3. E STRESSE O CUPACIONAL
3.2. Estresse ocupacional
Com o passar dos anos, o processo de trabalho tem sofrido profundas e sucessivas mudanças. Inicialmente pela economia de subsistência até chegar o mercado capitalista. O crescimento das cidades foi um marco importante para compreensão da dinâmica do trabalho, pois o abandono da vida do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida, redirecionou a estrutura do mercado de trabalho nas cidades. As mudanças continuam acontecendo na sociedade, e o mundo do trabalho caminha a passos largos, da era industrial para era da informação em um processo de globalização. Essas e tantas outras mudanças transformam as características de trabalho e resultam em repercussões profundas em todos os aspectos na vida dos trabalhadores.
O trabalho ocupa um espaço importante na vida do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e profissional, se for conseguido: o respeito pela vida e a saúde do trabalhador, priorizando o problema da segurança e da salubridade dos locais de atividade laboral; a duração da jornada e sua coordenação para a melhoria das condições de vida fora do local da atividade ocupacional, aumentando o tempo livre para o descanso e lazer. Deste modo, permite ao trabalhador sua própria realização pessoal, ao mesmo tempo em que presta serviços à comunidade, considerando o problema do tipo de atividade e da organização do trabalho (Mauro et al., 2004). No entanto, a atual organização do trabalho se estabelece de
forma contrária, com jornadas de trabalho prolongadas, excesso de tarefas, baixa remuneração em relação à responsabilidade e complexidade das tarefas, entre outros.
A partir dessas constatações, é necessário efetuar modificações adaptativas por parte dos trabalhadores. No entanto, esse processo adaptativo nem sempre é bem sucedido e pode resultar em adoecimento do trabalhador. A noção de que o trabalho pode acarretar sofrimento já se encontra na origem da própria palavra, tendo em vista que o termo “trabalho” deriva do latim, tripalium, cujo significado se refere a um instrumento de tortura. Assim, tem-se que o trabalho humano, além das questões positivas mencionadas acima, pode ocasionar dor, adoecimento, sofrimento e prejuízos ao trabalhador, configurando-se na população trabalhadora agravos à saúde, cujo nexo de causalidade com o trabalho é mais evidente (Mauro et al., 2004; Santos, 2012).
A OIT, define o estresse ocupacional como sendo um conjunto de fenômenos que se apresentam no organismo do trabalhador e que, por esse motivo, pode afetar a sua saúde (Costa et al., 2003). Também Limongi-França e Rodrigues (1999) definem o estresse relacionado ao trabalho como as situações em que a pessoa percebe seu ambiente de trabalho como ameaçador a suas necessidades de realização pessoal e profissional e/ou a sua saúde física ou mental, prejudicando a interação desta com o trabalho e com o ambiente de trabalho, e de acordo com Guimarães e Grubits (2004), o estresse ocupacional ocorre quando há a percepção, por parte do trabalhador, da sua incapacidade para realizar as tarefas solicitadas, o que provoca sofrimento, mal-estar e um sentimento de incapacidade para enfrentá-las.
O estresse vinculado ao trabalho, chamado de estresse ocupacional, refere-se à falta de capacidade do trabalhador de se (re)adaptar às demandas existentes no trabalho e àquelas que ele próprio percebe. O estresse ocupacional ou laboral pode, ainda, referir-se ao conjunto de perturbações de cunho psicológico e ao sofrimento psíquico associado às experiências de trabalho, cujas demandas ultrapassam as capacidades físicas ou psíquicas do sujeito para enfrentar as solicitações do meio ambiente profissional. Os principais fatores que desencadeiam o estresse no ambiente de trabalho envolvem os aspectos da organização, da administração, do sistema de trabalho e da qualidade das relações humanas.Deve-se ressaltar, no entanto, que o estresse ocupacional não está relacionado apenas às questões do meio externo no qual o trabalhador interage, mas também àquelas que são internas do trabalhador (Costa et al., 2003; Meneghini et al., 2011; Murofuse, Abranches & Napoleão, 2005; Schmidt, Dantas, Marziale & Laus, 2009).
O modelo de estresse de Lazarus defende que o estresse ocupacional não diz respeito a um atributo pessoal ou do ambiente, podendo ser originado a partir do encontro entre um trabalhador específico e um determinado ambiente de trabalho. Assim sendo, a história de vida do sujeito, a estrutura psicológica, a percepção dos estímulos situacionais podem estar envolvidas nessa situação (Santos, 2012).
O ambiente psicossocial no trabalho engloba a organização do trabalho e as relações sociais de trabalho. Fatores psicossociais no trabalho são aqueles que se referem à interação entre e no meio ambiente de trabalho, ao conteúdo do trabalho, às condições organizacionais, pessoais e habilidades do trabalhador, à cultura, às condições extra-trabalho, que podem, por meio de percepções e experiência, influenciar a saúde, o desempenho no trabalho e a satisfação no trabalho (OIT, 1984, cit. por Martinez & Paraguay, 2003).
Os fatores psicossociais do trabalho referem-se às interações entre meio ambiente e condições organizacionais, funções e conteúdo do trabalho, características individuais e familiares dos trabalhadores. Portanto, a natureza dos fatores psicossociais é complexa, abrangendo os associados aos trabalhadores, ao meio ambiente geral e ao trabalho. Tem-se verificado um significativo avanço no conhecimento científico sobre a influência das interações entre esses elementos e os efeitos na saúde através de sua percepção e experiência. As demandas psicológicas e suas associações com o controle no trabalho são variáveis de natureza psicossocial e têm sido intensamente investigadas (Fischer, 2012; Guimarães, 2006).
A urgência de maior produtividade associada à redução contínua do contingente de trabalhadores, à pressão do tempo e ao aumento da complexidade das tarefas, além de expectativas irrealizáveis e as relações de trabalho tensas e precárias, podem gerar tensão, fadiga e esgotamento profissional, constituindo-se em fatores psicossociais responsáveis por situações de estresse relacionado ao trabalho (Guimarães, 2006).
O estresse ocupacional tornou-se uma importante fonte de preocupação e é reconhecido como um dos riscos mais sérios ao bem-estar psicossocial do indivíduo (Schmidt et al., 2009). O estresse fundamenta-se na avaliação de como o organismo responde às demandas do ambiente externo, sendo o estresse produzido em situações em que as demandas excedem as capacidades individuais de responder a esses estímulos. Quando os mecanismos de respostas disponíveis não são efetivos, o estresse se prolonga, o que pode implicar efeitos negativos sobre a saúde do indivíduo, tais como hipertensão arterial, depressão e ansiedade. Em especial
estão os profissionais de enfermagem, com a sobrecarga do trabalho como um dos principais fatores de estresse ocupacional, amplamente evidenciada (Araújo, Aquino, Menezes, Santos & Aguiar, 2003).
A avaliação dos aspectos relacionados à dimensão psicossocial do trabalho tem sido objeto de estudos recentes em saúde e trabalho. Dentre as propostas correntes, o Modelo Demanda- Controle (Job Strain Model), elaborado por Karasek (1979) vem se tornando um modelo de referência. Esse modelo privilegia duas dimensões psicossociais no trabalho: o controle sobre o trabalho e a demanda psicológica advinda do trabalho. A partir da combinação dessas duas dimensões, o modelo distingue situações de trabalho específicas que, por sua vez, estruturam riscos diferenciados à saúde (Araújo, Graça & Araújo, 2003).
O Modelo Demanda-Controle (MDC), elaborado por Karasek, considerava a interação de dois componentes que poderiam favorecer o desgaste no trabalho (job strain): as demandas psicológicas (ritmo e intensidade do trabalho) e o controle (autonomia e habilidade requerida do trabalhador sobre o processo). Essa proposta compreende duas dimensões básicas: grau de controle e demanda psicológica do trabalho. Essas duas dimensões, como concebidas no modelo, envolvem aspectos específicos do processo de trabalho. O “controle” no trabalho, compreende dois componentes: i) aspectos referentes ao uso de habilidades – o grau pelo qual o trabalho envolve aprendizagem de coisas novas, repetitividade, criatividade, tarefas variadas e o desenvolvimento de habilidades especiais individuais; ii) autoridade decisória – abarca a habilidade individual para a tomada de decisões sobre o próprio trabalho, a influência do grupo de trabalho e a influência na política gerencial. A “demanda psicológica” se refere às exigências psicológicas que o trabalhador enfrenta na realização das suas tarefas, envolvendo pressão do tempo (proporção do tempo de trabalho realizado sob pressão), nível de concentração requerida, interrupção das tarefas e necessidade de se esperar pelas atividades realizadas por outros trabalhadores (Karasek, 1979, cit. por Araújo, Graça et al., 2003).
O modelo de Karasek (1979) distingue quatro tipos básicos de experiências no trabalho, gerados pela interação dos níveis “alto” e “baixo” de demanda psicológica e de controle: “alta exigência do trabalho” (alta demanda e baixo controle), “trabalho ativo” (alta demanda e alto controle), “trabalho passivo” (baixa demanda e baixo controle) e “baixa exigência” (baixa demanda e alto controle) (Araújo, Graça et al., 2003).
Figura 1. Representação gráfica do modelo Demanda-Controle
(Karasek & Theorell, 1990, cit. por Araújo, Graça et al., 2003)
A diagonal A assinala o risco de distúrbios de ordem psicológica e de doença física. A principal predição estabelecida aqui é que a maioria das reações adversas das exigências psicológicas, tais como fadiga, ansiedade, depressão e doença física ocorrem quando a demanda do trabalho é alta e o grau de controle do trabalhador sobre o trabalho é baixo (quadrante 1), como acontece no processo de trabalho em linhas de montagem. Na diagonal B, registra-se motivação para desenvolver novos padrões de comportamento. Entretanto, o modelo prediz que o trabalho na condição do quarto quadrante, definido como trabalho passivo, pode conduzir ao declínio na atividade global do indivíduo e à redução da capacidade de produzir soluções para as atividades e problemas enfrentados (Karasek & Theörell, 1990, cit. por Araújo, Graça et al., 2003). Atividades que envolvem altas demandas psicológicas e baixo controle favoreceriam o desgaste no trabalho e, por consequência, adoecimento físico e psicológico (Griep, Rotemberg, Landsbergis & Vasconcellos-Silva, 2011).
Uma terceira dimensão, o apoio social de colegas e chefes no trabalho, foi acrescentada ao modelo. Sua escassez pode ser negativa para a saúde, além disso, pode aumentar o efeito negativo da exposição aos trabalhos de alta exigência no ambiente de trabalho (Alves, Hökerberg & Faerstein, 2013).
O estresse relacionado ao trabalho coloca em risco a saúde dos membros da organização, podendo ser considerado como um dos causadores de doenças psicossomáticas e tem como consequência deficiente desempenho, baixa moral, alta rotatividade, absenteísmo e violência no local de trabalho (Rossi, 2005), pelo que é imperativo colocar em análise este problema no âmbito dos profissionais de enfermagem pela repercussão acrescentada que pode ter na qualidade e segurança dos cuidados.