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3. E STRESSE O CUPACIONAL

3.3. Estresse em profissionais de enfermagem

As intensas transformações no mundo do trabalho têm provocado inovações tecnológicas, fortalecimento da atividade econômica e mudança no processo de trabalho, que tem contribuído significativamente para que o homem procure cada vez mais ser polivalente e capaz de realizar uma multiplicidade de atividades (Lancman & Sznelman, 2004).

Em todas as profissões e de modo particular na enfermagem, o enfermeiro tem buscado uma autodefinição, tentando construir sua identidade profissional ao obter reconhecimento. Nesta trajetória, este profissional tem enfrentado dificuldades que comprometem o desempenho do seu trabalho e que também repercutem no seu desenvolvimento pessoal (Stacciarini & Tróccoli, 2001).

O estudo da manifestação do estresse ocupacional, entre enfemeiros, pode ajudar a compreender melhor a condição em que estes profissionais se encontram hoje e como eles têm buscado enfrentar as condições adversas que a profissão lhes impõe.

O estresse é um “conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase”, definindo homeostase como o equilíbrio dos meios internos do organismo (Ferreira, 1994, cit. por Cobêro, Rielli, Fernandes & Castilho, 2011).

O estresse, embora costume ser discutido dentro de um contexto negativo, ele também tem seu lado positivo. Deve ser visto como uma oportunidade quando oferece um potencial de ganho. Considere, por exemplo, o desempenho superior demonstrado por um atleta ou um ator quando exposto a uma situação “limite”. Essas pessoas geralmente utilizam o estresse para dar o máximo de si (Robbins, 2002).

A equipe de enfermagem, por sua própria natureza e características de seu trabalho, revela-se suscetível ao fenômeno do estresse ocupacional em decorrência da responsabilidade pela vida e a proximidade com os clientes para os quais o sofrimento é quase inevitável.Exige-se destes profissionais a dedicação no desempenho de suas funções, o que aumenta a possibilidade de ocorrência de desgastes emocionais em altos níveis de estresse, tornando-os vulneráveis à cronificação do estresse ocupacional que se denomina de Síndrome de Burnout (Müller, 2004).

O ambiente hospitalar, per se, apresenta aspectos muito específicos como a excessiva carga de trabalho, o contato direto com situações limite, o elevado nível de tensão e os altos riscos para si e para os outros. A necessidade de funcionamento diuturno, que implica a existência de regime de turnos e plantões, permite a ocorrência de duplos empregos e longas jornadas de trabalho, comuns entre os trabalhadores da saúde, especialmente quando os salários são insuficientes para a manutenção de uma vida digna. Tal prática potencializa a ação daqueles fatores que, por si só, danificam suas integridades física e psíquica (Pitta,1991).

O trabalho do enfermeiro no contexto hospitalar, por sua natureza e características, revela-se especialmente suscetível ao fenômeno do estresse ocupacional. Estudo com 1.800 enfermeiros mostra que 93% deles afirmaram se sentir estressados no trabalho (Cole, 1992).

A enfermagem foi classificada pela Health Education Authority, como a quarta profissão mais estressante, no setor público, são poucas as pesquisas que procuram investigar os problemas associados ao exercício da profissão do enfermeiro no Brasil. A história da enfermagem revela que desde sua implementação no Brasil ela é uma categoria marginalizada e assim, o enfermeiro vem tentando afirmar-se profissionalmente sem contar com apoio e compreensão de outros profissionais. (Stacciarini & Tróccoli, 2001, p.18)

O contexto de trabalho pode ser visto como ambiente externo capaz de repercutir na saúde dos indivíduos e do trabalho coletivo de trabalhadores de forma intensiva. O hospital, de maneira geral, é reconhecido como um ambiente insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham, considerado como local privilegiado para o adoecimento tanto de ordem física como sofrimento psíquico (Elias & Navarro, 2006).

A interação de diferentes condições propicia ambientes de trabalho mais ou menos favoráveis à saúde. A avaliação desses aspectos e de sua influência na saúde dos trabalhadores tem avançado consideravelmente, porém sua mensuração ainda configura-se como um desafio para a epidemiologia social (Calnan, Wadsworth, May, Smith & Wainwright, 2004; Siegrist, 1996).

De acordo com o aumento do adoecimento dos trabalhadores, em setembro de 1990 cria-se a Lei Federal 8.080, de 19 de setembro de 1990 :

Dispõe sobre as condições de saúde e funcionamento dos serviços, abordando a Saúde do Trabalhador e suas competências, destacando as atividades que se destinam, por meio de ações de vigilância epidemiológica e sanitária, à promoção da saúde dos trabalhadores, bem como às medidas de recuperação e reabilitação dos indivíduos que estão expostos as cargas e agravos provenientes das condições do labor.

A atividade laboral hospitalar é caracterizada por excessiva carga de trabalho, contato com situações limitantes, alto nível de tensão e de riscos para si e para outros. Inclui problemas de relacionamento interpessoal aos que prestam assistência direta aos clientes e preocupações com demandas institucionais(Paschoalini, Oliveira, Frigério, Dias & Santos, 2008).

Os profissionais que atuam no âmbito da saúde, se deparam cotidianamente com os mais diversos tipos de situações de pressões no contexto de trabalho e de conflitos sociais e/ou familiares a afetá-los, direta ou indiretamente. Por exercerem atividades em um contexto tão dinâmico e instável, tanto relativo aos serviços, tanto à clientela, ressalta-se a relevância em se refletir acerca das consequências que esse contexto de trabalho pode produzir na qualidade de vida dos próprios profissionais desse setor. Sendo, portanto, estes profissionais os mais vulneráveis às doenças psicossociais, uma vez que interagem de forma ativa com pessoas, que cuidam e/ou solucionam problemas de outra pessoa, que obedecem técnicas e métodos mais exigentes, fazendo parte das organizações de trabalho submetidas a avaliação (Vilete, 2009). Em um estudo evidenciou-se que os trabalhadores da área da saúde têm altos níveis de estresse e tensão no trabalho, assim como os enfermeiros da área de saúde mental, podendo até mesmo, comprometer o nível da assistência prestada aos pacientes(Callaghan, Tak-Ying & Wyatt, 2000). Nos estudos de Lima e Bianchi (2010), os enfermeiros apresentaram nível médio de estresse. Esse dado corrobora o resultado da pesquisa de Batista e Bianchi (2006) realizada com enfermeiros que atuavam na unidade de emergência.

Em relação a algumas variáveis, Lima e Bianchi (2010) referem que os enfermeiros na faixa etária entre 30 e 40 anos apresentaram maior escore de estresse (Escala de Estresse Percebido) que todas as outras faixas etárias, o escore de estresse é semelhante entre os que possuem ou não pós-graduação e foram os enfermeiros que trabalhavam em esquema de rodízio a obter maior média de escore de estresse.

Silva e Yamada (2008), em relação ao gênero, salientam que as mulheres apresentaram um escore total (Escala de Estresse no Trabalho) mais elevado que os homens, embora os escores das três dimensões (demanda psicológica, discernimento intelectual e autoridade sobre as decisões) tenham sido semelhantes em ambos os sexos. Segundo a categoria profissional, os enfermeiros obtiveram um escore mais elevado para a demanda psicológica e apoio social quando comparados com os técnicos e auxiliares de enfermagem, ou seja, lidam melhor com

as situações de estresse. Neste estudo, não houve diferença significativa nos escores de estresse total, comparando-se os trabalhadores que relataram ausência ou não ao trabalho. O estresse pode ser o causador de muitas doenças nos indivíduos acometidos por este mal. Se não houver um diagnóstico e o tratamento adequado para o alívio da tensão, a pessoa pode apresentar desde uma tristeza profunda até uma crise de depressão. Além dos problemas de ordem mental, outras doenças biológicas podem acometer o trabalhador, desde úlceras, hipertensão arterial, herpes até infartos e acidentes vasculares encefálicos, estando relacionados também com a herança genética de cada indivíduo. Não é o estresse que causa essas doenças, mas ele pode reduzir a defesa imunológica, abrindo caminho para que outras doenças apareçam (Men, 1996).

As relações entre trabalho, estresse e seus reflexos na saúde dos trabalhadores vêm sendo abordadas em estudos com percursos metodológicas diferenciados. O MDC é uma alternativa importante para proporcionar uma base integradora na diversidade metodológica, teórica e conceitual, principalmente referentes à intervenção nos ambientes laborais. Portanto, torna-se importante na produção do conhecimento envolvendo estresse, saúde e trabalho em contextos ocupacionais diferentes. Neste sentido, o referencial teórico-metodológico do MDC permite a avaliação das características do trabalho e seus efeitos no trabalhador, possibilitando o planejamento de ações voltadas à organização do trabalho com o intuito de promover a saúde do trabalhador (Greco, Magnago, Prochnow, Beck & Tavares, 2011).

O MDC define diferentes estressores do trabalho potencialmente danosos à saúde e oferecem explicações sobre o relacionamento entre condições estressantes do trabalho e bem-estar físico e psicológico (Griep et al., 2011; Karasek, 1979; Siegrist, 1996).

Posteriormente, o modelo passou a incluir uma terceira dimensão: a percepção de apoio social do trabalho elaborada por Johnson & Hall. Segundo eles, a integração social, a confiança no grupo, a ajuda na realização das tarefas por parte de colegas e superiores poderiam atuar como protetoras (moderadoras) dos efeitos do desgaste no trabalho sobre a saúde (Griep et al., 2011).

Bianchi (1999), baseado em diversos estudos sobre o estresse em enfermagem, classificou os eventos estressores em cinco categorias (Tabela 2).

Tabela 2.

Eventos estressores na profissão de enfermagem

Relações humanas e comunicação

Compreendendo as relações da equipe com os superiores, pacientes, familiares, colegas e outros profissionais; a falta de suporte e o descontentamento e apatia da equipe de enfermagem.

Inerentes à unidade de trabalho

Relacionados aos recursos físicos; ao ambiente; às mudanças tecnológicas e profissionais; à carga horária e pressão no trabalho; à monotonia em razão do trabalho repetitivo; à exposição constante a riscos; aos odores desagradáveis e aos recursos materiais e humanos insuficientes.

Assistência prestada Lidar com a morte e o morrer; doenças terminais; pacientes com dor; lidar com necessidades emocionais do paciente e família, como por exemplo, a agressividade, bem como a incerteza quanto ao tratamento do paciente.

Interferência na vida pessoal

Decorrente dos conflitos entre as responsabilidades do trabalho e de casa; o desenvolvimento da carreira; tomada de decisões quanto ao futuro e experiências anteriores.

Atuação do enfermeiro

Se refere à percepção da ambiguidade e o conflito de papéis; a falta de autonomia, treinamento e suporte administrativo, bem como a falta de oportunidade de crescimento na organização; o estilo de supervisão, salários insuficientes e o envolvimento.

Dentre os fatores apresentados acima, destaca-se as relações humanas, em especial a qualidade das relações humanas (da equipe com superiores, pacientes, familiares e colegas), uma vez que esta pode constituir circunstâncias indutoras de estresse para a maioria dos indivíduos (National Institute for Occupational Safety and Health, 2009, cit. por Ferreira, 2010). Outros estudos também referenciam que as deficientes relações interpessoais com os superiores (Cox & Cox, 1993; Kasl, 1992; Ung & Kua, 2001; Vaz Serra, 2002) e que o limitado e insuficiente relacionamento com os supervisores (Camelo & Angerami, 2008) são fatores risco psicossociais do ambiente de trabalho que potenciam para a ocorrência de estresse. Partindo desta constatação e da indicação teórica correspondente entre estresse e relação entre subordinado e chefe, é possível pensar em medidas que a gestão hospitalar pode implementar para minimizar as situações de risco a que estão submetidos os profissionais de enfermagem. Adotar medidas preventivas para a proteção da equipe de maneira a valorizar o trabalhador em seu ambiente de trabalho e em suas relações através de programas de humanização e da estimulação para o autocuidado, conscientizar os dirigentes das instituições quanto a estas importantes e urgentes medidas preventivas e minimizadoras do estresse. Podendo, assim, vislumbrar uma melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores da área da enfermagem, influindo positivamente no ambiente de saúde e na qualidade das relações interpessoais e no trabalho de cada profissional. Os resultados de tais cuidados serão revertidos para a melhoria esegurança da assistência aos usuários do sistema de saúde e qualidade de vida do trabalhador (Carmo, Gomes, Agostinho, Souza & Nascimento, 2006; Malagris & Fiorito, 2006; Mangolin, Nunes, Zola, Ferreira & Andrade, 2003; Pafaro & Martino, 2004).

PARTE II