale é considerada a fundadora da enfermagem moderna em todo o mundo, e obteve projeção maior a partir de sua participação como voluntária na Guerra da Criméia, em 1854, quando com 38 mulheres (irmãs anglicanas e católicas) organizaram um hospital para 4000 soldados internos, baixando a mortalidade local de 40% para 2% (Nash, 1980, cit. por Padilha & Mancia, 2005).
O nascimento da enfermagem no Brasil, ao contrário da Inglaterra e dos Estados Unidos onde a enfermeira aparece com a finalidade de atuar no serviço hospitalar, tem como determinação básica o campo da saúde pública. Essa proposta surge como condição para conter as grandes epidemias e as necessidades de trabalhadores especializados para o combate às doenças infectocontagiosas, a cargo das precárias condições de vida da população, aglomeração nos centros urbanos e o processo de migração e imigração que estariam ameaçando o comércio do Brasil com os países importadores nas primeiras décadas do século XX. Nessa perspectiva, sua atuação visava predominantemente o âmbito da saúde pública, compreendida como as práticas de saúde preventivas e de atenção primária, realizadas fora do campo hospitalar e promovidas por órgãos estatais (Rizzotto, 1999).
O movimento sanitarista pautou-se nos princípios da corrente bacteriológica, intervindo de forma impositiva. A execução das ações ficava a cargo da Polícia Sanitária, das Brigadas e das Delegacias Sanitárias, uma vez que inexistiam serviços ambulatoriais e nem a preocupação com políticas que visassem à melhoria da qualidade de vida da população e à prevenção da doença. Logo, o combate às epidemias e ao saneamento das cidades competia muito mais às milícias do que às enfermeiras (Nascimento & Oliveira, 2006).
Diante deste cenário, surge o ensino sistematizado da enfermagem, com o propósito de formar profissionais para garantir o saneamento dos portos, verificando-se dessa maneira o início do atendimento sanitário por profissionais da saúde fora do ambiente dos hospitais. A
caracterização profissional começa a organizar-se na enfermagem, no século XIX. O grande impulso da enfermagem surgiu com a criação do Departamento Nacional de Saúde Pública, em 1922 que, junto com a Fundação Rockfeller, dos Estados Unidos, fundou a Escola de Enfermagem do Departamento Nacional de Saúde Pública, que começou a funcionar em 1923, passando em 1926 a se chamar Escola das Enfermeiras D. Ana Néri. Estruturada sobre o modelo nightingaleano, em 1931 foi considerada oficialmente como escola padrão, servindo de base para equiparação de cursos do gênero no país, e foi incorporada em 1937 à Universidade Federal do Rio de Janeiro (Fontinele Jr., 2000).
A Escola surgia como marco da estruturação da nova profissão de enfermagem, passava a existir então a figura da enfermeira visitadora, como papel de educadora sanitária. Neste momento, “...o Estado Brasileiro institui suas primeiras políticas no campo da saúde, baseada em diretrizes definidas e coordenadas pelos órgãos de saúde, com finalidade de estabelecer a saúde coletiva” (Pires, 1989, cit. por Nascimento & Oliveira, 2006, p.132).
Entretanto, a formação inicial da proposta de Carlos Chagas não ocorreu nos modelos alvitrados. A criação de uma rede geral e única de serviços – o centro de saúde – descentralizada e regionalizada, onde a enfermagem teria um papel definido a cumprir, não se consolidou enquanto modelo de saúde pública. O papel do enfermeiro desenvolvido na época e sua prática era marcada pelo predomínio do direcionamento da atenção à saúde para o campo hospitalar.
As novas experiências no campo da saúde pública, no início dos anos de 1920, também incorporaram o novo paradigma de compreensão do processo saúde/doença, decorrente do avanço da biologia, da fisiologia, da anatomia-patológica, da microbiologia e da bacteriologia. Esse paradigma da medicina clínica, ao mesmo tempo em que exigia outro espaço para se desenvolver, o hospital, provocava um abandono progressivo das medidas de caráter coletivo, privilegiando a assistência individual (Rizzotto, 1999).
A questão central desta análise e reflexão foi desmistificar a articulação do surgimento da Enfermagem Moderna no Brasil com o trabalho desenvolvido visando à saúde pública. Sendo assim, procurou-se reconstruir os diversos momentos, em que ocorreram os acontecimentos envolvidos na criação da Escola Anna Nery, considerada marco inicial da Enfermagem Moderna no País. A análise da organização e da forma de ensino ministrado na referida
escola, parecem ter confirmado a articulação original da enfermagem profissional com a assistência hospitalar curativa e o modelo biomédico vigente (Nascimento & Oliveira, 2006). A consolidação do modelo hospitalocêntrico, fortalece cada vez mais o lugar da enfermagem na equipe de saúde hospitalar, exigindo uma melhor preparação técnico/científica desses profissionais que prestariam cuidados aos doentes e manipulariam os instrumentos. Os conhecimentos teórico-científicos converteram-se em um conhecimento prático, que iriam revestir de maneira singular o atendimento à saúde (Nascimento & Oliveira, 2006).
Em 15 de junho de 1931, consolida o exercício profissional da enfermagem através do Decreto nº 20.109. Somente em 1949, através da Lei nº 775 que dispõe sobre ensino de enfermagem no país, cria os cursos de auxiliar de enfermagem e situa as escolas de enfermagem de nível superior, - que a prática de enfermagem regulamenta o exercício da enfermagem profissional, revogando o Decreto nº 20.109 e concretizando a Lei nº 2.064 de setembro de 1955. A partir de 1961, é implantado definitivamente o nível superior para a formação de enfermeiros (Fontinele Jr., 2000).
Através da Lei do Exercício Profissional nº 7.498, de 25 de junho de 1986, que dispõe sobre o exercício da enfermagem e dá outras providências, e através do Decreto nº 94.406, que regulamenta a referida lei, os profissionais de enfermagem encontram guarida legal em suas atividades (Fontinele Jr., 2000).
Dessa forma, observa-se que o desenvolvimento da enfermagem profissional no Brasil, vem seguindo o modelo americano, que satisfaz mais as necessidades de qualificar os serviços de enfermagem nos hospitais, do que atender as necessidades de saúde da maioria da população (Nascimento & Oliveira, 2006).
O trabalho da enfermagem é realizado por uma equipe com diferentes graus de formação, conforme descrito na Lei 7.498/86, de 25 de junho:
Art.2- A Enfermagem e suas atividades auxiliares somente podem ser exercidas por pessoas legalmente habilitadas e inscritas no Conselho Regional de Enfermagem com jurisdição na área onde ocorre o exercício. …A Enfermagem é exercida privativamente pelo Enfermeiro, pelo Técnico de Enfermagem, pelo Auxiliar de Enfermagem e pela Parteira respeitando os respectivos graus de habilitação.
A Lei nº 7.498/86 ainda dispõe sobre as atividades de enfermagem, especificando as atividades de cada categoria seja no âmbito público ou privado. O Enfermeiro exerce todas as atividades de Enfermagem, cabendo-lhe: direção do órgão de Enfermagem integrante da estrutura básica da instituição de saúde e chefia de serviço e de unidade de Enfermagem; organização e direção dos serviços de Enfermagem e de suas atividades técnicas e auxiliares nas empresas prestadoras desses serviços; planejamento, organização, coordenação, execução e avaliação dos serviços de assistência de Enfermagem; consulta de Enfermagem; prescrição da assistência de Enfermagem; cuidados diretos de Enfermagem a pacientes graves com risco de vida; cuidados de Enfermagem de maior complexidade técnica e que exijam conhecimentos de base científica e capacidade de tomar decisões imediatas. O Técnico de Enfermagem exerce atividade de nível médio, envolvendo orientação e acompanhamento do trabalho de Enfermagem em grau auxiliar, e partipação no planejamento da assistência de Enfermagem, especialmente: participar da programação da assistência de Enfermagem; executar ações assistenciais de Enfermagem, exceto as privativas do Enfermeiro; participar da orientação e supervisão do trabalho de Enfermagem em grau auxiliar; d) participar da equipe de saúde. O Auxiliar de Enfermagem exerce atividades de nível médio, de natureza repetitiva, envolvendo serviços auxiliares de Enfermagem sob supervisão, bem como a participação em nível de execução simples, em processos de tratamento, especialmente: observar, reconhecer e descrever sinais e sintomas; executar ações de tratamento simples; prestar cuidados de higiene e conforto ao paciente; participar da equipe de saúde. A parteira cabe: assistência à parturiente e ao parto normal; identificação das distorcias obstétricas e tomada de providências até a chegada do médico; realização de episiotomia e episiorrafia e aplicação de anestesia local, quando necessária.
Este saber técnico guarda uma relação recíproca com as ações de enfermagem e, em conjunto, no exercício cotidiano do trabalho, constitui o cuidado de enfermagem e o gerenciamento como objeto de trabalho (Peduzzi & Anselmi, 2002).
1.1. Os contextos laborais dos profissionais de enfermagem e saúde ocupacional
A profissão de enfermagem se configura basicamente como prestação de cuidado ao ser humano. Tal cuidado é, antes de tudo, um exercício e uma arte de observação, de saber e de
fazer. Dinâmica que envolve quem cuida e quem é cuidado (seus pacientes). As atividades do enfermeiro não devem se limitar a uma ação técnica a ser estudada e desenvolvida, tal como uma função braçal. Esta profissão está fortemente pautada nas relações humanas, sociais e nas implicações que definem sua prática, de tudo e todos à sua volta (Regis & Porto, 2006).
Ser enfermeiro significa ter como agente de trabalho o ser humano, e, como sujeito de ação, o próprio ser humano. Há uma estreita ligação entre o trabalho e o trabalhador, com a vivência direta e ininterrupta do processo de dor, morte, sofrimento, desespero, incompreensão, irritabilidade e tantos outros sentimentos e reações desencadeadas pelo processo do adoecimento. (Batista & Bianchi, 2006, p.535)
O trabalho pode ser considerado como um espaço importante de relações interpessoais e de representação de socialização e definição de identidades na vida adulta. Em alguns contextos e relações faz-se necessário efetuar modificações adaptativas por parte dos trabalhadores e das instituições, no intuito de manter uma relação saudável com o trabalho (Bertoletti & Cabral, 2007; Santos, 2011).
Neste sentido, a saúde ocupacional está voltada à promoção e à preservação da integridade física e psicológica do trabalhador durante o exercício de sua função, por meio da detecção de fatores que interferem em sua saúde (Porto, Santos, Vasconcelos & Fonseca, 2011).
As instituições hospitalares brasileiras começaram a se preocupar com a saúde dos trabalhadores no início da década de 70, quando pesquisadores da Universidade de São Paulo enfocaram a saúde ocupacional de trabalhadores hospitalares (Gomes, 1974, cit. por Nishide & Benatti, 2004).
O hospital, de maneira geral, é reconhecido como um ambiente insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham. Desse modo, o ambiente de trabalho pode converter-se em elemento agressor do indivíduo. Qualquer que seja a origem do desequilíbrio, existe a possibilidade de dano para a saúde do trabalhador. O processo adaptativo nem sempre é bem sucedido e pode resultar em adoecimento do trabalhador (Elias & Navarro, 2006; Mauro, Muzi, Guimarães & Mauro, 2004).
A doença ocupacional, embora ainda sem esta denominação, é descrita desde tempos remotos. Hipócrates descreveu o quadro clínico da intoxicação saturnina, Plínio, o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, ao mercúrio e a poeiras, Agrícola escreve sobre a “asma dos mineiros”, hoje denominada silicose e Paracelso, a intoxicação pelo mercúrio. Quase dois séculos mais tarde, em 1700, foi publicado “De Morbis Artificum Distriba”, escrito por
Bernardino Ramazzini, conhecido como “Pai da Medicina do Trabalho”, descrevendo doenças de aproximadamente 50 ocupações (Mendes, 1995).
Destacaram também na história, Georgius em 1556 ao observar os acidentes e as doenças mais comuns entre os mineiros, Robert Baker em 1830 e estudioso das obras de Ramazzini, dedicou parte de seu tempo a visitar fábricas e a conhecer a relação entre o trabalho e a doença, sendo nomeado “inspetor médico das fábricas”. Outro marco importante na história foram as Teorias de Taylor e Ford, e suas influências no desenvolvimento do trabalho (Souza, 2010, cit. por Guimarães, Dantas & Brasileiro, 2010).
As relações entre saúde e adoecimento no trabalho têm sido foco de diversos estudos com o olhar direcionado para prejuízos físicos e psíquicos que o trabalho vem causando em inúmeros trabalhadores. As principais causas desses adoecimentos têm relação com a atual organização do trabalho, marcada pela excessiva sobrecarga humana, já que é exigido um trabalho em prolongadas jornadas; um ritmo acelerado de produção; o excesso de tarefas; a automação; ações repetitivas e sem significado, uma vez que há parcelamento de tarefas; uma baixa remuneração em relação à responsabilidade e complexidade das tarefas executadas; entre outros. Em variadas situações, o trabalho perde seu caráter positivo e assume características prejudiciais à saúde do trabalhador. Nesses casos, o trabalho deixa de significar satisfação, ganhos materiais e serviços sociais úteis, para tornar-se sofrimento, exploração, doença e morte (Barboza & Soler, 2003).
Analisando a saúde do trabalhador no contexto da enfermagem, através dos tempos, é possível verificar que esses trabalhadores estão expostos a diversos fatores que comprometem a saúde, gerando índices elevados de acidentes de trabalho e de doenças relacionadas ao trabalho (Santos, 2011).
No relatório Penúria mundial do pessoal de enfermagem: ações prioritárias (2006), referente a estudo sobre as tarefas da enfermagem, o Conselho Internacional de Enfermeiras e a Fundação Internacional Florence Nightingale indicam a melhoria das condições de trabalho como das mais importantes (Associação Brasileira de Enfermagem, 2006).
A saúde ocupacional está voltada à promoção e à preservação da integridade do trabalhador durante o exercício de sua função, por meio da detecção de fatores que interferem em sua saúde, ou seja, melhores condições de trabalho. Avança numa perspectiva interdisciplinar relacionando ambiente de trabalho e trabalhador. Desse modo, instituições de saúde onde
predominem atividades rotineiras, estressantes e cansativas podem converter-se num elemento agressor ao indivíduo e o estudo deste ambiente torna-se essencial para compreender os vários aspectos que assegura a saúde ocupacional dos trabalhadores (Mauro et al., 2004).
Como os afazeres de trabalho dos profissionais de enfermagem nos hospitais representam a maioria dos setores com atividades assistenciais, permanecendo junto aos pacientes várias horas do dia, espera-se que o ambiente seja apropriado para prática de suas tarefas, com inserção de programas voltados a prevenção e conscientização de atividades seguras. Visando, ainda, minimizar os acidentes de trabalho, doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade e a capacidade de trabalho do trabalhador (Porto et al., 2011).
No caso da enfermagem, particularmente no ambiente hospitalar, não é uma situação rara se observarem equipes de enfermagem desempenhando suas atividades de forma fragmentada e submetida a diversos riscos ocupacionais. Entre esses riscos encontram-se os biológicos, físicos, químicos e psicossociais. No entanto, os riscos psicossociais encontram-se em evidência em várias pesquisas (Chiodi & Marziale, 2006; Santos, 2011).
A saúde ocupacional no ambiente hospitalar pode iniciar-se pela avaliação dos riscos, que se refere basicamente à identificação e ao estabelecimento de limites e perigos, apesar de que a valoração de riscos se refira à estimativa do risco em comparação a certas normas. No caso do estresse ocupacional, a avaliação dos riscos e a sua valoração pertencem principalmente a fatores psicossociais do trabalho (Guimarães, 2006).
O Ministério do Trabalho, através das normas regulamentares (NR), visa eliminar ou controlar tais riscos ocupacionais. São 32 NRs direcionadas para trabalhador urbano, das quais foram selecionadas algumas de relevância para o trabalhador de saúde: NR-1 Disposições Gerais; NR-4 Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho – SESMT; NR-5 Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA; NR-6 Equipamentos de Proteção Individual – EPI; NR-7 Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional - PCMSO; NR-9 Programa de Prevenção de Riscos Ambientais - PPRA; NR-15 Atividades e Operações Insalubres; NR-16 Atividades e Operações Perigosas; NR-17 Ergonomia; NR-24 Condições Sanitárias e de Conforto nos Locais de Trabalho; NR-26 Sinalização de Segurança; NR-31 Segurança e Saúde no Trabalho em Espaços Confinados; NR-32 (em processo de implementação) Segurança e Saúde no Trabalho em Estabelecimentos de Assistência à Saúde. Os centros de estudos dos hospitais e outros
serviços de saúde, também deverão discutir essa problemática e buscar a assessoria necessária com os técnicos competentes, principalmente em relação a novos riscos (Mauro et al., 2004).
2.
R
ESILIÊNCIA2.1. Conceituando a resiliência
O termo resiliência, originariamente, foi aproprido pelas ciências físicas. É utilizado para descrever a habilidade que um material possui de armazenar energia ao sofrer uma pressão e de se flexionar elasticamente sem quebrar ou se deformar (Norris, Stevens, Pfefferbaum, Wyche & Pfefferbaum, 2008). Uma outra explicação para este termo afirma que resiliência é a habilidade de uma substância retornar à sua forma original quando a pressão é removida (Antonovsky & Sourani, 1988, cit. por Yunes, 2003).
Para melhor exemplificar a diferença cultural no significado da palavra resiliência, recorreu-se às línguas inglesa e portuguesa. Reportando-recorreu-se à sua utilização nas ciências humanas, apresenta-se como a capacidade do indivíduo construir-se positivamente face às adversidades. Etimologicamente, a origem inglesa da palavra (resilient) também remete à ideia de elasticidade e capacidade rápida de recuperação (Houaiss & Villar, 2001). O dicionário da língua inglesa, apresenta este conceito como a habilidade para o indivíduo retomar rapidamente o seu usual estado de saúde depois de uma situação de adversidade (Summers, 1995). O Dicionário de Língua Portuguesa (2012), explicita a resiliência como a “capacidade de defesa e recuperação perante fatores ou condições adversos”, etimologicamente significa “saltar pata trás, recusar vivamente” (p.1384).
Resiliência e invulnerabilidade não são termos equivalentes, afirmam Zimmerman e Arunkumar (1994). Segundo estes autores, resiliência refere-se a uma habilidade de superar adversidades, o que não significa que o indivíduo saia da crise ileso, como implica o termo invulnerabilidade.
A invulnerabilidade passa somente a ideia de uma característica intrínseca do indivíduo, e as pesquisas mais recentes têm indicado que a resiliência ou resistência ao estresse é relativa, que suas bases são tanto constitucionais como ambientais, e que o grau de resistência não tem uma quantidade fixa, mas sim, varia de acordo com as circunstâncias (Rutter, 1985, 1993).
Apesar destas considerações, é esta versão inicial de resiliência como invulnerabilidade ou resistência às adversidades que ainda vem orientando a produção científica de muitos pesquisadores da área. Conforme afirma Martineau (1999, cit. por Yunes, 2003), tal perspectiva tem dado lugar à construção de um conceito que define a resiliência como um conjunto de traços e condições que podem ser replicados. Sumariza ainda que, os principais traços vistos como características fixas da resiliência, que formam um consenso na opinião de diversos autores são: sociabilidade, criatividade na resolução de problemas e um senso de autonomia e de proposta. Estas medidas do observável e de alguma maneira mensurável acabam por definir o que os autores (experts) chamam de resiliência. Em segundo lugar, analisa o discurso experiencial, cuja base são os estudos qualitativos, com dados obtidos a partir de histórias de vida de adultos relatadas a psicoterapeutas (e identificados por outras pessoas como “resilientes”). São histórias de vida construídas e reconstruídas através das múltiplas interpretações do indivíduo. Em terceiro lugar, apresenta o discurso de pessoas que trabalham diretamente com crianças e adolescentes (educadores, psicólogos, assistentes sociais), uma perspectiva de resiliência ainda em construção, que sintetiza aspectos dos dois discursos, dos experts e do experiencial.
Luthar, Cicchetti e Becker (2000) consideram que a resiliência se refere à obtenção de resultados desenvolvimentais esperados, apesar da presença de desafios significativos para o desenvolvimento e a adaptação do sujeito. Estes autores destacam duas condições críticas associadas ao conceito: a primeira refere-se à exposição da pessoa a uma ameaça significativa ou a uma severa adversidade; na segunda há concretização de uma adaptação efetiva, apesar da 'agressão' em potencial que repercute no desenvolvimento do sujeito.
Para Zimmerman e Arunkumar (1994), o termo resiliência refere-se aos fatores e ao processo que interrompem uma trajetória de risco para transtornos de comportamento ou psicopatologias, resultando em respostas positivas mesmo na presença de adversidade. Aplicada à área da saúde mental, esta concepção pode ser compreendida como a capacidade de o sujeito evitar a reprodução, na vida adulta, dos conflitos e dos desajustes familiares, vividos na infância. Assim, por exemplo, mesmo que um dos pais tenha sido alcoolista, nem por isso o filho está condenado a desenvolver esse problema e tornar-se também um alcoolista na idade adulta, apesar dos altos índices de recorrência desta doença para a descendência, apontados na literatura.
Garmezy (1993) concebe a resiliência como a capacidade de recuperar o padrão de funcionamento após experienciar uma situação adversa, sem que, no entanto, deixe de ser atingido por ela. Esta concepção está associada à ideia de que a pessoa resiliente, vivendo sob uma situação de ameaça ao seu bem-estar, pode se curvar, perder suas forças e ainda se recuperar.
Cyrulnik (2001, cit. por Silva, Elsen & Lacharitê, 2003), considera que resiliência traduz um conjunto de fenômenos articulados entre si, que se desenrolam ao longo da vida, em contexto afetivo, social e cultural, podendo ser metaforicamente comparado à arte de navegar no meio de uma tempestade.
Nas ciências humanas, o conceito tem sido utilizado para representar a capacidade de um indivíduo ou de um grupo de indivíduos, mesmo num ambiente desfavorável, constituir-se ou reconstituir-se positivamente frente às adversidades (Barlach, 2005).
A definição de resiliência pode ser determinada como a capacidade de uma pessoa recuperar-se e manter um comportamento adequado após um dano. Não é apenas a capacidade de ultrapassar as adversidades, mas também a capacidade de enfrentá-las e superá-las, melhorando os aspectos positivos da vida (Belancieri et al., 2010; Vergara, 2008).
Os estudos sobre resiliência foram divididos em duas gerações: a primeira geração de pesquisadores, nos anos 70, tiveram como interesse descobrir os fatores protetores que estão na base da adaptação positiva, enquanto que a segunda geração, nos anos 90, expandiu o tema em dois aspectos: a noção de processo, que implica a dinâmica entre fatores de risco e de resiliência, que permite ao indivíduo superar a adversidade e buscar modelos para promover resiliência de forma efetiva (Infante, 2005).
A resiliência implica um processo que pode ser desenvolvido e promovido e distingue três componentes essenciais que devem estar presentes no conceito de resiliência:
1. A noção de adversidade, trauma, risco ou ameaça ao desenvolvimento humano, ou seja, os estressores;
3. O processo que considera a dinâmica entre mecanismos emocionais, cognitivos e socioculturais que influem no desenvolvimento humano (Rutter, 1991, cit. por Infante, 2005).
É possível sugerir que, para desenvolver um modelo de resiliência, é necessário definir adversidades e adaptação positiva e descrever o processo de conexão entre ambas. Ao explicitar as possíveis relações entre fatores de risco e de resiliência, é possível entender como ocorre a adaptação resiliente e aperfeiçoar os processos que se mostram bem sucedidos (Infante, 2005).
Os fatores estressores podem interagir numa cadeia de eventos e o risco cumulativo está altamente associado com os desfechos negativos. Porém, um evento será percebido como estressante se a pessoa acreditar que o estresse excede sua capacidade de enfrentamento. Embora experiências estressantes possam tornar os indivíduos mais susceptíveis a estressores posteriores, algumas vezes, a experiência de estresse pode fortalecer a resistência do indivíduo a novas adversidades. Assim, uma questão importante é identificar as circunstâncias que levam ao estresse/adversidade, para a partir daí estudar a resiliência (Vilete, 2009). Existem fatores de risco e de proteção envolvidos na resiliência. Os fatores de risco podem ser circunstâncias familiares, conflitos emocionais, problemas no contexto escolar, contexto de trabalho, problemas interpessoais, pobreza crônica, temperamento difícil e características ambientais (Belancieri & Kahhale, 2010). O risco refere-se a variáveis cuja presença leva à patologia ou desajustamento. O impacto que os fatores de risco têm sobre os indivíduos varia em função de múltiplas variáveis, nomeadamente, das características dos fatores de risco, das características dos indivíduos expostos a estes riscos e da interação entre os indivíduos e o risco (Rutter, 1987).
Os fatores de risco sempre devem ser pensados como processo e não como variável em si, relacionando os fatores de risco com toda a sorte de eventos negativos da vida, os quais, quando presentes, aumentam a probabilidade de ocorrer problemas físicos, sociais ou emocionais (Sória, Bittencourt, Menezes, Sousa & Souza, 2009; Yunes & Szymanski, 2001). Trombeta e Guzzo (2002) revelam que a presença de fatores de risco não prediz psicopatologias. Mas, por outro lado, a presença de fatores de proteção são preditivos de resiliência. Os fatores de proteção estão associados às condições do próprio indivíduo, às condições familiares e às condições ambientais. Se refere à influência que modifica, melhora
ou altera a resposta de uma pessoa ao estresse, e não é sinônimo de experiência positiva. Os processos protetores podem ser aqueles que exercem efeitos diretos na direção de uma adaptação positiva (Vilete, 2009).
As pesquisas em resiliência mudaram a forma como se percebe o ser humano: de um modelo de risco, baseado nas necessidades e na doença, se passou a um modelo de prevenção e promoção, baseado nas potencialidades e recursos que o ser humano tem em si mesmo e ao seu redor. Um indivíduo que é capaz de procurar seus próprios recursos, sai fortalecido da adversidade. O enfoque em resiliência obriga trabalhadores de saúde e profissionais da área social a prestarem atenção a “magia cotidiana”, expressão que remete à evidência de que o processo da adaptação positiva pode ocorrer em contextos cotidianos de adversidades extrema e que, mesmo assim, o indivíduo é capaz de encontrar recursos e superar a adversidade. Por último, esse enfoque possui a vantagem de considerar que o processo de adaptação resiliente não é responsabilidade única do indivíduo, mas toda a ecologia que o rodeia (Infante, 2005). Nesta ecologia está presente a organização, ou seja, a responsabilidade e o compromisso da gestão hospitalar.
A condição de resiliência permite às pessoas desfrutarem de uma melhor qualidade de saúde e vida, além do crescimento psicológico e promoção de benefícios à saúde mental. Com esta ideia em mente, segundo Silva, Lunardi, Lunardi Filho e Tavares (2005), falar de resiliência significa falar de produção de saúde em contextos diversos, dentre eles o trabalho. Existem pessoas que se deixam destruir pelas adversidades, pelas situações conflitantes, pelas situações estressoras e pela violência. Enquanto outros sujeitos, que além de não se deixarem abater pelo infortúnio, ainda se mostram capazes de aproveitar para o seu crescimento pessoal, social e profissional.
Neste sentido, ao se tratar de resiliência em contextos diversos, podemos reafirmar que este termo pode ser encontrado na psicologia e psiquiatria, em ciências sociais, odontologia, veterinária, agronomia, ecologia, entre outras. A resiliência como enfoque de estudos científicos tem sido abordada em variadas áreas de conhecimento. Portanto, estudar a resiliência na área da saúde é compreender de modo mais aprofundado os processos de resistência às adversidades e as formas como pode ser utilizada em prol do crescimento profissional, motivado por um projeto de vida e não por perdas e danos resultantes de traumas e reveses do passado.
2.2. Resiliência e saúde
Resiliência refere-se à capacidade de um ser humano (indivíduo, família ou mesmo uma comunidade) construir uma trajetória de vida positiva/saudável, apesar de viver em um contexto adverso. Trata-se de um fenômeno complexo e dinâmico que se constrói de forma gradativa, a partir das interações vivenciadas pelo ser humano e seu ambiente, as quais podem promover a capacidade de enfrentar com sucesso situações que representam ameaça ao seu bem-estar (Silva et al., 2003; Silva & Menezes, 2005).
Ainda sobre seu conceito vinculado à saúde que é um tema inovador, entende-se que este termo traz como conceito o conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam o desenvolvimento saudável do indivíduo, mesmo este vivenciando experiências desfavoráveis. A complexidade do constructo envolve a interação entre eventos de vida adversos e fatores de proteção internos e externos ao indivíduo (Luthar & Zigler, 1991; Pesce et al., 2005; Rutter, 1987).
A literatura sobre resiliência refere que é um termo usado somente para casos em que a pessoa responde positivamente na presença de uma circunstância de risco significativo. A resiliência não implica a anulação ou eliminação da situação de risco, mas resulta de que tendo se defrontado com essas situações, o sujeito possa enfrentar, com sucesso, os desafios que se apresentam (Silva & Menezes, 2005).
Resiliência é um termo relativamente novo na área da saúde (Belancieri et al., 2010). A resiliência vinculada à saúde é um conceito que prioriza o potencial dos seres humanos para produzir saúde, em vez de se ocupar apenas dos transtornos e disfunções, como acontece quando o modelo de assistência é biomédico-hospitalocêntrico. Representa, pois, uma possibilidade de ampliar a compreensão do processo saúde-doença, passando para uma abordagem que inclui a família e a comunidade, articulando as relações entre os contextos sociais, culturais, políticos, econômicos, já que é considerada como um fenômeno que se constrói não somente a partir das características pessoais do sujeito, mas, também, do ambiente e das relações que neles e entre eles se desenrolam.Ao mesmo tempo, a resiliência possibilita resgatar a relação sujeito-família-ambiente e reencaminhar a insatisfação decorrente do conformismo e aceitação de que as pessoas que nascem em ambientes onde a doença, a violência, a dependência química e outros problemas se inscrevem, estão
condenadas a apresentar algum tipo de transtorno na vida adulta (Rutter, 1993; Silva & Menezes, 2005).
Nos domínios das ciências humanas e da saúde, o conceito de resiliência faz referência à capacidade do ser humano responder de forma positiva às situações adversas que enfrenta, mesmo quando estas comportam risco potencial para sua saúde e/ou seu desenvolvimento. Esta capacidade é considerada por alguns autores como uma competência individual que se constrói a partir das interações entre o sujeito, a família e o ambiente e, para outros, como uma competência não apenas do sujeito, mas, também, de algumas famílias e de certas coletividades. Trata-se, portanto, de um fenômeno complexo, ligado à interdependência entre os múltiplos contextos com os quais o sujeito interage de forma direta ou indireta e sobre o qual incide diferentes visões (Cyrulnik, 2001, cit. por Silva et al. 2003).
Enfim, resiliência representa um dos possíveis caminhos para trabalhar de forma prioritária com a saúde, deslocando a ênfase da dimensão de negatividade da doença, para as potencialidades das pessoas/grupos, as quais possibilitam que sejam criadas as condições para que seus membros possam se desenvolver como sujeitos capazes de responder positivamente às demandas da vida cotidiana, apesar de vivenciar ambientes com alto potencial de risco (Silva & Menezes, 2005). Destarte, a perspectiva que prevalece é a de que a resiliência é hoje entendida mais como um fator de equilíbrio pessoal e social que permite ter um funcionamento adaptado em situações adversas do que como um fator impossível de desestabilizar (Tavares, 2001).
Segundo a American Psychological Association (APA), o indivíduo pode se ater a algumas condições e com isso melhorar a sua resiliência. Na Tabela 1 apresentam-se as recomendações da APA para melhorar a resiliência.
Tabela 1.
Recomendações da APA para melhorar a resiliência
1
Fazer as ligações: As boas relações com os membros próximos da família, amigos ou outrossão
importantes. Aceitar ajuda e apoio daqueles que se preocupam com você e vai ouvir você fortalece a resiliência. Algumas pessoas acham que ser ativo em grupos cívicos, organizações baseadas na fé, ou outros grupos locais fornece suporte social e pode ajudar com a recuperação de esperança. Ajudar outras pessoas em seus momentos de necessidade, também podem se beneficiar do ajudante.
2
Evite vendo crises como problemas intransponíveis: Você não pode mudar o fato de que eventos
altamente estressantes acontecer, mas você pode mudar o modo de interpretar e responder a esses eventos. Tente olhar além do presente de como circunstâncias futuras podem ser um pouco melhor. Observe todas as maneiras sutis em que você já pode se sentir um pouco melhor como você lidar com situações difíceis..
3
Aceitar que a mudança é uma parte da vida: Alguns objetivos podem não ser atingível, como
resultado de situações adversas. Aceitando circunstâncias que não podem ser mudadas pode ajudá-lo a se concentrar em circunstâncias que você pode alterar.
4
Mover em direção a seus objetivos: Desenvolver algumas metas realistas. Faça algo regularmente -
mesmo se parece como uma pequena realização - que lhe permite mover-se em direção a seus objetivos. Em vez de se concentrar em tarefas que parecem inatingíveis, pergunte-se: "O que é uma coisa que eu sei que posso realizar hoje que me ajuda a se mover na direção que eu quero ir?"
5
Tomar ações decisivas agir em situações adversas, tanto quanto você puder. Tomar ações decisivas,
ao invés de separar completamente dos problemas e tensões e desejando que eles simplesmente ir embora.
6
Procure oportunidades de auto-descoberta: As pessoas muitas vezes aprender algo sobre si mesmos
e podem achar que eles têm crescido em algum aspecto, como resultado de sua luta com a perda. Muitas pessoas que sofreram tragédias e dificuldades relataram um melhor relacionamento, maior sensação de força, mesmo enquanto se sentir vulnerável, maior senso de autoestima, uma espiritualidade mais desenvolvida e elevado apreço pela vida.
7 Nutrir uma visão positiva de si mesmo: Desenvolver a confiança em sua capacidade de resolver
problemas e confiar em seus instintos ajuda a construir resiliência.
8
Manter as coisas em perspectiva: Mesmo diante de acontecimentos muito dolorosos, tentar
considerar a situação estressante em um contexto mais amplo e manter uma perspectiva de longo prazo. Evite soprar o evento fora de proporção.
9
Manter uma perspectiva esperançosa: Uma perspectiva otimista permite que você esperar que as
coisas boas vão acontecer em sua vida. Tente visualizar o que você quer, ao invés de se preocupar com o que você teme.
10
Cuide de si mesmo: Preste atenção às suas próprias necessidades e sentimentos. Envolver-se em
atividades que você goste e encontrar relaxante. Exercite-se regularmente. Cuidar de si mesmo ajuda a manter o corpo ea mente preparados para lidar com situações que exigem resiliência
11
Outras maneiras de fortalecer a resiliência pode ser útil: Por exemplo, algumas pessoas escrevem
sobre seus mais profundos pensamentos e sentimentos relacionados a trauma ou outros eventos estressantes em sua vida. Meditação e práticas espirituais ajudar algumas pessoas a construir conexões e restaurar a esperança
Fonte: APA, 2015.
Ralha-Simões (2001) fala de uma menor vulnerabilidade apresentada por alguns indivíduos, como base da resiliência. Refere ainda que esta menor vulnerabilidade não é devida a um bloqueio à entrada de estímulos do envolvimento, mas sim resultado de uma maior capacidade de adaptação a esses estímulos que lhe permite um continuado ajuste às circunstâncias da vida, mesmo as menos favoráveis.
Anaut (2005) conceptualiza a vulnerabilidade como o estado de menor resistência perante fatores nocivos e agressões, dá conta da variabilidade interindividual. Evoca as sensibilidades e as fraquezas patentes ou latentes, imediatas ou diferidas e pode ser entendida como uma capacidade (incapacidade) de resistência aos constrangimentos do meio ambiente.